Empresa “pró-família”: por que ainda existem divergências nessa percepção?

por Michelle Terni

Foto de Keira Burton

O significado de um ambiente pró-família ainda é nebuloso, tanto para colaboradores quanto para líderes. 

Na pesquisa “Mapeando um ambiente pró-família nas organizações” (*), feita com 1500 profissionais de empresas de diferentes segmentos do país, com o intuito de avaliar a experiência de mães/pais, líderes e colegas de profissionais com filhos quanto ao entendimento do que é um ambiente acolhedor para colaboradores com filhos, apuramos visões positivas sobre a política de parentalidade das empresas, porém percebemos um percentual contraditório de entrevistados que dizem desconhecer o que é, de fato, uma política parental. 

Além disso, recebemos afirmações díspares quanto ao grau de satisfação entre líderes e liderados, homens e mulheres. E ainda, embora as lideranças digam se sentir preparadas para lidar com o tema ‘parentalidade’ em sua gestão, a maioria dos liderados consultados aponta insegurança em diferentes fases da paternidade, desde o anúncio sobre a espera do bebê até a fase amamentação no retorno pós licença. Além disso:

  • 90% dos homens entrevistados acreditam que a empresa na qual trabalham é um bom lugar para as mães trabalharem. No entanto, quando a mesma pergunta é feita para essas mulheres, o índice cai para 68%. Para os gestores dessas mulheres, 83%. E para seus colegas de profissão, 80%.
  • 35% dos colaboradores afirmaram ter nenhuma ou pouca clareza acerca das políticas de parentalidade da organização. 
  • 98% dos líderes dizem se sentir seguros em gerir uma equipe de profissionais com filhos. Mas, ao serem perguntados sobre o grau de segurança para esclarecer dúvidas relacionadas as políticas de parentalidade, esse percentual cai para 73%. 
  • 70%dos colaboradores se declararam acolhidos pela sua liderança direta quando o assunto é paternidade ou maternidade. Mas, 45% desses liderados ainda dizem sentir alguma insegurança para comunicar suas necessidades com clareza para o gestor. 
  • 4 em cada 10 entrevistados disserem ter apresentado algum grau de insegurança para dar a notícia da gestação e cuidar de suas necessidades físicas e emocionais. 
  • 25%dos pais e mães revelam insegurança no retorno ao trabalho após a licença maternidade/paternidade. Essa é a fase com maior insatisfação. O índice é mais acentuado quando os entrevistados são colaboradores que vivenciam ou vivenciaram uma parentalidade com desafios, caracterizada pelo luto gestacional, a parentalidade solo ou de filhos com necessidades específicas, adoção, gestação de risco ou prematuridade.
  • De modo geral, em relação à licença maternidade e retorno ao trabalho, sustentar a amamentação nesse retorno foi considerado preocupante para metade das mães entrevistadas.

Nas respostas abertas dos entrevistados, esse relato nos chamou atenção:

“(Uma empresa pró-família é) um ambiente onde a chegada de um novo membro na família é vista de maneira tão natural pelos líderes e pelos pares, que o pai e a mãe não sintam receio de falar sobre o assunto e no impacto em seu desenvolvimento profissional”. 

Vejam isso!

Friso aqui que naturalizar a parentalidade como algo que faz parte [e um capítulo na vida dos profissionais] é, inclusive, agregar positivamente na carreira desses pais e mães. É no exercício diário da criação que seus cuidadores desenvolvem habilidades, sobretudo corporativas.

Benefícios

Na pesquisa, também perguntamos sobre os benefícios essenciais na criação de um ambiente pró-família. A maioria dos colaboradores apontou a jornada de trabalho flexível, superando o desejo por políticas como a licença maternidade e paternidade estendida. Em segundo lugar, o auxílio-creche e o plano de saúde estendido aos dependentes. 

Já entre as iniciativas socioemocionais apontadas como desejáveis, a liderança acolhedora e empática foi requisito principal apontado pelos profissionais, a frente da preparação para a licença maternidade e recepção no retorno da licença, mentorias de carreira pós licença, apoio psicológico e programas de acompanhamento para gestantes e parceiros.

Realização pessoal como propulsora de performance

Como consultoria de parentalidade, percebemos um interesse maior por parte das empresas em conhecer mais sobre política parental e sensibilizar os seus para a construção de uma cultura corporativa que suprima esses tabus e reconheça a realização pessoal e o equilíbrio entre família e carreira como propulsores de performance.  

Outro ponto é trazer a isonomia para a conversa. Essa diferença nas percepções de mães e de pais é reflexo de uma sobrecarga para essas mulheres nos cuidados com os filhos. A realidade começará a mudar quando as empresas ampliarem a pauta, deixando de falar somente com a mulher, e passarem a abrir diálogo e propor benefícios para a família toda.

Acreditamos que o caminho para uma revisão das políticas parentais passa pela inclusão de outros modelos de famílias, pela implementação de jornadas flexíveis, de licenças parentais, e de auxílios financeiros e de saúde a esses responsáveis. Para isso, é preciso investir em trilhas de conteúdo, vivências de sensibilização, além programas concretos, com diretrizes e metas, para colocar em prática uma mudança no comportamento da liderança.

*O estudo “Mapeando um ambiente pró-família nas organizações” teve o apoio da Talenses Group e do Movimento Mulher 360. Foram ouvidos 1.568 profissionais de empresas de todas as regiões do país, entre novembro de 2021 e janeiro de 2022.

Michelle Terni é cofundadora e CEO da Filhos no Currículo, consultoria focada em criar ambientes corporativos cada vez mais acolhedores para pais e mães, por meio da implementação de trilhas de conteúdo, vivências de sensibilização e estruturação de programas de parentalidade corporativos. Escreveu esse artigo a convite do blog miltonjung.com.br

Avalanche Tricolor: minha mãe tinha razão!

Bahia 0x0 Grêmio

Brasileiro B – Arena Fonte Nova, Salvador BA

Grando defende mais uma, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Os acréscimos já corriam no cronômetro do árbitro quando a bola veio por cima, pegou a defesa se deslocando e Bruno Alves em uma rara atrapalhada, até aparecer livre no pé do atacante de frente para o gol. A Gabriel Grando restou abrir ao máximo seus longos braços, escancarar as pernas o mais distante que foi possível e diminuir o espaço para o chute. A batida da bola no pé do poste ecoou de Salvador a Porto Alegre e som passou raspando aqui por São Paulo. Acompanhei em silêncio e sem respirar o interminável instante em que a bola percorreu a trajetória entre o pé do atacante e o poste gremista; o silêncio e o momento anaeróbico se mantiveram até ela ser despachada para escanteio por um dos nossos que estava no caminho.

Tomar um gol àquela altura causaria um tremendo estrago para nós que estamos resistido entre os quatro primeiros do campeonato desde que assumimos este posto há três rodadas. Diante das limitações técnicas perceptíveis sempre que a bola começa a rolar, a manutenção no G4, o reduzido número de gols que tomamos — apenas cinco em 16 jogos — e a série de dez partidas invictas são quase uma dádiva dos “deuses do futebol”, como se tentassem se desculpar por não terem nos concedido a benção de “sofrer sem cair” no ano passado — não que tivéssemos feito por merecê-la. 

Justiça seja feita, estar na parte de cima da tabela tem muito a ver com a forma com que Roger decidiu montar o time, considerando o elenco que tinha em mãos. O treinador sabe que não tomar gol e sair de campo sempre com algum ponto no bolso, nas partidas fora de casa, é lucro, enquanto não encontra a formação ideal nem os jogadores apropriados para cada posição. É dele, também, a capacidade de mobilizar o grupo a superar com muito esforço e dedicação a falta de criatividade. 

Tem o mérito de Grando, na partida de hoje — que fez ao menos duas grandes defesas — e de Geromel, em todo o campeonato — nosso capitão é supremo mesmo frente às dificuldades do time. E, claro, se aqui estamos na décima-sexta rodada do Campeonato Brasileiro, devemos muito à máxima que ouvia da Dona Ruth, sempre que eu conseguia me safar de alguma molecagem aprontada lá nas bandas da Saldanha Marinho: “guri, você tem mais sorte do que juízo!”.

O Grêmio, também, mãe! O Grêmio, também! 

Mundo Corporativo: Rodrigo de Aquino fala de bem-estar e felicidade na estratégia ESG

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“Grande desafio é a gente conseguir fazer com que os líderes eles abracem esse novo pensamento e levem em cascata para os seus departamentos, para a diretorias pra gerências para a gente conseguir construir novas gerações capazes de terem esse comportamento mais humano e feliz”  

Rodrigo de Aquino, comunicólogo

Transformar o ‘ganhar, ganhar e ganhar’ em “ganha-ganha-ganha” é bem mais do que um jogo de palavras, é uma transformação cultural que a empresa precisa encarar para se tornar sustentável, oferecendo a oportunidade para que as relações de negócios sejam baseadas em valores humanos. E se é de humanidade que estamos falando, é preciso trazer para a discussão interna nas empresas os temas da felicidade e do bem-estar que são tão necessários quanto complexos; tão complexos quanto subjetivos.

No Mundo Corporativo ESG, Rodrigo de Aquino, comunicólogo, consultor e fundador do Instituto DignaMente, destacou que um dos pilares da felicidade é o estudo das virtudes, onde encontramos o caminho do meio com mais Justiça, Sabedoria e Temperança: 

“E aí, onde é que moram as virtudes na filosofia? Elas têm morada na Ética. Então, quando eu tenho uma conduta ética, quando eu tenho uma conduta mais digna, eu acabo gerando relações mais positivas e eu tenho um impacto diretamente na governança e, obviamente, eu também tenho um impacto no meio ambiente. Então, esse é o primeiro ponto que a gente pode trazer para falar sobre essa relação entre felicidade e o ESG”.

Assim que o Rodrigo trouxe esse olhar para a nossa conversa, a primeira coisa que me veio à mente foram as reclamações frequentes de colaboradores e funcionários das mais diversas empresas com a maneira com que os relacionamentos se dão no ambiente profissional — ou isso não acontece aí na sua empresa?  Você é uma pessoa de sorte! De maneira geral, há muitas queixas aos processos e formas impostos na realização do trabalho, mesmo naquelas organizações que dizem estar comprometidas com a governança ambiental, social e corporativa. Para quem se apresenta ao mercado como uma empresa dedicada às práticas ESG, não pautar o tema da felicidade e o bem-estar é abdicar de parcela da responsabilidade que assumiu. 

“A gente vive nesse mundo tão polarizado, entre o bem e o mal, o positivo e o negativo que, às vezes, não tem esse momento de respirar olhar e falar assim: ‘deixa eu entender qual é o caminho do meio‘. A gente começa a pensar em em uma palavra que está muito em voga que é a empatia. Como que eu consigo parar e olhar a realidade do outro, calçar o sapato do outro, antes de eu sair metralhando verdades, antes de eu sair cuspindo impropérios”. 

No esforço de olhar a vida pela ótica do outro, descobre-se que muitos dos nossos comportamentos — às vezes, bem intencionados — são prejudiciais ao crescimento dos nossos parceiros de negócio e colaboradores. Ao trazer esse ponto para a nossa conversa, Rodrigo lembra frase clássica de Peter Druker, papa da administração e gestão moderna: “a cultura come a estratégia no café da manhã“. Ou seja, as práticas criadas para tornar a empresa mais humanas são inúteis diante dos padrões culturais enraizados na organização, diante do comportamento dos líderes, dos valores éticos e morais que pautam as decisões e dos métodos de trabalho impostos aos funcionários.

Um exemplo são as empresas que para combater o excesso de trabalho criam mecanismos que desconectam da rede corporativa o computador do colaborador  nos horários fora de expediente ou desligam as luzes da sede ao fim deste expediente. Se os processos internos não mudarem e a pressão excessiva por entregas e resultados for mantida, em breve, os funcionários estarão encontrando formas de burlar essas barreiras, porque sabem que o estresse pela cobrança será maior.

Das formas para substituir o círculo vicioso em círculo virtuoso nas relações de trabalho e de negócios, Rodrigo sugere que se comece por entender a jornada do empregado dentro da empresa e se identifique os pontos de tensão e atrito, atuando diretamente neles com pequenas mudanças que —- assim como uma pedra jogada dentro de um lago — podem ganhar uma enorme dimensão. 

Investir na comunicação é fundamental, também. A começar por criar canais de escuta e incentivar os funcionários a falarem o que sentem e precisam, sem barreiras hierárquicas; oferecendo segurança para que hajam assim, sem medo de represálias. A informação sobre as práticas implantadas também têm de circular e ser absorvida por todos, sob o risco  de haver constrangimentos que prejudiquem qualquer política de bem-estar. Um exemplo usado por Rodrigo é o das empresas que decidem criar ações afirmativas para incentivar a diversidade, mas se esquecem de investir no letramento de seus colaboradores para colocar todos na mesma sintonia. 

Sobre medida que precisam ser trabalhadas internamente nas corporações, Rodrigo de Aquino faz um alerta:

“Cada organização tem um conjunto de pessoas diferentes que precisam então de soluções diferentes. A gente tem que tomar muito cuidado com coisas de prateleira: ‘vamos tentar reproduzir em série essas ações’. Porque cada pessoa é uma pessoa. Quando a gente fala de felicidade e bem-estar é um conceito subjetivo e isso, quando eu coloco para uma organização, também preciso pensar na subjetividade desses conceitos”.

Assista à entrevista completa com Rodrigo de Aquino ao Mundo Corporativo ESG.

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, no canal da CBN no YouTube e no site da CBN. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, aos domingos, às dez da noite, e fica disponível em podcast.

Conte Sua História de São Paulo: parecia uma crise, mas era só o fim de uma ilusão

Reprodução de foto publicada no livro “Os desafios de uma pandemia”

O Conte Sua História de São Paulo, neste mês de Julho, em que o frio chega à cidade, e aqueles que vivem em situação de rua sofrem com as baixas temperaturas, abre espaço para acolher o texto de pessoas que estão ou passaram pelo Arsenal da Esperança, onde antigamente funcionava a Hospedaria dos Imigrantes. A partir de um concurso literário, promovido durante a pandemia, quando o local manteve alojados e protegidos quase 1.200 pessoas, 66 textos foram selecionados para compor o livro “Os desafios de uma pandemia”. Destes escolhemos cinco que serão publicados aqui no blog. Nem todos os autores são identificados por nome e sobrenome, mas em todos os textos nós vamos identificar a resiliência do povo de rua.

Para dar início a essa série, o Conte Sua História de São Paulo traz o texto de Luís Carlos:

Tons de esperança

Parecia uma crise, mas era só o fim de uma ilusão… Já fazia algum tempo que eu notava no tom de voz dos que me amavam a nítida intenção de não me proteger da verdade que, mesmo machucando, dói menos do que a ilusão. E a trajetória ao encontro do destino iria revelar que lutar para permanecer no mesmo lugar por fim me tornaria um peregrino.

O céu colorido ao amanhecer, numa aquarela de tons marcantes, emocionava tanto que até um cego veria que algo belo acontecia. Na despedida, o passo do meu caminhar se fazia determinado quando, de soslaio, percebi que minha mãe ainda permanecia à porta do recanto que me confortava e protegia o universo ao meu redor, e que, agora longe, se transmutava em cenários inacreditáveis, notícias estarrecedoras e perspectivas desafiadoras, desenhando em minha mente uma realidade global desoladora e pandêmica.

Conforme rumava à metrópole, surgia a impressão de que silenciosas e vazias ruas haviam sido evacuadas e a população, abandonado o planeta, fugindo de um surpreendente inimigo invisível.

Frente ao olho do furacão percebi que todo este movimento oferece uma mensagem; repensar a vida é o que nos resta e isolar pode se traduzir em reaproximar-se da essência de uma existência mais plena, ou seja, reconectar-se, religar. Ressignificar faz toda a diferença diante das situações que nos põem à prova. Dar um tom de compaixão e fraternidade na abordagem do que nos é exigido pavimenta nosso caminho para a superação. Mais vale um susto no final do que um susto sem fim.

E como a sensação de que algo maior transcende um panorama, nos pintado como avassalador, que nos conduz ao crescimento, surge no horizonte raios de confiança e obstinação, perfazendo verdadeiros tons de esperança, a compor a paisagem de calmaria que nosso mais íntimo sentimento anseia e contempla, sem desamparo.

E que nos imunizemos sobretudo contra a ignorância e falta de humanidade, e surja diante de nós a imagem soberana da paz, num quadro onde todos alcançam saúde e prosperidade.

Luíz Carlos, do Arsenal da Esperança, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também o seu texto e envie agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Greve de ônibus expõe, mais uma vez, falhas das empresas que exploram transporte por aplicativo

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A greve de motoristas e cobradores, em São Paulo, nesta quarta-feira, revelou mais do que os desafios constantes de um sistema de transporte caro e problemático. Expôs a fragilidade da relação entre usuários do transporte por aplicativo e as empresas que exploram esse serviço, especialmente Uber e 99. Enquanto a dificuldade de as partes entrarem em acordo, remunerando e oferecendo benefícios aos trabalhadores e conseguindo conter o custo do transporte de massa na cidade, deixou mais de um milhão e meio de passageiros a pé, o modelo de negócio dos ‘aplicativos’ voltou a prestar um desserviço à população.

Sem muitas alternativas, os passageiros de ônibus recorreram ao celular em busca dos “aplicativos” e foram surpreendidos, seja pela ausência de motoristas seja pelo alto custo. Foi enorme a quantidade de ouvintes da CBN reclamando do fato de terem tido uma série de corridas negadas pelos motoristas, mesmo depois de a viagem ter sido aceita — claramente, ato tomado pelos motoristas que perceberam que a remuneração seria bem menor do que o custo daquela viagem. Os passageiros que tiveram sucesso na chamada, se sentiram explorados pelo valor pago — resultado da tarifa dinâmica. 

Por coincidência ou não, ao mesmo tempo que ouvia as reclamações, ao vivo ou por mensagens dos ouvintes, recebi texto do meu colega de programa Jaime Troiano, um dos apresentadores do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso. Dos maiores conhecedores na área da gestão de marcas do Brasil, Jaime, baseado na frustrante experiência que teve com o Uber, ditou: 

“Como cidadãos, fomos espoliados. Como profissional de mercado, que pensa em Branding, pensei em outra coisa: que oportunidade maravilhosa o Uber perdeu!”.

Jaime Troiano

Em um cenário ideal, Uber, 99 e as demais empresas que exploram o serviço de transporte por aplicativo — e aqui o verbo pode simbolizar sua pior versão — teriam se colocado ao lado dos cidadãos, oferecendo vantagens aos passageiros e remunerando de forma decente seus motoristas. Não foi o que aconteceu. E assim a receita adicional obtida nesta paralisação dos ônibus jamais cobrirá o “mal-estar provocado nos seus potenciais clientes e os respingos na imagem institucional”, como escreveu Jaime. 

Chantagear o cliente em momentos de dificuldade tende a cobrar um alto preço nas organizações. E torna um desperdício o dinheiro investido nas campanhas que assistimos estampadas em painéis eletrônicos pela cidade nas quais os “aplicativos” forjam uma sintonia com seus clientes, ao transmitirem mensagens de apoio às mais diversas causas. 

Forçam a mão no storytelling e desdenham do storydoing que no fim das contas é o que interessa às pessoas.

Por curiosidade: o texto que recebi de Jaime Troiano era uma referência a greve de ônibus anterior, ocorrida no dia 14 de junho, em São Paulo, e se encerrava com a esperança de que a lição seria aprendida:

“Torço para que ela (Uber) não perca outras oportunidades como a do dia 14 para demonstrar suas autênticas convicções e valores. Os mesmos que ela professa publicamente”.

Lamento dizer, Jaime, perdeu! Perderam!

Avalanche Tricolor: dia para se ter orgulho

Grêmio 1×0 Londrina

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegre

Geromel com a faixa nas cores do arco-íris, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

A bola roubada ainda no ataque, o  movimento rápido dos jogadores de frente, o passe com velocidade e precisão e a conclusão estufando a rede estiveram presentes no único e necessário gol do Grêmio, nesta noite de terça-feira. Não tínhamos ainda nem mesmo 15 minutos de futebol na Arena quando a equipe comandada por Roger tomou à frente do placar e dava sinais de que dominaria a partida.  Não foi bem assim que as coisas se desenrolaram, especialmente no primeiro tempo, quando o time deixou de ter a intensidade sempre pedida pelo técnico.

No segundo tempo, por curioso que pareça, a performance foi muita mais próxima daquilo que se imagina para o Grêmio nesta temporada, apesar de não termos conseguido marcar nenhum gol e sofrido com as estocadas do adversário. Chegamos com maior frequência ao ataque, vimos mais movimentação pelas pontas, aceleramos o passe e houve a exigida entrega de cada jogador em campo. Quem não conseguiu oferecer técnica, doou suor e no estágio atual é o que precisamos para a única conquista que nos move neste momento: voltar à Série A.

Ao fim e ao cabo, chegamos a nove jogos invictos e três vitórias seguidas em casa, marcamos 13 gols e tomamos apenas cinco, em 15 partidas — campanha suficiente para nos manter mais uma rodada entre os quatro primeiros colocados. 

Começa a chegar a hora de o torcedor entender que o comportamento precisa mudar nas arquibancadas, também. A ressaca do rebaixamento não pode servir de desculpas para o desânimo. A dificuldade que o time ainda tem de encantar, vem sendo superada com o esforço do grupo. 

Do lado de fora, a direção apresentou, na noite de hoje, aquele que pode ser o estopim para a retomada da avalanche que foi marca de nossa torcida — se não literalmente, porque está proibida, ao menos de forma simbólica: Lucas Leiva está de volta com a camisa 15, a mesma que vestiu na Batalha dos Aflitos, na sua estreia de temporada pelo Grêmio, em 2005. Fez parte do grupo que dois anos depois chegou à final da Libertadores, para após se consagrar no futebol da Europa.

Vamos aproveitar a manutenção no G4, a sequência de resultados positivos e o retorno de ídolo para “entrar em campo” e jogarmos juntos com o time. Ter orgulho do que conquistamos em nossa história, nos inspirarmos nessas glórias e ajudar o Grêmio a voltar à sua jornada campeã. 

Eu sei que o desempenho tende a não motivar muita gente, mas poderíamos recuperar a alegria de ver o futebol, ocupando todos os espaços da Arena, levando o time a jogar embalado pelas cantorias e gritos de incentivo. Tem sido assim com alguns dos nossos principais adversários que mesmo tendo nível técnico muito semelhante ao nosso, jogam com uma motivação extra, graças ao apoio de seus torcedores.

Adoraria ver de volta a alegria daqueles rapazes que no fim dos anos de 1970 não tiveram medo do preconceito, das ameaças de uma gente selvagem e da própria repressão política e policial, que imperava na época, ao fundarem a Coligay, a primeira torcida assumidamente gay do país. Um grupo de jovens, gremistas e fanáticos que superaram todas as dificuldades — inclusive a escassez de títulos — para ocuparem seu espaço na arquibanca e na sociedade, sem precisarem esconder suas identidades. 

A Coligay foi pioneira e surgiu em 1977, na mesma época em que o Grêmio retomaria o título gaúcho, e se manteve até 1983, quando fomos campeões do Mundo. Apesar da demora para ser reconhecida como patrimônio de nossa história, foi um marco na luta em favor da diversidade.  

Se muitos clubes neste 28 de junho se identificaram com a causa LGBTQIA+, estampando as cores do arco-íris em seus uniformes e bandeiras, somente um time de futebol pode dizer com orgulho no coração ter acolhido a primeira torcida gay do País. 

Que o entusiasmo da Coligay baixe sobre cada um dos nossos torcedores e possamos colocar em prática o lema da campanha de marketing que o Grêmio escolheu este ano: “quando time e torcida jogam juntos ninguém mata quem é imortal”. 

Para conhecer melhor a história da Coligay, conheça o livro ‘Coligay: tricolor e de todas as cores”, escrito pelo jornalista Léo Gerchmann

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: as 5 avenidas do branding que levam ao triunfo

“Quem constrói marcas apenas com base nas respostas politicamente corretas que ouve dos consumidores, não chega ao ‘arco do triunfo’”. 

Jaime Troiano

Observar ambientes e comportamentos ajuda na construção de marcas e inspira novas ideias. Já se falou disso, no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso. Talvez você não lembre, mas o Jaime Troiano confessou, em algum programa do passado, que não resiste a uma armário de banheiro na casa das visitas. Os produtos que encontra dizem muito das pessoas e, especialmente, do que representam as marcas. Desta vez, ele e Cecília Russo mudaram o foco: ainda bem! Buscaram no mapa da cidade de Paris inspiração para pensar nos caminhos que levam as marcas ao sucesso.

O olhar deles concentrou-se nas estradas que convergem a Praça Charles De Gaulle-Étoile, onde está o Arco do Triunfo. Em vez das 12 avenidas originais, selecionaram cinco; e em lugar do marco histórico, convidaram os ouvintes a passearem até o que chamaram de Triunfo das Marcas. 

Acompanhe a seguir, quais são as cinco avenidas que os gestores das marcas precisam percorrer:

Avenida da Simplicidade:  na vida de uma marca, qualquer forma de
falar a respeito dela, qualquer comunicação que não seja simples atrapalha muito. Não é fácil ser simples.Eis aí bons exemplos: “se é Bayer, é bom”; “quem pede um, pede bis”.

Avenida da profundidade: é a avenida para afastar a ingenuidade. Qual? De esquecer que consumidor diz o que pensa mas faz o que sente. Mais do que nunca, estudos científicos que usam neurociência, por exemplo, são essenciais para penetrar nesse espaço pequeno, de um centímetro cúbico, escuro e úmido, onde se escondem os verdadeiros sentimentos e motivações dos consumidores.

Avenida da vitalidade: é aquela avenida em que  precisamos saber, com um olhar externo e independente, se a marca é forte não apenas na visão interna da empresa e não apenas na visão dos seus vendedores. Essa avenida exige uma consulta a quem, de fato, determina o sucesso da marca: seus consumidores e clientes. Deixem de lado a vaidade corporativa, ouçam o que dizem as vozes que vêm da rua ou você não chegará na Charles De Gaulle-Étoile.  

Avenida da autoridade: é nessa avenida que sua marca precisa ter convicção de que tem mais do que força apenas, tem autoridade para trabalhar com outras áreas de produto. Quando Dove percorreu as outras avenidas e chegou a esta quarta, sabia que podia deixar de ser apenas um sabonete.

Avenida da verdade: é a avenida que revela a suprema razão de ser da marca, o seu propósito.  A avenida que mostra que ela não é apenas mais uma, mas que  mostra o quanto atende de forma autêntica, as necessidades da sociedade.

Ouça o comentário completo do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso:

O quadro vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, às 7h50 da manhã.

Mundo Corporativo: Marcella Ungaretti, da XP, diz que a agenda ESG reflete no valor da empresa

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“…talvez a primeira coisa que nos vêm em mente seja um pouco dos desafios que as companhias eventualmente possam ter nessa agenda, mas a grande verdade é que também tem muita oportunidade a ser capturada por essas companhias que estão bem posicionadas”. 

Marcella Ungaretti, XP Investimento

Impactada com a tragédia causada pelo rompimento de uma barragem da empresa Samarco, em Mariana MG, em 2015, a então estudante Marcella Ungaretti foi a campo para entender o preço que empresas envolvidas em crises ambientais pagam —- especialmente, ter resposta para a pergunta que veio à sua mente: quanto tempo essas empresas levam para se recuperar? 

“Noventa dias para mais”, foi o que descobriu ao pesquisar uma série de casos ocorridos nas mais diversas partes do mundo. Há situações ainda mais drásticas em que essa recuperação tende a não acontecer, como nos contou no Mundo Corporativo ESG. Formada em Administração de Empresas pela FEA-USP e vencedora do prêmio Ruy Leme de Excelência Acadêmica da USP, Marcella atualmente é sócia da XP Investimentos e ocupa o cargo de ‘head de research ESG” — ou seja, é responsável por analisar o compromisso das empresas com a pauta da sustentabilidade:

“Esse estudo conclui que a agenda ambiental, social e de governança não anda em separado da agenda financeira da companhia. Muitas pessoas tendem a ver a temática ESG como uma coisa, a temática de investimento como outra. Não! Na nossa percepção, aqui, na XP é que a companhia é uma só e, consequentemente, as ações que tiver no que tange o meio ambiente, a sociedade e a governança vão refletir diretamente nos resultados e no valor de mercado dela, no quanto que ela vale”.

Em entrevista à CBN, Marcella destacou que as empresas estão conscientes da relevância do tema ESG, mesmo que muitas ainda não tenham encontrado o melhor caminho da sustentabilidade. Para ela, essa é uma agenda que já passou do ponto de “não retorno”. As empresas que não olharem para essa questão provavelmente ficarão para trás, perderão mercado e serão desvalorizadas. 

“O mercado de capitais no Brasil tem evoluído de forma significativa, de forma que a gente tem mais players atuando no mesmo mercado, e isso significa para o consumidor uma opção de escolha, e nessa nessa decisão de escolha, a geração mais recente traz cada vez mais os critérios socioambientais como parte desse processo”

Marcella identificou três razões que tornam a agenda ESG fundamental para as empresas: há um interesse maior de investidores e de cidadãos de uma maneira geral; há uma regulação que vai exigir cada vez mais que essas regras sejam cumpridas; e, finalmente, o retorno que se tem no mercado tem sido alto. A partir disso, se impõe um desafio às empresas:

“Parece simples pelo fato de serem três letras, mas a grande verdade é que é tanto no E, na questão ambiental, isso se desdobra em uma série de fatores; no S a gente sempre diz que tem uma agenda interna, mas também uma agenda externa; e há a  frente de governança que é de extrema importância … A abrangência dessa temática se coloca como um desafio”.

Um segundo desafio às empresas, identificado pela executiva da XP Investimento, é a divulgação das companhias das ações adotadas e resultados obtidos nos relatórios enviados aos investidores. Apenas 24% das bolas de valores no mundo impõem a divulgação de relatórios de sustentabilidade — na B3, em São Paulo, por exemplo, a publicação desses dados não é obrigatória.

“… consequentemente parte das empresas brasileiras ainda não tem esse documento público; ao mesmo tempo que, por parte do investidor, a demanda por esse documento é bastante clara. A gente fica menos tangível para o investidor poder ter qualquer compreensão de como essa companhia está evoluindo nessa agenda”. 

Assista ao vídeo completo da entrevista do Mundo Corporativo ESG com Marcella Ungaretti, da XP Investimentos:

O Mundo Corporativo tem a colaboração do Renato Barcellos, do Bruno Teixeira, da Débora Gonçalves e do Rafael Furugen. O programa é gravado às quartas-feiras, às 11 horas, e pode ser assistido pelo canal da CBN no Youtube.

Conte Sua História de São Paulo: meus dias na ‘Boca do Lixo’

Noel Taufic

Ouvinte da CBN

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Sou um paulista lemense mas me considero também um paulista paulistano, AMO SÃO PAULO! Não há tempo pra falar de tudo que já passei nessa cidade, nas minhas mais de seis dezenas de vida, por isso vou me ater a contar como esse amor começou.

Meu pai sempre teve salas de cinema, em Leme, interior de São Paulo, e desde meus sete anos, nas férias escolares, eu ia com ele marcar filmes nas distribuidoras, que se concentravam na rua do Triunfo e imediações, bem no centro e perto da antiga rodoviária.

Quando fiz 15 anos. passei a ser o programador dos cinemas e, uma madrugada por mês, de ônibus, ia fazer o trabalho de programação dos filmes. Aos 18, fui estudar em São Paulo e daí a vida seguiu até hoje nesse delicioso ofício.

Mas o que me marcou sempre foi conhecer o centro de São Paulo, os cinemas mais famosos pertinho de mim, como o Ipiranga, o Metro, o Marabá, o Olido, o República, o Art Palácio, o Comodoro e, eu, sempre passando meus dias de paulistano na famosa “Boca do Lixo”.

Sim, “Boca do Lixo” era o nome da região da Santa Efigênia, avenida Rio Branco, começo da Ipiranga, todo esse pedaço que se somava à avenida São João, ao largo Paissandu, à Duque de Caxias.

Nesse trabalho, a gente convivia com as amáveis prostitutas. E também com os músicos, já que muitas gravadoras também lá se localizavam, na famosíssima Santa Efigênia.

O ponto principal sempre foi o queridíssimo Bar do Léo, que na verdade ganhou mais fama ainda com o seu Hermes, diretor do Corinthians, como proprietário, mas sempre tendo ao seu lado o mais famoso garçom paulistano, o Luiz que recebia a todos pelo nome, podendo ser pessoa comum, empresário ou político de qualquer cidade que vinha àquele estabelecimento.

Nesse período conheci vários artistas, diretores de cinema, produtores.  Artistas foram muitos: Vera Fischer, Aldine Müller, Renato Aragão mas, pra mim, o que eu mais gostava de encontrar, era o Mazzaropi, que sempre recebia os exibidores em seu escritório, no segundo andar do Cine Ouro, no Largo Paissandu.

O ilustrador de cartazes do cinema brasileiro, meu amigo também, era Miécio Caffé. Ele e a esposa moravam na rua Vitória e seu estúdio de criação ficava dentro da Paris Filmes, um pouco abaixo de sua casa. Seu Miécio foi o maior colecionar de discos 78RPM do Brasil. Seu apartamento tinha muito mais que seus móveis, tinha inúmeras estantes com discos e fitas, impagáveis.

Que delícia tudo isso! Que São Paulo maravilhosa! Hoje, mato saudades dela, correndo a São Silvestre todo ano e passando pela minha eterna “Boca do Lixo”.

Noel Taufic é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: antes de os astros se alinharem

Avalanche Tricolor:

CSA 1×1 Grêmio

Brasileiro B – estádio Rei Pelé, Maceio/AL

Janderson comemora o gol de empate, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Os astros se alinharam nesta madrugada de sexta-feira, em um desses fenômenos que ocorrem com baixa frequência. A última vez foi há 18 anos e a próxima só em 2040. Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno e a Lua, todos a olhos vistos, atuando de forma sintonizada no céu, em uma parceria de dar inveja a quem tenta encontrar o mesmo nos gramados brasileiros —- e aqui não falo exclusivamente do meu Grêmio: o futebol jogado, com as exceções astronômicas de sempre, tem sido de qualidade bem discutível.

Antes do espetáculo no céu, assisti ao jogo do Grêmio, em Alagoas, onde a falta de sintonia dos ‘astros’ esteve evidente no primeiro tempo e melhorou um pouco no segundo, o que logo se percebeu com o gol relâmpago, no primeiro ataque coordenado, com os pontas chegando em velocidade pelos lados e Janderson concluindo para as redes. Dali pra frente, a despeito de alguns sustos — e que sustos —, o time dava sinais de que tinha potencial para virar o placar. Chances apareceram e foram desperdiçadas. Por outro lado, riscos ocorreram e, ainda bem, não se realizaram. 

Ao fim e ao cabo, levar um ponto para Porto Alegre se não era o ideal, era o que tínhamos para a noite de quinta-feira, especialmente depois de sair atrás do placar. Estamos há oito jogos sem saber o que é derrota e espero que essa jornada invicta se estenda por muito mais rodadas, ao menos até estarmos consolidados entre os quatro primeiros colocados da competição. 

Enquanto esse momento não chega, nos cabe levar adiante a máxima italiana que o Zio Ferretti, lá de Caxias do Sul, costumava repetir nas mais diversas situações: piano, piano, se va lontano. E desejar que, da próxima vez, os astros se alinhem em nosso favor — os celestes e os tricolores.