Na mesa com o Capitão do Tri

Direto da Cidade do Cabo

Carlos Alberto Torres

Véspera da abertura da Copa do Mundo, o jantar foi em um dos melhores hotéis de Vitoria & Alfred Waterfront, área turística, rica e movimentada. Na mesa, um convidado especial, Carlos Alberto Torres, Capitão do Tri, bom papo e bem humorado apesar da dor provocada pelo nervo ciático que não resistiu a mais de 12 horas de avião entre Rio, São Paulo, Johannesburgo e Cidade do Cabo.

Para acompanhar a conversa, um Saxenburg Pinotage 2004, vinho produzido em vinhedo não muito distante daqui, de sabor amadeirado capaz de agradar a este escriba.

A safra é boa ?

Não é das melhores, respondeu Carlos Alberto. Nós não falávamos de vinho, mas de futebol. “Nenhuma seleção se sobressai”, disse logo de cara.

Fez algumas ressalvas, ao citar a Espanha que tem a melhor formação desde 1962 quando perdeu para o Brasil por 2 a 1, na Copa do Chile. Lembrou da Argentina e os jogadores de ataque, principalmente, citados ao mesmo tempo que Carlos Alberto tocava o peito com a mão fechada, sinal de que acredita que a raça desta turma pode fazer diferença.

“Messi, se entrar no ritmo da Copa, pode dar seu grande salto”, acrescentou quando perguntei quem seria o melhor jogador deste Mundial.

E o Brasil, “Capita” ? Perguntou o anfitrião que escutava a conversa e demonstrava intimidade.

Quando Carlos Alberto Torres fala da seleção brasileira demonstra a mesma personalidade forte que o consagrou em campo. Não esconde seu descontentamento com o time que estreia dia 15 contra a Coreia do Norte, em Johannesburgo. Em entrevistas já havia revelado discordância em relação a convocação feita pelo técnico Dunga e a falta de criatividade.

Preferia ter em campo Ronaldinho Gaúcho, Ganso, Neymar e Adriano.

“Imagina o Adriano entrando em campo, aquele baita cara, impõe medo no adversário”, explicou assim por que era a favor de que tivesse havido mais cuidado de Dunga com o atacante da Roma.

Para ele, o técnico brasileiro deveria ao menos ter trazido Paulo Henrique Ganso, menino do Santos, time pelo qual Carlos Alberto Torres também fez sucesso, entre 1966 e 1974, com Pelé ao lado. Dunga não teria nada a perder e ofereceria ao torcedor mais esperanças: “tá todo mundo com uma cara assim, será que vai dar ? Não sei, não !?”

Essa coisa de comprometimento com o grupo, pode até ser importante, mas o Capitão do Tri volta a ser taxativo: “Seleção é seleção, seleção é diferente”.

Conta que em um dos muitos eventos internacionais que tem participado – está na África à convite da Visa -, depois de reclamar da ausência de jogadores que poderiam desequilibrar um jogo, ouviu de um interlocutor que Felipão também havia deixado Romário fora do time e ganhou a Copa mesmo assim.

“Mas ele tinha o Ronaldinho Gaúcho”, rebateu com a mesma objetividade e precisão que o levou a marcar o gol que fecharia a goleada sobre a Itália, por 4 a 1, na final da Copa de 70.

Na cerimônia do “pontapé inicial” da Copa da África, transmitida na TV que estava pendurada na parede atrás da nossa mesa, o lance escolhido para representar a conquista do Brasil no México 70, não por coincidência, foi o gol de Carlos Alberto. Ele sorriu quando todos olhamos para a tela e para ele: “Já não aguento mais, vi esse lance umas 50 mil vezes na vida”, desdenhou.

Aquela, sim, foi a melhor safra de todos os tempos.

Pedalando na Cidade do Cabo, amiga da bicicleta

 

Direto da Cidade do Cabo

Passeio de bicicleta na Cidade do Cabo

Além da mão inglesa – que ainda atrapalha a maioria dos turistas -, os britânicos que estiveram por aqui no século 19 parecem ter deixado outro legado para o trânsito da Cidade do Cabo: o respeito ao pedestre e ao ciclista. Parar antes da faixa de segurança e dar preferência aos que caminham e pedalam, é comum por aqui.

