“Nesse mundo atual, ninguém sabe tudo, ele é colaborativo, ele é integrado, ele é co-criado. E isso Isso muda. Isso muda as empresas”
Lyana Bittencourt
Ao entregar um cartão de visita é comum a empresária Lyana Bittencourt, CEO do grupo que leva o nome da família, ouvir seus interlocutores perguntando se foi o pai quem fundou a organização. “Foi a mãe”, responde com orgulho. Sim, foi Dona Cláudia quem, há 36 anos, abriu a empresa que presta serviço, orientação, conhecimento e estratégia de atuação para redes de negócios. E abriu, também, caminho para Lyana dar sequência ao trabalho que hoje atende cerca de dois mil clientes:
“Minha mãe deve ter vivido (essa situação) mais ainda, mas eu, quando eu ia para as reuniões, não tinha uma mulher disputando comigo, eram só empresas lideradas por homens. Meus principais competidos são liderados por homens. A nossa é a única feminina. E feminina em espírito”.
A despeito disso, ser uma referência como liderança feminina não é o seu propósito. Ao menos não é essa a intenção quando acorda pela manhã. Na entrevista ao Mundo Corporativo, da CBN, Lyana disse que o que busca é fazer o seu melhor trabalho, ter uma empresa admirada e ajudar os clientes a realizarem seus sonhos. Entende que ser líder é consequência de um bom trabalho. Como sugestão às mulheres – e homens, também – que pretendem assumir o comando dos seus próprios negócios, recomenda:
“Esse foi um aprendizado que tive com a minha mãe desde muito cedo. Ame aquilo que você faz, descubra algo que te faça acordar; e seja verdadeiro no que você faz. O mundo não tolera mais o fake, o disfarçado”.
E por falar em mundo … o desafio do momento é entender quais cenários permanecerão em pé depois da experiência que vivenciamos nesta pandemia. Lyana Bittencourt, que realiza consultoria especializada no desenvolvimento, gestão e expansão de redes, enxerga que as empresas terão de ser mais líquidas, flexíveis e adaptáveis. Terão de interpretar as demandas do consumidor omnichannel, que quer ser atendido da maneira que deseja, no local em que estiver e pelo meio que lhe convier. Ou seja, nem só físico nem só digital: figital.
“E se as empresas não estiverem atentas a serem essa solução completa que o consumidor deseja, elas vão perder para outras empresas que estão mais completas e mais onipresentes na jornada. Então, eu quero ser uma marca onipresente. Eu tenho que estar no celular do consumidor. Eu tenho que ter a loja. Eu tenho que ter o meu e-commerce. Eu tenho de ter meu market place”.
Assista ao Mundo Corporativo com Lyana Bittencourt, do Grupo Bittencourt, que fala de outras estratégias necessárias para as empresas estarem sintonizadas com o momento atual.
O Mundo Corporativo tem a colaboração de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Priscila Gubiotti e Rafael Furugen.
“O líder, hoje, tem que estar ligado com essas palavras, que são bonitas, mas tem que ser praticadas: compaixão e amor. Tem que entender a dificuldade dos outros e buscar soluções para a dificuldade dos outros”
César Souza
Se quiser copiar e colar a frase acima e publicar nas suas redes sociais, sem problema. Agradeço de coração! Agora, se for para copiar e colar fórmulas aplicadas por empresas de sucesso, muito cuidado. O alerta é de César Souza, empreendedor de nascença, consultor por profissão e um fã das boas práticas de gestão. Essa é uma das lições que aprendeu ao longo da carreira e compartilhou com os ouvintes, em entrevista ao Mundo Corporativo, quando falou do seu último livro “O jeito de ser Magalu”, o primeiro de uma série em que analisa a história, a estratégia e o desempenho de algumas das principais empresas brasileiras, que podem inspirar os empreendedores:
“Deve servir de inspiração para cada um olhar para sua realidade, e ver o que é que pode fazer dentro da sua própria realidade; e não, simplesmente, aquela ideia, já desbotada, do benchmark, que muita gente vai atrás para ver como é que funciona uma outra empresa para trazer, para copiar, na minha empresa. Eu acho que copiar não funciona”.
Magazine Luiza surge quando o casal Luiza Trajano e Pelegrino José Donato compra a Loja Cristaleira, em Franca, no interior de São Paulo, em 1957. Antes mesmo de inaugurar o novo negócio, Luiza revela uma característica que marcaria o grupo ao longo de sua trajetória: foi a uma rádio local e lançou concurso para que os ouvintes escolhessem o nome da loja. Essa prática está dentro do conceito que César Souza identifica como o da clientividade, que é “colocar o cliente no centro do seu modelo mental, no centro do seu coração, no centro das suas decisões”
Da ação no fim dos anos 1950 à expansão da rede, da loja do interior paulistano que se transformou em marca nacional à transformação digital, a Magazine Luiza passou por três sucessões —- o que, por si só, já é um tremendo desafio poucas vezes vencido pelas organizações, no Brasil. A fundadora Luiza Trajano entregou o comando para a sobrinha, Luiza Helena. Por um período, a empresa esteve nas mãos de um profissional de mercado, fora da família, Marcelo Silva, que fez a transição para Frederico Trajano, filho de Luiza Helena, e responsável pelo avanço tecnológico que levou a empresa a um outro patamar.
A sucessão exemplar é a primeira de cinco lições elencadas por César Souza que se deve aprender ao analisar a história da Magazine Luiza. Outra — e já falamos dela — é colocar o cliente no centro do negócio. A lista se completa com a paixão pelas pessoas e equipes, a tecnologia humanizada e o senso de propósito:
“A Magalu não é uma empresa grande é uma grande empresa. É uma neo empresa … as verdadeiras empresas do século 21. Porque ainda vemos empresas grandes aqui no Brasil que estão no século 20. A Magalu está em 2030. E tem capacidade de servir de exemplo para muitos empreendedores que estão começando os seus negócios”.
Para aprender com as lições ensinadas pela Magalu — sem precisas apenas copiar e colar —-, ouça a entrevista completa com César Souza, no Mundo Corporativo:
Colaboraram com este capítulo do Mundo Corporativo: Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Priscila Gubiotti e Rafael Furugen.
“O que ele busca é necessariamente um impacto na transformação das pessoas. Essa é uma das primeiras características do negócio social”
Anne Wilians, empreendedora social
A inteligência emocional pode ser aprendida e desenvolvida; e se assim o é, precisa ser exercida no cotidiano. A lógica que abre esse texto não é recente. Foi apresentada ainda nos anos 1990, pelo psicólogo e jornalista Daniel Goleman. Foi dele a provocação de que o QE fala mais alto do que o QI. Muito antes, ainda nos anos 1920, Edward L. Thorndike, já havia usado a expressão ‘inteligência social’ ou a capacidade de entender e motivar outras pessoas. Mas foi Goleman, quem popularizou o debate sobre o tema, em ‘Inteligência Emocional’, livro que vendeu aos borbotões mundo a fora.
A partir dos pensamentos de Goleman, muitas pessoas se inspiraram a trabalhar a autoconsciência, a auto-motivação, a capacidade de nos relacionarmos, a empatia e a consciência social. A advogada e administradora Anne Wilians certamente está entre as seguidoras desse californiano, nascido em 1946, como se percebe no projeto que realiza no Instituto Nelson Wilians, apresentado como o ‘braço social’ de uma das principais bancas de advogados do Brasil, que tem à frente o marido dela:
“Eu tenho que ter uma consciência social, de entender onde que eu tô inserida. Quais são as dificuldades do meio que eu tô inserida. O que eu posso agregar nesse meio; o que eu não posso”.
Anne Wilians é autora do livro “Empreendedorismo Social Feminino”, publicado em versão digital, uma espécie de caixa de ferramenta para quem pretende montar seu negócio, considerando que o foco de um empreendimento de caráter social é o impacto no desenvolvimento das pessoas e da comunidade. Em entrevista ao Mundo Corporativo, Anne diz que o propósito desse negócio tem de ser a transformação que o empreendedor pretende provocar, e para que isso se torne permanente, o negócio social tem de ser sustentável e de longo prazo. O lucro não deve ser o impulsionador da ideia, o que não significa que deva ser desprezado — é o que pensa Anne, agora inspirada em outro projeto que há 15 anos incentiva a criação de negócios sociais, no Brasil:
“A Artemísia, que é uma das grandes mestres que trouxe o negócio social para Brasil, fala que entre gerar impacto e ganhar dinheiro, fique com os dois”.
No Instituto, os programas oferecem conhecimento a homens e mulheres; enquanto no livro, Anne foca a necessidade de se abrir espaço para que elas sejam as protagonistas do seu próprio negócio. Entende que, com a pandemia, o mercado está mais sensível para empreendimentos sociais, mas ainda existe uma discrepância de valores. Segundo Anne, 95% dos investimentos estão concentrados em projetos liderados por homens.
“As mulheres são muito mais preparadas academicamente — a gente chega no nível de graduação, no nível de pós-graduação — mas ainda assim a insegurança não permite que a gente acesse alguns meios. Então, é preciso trabalhar com isso para que a gente consiga esse espaço”.
Trabalhar o conhecimento socioemocional de jovens até 29 anos — e aqui voltamos a Goleman — é um dos objetivos dos programas criados com parceiros de negócios, desde 2017, quando o instituto foi criado. Tempo suficiente para impactar cerca de 24 mil pessoas, nos cálculos de Anne. Ao longo desse tempo, a fundadora e diretora-presidente do INW, diz ter percebido que os jovens estão muito mais interessados na busca de soluções para os problemas que atingem suas comunidades e pensam de forma mais inclusiva:
“Eles estão muito mais sensibilizados. Você quando traz uma possibilidade de um negócio para um jovem, ele já, certamente, vai te oferecer uma solução social. Ele vai te trazer ideias e são ideias que têm transformação social incutidas nelas”
Assista à entrevista completa com a fundadora e CEO do Instituto Nelson Wilians, ao Mundo Corporativo.
Colaboraram com este capítulo do Mundo Corporativo: Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Priscila Gubiotti.
“Historicamente, eu me moldei a crise. Ela gera um primeiro impacto que deixa a gente muito ansioso, mas acho que na crise existe muita oportunidade. Basta a gente olhar com outros olhos que as coisas podem ser mais promissoras do que se imagina”
Gustavo Dal Pizzol, Top Shoes
A pandemia é um desafio coletivo. Uma crise sem dimensão. Há outros desafios que são individuais. E para esses, cada um faz uma conta. Gustavo dal Pizzol pôs na ponta do lápis: R$ 500 mil —- meio milhão de reais foi o valor da dívida que herdou da fábrica de calçados que o pai havia colocado no nome dele, lá no Rio Grande do Sul. Na época, com apenas 19 anos e esse legado, trocou Novo Hamburgo por Campo Bom, cidades próximas e de perfil industrial semelhantes. Levou R$ 7 mil na bolsa, vendeu uma moto, fez parceria com um estilista, e morou de favor por algum tempo.
Daquela dívida de meio milhão de reais, parcelada a perder de vista, restaram o aprendizado e a certeza de sua capacidade em superar dificuldades. Para Gustavo Dal Pizzol, 37 anos, CEO da Top Shoes Brasil Group, entrevistado do Mundo Corporativo, aquela experiência o ajudou muito a encarar a crise atual, que se iniciou com a pandemia, em março de 2020. Sem saber por quanto tempo os negócios seriam paralisados, Gustavo foi em busca de uma alternativa para a linha de produto que já desenvolvia. Precisava criar algo que atendesse a demanda do momento.
E a solução estava na cara (com o perdão do trocadilho)!
Ao entender que o uso de máscaras seria necessário, ele e sua equipe decidiram pesquisar opções para os produtos que estava no mercado. Experimentou as máscaras disponíveis, testou e descobriu que costumam ser pouco confortáveis para a atividade física.
“Fizemos um briefing de todos os atributos que me incomodavam muito nas máscaras. Por exemplo: a máscara tradicional machuca a orelha; principalmente para práticas de esportes. Quando comecei a ir para academia correr, eu não conseguia respirar direito. Então, pensei: preciso resolver esses e vários dramas que a máscara tem”
Problemas constatados, soluções discutidas e desenho realizado: foram 15 dias para dar início ao projeto com a equipe de marketing e produção. Máscaras com a marca da inovação que conquistaram os atletas olímpicos e parte dos times do futebol brasileiro. Foi o irmão, Tiago, diretor comercial, quem levou a ideia até o COB em contato feito pelo LinkedIn. O que têm de diferente: são atadas à parte de trás da cabeça, têm regulagem, permitindo melhor vedação, e exige que a passagem de ar seja feita pelo filtro. Foi desenvolvido, ainda, um suporte, impresso em 3D, para evitar que a respiração atrapalhe durante a atividade física. De acordo com Gustavo, já foram vendidas cerca de 3,5 milhões de máscaras:
“… e o momento que vocês lança uma nova ideia, já pensa no 360. Não investe somente numa área: desenvolvimento. Tem de investir em desenvolvimento, comercial e marketing. Ou seja, todos os pilares precisam andar de maneira conjunta, né? Porque senão ela fica desparelha E o negócio não prospera”.
Outro exemplo de como funciona a cabeça de empreendedor. Para não prejudicar suas linhas de produção, Gustavo voltou a aplicar o método de entender o problema e oferecer a solução. Com carência de mão de obra especializada, decidiu-se por investir em tecnologia e ter máquinas que permitissem a produção das mercadorias com maior velocidade e precisão. Hoje, mantém um parque industrial com 36 máquinas de impressão 3D, que produzem uma série de produtos “rodando 24 horas, sábado e domingo”.
“Eu tenho uma equipe muito maior na parte comercial, de serviço ao cliente e de desenvolvimento de produtos. Esses são os grandes mercados do futuro, porque a máquina não substitui o criativo. Nunca! Antigamente, nós tínhamos um excesso de pessoas na linha de produção e poucas pessoas pensando o produto. Hoje, nós temos uma grande quantidade de pessoas pensando o produto. Esse é o desenho futuro, não só da nossa, mas de qualquer outra indústria do futuro”.
Ouça a entrevista completa com Gustavo dal Pizzol, da Top Shoes, no programa Mundo Corporativo:
Colaboraram com este capítulo do Mundo Corporativo: Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e Rafael Furugen
“A sorte é o encontro da preparação com a oportunidade. Não adianta surgir a oportunidade se você não está preparado. Não adianta você estar no lugar certo, se você não for a pessoa certa para aproveitar, para agarrar as oportunidades”
Francisco Sosa, empreendedor
Antes de começar a descrever o que foi a entrevista com o Francisco Sosa, quero dizer ao caro e raro leitor deste blog que a sorte —- tema da nossa conversa —- foi protagonista da minha carreira. Portanto, não espere isenção de minha parte ao falar do assunto. Mais: depois que gravamos para o rádio (e ao vivo para a internet) o Mundo Corporativo, assumi em definitivo a palavra sorte na minha saudação de despedida que, até então, se restringia a “sucesso e saúde”.
Francisco é de Uruguaiana, fronteira com a Argentina e pertinho do Uruguai. Começou a trabalhar aos 11 anos, distribuindo panfleto na cidade. Aos 16, atuava com telemarketing. Aos 20, era sócio de empresa de treinamento e consultoria. Aos 35, é visto como um cara de muita sorte – é reconhecido pelo sucesso, também. Por isso, escreveu o livro “A arte de manipular a sorte — construa a sua própria história e prospere em todas as áreas da sua vida”, publicado pela Citadel.
Manipular? Aqui no Brasil, a palavra carrega conotação negativa e leva muitos de nós a torná-la substantivo de enganar, ludibriar, falsificar e adulterar. Francisco Sosa prefere destacar seus significados positivos. Para ele, manipular é moldar. Ou adaptar. Exercício que precisamos fazer diante das diversas situações que enfrentamos no nosso cotidiano até torná-las benéficas para nossa vida:
“As pessoas têm uma mania de achar ruim os desafios. Eu já acho bom. Eu acho legal ter desafios na vida, porque eu costumo dizer que o desafio é uma oportunidade que você tem de provar que você merece que algo bom aconteça para você no futuro”.
Foi ao aceitar o desafio que se apresentara que Francisco atingiu, em dois anos, o marco de R$ 1 milhão em comissionamento, através do marketing de relacionamento, mesmo sem nunca ter trabalhado neste ramo anteriormente.
Que sorte tem o Francisco! (atenção: esta frase contém ironia)
“Você acha que é só pra você que tem problema? Todo mundo tem desafio. Não é o que acontece com você e sim como você age em relação ao que acontece. E quando você aproveita esse desafio, às vezes, desenvolve uma característica que você não tinha, uma habilidade que você não tinha’
Mudar nosso comportamento diante dos desafios, acreditar em nossas escolhas frente a diversidade de opções que surgem em nosso caminho e dar toda a oportunidade possível para que a sorte se expresse em atos e resultados. Esses são alguns dos objetivos que Francisco Sosa traçou para sua jornada profissional.
“O mundo hoje está cheio de profissionais. A questão é quem realmente está com sede; quem tá com fome de crescer. Se você demonstrar isso , pode ter certeza: vai ter alguém que vai olhar para você e vai perceber isso. Daquela povo, vou ajudar esse cara. Vou ajudar essa menina aqui porque ela tá afim.”
Para entender como o Francisco Sosa manipulou a sorte em favor dele, assista à entrevista completa ao Mundo Corporativo, na CBN. Reflita sobre o tema, dê like e coloque o nosso programa entre os seus favoritos.
No mais, fica aqui a promessa de que um dia conto para você quanta sorte tive na vida e o meu desejo de que vocês tenha sucesso, sorte e saúde!
“As coisas funcionam quando as pessoas têm senso de pertinência e tem um norte comum, um algo comum”.
Eduard Folch, Allianz Seguros
Para muitos líderes, o desafio na pandemia foi o de manter o engajamento e preservar a cultura da empresa mesmo com seus colaboradores à distância. Para Eduard Folch, presidente da Allianz Seguros, um outro fator se somou a esse: em meio a turbulência mundial, a empresa comprou as operações de automóvel e ramos elementares da SulAmérica e se fez necessário acelerar o processo de fusão. Com todos os funcionários em home office, foi preciso investir em comunicação, treinamento e tecnologia. E contar com a intensa colaboração dos profissionais.
“Tem que somar pessoas com bondade de ensinar e pessoas com bondade de aprender. Quando você consegue que elas tenham norte juntas, que entendam que eu tenho que ensinar e eu tenho que aprender —, então, nós conseguimos fazer integração”.
Em entrevista ao Mundo Corporativo, Eduard disse que a antecipação dos cenários que o setor e a empresa enfrentariam com a Covid-19, no Brasil, permitiu que houvesse uma rápida adaptação, tanto do ponto de vista tecnológico como do comportamento das pessoas. Isso foi possível porque a Allianz tem operações em 70 países. E ele lembra que, em janeiro de 2020, esteve em uma reunião na Alemanha na qual os colegas da Ásia já não puderam comparecer. Com a troca de informações e experiência, a migração dos funcionários para o home office se tornou mais simples.
“Nós preparamos a tecnologia e, particularmente, trabalhamos muito fortemente o ‘call center’ porque é onde nós atendemos nossos clientes. Também preparamos nossos funcionários, que foram capazes de, desde casa, fazer todas as tarefas”
Além do fornecimento de infraestrutura tecnológica para as equipes trabalharem, Eduard destaca as iniciativas para tornar a comunicação mais eficiente. Sem a possibilidade da troca frequente de informação que o trabalho nos escritórios oferece, a empresa criou pontos de contato entre os diretores de áreas com cada um dos funcionários, semanalmente. Realizaram-se fóruns para que as ações da empresa, seus resultados e projetos pudessem ser ‘cascateados’ entre os diversos segmentos e chegassem a todos os funcionários, para que eles tivessem clareza sobre o que havia acontecido e o que iria acontecer nos meses seguintes:
“A comunicação no mundo virtual é muito diferente. Nós tentamos, no princípio, fazer lives com os corretores, com os funcionários, muito longas. Então, nós resolvemos fazer lives de 40, 45 minutos, porque o tempo que você consegue ‘full attention’ é 40 minutos”
Outro aprendizado foi a necessidade de se dar oportunidade para que os funcionário conversem com os líderes sobre temas que não estejam relacionados ao trabalho. Ao lado dessa estratégia, a Allianz desenvolveu um programa de assistência no qual os colaboradores poderiam ligar para buscar orientação sobre problemas psicológicos, econômicos ou mesmo de estrutura para trabalhar.
“As pessoas demonstraram uma grande responsabilidade, uma grande dedicação, uma grande atitude, com o que conseguiram que os negócios seguissem funcionando no home office”
A despeito dos bons resultados, Eduard não tem a ilusão de que o futuro seja o trabalho totalmente remoto. Entende que o encontro físico das equipes tende a melhorar a criatividade e os processo da companhia. O ideal, para ele, é que se busque combinar o que há de melhor nos dois modelos e se implante o sistema híbrido. Nesse momento, a empresa discute como será o retorno para o escritório considerando caso a caso dos cerca de dois mil funcionários que atuam no Brasil.
O que o dirigente não tem dúvida é o quanto a realidade do setor foi transformada pela digitalização. Diante da atuação do mercado segurador brasileiro —- que ele considerou madura, nesta pandemia —-, Eduard prevê maior eficiência, com ofertas simples que facilitarão as vendas dos parceiros de negócios e o entendimento e compra por parte dos clientes.
“Hoje o em um minutos, ou menos, em 45 segundos. o cliente consegue comprar uma apólice na Allianz; hoje, em menos de um minuto, você consegue declarar um sinistro e agendar uma vistoria”
Ouça a entrevista completa de Eduard Folch, presidente da Allizanz, ao Mundo Corporativo:
Colaboraram com este capítulo do Mundo Corporativo: Izabela Ares, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Débora Gonçalves.
“Da mesma forma que eu quero entender qual é a necessidade do meu cliente, eu quero entender a necessidade do meu funcionário”
Cleber Morais, AWS-Brasil
O clique para você ter energia na sua casa, que possibilita que a luz da sala acenda, é o que inspira os desenvolvedores da computação em nuvem. Se quando surgiu, era necessário armazenar energia em geradores e você dependia do combustível que mantinha aquele gerador ligado, com a evolução tecnológica a energia passou a ser distribuída e entregue na sua casa, bastando você clicar no interruptor da parede. Por trás da ideia da computação em nuvem está a mesma lógica. Em lugar de você ter de armazenar uma quantidade incalculável de informação e dados em seu ‘gerador’, com a tecnologia basta dar um clique para acessar todo esse arsenal.
Foi Cleber Morais, diretor geral da Amazon Web Services, no Brasil, quem fez essa relação para explicar o que é a computação em nuvem, ou qual é o negócio da AWS, o braço de serviços tecnológicos da Amazon. Na entrevista ao Mundo Corporativo, fomos além das nuvens. Ou aquém —- conforme o ponto de vista. Muito do que falamos estava ligado às relações aqui na terra, com clientes e com colaboradores:
“Eu acho que um pouco desse DNA nosso, que a gente chama de DNA de construtores, é que ajuda a fazer essa conexão entre as necessidades do cliente e a motivação e propósito da minha equipe para trabalhar com eles”.
Há 18 meses, a AWS está com seus profissionais trabalhando de forma remota; e mesmo sendo uma empresa de inovação tecnológica e com infraestrutura disponível, encarou desafios no momento dessa migração. Para Cleber Morais, um deles foi manter a equipe próxima, e para isso criou-se uma série de novas dinâmicas com atividades que incentivassem o relacionamento entre os líderes e suas equipes, a começar por cafés da manhã e happy hours virtuais. Mapeou-se as necessidades dos funcionários, também, já que cada um tinha demandas específicas conforme as condições de trabalho em casa.
Uma vantagem que Cleber identifica como tendo sido um facilitador neste momento —- seja na integração das equipes seja no atendimento aos clientes, que também enfrentavam dificuldades — é o sistema de trabalho que faz parte da formação da própria Amazon: a “regra das duas pizzas”. Uma ideia que surge do criador da empresa, Jeff Bezos, que consiste em ter equipes que jamais sejam maiores do que o número de pessoas que podem ser alimentadas adequadamente por duas pizzas grandes.
“Com times menores, você ganha uma flexibilidade maior. Em alguns desenvolvimentos que a gente faz, a mesma pessoa que desenvolve aquele produto é a que dá a manutenção, é a que continua responsável. Isso trouxe para nós um diferencial de velocidade muito forte e esse diferencial ele reflete na atuação nossa com o cliente”.
Aqui cabe um parênteses: apesar do destaque em relação a funcionalidade da equipe de “duas pizzas”, que o Cleber Morais nos apresenta, hoje, internamente, a Amazon evoluiu para um modelo que tende a ser ainda mais eficiente: o dos times de líder de segmento único (single-threaded leader), como explicaram Colin Bryar e Bill Carr, autores do livro, sem tradução para o português, Working Backwards: Insights, Stories, and Secrets from Inside Amazon . Mas isso é um outro papo.
Voltemos para nossa entrevista do Mundo Corporativo.
A AWS é quem desenvolve a computação em nuvem dentro da Amazon, mas está longe ter a empresa-mãe como única cliente. Um dos trabalhos que orgulham Cléber Morais, porque só foi possível explorando as possibilidades da computação em nuvem, é o que vem permitindo o desenvolvimento de startups brasileiras. O exemplo mais significativo é o do Nubank, fintech que nasceu em 2014 com a ideia de desburocratizar os serviços e produtos financeiros, e hoje tem valor que supera o tradicional e centenário Banco do Brasil.
“A gente conseguiu através da onipresença da nuvem, através de incentivos da nuvem, criar um mercado que a gente chamou de startup, criar empresas que hoje estão aí como Nubank, como a VTX, Como empresas que há sete anos, que é o caso do Nubank, iniciou com uma ideia e hoje é uma multinacional brasileira. Então, a gente é sim o grande habilitador da inovação para os clientes e, também, para um dos nossos clientes que é a Amazon, a gente também os ajuda”.
A VTEX, que o Cleber lembrou na resposta acima, é uma plataforma de comércio colaborativo, que integra comércio digital, marketplace nativo e recursos de gerenciamento de pedidos. Startup que cresceu 98% durante a pandemia e, em setembro do ano passado, transformou-se em mais um unicórnio brasileiro; portanto, sendo avaliada em mais de US$ 1 bilhão.
Analistas do setor calculam que o mercado de computação em nuvem vai crescer na faixa de 34% ao ano. Um segmento que deve acelerar ainda mais com a chegada da tecnologia 5G no Brasil que multiplicará de forma exponencial o número de dados e informações que circulam na rede. Transformar isso em número? Para Cleber é difícil calcular. Ele prefere lembrar alguns aspectos da nossa vida que são influenciados pelo uso da nuvem:
“Hoje, grande parte das transações de PIX passam pela nuvem, grande parte do e-commerce que é feito globalmente passa pela nuvem, transações bancárias, pedidos de delivery. A quantidade de dados é muito grande e nos permite viver esse novo normal com o qual nos acostumamos cada vez mais. Imagine ficar alguns segundos sem WhatsApp?”
Para quem trabalha com nuvem, como manter os pés no chão? Foi a pergunta que fiz logo no início da nossa entrevista — e no vídeo você ouve a resposta inicial de Cleber Morais. Uso o mesmo gancho para introduzir aqui neste texto um tema que faço questão de compartilhar com você: o hábito da meditação. Foi nesse exercício que Cleber buscou o equilíbrio para enfrentar a pandemia:
“Eu fiz um curso de meditação com a minha família, aprendendo algumas técnicas. E eu trouxe para o meu dia a dia, meditando, aprendendo a fazer minhas aulas de yoga e ginástica de maneira virtual. O executivo tem que ter muito esse equilíbrio para poder passar à liderança e passar a motivação para sua equipe”.
Investir na educação dos colaboradores e capacitar o mercado brasileiro são preocupações da AWS, de acordo com Cleber. Para os profissionais de uma maneira geral a empresa põe à disposição uma série de cursos que permite desenvolver o conhecimento sobre nuvem computacional.
Para os parceiros de negócio, a AWS tem avançado em programas específicos como o que está capacitando entregadores do iFood e mais de sete mil pessoas do setor de restaurantes para trabalhar e se beneficiar dos serviços em nuvem. A ideia central desses projetos e fazer com que as pessoas também possam, com um clique, ter acesso ao que há de mais avançado no tema.
Para saber mais sobre computação em nuvem e conhecer outras estratégias de relacionamento interpessoal nas empresas, assista ao vídeo completo da entrevista que fiz com Cleber Morais, da AWS:
Este capítulo do Mundo Corporativo teve a participação da Izabela Ares, do Renato Barcellos, do Bruno Teixeira, da Priscila Gubiotti e do Rafael Furugen.
“Depois da tempestade vem um arco-íris lindo e a gente tem que acreditar nisso. É a crença que se tem. É o desejo pelo menos que se tem”.
Caito Maia, Chili Beans
Contar histórias é importante —- vamos ver isso mais à frente neste texto que resume a conversa que tive com o empresário Caito Maia, da Chilli Beans, no Mundo Corporativo. Quero começar, porém, chamando atenção para outra lição aprendida nessa entrevista: ouvir histórias é fundamental.
Ouvir e entender a história do consumidor foi o que salvou a fabricante de óculos mais famosa do Brasil nesta pandemia. Com as pessoas confinadas em suas casas, olhos ainda mais focados na tela do computador e do celular, lendo livros e assistindo a mais televisão, aumentou a preocupação com a saúde ocular. Uma série de pessoas identificou dificuldades para enxergar, quase como se estivéssemos diante de uma epidemia de miopia.
Diante do exposto pelos clientes, coube a Caito Maia e sua equipe atender a essa demanda e mudar boa parte da linha de produtos da empresa, que surgiu há 25 anos e se consagrou pelos desenhos inovadores e modernos de seus óculos de sol, responsáveis por 80% das vendas. Com a pandemia e a nova necessidade dos clientes, óculos de grau já vendem tanto quanto os de sol:
“Dobramos a exposição de grau, contratamos a Isis Valverde, fizemos uma campanha em rede nacional, fizemos treinamento, e foi esse o motivo que a gente cresceu, ganhou market share em grau, e foi isso que nos salvou”.
Não só isso. Dar sequência a programas inovadores e investir na educação de seus franqueados e colaboradores também ajuda. E muito. Só o treinamento e o ensino conseguem, por exemplo, fazer com que aquele vendedor, acostumado ao atendimento mais descolado do quiosque, se transforme para receber o consumidor que chega na Ótica Chille Beans com uma receita em mãos:
“A educação não está só diretamente relacionada em técnica de venda e, sim, em técnicas de saber como que é o ser humano, onde ele que ir. De entender essa geração nova, e dar voz pra gente crescer junto”.
Os treinamentos ocorrem em uma universidade corporativa da própria Chilli Beans que, no ano que vem, pretende abrir suas portas para comunidades carentes e pessoas que vivam em situação de fragilidade social. Caito Maia diz que será criado o instituto de empreendedorismo para exportar a diferentes públicos o conhecimento desenvolvido na empresa:
“A gente vai pegar, por exemplo, as baianas que vendem acarajé. Será que estão comprando camarão de mais? Então, a gente vai ensinar essa pessoa a ganhar dinheiro, porque ela não tem onde aprender. E a gente vai ensinar”.
Antes de olhar o ano que vem, deixe-me falar sobre o ano que passou, porque pelo que Caito nos conta, foi um ano em que os desafios enfrentados trouxeram muita inovação para o negócio — e não apenas na linha de produtos. A Chilli Beans teve de investir no comércio eletrônico e encontrar solução para um problema próprio de quem vai comprar óculos: como experimentar no virtual? A resposta foi a criação de uma tecnologia 3D na qual ao clicar no produto é possível ver o seu rosto, ao vivo, com o modelo escolhido.
A venda pelo Instagram foi outro avanço que surgiu nesse período de dificuldade. Há dez anos, a empresa permitiu que todos seus franqueado criassem páginas na rede social o que proporcionou uma comunidade de até 3 milhões de seguidores. Eram páginas, porém, que serviam apenas para divulgar o produto, mas sem vender no online. Todos esses perfis foram transformados em páginas de venda, permitindo que o cliente, com acesso ao estoque da loja, possa receber um óculos em até duas horas.
Seja pelo otimismo e vigor que sempre mostrou na gestão de seu negócio, seja pelos resultados que alcançou a despeito das dificuldades que enfrentamos no último ano e meio, Caito enxerga um futuro promissor:
“Veja o que aconteceu com o mundo depois da Segunda Guerra Mundial: marcas se lançaram — marcas radicais que têm até hoje, que aconteceram. Eventos, festas. Teve uma euforia. E eu acredito muito nessa euforia depois de tudo isso que a gente tá vivendo. (Eu acredito) em um mundo melhor porque a gente tá saindo melhor do que a gente entrou, porque as pessoas estão com mais consciência de tudo”.
Uma certeza é de que após esse período, Caito e sua Chillin Beans terão muito mais histórias para contar, porque —- como ensaiei na primeira frase deste texto — essa é uma prática importante, que sempre pautou as ações da empresa. O próprio empresário lembra da experiência que teve com Rita Lee. Nossa querida cantora contou para Caito que, ao longo da vida, teria visto quatro discos voadores. Uma história incrível que ele pediu para que ela reproduzisse em desenho. Desse desenho surgiu uma linha de óculos de sol, que virou um sucesso porque, segundo o empresário, as pessoas não compram apenas um óculos, compravam a história que estava por trás dele:
“Conte a história do seu produto. Pare de ficar vendendo preço, desconto. Faça uma pesquisa no teu produto, veja o que tem de história por trás e conte essa história ao cliente. Potencialize isso que isso vai te dar valor agregado. Vai te dar mais margem. E vai e você não vai ficar brigando por desconto. Você vai virar marca”.
Assista à entrevista completa de Caito Maia ao programa Mundo Corporativo
Este capítulo do Mundo Corporativo teve a participação de Izabela Ares, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Priscila Gubiotti.
“Não adianta chamar para festa, tem que convidar para dançar. E eu acho que diversidade é muito sobre isso. Chamar para festa é a parte de contratação; convidar para dançar é a parte de manutenção dessas pessoas aqui dentro da empresa”.
Manoela Mitchell, CEO Pipo Saúde
Única mulher em uma mesa de reuniões do fundo de investimento em que trabalhava, a economista Manoela Mitchell percebeu que mesmo tendo voz não havia ouvidos à sua disposição. No escritório, os colegas não escondiam o preconceito de gênero, e sempre se mostravam mais à vontade em dar atenção a alguém que se parecesse com eles. Apesar de o comportamento fazer parte daquele ambiente desde que chegou por lá, ainda muito jovem, as cenas ficaram mais explícitas a medida que Manoela amadureceu profissionalmente —- “quando fiquei mais velha”, foi a expressão que usou na entrevista ao Mundo Corporativo; que me soou estranha considerando que ela tem apenas 29 anos.
Lição aprendida, Manoela abandonou o mercado financeiro, uniu-se a Vinicius Corrêa, também economista, e Thiago Torres, desenvolvedor, e fundou a Pipo Saúde, uma corretora de benefícios que usa tecnologia e se apoia em dados para auxiliar o setor de recursos humanos das empresas na gestão de saúde dos colaboradores — consta que só no ano passado derrubou em 20% os custos de seus clientes com planos de saúde. Na empresa em que atua como CEO, Manoela assumiu a missão de ser uma indutora de ações em favor da diversidade no mercado de trabalho:
“… mas eu tive um despertar muito mais verdadeiro, também, depois que eu me reconheci como pessoa LGBTQiA+. Então, como uma mulher lésbica, hoje casada com a minha esposa, eu acho que isso também passou a ser uma pauta muito mais importante na minha vida, né? Então, acho que esse levantamento dessa bandeira e a importância disso vieram há seis anos de maneira mais forte”.
Atualmente, a Pipo Saúde tem 60% de profissionais mulheres; 40% são negros e pardos; 30% se identificam como LGBTQiA+; e 7% são trans. Não era assim lá no início, quando foi criada. Em 2019 …
… curioso porque tudo que se ouve da história de Manoela Mitchell é tão recente quanto intenso …
… eram de 10 a 12 pessoas trabalhando na startup, quase todas brancas, homens e heterossexuais. Assim que identificaram esse padrão, os fundadores assumiram o compromisso com a diversidade, conversaram com organizações que levam para o mercado de trabalho pessoas de grupos minorizados, montaram vagas dedicadas e criaram um modelo de processo seletivo para eliminar a influência do viés inconsciente:
“No processo seletivo, eles não vão para esse lado da empatia com aquilo que eu sou. Fazemos perguntas mais neutras. Evitamos ver o currículo. Eu foco mais no questionário, nas perguntas e nas respostas. E a gente passou a contratar várias pessoas diversas, principalmente no começo de 2020”
E se é preciso convidar para dançar, como se diz no lema que já virou lugar-comum nas conversas sobre diversidade no Mundo Corporativo, a Pipo Saúde, ao chamar trans, pretos, pardos e outras pessoas com perfis diversos daqueles que costumam estar nas empresas, investiu em ações para que esses profissionais tivessem lugar de fala. Mas não só de fala. Até porque, como já contamos, Manoela Mitchell aprendeu lá no início da sua carreira, que não adianta dar voz, tem de oferecer a escuta, pois somente assim a empresa, seus gestores e colaboradores aprendem a tratar todos da melhor maneira possível.
“Diversidade não é uma bandeira que se levanta. É uma coisa que passa a fazer parte do DNA da empresa. Só assim, você, de fato, cria uma empresa que vai ser diversa, que vai trabalhar essa pauta ao longo do tempo. Esse para mim é um ponto fundamental. Não dá para pensar: agora eu vou trabalhar para a diversidade; agora eu vou olhar para outra coisa. Eu tenho de olhar de maneira constante; e pensar em diversidade em vários momentos do funcionário dentro da empresa”
Tem muita pesquisa que ilustra com números as vantagens que as empresas têm do ponto de vista produtivo, criativo e financeiro quando criam ambientes inclusivos. Mas vamos ficar apenas com os resultados da Pipo Saúde para entender o quanto a diversidade pode oferecer de ganhos ao negócio.
Em agosto deste ano, a empresa, que tem mais de 100 clientes empresariais, anunciou o aporte de R$ 100 milhões, liderado pela Thrive Capital. Dizem os registros oficiais que esse foi o maior investimento em rodada séria A de qualquer healthtech e o maior já levantado por uma mulher no Brasil. Fui, então, saber o que significava isso e descubro que “série A” é a rodada de investimento que foca startups que têm um modelo de negócios e um mercado de atuação bem definidos. O dinheiro chega para impulsionar a escala de produção, otimizar a distribuição de produtos e serviços e expandir a atuação da empresa no mercado. Um mês depois do depósito feito, a Pipo lançou um seguro de vida empresarial próprio.
O investimento também servirá para ampliar o número de colaboradores da startup. Então, preparem-se, vem mais diversidade por aí.
Assista à entrevista completa com Manoela Mitchell, CEO da Pipo Saúde em que também falamos sobre tecnologia, inovação e gestão na área de saúde das empresas:
Neste capítulo, o Mundo Corporativo contou com a colaboração de Izabela Ares, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Priscila Gubiotti
“Empreendedor não tem nada de romântico. Empreendedor, o que eu costumo dizer, é GSS — é gastar sola de sapato”.
Camila Farani
A primeira meta com a qual se comprometeu, não alcançou. O que não significa que a frustração a tenha impedido de seguir em frente. Até porque sua chefe percebeu o esforço que fez para chegar onde havia prometido e decidiu pagar-lhe uma parte do lucro alcançado. A funcionária que assumiu o risco ao propor inovação no cardápio de uma cafeteria era Camila Farani. A chefe era a mãe dela. Essa história em família marcou o início da carreira de uma empreendedora que hoje se dedica a investir em novos empreendedores.
Camila é sócia-fundadora da butique G2 Capital e uma das maiores investidoras-anjo do Brasil, que ganhou popularidade como jurada da versão brasileira do programa Shark Tank, do canal Sony. Na entrevista ao Mundo Corporativo, ela contou o caso vivenciado aos 20 anos para explicar o primeiro gatilho que teve no sentido de enxergar a carreira a seguir. A mãe aceitou premiá-la a despeito de não ter conseguido aumentar em 30% o faturamento da loja de café. Primeiro porque o resultado ficou bem próximo —- o aumento foi de 28%. E, segundo, porque aquele foi o primeiro aumento nominal registrado pela loja em quatro anos de funcionamento:
“Foi aí que eu tive a certeza que, se eu fizesse um benchmark ou olhasse o que estava acontecendo no Brasil, no mundo, nas redondezas, e eu fizesse diferente, mas que eu tivesse atitude para implantar, porque senão seria só uma sonhadora, eu podia fazer alguma diferença. E esse foi meu primeiro gatilho empreendedor”.
Foram necessários outros tantos anos para que o aprendizado sobre empreendedorismo a transformasse em um sucesso. Antes disso, novas frustrações surgiram na jornada de Camila. Uma delas foi entre 2015 e 2016, quando estava disposta a desistir de levar a diante a rede de cafeteria que havia criado, a partir daquela experiência em família. Foi o bate-papo com uma amiga e atleta profissional de esgrima que a impediu de abandonar aquela carreira.
“Camila nós atletas, a gente, sempre está competindo; a gente está sempre machucada de alguma forma; com alguma lesão e a gente compete mesmo assim”
Foi o que Camila ouviu da amiga e a convenceu a seguir em frente. Também foi uma das inspirações para escrever o livro “Desistir não é opção — o caminho mais rápido entre a ideia e os resultados se chama execução” (Editoria Gente). O livro é resultado de um movimento que lançou no início da pandemia, usando a força de seu nome em rede social, e mobilizando 720 mil empreendedores
“Eu peguei a câmera e falei assim: é o seguinte, você que tá aí pensando em desistir, eu vou falar para você que desistir não é uma opção para gente, porque você, agora que é empreendedor, agora é o momento de você falar a que você veio”.
Na conversa com outros empreendedores, Camila fala de estratégias que precisam ser consideradas na abertura de um negócio e de riscos que existem nessa jornada. Como se percebe na frase que abre este texto, Camila faz questão de desmistificar a imagem do empreendedor ao ratificar a ideia de que não se deve romantizar a atividade. Diz que, primeiro, é preciso evitar o que identifica como “egolândia” do empreendedor; segundo, estar atento aos números, sem ser aficcionado neles, para que esses não o impeçam de adotar medidas necessárias; e, terceiro e mais importante, é você deitar a cabeça no travesseiro e se sentir realizado.
“A gente fala sobre felicidade, de fazer o que gosta. Acho que há. momentos em que você vai, inevitavelmente, fazer o que você não gosta, vai estar em posição que você não quer … A gente não pode fazer o que a gente gosta 150% do tempo. Eu tenho a responsabilidade de mostrar às pessoas os desafios para empreender para que achem que é fácil, porque é difícil pra dedéu”.
Para a entrevista ao Mundo Corporativo, Camila deu a entender que teve de interromper um desses trabalhos chatos do empreendedor, em especial aqueles que como ela têm a responsabilidade de avaliar cuidadosamente as propostas de negócios, as ideias em desenvolvimento e os projetos de empresas que aparecem sobre a mesa. Sabe que a vida nem sempre será o glamour que assistimos no programa de televisão em que participa, com iluminação própria, cabelo bem feito e maquiagem irretocável. Tem de estar com o pé no chão (ou em cima da mesa, como ela descreveu a cena antes de iniciar a gravação) e o olho nos dados e informações. Foi assim que construiu o portfólio da G2 que hoje tem cerca de 40 startups investidas, em um total de R$ 35 milhões, e a fama de ser a melhor investidora-anjo do Brasil. Muito de tudo isso resultado de algo que ela identifica ser uma das suas característicasL a inquietude.
“Então, o segredo da inquietude é que a inquietude ela vai nos levar a lugares onde os acomodados nunca vão estar. É a gente usar a inquietude, né, não como uma forma negativa. Porque a inquietude ela vai te levar aquele lugar. Agora, é óbvio que você tem que pegar ela, drenar essa energia positiva que você tem e drenar para os seus objetivos. E foi isso que eu fiz”
Antes de voltar aos seus projetos, Camila deixou três dicas para quem pretende crescer como empreendedor —- seja naquela papel tradicional de quem toca uma empresa ou realiza um serviço, seja sendo protagonista da sua própria carreia como profissional dentro de uma emrpresa:
Você não sabe tudo
Você não tem como executar tudo ao mesmo tempo
Você precisa ter humildade para entender que a vida é “dia a dia”.
Assista ao Mundo Corporativo com Camila Farani:
O Mundo Corporativo pode ser assistido às quartas-feiras, 11 horas, no site, no Youtube e no Facebook da CBN. O programa vai ao ar aos sábados, às 8h10 da manhã, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo.