Os assassinatos de Bruno e Dom servem à ideologia de Bolsonaro

Corpus Christi se avizinha no instante em que somos informados da confirmação do assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Philips, em mais uma ironia que o calendário impõe aos brasileiros. Na véspera da data cristã em que se celebra o sacramento do corpo e do sangue de Jesus Cristo, dois dos suspeitos confessam à polícia que mataram, esquartejaram e queimaram os dois homens que se atreveram em defender o meio ambiente e proteger a dignidade dos indígenas. Serão mártires sem corpos pelo que se interpreta da brutalidade que os assassinos dizem ter cometido. 

A Bruno e Dom não serão dados sequer o direito a velório e enterro, rituais de veneração e respeito que algumas religiões — dentre elas a católica —- oferecem a seus mortos. A consolar os que cultivarão a dor e a saudade, em especial suas famílias, o fato de se saber que ambos tinham na natureza seu lugar sagrado. Foi a mulher de Dom, Alessandra Sampaio, que, ao falar de sua espiritualidade, em entrevista ao jornalista André Trigueiro, domingo passado, comentou que o marido era reservado e costumava dizer que “Deus é a natureza”. Completou o pensamento: “se ele partiu ali, ele estava no meio do Deus que ele acreditava”.

Que sejam abraçados pelas divindades da terra, enquanto nós permaneceremos aqui escandalizados com o que vem acontecendo no Brasil. Um país marcado pela brutalidade que tem o patrocínio do presidente da República, que, desde o início de seu mandato, emite mensagens claras em favor daqueles que exploram ilegalmente a terra, e sustenta grupos criminosos com seu discurso e seus atos contrários à proteção dos territórios indígenas.

Jair Bolsonaro não apenas incentiva as ocupações como pune quem fiscaliza. Foi esse comportamento que levou ao afastamento de Bruno Pereira da Funai, fundação da qual é servidor público, no momento em que ele combatia grupos que atuam de maneira criminosa, na Floresta Amazônica.

Diante do desaparecimento de Bruno e Dom, Jair Bolsonaro foi incapaz de ser solidário. Primeiro, definiu a viagem dos dois como uma “aventura não recomendada”.  O que o presidente chama de aventura — repito aqui o que disse em viva voz no Jornal da CBN —-, nós chamamos de jornalismo investigativo, que se expressa especialmente quando o Estado se ausenta e o crime organizado domina. Depois, inventou a história de que eles não tinham autorização da Funai para estarem no local em que atuavam na busca da verdade, quando se sabe que para andar onde andavam não haveria necessidade de qualquer aval da fundação. Não contente em mentir — exercício que pratica com maestria —,  ofendeu a imagem do jornalista britânico ao dizer que “esse inglês era malvisto na região, porque fazia muita matéria contra garimpeiros, questão ambiental …”. Defender o meio ambiente é crime na visão distorcida do presidente.

Bolsonaro está tão ensimesmado em seu necrogoverno — característica que ficou exposta na gestão (?) da pandemia do coronavírus —, que é incapaz de enxergar quão contraditório é em suas declarações. Ao admitir  que “lá tem pirata no rio, lá tem tudo que possa imaginar” ou seja a Amazônia é um território sem lei, confessa que o discurso em defesa da soberania nacional é apenas mais uma falácia. 

Pior, muito pior do que isso, é perceber que a morte de Bruno e Dom servem à ideologia bolsonarista. O presidente pouco se importa com as críticas dos mais diversos setores, com os protestos de organismos internacionais e com a transformação do Brasil em pária do mundo. Culpar as vítimas é estratégia de um governo que governa pelo medo e pelo terror. A ele interessa manter a população acuada para oferecer mais falácia, agora no campo da segurança pública, com seu discurso armamentista. A ele interessa dar publicidade a esses crimes em uma tentativa de coagir aqueles que insistem em buscar a verdade.

Que os corpos vilipendiados de Bruno e Dom se transformem em adubo, e da terra onde foram desaparecidos, floresçam novos protagonistas na defesa da justiça e da dignidade humana. 

Avalanche Tricolor: nossas virtudes!

Sport 0x0 Grêmio

Brasileiro B – Arena de Pernambuco, Recife/PE

Rodrigues na disputa da bola, em foto de Lucas Uebel

Paciência! Muita paciência! Parece ser a virtude necessária ao fim de mais uma rodada à beira do G4. Estamos a um ponto do grupo que se candidata à ascensão, mas ainda não estamos lá. Não precisa ser agora, porque ainda nos falta bem mais de meio campeonato pela frente, e de nada adianta estar lá para ceder a posição depois. Difícil, porém, é exercitar a paciência em momentos como esse. A ansiedade que nos toma e o desejo de nos livrarmos da maldição da B o mais breve possível, transtornam o torcedor, incomodam os jogadores e pressionam o clube.

Temos de ter tanto paciência quanto força e coragem —- outras das virtudes necessárias para nos elevarmos à Série A. Estas, ao menos, não nos têm faltado. Haja vista a forma como o time se apresentou nas últimas rodadas. Há clara entrega de cada jogador na disputa pela bola, a despeito das limitações técnicas que impedem um passe mais preciso,  um chute certeiro ou a conclusão no gol (que são as virtudes mundanas que o futebol cobra). Nossa defesa é exemplar nesse cenário. Em 12 jogos, tomou apenas quatro gols. Nos últimos cinco, nenhum. Geromel é o ícone deste trabalho; Kannemann, o guerreiro; e Rodrigues, um batalhador. 

O resultado que levamos para Porto Alegre, na noite desta segunda-feira, alcançado com força e coragem, está no limite da paciência exigida. A derrota seria imprudente. Fossem os três pontos, o G4 estaria conquistado Com o ponto ganho na casa do adversário, perseveramos. Seguimos na disputa. E temos a chance de descontarmos a diferença na próxima rodada quando estaremos de volta à Arena.

Como o assunto desta Avalanche são as virtudes. tenhamos fé esperança! 

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: a estratégia das marcas que sabem namorar o consumidor

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“Assim como noiva, marca não se escolhe no altar”

Jaime Troiano

Você sabia que o Jaime Troiano e a Cecília Russo — nossos parceiros de programa — são casados? Sócios no trabalho e no amor! Se faço essa inconfidência, não o faço por fofoqueiro que sou (eu sou?). Eles próprios falaram da relação que mantém, no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, inspirados pelo Dia dos Namorados, essa data que, por mais comercial que seja, mexe com as paixões. No 12 de Junho, a maior parte de nós se sente tocada e vê cresce o desejo de compartilhar um presente, fazer juras de amor ou enviar indiretas à moça ou ao moço pelo qual estamos interessados.

Da relação do Jaime e da Cecília, vou me ater ao primeiro parágrafo, até porque se alguém quiser saber mais sobre como essa relação foi construída, perguntem diretamente a eles. Sigo em frente, porém, falando de outra paixão do casal, o branding —- assunto que encontra várias analogias no Dia dos Namorados. A começar pelo fato de que às marcas cabem conquistar o coração dos consumidores em uma estratégia de sedução que exige muita sensibilidade. 

“Para nós, falar de Branding é uma excelente forma de falar em romance. Afinal, o que as marcas precisam é exatamente isso: criar um romance com os consumidores, construir histórias para serem eternas, ou pelo menos eternas enquanto durem, como diria o inesquecível Vinícius de Moraes”

Cecília Russo

O epígrafe deste texto é um daqueles ensinamentos que já ouvimos ao longo desta parceria que o Jornal da CBN mantém com o Jaime e a Cecília (sim, também temos uma relação estável há bons anos). Ao lembrar que ‘marca não se escolhe no altar’, nosso casal de apaixonados e especialistas em branding mostra que quando o consumidor decide dizer o “sim” para uma marca — ou seja, decide comprar aquele produto ou usar aquele serviço — é porque o coração dele foi conquistado anteriormente, nos vínculos que foram sendo alimentados e geraram desejos. “Flores” no dia 12 nada significam se nos demais dias do ano o relacionamento não é cultivado: 

“Como consumidores, queremos ser encantados o tempo todo. Com produtos diferenciados, com a marca lembrando de trazer uma oferta customizada, de uma comunicação que me envolva de alguma forma”.

Cecília Russo

Baseado na relação que mantém com uma de suas marcas preferidas, Jaime Troiano identifica três aspectos considerados importantes para que este ‘namoro’ dê certo:

  1. Estabilidade: a marca traz confiança, e se pode contar com ela sempre que for preciso, sem surpresas desagradáveis;
  2. Adequação: oferecimento de soluções adequadas ao perfil do consumidor, buscando otimizar a sua vida;
  3. Comunicação: publicidade e mensagens bem feitas, pertinentes, que respeitam o consumidor.
  4. Diante de tudo isso e na expectativa de que aprendi a lição ensinada pelo Jaime e a Cecília, concluou: a magia do amor é entender o outro, ouvir suas demandas e oferecer atenção plena e genuína. Vale para as marcas. Vale para as nossas relações pessoais.

Ouça o comentário completo, do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, com sonorização do Paschoal Júnior

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar, no Jornal da CBN, aos sábados, às 7h50 da manhã.

Mundo Corporativo: João Paulo Figueira, da Special Dog, ensina como fazer uma transformação cultural em empresas que não têm o ESG no DNA

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“Inovação é premissa para sustentabilidade” 

João Paulo Figueira, Special Dog Company

A sustentabilidade está no DNA da empresa. Quantas vezes, você já ouviu essa frase? Dezenas? Talvez, centenas de vezes! A ideia é convencer as pessoas de que a empresa nasceu predestinada a atuar dentro das normas que pautam a governança ambiental, social e corporativa — mesmo que nem sempre a afirmativa expresse a verdade. De tão comum na fala de presidentes, CEOs e gestores, quando algum líder começa a entrevista dizendo o inverso disso, ficamos surpresos. Foi o que aconteceu na conversa com João Paulo Figueira, gerente de desenvolvimento sustentável na Special Dog Company, no quinto episódio do Mundo Corporativo ESG:

“A Special Dog Company vem de uma trajetória de 21 anos e se eu falasse aqui que a sustentabilidade está no DNA da Special Dog, eu estaria mentindo”.

João Paulo disse que a ideia de sustentabilidade foi sendo construída ao longo do tempo. Em 2014, por exemplo, a empresa entendeu que a gestão voltada para o lucro e rentabilidade faria sentido se esta fosse um meio para se conquistar algo maior, se estivesse pautada na responsabilidade socioambiental, na mitigação do impacto ambiental e no aprofundamento de uma relação mais harmoniosa com as pessoas e o planeta. Um ano depois, foi criado o departamento de desenvolvimento sustentável, liderado por ele com a proposta de impulsionar uma transformação cultural no grupo, que nasceu há duas décadas na cidade de Santa Cruz do Rio Pardo, no interior de São Paulo:

“Inicialmente (transformação cultural) do nosso público interno, dos nossos colaboradores, mas com o passar dos anos isso foi extrapolando os muros da empresa e chegando até a nossa cadeia de valor, fornecedores, clientes, a nossa comunidade”. 

Foi em 2017, que o ESG passou a fazer parte da estratégia de negócio da Special Dog, com as intenções e ações ocorrendo de forma transversal, ou seja, com cada gestor e líder assumindo a responsabilidade de incluir atitudes sustentáveis em suas áreas e ‘cascateando’ isso para todos os públicos que estão ao seu alcance.

Zootecnista por formação, tendo migrado para a área de sustentabilidade após nove anos atuando dentro de sua especialidade na Special Dog, João Paulo identifica dois movimentos que exemplificam o compromisso assumido pela empresa na agenda ESG. 

Um deles é a redução do uso da água nos seus processos e a consequente resiliência hídrica, causada por essa mudança. Até 2020, a gestão hídrica era vista de forma parcial, com o consumo de água atrelado ao volume de produção; agora, a empresa passou a olhar o consumo de água de forma absoluta, o que permite que se identifique o impacto real provocado na bacia hídrica e se tenha metas mais apropriadas para se alcançar redução no consumo de água. 

“Nós queremos aumentar em 60% o uso de fontes alternativas de água até 2025 e reduzir em 50% o uso de água potável, até 2030”.

O outro projeto destacado por João Paulo, batizado de “igual para igual”,  tem como foco a diversidade e a inclusão:

“Estamos no estágio inicial para a equidade de gênero. Assumimos um  compromisso público com a Rede Brasil do Pacto Global de avançar com o número de mulheres em cargos de alta liderança até 30%, em 2025. Nós estávamos, em 2019, com 18%, ja chegamos a 23,3%, e esperamos atingir 25% ainda este ano”.

Uma indústria voltada para a fabricação de alimentos PETs não poderia deixar de atuar em frentes que beneficiam os animais de estimação. Um dos programas desenvolvidos dentro da agenda ESG é o ‘Doe Amor’, em que a Special Dog incentiva, através de serviços de comunicação, cerca de 3 mil médicos veterinários e púbico em geral a levarem seus cães e gatos a doarem sangue, beneficiando cerca de 60 instituições, tais como hemocentros e bancos de sangue.

Já falei parágrafos acima que João Paulo é zootecnista por ‘nascença’ e gestor de sustentabilidade por ‘vivença’. A trajetória profissional dele, é motivo de inspiração para outros profissionais que estejam, neste momento, prospectando o mercado de trabalho e identificando oportunidades de emprego que o tema ESG, cada vez mais presente nas empresas, possa gerar:

“O guarda-chuva de sustentabilidade ou ESG, ele é muito amplo, então é um conhecimento genérico que é importante de entender todas as interfaces, de conhecimento, mas sem dúvida nenhuma é necessário trazer foco e priorização ao trabalho. Ter um conhecimento amplo, mas focar naquilo que tem mais sinergia com o negócio da empresa”.

Assista à entrevista de João Paulo Figueira, gerente de desenvolvimento sustentável na Special Dog Company e tutor de dois cães, a Belinha e a Pandora — das quais mantém ‘guarda compartilhada’ com a esposa e as filhas.

O Mundo Corporativo tem a colaboração do Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e Rafael Furugen. O programa vai ao ar, aos sábados, no Jornal da CBN; aos domingos, às dez da noite, em horário alternativo; e a qualquer momento em podcast.

Conte Sua História de São Paulo: o cronista da cidade a bordo de seu táxi

Márcio Câmara

Ouvinte da CBN

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Nasci no Canta Galo 1968, periferia da zona Oeste. Filho de Manuel e Maria, portugueses da Ilha da Madeira — um berço pesado, racista, machista e uma vida muito difícil. Papai tinha um bar.

Lembro do carro de doces: fazíamos a roda em volta pra ganhar doces quebrados; depois passava o carro que trocava garrafa por pintinho ou pirulito — para mim era muito bom, o que não faltavam eram garrafas no bar do pai. 

Rodávamos pião, jogávamos bolinha de gude, brincávamos de mãe da rua, balança caixão, esconde esconde  …

Eu era ótimo em história e redação. E aos dez anos, vendia sorvete e sonhos de padaria,  se eu quisesse comprar uma roupa melhor ou um tênis novo. Aos 14, já era registrado numa padaria e deixava metade do salário em casa. Depois fui office boy, indo para todos os cantos de São Paulo. O centro me deixava de boca aberta — especialmente diante do Teatro Municipal, da Galeria do Rock, da loja do Mappin.  

Foi na avenida São Luiz em que assisti ao meu primeiro filme, no cine Metrópole. Cinema era minha atração. Entrei onde não devia e assisti a alguns filmes pornôs, que já ganhavam espaço nas salas de cinema. Um dia entrei um cinema que estava vazio e deparei com o filme de Mahatma Gandhi, aquilo sim foi emocionante e ficou na memória.

São Paulo era divina. As pessoas se vestiam bem para passear no centro. Havia o Latitude 3001, uma caravela-balada, na 23 de Maio. O Carnaval era na Rio Branco com a São João. 

Hoje aos 53 anos, taxista há 16,  sigo rodando por todos os cantos da cidade, vendo de tudo na rua e levando todos os tipos de gente em meu táxi. 

Não conclui meus estudos, mas sempre tive o sonho de escrever. Achava que não seria capaz. Mas São Paulo é quase um país de tantas oportunidades. Comecei, então, meu primeiro livro: cataloguei cadeirantes de semáforos, que eu via na rua por anos e anos. Escrevi sobre eles: Anjos da Rua. Alguns voluntários me ajudaram na revisão e diagramação; e logo consegui dinheiro com três clientes para publicar a primeira edição com mil exemplares. 

Os livros foram doados para os personagens, dez deles vendiam os exemplares pelas ruas — o que o fez chegar as mais diversas mãos.

Como é grande a magia da cidade, fui chamado no Museu da Pessoa; depois pela Fabiola Cidral e o Cid Torquato, na CBN; fui convidado para congresso do Senac; TV Brasil, Cultura, Record. Na Band com o Megalli. Nas revistas. E do saudoso Gilberto Dimenstein, ouvi: “entre 55 mil taxistas de São Paulo, Márcio faz a diferença com seus livros”.

Já escrevi sete. Do Anjinhos da Rua, nove mil exemplares doados. E tudo graças a São Paulo, a cidade com algumas deficiências e cheia de oportunidades e maravilhas.

Márcio Câmara é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: jogando juntos!

Grêmio 2×0 Novorizontino

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Janderson comemora diante da torcida, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Foram necessários dois gols para valer um. Dois pênaltis no mesmo minuto, para um ser sinalizado. Trinta e oito dias para a primeira vitória. E 450 minutos para balançarmos a rede. A despeito de tudo isso saímos com os três pontos que precisávamos para ficarmos ao alcance do G4, que nos colocará de volta à Série A.  

E, às vezes, uma vitória só é suficiente para que se crie um novo horizonte — sem trocadilho com nosso adversário dessa noite de terça-feira. O próprio capitão Geromel — que zagueiro, #meodeosdoceo — falou ao fim da partida: o que até então eram quatro jogos sem vitória, transformou-se em cinco sem derrota. Assim como o que antes era limitação, agora é superação; e os todiados, Thiago Santos e Janderson que o digam, são aplaudidos.  

São os poderes de um gol (no caso dois) e de uma vitória que vinham nos fazendo falta nas últimas semanas e fizeram aumentar a pressão contra Roger, a quem não se queria dar tempo para trabalhar, mesmo que se saiba das dificuldades para reestruturar um time ainda impactado pela tragédia do ano passado. Aliás, recorro mais uma vez às palavras do nosso capitão que chamou atenção, ao fim da partida, ao fato de o time estar dando sinais de que está mais sintonizado com as demandas da Série B — o que já se havia assistido na partida anterior.

Agora, espera-se que também o torcedor entre em sintonia com a Série B, por mais que essa situação seja incômoda para todos nós. Se faltava uma mensagem da equipe o recado foi emitido, dentro e fora dos gramados. Edílson revelou que os jogadores pediram à direção para que se reduza o preço dos ingressos com a intenção de aumentar o público nas partidas em casa, como estamos vendo acontecer com alguns dos clubes que estão no topo da tabela.

Está mais do que na hora de o Grêmio e sua torcida colocarem em prática o lema proposto pelo marketing do clube para esta temporada: “quando time e torcida jogam juntos, ninguém mata o que é imortal!”

Diante do sofrimento e da morte, o sentido da vida!

Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

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“Nunca e jamais importa o que nós ainda 

temos a esperar da vida, mas sim exclusivamente 

o que a vida espera de nós”

Viktor Frankl

No livro “Em busca de sentido”, Viktor Frankl, médico psiquiatra e judeu, descreve sua experiência nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Nessa obra, Frankl faz uma análise sobre a vida e os comportamentos humanos, destacando situações extremas, envolvendo sobretudo o sofrimento e a desesperança. Ele mesmo havia perdido o pai, a mãe, o irmão e a esposa nos campos de extermínio de judeus; passou fome, frio e sofreu inúmeras agressões. 

A morte parecia óbvia naquela condição. 

Frankl sobreviveu e nos deixou não apenas um relato, mas uma profunda reflexão sobre como as pessoas conseguem reagir e encontrar um sentido para a vida, mesmo após experiências tão devastadoras.

Pessoas que passaram pelo holocausto. Pessoas que são vítimas de violência, de guerras, de inundações e deslizamentos de terra… pessoas que muitas vezes não têm mais o que e nem como. 

Não negam ou minimizam o seu sofrimento numa tentativa de discurso positivo. Ao contrário, o encaram minuciosamente. Recolhem seus cacos e descobrem que apenas uma nova versão de si mesmos possibilitará construir um novo caminho. 

Caminho que demanda aceitação. Caminho que exige autocompaixão pela impotência de mudar o passado.

Com o coração rasgado em dor e um vazio na alma, experimentam uma espécie de morte, de quem se era, de quem se pretendia ser… Mas conseguem renascer.

Não é à toa que o mito da fênix é usado para explicar essa condição humana: um pássaro que após morrer ressurge das próprias cinzas, possuindo uma capacidade incrível de suportar cargas muito pesadas durante o voo.

Assim como a fênix, essas pessoas ressurgem porque não se ancoram no passado, mas porque encontram no futuro um convite à vida, numa possibilidade de ir além de si mesmas.

Buscar um sentido para a vida não se restringe ao alcance de um objetivo ou meta específica: envolve inteireza! Envolve compreender a vida em sua totalidade, incluindo o sofrimento e a morte que dela fazem parte, mas sem perder de vista as oportunidades e felicidades que ela também nos oferece.

Não há protocolos para se lidar com as fatalidades da vida. Não há preparo prévio para se lidar com o sofrimento. Cada um será capaz de reagir à sua maneira. Como nos ensinou Frankl: “Quando já não somos capazes de mudar uma situação (…), somos desafiados a mudar a nós próprios”.

Aceita o desafio?

Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite, no Blog do Mílton Jung. 

Votar para senador é essencial

Por Antônio Augusto Mayer dos Santos

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         As disputas senatoriais brasileiras, embora revestidas de inequívoca importância, inúmeras vezes ficam relegadas a um plano secundário no curso das campanhas eleitorais e da atenção dos eleitores, sobretudo em determinadas faixas etárias. Esse fenômeno, que ocorre inclusive diante de situações onde há o dilema de muitas opções, é de nítida percepção a cada pleito que se sucede e tem algumas causas passíveis de abordagem. Essas, por sua vez, em função das características que reúnem, podem ser situadas em dois blocos distintos.

         De plano, é pertinente ressaltar que não obstante o Senado brasileiro ser considerado por estudiosos e analistas, inclusive internacionais, um dos mais poderosos dentre as democracias contemporâneas, o seu desempenho frustrante em torno de significativas demandas da sociedade tem gerado indignações. Outro componente a depreciá-lo está nos mandatos de quase uma década, os quais, por ficarem petrificados no tempo, distanciam os senadores da população. Some-se a isso o histórico atribulado das últimas legislaturas, lotado de cassações, escândalos e afastamentos, e o resultado não pode surpreender: há um considerável desinteresse do povo pela Câmara Alta do Congresso Nacional.

         Relativamente ao prisma eleitoral, a situação não se apresenta diversa. Primeiro, porque diante de alguns contextos eleitorais mais complexos, determinadas pelejas senatoriais ficam espremidas entre as escolhas do eleitorado quanto aos cargos de deputado, governador e presidente. Depois, que os debates de rádio e televisão em torno das cadeiras a preencher, a par de escassos, raramente desfrutam da mesma audiência daqueles que são proporcionados aos candidatos que rivalizam pelo Poder Executivo. Por fim, verdade seja dita, a maioria da população infelizmente desconhece as atribuições exercidas pelos senadores, mesmo aquelas mais comezinhas.

         Inquestionavelmente, o voto para senador deve ser mais valorizado. A realidade exige cada vez mais uma postura com esta conscientização. Indispensável ter presente que o Senado Federal detém atribuições constitucionais estratégicas, muitas vezes cruciais para o país. Nessa perspectiva, é essencial avaliar criteriosamente tanto os perfis quanto as promessas versadas por aqueles que pretendem apresentar projetos, votar impeachments, sabatinar candidatos aos tribunais superiores, arguir presidentes do Banco Central e numerosas outras matérias de impacto na República. Em síntese: são poucos meses de atenção ou omissão por parte do eleitor que definem oito extensos anos de mandato.

Antônio Augusto Mayer dos Santos é advogado especialista em direito eleitoral, professor e escritor. Autor de “Campanha Eleitoral – Teoria e Prática” (Editora Juspodivm, 2022).

Mundo Corporativo: “empresas sustentáveis, são mais rentáveis:”, diz Fabio Alperowitch, da Fama, pioneiro na agenda ESG

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“Muitas empresas acham que mudar o logotipo no mês de junho para um arco-íris ou se posicionar em relação a um ou outro tema, já seja o suficiente. Quando na verdade, a gente está longe disso. Então, vejo muito bons exemplos, sim; mas ainda muito circunscritos a determinadas empresas”.

Fabio Alperowitch, Fama Investimentos

O que sua empresa estava fazendo em 1993? Sustentabilidade já era assunto na roda de conversa da diretoria? As ações, produtos e serviços consideravam o impacto que causavam no meio-ambiente? Ok, ok! Você pode dizer que naquela época — se é que a sua empresa já existia —- ainda era “tudo mato” no que se refere ao tema da preservação, escassez de recursos e responsabilidade ambiental, social e corporativa. Não dá pra negar, porém, que muita gente já estava preocupada com o futuro do planeta.,

Para refrescar a sua memória, o país acabara de sair da Eco 92, a primeira  Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, que reuniu 178 chefes de governo, uma quantidade incrível de estudiosos e curiosos, divulgou pesquisas e metodologias de preservação e teve uma cobertura jornalística internacional —- ou seja, todos nós havíamos sido alertados de forma contundente sobre o que se avizinhava, os perigos que estávamos causando ao planeta, a necessidade de revisão no modo de produção e os impactos na qualidade de vida (na nossa qualidade de vida). Quem teve ouvido e coração, entendeu o recado.

Fabio Alperowitch e mais 19 amigos, parece, foram sensibilizados por esse debate. Em 1993, com cada um colocando sobre a mesa US$ 500, formaram um fundo de investimento para ser gerenciado por ele e Mauricio Levi, que tinham acabado de fundar a Fama Investimentos. Quando os dois criaram a empresa, assinaram um compromisso com 10 mandamentos, dentre os quais, o de não investir em empresas que ferissem seus princípios.

“Eu acho que a gente precisa desconstruir a imagem de que o ESG seja algo novo. Os fundamentos e pilares do ESG já existem há muito tempo. A primeira vez que foi utilizada a palavra sustentabilidade, e de uma maneira formal, foi no século XVIII, mas o mundo corporativo e o mercado financeiros tiveram muito distantes dessa pauta até muito pouco tempo”.

Na entrevista ao programa Mundo Corporativo ESG, Fabio Alperowitch revelou uma certa ambiguidade de sentimentos diante do assunto da governança ambiental, social e corporativa. Assim como revela entusiasmo pela trabalho que desenvolve — até hoje, se mantém à frente da Fama, fiel a seus princípios e promotor da causa —, também se faz reticente quanto ao envolvimento das empresas no assunto:

“No Brasil, ainda predomina uma dicotomia falaciosa de que empresas e investidores entendem que existem dois caminhos antagônicos, no sentido de, ou você é responsável ou você é rentável — o que não é verdadeiro. É exatamente o contrário: as empresas mais rentáveis, também são as mais responsáveis. Então, o caminho da responsabilidade traz também rentabilidade”.

Não dá para negar que o envolvimento das empresas na agenda ESG —- pelo amor ou pela dor — aumentou. Os números da Fama mostram isso: hoje R$ 2,8 bilhões estão sob gestão num fundo de ações, em que apenas empresas que passam pela rigidez dos critérios de governança são aceitas. Ainda é pouco e a maioria do aporte financeiro que está no fundo vem do exterior, de investidores que confiam na seleção de ativos feita pelos gestores. A despeito desse interesse, nem sempre genuíno, Alperowitch lamenta a pouca evolução alcançada:

“Os grandes indicadores ambientais e sociais, apesar de tudo que a gente tem ouvido sobre ESG, não estão melhorando … e os poucos que melhoram são a passos bastante tímidos. O mundo não está emitindo menos gases de efeito estufa; a diversidade está melhorando de forma muito periférica; a gente não está reduzindo a desigualdade social;  não está melhorando o nível de acidentes do trabalho”

Aos que ainda não perceberam que o mundo mudou e as exigências e necessidades são outras —- sendo a gestão sustentável em todas as suas dimensões o único caminho viável —-, Alperowitch alerta para a transformação que está por vir com a chegada da Geração Z no mercado de consumo. Há tendência de uma redução e uma revisão na maneira de consumir, com compras sendo feitas baseadas nos valores que pautam esses jovens:

“Ela (Geração Z) não vai comprar produtos de empresas que estejam na cadeia do desmatamento ou que, na sua cadeia de suprimentos, tenham empresas que violam direitos humanos, como trabalho análogo à escravidão ou trabalho infantil; ou que façam testes em animais e, assim, excessivamente; ou que sejam de combustíveis fósseis”. 

Ao não olhar de maneira estratégica e de longo prazo, as empresas também perderão em engajamento e produtividade, diz Alperowitch. Colaboradores de talento serão desperdiçados, porque não estão interessados apenas no salário que cai na conta. Querem saber se a empresa é antirracista, se combate a homofobia, se investe na diversidade e se está lutando contra os efeitos da mudança climática. Para ilustrar essa verdade, recomenda-se que se olhe com carinho para estudo desenvolvido por  Robert Eccler, ex-professor da Universidade de Harvard, que aos 70 anos é uma referência mundial no tema. Ao analisar por 18 anos, 180 empresas de 90 subsetores da economia, nos Estados Unidos, a conclusão foi de que as empresas sustentáveis tiveram performance muito melhor do que as outras:

“Esse estudo foi feito entre 1993 e 2009 quando não se falava em ESG, não se precificava as externalidades, por exemplo as empresas não tinham que pagar a taxa de carbono, a Geração Z ainda não existia e etc. Então, eventualmente se a gente repetir esse mesmo estudo daqui pra frente, eu imagino que o resultado seja ainda mais favorável para as empresas responsáveis”.

Antes de você assistir ao vídeo com a entrevista completa do Fabio Alperowitch, no Mundo Corporativo ESG: você lembra onde estava sua empresa em 1993? Eu, já estava por aqui, em São Paulo; trabalhava na TV Cultura e, por curiosidade, a pauta da sustentabilidade era frequente em especial pelo trabalho do conceito de jornalismo público que desenvolvíamos na redação. E, sim, naquela época não falávamos de ESG ainda.

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas, 11 horas da manhã, no canal da CBN no Youtube, no Facebook e no site da CBN. Colaboram com o programa: Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e Vinícius Passarelli.

Conte Sua História de São Paulo: o Tatuapé dos doces da Vera Cruz e dos cavalos dos Matarazzo

Zilda dos Reis Larangeira Santolin

Ouvinte da CBN

Pintura interna da Padaria e Confeitaria Vera Cruz, no Tatuapé (foto de arquivo)

Vou contar um pouco da minha São Paulo. 

Existem lugares bonitos, mas eu escolhi falar do Tatuapé, bairro onde eu moro há quase 84 anos, que deixou muitas histórias na minha memória. 

Em 1944, eu tinha oito anos. Me lembro de ir até uma confeitaria, na avenida Celso Garcia, que existe até hoje: a Vera Cruz. Lá, ainda há a pintura dos bondes e seus passageiros. Pintura que ilustra mulheres e homens muito elegantes, com terno e chapéu. Alguns até usavam bengalas. 

Naquela época, eu tinha uma vizinha que trabalhava muito. Ela vendia produtos que comprava, todos os dias, no mercado grande. Por volta das quatro da tarde, a filha dela, que tinha 11 anos, me chamava para levar o carrinho de mão até a esquina da Celso Garcia com a Rua Tuiuti. Lá, a mãe dela descia de um bonde todo verde, que se chamava “Cara Dura” e transportava os verdureiros e suas compras. 

A mãe da minha amiga arrumava a mercadoria no carrinho de mão e já descia a Tuiuti chamando a freguesia. 

Lá no fim da  Tuiuti, havia o Tietê. O rio. Eu falo mais dele daqui a pouco. 

Poucos metros antes da rua chegar ao fim, havia uma chácara grande, enorme, que pertencia ao conde Francisco Matarazzo. Toda tarde, duas moças lindas passeavam pelos jardins, que tinham muitas flores e belos caramanchões de maracujá. Também havia um cercado grande, com animais como hienas e zebras. 

Eles tinham uma cocheira, onde ficavam cavalos, com largas e grossas patas. Alguns deles, ajudavam nas tarefas da chácara: três vezes por semana, os cavalos trotavam pela Tuiuti carregando feno e milho para os outros animais. Eram grandes e lindos e pareciam desfilar. 

Meu pai e meu avô materno trabalhavam no palácio da chácara. E, uma vez por mês, o conde Matarazzo deixava os moradores da região visitarem o local. 

Atualmente, onde era a fazenda temos o Parque do Piqueri; e, no lugar do castelo, há uma biblioteca. Até hoje, nós não entendemos por que eles destruíram o palácio quando a chácara foi vendida.

De volta aos anos 1940. O rio Tietê batia nos fundos da chácara. Todo domingo, meu pai nos levava, eu e meus irmão, lá no rio para assistir às competições das regatas do Corinthians. Foi um tempo em que a água era cristalina e as pessoas pescavam com varas — geralmente os homens e crianças. Minha avó e outras mulheres lavavam a roupa no rio. 

Tenho saudades daquele Tietê,  daquela Tuiuti, e do Tatuapé da minha infância.

Zilda dos Reis Larangeira Santolin é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.