Foi neste ambiente que decidimos – eu e mais três colegas do Portal Terra – fazer um tour pela cidade de bicicleta. Tivemos de buscá-la no centro porque se a encomenda fosse no hotel custaria bem mais caro e a caução também seria maior. Com R 160, moeda local, algo próximo de R$ 50, você aluga uma bicicleta por 24 horas, e deixa o número do cartão de crédito à disposição para casos de desaparecimento.

O trajeto havia sido planejado com um mapa em mãos, mas logo o nosso caminho sofreu mudanças. Avenidas que nos levaram a passar por prédios modernos e calçadas largas foram escolhidas por curiosidade. A cidade que tem um pouco da cara do Rio de Janeiro, já que está na orla e tem o morro logo atrás, também abriga construções como as da avenida Berrini, em São Paulo (não me refiro a bom gosto, mas a dimensões). Isto se justifica por ser a capital legislativa da África do Sul, onde o Parlamento Nacional e vários escritórios do governo estão postados, além de ser um pólo comercial e industrial importante no país.

Mesmo o passeio tendo se iniciado logo após o meio-dia, o trânsito não chegou a ser uma barreira. Em algumas vias centrais era preciso prestar bem atenção para não sermos traídos pela mão invertida. Com exceção de um motorista que não pensou duas vezes ao fazer a conversão à esquerda para entrar na garagem, o que obrigou uma freada brusca, os demais parecem ser cuidadosos com os ciclistas – ao menos com estes que tem cara de turista.

Cidade do Cabo ciclovia

Atravessar as ruas é tarefa facilitada pois todas as calçadas são acessíveis com guias rebaixadas. Nos locais em que não existem semáforos, a faixa de segurança é facilmente identificável seja pela pintura zebrada seja pelo piso diferenciado. Não há também aglomeração de pessoas circulando, o que permite pedaladas e paradas estratégicas para fotografia ou apenas para apreciar uma construção qualquer. Isto talvez seja resultado da baixa densidade demográfica de Cidade do Cabo. Cerca de 3 milhões e meio de habitantes vivem em uma área de 2.455km2 – bem mais extensa do que a maioria das cidades sul-africanas. Cálculo rápido:1.425 habitantes/km2.

Desnecessárias, talvez, e pouca utilizadas, com certeza, encontramos faixas exclusivas de bicicleta com sinalização horizontal e nos postes em parte do nosso caminho que a esta altura do campeonato já se aproximava de Waterfront, onde se encontra um complexo de lojas, bares e hotéis. Elas, por sinal, estão em rotas turísticas o que me leva a entender que tem como objetivo os que pedalam por lazer.

Questiono a necessidade das ciclofaixas demarcando a área pelo fato desta ser, claramente, uma cidade amigável dos ciclistas. Parece que mesmo sem estes sinais, o respeito seria mantido, como vimos nos trajetos em que a ciclofaixa não existe.

Quanto a utilização das mesmas, nosso passeio que durou cerca de 3 horas deu a impressão de que a bicicleta está na cidade apenas para quem se diverte, não para quem trabalha. Cruzamos por pouquíssimos ciclistas em todo o caminho que fizemos.

Caminho, aliás, que foi ganhando contornos ainda mais bonitos quando nos aproximamos do porto, área muito bem aproveitada que mistura o movimento de carga e descarga de navios com a exploração turística do local. Ali tivemos que pedalar com muito cuidado, devido ao grande número de pessoas, a maioria torcedores devidamente identificados, seja pelas camisas, seja pelos gritos.

Green Point stadium Cidade do cabo

Saindo da aglomeração, procuramos a Beach Road, que não se perde pelo nome, e encontramos quebra-mares curiosos, feitos de cimento em formato de âncoras gigantes. Trajeto que só foi possível porque estávamos de bicicleta. De carro teríamos ido embora sem prestar atenção no local. Este é um dos grandes baratos do passeio de bicicleta. Conseguimos enxergar melhor a cidade.

Foi de lá que tivemos das melhores visões do Green Point, estádio que será inaugurado na sexta-feira com a partida entre França e Uruguai. Chegar até ele passou a ser nosso novo objetivo, apesar de o mar batendo do lado direito também nos chamar atenção. O caminho é todo margeado por prédios novos com muitos apartamentos abrigando torcedores – tais eram as bandeiras esticadas nas sacadas.

Foi a possibilidade de nos aproximarmos do estádio que nos deu fôlego para continuar com a pedalada. No entorno do Green Point, as ciclofaixas estão delimitadas sobre as calçadas, com espaço para ida e volta, além da faixa dos pedestres. As placas alertam que lá é proibido parar automóveis em dias de evento. Em compensação, o número de vagas para os carros é enorme na área de estacionamento, o que faz com que o jornalista sem credencial ou o torcedor sem ingresso tenha de permanecer distante.

Depois de apreciar esta construção polêmica – por seu custo e local (outro dia conto esta história) – e muito bonita, nos restava voltar para “casa”. Afinal já estávamos a quase 3 horas pedalando.

A facilidade com que o deslocamento foi feito, a beleza das áreas pelas quais passamos e as novidades do caminho evitaram o cansaço deste que é ciclista nas horas vagas e pouco acostumado a fazer esta aventura em São Paulo, cidade que, infelizmente, não é amiga da bicicleta.

A “mesa” está quase posta na Cidade do Cabo

 

IMG_1428No pequeno hotel do primeiro dia, no hotel boutique que será estadia até o fim dos dias por aqui e de qualquer outro ponto que você esteja em Cidade do Cabo, impossível não ver a Table Mountain – nome mais do que apropriado para esta formação rochosa que se parece mesmo com uma enorme mesa de onde é servida toda a beleza e elegância da cidade legislativa da África do Sul. Um mesão, diga-se de passagem, a mais de mil metros de altura e para onde se voltam boa parte das máquinas de fotografia penduradas no pescoço dos turistas que começam a chegar em maior número por aqui.

Neste segundo dia, enquanto conversava com Fabíola Cidral no CBN São Paulo, a combinação foi perfeita, pois alguns minutos após a rápida chuva que aparece algumas vezes ao dia, com as nuvens encostadas no topo formando uma espécie de “toalha” da mesa, surgiu um belo arco-íris. Satisfação e corre-corre de estrangeiros para registrar a imagem.

Ainda não fui ao alto da Table Mountain, onde se pode chegar pelo Cable Car, semelhante ao bondinho do Pão de Açúcar no Rio. Há os atrevidos que recomendam fazer a escalada a pé, e monitorada. Coisa de três horas. Outros convidam para descer de rapel. Coisa de louco. Vou no mais confortável, sem dúvida.

Além do visual maravilhoso, a vantagem de estar lá em cima, imagino, é não ter de ouvir a vuvuzela, som que faz parte do cenário de todas as cidades-sede, que se torna mais forte a cada turista que desembarca na região. Comprar uma dessas cornetas se transformou nesta Copa quase tão obrigatório quanto sair do México com sombreros ou de Salvador com um berimbau em mãos. Convenhamos, não há o que fazer depois e o objeto se transformará em incômodo na bagagem de volta.

Quem vive em São Paulo e tem de suportar os motoboys buzinando enquanto cruzam no meio dos carros tem ideia do ‘tamanho’ do barulho.

Aqui embaixo, ainda, além do barulho das cornetas, o cheiro de tinta está em vários pontos, sinal de locais renovados ou recém-construídos. Uma obra aqui outra acolá estão atrasadas, mas nada que esteja no caminho da Copa.

Durante o dia, porém, ouvi lá de Johannesburgo um burburinho diferente, com jornalistas atrapalhados pela falta de energia elétrica em alguns locais e a dificuldade para receber pontos de acessos para transmissão de áudio em outros. A expectativa é que nos próximos dois dias mais confusão apareça, pois os aviões não param de despejar torcedores e jornalistas.

Seja como for está quase tudo pronto.

O primeiro dia na terra da Copa

 

Aeroporto Johannesburgo

Nem o frio que se anunciava, nem a confusão que se imaginava. As primeiras impressões da África da Copa estão distantes daquelas para as quais nos preparamos. A temperatura em Cidade do Cabo, onde cheguei na noite de segunda-feira, era baixa, sim, e a chuva incomodava, também. Muito parecido com o clima paulistano de inverno quando os termômetros beiram os 13 graus e a garoa castiga. Nada mais além disso. Chegou a se dizer que enfrentaríamos algo próximo de zero grau nesta cidade mais ao sul da África do Sul. Talvez mais à frente, mas neste início de semana este será o cenário a recepcionar os turistas.

A chegada no principal aeroporto sul-africano, o Aeroporto Internacional Oliver Tambo, em Johannesburgo também chamou atenção, pois o ‘congestionamento’ que muitos temem não ocorreu. Nem no pouso nem no desembarque. Para quem encara as intermináveis filas da alfândega brasileira, descer na África do Sul foi rápido e tranquilo de mais, principalmente se levarmos em consideração o fato de que estamos há poucos dias de uma Copa.

Será que muita gente desistiu? Deve ser cedo, ainda.

A entrada no País somente surpreendeu a agente policial que me olhou com desconfiança quando disse que estava chegando do Brasil: “Neste horário?” perguntou ao mesmo tempo que esticava a mão na direção do meu cartão de embarque. Só depois se convenceu de que o voo que vim – com partida a 1h30 da madrugada – é novidade na South Africa Airlines. Avião extra para atender a demanda da Copa.

Malas devolvidas em ordem – apesar de um pouco batidas – e com agilidade. Despacho para o voo seguinte sem burocracia. Aviões no horário. E uma turma simpática atendendo nos bares no saguão de embarque, onde aguardei a viagem para Cidade do Cabo. Depois de oito horas e meia de um continente ao outro, ainda havia mais duas horas e meia pela frente até o ponto final.

A assustar apenas o comportamento de cinco ou seis brasileiros que desfilavam embandeirados de verde e amarelo com uma réplica da Copa do Mundo nas mãos e dizendo bobagens a quem passava.

O aeroporto de Cidade do Cabo não é tão grande como o de Johannesburgo, mas muito bonito. Os corredores vazios e o estacionamento com poucos carros às sete e meia da noite – hora local – pouco se parece com o que temos, por exemplo, em Congonhas ou Santos Dumont. Antes de aterrissar vê-se uma cidade com solo menos ocupado do que Johannesburgo.

No caminho para o hotel o trânsito não era intenso apesar de estarmos na hora do rush. O motorista encomendado antes de sair do Brasil segue com velocidade pelas pistas exclusivas para ônibus. Difícil mesmo é se acostumar com a mão inglesa. Aqui parece que todos andam na contramão. Teve colega que se atrapalhou inclusive para entrar no carro. Insistia em sentar no lado reservado ao motorista. Mas eu não conto quem foi.

No saguão do hotel simples que nos hospedará na primeira noite, apesar da ausência do vouncher em mãos, as atendentes fizeram todo o esforço para que nossa chegada se desse da maneira mais confortável possível.

Para quem chegou com um pé atrás e desconfiado da organização do evento, por enquanto as surpresas são positivas.

Problemas mesmo estavam estampados na primeira páginas dos jornais locais, impressionados com o incidente durante o amistoso da Nigéria em que 15 torcedores ficaram feridos e no telejornal sul-africano que mostrava um trânsito complicado em uma das cidades-sede da Copa, a qual não guardei o nome. A televisão estava distante e o som baixo. Foi nela, aliás, que vi os lances da vitória brasileira sobre a Tanzânia, goleada que também não surpreendeu a ninguém – a não ser pelo dois gols marcados por Ramires.

Pelo direito de ser cidadão de Paraisópolis

 

Éramos 11 na sala simples que fica no primeiro andar da sede da União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis, uma das maiores favelas da capital paulista. Eu, Joildo dos Santos, o coordenador, e uma garotada interessante e interessada que participa do Curso de Comunicação Comunitária. Conversamos pouco mais de uma hora sobre jornalismo e cidadania.

Pra chegar até lá, você passa por ruas estreitas, cheias de carros e gente. Tem calçamento em parte das vias de acesso mas o espaço para cruzar é pequeno. Apesar de ser mão dupla, mal passa um automóvel. Se estiver descendo uma lotação, melhor dar ré ou encostar ao máximo no meio fio.

A calçada é menor ainda. Tem lugar apenas para o poste, escadas irregulares que saem da porta da loja ou da casa, cadeiras de bares. Lugar de pedestre é na rua. Ao menos é a impressão que passa. Convenhamos, não é muito diferente do bairro que você mora. Ou vai me convencer de que por aí as calçadas são dos pedestres ?

O prédio da associação dos moradores é grande comparado com as casas que tem ao redor. Lá dentro as intenções são maiores ainda. Entre portas, salas e corredores, tem computadores e conhecimento a ser compartilhado. Tem um pessoal ajudando, e tem um pessoal aprendendo. Na sala que ocupávamos, havia os dois.

Falei de como uso o rádio, as mídias digitais e as redes sociais para fazer jornalismo. E incentivei que eles façam o mesmo. Devem explorar as ferramentas à disposição para dar dimensão ao discurso que defendem, elevar a ideia que protagonizam e conquistar espaço na mídia.

Falaram em preconceito, visão pasteurizada e imagem distorcida que transmitimos. Disseram não se reconhecer nos programas de TV de fim de tarde que alardeiam notícias das comunidades carentes de São Paulo. Aliás, não conseguem se enxergar como são também no rádio e nos jornais.

Terão oportunidade de mostrar o que entendem ser o jornalismo comunitário assim que for ao ar a Nova Paraisópolis FM 87.5. A autorização já foi recebida, o conselho formado por moradores que controlará a programação, também. Os equipamentos estão montados. Mas ainda falta uma linha que tem de ser instalada pela Telefonica. E a empresa não cede a linha porque espera o documento definitivo do Ministério das Comunicações. E o Ministério das Comunicações não envia o documento porque quer fazer cerimônia popular.

Ouça reportagem que foi ao ar no CBN SP no dia 1o de fevereiro sobre a criação da rádio comunitária em Paraisópolis.

Não sei o que consegui deixar por lá, mas levei o entusiasmo de moças e moços interessados em mostrar que merecem o título de cidadão paulistano. Cidadão que não tem vergonha de dizer que mora em Paraisópolis – como fez questão de lembrar um dos 11 que estavam naquela sala, na tarde de quarta-feira.

Em tempo: A licença definitiva para a rádio comunitária de Paraisópolis será retirada em Brasília, conforme informação que recebi nesta sexta-feira, e a expectativa é que com esta em mão a Telefonica libere a linha necessária para a emissora ir ao ar (publicado às 17:26)

Não comento pesquisas

 

Comento, sim.

Então, o porquê do título acima ? Apenas reproduzo o que disseram os dois principais candidatos – que chamamos burocraticamente de pré-candidatos -, Dilma e Serra, sobre o resultado da pesquisa CNI/Sensus, que demonstra empate técnico, apesar do percentual da petista ser maior do que o do tucano.

No Ceará, José Serra sacou do livrinho de bom comportamento a explicação de que manteria postura adotada desde o início, ou seja, não falaria sobre o resultado. No Rio, Dilma Roussef usou do lugar-ainda-mais-comum da política: “pesquisa é uma fotografia do momento”. Não fosse o sorriso maroto daquele que aparece com vantagem, talvez até pudéssemos acreditar neles.

A verdade é que cada novo número divulgado, mesmo que de institutos pouco confiáveis no mercado, provoca um reboliço no quartel general dos candidatos. Seja sob a desconfiança de quem está em baixa seja na satisfação de quem está por cima, os coordenadores de campanha traçam suas estratégias a partir das pesquisas. Trocam roteiros de viagens, remarcam entrevistas que haviam sido deixadas de lado, pedem socorro a conselheiros ou programam factóides para o dia seguinte.

Nas equipes têm especialistas para desmembrar os números e identificar de onde vem a preferência ou a rejeição do eleitorado. Encomendam pesquisas internas com diferentes temas e formatos para chegar a resposta do que o cidadão quer. Preocupam-se de tal maneira que exageram na dose e pasteurizam os discursos e os candidatos. Os programas de governo são a maior prova disso. Leia sem saber quem é o partido e perceberá o que digo.

Tornam-se tão iguais que até mesmo ao comentar as pesquisas assumem o mesmo comportamento: não comentam – ou quase não.

De minha parte, prefiro prestar atenção na linha do tempo bem mais do que o número publicado. Se este nos dá uma fotografia do momento, aquela nos oferece a radiografia do comportamento do eleitor. Por isso, o trabalho que o jornalista José Roberto de Toledo realiza no Estadão é bastante significativo ao combinar os levantamentos feitos pelos principais institutos de pesquisa e apresentar a média das intenções de votos que, após a inclusão dos dados de Sensus e Vox Populi, mostram que Dilma se aproxima de Serra.

Nos próximos dias tem Datafolha a pesar sobre a cabeça dos candidatos (e sobre o emprego de seus assessores) quando poderemos identificar melhor se Dilma chegou para ficar ou Serra assim que voltar à TV descola, mais uma vez.

Seja qual for o resultado, sem comentários – dirão os candidatos.

O álbum de figurinhas do Dunga

 

CNT_EXT_283135Todas as atenções do futebol brasileiro – e lá fora, também – se voltam para a lista de selecionados de Dunga, a ser apresentada às 13h. Não entendi porque os meninos vão a escola e o presidente Lula não decretou feriado nacional. Dependendo o que o destino nos prepara talvez seja este o momento de maior emoção da seleção brasileira nesta Copa.

Estes dias que antecederam o anúncio foram marcados por palpites de toda ordem; comentaristas fazem de conta que são capazes de pensar pela cabeça do técnico; tem ainda aqueles que afirmam, categoricamente, que este ou aquele jogador vai ser ou não vai ser chamado.

A única certeza que tenho é que os nomes serão anunciados, sempre faltará um preferido deste ou daquele grupo, e o Dunga será criticado. Seja porque chamou, seja porque não chamou, ele será criticado. É para isso que servem os técnicos, ao que parece. Pois não têm sequer o direito de entrar na coleção de figurinhas da Copa.

Tem craque que está machucado, tem um que até levou tiro; tem outros que não serão chamados – o Ronaldinho Gaúcho talvez seja apenas um rostinho bonitinho no álbum; tem escudo prateado das seleções; tem até imagem dos estádios que nem se sabe estarão totalmente concluídos até o início dos jogos.

Tente achar a cara do Dunga, do Maradona, do Fábio Capello ou do Marcelo Lippi. Não pense que são figurinhas raras. Simplesmente não foram contemplados. Quem reclama é o ouvinte-internauta da CBN Carlos Assis: “Nem estou falando da comissão técnica e dos massagistas, quem não se lembra do saudoso Mário Américo ou então do Nocaute Jack?”

Assis sente falta também dos árbitros e auxiliares da Copa, nomes mais garantidos do que de muitos jogadores listados na publicação: “Isto com certeza é uma discriminação de cunho trabalhista”. Talvez se a Ana Paula fosse da Fifa ! Pensando bem, melhor deixá-los fora pois seriam transformados em figurinhas malditas no primeiro pênalti não marcado.

Meu protesto é puramente clubístico: assim que meus filhos chegaram com o álbum na mão corri para conferir a lista de “selecionados” e notei a ausência do goleiro Vítor, do Grêmio – único representante do meu time que deverá ser chamado por Dunga. Discriminação que não é sofrida apenas por ele, afinal as demais seleções escaladas pela Panini não podem perder o goleiro titular, também.

Com todas as falhas, o critério usado pela editora pouco importará a partir de hoje, pois a seleção que vale mesmo será a escalada pelo Dunga. E consta que nosso técnico não está disposto a trocar figurinha com ninguém.

Em tempo: a rádio CBN transmitirá ao vivo a convocação da seleção brasileira de futebol

Por uma assistência técnica digna da Apple – II

 

apple-logoVocê sabia que existe um recall para trocar a dobradiça do MacBook Air ? Eu não. E ao menos três assistências técnicas autorizadas pela Apple também não. E pela “desinformação” renderia a estas algo em torno de R$ 1.400,00 para cada peça trocada. O incrível é que foi uma loja não-autorizada, na rua dos Gusmões, região da popular Santa Ifigênia, centro de São Paulo, que preferiu ser honesta, abrir mão do serviço e informar o consumidor do direito que tinha.

A má qualidade da assistência Apple, no Brasil, já foi motivo de comentário neste blog (leia aqui) quando tive dificuldades sérias para resolver – e não resolvi – problemas técnicos em dois dos meus Mac. Volto ao tema após ouvir a história de desrespeito com o consumidor contada pela companheira de domingo Maria Lucia Solla.

A dobradiça do MacBookAir quebrou após dois anos de uso. Procurou uma autorizada e se assustou com o orçamento. Soube da MacLemon, na Santa Ifigênia, e, após confirmar que o conserto sairia caro, foi informada da suspeita de que haveria um recall para esta peça. Telefonou para mais duas autorizadas e perguntou sobre o direito dela trocar a peça. Uma delas chegou a dizer que escreveria para a Apple para se informar melhor. Dias depois o funcionário da assistência técnica retornou a ligação para dizer que a Apple negara a existência do recall. Apenas na quarta prestadora de serviço, na qual também precisou lembrar de seu direito de consumidora, é que conseguiu a troca.

Desrespeito, desinformação ou má-fé. Não sei bem como enquadrar este comportamento das autorizadas. Mas está mais do que na hora de a Apple se preocupar com este tema, principalmente no momento em que volta suas atenções para o Brasil. Ou acabarei acreditando de que para a empresa de Steve Jobs somos consumidores de segunda categoria.

Pai, teu legado é nosso, teus caros ouvintes

 

A Rádio Guaíba de Porto Alegre, onde comecei a trabalhar como jornalista, anunciou na sexta-feira, dia 30 de abril, o encerramento da síntese noticiosa que estava no ar desde a fundação da emissora, em 1957. Apresentador desde 1964 do noticiário que surgiu com o nome Correspondente Renner, Milton Ferretti Jung, meu pai, consagrou-se como o locutor de notícias que por mais tempo permaneceu no ar no rádio brasileiro. Seguirá na Guaíba, onde participará como comentarista de um programa esportivo, área na qual atuou dezenas de anos na função de narrador esportivo. É para ele que escrevo o texto a seguir:

Pai,

Tua história nos orgulha. Não apenas a nós que te conhecemos tão intimamente e aprendemos contigo. A todos que cresceram no Rio Grande ouvindo tua voz a pontuar os fatos mais marcantes do país e do mundo. Por muitos anos, cada vez que tocava a característica do saudoso Correspondente Renner, programa que se iniciou com a Rádio Guaíba de Porto Alegre, em 1957, sabíamos da importância do que viria a seguir. A seleção das notícias era criteriosa; a redação, precisa; e a locução irretocável.

A forma com que tu transmitias as informações oferecia credibilidade ao noticiário; acentos, vírgulas, indignações eram percebidos na respiração; a entonação das palavras e a pronúncia dos nomes estrangeiros davam a cada um deles o seu verdadeiro sentido. No ar, pelo rádio, uma aula a todos teus ouvintes, dentre os quais eu sempre estive.

Eu era um ouvinte privilegiado, sem dúvida. Enganado, também. Tu deves lembrar quando a mãe puxava nossa orelha em casa: “se tu não te comportares, guri, teu pai vai te dar uma bronca pelo rádio!”. O Christian, a Jacque e eu parávamos a bagunça pra ti escutar.

Faz algum tempo que o Renner, como o conhecemos, não está ao ar. Mudaram-lhe o nome, perdeu-se a qualidade do texto e a importância dos fatos. Recentemente, em erro estratégico, encurtaram-lhe as edições e desfiguraram até mesmo a tradicional característica.

Tu, não. Perseveravas no talento e na exigência com a performance. Que performance! Com as notícias, seguias a transmitir conhecimento, cultura e responsabilidade. Mantinhas vivo em nossa memória este patrimônio do rádio brasileiro, pois se o Correspondente Esso consagrou a síntese notíciosa, o Renner a eternizou nestes 53 anos dos quais 48 esteve sob tua apresentação.

Assim, a decisão da Rádio Guaíba de tirar de sua grade o Correspondente será incapaz de apagar este legado que é teu. É nosso, teus caros ouvintes, para sempre.

A nos consolar, assim que voltares das férias, o radio-jornalismo terá perdido sua mais bela e competente voz, mas o Grêmio terá ganhado um defensor ferrenho no programa de esportes do qual farás parte, na Guaíba.

Reestreia no Top Blog

 

Um troféu e sete meses depois, estou de volta ao Top Blog. Espaço que ocupei durante a primeira edição do prêmio oferecido à blogosfera brasileira e para o qual volto nesta sexta-feira quando as inscrições estão abertas para a temporada de 2010. Sou muito grato a organização deste evento que me convidou para comentarista e abriu as portas para que eu recebesse o primeiro reconhecimento público de meu trabalho como blogueiro. Verdade que o troféu ganhei muito mais pela “raça e determinação” – como diriam meus ídolos do futebol – do que pelo talento.

Que seja ! O que interessa é que estou de volta e bastante satisfeito com o desenho construído para o blog. Cores amigáveis, espaço confortável, distribuição melhor de texto, imagem e detalhes, além de edição facilitada. Sem contar as boas companhias das quais gostaria de citar uma em especial: Ricardo Kotscho, jornalista de mão boa e cabeça ainda melhor. Dessas pessoas que a gente tem o prazer de apreciar, observar. Na última vez que o vi trabalhando estava traçando o perfil do meu colega de CBN Heródoto Barbeiro para a revista Brasileiros. Com toda a experiência e talento, lá estava ele, cedinho da manhã, com o bloquinho em mãos.

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