Domingo passado fiquei distante desta Avalanche — fato raro desde que iniciei a coluna, em 2008 (se não me falha a memória). A morte de um amigo querido, nosso Artur Xexéo, me afastou das coisas do futebol. E apesar de ter assistido ao empate gremista, não tinha ânimo para escrever uma linha sequer sobre qualquer assunto que fosse. Diante da vida ou da perda dela, tudo se torna muito pequeno e sem importância.
Que a dor pela ausência do amigo não me deixaria tão cedo, não tinha dúvida. Mas imaginava que, ao menos no futebol, ao retomar esta Avalanche, nesta quarta-feira, as coisas estariam mais bem organizadas no nosso time, nisso que estão chamando, lá em Humaitá, de fase de transição —- só esqueceram de me explicar para onde estamos transitando?
Ledo engano.
Pela sexta vez no campeonato, vimos um futebol muito aquém do esperado. Parecíamos um amontoado de gente que se reúne horas antes de a bola começar a rolar, decide quem jogará em cada posição e, no apito do árbitro, faz o sinal da cruz a espera de que a ajuda divina transcenda o espaço e nos traga a graça de uma vitória.
Chego a me surpreender com a paciência de comentaristas da televisão que seguem crendo em mudanças, tentam enxergar melhorias mesmo diante da performance obscura do time e relevam as substituições aleatórias feitas ao longo do jogo.
Por mais que o tempo de trabalho seja curto, que a Covid-19 nos tenha pegado de jeito e que mudanças eram necessárias —- quem ainda tem paciência de me ler nesta Avalanche sabe que eu sempre entendi que não eram, precisávamos apenas de ajustes e reforços —-, não é possível considerar normal, em qualquer que sejam as circunstâncias, um início de competição como este.
Está tudo está fora do lugar. Arrisco-me a dizer que o Grêmio, hoje, é uma metáfora do Brasil.
A tenista Naomi Osaka foi punida com uma multa de 15 mil dólares por não ter participado da coletiva de imprensa após ter vencido a primeira rodada, na estreia do torneio de Roland Garros. Para a surpresa de todos, Naomi desistiu de participar do torneio e divulgou que sofre de depressão, desde 2018, apresentando crises de ansiedade antes de conceder entrevistas. O fato ocorreu no fim de maio, em 2021, e a sinceridade da tenista número 2 do mundo, provoca debates sobre a saúde mental dos atletas até agora.
Diferentemente do medo ou ansiedade adaptativa, aquela que a maioria das pessoas experimenta numa entrevista de emprego ou num primeiro encontro amoroso, o transtorno de ansiedade é caracterizado por medo e ansiedade excessivos, desproporcionais e persistentes, causando sofrimento ou prejuízos no funcionamento social, profissional ou em áreas importantes da vida da pessoa.
No transtorno de ansiedade ou fobia social, o indivíduo é mais temeroso, evitando interações ou situações sociais nas quais exista a possibilidade de ser avaliado, como encontrar pessoas que não sejam familiares ou falar em público. Nessas situações, a pessoa teme agir de maneira que evidencie seus sintomas, como ruborizar, tremer ou tropeçar nas palavras, o que poderia gerar um julgamento ou avaliação negativa por parte das outras pessoas.
Evitar intencionalmente essas condições, o que chamamos de esquiva, em geral, reduz momentaneamente o nível do medo ou da ansiedade. Por outro lado, essa evitação irá reforçar a ideia de risco ou ameaça, fortalecendo também a crença de incapacidade para enfrentar e superar tais circunstâncias.
Será que dizer NÃO para situações que possam causar prejuízos à saúde mental seria um sinônimo de esquiva ou evitação?
Infelizmente, muitas pessoas não conseguem ou não podem assumir as próprias dificuldades, fragilidades ou vulnerabilidades.
O que as pessoas pensariam?
Como reagiriam ao saber que uma pessoa que obtém tantas vitórias, que é competente ou talentosa no que realiza, sofre de um transtorno mental?
“Ansiedade? Depressão? Coisa de quem não tem o que fazer ou quer chamar a atenção”
O preconceito e os estereótipos nos conduzem a julgamentos rápidos e conclusivos. Multas, punições, expulsões… Foram essas as soluções inicialmente pensadas para o caso da tenista. Naomi abandonou o torneio não porque estava fugindo de enfrentar os perigos ou ameaças, mas, possivelmente, porque percebeu a necessidade de se afastar de situações tóxicas, impostas, que exigiam dela algo que naquele momento não poderia ou não queria realizar. Percebeu que precisava se afastar como um sinal de cuidado consigo. De preservação de sua saúde mental.
Recuar não é fácil, mas, por vezes, necessário; não como fuga, mas como saída para que o sofrimento seja notado. Envolve limite e autocuidado, além do cuidado com o sofrimento de outras pessoas que passam por situações semelhantes.
Em saúde mental, por vezes é necessário que alguém traga à tona as suas dificuldades para que as pessoas despertem e se solidarizem com todos os que passam por situação semelhante.
Após o desabafo de Naomi Osaka sobre a sua saúde mental e sua repercussão, a organização dos torneios Grand Slam mudou seu discurso e lhe ofereceu apoio e assistência, mencionando a possibilidade de mudança nas regras, a fim de melhorar a qualidade de vida dos atletas.
Naomi, você não fugiu dos seus temores!
Ao escancará-los, sinalizou que os transtornos mentais não são exclusivos de fracos e derrotados, fazem parte da vida humana, da vida de qualquer pessoa. Se esquivar nem sempre é a melhor saída, mas pode ser o caminho que nos permita um recomeço.
Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung
Lá se vai mais um amigo levado pela morte. E para que não haja nenhum mal-entendido, minha amizade com Artur Xexéo não era daquelas de mesa de bar. Nem mesmo mesa de redação tive oportunidade de compartilhar com ele, apesar de há dez anos dividirmos espaço no Jornal da CBN. O rádio, que me fixou em São Paulo, enquanto ele morava no Rio, permitiu que fossemos colegas sem nunca nos termos visto pessoalmente por muito tempo. Adoraria o privilégio de tê-lo tido como editor em alguma passagem de minha vida profissional. Ou a ter convivido no ambiente de trabalho, o que teria me ajudado a aprender mais. Nem que fosse pela observação
A amizade com Xexéo, eu cultivava à distância. Como admirador. Era quase que uma relação de mão única. Porque ele próprio não deveria ter meu nome no rol de amigos. No máximo, eu era um colega por quem ele sempre foi muito generoso —- o que não diferenciava em nada da relação que ele sempre teve por boa parte daqueles com quem trabalhou. Generosidade é uma das marcas de Xexéo como podemos ler e ouvir nas muitas declarações dadas desde o anúncio da morte dele nesse domingo.
Quando ligava para falar pessoalmente, eu tinha uma certa cerimônia. Tê-lo acompanhado desde as primeiras edições do Liberdade de Expressão, sob o comando de Heródoto Barbeiro e ao lado de Carlos Heitor Cony, além de ter consumido livros e peças de sua autoria, me fez elevá-lo ao altar dos intelectuais —- daquelas pessoas que não nos atrevemos interromper ou discordar; de quem só queremos absorver. Xexéo, sem dúvida, era responsável por manter em alta o nosso PIB — o Produto Intelectual Bruto, do Brasil, tão dilapidado neste mais de ano de pandemia. A cada ligação, porém, Xexéo me persuadia e me colocava ainda mais próximo dele —- mérito desses seres humanos que, a despeito de sua estatura, sabem exercitar a humildade.
No lançamento do livro É proibido calar! tive a honra de recebê-lo, ao lado do companheiro Paulo, com quem viveu por 30 anos, na fila de autógrafos, no Rio de Janeiro. Entregar nas mãos de Xexéo um exemplar autografado do meu livro, confesso, me pareceu um ato de atrevimento —- uma espécie de Mané repassando sua camisa suada ao fim do jogo para Garrincha. Ele, novamente, aquiesceu. E agradeceu. Generoso e humilde Xexéo!
Com a nova função no Jornal da CBN, titular do quadro Crônica de Sexta, nossos contatos ficaram mais frequentes e ganhei a prerrogativa de ser o primeiro leitor do texto que iria ao ar no dia seguinte.
Ao fim da quinta-feira, ele me enviava uma sugestão de tema já com o artigo praticamente todo rascunhado. E, assim, às 4h30 da manhã, ao acordar, a primeira coisa que fazia era ler a crônica do Xexéo. Nos últimos tempos, andava incomodado com a repetição de assunto que se fazia necessária diante de tantos descalabros no combate à Covid-19 e intolerância aos diferentes. Pelas circunstâncias de um programa de rádio, algumas vezes Cássia Godoy e eu desviávamos do assunto prescrito por ele que, com talento e improviso, refazia seu roteiro no ar. E eu me tornaria o único leitor daquela crônica original.
Há duas semanas, recém-saído da cama, peguei o WhatsApp e comecei a ler o texto do Xexéo. Pensava estar diante de mais uma de suas crônicas, sempre escrita de forma leve, com palavras bem apuradas, frases de efeito e ironias perfeitas. Demorei um pouco para perceber que ele escrevia ali a crônica do momento que estava vivendo, depois de algumas semanas de exames e diagnósticos. Compartilhava comigo a doença recém-descoberta: “olha onde me meti”, escreveu. Uma semana depois, quando perguntei, “como estaremos para amanhã?”, ele tascou: “estaremos internado”. Sarcástico e com pitadas de mal-humor —- “o mal-humorado mais engraçado que conheci”, me disse Ancelmo Gois, em entrevista de hoje no Jornal da CBN.
Xexéo sempre foi assim. Sempre encontrou uma palavra, uma expressão ou uma frase para fugir do lugar-comum do texto e da vida. Fazia isso com maestria em suas crônicas no jornal O Globo, minha primeira leitura dominical. Nesse domingo, quando abri o jornal e não a encontrei, senti um aperto no peito. Apaziguei meu coração, relendo a última mensagem que me mandou, ainda na quinta-feira, antes do início da quimioterapia, quando me consolou dizendo que em dois meses voltaria a trabalhar normalmente de casa. Eu ainda não sabia que ele estava providenciando sua passagem.
“Mar calmo, não faz um bom surfista. Eu acredito que pra vida, se você entender isso, você pode levar para tudo. Não desistir. Nunca! Nunca desistir! É entender que você tem de continuar, tem de batalhar, estar aberta às críticas”
Natália Pirro, API
Com dois anos de empresa e 29 de vida, Natália Pirro foi apresentada a um desafio assustador, especialmente se considerarmos o momento econômico e social que o Brasil enfrentava, em 2015: assumir o posto mais importante do grupo, no país, e provar que o negócio era viável em um prazo de apenas seis meses. Sim, a empresa lá fora não acreditava muito que a coisa pudesse vingar por aqui. Natália provou o contrário. Seis anos depois, ela comanda as operações da empresa americana API na América Latina, responsável por todos os negócios da companhia na região, cerca de R$ 35 milhões, como contou em entrevista do Mundo Corporativo, da CBN.
“Eu não me sentia preparada 100%. Ainda bem. Porque eu não teria chegado onde cheguei. Tive de aprender, conversar e escutar para chegar onde cheguei. Eu não estava preparada, mas tinha muita vontade de fazer …”
A coragem para enfrentar as dificuldades, Natália encontrou na educação e no esporte. Desde a adolescência, pratica surfe; quando morou nos Estados Unidos, esquiou; e, sempre disposta a ir além, também fez triatlo. Hoje, faz parte de um grupo de 15 mulheres, muitas executivas, que viaja pelo mundo em busca de boas ondas: o Girls Surfing Experience, coordenado por Suelen Naraísa, bicampeão brasileira.
“Todo o esporte desenvolve você como pessoa. O que faz um cicilista acordar às cinco da manhã para pedalar no frio: é o propósito. É entender que aquilo vai lhe trazer algo bom”.
Formada em administração e finanças e especializada na área de controladoria, Natália teve de buscar novos conhecimentos para administrar a empresa formada basicamente por engenheiros. Hoje, tem cinco pós-graduação e parar de estudar não está nos seus planos. Desenvolver-se nas mais diversas áreas faz parte das metas que a empresa negocia com ela, um hábito que levou aos funcionários da API na América Latina:
“Em janeiro de todo ano, sento com meu RH, com cada time, com cada gestor e para cada um colocamos algo a desenvolver. No ano passado, os nossos engenheiros, acostumados com máquinas e cálculos, tiveram de realizar cursos especializados em experiência do consumidor”.
A API é uma das principais empresas de medição e calibração de equipamentos do mundo, com atuação nos diversos setores da indústria: aeroespacial, automotivo, de defesa, energia e manufatura, por exemplo. Áreas em que homens sempre predominaram, o que se transformou em outro desafio, especialmente por Natália ser tão jovem:
“É um meio masculino, mais sênior e de pessoas que não são muito abertas. E eu tive de ter muita certeza de onde eu queria chegar. Entender que a aquela crítica que recebia não era 100%. Tive de saber absorver da melhor maneira possível. Os questionamento foram visto como incentivo”.
Não apenas soube se impor diante desse cenário como ajudou a mudá-lo. Hoje, a equipe comandada por Natália tem 35 pessoas e muitas são mulheres, o que, segundo ela, é uma das marcas que diferencia a API quando participa de eventos do setor. Por isso, não teve dúvida em responder a pergunta feita por uma das ouvintes do Mundo Corporativo que queria entender sobre as oportunidades na área de medição e calibração de equipamentos. Para Natália, as mulheres podem investir na carreira de engenharia e pensar no setor:
“As empresas cada vez mais precisam evitar erros e acidentes de trabalho. Esse é um mercado imensurável … Antigamente, todas as empresas e industrias esperavam ter o problema para corrigir. Entendeu-se que isso era muito caro. A manutenção preventiva evita esse gasto. Esse vai ser o futuro.”
O ano de 2020 foi difícil em diversos sentidos. Com a economia em baixa e a necessidade de adaptação às restrições sanitárias, exercitar a resiliência, foi essencial para chegar às melhorias registradas no primeiro trimestre deste ano: a empresa vendeu, na região, 49% do realizado em todo o ano passado. E mais uma vez, as viagens que havia realizado com as colegas do surfe, que foram canceladas por motivos óbvios, foram úteis:
“A pandemia está bem difícil. Então a resiliência e a adaptação, que eu aprendi no surfe, para enfrentar todas as condições, estão acontecendo todos os dias. Eu trabalho em uma empresa americana e o dólar cai 30 centavos em um dia. Como você explica para as pessoas? Como manter a segurança dos funcionários? Faço reuniões semanais. Tento manter um contato mais próximo para oferecer alguma segurança, para termos um resultado melhor. Se eles não estão trabalhando bem, a empresa não vai ter resultado”.
Assim como acontece na busca pelas melhores ondas, Natália ensina que nem sempre no mundo do trabalho se terá as melhores condições ou o profissional vai acordar bem para trabalhar ou todos os stakholder estarão pensando da mesma maneira. O importante é ter consciência do resultado que você pretende alcançar. Para os jovens e profissionais que estão iniciando carreira, Natália recomenda:
“Nunca desista porque alguém falou algo para você. Nunca desista porque talvez não seja o mercado apropriado. Não! Se você tem um sonho e você quer algo lá na frente. Tenha certeza disso e não desista”
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às 11 horas, no canal do Youtube, no Facebook e no site da CBN. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite. Está disponível também em podcast. Colaboraram com o Mundo Corporativo: Izabela Ares, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.
Sou uma universitária que faço a graduação na Unicamp. Vou de manhã de carona para Campinas com amigos que fazem pesquisa — eles têm até carro! — e retorno de ônibus até a rodoviária de São Paulo. De lá, pego um ônibus para o apartamento onde moro.
Estamos em abril.
Cheguei na Rodoviária e como sempre, sinto-me meio perdida pois a capital é nova para mim. Sou do interior. Ao pegar a carteira para tirar o dinheiro da passagem, não a encontro. Minha bolsa está rasgada e a carteira sumiu. Me desespero e uma pessoa generosa me dá o dinheiro da passagem e me orienta a procurar nos achados e perdidos, meus documentos.
Acho estranho e a pessoa fala: “sabe garota, muitas vezes o ladrão pega apenas o dinheiro e joga o resto fora”. Fui para casa e no dia seguinte, no mesmo horário, retornando de Campinas, vou até o balcão.
Várias caixas com embrulhos feito carinhosamente, com elástico de “dinheiro” embalam pertences. As caixas são organizadas pelo alfabeto e há muitas Marias. Eu, uma delas.
Estava lá! O meu nome estava em um embrulho. Entre curiosa e esperançosa, o abri.
O que encontrei?
Minha carteira de Identidade. Duas imagens de Santo Antônio, o santo de devoção da minha família, há gerações. E uma imagem de Nossa Senhora de Lourdes que ganhei em 1975, de minha Madrinha de Crisma, a Dona Chica, pois ela achou interessante o fato de eu ter sido batizada Maria de Lourdes e ter nascido em 1958, ano de comemoração do centenário da Santa. Desde então, essa imagem eu guardo com meus documentos.
Fico muito feliz, saio radiante sabendo que meus Santos me protegeram.
Você deve estar pensando: o que tem de especial esta história de São Paulo? Isso acontece com milhares de pessoas, todos os dias. Sim! Acontece mesmo. Aconteceu comigo, de novo, e de novo, e de novo. Quatro vezes em três anos. E em todas as vezes lá estavam a carteira de identidade, Santo Antônio e Nossa Senhora de Lourdes.
Hoje, estou com 63 anos, já tenho carro, e o Conte Sua História de São Paulo me desafia a abrir a carteira e revelar as memórias agencias que acalantam a alma. Com imensa gratidão a vocês da CBN e enorme respeito a São Paulo e a alguns patrícios habilidosos que socializaram meus recursos, mas respeitaram a minha fé, me despeço!
Maria de Lourdes Patrocínio da Silva Cocozza Simoni, Lou Cocozza, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. para conhecer outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
“Os clubes, seja o formato que tenham, vieram para ficar. Eles atendem tanto a necessidades humanas como a objetivos mercadológicos”
Cecília Russo
Ryan Bingham, interpretado pelo charmoso George Clooney, tem por profissão demitir pessoas. A frieza com que exerce sua atividade se contrapõe a paixão que tem por viagens e hotéis —- prazeres que ele curte enquanto cruza os Estados Unidos para cumprir sua função. Em uma das cenas do filme “Up in the air” ou “Amor sem escalas”, Ryan está em um balcão de bar ao lado de seu affair Alex Goram (Vera Farmiga); e os dois seduzem um ao outro brincando com seus cartões de crédito ultra-especiais, resultado de vantagens e programas de fidelidade dos quais são beneficiários.
Aqui começa a relação do filme —- lembrado por Jaime Troiano —– e o tema de mais um episódio doSua Marca Vai Ser Um Sucesso. Empresas e marcas criam clubes especiais para conquistar a fidelidade de seus clientes. São planos prime, masters, platinum, gold …. e quanto mais valor o nome puder expressar, melhor. Do ponto de vista emocional existem dois mecanismos que movem as pessoas a fazerem parte desses clubes: a busca pela diferenciação e pelo pertencimento.
“Pertencer e ser diferenciado, algo quase paradoxal; ao mesmo tempo que queremos parecer diferentes, queremos também fazer parte de alguma coisa, queremos pertencer, estar junto dos escolhidos… “ — Cecília Russo
Diferente no filme é George Clooney ou melhor Ryan Bingham que, em pleno voo, recebe das mãos do comandante do avião um cartão oferecido aos raros clientes capazes de alcançar 10 milhões de milhas. No cartão, está estampado um número de telefone que a empresa de benefícios reservou apenas para ele: quando precisar de alguma coisa, haverá um funcionários exclusivo aguardando para atendê-lo.
Para Jaime Troiano, os mecanismos que movem os sentimentos dos clientes trazem quatro benefícios para as marcas:
As marcas conseguem levar propostas diferenciadas aos clientes e precificar também de forma diferenciada, superior. Ou seja, passa a ser um grupo de pessoas que traz uma rentabilidade maior para as empresas.
A fidelização dos clientes. Engajar consumidores em um clube, trazendo vantagens para eles, é uma das melhores formas de garantir que esses clientes fiquem satisfeitos e construam vínculos mais duradouros. Pode ser na escolha da companhia aérea ou até mesmo numa loja que cria uma fila especial para os escolhidos.
A customização das ofertas. No lugar de pensar em produtos para todos, quando o público é mais homogêneo, a criação de produtos e ofertas fica mais direta. De certa forma, consigo trazer algo mais pertinente se conheço este público melhor e, assim, sou mais assertivo e consequentemente melhoro o desempenho de vendas.
A possibilidade de fazer uma comunicação mais relevante porque a marca conhece melhor as pessoas. Branding depende de conhecer gente e essa é mais uma forma de conhecer o seu cliente.
Falamos de George Clooney, companhias aéreas, hotéis e atendimento de luxo. Mas a estratégia de gerar fidelidade do cliente com benefícios especiais pode ser adaptado para todos os tipos de negócio —- independentemente da condição financeira do seu publico-alvo. Basta um pouco de atenção ao que o consumidor deseja e criatividade.
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN.
Já sei, aquele jogo que chorei pela derrota acachapante.
Melhor não falar em derrota, né!
É, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, está difícil de encontrar boas histórias para contar em lugar de me despedaçar em lamentos pelos maus resultados no Campeonato Brasileiro —- não que tenha sido um jogo mal jogado, especialmente diante das últimas fracas apresentações, mas, novamente, fomos incapazes de vencer uma partida.
O ponto ganho foi ponto amargo. Só o ‘conquistamos’ porque perdemos os outros dois que a vitória nos oferecia, mas que entregamos em duas oportunidades — uma em uma bola mal dividida no meio de campo e outra em uma bola em que sequer tentou-se dividir. Resultado que nos mantém mais uma rodada naquela-posição-que-você-sabe-qual-é (melhor não citar aqui para não dar mais azar).
Um amigo de redação para me consolar, logo cedo, comentou: calma, Milton, é só o começo do campeonato. É exatamente isso que me preocupa. Ainda temos todo um Brasileiro pela frente.
Mais amargo do que isso só acordar de madrugada para trabalhar e descobrir que a máquina de café estava quebrada. Mas esta é outra história e hoje não estou com disposição de contar histórias nesta Avalanche.
Escrevi dia desses sobre a turma que faz turismo em posto de saúde em busca da vacina de estimação. Escolhe vacina como se estivesse na gôndola de vinho. A esses que mantém a prática, que sirva de alerta o que acontece em sete capitais brasileiras, desde o início da semana —- cidades em que a vacinação da primeira e, em alguns casos, até da segunda dose teve de ser interrompida por falta de imunizante.
Hoje, entrevistamos no Jornal da CBN, o prefeito da cidade de Aracaju (SE), Edvaldo Nogueira, que acumula o cargo de presidente da Frente Nacional de Prefeitos: foi claro ao dizer que faltarão vacinas em outras capitais, em breve, especialmente naquelas que haviam conseguido avançar mais no calendário. Um dos problemas citados pelo prefeito — além da já sabida gestão incompetente do Governo Federal, que demorou para comprar vacina —- é a falta de previsão de entrega de vacinas pelo Ministério da Saúde. Segundo ele, a informação somente chega um ou dias antes da distribuição na cidade, prejudicando o planejamento:
“Precisamos de um calendário nacional de chegada de vacinas com quantitativo de doses’
Diante dos fatos e dos riscos, o que se entende é que, aqueles que ficarem escolhendo vacina, acabarão sem mel nem porongo — se é que essa expressão, que sempre ouvi do meu pai, faz algum sentido para você, caro e cada vez mais raro leitor deste blog.
Escrevi agora “sem mel nem porongo” e isso me remeteu a outra expressão, ou melhor, outra história que costumava ouvir no passado. Essa contada pela minha avó, Iva Guartieri.
Toda vez que abria a geladeira para escolher qual fruta pegar e me demorava diante da escolha, vó Iva repetia a lenda da “Escolha da Cruz”, contada na Umbria (ITA), em que um homem se lamentava da vida e considerava pesada de mais a cruz que tinha de carregar. Pedia a Deus que trocasse seu fardo. De tanto reclamar, foi atendido. Deus abriu a porta da sala das cruzes. O homem deixou a dele lá dentro e começou a escolher uma melhor: uma muito grande, outra áspera, havia cruz gelada de mais, quente de mais. A busca durou horas até que o homem deixou a sala feliz com uma cruz que lhe parecia apropriada e foi-se embora para a vida. Deus olhou, sorriu e pensou: “lá vai ele com a mesma cruz que entrou!”.
Assim como escolher qual cruz vamos carregar —- pois cada um tem a sua própria —-, é perda de tempo e risco de vida escolher a vacina. Tome a que estiver disponível e saia do posto de saúde feliz com a vacina que lhe cabe. Até porque, neste caso, nem todos teremos esse privilégio, infelizmente!
Fake news está moda. Tá na boca de todo mundo. Tá na troca de mensagens pelo WhatsApp, e nada de braçada no Telegram — a plataforma preferida dos terraplanistas. Tá em discussão nas redações e em estudos na academia. Tá sendo usada por muita gente. E abusada, enche a nossa paciência. Quinta passada conversei com estudantes e eles queriam saber minha opinião. Quarta que vem, voltarei ao tema em congresso virtual. Dia desses apareci no ClubHouse, e tome fake news —- ops … e tome discussão sobre fake news.
É um fenômeno sobre qual falamos muito e entendemos pouco. Verdade que bem mais do que há alguns anos quando foram fortes suficientes para desestabilizar candidaturas —- haja vista o que fizeram com Marina Silva, em 2014 — e robustecer candidatos — como no fatídico 2018. Atualmente, assistimos ao estrago que faz na saúde pública, enfraquecendo o combate à Covid-19 e fortalecendo a desconfiança sobre as vacinas. É assassinato em primeiro grau.
De minha parte, que não gosto de modismos na comunicação, tenho batido na mesma tecla, a começar pelo esforço em desconstruir a farsa que está estampada no nome próprio do crime. Você, caro e cada vez mais raro leitor deste blog, já deve ter lido por aqui o que se transformou em meu mantra pela informação saudável:
“se é fake, não é news, se é falso, não é notícia; é falcatrua! O princípio da notícia é a busca da verdade; da falcatrua, é a entrega da mentira.”
Ao longo do tempo, fomos aprendendo a lidar com a desinformação, especialmente aquela manipulada pela autoridade constituída. Porque uma coisa é o seu vizinho fofoqueiro dizendo mentiras sobre sua vida; mas quando omentiroso tem status e mandato, o crime é federal e precisa ser combatido de forma estratégica.
Há quem defenda que não devemos sequer noticiar o absurdo. O problema é que autoridade que mente é notícia. Acreditamos que desmentir a autoridade com nota pé na reportagem fosse suficientemente forte para dar um basta na declaração mentirosa em destaque na manchete. Ledo engano. Passamos a incluir na própria reportagem o flagrante da mentira. Também não resolveu. O desmentido precisou encontrar espaço na manchete, espremido entre a autoridade e a sua mentira.
Hoje, já temos cientistas e estudiosos da comunicação que desenham fórmulas na tentativa de conter a propagação da desinformação, sem abrir mão do papel do jornalista de reproduzir o que é notícia.
Em “Por que mentiras óbvias fazem boa propaganda”, vídeo baseado em estudo da RAND Corporation, um think tank de política global, vê-se uma estratégia comum de governos populistas e mentirosos: geram uma enxurrada de informação falsa, produzida em alta velocidade, sem nenhum compromisso com a realidade ou nexo causal entre uma coisa e outra. Chamaram isso de ‘firehosing’, que surge da ideia do grande fluxo de água da mangueira de um bombeiro — no caso da mentira com o intuito de colocar ainda mais fogo na narrativa.
Essa tática nos remete a constatação já dita neste blog, com base em pesquisa publicada no Journal of Experimental Psychology, que com o bombardeio de informações, o tempo dedicado a cada uma delas diminuiu; e quanto menos tempo se tem para uma informação, maior é a probabilidade de acreditarmos nela, mesmo que seja falsa
A proposta para contrapor a mentira vem do linguista americano George Lakoff, apresentada no formato de sanduíche, em 2018. Professor emérito de ciências cognitivas e linguística na UC Berkeley, Lakoff analisa o discurso político na sua profundidade para extrair dele elementos que possam proteger a verdade e a Democracia —- sim, geralmente, a mentira está na contramão dos valores democráticos, porque é explorada com o objetivo de perpetuar pessoas e pensamentos no poder.
O que George Lakoff batizou de verdade-sanduíche foi assim resumido pelo próprio autor:
Comece com a verdade — o primeiro frame leva a vantagem na mente humana
Aponte a mentira — evite reproduzir as palavras específicas do mentiroso.
Volte para a verdade. Sempre repita verdades mais do que mentiras.
Em um hipotético país em que o presidente eleito defendesse o uso de remédio para vermes como droga para combater vírus, o fato seria assim noticiado ao aplicarmos o método Lackoff:
“Não há evidências de que a ivermectina, usada para vermes, proteja contra a Covid-19. O presidente Jair Bolsonaro recomendou o remédio em ato público, mas nenhuma pesquisa científica sustenta esta tese, e médicos já afirmaram que o remédio pode causar efeitos colaterais perigosos”.
É um ótimo exercício para conter as mentiras oficiais, mas não suficiente para impedir que a desinformação contamine um público que já tem baixa imunidade em virtude de seu viés político, caráter, ignorância ou falta de atenção. Nós, jornalistas, seguiremos sendo desafiados diariamente a encontrar alternativas para seguir informando de maneira séria, responsável e precisa. Até que fake news vire démodé.
Quem lembra de Barbarella? Jaime Troiano, com certeza.
Foi ele quem citou, no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, o filme batizado com o nome da personagem principal que é um clássico nonsense dos anos de 1960, e levou às telas a atriz que se transformaria em símbolo de rebeldia. No início de carreira, Jane Fonda destacou-se por sua performance sensual; em seguida por um talento contagiante; e, ao longo da vida, por sua coragem em se posicionar politicamente: foi marcante quando se declarou contra a Guerra do Vietnã; mais recentemente, aos 83 anos, tem se expressado como ativista em defesa ao meio ambiente, ao feminismo e a equidade de gênero.
Em Barbarella, Jane Fonda faz o papel de uma astronauta que é convocada pelo presidente da Terra para enfrentar o inimigo que está prestes a usar uma arma de raio positrônico que acabaria com a paz no universo. Na busca pelo vilão, é exposta a uma máquina capaz de matar suas vítimas de prazer, o Orgamastron. Bem, o resto você assiste por ai, no vídeo mais próximo da sua tela (e souber onde podemos rever o filme, nos conte).
De nossa parte, lembramos de Barbarella porque Jaime Troiano tem boa memória e procurava algo para ilustrar o tema que serviu de conversa entre ele, Cecília Russo e eu, em Sua Marca Vai Ser Um Sucesso. Falávamos da relação das marcas com seu público através de tecnologias virtuais. O Magazine Luiza tem a Magalu. O Bradesco nos apresentou a Bia. E por aí vai … Todas personagens virtuais de enorme sucesso na prestação de serviços aos clientes.
Barbarella também foi um sucesso na época em que foi lançada, mas foi uma promessa que não se realizou, pondera Jaime em um tom que me pareceu de lamento — talvez resultado de suas memórias afetivas.
O fato é que, sem desdenhar dos avanços tecnológicos — aqui não tem negacionista —, a relação pessoal ainda é muito relevante, destaca Cecília Russo:
“Por mais que as tecnologias avancem e tornem o digital quase real, ele não é real: tecnologia é sempre virtual. A gente precisa desse contato humano para a nossa própria sobrevivência”.
A pandemia, aliás, nos alertou para essa necessidade. Quando já acreditávamos que o mundo migraria para o virtual, percebemos o quão importante é o olho no olho, o abraço, a troca de ideias ao vivo ou a visita a uma loja:
“A gente vive desses sentidos, do toque, do olhar do cheiro, do aconchego”.
Para Jaime e Cecília, as relações que as marcas criam com as pessoas pelo digital são bem-vindas, mas ganham mais valor quando a troca de afetos acontece.
“A assistente virtual ainda não sorri de verdade, não te responde quando você questiona se é possível trocar um ingrediente pelo outro quando pedimos um prato nem tem a espontaneidade que prezamos nas relações diretas”, diz Cecília.
Espontaneidade não falta para a Jussara.
Você conhece a Jussara? O Jaime conhece.
Jussara trabalha em uma distribuidora de vinho, em Minas Gerais. Toda vez que o Jaime liga para lá, é com ela que conversa. Jussara, de carne, osso e alma, não vende apenas os vinhos, ela cria o ambiente propício para a compra, convence-o tecnicamente e, também, se envolve na escolha:
“… para que eu comece a beber (o vinho) no telefonema”.
Esse é um aspecto relevante nessa comparação entre o atendimento virtual e real. E um fator que desafia os desenvolvedores de tecnologia, que trabalham baseados em algoritmos —- uma sequência de dados que faz muito mas não faz tudo:
“Hoje, com os algoritmos, as lojas virtuais empurram produtos, achando que me conhecem. Ou me conheciam. Afinal, o algoritmo sempre olha para trás para projetar o futuro. Quem disse que meu futuro é apenas espelho do meu passado?”
Antes que você deixe esse texto em busca do filme Barbarella (ou da Jussara), Cecília Russo diz qual é a nossa marca de hoje
“Inteligência em gestão de marcas é pensar a melhor forma de integrar esses dois universos”.
Ouça o comentário completo do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, sonorizado pelo Paschoal Júnior:
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN.