Desinformação faz mal para o coração

Cardiologistas estão preocupados com os efeitos da desinformação na área da saúde e aproveitam o mês de fevereiro, quando temos o Dia da Internet Segura, para discutir o tema em videocast. Tive o privilégio de ser convidado para compartilhar parte da minha visão sobre o assunto e, ao mesmo tempo, entender o quanto é danosa a forma irresponsável com que conteúdos relacionados à saúde são abordados por influenciadores, alguns da própria área médica.

O programa foi mediado pelo dr Pedro Duccini, coordenador da Cardiologia do hospital Vivalle Rede D’or São Luiz, e teve a presença do dr Lorenzo Tomé, professor universitário e CEO da SDConecta, uma plataforma de comunidades médicas.

Duccini me provocou a lembrar de mentiras que circulam pela internet e estejam relacionadas à área da saúde. 

Por curioso, havia deparado com uma delas no mesmo dia da gravação. Um ouvinte do Jornal da CBN me enviou mensagem que circula em WhatsApp sobre um suposto vírus mortal e sem sintomas que estaria devastando comunidades e, claro, para o qual não se dava publicidade para não prejudicar o Carnaval brasileiro. Na mensagem, estava o link de uma fala de Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS, sobre o assunto. 

Fui pesquisar e logo descobri que a gravação de Adhanon se referia a um alerta para que os países estejam preparados para futuras pandemias e não se referia ao tal vírus “escondido pela grande mídia”. Apesar de essa desinformação não prejudicar a saúde da população, dissemina o pânico e tira o foco do que realmente é importante. 

Outra mentira disseminada nas redes sociais é a que assistimos no Brasil em defesa da venda de cigarros eletrônicos. Patrocinada por fabricantes do produto, a campanha pela liberação dos vapes tenta convencer legisladores, comunidade médica e população em geral de que esse “cigarro”em formato de pendrive reduz os danos do cigarro convencional. A verdade é que causa danos aos pulmões e mata.

Na lista de desinformação podemos incluir as fórmulas mágicas de emagrecimento, as dietas da moda que fazem milagres no corpo humano e os multivitamínicos que prometem curar uma enormidade de doenças e prevenir de tantas outras. 

E por aí vemos como é árdua a batalha contra o que se determinou chamar de “fake news” (contra a minha insignificante vontade). Há interesses milionários por trás dessas informações falsas, há a ansiedade das pessoas em encontrarem fórmulas fáceis para resolver problemas complexos, há falta de tempo e paciência para apurar a verdade e há tecnologia suficiente para engajar cidadãos a este conteúdo. Uma sinergia de fatores que pode levar as pessoas à morte, o que me permite dizer que desinformação faz mal para o coração.

O videocast Conexão SOCESP, produzido pela Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, estará no ar em breve.

Inteligência Artificial na elaboração de leis não é o fim dos políticos

Imagem criada pelo Dall-E

No coração da Câmara Municipal de Porto Alegre, um marco histórico foi estabelecido com a aprovação de uma lei inteiramente redigida por uma ferramenta de inteligência artificial (IA), o ChatGPT da OpenAI. Este evento singular não apenas destaca a crescente integração da IA em várias esferas da vida pública, mas também incita um debate vital sobre as implicações éticas, legais e sociais dessa tecnologia emergente no processo legislativo.

O vereador Ramiro Rosário (PSDB) propôs um projeto de lei que isenta moradores de cobrança pela substituição de medidores de água furtados, um texto totalmente elaborado pelo ChatGPT. O vereador desafiou a IA, pedindo que criasse uma “lei municipal para a cidade de Porto Alegre, com origem legislativa e não do executivo, que verse sobre a proibição de cobrança do proprietário do imóvel pelo pagamento de novo relógio de medição de água pelo Departamento Municipal de Água e Esgoto (Dmae) quando este for furtado”. Surpreendentemente, a IA foi além do pedido, propondo prazos e incluindo um artigo sobre a isenção de pagamento da conta de água enquanto o relógio não fosse substituído – uma ideia que não estava no projeto original.

Os colegas de Rosário e o prefeito Sebastião Melo (MDB) só tomaram conhecimento da origem do texto após sua aprovação e sanção. A revelação gerou surpresa e abriu um precedente notável na história legislativa da cidade.

As reações variaram significativamente. Enquanto Ramiro Rosário exaltou a capacidade da IA de ir além das expectativas, propondo prazos e artigos não solicitados, o presidente da Câmara, Hamilton Sossmeier (PTB), expressou preocupações. Ele reconheceu a legalidade do processo, mas alertou sobre o perigo de estabelecer um precedente para leis mais complexas, potencialmente escritas sem supervisão humana adequada.

Legalmente, não existem barreiras claras que impeçam a elaboração de leis por IA. No entanto, isso levanta questões éticas significativas. A principal preocupação gira em torno da transparência e da responsabilidade no processo legislativo. Quem é responsável por erros ou omissões em um texto legal redigido por IA? Como a sociedade pode garantir que a IA não seja manipulada para servir interesses específicos?

Este evento inaugura uma nova era de debates sobre a função e o impacto da IA na governança. A sociedade pode se beneficiar de uma legislação mais eficiente e objetiva, mas também deve estar atenta à possibilidade de desumanização do processo político. A ideia de IA substituindo tarefas humanas se estende agora ao sagrado domínio da criação de leis, um território anteriormente imune à automação.

Apesar das preocupações, o uso de IA na elaboração de leis pode trazer benefícios significativos. A eficiência e a capacidade de processar grandes volumes de informações podem levar a legislações mais abrangentes e bem-informadas. Além disso, a IA pode ajudar a identificar lacunas legais e sugerir melhorias baseadas em dados, contribuindo para um sistema legislativo mais robusto e adaptativo.

O caso de Porto Alegre é um microcosmo das vastas e multifacetadas implicações da IA na vida pública. Enquanto navegamos neste território inexplorado, é crucial manter um equilíbrio entre abraçar a inovação tecnológica e preservar os princípios fundamentais de responsabilidade, transparência e humanidade no processo legislativo.

Pessoalmente, acredito que a IA pode de fato melhorar significativamente a qualidade dos textos legislativos. A capacidade de processar e sintetizar grandes quantidades de informações pode resultar em legislações mais completas, precisas e atualizadas. No entanto, é importante enfatizar que a IA, por mais avançada que seja, não substitui a importância crítica dos políticos e do debate público no processo de tomada de decisões. A IA é uma ferramenta, uma extensão das capacidades humanas, e não um substituto para o julgamento, valores e a essência da política. Em última análise, a IA pode ser um aliado poderoso na melhoria dos processos legislativos, mas deve sempre operar sob a orientação e supervisão de líderes eleitos, garantindo que a política permaneça, fundamentalmente, uma empreitada humana.

(este texto antes de ser escrito foi “discutido” com o ChatGPT; e passou por revisão ortográfica da ferramenta )

Conte Sua História de São Paulo: minha imagem na janela do metrô

Por Marcelo Vieira Pinto

Ouvinte da CBN

Foto de Pixabay

Essa história deve ser contada na primeira pessoa, não por prioridade, mas para expressar fielmente a realidade do sentimento. A generosa frieza da humanidade. Acordei lépido, depois de um sono, por minha consideração, longo, de cinco horas ininterruptas e o complemento posterior de mais três.

Um belo desjejum à base de frutas, sanduíche e o querido e esperado café, acompanhado de uma disposição incomum para a prática esportiva. O sentimento era de um senhor vigoroso, equilibrado e me lembro bem da atenção em manter o foco na minha pessoa.

Sai à rua em direção ao metrô Brooklin para cumprir um compromisso. O caminho se apresentava com uma energia colorida pelo sol forte, que esquentava o ambiente, mas o bem-estar interior se sobrepunha a qualquer pensamento negativo.

Entrei no espaço, comprei meu bilhete e caminhei em direção à plataforma. Sentia-me o melhor cidadão paulistano, admirando a simples educação popular nas escadas rolantes e o inesperado respeito ao entrar no vagão. Ambiente com lotação completa, o calor das pessoas era inevitável sentir, embora o ar-condicionado estivesse em perfeito funcionamento.

Subitamente, uma jovem se levanta me oferecendo seu assento. Sua expressão era de uma pessoa caridosa. Sinceramente, meu sentimento foi em direção oposta ao que eu sentia segundos atrás. Inesperadamente, tive a percepção de que transparecia a imagem de um frágil senhor, um idoso que carecia de um assento.

Agradeci, recusei e automaticamente olhei minha figura, que refletia na janela do veículo, e o esforço para encontrar aquele senhor vigoroso foi de certo modo desgastante. Passados alguns minutos, me desloquei para o centro do vagão, quando, acreditem, um senhor obeso, juro, bem obeso, se levanta para me ceder seu lugar.

Desculpem-me, mas é difícil demais andar em equilíbrio. Acho que vou comprar uma bengala para minha cabeça.

Ouça aqui o Conte Sua História de São Paulo

Marcelo Vieira Pinto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Ouça outros capítulos da nossa cidade no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

O ritual do desfazer das malas é o fim de uma etapa e o reinício de outra

Foto de Vlada Karpovich

O primeiro dos três lançamentos do livro “Escute, expresse e fale!”, em Portugal, foi na livraria “Ler Devagar”, em Lisboa. Na sala do segundo andar, ao lado da mesa em que os autores fariam a apresentação havia uma tribuna. A peça foi providenciada pela Escolar Editora, uma exigência de António Sacavém, um dos colegas de escrita. Quis saber da necessidade daquele espaço e meu companheiro lusitano respondeu: “o ritual é importante”. Seria na tribuna, lugar que costumo chamar de púlpito — para desespero dos especialistas em cerimonial —, que o convidado principal falaria com o público: o empresário João Manuel Nabeiro, herdeiro de uma dos maiores grupos empresariais de Portugal, o Delta. Ele estaria sentado ao nosso lado durante todo o evento, mas sua abertura foi solene. No púlpito. Ou na tribuna!

Rituais têm importância nas sociedades porque dão significado e sentido às experiências humanas; proporcionam um senso de conexão e pertencimento, permitindo que as pessoas se unam em torno de valores, crenças e práticas comuns; e são uma forma importante de transmitir e preservar a cultura de geração em geração. Naquele caso, em Portugal, justificava-se a partir de outro conceito bastante comum diante do tema: os rituais são frequentemente usados para celebrar conquistas, marcos importantes e eventos significativos na vida das pessoas. Eles fornecem uma oportunidade para reconhecer e honrar indivíduos ou grupos, promovendo um senso de valorização e inclusão. Os rituais de celebração também desempenham um papel na construção de memórias coletivas e na criação de momentos felizes e memoráveis. 

Foram felizes e memoráveis os momentos que marcaram o início desse meu período de férias ao ter a oportunidade de participar deste que é um ritual na publicação de livros: a sua apresentação ao público seguida de sessão de autógrafos, em especial por ser a primeira vez que experimento essas sensações no exterior. Estive em três cidades portuguesas ao lado de meus colegas autores — o Sacavém que já citei, a Leny Kyrillos e o Thomas Brieu — e para cada um dos públicos falamos dos propósitos que nos uniram e dos ensinamentos que reunimos.

Depois da passagem por Portugal foi a vez de voltar à Itália, terra de onde saiu o bisavô Vitaliano Ferretti que se estabeleceu em Minas Gerais antes de chegar ao Rio Grande do Sul. Havia alguns anos que não visitava o país ao qual frequentei com insistência, desde 1993, graças a uma série de privilégios que tive na vida — desde pessoas para me acolher até facilidades logísticas para se deslocar até lá. Com a pandemia e alguns compromissos anteriores, tive de segurar a saudade até matá-la de vez neste calorento mês de Julho. Oportunidade em que revi locais e amigos para minha felicidade. Aliás, eis um ritual que mantenho em viagens: revisitar lugares em que estive para poder recontar as histórias que vivenciei. É como se ao rever endereços em que já me hospedei ou estive me fizesse reencontrar com o que já fui.

Nesse sábado, às vésperas da retomada ao trabalho, deparei com outro ritual: o desfazer das malas. Pode ser comezinho para muitos. Para mim é ritual que se caracteriza pelo respeito a estrutura e a ordem à vida cotidiana. Faz parte dos rituais que nos ajudam a lidar com a incerteza e a complexidade do mundo moderno, oferecendo previsibilidade e estabilidade. É a forma de marcar o fim de um ciclo, o recomeço de outro. 

Sou incapaz de deixar a mala em um canto da casa a espera de ser desfeita. Tem de ser de imediato. Abro e início de forma disciplinada a separação dos pertences. A roupa para lavar e a que dá para dobrar e guardar; a lembrança de amigos e parentes e as lembranças de viagem; o presente que me dei e os que recebi;  os acessórios que tornaram a viagem acessível e os trocados em moeda estrangeira que restaram — sempre sobram e a gente esquece de levar na próxima. 

A mala desfeita é o ritual que me permite pensar no que virá no dia seguinte. Nos planos que deixei para agora. Nos compromissos que assumi com os amigos durante as férias que se equivalem as resoluções de fim de ano. Os rituais oferecem uma forma de interpretar eventos importantes e ajudam as pessoas a encontrar propósito e significado em suas vidas. Podem abordar questões existenciais, fornecer conforto em tempos de dificuldade e celebrar conquistas e marcos pessoais. 

No ritual do desfazer das malas, comemorei mais uma etapa vencida. Que venham novas! Agora, no trabalho para onde volte nesta segunda-feira!

Trabalho nas férias desde que a internet se comprava na venda

De Orbetello/Itália

A praça Eroe dei due mondi e o bar que vendia internet Foto: eu mesmo

Da primeira vez que estive aqui, sinal de internet se comprava na venda. Foi em 2008, época em que as atividades nesse blog eram intensas e a busca por um acesso à “rede mundial de computadores” — sim, naqueles tempos ainda era comum essa expressão —, uma aventura. Fui encontrá-lo no bar e tabacaria da praça principal de Orbetello, cidade italiana que estou hospedado desde o fim da semana passada e de onde me vou em seguida para outra cidade na vizinhança. Não tenho ideia de quantos euros me custavam uma hora de navegação em um dos computadores Windows à disposição. Lembro que a conexão era lenta e baixar fotos ou publicá-las exigiam um pouco de paciência.

Nesses 15 anos, muita coisa mudou — perdão, pela frase óbvia —, haja vista a facilidade com que publico esse texto, a partir do 5G de meu celular e diretamente da areia da praia. O bar e tabacaria, não mudaram. Tão pouco, a praça principal,  Eroe dei due mondi — referência a Giuseppe Garibaldi, que fez das suas lá pelas bandas do Rio Grande do Sul e talvez seja lembrado por alguns como o marido da Anita (a Garibaldi). 

Minha presença aqui no Argentário e arredores se tornou frequente desde que conheci a região. Uma casa de familiares próximos, nos altos da praia de Ansedonia, com vista para o Tirreno, tornaram acessível as férias na Itália, a despeito da valorização do Euro, do aumento do preço da passagem de avião e da perda de poder aquisitivo no Brasil – longe de mim reclamar diante dos privilégios que a vida me ofereceu.

A pandemia deixou-me a Itália distante e somente agora conseguimos retornar com tranquilidade, não sem antes sentir as emoções que Portugal me reservava.

Na primeira semana de “férias” — as aspas explico mais adiante —, vivenciei um dos momentos mais realizadores da quase sexagenária experiência que tenho. Ao lado de três colegas autores, lancei o livro “Escute, expresse e fale! Domine a comunicação e seja um líder poderoso”, em Lisboa, Porto e Cascais. Em acordo com a editora Rocco, que já nos deu o prazer de publicar a terceira edição, no Brasil, a portuguesa Escolar Editora levará o livro aos demais países de língua portuguesa. 

Com Antònio Sacavèm, Thomas Brieu e Leny Kyrillos, tivemos a a oportunidade de encontrar leitores em dias de extremo calor, muita alegria e tertúlia. Fizemos apresentações nas três cidades, diante de uma plateia entusiasmada e interessada em saber mais sobre o poder da comunicação nas relações humanas. Encontrei ouvintes além-mar, amigos que estavam distantes, brasileiros expatriados e lusitanos que me foram apresentados – uma gente que talvez nunca saberá exatamente o que a presença dela nas livrarias significou no meu coração. E se pensa que sabe, vou contar-lhe: dobre esse significado, multiplique quantas vezes for capaz de imaginar e talvez você se aproxime da satisfação que esses momentos me proporcionaram.

Fomos os primeiros autores brasileiros publicados pela Escolar Editora que pretende repetir essa experiência com outros escritores da minha terra — e saber disso me fez ainda mais realizado.

Quando a Rocco acreditou em nosso potencial, ainda em 2022, também estava atrás de autores brasileiros, o que nos permitiu concretizar o sonho de publicarmos um livro que alguns entendiam ser de pouco alcance: “o leitor não gosta de livro com muitos autores”, me disse um editor. Realmente, livro de muitos autores são complexos, o que apenas valoriza o esforço que Antònio, Thomas, Leny e eu tivemos de fazer para a escrita traduzir os múltiplos conhecimentos, culturas e sotaques em um diálogo próximo do leitor como se fossemos um só a falar.

Sei que colegas que permanecem no Brasil, a comandar o Jornal da CBN (leia-se Cássia Godoy e Marcella Lourenzetto), e seus cúmplices têm cometido o crime de difamação contra este que lhe escreve. Usam a força do rádio para construir a imagem de que sou o “Rei das Férias” quando, de verdade, mal consigo usar o tempo previsto em lei para relaxar. 

Perceba, caro e cada vez mais raro leitor deste blog, que a primeira semana fora do Brasil foi a trabalho: lançar livro, fazer palestra e costurar novos negócios exigem habilidade profissional, apuro técnico, competência relacional e conhecimento psicossocial. Agora, já na Itália, cá estou escrevendo, o que também tem relação com meu trabalho. E seguirei a fazê-lo inclusive lançando novos colaboradores — não deixe de voltar ao blog nesta segunda-feira — e retomando uma prática esquecida no tempo: a de falar da vida, do cotidiano, de fatos comezinhos e compartilhar tudo isso com você que ainda está por aqui — um desejo que me tomou quando em pesquisa no blog descobri o primeiro texto escrito, aqui de Orbetello, lá em 2008, na época em que internet se comprava na venda. Desde lá, trabalho nas férias. Com muito prazer!

Mundo Corporativo: desconhecimento sobre ESG de pequenos e médios comerciantes é desafio para Fecomercio, diz Luiz Maia

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“Sem o envolvimento de todos nós não vamos chegar nos objetivos finais; e não podemos jogar toda a responsabilidade no governo”

Luiz Maia, Fecomercio

O trabalho que você realiza, o serviço que você presta, o armarinho do seu bairro ou o mercado ‘tem-tudo’ que abastece sua região têm impacto no meio ambiente? A maioria dos pequenos e médios comerciantes de São Paulo (97%) responderam com um sonoro não a essa pergunta, em uma demonstração de desconhecimento da pegada ecológica que todos deixamos no planeta, independentemente do nosso papel na sociedade. Verdade que de acordo com a nossa consciência e a função que exercemos as marcas que deixamos no meio ambiente são maiores ou menores, mas é inevitável que sejamos consumidores de recursos naturais, como relata Luiz Maia, coordenador do comitê ESG, da Fecomércio SP, em entrevista ao programa Mundo Corporativo:

“Mesmo uma pequena empresa tem de uma certa forma impactos climáticos. Isso pode ser através do descarte dos seus insumos, que não é feito de uma forma adequada, pode ser através de sua cadeia de valores, onde existem emissões de gases, pode ser através de consumo de água, que não tá sendo controlado, não tá sendo monitorado, e pode ser pelo consumo. também, de energia elétrica”.

A Fecomércio — Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo — ouviu 100 empresas do setor na capital paulista, das quais 90 têm menos de dez empregados e as restantes têm mais de 50. Na pesquisa identificou-se que quase um quarto dos entrevistados alegam falta de conhecimento para adotar os critérios ESG. Se não conhecem os impactos ambientais que geram, se não conhecem as práticas de sustentabilidade que estão ao alcance, temos um problema pela frente — cenário que Luiz Maia prefere enxergar como uma oportunidade.

“Essa discussão tem que envolver as grandes empresas, ajudando as pequenas empresas a descobrir como elas podem cooperar e de uma certa forma participarem também desse processo de descarbonização, dos processos de despoluição que nós temos hoje no meio ambiente, na sociedade”

O aspecto social é considerado o mais relevante no tripé ESG por 46% dos comerciantes ouvidos pela Fecomércio. A porcentagem das empresas que deram prioridade a este tema superou as perspectivas ambiental e de governança — ambas com 27%. Para Luiz Maia essa percepção reflete tamvém os efeitos da pandemia, durante a qual muitos negócios se esforçaram para não demitir funcionários e adotaram medidas para controlar a disseminação do coronavírus —- em ações que alcançaram colaboradores, clientes e a vizinhança.

Por falar em oportunidade. Luiz Maia lembra que a maior parte desses comerciantes está na “última milha” do relacionamento com determinadas comunidades, o que pode torná-los em difusores do conhecimento das práticas ESG, alcançando a casa das pessoas nas regiões em que estão inseridos. Por isso, a Fecomercio quer usar os dados da pesquisa para criar estratégias para orientar os pequenos e médios negócios.

Na conversa que tivemos no Mundo Corporativo, provoquei Luiz Maia a antecipar medidas que poderiam ser implantadas de imediato pelos comerciantes atendendo as demandas ESG. Vamos a esse roteiro que vou chamar de Manual Prático de Sustentabilidade:

  1. Reduzir custo de energia elétrica com troca de lâmpadas e equipamentos de maior eficiência energética; e investir em geração fotovoltaica;
  2. Na área da governança, regularizar pagamento de tributos e a contratação de mão de obra;
  3. Fazer um planejamento financeiro que capacita o negócio a ser economicamente sustentável;
  4. Na questão social, pensar como se engajar na comunidade e aproveitar o espírito de voluntarismo do brasileiro para atuar em programas de saúde, educação e segurança pública.
  5. Dar preferência a contratação de pessoal ligado à comunidade em que atua.

“Com essas ações, o pequeno empresário tem o poder de começar a mudar um pouquinho para onde a direção da  agulha está indo; o caminho certo! Eu vejo essa iniciativas totalmente plausíveis de acontecer e se elas estiverem dentro de um contexto de um ecossistema de um grande grupo podem se beneficiar de várias outras formas, também”. 

Assista à entrevista completa com Luiz Maia, coordenador de ESG da Fecomercio SP, ao Mundo Corporativo, da CBN:

Colaboraram com o Mundo Corporativo: Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Débora Gonçalves.

Não alimentem as bestas do futebol

Imagem reproduzida da TV

A noite da Copa do Brasil, de quarta-feira,  começou com o ônibus do Atlético Mineiro sendo atacado por tresloucados torcedores do Flamengo. As cenas absurdas se voltaram para dentro do Maracanã, que tiveram portões arrombados e invasão de torcedores sem ingresso. Longe dali, em Santos, novamente as bestas se expressaram, a partir do comportamento de torcedores do Santos que explodiram foguetes contra os jogadores do Corinthians. No apito final, um torcedor correu para dentro do gramado até agredir o goleiro Cássio.

As declarações de indignação se espalharam no noticiário, os pedidos de punição falaram mais alto e notas de repúdio foram publicadas. Nada que vá impedir que os violentos voltem a agir com a conivência de parte da comunidade futebolística, a começar pelos próprios jogadores que deveriam ser os mais preocupados em tentar amenizar os ânimos nas arquibancadas.

Falo dos jogadores porque eles exercem forte influencia sobre os torcedores a medida que são ídolos, reverenciados e têm importância singular no espetáculo — além de serem os principais alvos dos ataques cometidos. Os fatos que assistimos no Rio talvez se realizassem da mesma forma, mas não há como negar que a promessa pública de Gabriel Barbosa, de que o Atlético conheceria o “inferno” no Maracanã,  foi combustível para a agressividade de torcedores sem controle. Detentor dos benefícios que os grandes jogadores têm e merecem, Gabigol precisa também entender que de mãos dadas aos direitos conquistados está a responsabilidade — que não foi exercida na declaração explosiva da semana anterior.

Frases de efeito, troca de provocações e deboches sempre fizeram parte da crônica esportiva, muitas vezes incentivados pelos jornalistas. Infelizmente, o que antes se resumia a “guerra de palavras”, hoje é estopim para gente desequilibrada que leva para os estádios e organizadas suas frustrações e recalques. Portanto, não se tem mais espaço para esse comportamento. O discurso dos boleiros terá de se adaptar a estes tempos sob o risco deles serem as maiores vítimas, em breve.

Em Santos, outro gesto de jogadores me chamou atenção. Logo após o torcedor, que de maneira covarde tentou agredir Cassio pelas costas, ser derrubado no chão por seguranças, jogadores do Santos vieram para defendê-lo como se a besta voadora fosse vítima de uma agressão. Teriam, sim, de ser solidários com Cássio, como o foi Marcos Leonardo que impediu que o goleiro corintiano fosse atingido de forma mais violenta. O torcedor que invade o gramado não apenas é um perigo pelo que ele próprio pode cometer, mas também serve de inspiração para outros que estão na arquibancada, podendo provocar um tragédia no estádio. Portanto, tem de ser condenado e não abraçado pelos jogadores.

É claro que cartolas de federações e dirigentes de futebol teriam de estar à frente de medidas para controlar o comportamento violento dos torcedores. Assim como todos aqueles que investem e lucram com o futebol precisariam estar atentos para essa sequência lamentável de ocorrências. Agora, se os jogadores ficarem de braços cruzados e, pior, tomarem atitudes que sirvam de combustível ou de alimento para essas bestas, o preço a ser pago poderá ser fatal.

Um erro mantido em nome das métricas são dois erros

Photo by Markus Spiske on Pexels.com

Das redes sociais, a que mais uso é o Twitter, por onde deixo alguns palpites, opiniões, informações e recados, desde 2008, quando o ‘passarinho’ estava ainda no ninho, aqui no Brasil. Com o recente interesse de Elon Musk na compra da empresa, falou-se de muitas mudanças, em especial a ideia do “liberou geral” que o visionário confunde com “liberdade de expressão”. Mas também tratou-se de temas mais comezinhos como o botão “editar” que permitiria a correção de muitos erros cometidos na pressa de publicar. 

Sem opinião formada sobre o segundo tema — quanto ao primeiro sou defensor da ideia de que deve sempre haver um mínimo de moderação diante do impacto que as redes têm na vida e na reação das pessoas — , já tive vontade de voltar atrás no que escrevi. Não que eu quisesse rever minha opinião. Queria apenas ter usado uma palavra mais apropriada e, principalmente, corrigida — quando erros na grafia ou na concordância se revelavam. Não pude!

Não apenas não tive essa possibilidade como percebi um fenômeno. Se você publicar uma mensagem com erro e, em seguida, republicar a mesma mensagem com a correção, tenha certeza: a mensagem com erro vai ser retuitada muita mais do que a corrigida. Pode ser que seja pelo fato de que a primeira, por primeira que foi, chegue a mais pessoas antes da segunda, impulsionada por um algoritmo que costumo não entender bem como funciona. 

Diante do fato, desisti de manter a mensagem errada em respeito a quem já havia comentado, clicado ou retuitado. Simplesmente apago. Abri mão do engajamento ou alcance que a  mensagem com erro poderia ter me oferecido em troca da tranquilidade em saber que aquele erro não iria mais tão longe assim, causando uma série de estragos. No caso de erros ortográficos ou de concordância, imagine, alguém pode repeti-lo depois em um retuíte, no recado enviado ao chefe, no bilhetinho para a namorada ou em qualquer outra situação, construindo uma imagem ruim por minha culpa. Não me perdoaria!

Escrevo sobre esse assunto, porque me incomoda a superdependência às métricas que hoje pauta desde decisões editoriais até o ângulo em que você vai tirar uma foto. O título, o lead, a abordagem, a imagem, a cor, a disposição na página, o assunto a ser tratado, o SEO … tudo parece contaminado por aquilo que o algoritmo nos permite e pelos números que alcançamos. A reportagem não é boa pelo conteúdo, profundidade e forma com que é apresentada; é boa se teve engajamento. Se antes já havia essa tentação na busca da atenção, hoje com a possibilidade de se medir quase tudo em tempo real, o risco de nos transformarmos em refém das métricas, multiplica-se. 

Não quero desdenhar o conhecimento que aprofundamos sobre o funcionamento da engrenagem digital nem mesmo estou desmerecendo a importância de se conseguir audiência para o conteúdo que realizamos, mas se temos um compromisso —- e aí estou aqui pensando em um dos papeis do jornalismo profissional —- é com a precisão da informação. Publicar uma informação errada, identificar o erro e mantê-la errada é ser cúmplice de algoritmos que tanto criticamos por serem impulsionadores da intolerância, a medida que reforçam comportamentos e não estimulam a troca de ideias entre os diversos.

Por isso, caro e cada vez mais raro estudante de jornalismo que me acompanha neste blog, se me permitir, faço uma sugestão: sempre que uma informação estiver publicada com erro, apague-a; republique-a corrigida. Comunique seu público. E se alguém vier reclamar do prejuízo às métricas, lembre-o de uma expressão tipicamente italiana: “vaffa …”

E eles só querem viver vivos

Padre Simone está à frente do trabalho do Arsenal da Esperança

Dona Janete escancarou a fome para os brasileiros em uma entrevista na televisão. Uma fala dolorida que deu transparência ao que os números, mesmo que gigantes, às vezes escondem. Não que 33 milhões de famintos vivendo no país que é o quarto maior produtor de alimentos deixem de ser um escândalo, mas quando um desses milhões de rostos surge diante de nós, é chocante. 

“Domingo a gente não tinha nada para comer. Eu estou desempregada, está muito difícil. Eu estou catando latinha, mas não dá”

Foi o desabafo da Dona Janete, ao responder a pergunta feita pela repórter do RJTV, na TV Globo, enquanto esperava por uma refeição na fila do programa da prefeitura do Rio que distribui alimentos. Todos choramos com ela. Exagero. Nem todos são suficientemente sensíveis para perceber o que significa ter fome.

Hoje cedo, em mais uma entrevista com candidatos à presidente da República, André Janones, do Avante, respondeu de bate-pronto à pergunta que escolhemos para abrir essa série no Jornal da CBN. “A desigualdade social” é o que ele elegeu como prioridade a ser enfrentada a partir de primeiro de janeiro de 2023. Faz sentido. 

Na pesquisa realizada para me preparar para essa série iniciada na terça-feira encontrei dois dados que mostram a dimensão da desigualdade de renda e de patrimônio, no Brasil: os 10% mais ricos no Brasil ganham quase 59% da renda nacional total; o 1% mais rico possui quase a metade da fortuna patrimonial brasileira.

Números e percentuais que se transformaram em corpo e alma na tarde desta quinta-feira quanto tive oportunidade de visitar a antiga Hospedaria dos Imigrantes, no bairro da Mooca, zona leste de São Paulo. O local que no passado recebia famílias europeias refugiadas de sua terra natal, atualmente abriga cerca de 1.200 pessoas que vivem em situação de rua — brasileiros e estrangeiros. Obra do Arsenal da Esperança, liderada pelo padre italiano Simone Bernardi, que assumiu a missão de levar em frente o projeto do Semig — Servizio Missionario Giovani, iniciado em 1996, por ação de Ernesto Olivero e Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida.

Meu carro de rodas altas e câmbio automático, minha calça com caimento elegante e os sapatos de grife italiana eram extravagantes diante da simplicidade das pessoas que encontrei em uma enorme fila na calçada da rua Doutor Almeida Lima, 900, portão de entrada da Hospedaria. Todos homens e a espera para retornar ao espaço onde estão cadastrados e recebem alimentação, roupa lavada, uma cama para dormir, acesso a cursos, atendimento médico e respeito —- sim, essa é a maior demanda de cada um daqueles que estavam ali: o respeito que qualquer ser humano tem direito a receber em vida.

O local é espaçoso, tem árvores e canteiros bem cuidados. Tem infraestrutura antiga e bem preservada. Mantém a mesma arquitetura que recebia os europeus, desde o fim do século 19 — uma história lembrada por fotos em preto e branco que estão em todas as dependências. Os locais para dormir se apresentam com fileiras de beliches, o restaurante tem longas mesas, capazes de servir 600 refeições por vez. A cozinha industrial é ampla assim como a lavandeira, onde um sistema organizado e sistemático é capaz de receber, lavar e devolver em mãos as roupas das milhares de pessoas que circulam no local. Tem salas de aula e para cursos. Tem bar e bazar. Tem biblioteca, também.

Especialmente, o que se vê nos rostos sofridos e passos pesados dessa gente que circula com seu fardo nas dependências da Hospedaria é a tentativa de revelar a esperança de uma vida melhor. Fui recepcionado por sorrisos e cumprimentos respeitosos. Havia olhares desconfiados, é claro. Afinal, eu era a figura estranha naquele cenário, com minha vida privilegiada e desigual, muito desigual. Distante da vida que eles vivem. 

O passeio por pouco mais de uma hora foi na companhia do Padre Simone, que chegou ao Brasil, em 1996, e diz ter aprendido português ouvindo a rádio CBN. Fico feliz em saber que uma das nossas missões foi cumprida — a de educar pela comunicação —, ao mesmo tempo que fico constrangido ao perceber quão pequeno ainda é nosso trabalho diante da messe que pessoas como o padre e sua equipe de missionários e voluntários  assumem.

Mais do que os políticos e agentes públicos, mais do que os doutores e os senhores, mais do que qualquer um dos que vivem em nosso entorno, mais do que nós mesmos, são eles os verdadeiros construtores das pontes que podem diminuir a desigualdade que impera no Brasil. Que nos fazem acreditar que é possível tornar realidade um dos lemas que os inspira no Arsenal: voglio vivere vivo (quero viver vivo).

Conheça aqui um pouco mais sobre o trabalho do Arsenal da Esperança

Dez recomendações para uma entrevista de excelência

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Foi-se mais um dia de entrevista. Planejada, programada, pensada, pesquisada — sim, quando nos propomos  a estar diante de uma fonte que tem relevância, é preciso que se cumpra uma série de etapas. Quem nos ouve diante do microfone perguntando, replicando e contextualizando talvez não tenha ideia do trabalho prévio que uma boa entrevista exige. Especialmente, se do outro lado estiver alguém que se sente capacitada a assumir o cargo mais alto que se pode desejar no país: o de presidente.

Esse é o desejo de Ciro Gomes, com quem conversamos na terça. Esse é o desejo de Simone Tebet, com que deparamos nesta quarta-feira, no Jornal da CBN. É também o de André Janones, a ser entrevistado na quinta. Todos eles sabem que ocupar esses espaços se faz essencial para expor pensamentos e convencer o cidadão a apoiá-los, a despeito das dificuldades que as pesquisas eleitorais revelam.

Certamente e com grandes possibilidades de se transformar em realidade, tornar-se presidente — mais uma vez —- é o que almejam Lula e Bolsonaro, apesar de que esses querem repetir a experiência sem ter de se expor ao escrutínio do jornalismo profissional. Preferem ocupar os microfones amigos, as falas sob controle, que não questionam, que não apontam contrariedades e falta de lógica. Privilegiam o cercadinho no Palácio ou os palcos montados por correligionários. Lamentavelmente, se escondem atrás da popularidade que o cargo que ocupam ou ocuparam lhes oferece.

De volta às entrevistas — tema central desta nossa conversa. 

Dia desses, na preparação de um curso de rádio e podcast, que em breve estará à disposição do caro e raro leitor deste blog, falei que este é o momento mais incrível da nossa profissão — também tratei em parte do assunto no texto anterior a este. Assim sendo, é preciso estarmos muito bem preparados e, se você me permite, listarei a seguir, algumas recomendações para caso você decida um dia estar nesta privilegiada posição de entrevistador:

  1. Escolha bem o entrevistado. Tem pessoas que realmente são muito inteligentes, geniais, mas que falam muito mal, também. Não sabem se expressar, são prolixas, não completam as frases, falam de maneira entrecortada, que, podem acabar com a entrevista. 
  2. Após escolher o entrevistado, faça uma boa pesquisa. Conheça o perfil dele, saiba como se comporta, o que pensa, o que já falou sobre o tema que você pretende abordar. Quanto mais elementos você tiver em mãos, melhor será sua abordagem e mais difícil será de o entrevistado enrolar você e o seu público.
  3. Com base na pesquisa prévia, prepare um roteiro — alguns colocam os tópicos mais relevantes; outros preferem escrever as perguntas. O importante é que você tenha ideia de onde pretende chegar
  4. Jamais seja refém do seu roteiro e de suas perguntas. Esse material é apenas o ponto de partida. Esteja atento ao que o entrevistado vai dizer, porque a qualquer momento o rumo da conversa pode enveredar por um caminho que você não imaginava.
  5. Uma boa entrevista tem perguntas na medida certa: nem curta demais, a ponto de o entrevistado e o ouvinte não entenderem sobre o que você está falando; nem tão longa que você acabe tomando o espaço dele. Muitas vezes, cometemos o pecado de querer mostrar nosso amplo conhecimento pelo tema e esquecemos que o personagem principal na entrevista é o entrevistado
  6. Uma boa maneira de se posicionar diante do entrevistado é pensar com a cabeça do ouvinte; o que ele estaria interessado em saber daquela pessoa que está sendo entrevistada;
  7. O ideal é não interromper o pensamento do entrevistado, mas sabemos que algumas pessoas falam sem parar e sem ponto de corte; pior, algumas pessoas começam a divagar; se desviam do tema da pergunta — às vezes sem querer, outras de propósito. Cabe a você que está entrevistando, pontuar essas situações.
  8. Trate o entrevistado com o devido respeito — isso não significa que você será subserviente a ele; ou deixará dizer o que bem entender, sem questionamento; 
  9. Sempre que necessário questione o que está sendo dito: lembre-se de uma máxima do jornalismo: notícia é aquilo que alguém não quer que publique.
  10. Esteja preparado para caso o entrevistado tenha uma postura arrogante ou agressiva. Não cabe a você se equiparar a ele. Siga de forma respeitosa, sem deixar de pontuar os erros que ele comete.

Repasso essas e outras sugestões todas as vezes que estou diante de entrevistas com a importância das que estamos realizando nesta semana, na CBN. Aprendo a cada entrevista uma nova lição. Para não parecer exagerado, em algumas sou apenas relembrado de lições que aprendi anteriormente. Ao fim da entrevista, refaço toda a trajetória da conversa na mente, penso como poderia ter abordado o assunto de uma maneira diversa e se deixei de contrapor à altura alguma resposta mal feita pelo entrevistado. 

Amanhã tem mais!