Caia nos braços de Morpheu: seu cérebro agradece!

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Imagem: Pixabay

 

O sono e os sonhos despertam fascínio na arte, literatura e filosofia, adquirindo conotações inclusive místicas para algumas pessoas ou culturas, como entre os gregos antigos, para quem os sonhos eram considerados como mensagens divinas. Embora ainda não haja consenso entre os pesquisadores sobre a função exata do sono, os estudos apontam que a privação de sono tem efeitos imediatos na cognição, como prejuízos na tomada de decisão, planejamento, atenção, memória, criatividade e alterações de humor.

Em 1963, Randy Gardner, um estudante com 17 anos de idade, ficou 11 dias sem dormir para concluir um projeto para a Feira de Ciências de San Diego, sob os olhares de pesquisadores do sono, sem fazer uso de drogas ou cafeína. Após 2 dias sem dormir, apresentou irritação, náuseas e problemas de memória. No quarto dia, teve delírios e fadiga intensa. No sétimo dia teve tremores e dificuldades na articulação da fala, com episódios de paranoia e alucinações. Quando finalmente dormiu, o seu sono durou quase 15 horas e ao acordar, quase todos os sintomas já haviam desaparecido, com remissão completa após uma semana.

Randy não teve efeitos prejudiciais duradouros, mas o mesmo não ocorre com alguns animais que são privados do sono. Pesquisas feitas com ratos que são mantidos acordados por longos períodos mostram que eles perdem peso apesar de comer mais, tornam-se fracos, apresentam úlceras e hemorragias internas, chegando à morte. 

O sono reduzido em qualidade e quantidade também pode produzir alterações metabólicas, como aumento do nível de cortisol – hormônio do estresse – elevar a pressão arterial e os níveis de glicose, favorecendo algumas doenças, como diabetes e obesidade.

Em setembro deste ano, um estudo publicado por pesquisadores chineses mostrou a associação entre a duração do sono e a função cognitiva. O estudo envolveu mais de 20 mil participantes e os resultados mostraram que a duração do sono insuficiente (até 4 horas por noite) ou excessiva (acima de 10 horas por noite) está associada a um declínio cognitivo, sendo a memória o principal domínio cognitivo alterado.

O declínio cognitivo é detectado objetivamente através de testes neuropsicológicos que avaliam as diversas esferas cognitivas, como atenção, memória e funções executivas, com resultados abaixo do esperado para idade e/ou escolaridade, porém, sem comprometimento na realização das atividades de vida diária, como cozinhar, trabalhar ou cuidar das finanças. No declínio cognitivo, quando há prejuízo da memória, este pode ser considerado o fator de risco para o desenvolvimento da Doença de Alzheimer.

Esses dados indicam a importância de se monitorar a função cognitiva em idosos que apresentam duração de sono insuficiente ou excessiva, bem como promover hábitos de higiene do sono, como medida de prevenção ou adiamento dos impactos cognitivos, especialmente tendo em vista o aumento da proporção de idosos nas últimas décadas e as projeções de aumento futuro.

Por outro lado, os cuidados com o sono não devem ser limitados aos adultos de meia-idade ou idosos. Numa sociedade caracterizada pela competitividade, somos estimulados a produzir cada vez mais, seja no trabalho, nos estudos, nos cursos extras, nas longas jornadas que privam o descanso até mesmo nos finais de semana, dormindo-se cada vez menos. Além disso, o uso excessivo de eletrônicos e o tempo gasto em redes sociais também prejudicam o sono.

Como medidas que podem contribuir para o sono adequado, os especialistas sugerem que se deve reduzir as atividades, diminuir a iluminação (incluindo as telas) e o barulho, e evitar o consumo de bebidas à base de cafeína e do álcool, próximo ao horário de dormir. A respiração mais profunda e a criação de imagens mentais agradáveis também promovem um relaxamento mais efetivo e, portanto, maior facilidade para adormecer.

A importância de uma boa noite de sono é reconhecida desde tempos remotos. Para os gregos, uma boa noite de sono era resultado da ação de Morpheu, deus do sonho e Hypnos, deus do sono. Hoje, sabemos que a melhor estratégia para uma boa noite de sono são ajustes no nosso estilo de vida e uma boa higiene do sono. Esses hábitos saudáveis, muito mais do que remédios, ainda são o melhor caminho para os “braços de Morpheu”. 

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Mantenha o foco, sem perder a ternura!

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Imagem de @anapaula_feriani por Pixabay

 

Permita-me começar esse texto apresentando três situações: você está indo da sala para a cozinha e quando chega lá percebe que não se recorda o que foi fazer; está trabalhando online e quando se dá conta tem várias janelas abertas no computador e se vê entretido com um produto em promoção e esquece a tabela que estava fazendo para entregar para o seu chefe; se propõe a arrumar o seu armário, encontra umas fotos antigas, começa a vê-las… e o armário? Puxa! A hora passou depressa e você percebe que não dá mais tempo para arrumá-lo.

Alguma dessas situações lhe parece familiar?

Se essas experiências não ocorrem com frequência e não causam prejuízos significativos no dia a dia, como no trabalho ou nos estudos, na maioria das vezes não indicam uma falha no funcionamento cerebral, apenas uma dificuldade esporádica da memória de trabalho.

A memória de trabalho refere-se à capacidade de reter informações que serão usadas em ações que estão em curso ou que acontecerão num futuro próximo, mantendo essa informação enquanto ela é útil. Isso acontece, por exemplo, enquanto você lê esse texto. Você não memoriza cada uma das palavras na ordem que estão escritas, como uma lista de palavras que deva decorar, mas armazena cada uma delas até chegar ao fim da frase, de modo que consiga compreender o sentido do texto.

A memória de trabalho não se limita ao armazenamento temporário de informações; também envolve o controle atencional, como manter o foco numa tarefa e inibição do comportamento. 

Para a maioria das pessoas, as falhas na memória de trabalho serão casuais, podendo ser decorrentes do aumento do estresse, ansiedade ou uso de bebidas alcóolicas, e não caracterizam um problema persistente. Entretanto, prejuízos na memória de trabalho podem estar associados a algumas condições clínicas, como esquizofrenia, síndromes demenciais e Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH).

O Transtorno de Déficit Atencional com Hiperatividade (TDAH) é um transtorno neurobiológico, com início na infância, caracterizado por níveis prejudiciais de desatenção, desorganização e/ou hiperatividade-impulsividade. 

A desatenção e desorganização envolvem, entre outras coisas, a dificuldade de prestar atenção a detalhes, cometer erros por descuido, iniciar tarefas e não concluir, dificuldades no manejo do tempo, relutância em atividades que exijam esforço mental prolongado e esquecimentos relacionados a atividades cotidianas. 

A hiperatividade e impulsividade envolvem, por exemplo, dificuldades em permanecer sentado, remexer ou batucar mãos e pés, inquietude, responder antes que uma pergunta tenha sido concluída e dificuldades para aguardar sua vez, como numa fila.

Diversos estudos têm sido publicados mostrando os efeitos da pandemia de COVID-19 sobre a saúde mental de crianças e adolescentes, indicando um aumento da irritabilidade, da desatenção e agitação, independentemente da faixa etária, exigindo desafios que podem ser mais acentuados para os que têm TDAH.

Crianças e adolescentes com TDAH parecem mais vulneráveis ao confinamento, possivelmente pelas dificuldades no estabelecimento de rotina, organização e conclusão das tarefas, com tendência à procrastinação.

Adolescentes mais ansiosos, entediados ou apáticos, podem apresentar alterações comportamentais, aumentando a probabilidade de conflitos familiares, como as brigas. 

Quando olhamos para esse cenário, percebemos que mesmo adultos que não apresentam TDAH, em decorrência do isolamento social e das mudanças provocadas pela COVID-19, também têm experimentado sintomas semelhantes, seja na capacidade atencional, na memória de trabalho ou nos comportamentos, mais ansiosos ou com aumento da irritabilidade.

Se por um lado corremos o risco de patologizar todas as características cognitivas ou comportamentais apresentadas na pandemia, por outro lado, corremos o risco de negligenciar sintomas que podem sugerir condições clínicas que demandam tratamento especializado. Na dúvida, uma avaliação médica ou psicológica deve ser feita. Porém, se algumas falhas forem corriqueiras e não trouxerem maiores prejuízos, talvez seja o momento de aproveitar aquela liquidação — numa das muitas abas abertas no seu computador — ou resgatar boas memórias naquelas fotos que você encontrou!  

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

O desafio de alinhavar retalhos de coração e mente rasgados por traumas

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto: Pixabay

 

“Não me deixe implorar pelo alívio da dor, mas pela coragem de vencê-la”

Rabindranath Tagore

 

O filme “Reine sobre mim” (2007) conta as dificuldades de Charlie Fineman para lidar com a dor após a morte da mulher, filhas e cachorro no atentando de 11 de setembro de 2001. Charlie abandona a carreira de dentista, se torna recluso e apavorado com a possibilidade de encontrar qualquer pessoa que o faça lembrar de sua família. Com um quadro grave de depressão, Charlie tenta se matar e como não encontra as balas do revólver, vai para a rua para criar uma confusão com policiais, na esperança que eles o matem e acabem com sua dor. 

Diversos filmes abordam situações de intenso sofrimento, semelhantes às de Charlie Fineman, com experiências traumáticas envolvendo violência sexual, desastres naturais, acidentes ou guerras.

Se a obra cinematográfica é capaz de representar a dimensão do sofrimento humano, a realidade, infelizmente, não é diferente e reflete o que acontece com inúmeras pessoas que sofrem por terem sido vítimas, terem presenciado ou tido conhecimento de situações traumáticas que colocaram em risco a vida ou a integridade física de si ou de outros.

O Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) é uma condição psiquiátrica caracterizada pelo surgimento de alguns sintomas após a exposição a um evento traumático que cause medo intenso, impotência ou terror, envolvendo ameaça de morte, lesão grave ou violência sexual.

Nessa condição, a pessoa apresenta uma tendência a reviver constantemente o trauma, na forma de lembranças persistentes, involuntárias, intrusivas e pesadelos; e a se sentir ou agir como se o trauma estivesse acontecendo novamente. Em geral, a pessoa evita atividades, pessoas e lugares que lembrem o acontecimento traumático, mantendo-se mais isolada. Dificuldades para dormir, irritabilidade, inquietude, hipervigilância e dificuldades de concentração também são frequentes.

A prevalência do TEPT está estimada entre 1% e 3% na população geral, podendo atingir níveis mais elevados em populações de risco, como combatentes de guerra.

Em alguns países, o TEPT está mais associado a desastres naturais — terremotos ou furacões, guerras ou atentados terroristas. No Brasil, no entanto, a violência urbana — agressões e estupro — tem sido apontada como um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de transtornos mentais, incluindo o transtorno de estresse pós-traumático.

Segundo dados do Ministério Público do Paraná, em 2018, o Brasil registrou pelo menos 32 mil casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes. Além das consequências, físicas, emocionais e comportamentais, crianças e adolescentes que sofrem abuso sexual podem apresentar diversos quadros psicopatológicos, sendo o TEPT o transtorno mais prevalente nessas situações.

Em decorrência da pandemia de COVID-19 e dos agentes estressores envolvidos nessa situação, tais como risco de morte e isolamento social, diversos estudos têm sido desenvolvidos para avaliar um possível aumento na prevalência do TEPT.

Uma pesquisa realizada na Itália apontou que 1 em cada 5 pessoas tem apresentado sintomas de TEPT associada à pandemia. Na China, um estudo comparou crianças mantidas em quarentena com outras que não foram colocadas em quarentena e identificou 4 vezes mais sintomas de TEPT nas que ficaram em quarentena. O aumento dos sintomas de TEPT também tem sido verificado em profissionais de saúde, possivelmente pelos riscos de contaminação, medo de contaminar familiares, perdas de colegas e o número elevado de óbitos.

Ainda não se sabe exatamente por que um evento traumático pode desencadear o TEPT em uma pessoa e não causar nenhum sintoma em outra, mas alguns fatores de risco para essa condição envolvem características individuais: transtorno mental prévio, fatores genéticos, personalidade; bem como características do evento em si e características ambientais, como apoio familiar e social.

Dentre os fatores de proteção para a saúde mental, a resiliência —  capacidade de reagir ao estresse de maneira saudável — tem sido apontada como uma condição capaz de minimizar o impacto de eventos traumáticos e, portanto, reduzir os sintomas de TEPT. 

Situações traumáticas causam sofrimento e dor que de tão imensos parecem não caber em uma vida. E muitas vezes não cabem. Adoecem.

Penso nos meus colegas psicólogos e nos psiquiatras… escolhemos profissões que permitem o atendimento de quem sofre com TEPT. Desejamos aliviar as dores, construir novas possibilidades, auxiliar a superação de um trauma.

Penso nos pacientes… vidas impactadas, com rumos tão duramente modificados e o desejo de ter sua dor abrandada.

Penso nos versos de Cora Coralina…

“Às vezes o coração rasgado pela dor vira retalho”.

Permito-me parafrasear e finalizo: tomara a gente possa ser a linha capaz de costurá-lo, juntando pedacinhos, suficientes para superar a dor e permitir o recomeço.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

A permissão para ser suficiente

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicolog

 

Imagem: Pixabay

“Tristeza não tem fim. Felicidade sim”. Esse trecho da música de autoria de Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes valoriza algo que todos nós experimentamos: as emoções. Porém, ao contrário do que dizem os versos dessa belíssima canção, as emoções, tais como amor, felicidade, tristeza e medo, não são estáveis e não têm duração definida.

Diversas pesquisas em Neurociências buscam compreender o processamento das emoções, destacando que as experiências emocionais são o resultado de interações complexas entre estímulos sensoriais, circuitos cerebrais, experiências passadas e ativação de sistemas de neurotransmissores. 

Algumas emoções, como o medo e a raiva, apesar de caracterizarem sentimentos desagradáveis, são naturais e têm funções adaptativas, como possibilitar comportamentos de proteção e fuga diante dos perigos. Entretanto, somos bombardeados com a exigência de modelos de positividade exagerada, uma cobrança de que sentimentos desagradáveis devem ser eliminados. 

Essa positividade exagerada, além de invalidar as emoções, incentiva a busca pela perfeição, atalhos para o sucesso e alto desempenho, num coro: “você só não consegue se não quiser”, difundido especialmente pelas redes sociais, através de influenciadores e frases motivacionais.

Amparado nesse positivismo de que é possível fazer tudo ou ser quem você quiser – que é possível ter o corpo perfeito, humor impecável e ser multitarefa – sobram apelos motivacionais e falta capacitação, dedicação e competência. A positividade excessiva não aceita desculpas para não ser produtivo ou perfeito.

Em seu livro “Sociedade do cansaço”, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, radicado na Alemanha, aborda que o excesso de positividade conduz a uma sociedade na qual todos precisam estar sempre produzindo, e que tudo depende da força de vontade individual. Isso produziria pessoas deprimidas, decorrente da pressão pela infalibilidade.  

Na contramão do trabalho como protagonista da vida contemporânea e do excesso de produtividade, Ieda Rodhen, doutora pela Universidade de Deusto, na Espanha, destaca a importância do ócio construtivo, caracterizado pelas atividades de lazer, como esporte, arte ou turismo, bem como pela decisão de um livre não fazer nada. Para Ieda, tais atitudes somente podem ser consideradas ócio se envolverem liberdade, se forem uma escolha da própria pessoa, não podendo ser decorrentes de modismos ou realizadas para agradar a sociedade. 

Desse modo, algumas experiências podem ser solitárias e aparentemente passivas, como aquelas que envolvem introspecção e autoconhecimento. Experiências que nos permitem compreender que não precisamos estar sempre felizes, produtivos, com corpos perfeitos ou em padrões que não nos cabem.

Isso nos conduz à compreensão de que algumas coisas não são possíveis. Talvez nunca sejam possíveis. Nunca seremos tudo. E tudo bem! Somos seres limitados e por isso precisamos uns dos outros. Temos habilidades e dificuldades, riso e choro. Isso nos humaniza, nos individualiza.

Se buscamos a felicidade é porque em alguns momentos ela nos falta. Mas não são assim as emoções? Não queremos ser excesso, mas também não somos escassez. Sejamos suficientes, porque como dizia Epicuro, “nada é suficiente, para quem o suficiente é pouco”. 

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento: inscreva-se no canal 10porcentomais no Youtube.

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Como ficam nossos neurônios-espelho e a empatia se interagimos apenas com telas de celular

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicolog

 

Cena do filme “O Enigma de Kaspar Hauser”

 

O filme “O Enigma de Kaspar Hauser” (1974), do diretor alemão Werner Herzog, narra a história de um adolescente encarcerado até a idade de 16 anos, quando teve seu primeiro contato verbal e social. Nos dois anos seguintes, com a ajuda de uma família e de um padre, ele consegue ampliar o seu vocabulário, mas nunca desenvolveu a competência linguística de maneira plena. Aprendeu algumas atividades como tricô e jardinagem, mas não adquiriu a compreensão de regras e convenções da época, especialmente sociais e religiosas, permanecendo com habilidades sociais muito prejudicadas.

De lendas a casos reais bem documentados, crianças que passaram por privação de contato social, chamadas de crianças selvagens, em geral apresentam dificuldades na aquisição de algumas habilidades ou aptidões cognitivas, como a linguagem, apesar de todos os esforços e incentivos realizados. Isso mostra o impacto da privação social para o desenvolvimento humano. 

Diversos estudos têm sido realizados sobre a capacidade humana de aprender pela observação.

Albert Bandura, psicólogo canadense, realizou experiências nas quais crianças assistiam a vídeos de adultos que agrediam um boneco do tipo “João Bobo” e em seguida eram levadas para uma sala de brinquedos, onde também tinha o tal boneco. Nessa condição, 90% das crianças apresentavam as mesmas atitudes dos adultos em relação ao boneco, indicando que comportamentos podem ser aprendidos a partir da observação da ação realizada por outras pessoas.

Para Bandura, a aprendizagem por observação, ou aprendizagem social, acontece pela observação das pessoas com as quais convivemos, como pais, irmãos e amigos. 

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento: inscreva-se no canal 10porcentomais no Youtube.

Em meados da década de 90, na Universidade de Parma, Giacomo Rizzolatti e sua equipe descobriram em cérebros de macacos Rhesus os neurônios responsáveis pela aprendizagem por imitação. Os cientistas descobriram nesses macacos a ativação de determinados neurônios durante a execução de uma ação e também quando observavam o experimentador realizar a ação. Daí a origem do termo neurônio-espelho.

Posteriormente, estudos utilizando ferramentas de neuroimagem, como ressonância magnética funcional, demonstraram a ativação de regiões do córtex cerebral em humanos durante a execução e/ou observação de ações  realizadas com a mão, a boca ou os pés. Semelhante aos achados com animais, a observação da expressão facial de nojo em outra pessoa, irá ativar regiões específicas do cérebro que também serão ativadas quando a própria pessoa sentir nojo.

Os neurônios-espelho estão envolvidos na compreensão da base biológica de algumas habilidades mentais, sugerindo sua contribuição na origem da linguagem humana e no desenvolvimento de funções importantes como imitação, aprendizado e habilidades de relacionamento interpessoal, como a empatia.

Em tempos de isolamento social provocado pela pandemia e numa sociedade que permanece longos períodos diante das telas, a nossa capacidade de aprender pela imitação estaria comprometida? Isso poderia prejudicar as nossas habilidades sociais?

Artigo recentemente publicado no Globo (Neurônios-Gandhi’s, em 31-10-2020), destaca a preocupação da psicóloga Kimberly Quinn, professora do Champlain College, quanto à exposição de crianças e jovens à internet, como fator que poderia reduzir a aprendizagem por imitação. Além disso, a psicóloga manifesta sua preocupação quanto ao tempo excessivo de tela e a possibilidade disso nos transformar em robôs. 

Os avanços na tecnologia da comunicação têm reduzido as diferenças entre espaços de aprendizagem virtual e presencial. Entretanto, diversos estudos envolvendo aprendizagem e realidade virtual têm demonstrado que apesar das conquistas tecnológicas, existem prejuízos no processamento de informações comunicativas, tanto gestuais quanto linguísticas, com redução de aprendizado baseado nas telas em comparação com as interações ao vivo, especialmente em crianças pequenas.

Ainda permanecem muitas questões sem respostas relacionadas à aprendizagem social, comunicação e mecanismos envolvendo neurônios-espelho em situações cada vez mais virtuais; porém, o isolamento social provocado pela pandemia é completamente diferente da privação social vivenciada pelas crianças selvagens. 

Talvez o excesso de tecnologia nos aproxime de atitudes mais robotizadas. Não sabemos. Mas possivelmente se Kaspar Hauser tivesse um smartphone ao seu alcance, possivelmente teria desenvolvido mais habilidades humanas. 

Enquanto não temos respostas definitivas, o bom senso no uso das telas ainda deve prevalecer e as interações humanas, sempre que possíveis, são muito bem-vindas.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento: inscreva-se no canal 10porcentomais no Youtube.

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

O pó de pirlimpimpim na palma da nossa mão

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicolog

Foto: Pixabay

 

“Marmelada de Banana

Bananada de Goiaba

Goiabada de marmelo”

Gilberto Gil

Quando eu era criança, lá por volta dos meus 6, 7 anos, ao ouvir a música do Sítio do Picapau Amarelo na televisão, eu corria para o sofá porque era o momento de começar um dos meus programas favoritos. A adaptação da obra literária de Monteiro Lobato, passava de segunda à sexta-feira e despertava a imaginação de muitas crianças.

Emília era a minha personagem preferida. Engraçada, intrometida, falava pelos cotovelos… de certo modo acho que me identificava com a boneca de pano, pois ouvia dos meus irmãos que parecia que eu tinha engolido a pílula falante também… por que será? 

De todas as aventuras e travessuras que Emília e sua turma aprontavam no sítio, uma das minhas favoritas era o uso do pó de pirlimpimpim como forma de se teletransportar para outros lugares, como o Reino das Águas Claras.

Nas minhas brincadeiras, adorava me imaginar como os personagens do sítio: entrava no guarda-roupa dos meus pais e dizia que ao sair de lá estaria em outros lugares, para onde a imaginação me conduzisse. Fechava os olhos, falava pirlimpimpim (que era a palavra mágica), abria a porta e pronto! Ali estava eu no mundo do faz-de-conta, com minhas brincadeiras de criança. E isso era muito divertido!

Depois que me tornei adulta, em voos mais longos ou viagens mais cansativas, sempre brincava que adoraria ter o tal do pirlimpimpim para poder fechar os olhos e já abrir em outro lugar. Ao entrar num avião sempre me lembrava daquele pó mágico. Quando o comissário de bordo fechava a porta eu pensava: quando essa porta abrir novamente já estarei em outro lugar. Que coisa fascinante. Ao escrever isso me dei conta que era semelhante ao que pensava lá nas minhas brincadeiras dentro do guarda-roupa.

Com a pandemia nos vimos impossibilitados de ir e vir, seja em viagens curtas ou destinos mais distantes. Isso nos impôs restrições que nem a Emília imaginaria.

Inspirados ou não pela literatura, nós também acabamos descobrindo maneiras de driblar as privações desse período e com o uso da tecnologia conseguimos fazer reuniões à distância, assistir às aulas, fazer happy hour com amigos, até turismo virtual por cidades e museus a gente pode vivenciar.

Nessa semana, ao finalizar um dia de atendimentos online, me dei conta que em uma tarde eu tinha ido da Alemanha para a Irlanda, de Portugal para Vitória e depois, finalmente, São Paulo.

Tempos modernos… tempos difíceis, mas que com um pouco de humor e imaginação me fizeram lembrar das histórias do Sítio do Picapau Amarelo. Eu, que sempre desejei me teletransportar com o pó de pirlimpimpim, descobri que no momento a poção mágica está ao alcance das mãos, numa telinha e num clique, que me permitem ir de um lugar a outro em segundos, encontrar pessoas que conheço apenas virtualmente. 

Na impossibilidade de viajar, minha memória foi ativada e associou vivências atuais a contextos antigos, me levando lá para o início da década de 80. Se fosse com a Emília, ela iria ainda mais longe e diria: mMinhas memórias são diferentes de todas as outras. Eu conto o que houve e o que deveria acontecer”. Não provoque Emília! Porque em plena pandemia, a gente vai desejar essa sua habilidade também. 

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento: inscreva-se no canal 10porcentomais no Youtube.

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

As mulheres e a pandemia: desafios que ultrapassam a luta contra o vírus

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

 

Foto: Pixabay

 

Em março de 2020, após a Organização Mundial de Saúde declarar como pandemia a doença causada pelo SARS-COV-2, a COVID-19, diversos países determinaram o isolamento social ou o “lockdown” como forma de reduzir a transmissão do vírus.

Isso causou uma modificação significativa na vida cotidiana, como restrições à mobilidade, impossibilidade de sair de casa para estudar ou trabalhar, perdas financeiras e redução do convívio social mais amplo. Possivelmente em decorrência desses fatores, as preocupações com a saúde física foram somadas à crise psicossocial, causada em grande parte pelo aumento dos transtornos mentais e da violência contra a mulher.

Relatórios policiais indicam que durante a pandemia as ligações para solicitar ajuda em decorrência da violência doméstica aumentaram em diferentes países, como na Argentina, Canadá, França, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos. Além disso, diversos estudos apontam que muitas vezes a mulher não solicita ou não reporta o ocorrido, especialmente quando a violência sofrida é psicológica. Como fator de agravamento, o controle do uso de redes sociais ou de acesso aos telefones e celulares também dificulta o pedido de ajuda, caracterizando a violência tecnológica.

Dados da província de Hubei na China, epicentro inicial da epidemia de coronavírus, mostraram que a violência doméstica havia triplicado em fevereiro de 2020, durante o lockdown. 

Na França, o período de isolamento social iniciou-se em 17 de março e em menos de um mês as denúncias feitas à polícia já mostravam um aumento de 30% nos índices de violência doméstica.

No Brasil, dados do 14º Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostraram um aumento de 3,8% no número de ligações efetuadas para o telefone de emergência da Polícia Militar relacionadas à violência doméstica e um aumento de 1,9% dos casos de feminicídio no primeiro semestre de 2020. Entretanto, houve uma redução no registro de outros crimes, como lesão corporal dolosa ou ameaça contra vítimas do sexo feminino, possivelmente pela dificuldade enfrentada pela mulher, durante o isolamento social,  para registrar o ocorrido, corroborando os dados encontrados em outros países. 

Um estudo realizado com 751 mulheres na Tunísia, durante o lockdown, identificou um aumento na violência contra a mulher de 4,4% para 14,8%, sendo o abuso psicológico o tipo de violência mais frequente, presente em 96% dos casos relatados. As mulheres que já tinham um histórico de doenças mentais e sofreram violência durante o lockdown apresentaram sintomas mais graves de depressão, ansiedade e estresse.

Dados sobre prevalência de transtornos mentais indicam que a ansiedade e a depressão acontecem com maior frequência nas mulheres do que nos homens. As causas dessa diferença não são totalmente conhecidas, mas acredita-se que isso resulte da interação entre fatores biológicos, como alterações hormonais, e fatores psicossociais.

Se por um lado existem fatores biológicos que aumentam a vulnerabilidade da mulher para os transtornos mentais, por outro, mulheres que são vítimas de abuso e violência apresentam um risco maior para depressão e suicídio, alertando sobre os efeitos nocivos de estressores ambientais para a saúde mental. 

A literatura sobre violência contra a mulher aponta que em todas as situações de crise, como guerras, desastres naturais ou epidemias graves, independentemente do país, a violência doméstica tende a aumentar. Na época do furacão Katrina, que atingiu os Estados Unidos em 2009, a ocorrência de violência física sofrida pelas mulheres quase dobrou (passando de 4,2% para 8,3%). Na Nova Zelândia, durante o fim de semana após o terremoto de 2010, a polícia relatou um aumento de 50% nas ligações sobre violência doméstica. Após o desastre de Fukushima, a violência física contra mulheres grávidas foi quatro vezes maior do que em outras regiões japonesas durante o mesmo período. 

O desemprego, problemas financeiros, dificuldades da vítima para buscar ajuda e o uso de álcool e drogas são apontados como fatores de risco para aumento da violência doméstica.

Um estudo realizado em 2014 por pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo em parceria com a Universidade Federal de Pelotas, com 938 mulheres na cidade de Vitória (ES), mostrou que quando seus parceiros usavam drogas ou álcool, elas ficavam mais vulneráveis à violência doméstica.

Com ou sem álcool, a violência masculina muitas vezes é aceita como um comportamento “normal” em situações de crise, como se a resposta agressiva contra a mulher fosse consequência natural de um momento de raiva ou sofrimento pessoal. Por outro lado, nessas situações, as mulheres são acusadas de reações exageradas ou o seu pedido de ajuda é simplesmente ignorado.

A violência contra a mulher é um fenômeno social complexo cuja questão central se concentra na desigualdade de poder nas relações, caracterizadas por subordinação, medo, dependência e intimidação para a mulher. Os comportamentos agressivos dirigidos à mulher têm a intenção de dominar o seu corpo, mente, vontade e liberdade, provocando danos físicos, morais e psicológicos.

Não se pode afirmar que a violência contra a mulher seja consequência direta da pandemia de COVID-19, mas há uma consequência da pandemia na saúde pública, causada pela intensificação desse tipo de violência, historicamente estruturada e muitas vezes silenciada, agravada pelo distanciamento social.

A violência contra a mulher não escolhe cultura, etnia, religião, classe ou escolaridade, mas a possibilidade de acesso à justiça e aos serviços de saúde pode ser diferente e promover desfechos também diferentes de uma mulher para outra. Triste realidade.  A impunidade aumenta o risco de feminicídio. A impunidade do agressor aumenta o sofrimento psicológico na vítima, com graves consequências para a sua saúde mental.

Enquanto alguns países se preparam para o fim do isolamento social, outros reiniciam o processo de lockdown pelo aumento de novos casos. A pandemia de COVID-19 continua exigindo medidas de prevenção: contra o vírus invisível, imperceptível; mas também contra comportamentos que não podem mais ser aceitos, que causam danos terríveis às vítimas.  A violência contra a mulher faz adoecer e pode ser fatal,  porém medidas de prevenção também podem ser adotadas e, assim como na pandemia, exigem atitudes de todos, numa ação conjunta, que se mostre capaz de promover o respeito e a igualdade de direitos.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento: inscreva-se no canal 10porcentomais no Youtube.

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

O cérebro na pandemia: mulheres têm até 3 vezes mais chances de apresentar transtornos mentais

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Imagem: Pixabay

 

Diversos estudos têm mostrado o potencial do coronavírus (SARS- COV-2) de invadir o sistema nervoso central, promovendo alterações estruturais e funcionais no cérebro de pacientes com COVID-19. Apesar de não haver precisão no número de pessoas afetadas e no tempo de duração das alterações neurológicas e psicológicas causadas pela COVID-19, pesquisas realizadas em diferentes países sugerem que uma parcela significativa da população mundial experimentará as consequências dessa pandemia na saúde mental.

Um estudo realizado na Espanha sobre os prejuízos psicológicos causados pelo COVID-19 revelou aumento de 7% dos casos de depressão, com maior vulnerabilidade para pessoas de baixo nível socioeconômico, mulheres e pessoas com rede de apoio fragilizada. 

Na China, país no qual surgiram os primeiros casos, os resultados dos estudos mostraram aumento no índice de ansiedade, depressão e uso nocivo de álcool, quando comparados com os índices populacionais anteriores à pandemia.

Um estudo conduzido pelo Instituto de Psicologia da UFRGS avaliou os indicadores de sintomas de transtornos mentais e identificou que ter a renda familiar reduzida, causada pelos impactos econômicos da pandemia, fazer parte do grupo de risco e estar mais exposto a informações negativas, como o número de mortos e infectados, são fatores que podem provocar maior prejuízo para a saúde mental. 

No Brasil, semelhante aos dados do estudo espanhol, as mulheres têm quase 3 vezes mais chances de apresentar transtornos mentais durante a pandemia. A violência doméstica sofrida durante o isolamento social é um dos fatores que contribui para essa estatística.

Além dos impactos emocionais relacionados à pandemia, prejuízos nas funções cognitivas, como atenção, memória e processamento de informações também estão sendo reportados em diversos estudos, como consequência de alterações no cérebro, mesmo em pacientes que tiveram a forma leve da doença.

As medicações usadas no tratamento da COVID-19 podem também promover alterações neuropsiquiátricas como amnésia, delírio, alucinações, mudanças de humor, comprometimento cognitivo leve e psicoses.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento: inscreva-se no canal 10porcentomais no Youtube.

Com base em dados obtidos em epidemias anteriores, como a síndrome respiratória aguda grave, ocorrida em 2003, e a síndrome respiratória do Oriente Médio, em 2012, 78% das pessoas apresentaram problemas cognitivos até um ano após a alta hospitalar.

Falhas de memória para situações cotidianas, como esquecer de tomar medicamentos ou compromissos, foram persistentes até cinco anos após a alta. Naquela época, foram identificados prejuízos cognitivos semelhantes aos que pesquisadores estão observando na pandemia atual, com falhas na atenção, memória, processamento de informações e funções executivas — habilidades cognitivas que envolvem planejamento e realização de tarefas.

Do mesmo modo que não é possível saber o número exato de pessoas que já foram contaminadas pelo coronavírus, possivelmente o número de pessoas impactadas por alterações neuropsiquiátricas também não está bem dimensionado. Assim, tão importante quanto as medidas de prevenção adotadas inicialmente, propostas terapêuticas e de reabilitação devem ser planejadas para atingir as necessidades específicas de cada pessoa, reduzindo as sequelas causadas pela doença, oferecendo ganhos no estado mental e na qualidade de vida do paciente e de seus familiares. 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

A Saúde Mental pede socorro

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

 

O dia Mundial da Saúde Mental é celebrado no dia 10 de outubro, e tem se consagrado por ser uma data marcada por alertas e preocupações. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) aproximadamente 1 bilhão de pessoas vivem com algum transtorno mental —- a maioria não tem acesso a tratamentos. Em países de baixa renda, cerca de 75% das pessoas que têm um transtorno mental não recebem nenhum tipo de tratamento. 

Além da falta de investimentos públicos, outro fator que impacta diretamente o acesso ao tratamento é a desinformação, sustentada pela forma histórica como as doenças mentais foram tratadas ao longo dos anos, favorecendo atitudes preconceituosas e discriminatórias.

No Brasil, até meados do século XIX a doença mental era objeto da justiça. Os pacientes psiquiátricos violentos iam para as prisões e os mais pacíficos vagavam pelas ruas, sem tratamento. Em função de mudanças que aconteceram em outras partes do mundo, as Santas Casas de Misericórdia começaram a admitir esses pacientes, porém, por serem numerosos, não foram mantidos por muito tempo. Em seguida, alguns hospitais psiquiátricos foram construídos, os Hospícios, para onde os pacientes eram levados e permaneciam isolados do convívio social. 

Somente após a década de 80, o surgimento de novos medicamentos permitiu que pacientes que permaneciam em internações por longos períodos pudessem ser tratados de maneira ambulatorial. Somando-se a isso, a mobilização de profissionais de saúde e de familiares de pessoas com transtornos mentais denunciando as péssimas condições da maioria dos hospitais e os maus tratos sofridos, como violências e torturas aos pacientes, permitiram o crescimento dos movimentos antimanicomiais, levando ao fechamento dos grandes hospitais psiquiátricos. 

O avanço da ciência favoreceu que muitas crenças associadas ao paciente psiquiátrico fossem revistas, porém, não impediu que ainda hoje estigmas e preconceitos estejam presentes.

Se em outras doenças os tratamentos são preconizados e seguidos, para as  doenças psiquiátricas há uma tendência coletiva de desvalorização dos sintomas, ainda associados a alterações do comportamento que envolvem escolhas pessoais e tentativas terapêuticas não comprovadas cientificamente. 

Assista ao canal Dez Por Cento Mais, no YouTube

Diversas ações podem ser adotadas na direção de promoção e prevenção em saúde mental. Dentre essas ações destacam-se políticas públicas que promovam melhoria das condições socioeconômicas da população, redução dos níveis de desemprego, incentivo à escolaridade, redução da violência e habitação segura; fatores apontados como os principais riscos à saúde mental de adultos.  

 A educação sobre os transtornos mentais também compreende promoção e prevenção em saúde mental, uma vez que a divulgação de informações em escolas, empresas, comunidades e mídias pode aumentar a identificação dos primeiros sinais da doença, permitindo o diagnóstico precoce e o tratamento adequado. 

Falar sobre transtornos mentais não aumenta a sua incidência e tende a reduzir significativamente os números supracitados associados à falta de tratamento. Buscar ajuda pode mudar o curso da doença, reduzindo a sua cronicidade, além de promover uma vida mais equilibrada e saudável, com menos sofrimento para os pacientes e seus familiares.

Demoramos muitos séculos para compreender que a saúde mental não é prêmio nem privilégio, não é escolha nem castigo. A união dos avanços terapêuticos às políticas públicas adotadas não nos permite mudar a história já construída, mas escrevê-la daqui por diante, com ações planejadas que mudem não apenas os números, mas a vida de tantas pessoas.  

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Comprar ou não comprar… eis o que está por trás desta decisão

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto: Pixabay

 

A pandemia de coronavírus causada pelo COVID-19 impôs uma série de mudanças de comportamentos como medidas de proteção à propagação do vírus. O fechamento de estabelecimentos comerciais e o medo de sair de casa levaram muitos consumidores a optarem pelo comércio eletrônico.

Segundo dados da Receita Federal, em junho, o volume de vendas virtuais cresceu 70% na comparação com o mesmo mês no ano passado. Dados de empresas administradoras de cartões de crédito também apontam um crescimento no número de vendas e no valor gasto nas compras efetuadas no mesmo período.

Aumento no tempo de uso das telas, publicidade direcionada para os nossos interesses, pagamento facilitado, promoções e compras efetuadas num único clique. Seria esse o combo capaz de interferir na nossa tomada de decisão para comprar de modo racional?   

A tomada de decisão é um processo que envolve escolher uma dentre várias alternativas, em situações que envolvam algum nível de risco ou incerteza. Nesse processo, as alternativas são analisadas, levando-se em conta custo/benefício, consequências a curto e longo prazo, para si e para outras pessoas. 

Quando se está diante daquele produto irresistível, uma “batalha” é travada no nível cerebral, para decidir se iremos ou não comprá-lo. 

Estudos realizados com Ressonância Magnética Funcional mostram que diante de situações prazerosas – e comprar é uma situação prazerosa – são ativadas regiões cerebrais relacionadas à atenção e tomada de decisão, mas também regiões relacionadas às emoções. 

Nessas situações, a ativação de algumas regiões cerebrais gera a sensação de felicidade, mexendo com mecanismos de memória. Assim, manteremos registrado que situações como essa produzem bem estar e, portanto, devem ser repetidas. Por outro lado, regiões responsáveis pela racionalidade também entraram em ação, permitindo que você avalie as consequências, pondere se esse gasto cabe no seu bolso e, finalmente, se decida ou não pela compra. 

Do ponto de vista neuroquímico, alterações nos níveis de dopamina prejudicam especialmente a atividade funcional dos circuitos pré-frontais, regiões cerebrais envolvidas no processo de tomada de decisão, resultando em prejuízos ou comportamentos impulsivos.

Em geral, a compra impulsiva reflete uma baixa análise das consequências e do custo/benefício, favorecida por propagandas, embalagens e promoções. A compra compulsiva, por outro lado, apesar de também refletir um padrão de pouca análise, está associada com atitudes desadaptadas para se lidar com a ansiedade ou angústia, sendo uma maneira de aliviar o estresse ou a tensão, sem considerar a necessidade do produto ou o saldo bancário para isso. O prazer obtido é imediato e passageiro, seguido por sentimentos de culpa, arrependimento e endividamento.

O interesse por compreender os mecanismos neurobiológicos envolvidos na tomada de decisão fez surgir uma nova área de estudos, a neuroeconomia. Baseada nos estudos de economia comportamental, psicologia cognitiva e neurociências, diversas pesquisas em neuroeconomia têm sido desenvolvidas para compreender o processamento de informações e seus efeitos sobre as escolhas, permitindo a melhor compreensão de comportamentos econômicos, como gastar mais do que se ganha. 

Nossas compras não precisam ter sempre motivações racionais, mas diante daquele produto incrível, seja no e-commerce ou em lojas físicas, talvez seja o momento de parar, refletir, buscar um equilíbrio entre a emoção e a razão, compreendendo o que está por trás da nossa ação. Afinal, o planejamento e a análise cautelosa antes da compra ser efetuada não impedem totalmente o arrependimento, mas reduzem as chances de que a felicidade causada pelo consumo seja esquecida logo após a visualização do extrato bancário.

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung