Educar para a vida é o nosso desafio de pai

 

Por Olga de Mello

 

Entrevista publicada no Blog da Editora Record

 

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Diante de um cenário econômico, social e político conturbado, pais e mães precisam trazer a discussão sobre valores para o âmbito do lar, acredita o jornalista Mílton Jung, autor de “É proibido calar – Precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos”. A base para esse primeiro de seus livros a não tratar de jornalismo ou de comunicação veio de duas missões pessoais: ser pai e ser cidadão, diz Mílton, que tem dois filhos. A preocupação com o crescimento de intenções de anulação de votos pelo desalento dos eleitores, que buscam se distanciar da política, o motivou a propor que se desenvolvam ações para a construção de uma sociedade justa e generosa. A principal dessas ações se fundamenta no diálogo – e no exemplo – entre os membros da família, como explica Mílton Jung nesta entrevista.

 

Ética se ensina ou se pratica?

 

A ética não é o que eu digo — ou apenas o que eu digo — é o que eu faço — especialmente o que eu faço. E é fazendo, a melhor maneira de ensinarmos os outros. Nosso comportamento está sendo observado em casa, no trabalho, na escola e em todos os grupos sociais — inclusive digitais — dos quais participamos. E nos transformamos em referência. A ideia do faça o que eu digo, não faça o que eu faço, faliu. Por isso, os pais têm de estar muito atento às decisões que tomam diante das diferentes situações que encaramos no cotidiano. Posso pedir para meu filho respeitar os professores ou seus colegas, mas se no trânsito jogo o carro sobre os pedestres, faço qualquer manobra para levar vantagem, meu pedido perde valor — ele precisa ser validado pelas minhas atitudes. Não existe esta história de ter um comportamento ético com meu filho, meio-ético com os amigos e ser um crápula nos negócios. Falar é preciso, fazer é essencial.

 

Transgredir é uma característica da adolescência. Como estabelecer o limite entre a transgressão “natural” e a que pode configurar um delito?

 

Educar seus filhos sob valores e princípios éticos muito bem estabelecidos, desenvolver nas crianças o senso de dever e de responsabilidade a partir de ensinamentos, conversas e tomadas de atitudes diante das mais diversas situações que enfrentamos no cotidiano, certamente oferecerá a eles um repertório mais sofisticado de escolhas — o que os fará tomar a decisão certa e compreender seus limites. Os pais , porém, não têm controle — nem devem se iludir nesse sentido — sobre o que acontecerá com seus filhos. O que está sob nosso controle são as ações que adotamos com determinadas finalidades. No caso da ética, a finalidade de alcançar o bem. No caso de sermos pais, a de oferecermos aos nossos filhos a educação que lhes permitirá fazerem as melhores escolhas.

 

Excesso de trabalho, cansaço e um certo comodismo têm sido apontados como causas para alguns pais em estabelecer limites para os filhos. A educação é uma tarefa/compromisso que se torna cada vez mais árdua?

 

Educar para a vida é o nosso desafio de pai — que assumimos no instante em que aceitamos ser o responsável pela criação de um filho. É um compromisso ético que temos com ele, com a família e com a própria sociedade. O distanciamento dos pais na formação dos filhos pelos mais diversos motivos tem levado muitos de nós a não contrariar as crianças. Assim, ensinamos que os filhos tudo podem e nada devem. E podem muito mesmo, cada vez mais. Porém, da mesma maneira têm de ter consciência de que seus deveres crescem na mesma proporção. Por mais restrito que seja o tempo que conseguimos ficar ao lado deles, é fundamental que se crie um ambiente baseado na ética e na confiança, no qual se entenda que o ‘não’ faz parte desta convivência.

 

Campanhas governamentais ajudam a modificar comportamentos, inibindo práticas como o bullying, a homofobia e o racismo? Qual é o papel da família diante dessas questões – lembrando que boa parte dos brasileiros vê na aceitação de diferenças um ataque às tradições?

 

Uma família intolerante e preconceituosa tende a formar filhos intolerantes e preconceituosos. Porém, apesar de casos de racismo, homofobia e sexismo que surgem, tenho uma visão otimista em relação a mudança de comportamento da sociedade. Nossos filhos nasceram em um novo mundo e o debate intenso sobre essas práticas ajuda na transformação de nossas atitudes. Creio que muitas famílias já são impactadas de maneira positiva pelo comportamento de seus jovens que enxergam as diferenças de maneira saudável. Em relação ao bullying, cito no livro estudo que mostra que crianças que presenciam atos de violência na escola costumam ser o principal antídoto para essa prática ao intervir e convencer colegas a mudarem de comportamento — são mais efetivos que pais e professores. O mesmo estudo mostra que para essa intervenção ocorrer, as crianças devem ser estimuladas pelos pais.

 

Há momentos em que os pais devem ser autoritários, sem qualquer explicação?

 

Entre o autoritarismo e a permissividade, existe a autoridade. Com autoritarismo se impõe o medo e se inspira a rebelião. Com autoridade se dialoga, se ensina e se convence. Não fazer, não deixar ou não aceitar — é parte da educação para a vida. Porém, não se engane: seu filho vai querer saber “por que não”. Esteja preparado para argumentar e contra-argumentar.

 

Como é a família nos dias de hoje? Instituição falida, o pilar da sociedade, um refúgio, a fonte de todas as neuroses?

 

A família não está perdida, sem rumo e sem regra — como muitos costumam falar. Entendo que está apenas diferente. Muito diferente. As relações evoluíram, novos direitos foram conquistados e oportunidades surgiram, há uma exigência maior de se viver em condições de igualdade — ainda bem.

A renovação no parlamento depende da renovação dos métodos de escolha dos candidatos pelo eleitor

 

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Nove de cada 10 deputados federais disputarão a reeleição, neste ano. Aquele que não disputará a reeleição estará apoiando a candidatura da mulher, do filho, do pai ou da mãe. É a bancada da família, que ao contrário do que se imagina não vai defender teses em favor da família dos brasileiros — seja elas quais pudessem ser —- mas tentar manter a sua própria família no poder. Para ter ideia, na eleição de 2014, que se realizou um ano após as manifestações de rua e havia um desejo de renovar o Congresso Nacional, 75% dos deputados federais concorreram a reeleição contra os atuais 90% interessados em se manter no cargo.

 

O levantamento é do Diap — Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar, segundo informou a reportagem de Basília Rodrigues, no Jornal da CBN, desta segunda-feira.

 

Nas últimas eleições, a taxa de renovação na Câmara dos Deputados tem sido de pouco mais de 40% — levando em consideração apenas os reeleitos de uma legislatura para a outra. Faço essa ressalva porque muitos dos que conquistaram uma vaga na eleição de 2014 já haviam ocupado o cargo em legislaturas anteriores, ou seja, estavam voltando para a Câmara. Portanto, ao fim e ao cabo a renovação tem sido pequena na Casa.

 

A expectativa de mudanças mais significativa neste ano diminui em função do próprio processo eleitoral: tempo de campanha menor; menos dinheiro para financiar as candidaturas; mais dinheiro concentrado nos candidatos que fazem parte da elite política dos partidos; nenhuma tentativa de renovação interna desses partidos.

 

O ouvinte da CBN Peter Balbino de Almeida perguntou por e-mail porque os veículos de comunicação não promovem debates ou entrevistas com os candidatos ao Senado e à Câmara dos Deputados para que o eleitor esteja mais bem informado no momento de fazer sua escolha. Ele sugeriu que se usasse as pesquisas eleitorais para expor as propostas ao menos dos candidatos mais bem colocados.

 

A lei eleitoral é uma barreira, pois nos casos de rádio e TV — por serem concessões públicas —- somente seria possível se todos os candidatos — todos, sem exceção — fossem entrevistados, o que se torna impossível pelo número de candidaturas em cada partido. Neste ano, mesmo a eleição para o Senado é mais complicada porque os partidos podem indicar até dois candidatos — em alguns estados as emissoras de rádio, principalmente, terão tempo para entrevistar a todos. As pesquisas eleitorais também não servem de parâmetro porque a coleta de dados  para o legislativo é muito difusa e pouco precisa, o que faz com que a maioria dos institutos sequer tente medir a opinião do eleitor.

 

Os jornais e os veículos de internet costumam ouvir alguns candidatos indicados pelos próprios partidos e abrem cadernos especiais onde tentam publicar informações sobre todos eles, porém se resumem a nome, idade, função que exercem e, às vezes, o tema que pretendem priorizar se eleitos.

 

Algumas instituições não-governamentais, neste ano, pretendem investir em ações para selecionar nos diversos partidos candidaturas que estejam comprometidas com temas específicos — por exemplo, em aprovar regras que beneficiam a renovação na política. E usarão suas plataformas para que essas candidaturas sejam de conhecimento do eleitor.

 

A verdade é que a melhor escolha somente poderá ser feita pelo eleitor e através de pesquisa com critérios próprios e adaptados a sua realidade. Em relação aos deputados que buscam a reeleição é importante saber como ele votou nas diversas questões discutidas no legislativo, por exemplo. Quanto aos demais nomes, buscas na internet costumam oferecer alguma informação mais clara sobre quem é aquele candidato —- uma opção é procurar nas redes sociais como aquela pessoa se pronunciou diante dos diversos temas.

 

Uma forma de reduzir a lista de escolhidos é verificar se o candidato tem seu nome incluído em investigação, se responde a denúncia ou tem condenação.

 

O importante é que se você está indignado com o que acontece na política brasileira — e sabendo que as regras que estão aí apenas beneficiam quem já está no poder —  tem de agir agora e deve, obrigatoriamente, renovar sua maneira de escolher os candidatos.

 

Lembre-se: não escolher nenhum candidato — portanto, votar em branco, anular ou nem comparecer na urna — apenas servirá para permitir que os mesmos de sempre se mantenham no poder. Eles e seus parentes.

Inspirações, pressões e sugestões que me levaram a escrever “É proibido calar!”

 

 

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A ideia do livro surgiu da editora. O nome, de um convidado. A coragem, de uma colega. O incentivo, de minha mulher e meus filhos. A solidariedade de uma figura que vai lhe parecer tão estranha quanto excepcional. Já as histórias surgiram dentro de casa — da minha, das dos meus avós, dos meus pais e de gente conhecida.
 

 

“É proibido calar! Precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos”, meu quarto e mais novo livro, começou em uma conversa de livraria, no café da Cultura, no Conjunto Nacional, na avenida Paulista, em fevereiro, quando a editora Best Seller me procurou propondo que eu escrevesse sobre ética e política. Reticente, como costumo ser diante de desafios que considero grandes demais para mim, desconversei, puxei outros assuntos e imaginei que entre nós o café bem tomado já estaria de bom tamanho. Fui vítima de minha própria estratégia, pois ao ouvir minhas histórias de família e da relação com meus pais e meus filhos, a editora retomou o tema inicial, revelou sensibilidade e o adaptou para a minha realidade: vamos falar sobre ética e cidadania com nossos filhos! — disse-me entusiasmada.
 

 

Pedi algumas semanas para pensar —- tempo suficiente para arrumar uma desculpa e quem sabe deixar esse papo para lá. Ganhei apenas alguns dias de prazo. E não precisava muito mais mesmo: já estava convencido de que a proposta era tentadora e mexeria com os meus instintos mais profundos. Falar sobre a relação com meus pais e meus filhos em público era assustador tanto quanto emocionante — e nesse coquetel de emoções montei um projeto inicial, rabisquei um roteiro a ser seguido e comecei a escrever.
 

 

Escrever sempre foi motivo de sofrimento e prazer. Desde o primeiro livro, Jornalismo de Rádio, de 2004, passando pelo Conte Sua História de São Paulo, da mesma época, e do Comunicar para Liderar, de 2015, enfrentei as mesmas reações e embates: internos e externos.
 

 

Havia prazo para a entrega do livro, prazo para copidesque, prazo para observações, prazo para mudanças, prazo para o prefácio, para a orelha, para as colaborações, para a capa, para a diagramação, para a impressão e para o lançamento. Ao mesmo tempo que os prazos me pressionavam, me desafiavam e isso tende a me ajudar.
 

 

Na caminhada, além do apoio da editora, ganhei o incentivo em casa, apesar de eles por aqui não terem ideia das inconfidências que eu seria capaz de cometer.
 

 

Fui encorajado quando uma das mais respeitadas jornalistas que conheço, Miriam Leitão, aceitou, leu e escreveu o prefácio do livro — e que histórias incríveis compartilhou com os leitores:
 

 

“Por que estou contando tudo isso? Porque este livro que o leitor tem em mãos nos faz pensar profundamente sobre nós mesmos, nossas relações com os pais e com os filhos. No meu caso, também em relação com os netos”

 

 

E fiquei fortalecido ao ler o texto que o filósofo Mário Sérgio Cortella, de inteligência impar neste país. me enviou para publicar na orelha do livro:
 

 

“Mílton Jung recusa a falência da esperança e produz uma narrativa plena de beleza”.
 

 

Cortella não se conteve e sugeriu —- no que foi aceito imediatamente — o nome para o livro. “É proibido calar!” — nome preciso, matador e chamativo, como devem ser os títulos de livros:
 

 

“…(Mílton) decidiu agora nos falar sobre o que não podemos não falar com nossos filhos: ética e cidadania”.
 

 

Agradeço muito à Miriam e ao Cortella por terem aceitado participar deste projeto tanto quanto ao Walter Maierovitch, ao Oded Grajew e à Tabata Amaral que registraram o que pensam sobre ética e cidadania para os nossos filhos — em frases que estão publicadas na quarta capa do livro.
 

 

Minha gratidão à Abigail, ao Gregório, ao Lorenzo, aos meus pais e à minha família que me ajudaram a entender o verdadeiro papel dos pais nestes tempos modernos.
 

 

Meu muito obrigado à editora Best Seller por apostar na minha capacidade e me desafiar.
 

 

E — não posso deixar de registrar: valeu Bocelli, que me acompanhou durante toda esta aventura, fazendo questão de ficar junto de mim, às vezes sobre o próprio teclado do computador, enquanto eu me esforçava para cumprir minha tarefa. Você, como sempre, foi um baita companheiro!

Apresento a você meu novo livro: “É proibido calar!”

 

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“Sou apaixonado pelo que faço. E o que faço parte do público sabe por ouvir falar.
Sou jornalista e apresento um programa de rádio.
Falo muito, na crença de que os outros vão ouvir. E falo da vida dos outros, pois o jornalista conta histórias do cotidiano que interessam ou devem interessar às pessoas — de preferência para ajudá-las a construir seu próprio pensamento.

 

Falo de políticos e politiqueiros. De autoridades e autoritários. De pessoas sobre quem vale a pena falar. E de uma gente que não valeria uma nota de rodapé, mas acaba nas manchetes pelo cargo que ocupa e pelo mal que perpetua.
Falo para inspirar as boas ações e para incentivar transformações, mas também para denunciar aqueles que ocupam a vida pública em benefício privado, que desviam nosso dinheiro para o próprio bolso e que, com os tostões que nos levam, deixam o brasileiro sem hospital, sem escola, sem segurança e sem dignidade.

 

Mas não pense que eu só falo!

 

Tem outras coisas que faço, coisas que poucas pessoas conhecem, mesmo porque são da minha vida particular — e não deve ser interessantes para os outros. Essas coisas eu também faço por amor.

 

Este livro me provocou a falar sobre uma dessas coisas.
Sobre a coisa que eu mais amo fazer: ser pai.”

 

Assim inicio minha conversa com os leitores de “É proibido calar! Precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos” — publicado pela Best Seller do Grupo Editoral Record.

 

Antes desse já havia escrito “Jornalismo de Rádio”, “Conte Sua História de São Paulo” e “Comunicar para liderar”— em coautoria com a fonoaudióloga Leny Kyrillos. Todos até aqui ligados, direta ou indiretamente, a profissão que escolhi exercer: o jornalismo.

 

Esta é a primeira vez que me atrevo a escrever sobre missões que escolhi para a vida: ser pai e ser cidadão. É a partir dessas duas perspectivas que compartilho com o leitor momentos que vivenciei dentro de casa, com meus pais, meus avós e meu filhos. Cometi algumas inconfidências, porque só sei escrever a partir de histórias que vivenciei.

 

Também escrevo sobre experiências com gente que “faz política de verdade, mesmo que a prática seja demonizava por boa parcela dos brasileiros devida aos maus exemplos que vemos todos os dias. Gente que faz política na cidade, na escola, no trabalho e na comunidade”. Uma turma que acreditou, há dez anos, na ideia de participar da rede Adote um Vereador.

 

A partir dessas escritas tento mostrar a crença que tenho no papel de pais, mães e toda pessoa que “aceitou o convite que a vida lhe fez de ser o responsável por assegurar a sobrevivência e o desenvolvimento pleno de uma criança”. Somos — e me incluo por ser pai de dois filhos — fundamentais na educação das nossas crianças que tem de estar baseada em princípios e valores éticos. Que não se constróem apenas por palavras, mas, e principalmente, por atos e ações — até porque a ideia do “faça o que eu digo, não faça o que eu faço” faliu. Somos referências e como tais temos de nos comportar.

 

O livro é lançado agora não por coincidência — sua publicação tem muito a ver com o processo político que estamos assistindo no Brasil às vésperas de uma importante e complexa campanha eleitoral. Indignados, milhares de brasileiros têm negado a política e revelado sua descrença com os acontecimentos registrados no país.

 

Minha proposta é que em vez de deixarmos o espaço público à disposição daqueles que há algum tempo já demonstraram estarem a serviço apenas de seus interesses privados e desistirmos do país, comecemos a desenvolver ações de mudança buscando influenciar aqueles que estão a nosso alcance: nossos amigos, nossos colegas, nossos parentes e nossos filhos — principalmente nossos filhos. É a partir deles que podemos ajudar a reconstruir uma sociedade justa e generosa. Portanto, temos de assumir a responsabilidade pela criação deles com base na ética, educando as crianças para a vida pública, transformando-as em cidadãos, com direito à felicidade — deles, de suas famílias e de seu país.

 

Nos próximos dias, estarei aqui no blog conversando mais sobre este projeto e contando algumas curiosidades da sua construção. O livro será lançado oficialmente em agosto, mas já pode ser encomendado pela internet.

 

Espero que você goste e também compartilhe a sua experiência e o seu desejo de transformar o país, começando pela sua própria mudança de comportamento diante dos desafios e dilemas que o cotidiano nos apresenta.

É hora de voltar, mas a gente lê cada coisa que dá vontade de pedir férias de novo

 

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Estou de volta. Faz pouco tempo que saí, mesmo que meus colegas de trabalho passem a segunda-feira insistindo no contrário. Verdade que quando entrei em férias ainda tínhamos Copa do Mundo e (alguma) esperança no hexa. Tínhamos também o drama dos 12 meninos e seu técnico de futebol, que estavam presos dentro de uma caverna na Tailândia. E sequer se conhecia um juiz chamado Favreto, que ganhou seu domingo de fama tentando libertar Lula, conseguiu dar ao ex-presidente destaque suficiente para mantê-lo nadando de braçada nas redes sociais e levou na onda os já famosos Moro e Gebran.

 

Agora, se tantas coisas acontecem em tão pouco tempo, a culpa não é minha. São as circunstâncias de um tempo que está sempre acelerado e os acontecimentos se sucedem em uma velocidade acima do suportável. Eu fiz minha parte — fiquei no meu canto, relaxei em cenários que são um encanto, contemplei meus momentos em família e ganhei alguns quilos a mais. Mais magra mesmo só minha carteira — viagens sempre nos reservam custos extras, apesar de seguir economizando na moedinha da Fontana di Trevi, em Roma.

 

Da mesma forma que foi um tempo de descanso, também foi um tempo de expectativa, porque um novo projeto estava em maturação durante esses dias de afastamento do rádio — um projeto que havia consumido boa parte das minhas energias nos últimos quatro meses, mas que pronto e editado será apresentado oficialmente nos próximos dias para você, caro e raro leitor deste blog.

 

Refiro-me ao meu novo livro “É proibido calar! Precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos”, editado pela Best Seller, do Grupo Editoral Record, que já está em pré-venda e terá lançamento em algumas cidades brasileiras, em agosto. Nos próximos dias, conversarei mais com você sobre esse projeto que considero transformador para mim — e espero seja para os leitores, também.

 

Quando deixei o Brasil, o livro ainda não estava impresso. Por isso, fiquei de receber o primeiro exemplar na casa em que me hospedei na Itália — mas por essas coisas que os correios e serviços de remessa não explicam, até deixar o país a encomenda não chegou. Espero que caia em boas mãos e o seu leitor anônimo aproveite ao máximo.

 

Frustrado por não tê-lo em minha companhia nas férias ao menos fui surpreendido com outro exemplar à minha espera em casa, aqui em São Paulo. Foi um tremendo prazer tocá-lo, abri-lo, folheá-lo, ler e reler alguns trechos e curtir o resultado de mais este projeto. Ainda não está acabado — pois livros só se realizam quando nas mãos dos leitores e isso, espero, acontecerá em seguida.

 

Como disse, porém, do “É proibido calar!” escrevo mais nos próximos dias — assim como pretendo usar mais este espaço do blog para falar com você que me acompanha. E falar de tudo um pouco não necessariamente das coisas que são notícia, porque para essas já tenho o Jornal da CBN à disposição, para o qual retorno à apresentação nesta segunda-feira ao lado da Cássia Godoy. Ao Roberto Nonato meu muito obrigado pela participação sempre precisa nestes meus dias de férias. Assim como agradeço aos que me ajudaram a manter o blog ativo durante meu descanso — com as publicações do Mundo Corporativo, o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso e o Conte Sua História de São Paulo. Agradeço especialmente ao Carlos Magno Gibrail, que segue pautando a mídia, seja com suas análises do ambiente urbano seja escrevendo sobre o varejo.

 

Vamos em frente porque neste segundo semestre do ano muita coisa ainda está para acontecer, a começar pela campanha eleitoral que ganha corpo com as convenções dos últimos dias e as indefinições dos partidos e políticos. Uma eleição que, segundo Carlos Augusto Montenegro, do Ibope, disse ao colunista de O Globo Bernardo Mello Franco, será a mais difícil da história. Difícil e assustadora, pois, Montenegro calcula que “pode ser que 70 milhões de brasileiros não votem para presidente”, pois o eleitor está “enojado”, “frio” e “desmotivado”. Motivos não faltam.

 

Se eu pedir férias de novo será que o pessoal reclama?

Gol ouvido no rádio é bem mais rápido

 

 

Assisti ao primeiro tempo da partida do Brasil contra o México com o pessoal da redação até que percebi que os que estavam dentro do estúdio da CBN viam os lances em “primeira mão”. Os sinais de vídeo chegavam por sistemas diferentes — no digital ou no analógico — assim como por operadoras diferentes — na NET ou na Sky. Decidi mudar de lugar e comemorei o primeiro gol do Brasil antes de a turma que estava na redação pular. Se tivesse acompanhando pelo celular —- como faço quando não tem TV acessível — certamente estaria festejando bem depois deles.

 

A edição de hoje da Folha de São Paulo fez o teste usando diferentes meios para assistir ao jogo entre França e Dinamarca. O resultado:

 

“A TV aberta é a que traz a transmissão mais rápida. Entre quatro e cinco segundos depois, chegam as mesmas imagens na TV paga. E, pela internet, o tablet e o computador se alternavam, entre 15 e 20 segundos atrás da TV aberta”.

 

Imbatível, porém, é o rádio — que não foi medido pela Folha –, como você percebe na imagem que ilustra este post, registrada durante transmissão do jogo do Brasil. O torcedor em destaque, que ouve rádio, comemora o gol antes do restante que está apenas atento a imagem do telão.

 

Já havia escrito neste blog sobre a ilusão que os torcedores temos da capacidade de desviar a bola, seja quando somos atacados seja quando atacamos — queremos despachá-la para longe no primeiro caso e empurrá-la para dentro no segundo. A tecnologia disponível nos tirou esse poder, pois, se as coisas que vemos na televisão já aconteceram quando estão sendo vistas, torna-se impossível reverter o acontecido com o clamor a Deus, que incrédulos e crentes escancaram aos berros diante do risco.

 

Lá mesmo na redação da rádio proibiram a gente de gritar gol antes de a bola estufar a rede —- reação mais comum de todo e qualquer torcedor de futebol. Dizem que dá azar. Não dá não, porque o que estamos vendo já aconteceu.

 

Se quisermos manter esse poder de impedir um gol ou ajudar nosso atacante a convertê-lo, só tem um jeito: ouvir as partidas da Copa pelo rádio. É em tempo real — ou quase.

Sarampo mata e mata porque as pessoas não tomam vacina

 

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Abro o portal G1 para ler a cobertura da Copa do Mundo e antes mesmo de correr os olhos sobre a análise dos jogos que definiram as quartas-de-final com Brasil e Bélgica tenho a atenção desviada para a notícia de que o sarampo volta a assustar: os estados do Amazonas e Roraima estão com surto da doença — foram confirmados mais de 460 casos, informa o Ministério da Saúde.

 

Quando era menino, ainda lá em Porto Alegre, lembro da preocupação da minha mãe em relação a doença. Um colega de sala de aula ou um amigo da vizinhança que aparecesse com as pintas no rosto eram suficientes para aumentar a preocupação entre os pais. Se lembro bem, contraí a doença, mas fui prontamente medicado e me livrei de um baita problema —- ouvíamos falar de pessoas que tinham ficado cegas e outras que morreram porque não estavam protegidas ou não haviam tomado as providências necessárias.

 

Estou falando de fatos que apavoravam os pais nos anos de 1960 quando a vacina ainda não era disseminada como hoje. Ela existe desde 1963 — coincidentemente ano em que nasci. Avançamos muito no tratamento e temos informação e rede de saúde suficientes para atender todas as crianças com um ano de idade — período em que se deve tomar a primeira dose da vacina; a segunda deve ser aplicada com 2 anos e 1 mês de vida.

 

Em 2016, o Brasil recebeu certificado de eliminação do sarampo pela Organização Pan-Americana de Saúde. Coincidência ou não, um ano depois registrou-se o menor índice de cobertura em 16 anos. Apenas 70,69% das crianças receberam a vacina tetra viral, que previne o sarampo, a caxumba, a rubéola e a catapora. Aliás, em 2017, todas as vacinas do calendário infantil estão abaixo da meta de 95% — é o que leio em outra reportagem da editoria Bem Estar, do G1.

 

Sexta-feira passada no quadro Saúde em Foco, o doutor Luis Fernando Correia respondeu a perguntas de ouvintes sobre o sarampo, no Jornal da CBN. Ele alertou para o fato de essa ser uma doença viral, transmitida com extrema facilidade. O vírus é transmitido quando a pessoa entra em contato com secreções do paciente contaminado — pode ocorrer através de tosses, espirros ou gotículas de saliva que se espalham pelo ar:

 

“Se alguém entrar na sala expelindo essas gotículas, 90% das pessoas que estiverem na mesma sala vão pegar essa doença”.

 

Correia diz que voltamos a falar do sarampo porque as pessoas deixaram de se vacinar, seja porque passaram a considerar a doença menos preocupante, já que não se tinha mais notícias dos riscos, seja por “ideias malucas” de pessoas que fazem campanha contra a vacinação.

 

Uma dessas ideias, mais do que maluca, era criminosa: o médico britânico Andrew Wakefield forjou pesquisa científica, publicada na revista Lancet, em 1998, que relacionava a vacina do sarampo com o autismo. Descobriu-se que pouco tempo antes de publicar o estudo, ele havia patenteado uma outra vacina que concorria com aquela que era aplicada na época. Wakefield perdeu a licença de pesquisador e médico. História que está contada no livro Outra Sintonia, de John Donvan e Karen Zucker, já lançado no Brasil.

 

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“ … é uma doença que mata e mata porque as pessoas não se vacinam” — alerta Luis Fernando Correia.

 

De acordo com análises da Fundação Oswaldo Cruz — Fiocruz, o vírus que circula no estado de Roraima é importado da Venezuela. Antes que se imagine que a solução seja bloquear a entrada de refugiados venezuelanos na região, lembre-se que na Europa o número de casos de sarampo aumentou 400%, segundo a Organização Mundial de Saúde — com maior incidência na Romênia, Itália e Ucrânia. Ocorrências que aumentaram porque se baixou a guarda contra a doença.

 

Em vez de querer impedir a migração de pessoas — forçada ou voluntária — ajude a conscientizar as famílias para a necessidade de todas as crianças se vacinarem. Caso você vá viajar para áreas em que o vírus esteja circulando, recomenda-se que tome outra dose da vacina, mesmo que já tenha sido vacinado anteriormente.

 

Quanto a Brasil e Bélgica na Copa do Mundo… bem, sobre isso tenho certeza que você tem informação suficiente.

 

Ouça aqui o podcast Saúde em Foco, de Luis Fernando Correia, sobre sarampo.

 

 

O Panamá, na Copa do Mundo, é uma metáfora da sua vida

 

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Gol de Baloy, do Panamá, em foto do site oficial da FIFA

 

A Copa já está em sua segunda metade, seleções já se despediram e outras estão com as malas prontas para voltar para casa. Teve gente perdendo pênalti, levando frango e dando de bico ou de três dedos para marcar gols. Teve gente que perdeu as estribeiras e outros a oportunidade de calar a boca. Teve gente que brilhou e me emocionou — eu choro muito fácil e o esporte tem esse predomínio no meu coração.

 

À medida que os dias se passavam e os jogos aconteciam, arriscava escrever algumas linhas porque gosto de futebol e adoro assistir à Copa. Procrastinar, porém, foi o exercício que mais pratiquei nessas duas semanas. Posso elencar alguns motivos para isso: estou em fase de finalização de um novo projeto que me impôs muita pressão e emoção — sim, não é só o esporte que me emociona —- assim como tive de dedicar algumas horas do dia para recuperar-me fisicamente de uma lesão que não estava no meu roteiro.

 

Nenhuma desculpa, porém, se sobrepõe ao fato de que bastava colocar a cabeça no lugar, ensaiar alguns pensamentos e soltar a palavra revelando meu sentimento por essa competição singular que é o mundial de futebol. Não sei se você — caro e raro leitor deste blog —- concorda comigo, mas a Copa não se compara a nenhuma outra disputa — desculpe-me se entre os poucos e bons que me leem existem aqueles que preferem a NBA, se entusiasmam com a velocidade da Fórmula 1 ou têm predileção pelos Jogos Olímpicos. Gosto de todos eles, mas a Copa é do Mundo.

 

Onde mais presenciaríamos a alegria contagiante de torcedores do Panamá? Uma alegria que se expressou no primeiro gol marcado pela sua seleção em um Mundial, mesmo diante da estrondosa goleada que levava da Inglaterra, na manhã de domingo. Comemoraram como se fosse o gol da vitória. Verdade seja dita, era o gol da vitória. Era a vitória de uma nação que já havia assistido ao grande feito de conquistar o direito de estar entre as maiores do mundo. A vitória de quem se dá o direito de ser feliz.

 

O gol marcado pelo zagueiro Felipe Baloy, 37 anos — de passagem claudicante pelo meu Grêmio de Porto Alegre, no início desse século –, foi a melhor metáfora que poderíamos ter assistido sobre a vida que vivenciamos. Somos useiro e vezeiro em reclamar das coisas que acontecem em nosso entorno: é o vizinho barulhento, é o ônibus que atrasou, é o chefe que reclamou, é a equipe que não produziu, é o cliente que não comprou e é o parceiro que partiu. É um 7 a 1 todo o dia.

 

Dedicamos tanto tempo em praguejar aqui e lamentar ali que nos esquecemos de comemorar nossas conquistas. Sim, elas acontecem a todo instante, mas somos incapazes de enxergá-las seja porque supervalorizamos os males seja porque almejamos o sucesso alheio. Queremos uma casa do tamanho da do primo rico da família; um carro mais novo do que o do amigo no clube; um crachá mais poderoso do que o colega da firma; um salário maior do que o “daquele incompetente que não faz nada na vida”.

 

Queremos o que é dos outros e desdenhamos nossas conquistas pessoais. Deixamos de saborear o prazer de acordar ao lado da mulher amada, de beijar os filhos que ainda dormem quando estamos saindo de casa, de cumprimentar o motorista do ônibus com um sorriso no rosto e de perguntar ao porteiro da empresa como andam as coisas. No trabalho, menosprezamos o poder do “bom dia”, do “por favor” e do “obrigado”. Não conjugamos os verbos agradecer e elogiar. Desperdiçamos a chance de comemorar o gol nosso de cada dia, porque estamos mais preocupados com o placar do adversário.

 

Se essa Copa nos deu alguma lição até aqui foi que, na vida, nem sempre podemos ser a Inglaterra; na maior parte das vezes nos é reservado o papel de Panamá — coadjuvante no cenário, mas protagonista de sua própria história.

Deixem-me em paz, pombas!

 

O artigo a seguir foi escrito em 2012, ano em que tive o privilégio de ocupar a coluna da última página da revista Época São Paulo — hoje extinta. Lembrei dele quando li, semana passada, que a cidade aprovou lei que proíbe as pessoas de alimentarem e confinarem pombos e obriga os moradores a usarem redes de proteção e outros obstáculos em suas casas para impedirem que as aves se alojem no local. A boa notícia é que os pombos sumiram lá de casa depois deste artigo — será que eles leram?

 

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Escrevo este texto com um olho na tela e outro no telhado, de onde partem ameaças à minha integridade física e moral. Os ataques não são recentes, ocorrem desde que cheguei a São Paulo, em 1991, e fui trabalhar na antiga sede da TV Globo, na Praça Marechal Deodoro, de frente para o Minhocão. No alto daqueles prédios antigos viviam centenas de pombos, que pareciam ter me escolhido como alvo preferencial para suas necessidades. Não foram poucas as vezes em que tiveram sucesso, manchando meu terno e me impedindo de trabalhar. Cheguei a fazer uma “pindura” na lavanderia mais próxima – que, desconfio, era financiada pelo estrago que os pombos causavam aos indefesos pedestres.

 

Ao trocar de emprego, imaginei que estaria livre das famigeradas aves, mas logo percebi que minha vida não seria fácil na cidade. Os pombos me seguiram até em casa e lá se estabeleceram. Vizinhos afirmam que eles chegaram antes de mim, atraídos por um morador antigo, que, acredite, alimentava os bichinhos e cuidava deles como se fossem de estimação. Atitudes desse tipo só contribuem para infestar São Paulo e emporcalhar fachadas e calçadas.

 

Os estudiosos culpam os navegantes europeus, que trouxeram a espécie ao Brasil no século XVI, para servi-la no almoço. O prato não deve ter agradado os nativos, o que ajudou as aves a se multiplicar com extrema rapidez. O imaginário popular também não colaborou em nada a conter sua proliferação: tem gente que insiste em enxergar o símbolo da paz onde deveria ver um rato com asas. O que sei é que os pombos me deixaram paranóico – e nada me tira da cabeça que sua presença está ligada a uma conspiração dos columbiformes para me atazanar.

 

Assim que aterrissaram em casa, os pombos ocuparam o parapeito das janelas e começaram a confabular num idioma que eu desconheço. Às vezes se atreviam a olhar para dentro do quarto, com aquele jeito de gente intrometida, como se estivessem em busca de um lugar mais confortável para morar. Descobri uma cola que causaria desconforto ao bando e o expulsaria sem provocar males aos pombos. Esse ponto é importante, e faço questão de divulgá-lo, porque a espécie é protegida pelo Ibama. Sim, meu senhor: embora eu não POSSA prejudicar a saúde deles, os pombos são livres para me transmitir piolhos e até 70 tipos de doenças, como a complexa criptococose, que atinge o sistema nervoso. Isso mesmo, minha senhora: esses animais com cara de santo (ao menos do Espírito Santo) são um risco à saúde pública. E praticamente imbatíveis, conforme minha experiência.

 

A tal cola só foi capaz de transferir os pombos por poucos metros, da janela para o telhado. Lá no alto, construíram casa, constituíram família, invadiram o forro e passaram a fazer um barulho insuportável farfalhando suas asas para lá e para cá. Não respeitam sequer a hora da novela. O pátio, de tão sujo, precisa ser limpado diariamente. Apelei para outros expedientes. Recomendaram-me um apito que os espantaria, uma pílula anticoncepcional capaz de impedir sua reprodução, um revólver de pressão para abater os mais inconvenientes, e até a estátua de uma coruja, considerada seu predador natural. Fiasco atrás de fiasco. Logo a estátua da coruja se transformou num heliponto de pombos. Na última investida, cerquei a casa com uma rede de proteção. Desconfio que, mais uma vez, não vá dar em nada. É o que parece me dizer o olhar tranquilo e vitorioso do pombo que, pousado no telhado, me observa neste instante, enquanto termino de escrever.

Crise de abastecimento e de confiança

 

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Caminhões bloqueiam rodovia Raposo Tavares/SP em foto de Renata Carvalho/Helicóptero CBN

 

O posto de combustível está fechado. O supermercado está vazio. A feira livre tem apenas algumas barracas. A faculdade suspendeu a aula. O aluno não tem van para chegar na escola. O trabalhador tem pouco ônibus para chegar ao trabalho. O paciente teve o atendimento suspenso. Os clientes não apareceram. Enquanto isso, na estrada, parte dos motoristas de caminhão segue parada a despeito das concessões feitas pelo Governo Federal.

 

Sem força para negociar, Temer entregou o que pode — porque o cargo ele não solta de jeito nenhum. Anunciou redução de imposto, vai controlar o preço do diesel, tabelar o valor do frete, reduzir o pedágio e tirar dinheiro de onde já não havia. Vai aumentar o nosso imposto, também. Mandou as Forças Armadas para liberar estradas e escoltar caminhão de combustível. Investigou empresários que incentivaram a greve e está de olho em líderes de caminhoneiros que se recusam a recuar apesar das demandas atendidas.

 

Na boleia do caminhão tem de tudo um pouco. Motorista que não consegue mais pagar as contas porque o frete está barato e o diesel cada vez mais caro.
Tem empresa que não quer pagar a conta e força a mão para reduzir os custos.
Tem gente que não aguenta mais este governo.
Tem quem não aguente mais nenhum governo.
Tem quem que queira chegar ao governo.

 

Chegamos ao nono dia de paralisação. Alguns já deixaram o caminhão na empresa e voltaram para casa. Outros, entregam o que restou na carroceria. Há os que estão sem rumo, na expectativa que as negociações cheguem a bomba de combustível e ao seu bolso. Apesar de o número de manifestantes ter diminuído, os focos de protestos permanecem — são radicais, baderneiros ou resistentes, depende do seu ponto de vista.

 

No cenário que levou a essa situação, está uma economia que ficou aos frangalhos, tomada pela corrupção e má-gestão. E se o país não cresce, não tem carga para entregar. Sem carga, o frete é pouco e barato. O Governo reluta em cortar gastos, mantém uma máquina muito cara e não encara os problemas estruturais. Para sustentar tudo isso, cobra alto através de impostos na produção, na distribuição, na venda, na compra e na contratação.

 

Tem também o olhar errado — erro histórico — que nos levou a concentrar o transporte de cargas nas rodovias — responsável por mais de 60% do que se leva e traz no Brasil — quando todo país que se preze divide o peso também com ferrovias e hidrovias.

 

O que está descentralizado é o tipo de liderança por trás dos movimentos sociais — e essa característica se transforma em encrenca para quem quer negociar e desafio para a própria sociedade. Por isso, mais uma vez somos surpreendidos com manifestações que surgem nas redes e se espalham pelas ruas — desta vez, pelas rodovias.

 

Assim como em 2013, quando não havia líderes para negociar em nome das massas, em 2018 os líderes negociam sem o apoio das massas. Comandam sindicatos, associações, federações e confederações, mas não lideram as pessoas.

 

A crise no abastecimento é também a crise de confiança — e de liderança.

 

Enquanto chefes discutem no gabinete e assinam acordos, o WhatsApp corre solto de um celular para o outro e se transforma em uma enorme rede de intrigas, sem controle e sem limite. Todos os desejos cabem nas mensagens enviadas, ilusões circulam livremente e salvadores da pátria são elencados.

 

Confia-se muito mais no que circula na rede do que se publica no Diário Oficial.

 

O abastecimento se resolve com caminhão circulando — e não se sabe ainda quando isso voltará a ocorrer com regularidade —; a confiança, por sua vez, vai demorar para chegar — e temo que partidos e políticos estejam prontos para desperdiçar a oportunidade que as eleições desses ano nos abriria para essa mudança de comportamento.

 

Lá vamos nós para o nono dia de greve dos caminhoneiros.