Conte sua história do rádio

 

Por Milton Ferretti Jung

 

2472747001_2466340fbd_z

 

Sou fã de carteirinha do Conte Sua História de São Paulo. Não se trata de corujice do pai do Mílton. Não perco os textos que ele posta com este nome no seu blog. Caxiense por nascimento e porto-alegrense por adoção,as pessoas de outros estados do Brasil e mesmo estrangeiros que desembarcam em SP,em geral,ainda crianças,têm sempre boas histórias para relatar dos seus primeiros anos na capital paulista.

 

Nestes tempos em que,por motivos para lá de importantes, as mídias de toda espécie estão voltadas para os escândalos protagonizados por políticos e/ou funcionários governamentais,meus textos pareceriam ter virado samba-de-uma-nota-só,contaminado pela fartura de notícias do mesmo tipo. O Mílton que me desculpe,mas me obriguei a dar um tempo nos textos das quintas-feiras que escrevo,normalmente,no blog por ele capitaneado.

 

Talvez meu débito com o Mílton,quem sabe o único leitor das páginas que posto neste blog,aumentaria consideravelmente,se eu não tivesse lido o mais recente episódio do Conte Sua História de SP. Encontrei analogias entre a chegada de Dina Gaspar – este o nome dela – e a minha infância, apesar de a menina assustada com os estranhos barulhos que ouvia ao ter de entrar naquela que seria sua segunda casa, ”agarrava-se fortemente ao pescoço da prima Ercília visando a não entrar no seu novo lar”.

 

Dina não deixava de ter razão. Os autores da barulhada sequer falavam a sua língua. Afinal,ela vinha de uma “pobre aldeia argentina”. E o barulho soava,contou,como perigo iminente. Mal sabia que estava – palavras dela – sendo apresentada ao rádio,”aquela caixa de madeira escura de uns 60cm x 40cm”. Adorei a frase de Dina Gaspar no seu texto:”No mundo infantil não existiam apenas vozes sem corpo”. Não deixava de estar certa.

 

Dina Gaspar,se a minha matemática não está errada, diz no belo texto que escreveu, ”que, dessa intensa e intrincada vivência, os 70 anos seguintes nos mudaria a ambas: a mim e a São Paulo!”.

 

Falei na minha analogia com Dina porque,apesar dos 10 anos de diferença entre nós,na casa paterna,em Porto Alegre,de certa forma descobrimos, ainda muito cedo, que o rádio não faz mal a ninguém. Bem pelo contrário. Ouvi rádio desde pequeno, depois já adolescente. Meus avós,que moravam conosco,eram pagos para controlar se,no rádio,os anúncios de determinadas firmas íam ao ar nos horários combinados. Foi em um serviço de rádio escuta desses que tomei conhecimento de que uma pequena emissora havia aberto testes para candidatos a locutor. Fui um dos três que passaram no teste na Rádio Canoas.

 

Muito mais longe de sua casa paterna foi o Mílton Jr. que,com uma feliz combinação entre nós,passou a ser conhecido com Mílton Jung. Mais corajoso que o pai,ele fez teste na TV Globo. E passou. Acho que a história dele em São Paulo bem que poderia ser contada pelo próprio.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Escreve às quintas-feiras no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Entrevista: o rádio, o jornalismo e o jornalista na era da internet

 

O rádio e o jornalismo na era da internet foi tema da entrevista que concedi para a agência de comunicação Printer Press, na qual realizei palestra destacando as novidades neste veículo e os novos caminhos da notícia.

 

Na primeira parte da conversa com a jornalista Daniella De Caprio, falamos sobre a forma como o veículo se adaptou às novas tecnologias e a relação dos profissionais de rádio com as assessorias de comunicação:

 

 

Na segunda parte da entrevista, tratamos de demandas do novo jornalismo e como estudantes que estão querendo investir neste mercado e profissionais que se iniciam na carreira podem se preparar melhor para encarar os desafios da profissão:

 

No jornalismo, você procura ouvir quem sabe mais do que você, ensina Zuenir Ventura

 

Zuenir Ventura na Bienal

 

A eleição de Zuenir Ventura para a Academia Brasileira de Letras, semana passada, me permitiu duas alegrias. A primeira de ver um dos meus escritores favoritos elevado à condição de imortal. De 1968:o ano que não terminou à Cidade Partida, passando por Sagrada Família e Inveja:Mal Secreto, todos seus livros me conquistaram não apenas pela história contada, mas pela forma como os fatos são descritos, a precisão na informação e a riqueza do texto. Gosto entre tantas outras coisas da definição divertida que tem para jornalista – um cara que não sabe nada do que fala, mas conhece quem sabe. Não é bem esta frase, mas a ideia é a mesma. Se quiser copiá-la ipsis litteris não deixe de ler Inveja:Mal Secreto, livro que integra a coleção sobre os sete pecados capitais. Aproveite e compre Gula:O Clube dos Anjos, de Luis Fernando Veríssimo, que é da mesma série. São deliciosos. Coincidentemente (ou não), ambos são jornalistas.

 

Antes que me perca pelo deslumbramento com o autor, vou logo à segunda alegria: a possibilidade de entrevistá-lo, no quadro Time das Oito – Sexta Especial, do Jornal da CBN. Na véspera, Zuenir havia enfrentado uma maratona de cumprimentos que mexeu com seu coração a ponto de obrigá-lo a fazer exames à noite em um hospital, quando descobriu que estava firme e forte para encarar a imortalidade recebida aos 83 anos. Um susto que acabou em pizza e vinho em um restaurante carioca, segundo nos contou. Na sexta-feira pela manhã, atendeu nossa ligação pouco antes de sair para a caminhada matinal na praia e se prontificou a atrasar sua programação para conversar conosco no ar. Zuenir é daqueles entrevistados que deixa o entrevistador à vontade, apesar de seu alto saber. Quem ouve, pensa que são amigos conversando, quando, na realidade, minha intimidade com ele se dá pelos livros que guardo carinhosamente na biblioteca.

 

Dos muitos assuntos que o pouco tempo me permitia abordar, tive a curiosidade de saber a opinião dele sobre o texto jornalístico, preocupação que tenho especialmente quando se refere ao que escrevemos para ser lido no rádio. Zuenir, claro, se ateve mais ao texto impresso, pois esta é a sua origem, e alertou para o que chama de processo perigoso que estamos enfrentando devido a influência muito grande da narrativa da internet, que muda a forma de as pessoas se expressarem devido a velocidade da escrita, que faz desaparecer vogais e provoca uma redução da linguagem. Apesar do medo de que isso contamine o texto, ressalta que nunca se leu nem se escreveu tanto como agora: “e você só aprende a escrever, escrevendo”.

 

Como todo entrevistado inteligente, não se resume a pergunta do entrevistador, pois sabe conduzir a conversa para os temas que entende ser interessante ao público. Assim, ao terminar de falar da influência da internet no texto jornalístico, fez a ponte para a influência da internet no jornalismo. Para ele, as pessoas hoje registram um fato e o publicam em blogs e redes sociais acreditando que estão, assim, praticando o jornalismo. “Jornalismo é apuração, investigação, é usar o saber do outro (…) no jornalismo você estuda. Quando você faz uma matéria tem uma hierarquia do saber, você se informa sobre a matéria, procura ouvir quem sabe mais do que você”.

 

Poucos sabem tanto sobre jornalismo quanto Zuenir Ventura, o imortal.

 


Ouça a entrevista com Zuenir Ventura, que foi ao ar no Jornal da CBN, no dia 31 de outubro de 2014

 


A foto deste post é do álbum de Julio César Mulatinho, no Flickr

Em novo livro, Ferraretto diz que o rádio “sintonizado com o presente, prepara-se para o futuro”

 

image006

 

Além de ter nascido no Rio Grande do Sul, compartilho com o professor Ferraretto o mesmo gosto pelo rádio. Ele, porém, vai muito além, pois é profundo pesquisador do veículo e autor de várias obras sobre o tema. Está lançando Rádio – Teoria e prática (Editora Summus) que, com certeza, contribuirá para entendermos mais sobre as estratégias necessárias para manter este meio de comunicação atualizado com as demandas da sociedade. Por confiar no que ele faz e compartilhar de muitas de suas ideias, reproduzo a seguir o material de divulgação do livro e espero ter, em breve, o prazer da leitura de mais este trabalho com a assinatura do mestre Ferraretto:

 

O professor e jornalista Luiz Artur Ferraretto apresenta no livro Rádio – Teoria e prática os principais padrões para a produção de conteúdo em um meio que se adapta às novas tecnologias. Do que é o rádio hoje, passando por uma detalhada explanação a respeito da linguagem do meio, ao planejamento da programação e à produção de conteúdos, a obra aborda temas como locução, sonoplastia, redação jornalística, produção de conteúdo, reportagens e entrevistas.

 

O rádio é o meio de comunicação mais popular do Brasil. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), está presente em 88% dos domicílios brasileiros. Além disso, de acordo com a Agência Nacional de Telecomunicações, 267 milhões de aparelhos celulares constituem um receptor em potencial e 36% dos internautas brasileiros ouvem rádio em tempo real enquanto estão conectados, segundo o Comitê Gestor da Internet no Brasil. Mas como produzir conteúdo de qualidade para esse meio numa era de transformações tecnológicas cada vez mais velozes? No livro Rádio – Teoria e prática (272 p., R$ 78,10), lançamento da Summus Editorial, o professor universitário e jornalista Luiz Artur Ferraretto reúne anos de pesquisa e de atuação profissional voltada para o rádio. Dicas de redação, gráficos e ilustrações tornam a obra especial para jornalistas, radialistas, publicitários, profissionais de áreas afins e estudantes desses campos.

 

Trata-se da mais completa e atualizada obra produzida no país a respeito de rádio. Sem descuidar dos conceitos básicos e das transformações provocadas, em especial, pela internet e pela telefonia celular, o autor apresenta em linguagem clara e didática as principais informações para que o profissional – seja ele recém-formado ou não – enfrente o cotidiano de uma emissora de rádio. “Neste século 21 de tantas tecnologias e, por vezes, de poucas humanidades, o rádio constitui-se por natureza, e cada vez mais, em um instrumento de diálogo, atento às demandas do público e cioso por dizer o que as pessoas necessitam e desejam ouvir em seu dia a dia. Tudo de forma muito simples, clara, direta e objetiva”, diz o professor.

 

Partindo do funcionamento das emissoras nos dias de hoje e passando por uma detalhada explanação a respeito da linguagem utilizada no meio, o livro aborda ainda o planejamento da programação e a produção de conteúdos para que o profissional possa enfrentar o cotidiano de uma emissora de rádio, considerando ainda novos protagonistas, como web rádios e podcasters. É uma ferramenta de trabalho com informações sobre apresentação e locução, sonoplastia, redação jornalística, produção de conteúdo falado ou musical, reportagens, entrevistas, opinião, cobertura esportiva, documentários, programas especiais, spots, jingles e muito mais.

 

“É uma obra para acompanhar estudantes e profissionais em seu dia a dia, aliás, como o próprio rádio faz em relação aos ouvintes”, diz o autor. Em sua avalição, as novas tecnologias, abordagens conceituais e demandas do público surgidas e/ou consolidadas na primeira década deste século fizeram que o rádio se modificasse em alguns aspectos, embora suas características básicas tenham sido mantidas. Porém, o cenário de atuação profissional de fato se alterou e as técnicas empregadas evoluíram.

 

Sem perder de vista a ímpar e rica trajetória das emissoras brasileiras, Ferraretto parte do pressuposto de que o rádio segue tendo importância e vigor nessa nova era. Adaptado aos tempos modernos, o meio ocupa um espaço valioso no cotidiano e no imaginário de milhões de ouvintes, que têm nele um insubstituível companheiro. “A era do rádio continua sendo a de cada minuto em que ocorre a transmissão”, complementa.

 

Com o objetivo de ensinar novas gerações de profissionais, é exatamente sobre isso de que trata o livro. “Do bom rádio, aquele que, seja no velho aparelhinho transistorizado, na internet ou no celular, acompanha o ouvinte, fornece-lhe informação, proporciona entretenimento, conversa. Do rádio que se adapta, se renova e segue ocupando um lugar especial. E que, sintonizado com o presente, prepara-se para o futuro”, conclui Ferraretto.

 

O autor

 

Luiz Artur Ferraretto é professor da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre. Formado em Jornalismo pela mesma instituição, onde também concluiu o mestrado e o doutorado, integra o Grupo de Rádio e Mídia Sonora da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom). Com a jornalista Elisa Kopplin Ferraretto, escreveu Assessoria de imprensa – Teoria e prática (Summus, 2009). Autor de diversos livros e colaborador de inúmeras antologias, publica artigos em revistas científicas da área. Concentra suas pesquisas na história e no futuro dos meios de comunicação, em especial analisando a indústria de radiodifusão sonora.

A notícia que está na editoria do “Deus, eu não acredito!”

 

Para comemorar os 23 anos da rádio, a CBN abriu o seu microfone aos ouvintes-internautas, que foram convidados a fazer perguntas aos comentaristas, repórteres, âncoras e toda a nossa equipe de jornalistas. Muitas mensagens foram enviadas nos últimos dias, as perguntas foram selecionadas e, hoje, durante todo o dia, na programação da CBN, nós ouvimos os ouvintes que, assim, pautaram as discussões, interferiram nos temas e influenciaram na produção de nosso trabalho. Fui contemplado com a pergunta de Ademar Matsuoka, de Valinhos, interior de São Paulo, que estava interessado em saber qual a notícia que eu gostaria de anunciar e qual anunciei e disse: “Deus, eu não acredito!”

 

Em 30 anos de jornalismo, imagine a quantidade de notícia que eu já transmiti. Só de CBN são quase 16 anos. Uma pergunta como essa exigiu um exercício de memória e, durante o Jornal, desta quarta-feira, pedi ajuda aos ouvintes para que eles dissessem qual notícia gostariam de um dia ouvir na rádio. A maioria sugeriu o anúncio da cura de doenças graves como o câncer, vacinas para prevenir da AIDS, evitar o EBOLA. Muitos, embalados pela discussão eleitoral, sonham com o fim da corrupção. E eu concordo que qualquer uma delas seria excelente notícia. Até fiz agreguei mais uma sugestão: o desenvolvimento de um remédio do bom senso que impediria boa parte das barbáries que temos no mundo.

 

Como tudo isso é muito utópico, aproveite a pergunta do Ademar para relembrar uma notícia que adorei contar para o público, na época em que trabalhava como narrador esportivo da Rede TV!.

 

A pergunta do Ademar e a minha resposta, você confere a seguir:

 

Menos rádio em casa, mais ouvintes nas cidades

 

19502dmale

 

A PNAD, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, divulgada semana passada, trouxe a informação (que não precisou ser revisada) da queda no número de moradias com rádio, que passou de 80,9% em 2012 para 75,8% para 2013 – queda decorrente das mudanças tecnológicas, segundo o IBGE. O índice 5,1 ponto percentual menor não significa que estamos ouvindo menos rádio, apenas que estamos ouvindo a programação de rádio em outros equipamentos e formatos, como escrevi recentemente ao ser convidado a falar sobre mudanças percebidas no decorrer dos últimos dez anos:

 

Nas redações, as notícias chegavam em grande velocidade já impactadas pela tecnologia digital. A internet fazia parte do nosso cotidiano apesar de a maioria dos veículos ainda estar tateando as possibilidades que estas ofereciam. Os portais de notícias, mesmo insustentáveis financeiramente, já eram realidade com suas redações tomadas de jornalistas, desenvolvedores de conteúdo, designers, técnicos em mídias digitais e outras especialidades. Sabia-se pouco mas se arriscava muito. Foi em 2004 que fui trabalhar no Portal Terra apresentar o Jornal do Terra, onde o investimento em jornalismo de internet era grande e a experiência de jornalistas das mídias tradicionais se misturava a de profissionais nascidos na era digital.

 

Rádio, televisão, jornal e revista experimentavam soluções na internet em um momento no qual as redes sociais ainda eram desconhecidas. O já falecido Orkut, a primeira rede a proporcionar o relacionamento de milhões de internautas e a dar oportunidade para a construção de comunidades digitais, estava se iniciando, foi inaugurado em janeiro de 2004. Naquele momento, as revistas semanais já percebiam a necessidade de estar presente nos computadores dos brasileiros pois não havia mais espaço para guardar notícias para o fim de semana. As emissoras de televisão migravam seus conteúdos para a internet, mas transmissões ao vivo neste meio não eram comuns como atualmente.

 

Ouvir rádio na internet já era comum, no celular ainda não. Conectava-se algumas emissoras no computador de mesa ou no notebook, porém a mobilidade ainda não estava presente no dia a dia do brasileiro. A conexão do rádio no celular acontecia apenas em aparelhos que captassem sinal de FM. A transformação do celular em rádio porém estava se iniciando e me permitia enxergar que ali estaria nosso futuro. No livro Jornalismo de Rádio, lançado em 2004, pela editora Contexto, já previa a disseminação desse aparelho que atualmente bate a casa dos 50 milhões, no Brasil. 50 milhões de smarthphones. 50 milhões de rádios. Também percebíamos que não bastava mais ter apenas programação no ar, tínhamos de oferecer produtos em podcast, colocar câmeras dentro do estúdio e produzir programas em vídeo. Foi, naquele ano, que ouvi do jornalista Alberto Dines me dizer, na redação do Portal Terra, que “o rádio é mídia do futuro”. O rádio estava começando a viver o seu futuro. E eu me transformei com ele.

 

Em tempo: dados coletados pela Jacob Media, nos Estados Unidos, mostram que a quantidade de ouvintes de rádios AM e FM, que escutam uma hora ou mais de rádio por dia, caiu 2%, enquanto os ouvintes que acessam os mesmos programas pela internet semanalmente aumentou 16%.

Entendendo a cabeça do ouvinte-internauta

 

 

Cheguei a rádio CBN em 1998 quando a emissora passava por uma transformação no relacionamento com o público, pois deixava de anunciar o telefone do ouvinte para informar o e-mail do âncora. A estratégia que alguns chamaram de elitista logo que foi adaota na realidade democratizou o acesso dos ouvintes à emissora. Em lugar de a linha telefônica que atendia apenas uma pessoa, abria-se a caixa de correio eletrônico para todos os interessados em enviar o seu recado. Enquanto muitas das mensagens que chegavam por telefone se perdiam nos bastidores, os e-mails passaram a ser encaminhados diretamente ao seu destino. Foi quando percebi que rádio e computador iniciavam um casamento perfeito. Naquela época ainda separados fisicamente, mas consumidos simultaneamente pelo público. O ouvinte que acompanhava a programação da CBN navegava na internet, o que me levou a batizá-lo de ouvinte-internauta. Foi também quando assumi o compromisso de responder a todas as mensagens enviadas para minha caixa de correio, independentemente do conteúdo. Puxão de orelha do ouvinte, críticas às vezes agressivas e algumas ameaças faziam parte deste diálogo virtual. Aprendi com o tempo que respostas equilibradas para mensagens ofensivas, costumavam mudar o tom da conversa. Porém, desde que a CBN colocou na capa do site o link “fale com o Mílton Jung” o número de mensagens multiplicou-se a ponto de não conseguir mais atender a todos os ouvintes como me propus inicialmente. E isso acaba provocando reclamações.

 

Para entender parte do comportamento do ouvinte e justificar minha dificuldade em cumprir com o compromisso que assumi comigo mesmo, em 1998, armazei, no decorrer de um mês, todas (ou quase todas) mensagens enviadas para os endereços milton@cbn.com.br e “fale com o Mílton Jung”. São e-mails que chegaram entre segunda e sexta-feira, dias em que estou ao vivo no ar no Jornal da CBN. Não inclui mensagens pelo Facebook, Twitter, meu blog e site da rádio, outros canais de comunicação importantes. Dispensados os releases de assessorias, spans e cia., além de mensagens com endereços internos da CBN, que tomam tempo no trabalho de administrar a caixa de correio, encontrei o nome de 1.154 ouvintes que se comunicaram uma ou mais vezes comigo nesse período, resultando em 1.711 mensagens, ou seja, média de 81 por dia, levando em consideração que o mês em análise teve 21 dias úteis. Desse total, 79% das mensagens foram assinadas por ouvintes que escreveram apenas uma vez no período, o que não significa que tenha sido a primeira vez que entraram em contato comigo pois é possível identificar alguns nomes conhecidos. Os 21% restantes mandaram dois ou mais recados, havendo casos de ouvintes que escreveram quase todos os dias sobre diferentes temas. A estatística mostra uma situação no mínimo curiosa: tem um ouvinte que enviou mais de 100 mensagens no mês, praticamente todas com críticas negativas ao meu trabalho e de meus colegas. Sou grato a ele e o respeito muito.

 

Mesmo que não consiga mais responder a todos os ouvintes, leio o que escrevem logo que as mensagens chegam, especialmente quando estou na apresentação do Jornal da CBN. Algumas pautam as entrevistas ou podem ser ponto inicial de reportagens, outras cito no ar quando o tempo e o conteúdo permitem e há as que nos fazem pensar. Confesso, também existem as que nos fazem odiar (a nós mesmos, algumas vezes), mas passa rápido. Mesmo porque o pior dos cenários seria não recebê-las jamais. Pude perceber alguns comportamentos interessantes os quais destaco aqui pois imagino que isto se reproduz em muitas outras situações, não apenas na relação virtual: os indignados sempre escrevem mais do que os satisfeitos, ou seja, as pessoas se sentem muito mais motivadas a reclamar do que incentivar. Isso pode gerar injustiças na avaliação, pois iniciativas positivas que atendem a uma centena de pessoas correm o risco de serem destruídas por críticas que mobilizaram algumas dezenas: quem gosta, aprova e cala; quem não gosta, grita. Diante disso e levando em consideração que esse comportamento se reproduz em diferentes áreas, sugiro que se você admira alguém ou aprovou alguma atitude, ajude a preservar estas qualidades incentivando-as com um e-mail de agradecimento ou uma palavra de apoio ao encontrar seu autor no trabalho, na escola ou na família. Já se você for o alvo da crítica, entenda que mudanças de hábito sempre geram protestos e novos padrões causam desconforto. Se estiver convicto da sua ação, jamais mude completamente por causa da rejeição inicial, mas, tanto quanto você não deve subestimar uma crítica, não superestime o elogio.

Deputados e senadores tiram férias, e o povo ….

 

A Câmara dos Deputados e o Senado estão de férias nos próximos 15 dias. Lá preferem chamar isso de recesso branco, eufemismo para esconder que burlam a Constituição ao pararem de trabalhar no meio do ano mesmo sem votar a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), o que seria obrigação constitucional, conforme destacamos ontem e hoje, no Jornal da CBN. Se você quiser ouvir as entrevistas, entre aqui. Com esta folga, discussões importantes como a da Reforma Política, uma exigência dos movimentos populares, vão atrasar mais um pouco. Mas deputados e senadores, com a conivência de seus líderes, não estão muito preocupados com isso, parecem esquecer o que o Brasil viveu nos últimos meses com as manifestações de rua.

 

O recesso branco foi alvo da charge do Jornal da CBN desta quinta-feira: