Janeiro Branco: a importância dos cuidados com a saúde mental

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

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Ao longo da história da humanidade, diferentes conceitos sobre o adoecimento mental conduziram a práticas desumanas que em muito contribuíram para os estigmas e preconceitos sofridos pelas pessoas que têm transtornos mentais.

Doentes mentais já foram considerados hereges; foram colocados em embarcações que vagavam à deriva por rios europeus; foram considerados perigosos e levados à prisão; já foram trancafiados em hospícios, excluídos do convívio social.

O avanço científico, especialmente o desenvolvimento das neurociências, permitiu novas compreensões e tratamentos dos transtornos mentais. Além disso, fenômenos sociais têm alertado sobre a necessidade de prevenção e promoção da saúde mental, conduzindo a estudos científicos que compreendam seus fatores de risco e proteção. 

A saúde mental de uma pessoa está relacionada ao seu bem-estar, ao autoconhecimento e a maneira como reage às situações de adversidades e conflitos, com o menor impacto sobre o seu funcionamento.

Alguns fatores de risco à saúde mental são apontados por estudiosos, como a experiência individual do estresse, a vulnerabilidade genética e fatores de risco ambientais, dentre os quais destacam-se: condições socioeconômicas desfavoráveis, como pobreza e falta de habitação segura, desemprego, baixa remuneração e violência.

Diante de tantos desafios e adversidades, o que permite que alguém se mantenha mentalmente saudável?

Ter esperança, satisfação em vários domínios da vida, autoaceitação, bons relacionamentos, maior capacidade de resiliência, maior tolerância à frustração, empatia, criatividade e espiritualidade são apontados nos estudos, como recursos e estratégias de enfrentamento mais positivas para o desenvolvimento da saúde mental. Esses recursos podem ser compreendidos como habilidades individuais para o enfrentamento, percepção de rede de apoio e engajamento social e autoconceito positivo.

Algumas atividades também estão relacionadas à redução do estresse, dos níveis de ansiedade e de depressão, tais como alimentação saudável, prática regular de atividade física, sono adequado, atividades de lazer, de relaxamento e de autocuidado.

Como cultivar essas práticas, quando há escassez de emprego, moradias inadequadas e tantas outras desigualdades sociais?

Cuidar da saúde mental não pode ser um modismo ou privilégio de alguns grupos sociais. É uma necessidade urgente e para todos, exigindo que programas preventivos sejam implementados, como políticas de saúde pública, tendo em vista o sofrimento que os transtornos mentais geram em pacientes e seus familiares e o elevado custo dos tratamentos.

Promover a saúde mental não é sinônimo de excluir das experiências de vida alguns sentimentos mais desagradáveis, como tristeza, raiva ou ansiedade. É colocar em prática ações preventivas que possam criar estratégias para que tais sentimentos sejam vividos, validados e superados sem o adoecimento emocional.

Cuidar da saúde mental não é uma ação individual. É coletiva, cuja responsabilidade recai sobre pessoas e organizações, sobre famílias, escolas, empresas e governantes. 

Somente é possível cuidar daquilo que se valoriza.

Mas qual é a medida de valor da nossa sociedade? Sucesso profissional? Dinheiro? Produtividade?

Enquanto houver negligência do autocuidado, privação dos momentos de lazer e aprendizagens que não priorizam o desenvolvimento de habilidades sociais, seremos levados à exaustão e nos manteremos adoecidos.

Que possamos criar uma cultura de saúde mental, como proposto pela campanha ‘Janeiro Branco’, não apenas como uma meta para esse mês, mas como uma cultura de saúde para o ano todo. 

Por um ano mais saudável, por um ano mais feliz!

Assista ao programa Dez Por Cento Mais sobre saúde mental, ao vivo,

nesta quarta-feira, dia 19 de janeiro, às 20 horas

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Fome de quê?

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

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“A gente não quer só comida
A gente quer comida, diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída para qualquer parte”

Marcelo Fromer, Arnaldo Antunes e Sergio Britto

Outro dia, zapeando pelas redes sociais, uma postagem despertou a minha atenção e me fez curiosa. A influenciadora digital contava para os seus seguidores como um prato com uma hortaliça específica, em diferentes versões – crua, refogada, em folhas fatiadas fininhas ou enrolada como pétalas de flores – era tudo o que alguém precisaria em uma única refeição.

Sem a pretensão de fazer qualquer análise nutricional sobre isso, até porque me faltariam competências técnicas, aquilo me gerou uma enorme inquietude e preocupação, tendo em vista que alguns transtornos mentais ainda são pouco conhecidos ou negligenciados.

Numa sociedade que valoriza padrões de beleza e a “cultura da magreza”, alguns comportamentos disfuncionais, que geram sofrimento e prejuízos significativos, são até mesmo incentivados. 

Todos os anos, milhares de pessoas sofrem com transtornos alimentares. Segundo a Organização Mundial da Saúde, esses transtornos atingem cerca de 4,7% da população brasileira, podendo chegar a 10% entre os adolescentes, com alta taxa de mortalidade.

Esses transtornos são caracterizados por alterações nos hábitos alimentares e em comportamentos relacionados à alimentação, resultando em danos físicos, psíquicos e sociais. Em geral, há uma conexão doentia da pessoa com o alimento, num sentimento de amor e ódio com a comida, resultando em agressões ao próprio corpo. 

As pessoas que sofrem com os transtornos alimentares, na maioria das vezes, apresentam distorções sobre o próprio peso, sobre o formato do corpo, sobre o ato de comer e, especialmente, sobre o valor de si mesmas.

Dentre os transtornos de alimentação mais prevalentes estão a anorexia nervosa e a bulimia nervosa. 

O que é anorexia nervosa?

A anorexia nervosa é caracterizada por um medo intenso de ganhar peso, o que leva a pessoa a restringir o consumo de alimentos, através de dietas rígidas e/ou jejuns prolongados, podendo fazer uso de métodos que auxiliem na perda de peso, como laxantes, diuréticos, indução de vômitos ou prática excessiva de atividade física. 

Em geral, apesar da perda acentuada de peso, essas pessoas continuam insatisfeitas com o corpo ou com o peso, tendo uma preocupação exagerada por essa temática, o que favorece o isolamento social, gera prejuízos nas atividades acadêmicas ou de trabalho, bem como nas relações afetivas.

O que a bulimia nervosa?

Semelhante à anorexia, na bulimia nervosa há uma importante insatisfação com a imagem corporal e uma preocupação com o ganho de peso, entretanto, as restrições alimentares são seguidas por um descontrole na ingestão de alimentos, geralmente consumidos em grandes quantidades, caracterizando episódios de compulsão alimentar. 

Após os episódios de compulsão, há um sentimento de culpa pela perda de controle e pelos alimentos consumidos, levando a comportamentos compensatórios e disfuncionais para evitar o ganho de peso, como uso de laxantes, indução de vômitos e prática de atividade física intensa.

Quais as causas dos transtornos alimentares?

Não há uma causa específica para os transtornos alimentares, mas os estudos sugerem a participação de fatores biológicos, psicológicos, para os quais se destaca a baixa autoestima, e fatores sociais, especialmente a influência da mídia e das redes sociais.

Nos transtornos alimentares há uma crença de que o corpo pode ser completamente transformado e de que seguir dietas restritivas ou praticar exercícios são escolhas e dependem apenas do esforço pessoal. Além disso, há uma ideia de que alcançar o “corpo ideal” será o passaporte para o sucesso, valorização ou resolução de outros problemas da vida.

Desse modo, essas pessoas são mais vulneráveis às postagens que indicam jejuns prolongados, dietas restritivas ou exibição de corpos “perfeitos”, como situações fáceis de serem atingidas, exigindo apenas força de vontade. Isso gera um enorme sofrimento.

Suas comparações são injustas. Excluem aspectos individuais relacionados ao biotipo e aumentam a autocrítica, reforçando o sentimento de fracasso, de perda de controle e incompetência. Como num círculo vicioso (e perverso), essa frustração piora os sentimentos de tristeza e ansiedade, levando a uma intensificação dos comportamentos disfuncionais.

Outro dia, eu tive conhecimento de um aplicativo de jejum no qual a pessoa é “premiada” pela quantidade de horas que está sem se alimentar, e toda a comunidade que está “firme” como ela é quantitativamente descrita, como um incentivo para a sua não desistência.

Fiquei imaginando o que seria do mundo se houvesse um aplicativo capaz de indicar, numa situação de intenso sofrimento emocional, como uma comunidade estaria “firme”, quantitativamente descrita, como apoio às necessidades do outro, como incentivo para a sua não desistência da vida, de si mesmo. 

Promover a saúde mental é um dever coletivo, mas, infelizmente, nossa sociedade está adoecida, não apenas pelos transtornos mentais — especialmente pela falta de empatia, numa busca exagerada por uma vida “perfeita”, retratada num clique e capaz de obter uma curtida a mais.

Estamos famintos! Nos falta diversão, nos falta arte, nos faltam saídas para muitas partes… Porque na balança da vida, o que deveria contar é quem se é e não o peso corporal que se tem.

Assista ao “Dez Por cento Mais” sobre “Transtornos Alimentares”

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Se me fosse dado um ano inteiro

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de abdullah . no Pexels

“Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, 

eu nem olhava o relógio”

Mário Quintana

A contagem regressiva se inicia. Os olhos estão fixos nos ponteiros, indicando que o fim do ano se aproxima… Ou seria o começo?

Esse tal de tempo é mesmo paradoxal: leva consigo aquilo que não podemos reter em nós, evidenciando a impermanência da vida; nos dá coragem para seguir em frente, com uma esperança enorme em dias melhores, em recomeço.

De tão abstrato, transformamos o tempo em horas, datas, fatos marcantes, para caber de maneira cronológica em nossa memória. O jeito que temos para armazenar aquilo que não mais existe.

De tão imprevisível, nos lançamos para o futuro através de sonhos e projetos, tentando driblar nossa incapacidade de controlar as incertezas da vida.

E agora? Agora mudamos o tempo. Apertamos o passo, perdemos os abraços e nos impedimos de ver as coisas simples da vida.

Não temos tempo. 

Ele não se intimida. Não nos dá um consolo com horas extras. Segue sua jornada e voa…

E quando nos damos conta, lá se foi mais um ano.

Há quem diga que não há nada de especial no dia primeiro do ano. Seria um dia como outro qualquer. 

Talvez aí esteja o engano: não deveria existir um dia qualquer. Cada dia deveria ser especial, com uma riqueza de experiências, de sorriso solto, de prazer em estar com quem se ama. 

Fé na vida, desejo de mudança, escolhas que nos façam felizes…

E se te fosse dado um dia? E se te fossem dados muitos dias, um ano inteirinho? O que você faria?

Pense bem. Porque esse tempo se oferece a você e ele está só começando.

Feliz Ano Novo!

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Quem tem lado é quadrado!

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de mentatdgt no Pexels

A subjetividade humana, o jeito de ser e que nos torna singular, se constrói nas relações humanas, nas quais as pessoas se influenciam mutuamente. Entretanto, esse encontro enriquecedor tem sido cada vez mais ameaçado pela polarização, que ultrapassa os limites políticos, tornando os diálogos escassos.

No lugar da troca de ideias e opiniões, do treino de habilidades, como a empatia, surgem discussões acaloradas e até mesmo agressivas, facilitadas pelo escudo protetor das redes sociais.

Isso nos custa em termos de desenvolvimento pessoal, cultural e social.

Ao conviver apenas com pessoas que pensam da mesma forma, nos tornamos reclusos em nós mesmos, numa espécie de narcisismo ideológico que limita a realidade e nos engessa em atitudes e escolhas.

Na esfera social, a polarização torna-se um risco, ao justificar as desigualdades a partir de elementos pautados em análises pouco racionais, favorecer discursos populistas e gerar a ideia de que um grupo possui supremacia em relação ao outro.

Rotulamos as pessoas por algumas características de comportamento, como se isso as definisse. Por outro lado, personalizamos excessivamente as situações, acreditando que tudo o que é dito ou feito pelos outros, possua alguma relação conosco.

Além de menos interessados pelo universo que cada ser humano representa, perdemos a capacidade de avaliar os fatos pela lógica – o que poderia mudar nossa opinião – apegados excessivamente às nossas emoções, que nesse ponto indicam raiva e irritação, numa busca incessante por estarmos “certos”.

E será que existe uma saída para isso?

Relações harmoniosas e construtivas têm se mostrado possíveis através do diálogo, numa compreensão de que apesar de algumas diferenças, porque somos únicos, também somos genéricos, porque guardamos muitas semelhanças.

Que tal tentar?

Numa próxima conversa, por exemplo, ao invés de dizer “eu detesto isso”, quando alguém contar sobre sua preferência, procure saber quais as motivações desse gosto, o que levou essa pessoa à essa escolha ou o que vê de positivo nisso. Faça perguntas como alguém que tem curiosidade genuína pela experiência do outro, evite julgamentos ou adjetivos. Isso vale inclusive para as redes sociais.

Mantenha a mente aberta e prepare-se para se surpreender com um mundo que vai além do seu.

Afinal, a polarização só permite um lado. E quem tem lado é quadrado.

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Mau humor, distimia e a intolerância com o sofrimento humano

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

           

Foto de Daniel Reche no Pexels

Na década de 80, o ator Francisco Milani deu vida a um de seus personagens mais populares, o Seu Saraiva. Conhecido pela impaciência e irritabilidade, seu bordão era tolerância zero. Para os mais novos, Sherlock Holmes e Dr. House estão entre os personagens que também apresentam comportamentos caracterizados por rabugices e mau humor.

Na vida real, pessoas que apresentam mau humor constante, estão frequentemente irritadas, impacientes e reclamam de tudo, podem sofrer de um tipo de depressão persistente, a distimia.

Embora a distimia apresente uma forma mais branda de sintomas depressivos quando comparada ao transtorno depressivo maior, o humor deprimido e irritável na maior parte do dia, por quase todos os dias, repercute em comprometimentos importantes na vida da pessoa que sofre com esse transtorno, como dificuldades profissionais e nos relacionamentos.

Em geral, a distimia surge em fases precoces, como a infância e adolescência, dificultando a compreensão dos sintomas, uma vez que o mau humor crônico é interpretado – erroneamente – como manha, aborrecimentos típicos da adolescência ou características de personalidade. 

Frequentemente, pessoas distímicas têm uma visão mais negativa da vida e de si mesmas, o que ocasiona maior nível de desesperança e baixa autoestima, com ideias de inferioridade ou incompetência. A visão negativa sobre a vida, somada à baixa energia ou fadiga, que também são sintomas presentes nesse transtorno, dificultam o engajamento em atividades que poderiam promover uma melhora no humor, como atividades de lazer ou esportes.

Na atualidade, há uma cobrança social excessiva para que se esteja sempre com o humor positivo ou se considere apenas o que há de bom na vida, numa negação ingênua da realidade que, por vezes, tem facetas bem difíceis e tristes. Porém, do mesmo modo que as situações positivas não são permanentes, as negativas também não o são.

Se há uma dificuldade mais persistente em experimentar o prazer e a alegria em coisas cotidianas, para as quais a maioria das pessoas se sentiria bem ou feliz, isso pode ser um sinal de alerta para a necessidade de uma avaliação sobre a saúde mental.

Enganam-se aqueles que se rotulam como pessimistas crônicos, que mencionam que preferem ver o lado negativo das coisas, porque assim não se decepcionam, ou ainda pensam que são pessoas difíceis e não há nada que possa ser feito. Há muito a ser feito. O diagnóstico correto e o tratamento adequado, geralmente com medicamentos e psicoterapia, apresentam bons resultados.

Na dramaturgia, o mau humor dos personagens nos diverte e até mesmo nos cativa. Na vida real, a cara amarrada e as reclamações constantes refletem uma vivência que está limitada, encapsulada aos aspectos negativos, como lentes desfocadas que impedem que se veja a vida em todas as suas nuances. Talvez aí esteja o nosso desafio: Seu Saraiva, ter tolerância zero, não com as pessoas, mas com a normalização do sofrimento humano.

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O momento certo para começar, não existe

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Tobi no Pexels

Assim que estiver tudo pronto eu começo!

Essa é uma daquelas frases rotineiras que costumamos dizer quando vamos nos engajar em um novo comportamento, tal como fazer uma dieta, iniciar uma atividade física ou começar um projeto profissional.

E vai começar pelo fim? 

Confesso, faço essa pergunta, curiosa por sua resposta. Afinal, se estiver tudo pronto, não há mais nada ou muito pouco que possa ser feito.

Permita-me a ousadia: gostaria de fazer mais uma pergunta. 

Se você deseja aprender um instrumento musical, se inscreveria em um curso ou para tocar na orquestra da sua cidade?

Por mais óbvio que isso pareça, muitas pessoas criam expectativas para mudanças de hábitos ou alcance de metas como se estes dependessem de fatores externos. Na realidade, iniciar um novo hábito ou desenvolver uma habilidade envolve dedicação e persistência. Leva tempo, causa frustração e desconforto. Envolve processos. Envolve dar um passo por vez. Envolve treinar, errar, recomeçar, falhar, errar de novo, aperfeiçoar. Isso significa progredir.

Numa sociedade imediatista e com baixa tolerância à frustração, ter paciência para progredir soa como falta de foco e de determinação. Sobram ideias de que é preciso ser absolutamente o melhor para poder progredir e, com o endosso promovido pelas redes sociais, ecoam-se expectativas de que todos os feitos devem ser infalíveis.

Padrões que gritam por ser, quando ainda nem estamos

Perdemos tempo em excesso refletindo como seria nossa vida se fossemos de um jeito ou de outro; se tivéssemos isso ou aquilo; a partir de comparações injustas, baseadas em recortes de vidas perfeitas estampadas em posts

Desejamos a perfeição. Não seria isso exatamente o sinônimo de estarmos prontos? Na sua ausência, colocamos lente de aumento em nossos erros ou faltas.  A autocrítica se eleva e procrastinamos, não por preguiça ou dificuldade de resolução, mas como uma estratégia para adiar a tomada de decisão ou o nosso engajamento, aprisionados ao perfeccionismo exagerado que nos enche de temor pelas falhas e possíveis julgamentos alheios; perfeccionismo que nos coloca em labirintos, enviesa o pensamento que surge com pouca lógica. 

Quantas vezes acreditamos que se perdermos peso, seremos mais felizes no amor ou na vida profissional? Quantas vezes adiamos a dieta porque seria melhor começar na segunda-feira e não na próxima refeição?

Não existe momento certo para começar. Não estamos prontos e talvez nunca estejamos, porque mudam-se as necessidades e a vida se encarrega de nos desafiar com novas oportunidades. Como diz Mário Sérgio Cortella: 

“Gente não nasce pronta e vai se gastando; gente nasce não-pronta e vai se fazendo”.

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O que é realmente importante para mim?

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de David Bartus no Pexels

“Somos o que fazemos, mas somos, principalmente,

o que fazemos para mudar o que somos”

Eduardo Galeano

O que você acha que seria a chave de mudança para você ter uma vida feliz?

Dinheiro? Carros? Reconhecimento? Filhos?

Para os gregos antigos, a sensação de felicidade e realização com a vida seria alcançada ao se viver de acordo com valores, também chamados de virtudes por Aristóteles. Esses valores seriam qualidades de caráter, tais como paciência, coragem, autenticidade, que não seriam naturais ou inatas – sobre as quais não se teria nenhuma interferência. Derivariam da prática, de ações propriamente ditas, tornando-se um hábito.

Desse modo, Aristóteles conceitualiza a virtude como algo que deva ser treinado, através de ações deliberadas, de atitudes que possam nos transformar na pessoa que desejamos ser.

A excelência nesse processo consiste em buscar um equilíbrio apropriado de cada qualidade, através da razão, numa escolha de ações e emoções que conduzam a um meio-termo, para nós e para os outros, evitando faltas e excessos. Por exemplo, a falta de coragem pode ser compreendida como covardia, enquanto seu excesso, pode significar destemor ou audácia.

Por vezes, temos uma tendência a agir pelos extremos, tornando esse caminho do meio-termo a ser percorrido um trajeto difícil.

Somos seres acostumados aos hábitos. Nos sentimos seguros em situações mais familiares. Seguir por caminhos já conhecidos, manter comportamentos que estamos acostumados a ter, por vezes é mais confortável. Não à toa, chamam a isso de zona de conforto.

Desbravar um novo trajeto, traçar um objetivo de quem desejamos nos tornar, de quais qualidades queremos ter, pode ser muito desafiador.

Caminhos antigos são largos, o solo está mais batido. Trilhas pouco exploradas exigem um caminhar mais atento, são pouco sinalizadas, estreitas… causam medo.

Se queremos levar uma vida que vale a pena ser vivida, precisaremos de coragem para desbravar novos caminhos e percorrê-los. Mais do que isso. Precisaremos escolher as sementes que queremos plantar, cultivá-las dia a dia, para que possam florescer.

A propósito, “florescimento” era o termo escolhido pelos gregos para essa mudança, para se viver de acordo com os valores, alcançando a felicidade.

Viver uma vida satisfatória não pressupõe que todas as coisas serão boas ou que nossos sonhos se realizarão. Significa viver aquilo que realmente importa para nós.

Talvez a gente se preocupe em mudar para agradar aos outros, para viver como imaginamos o que os outros esperam de nós. Talvez a gente se preocupe em mudar para sermos mais parecidos com aquilo que vemos nas redes sociais, numa exposição fantasiosa de vida perfeita ou feliz – talvez isso explique mais sobre frustração do que felicidade.

A chave da mudança está dentro de nós. Pode ser mais paciência. Pode ser mais fé. Pode ser menos raiva. Mas somente promoveremos mudanças que nos trarão felicidade, quando perguntarmos para nós mesmos: o que realmente é importante para mim? O que eu desejo fazer para ter uma vida que vale a pena ser vivida?

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Setembro amarelo: a natureza nos possibilita a esperança que, ausente, ofusca a amplitude da vida

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto: Priscila Gubiotti

Nas últimas semanas, ao andar pelas ruas de São Paulo, nossos olhares eram capturados para a beleza das flores amarelas dos ipês, que se destacavam em meio ao cinza da cidade. Uma rápida associação de cores me conduziu ao Setembro Amarelo, uma campanha criada, em 2014, pela Associação Brasileira de Psiquiatria e pelo Conselho Federal de Medicina, com o objetivo de conscientizar a população sobre os fatores de risco para o suicídio e alertar sobre a importância do tratamento adequado para os transtornos mentais, como estratégias de prevenção.


Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), anualmente, cerca de 1 milhão de pessoas perdem a vida em decorrência do suicídio. No Brasil, os números apontam para 30 mortes diárias, sendo que para cada uma, aproximadamente outras 6 pessoas serão afetadas pelas consequências econômicas, sociais e emocionais provocadas por essa perda.


Os transtornos mentais, como a depressão ou transtorno afetivo bipolar, representam cerca de 96% dos casos de morte por suicídio, reforçando a tese de que o diagnóstico e o tratamento adequado são fundamentais como medidas preventivas eficazes.


Infelizmente, alguns estigmas ainda persistem quando o assunto é saúde mental, dificultando a identificação dos fatores de risco e perpetuando ideias distorcidas sobre essa condição.

É preciso falar sobre saúde mental.


É preciso levar informação capaz de promover a identificação dos transtornos mentais, tornar os tratamentos conhecidos, criar apoio emocional e possibilitar a esperança, a mesma que em sua ausência ofusca a percepção da realidade, tornando-a estreita diante da amplitude da vida.


As causas para o suicídio são multifatoriais, e alguns fatores podem agravar os riscos, como uso do álcool e drogas, que aumentam a impulsividade e a agressividade, a falta de amigos e pessoas mais próximas, e o acesso a meios letais, como armas de fogo.


Por outro lado, algumas atitudes podem ajudar as pessoas a superarem as ideias suicidas, como uma conversa sem rodeios sobre suas intenções e uma sinalização genuína de interesse pelo que ela está passando. Há a necessidade, nesses casos, de procurar ajuda psicológica ou psiquiátrica e, em situações mais urgentes, conduzir a pessoa a um Pronto Atendimento ou chamar o SAMU (192).


A intenção sobre suicídio não deve ser mantida em segredo, em hipótese alguma, devendo-se buscar ajuda profissional especializada. Muitas vezes, essas ideias aparecem em forma de frases, que soam como brincadeiras de mau gosto ou mesmo em atos mais impulsivos e inconsequentes, como atravessar uma rua sem olhar e contar com a sorte.


Por vezes, viver se torna doloroso e até mesmo muito difícil, mas a natureza, com a sua magia, nos ensina que é possível superar as adversidades: mesmo em tempos áridos e secos, o ipê precisa perder todas as suas folhas; sobram seus galhos; e isso é necessário para abrir espaço para o que vem a seguir. E, assim, ele surge, exuberante com suas flores amarelas, possibilitando que a vida se renove.


O suicídio não é um ato individual. É coletivo! Porque atinge a toda sociedade, quer sejam pais, filhos ou amigos.


Sejamos envolvidos na luta pela vida, de modo que nossas ações contribuam para que outras pessoas possam florescer.

Setembro amarelo de 2021: é preciso agir! O suicídio pode ser evitado.

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A melhor vingança está ao nosso alcance

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Min An no Pexels

Outro dia, mexendo na estante de casa, deparei com o livro de Calvin Tomkins, intitulado “Viver bem é a melhor vingança”. Apesar de a obra ter como protagonista um casal rico que saiu dos Estados Unidos e foi viver em Paris, nos anos 1920, o título trouxe à tona reflexões sobre diversas situações que envolvem mágoas, humilhações e traições —- e a maneira como muitas pessoas conseguem ser mais indulgentes.

Robert Enright, psicólogo e professor da Universidade de Wisconsin, foi um dos pioneiros nos estudos científicos sobre o perdão, demonstrando que perdoar pode melhorar significativamente o bem-estar psicológico e a saúde física, com redução dos níveis de ansiedade, depressão e estresse. 

O ato de perdoar consiste em avaliar, de forma realista, o prejuízo causado, reconhecer a responsabilidade do autor, e decidir, de maneira voluntária, pela ausência de vingança ou punição.

Imagine que você tenha uma nota promissória assinada e no dia do vencimento você resolva cancelar essa dívida, rasgando esse documento. Ao cancelar a dívida, há um cancelamento das emoções negativas, pois há uma superação do ressentimento e da raiva, sobrepostos por uma atitude, permitindo um deslocamento do papel de vítima para o papel de autor. 

Para Enright, um dos mecanismos mais importantes do perdão consiste em desvencilhar-se da raiva tóxica, aquela raiva profunda e duradoura que ocorre após o episódio que nos machucou, e que pode perdurar anos a fio.

A vantagem de se livrar dessas emoções negativas foi demonstrada num estudo publicado no Journal of the American College of Cardiology, em 2009, que após analisar diversos trabalhos científicos, identificou que a raiva e a hostilidade estão ligadas a um maior risco de doenças cardíacas.

Como as demais características humanas, algumas pessoas podem ter habilidades que favoreçam ser mais indulgentes, como empatia, resiliência e maior tolerância. Por outro lado, pessoas com tendência à ruminação, apresentam maior dificuldade em perdoar, pois são mais propensas a guardar rancores e mágoas.

A boa notícia é que como muitas das habilidades, perdoar pode ser treinado, promovendo consequências positivas, como aumento do relaxamento muscular, redução da ansiedade, mais  energia e fortalecimento do sistema imunológico.  

Perdoar por vezes parece coisa de gente privilegiada, evoluída. Parece difícil demais de realizar. Porém, a atitude de perdoar não significa que você aprova, esquece ou nega a dor causada. Significa que você reconhece que erros e imperfeições acontecem, e que sempre é possível a gente fazer diferente —- a gente fazer diferença num mundo marcado por tantos conflitos. Porque o perdão envolve povos e nações. Envolve relacionamentos. Consiste em perdoar a si mesmo.   

Por vezes, ficamos tão machucados que o coração resta em pedaços. Tão fragmentado que  quase não nos reconhecemos. Falta inteireza. Sobram cacos. Ficam feridas.

Curar um coração ferido leva tempo. 

Quanto tempo? 

Vai depender da nossa disposição para lançar mão desse bálsamo cicatrizante chamado perdão. Vai depender da nossa decisão de cancelar as emoções negativas que pesam em nós.

O resultado: viver bem, viver melhor, viver em paz. Essa é a vingança!

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Que nossas ações fortaleçam aquelas mulheres do Afeganistão

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto: Russell Watkins/Department for International Development/UK

“Só percebemos a importância da nossa voz

 quando somos silenciados”

Malala Yousafzai

           

Em outubro de 2012, uma garota paquistanesa de apenas 15 anos foi baleada na cabeça após sair da escola. O motivo? Ela lutava para que as meninas e mulheres de seu país, que sofria a influência do Talibã, pudessem estudar. A história de Malala ficou conhecida em todo o mundo, mas, infelizmente, com a tomada de Cabul pelo grupo extremista nos últimos dias, crianças e mulheres parecem viver um pesadelo.

Durante o regime do Talibã no Afeganistão, entre 1996 e 2001, além da proibição de algumas atividades, como leitura de determinados livros e acesso à internet, o uso da burca passou a ser obrigatório e o direito de trabalhar, estudar ou receber assistência médica foi negado às mulheres, que não mais podiam sair sozinhas sem a presença de um homem para acompanhá-las.

Ao longo da história da humanidade, as mulheres enfrentaram situações de perseguição, exclusão e humilhação em diversos contextos. Na Idade Média, por exemplo, muitas foram mortas queimadas, acusadas de feitiçaria ou bruxaria porque questionavam o sistema tradicional da época. Na renascença, podiam trabalhar, mas havia uma desvalorização de sua inclusão, com salários inferiores aos dos homens.

O próprio Darwin foi responsável por difundir a ideia, errônea e sem nenhum embasamento científico, de que as mulheres seriam inferiores aos homens, tanto nas questões mentais como físicas. Isso possibilitou o surgimento de uma teoria popular que afirmava que se as mulheres fossem expostas à educação superior, sofreriam danos físicos e emocionais que colocariam em risco as condições biológicas necessárias para a maternidade. Essa crença era tão forte, que até o século XIX, mulheres não eram aceitas em Universidades, mesmo na Europa ou nas Américas.

Assim como Malala, algumas mulheres também lutaram para conquistar a mesma liberdade dos homens. Olympe de Gouges, na época da Revolução Francesa, propôs a Declaração de Direitos da Mulher. Foi guilhotinada em 1793. Na Inglaterra, Mary Wallstone Craft publicou, em 1792, o artigo “Reivindicação dos direitos da mulher”, solicitando a participação política das mulheres e o acesso irrestrito à educação formal.

Diante da possibilidade de privação à liberdade e a todos os direitos das mulheres do Afeganistão, temos um sentimento de impotência que nos assola.

Vozes que são silenciadas. Esperanças destroçadas.

Enquanto pessoas correm tentando sobreviver em meio à fuga do inferno, infelizmente, alguns ainda insistem em ecoar gritos pedindo ditaduras. Cada um tem as suas prioridades…        

Que nossas vozes extrapolem as fronteiras e possam representá-las. Que as nossas ações possam ser aquilo que as fortaleça. Para que não caiamos na indiferença ao seu clamor oprimido e façamos valer a máxima: “mexeu com uma, mexeu com todas”.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung