Vacina na hora certa teria salvado muitas vidas

Era bem cedo, 6h30 da manhã, quando o doutor João Gabardo já dava explicações na rádio sobre porque São Paulo havia relaxado às restrições ao comércio mesmo diante da informação de que a variante delta está circulando entre nós. Ele é o coordenador-executivo do Centro de Contingência de Combate ao Coronavírus do estado de São Paulo —- grupo que olha para índices de morte, contaminação e internações nos hospitais e avisa ao Palácio do Governo: a coisa está ruim, melhor fechar tudo; não vamos mexer em time que está ganhando porque está estável; ou, o que mais os palacianos gostam de ouvir, melhorou um pouco, pode afrouxar. Nesta semana, afrouxaram: comércio fica aberto até mais tarde, permitiu-se mais gente dentro de bares e restaurantes e se planeja eventos testes.

No mesmo horário — no relógio do Mato Grosso do Sul, que está uma hora atrás em relação a São Paulo —-, o governador Reinaldo Azambuja, atendeu ao telefone para conversar com a gente na rádio e falar de como está a situação do estado no combate a pandemia. No início de junho, Mato Grosso do Sul exportava pacientes com Covid-19 para São Paulo, hoje reduziu número de internações e tem a maior cobertura vacinal de todas as unidades da federação: 24,47% da população recebeu as duas doses. 

Azambuja disse que isso é resultado de diálogo. Eu prefiro traduzir por vacina, que é o que realmente interessa nesta hora:

“O estado está oferecendo incentivos financeiros para os municípios que aplicam mais doses do imunizante, com equipes que trabalham aos finais de semana”

São Paulo tem até agora 14,7% da população com o ciclo vacinal completo. Vai ter de acelerar. E não é para superar o Mato Grosso do Sul. É para impedir que a variante delta impulsione novamente para cima os números de mortes, contaminados e internados em estado grave.

Gabbardo disse que número de óbitos caiu 10,6% na semana passada; de novos casos, 20%; e de novas internações, 10,4%. As UTIs têm folga para atender pacientes mais graves. Na Grande São Paulo, por exemplo, a ocupação é de 62%. Foram esses os dados que permitiram o estado dar uma folga para o comércio. 

Quanto a variante delta —- aquela que surgiu na India —, Gabbardo falou que, primeiro é preciso monitorar e fazer mapeamento genético e, depois, entender como esse vírus se comporta. Lembra que o Reino Unido — onde a variante delta predomina — aumentou a circulação e transmissão do vírus e tem uma taxa de novos casos maior do que São Paulo, no entanto esse aumento não veio acompanhando de crescimento nos casos graves e óbitos. Se em São Paulo, a taxa de mortalidade é de 1,14 pessoas por 100 mil habitantes, no Reino Unido é de 0,03.

“No Reino Unido, a taxa de mortalidade é 38 vezes menor do que no estado de São Paulo, porque as pessoas mais idosas e o público mais vulnerável estão vacinados e a imunização está bem mais avançada”.

Nas duas entrevistas, ouvimos o compromisso de que SP e MS vão aumentar a velocidade da vacinação e espalhar o imunizante para a maior parte da população até o fim de agosto. 

Encerradas as conversas com Gabbardo e Azambuja, fiquei com a convicção de que se comprássemos vacina na hora certa — em lugar de criar dificuldade para ganhar pixuleco — muitas mortes seriam evitadas. Quantas? Não sei ao certo. Dia desses, ouvi, na CPI, o doutor Pedro Hallal, epidemiologista da UFPel, falar em até 400 mil mortes a menos, mas para isso era necessário ter investido de verdade nas medidas de controle, no distanciamento social e na celeridade da vacinação.

Avalanche Tricolor: a volta de Scolari e um Gre-Nal para retomar a história

Palmeiras 2×0 Grêmio

Brasileiro – Allianz Parque, São Paulo/SP

arte divulgação Grêmio FBPA

Gremista nenhum em sã consciência imaginaria algo diferente do que assistimos nesta noite, em São Paulo. Nem o alinhamento dos astros seria capaz de mudar nosso destino. Era um jogo para cumprir tabela. Uma partida de transição, de um time desnorteado e desalmado, à espera de alguém capaz de resgatar a alma perdida em algum lugar qualquer do vestiário. E de apontar o norte do caminho das vitórias.

Poucos viventes desta terra —- ao menos entre aqueles que estão ao nosso alcance —- seriam tão capazes quanto Luis Felipe Scolari de assumir esse compromisso. A despeito do tempo, do que é moderno, das estratégias revolucionárias ou da fala castelhana e estranha de técnicos que tem feito sucesso nestas bandas, Scolari é a solução possível, com habilidade para trazer para dentro do clube marcas que forjaram nossa história. Ele é parte desta história.

Por curiosidade: quando sentei para escrever esta Avalanche, estava meio sem rumo e sem palavras, talvez impactado pela falta de criatividade do time em campo. Fui, então, vasculhar o que já havia escrito de Scolari em passagens anteriores e deparei com a Avalanche publicada em julho de 2014, quando se iniciava mais um ciclo do técnico no clube de seu coração:

“Logo que soube do convite feito a Felipão lembrei-me de uma camisa antiga que tinha do Grêmio, surrada pelo tempo, com o tricolor desbotado pelas inúmeras vezes que passou na máquina de lavar. Salvei-a duas ou três vezes do saco de roupas velhas que seriam dispensadas pela minha mulher até que foi definitivamente levada embora por ladrões que entraram na minha casa. De todas as camisas, medalhas e outros quetais do Grêmio roubados, há dois anos, é dela que mais senti falta. Seu valor não estava na qualidade do tecido, no quanto estava preservada ou não, mas nas lembranças impregnadas em sua malha. Nos momentos de alegria e sofrimento que havíamos passado juntos. Felipão é um pouco aquele camisa, desgastado pela vida, marcado pelas críticas, com brilho precisando de um lustre, mas sempre capaz de reavivar nossa memória pelas graças alcançadas”

Menos de um ano depois, ele deixaria o clube, após uma campanha apenas razoável e um resultado marcante: a maior goleada (4×1) que o Grêmio já havia aplicado em um clássico Gre-nal, em campeonatos brasileiros. No texto de despedida, escrevi:

“Felipão não se irá jamais do Grêmio. Ele eternizou seu nome, deixou suas marcas e troféus. Será para sempre lembrado pela forma como forjou times vencedores, mesmo quando os títulos não foram conquistados. Transformou elencos muitas vezes mal-falados pela crítica em grupos de batalhadores, talentosos e vitoriosos jogadores. Ajudou a construir o mito da imortalidade’

Como imaginei na época. Não era um adeus, era apenas um até logo. Por coincidência, Scolari volta ao Grêmio às vésperas de outro clássico, com quase nenhum tempo para ajustar as peças, mas, como sempre, com o desejo de devolver ao time o prazer da vitória.

O desafio de resgatar 5 milhões de jovens que perderam o vínculo com a escola, no Brasil

 Foto: Freeimages

“A crise da educação não é uma crise, é um projeto”

A frase de Darcy Ribeiro foi lembrada hoje cedo pelo professor Mário Sérgio Cortella, em nossa Conversa de Primeira, para ilustrar a notícia de que o presidente Jair Bolsonaro vai ao STF para impedir que R$ 2,5 bi sejam investidos na infraestrutura que permitiria acesso de alunos da rede pública à internet. Informação que se soma a outra publicada pelo O Globo, manchete na editoria de Educação:

Retorno adiado: com R$1,2 bi para estruturar escolas para volta às aulas, MEC ainda não gastou nada, diz relatório”. 

Tudo isso foi dito pouco depois da entrevista que Cássia Godoy e eu fizemos com Florence Bauer, representante do Unicef no Brasil, que antecipou alguns dos argumentos e dados que seriam apresentados em seminário com o tema “A reabertura segura das escolas”: 

“O Brasil foi um dos países que mais tempo mantiveram as escolas fechadas e, hoje, apenas dois em cada 10 adolescentes têm algum tipo de contato com a sala de aula”.

Um número que foi registrado em novembro do ano passado —- e como nada mudou de lá para cá, tende a ser ainda pior: 5 milhões das crianças brasileiras perderam o vínculo com a escola durante a pandemia. Antes eram 1,5 milhão. 

Por aí se vê o tamanho do desafio que o país enfrenta. Esses jovens precisarão ser resgatados pelo ensino e não se vê quase nenhuma ação de governo para engajá-los. Florence sugere a estratégia da busca ativa, que já é desenvolvida corriqueiramente pelas prefeituras, que identificam as famílias que não colocam seus filhos na escola —- mesmo que alguns estejam matriculados —,  fazem contato com os pais e tentam convencê-los da importância de os filhos voltarem à sala de aula. 

“Apesar de todos os esforços feitos pelas escolas e educadores para manter a educação remota, os adolescentes mais vulneráveis não conseguem estudar”

Eis outra encrenca. Porque, mesmo que se ofereça o mínimo de segurança sanitária para que as aulas sejam retomadas —- e isso se faz urgente —, a maioria dos alunos chegará com ensino defasado, sem contar outras condições socioemocionais que podem tornar essa volta à escola mais difícil. 

A fórmula para a retomada das aulas já é conhecida, ensinou Florence Bauer: máscara, distanciamento, ventilação e diálogo com professores e toda comunidade escolar.

Ouça a entrevista completa com Flaurence Bauer, do Unicef Brasil:

Auxílio emergencial: “não fizemos nada pelos jovens e isso deixa cicatrizes”, diz Marcelo Neri da FGV Social

Reprodução Flickr

Responder o que você faria com 150 reais a mais no bolso diz muito sobre qual é a sua situação financeira. Para alguns brasileiros, esse dinheiro não paga o happy hour no fim do dia de trabalho. Para outros, será um reforço no orçamento doméstico. Para muitos, é a diferença entre comer e passar fome. Esse é valor que um trabalhador informal com renda familiar até três salários mínimos, morando sozinho, tem direito a receber de ajuda pelas regras do auxílio emergencial, criado ano passado para atender as pessoas que mais sofrem com as restrições necessárias para combater a Covid-19.

O governo decidiu agora que vai pagar o auxílio por mais três meses estendendo a ajuda para agosto, setembro e outubro. Para quem mora sozinho e tem direito ao benefício é a garantia de mais 450 reais no bolso; para mulheres que são chefe de família, mais 1.125 reais; e para os demais entrarão na conta 750 reais, parcelados em três vezes.

Vamos lembrar que no ano passado o auxílio era de 600 reais, por mês —- mulheres chefe de família recebiam até 1.200 reais —, foi interrompido em dezembro e retornou com valores menores em abril deste ano. Esse vai e vem de pagamento e sobe e desce de valores mexeu consideravelmente na vida de pessoas que vivem próximo da linha pobreza, como constataram estudos da FGV Social.

Pra ter ideia, até agosto de 2020, 15 milhões de brasileiros deixaram a situação de extrema pobreza, uma queda de 23,7% em comparação com o ano anterior, graças a essa transferência de renda. Mesmo considerando que ainda havia 50 milhões de pessoas em situação de miséria, foi o maior movimento social que se assistiu no país. 

O diretor da FGV Social, Marcelo Neri, entrevistado de hoje do Jornal da CBN, calcula que a prorrogação do auxílio emergencial vai evitar que 6 milhões de pessoas voltem para a linha de pobreza. Para o economista, a medida de continuidade foi uma solução razoável: 

“Não é a cura do problema, mas uma anestesia importante”

A despeito de que toda e qualquer ajuda é bem-vinda, é preciso ressaltar que este dinheiro chegará às mãos dos mais pobres com 1/4 do seu valor comprometido pela inflação —- o aumento de preços do gás, energia e alimentos pesa muito mais nas classes sociais mais baixas.

Na conversa que Cássia Godoy e eu tivemos com Marcelo Neri ouvimos dele o alerta para o que considera ser dois pecados cometidos na pandemia: a questão da saúde, que tornou os mais pobres ainda mais vulneráveis, e a da educação, com crianças e adolescentes fora da escola, “como se isso não gerasse nenhuma perda” —- o que vai cobrar um preço caro no longo prazo, segundo o economista. 

Um dos pontos que me chamaram atenção na entrevista foi quanto a preocupação dele com a juventude que deixa de estudar e não encontra vaga no mercado de trabalho — tema que já foi assunto aqui no blog e voltaremos a tratar em breve. São necessárias ações específicas de incentivo para a contratação de mão obra mais jovem que foram os que mais perderam renda de trabalho na pandemia —- 18%, segundo cálculos da FGV Social. 

“Precisa algum tipo de iniciativa. O jovem não tem experiência e não consegue emprego. É preciso alguma coisa para conciliar trabalho e estudo. Até agora, a gente, concretamente, não fez nada com isso, embora tenham ocorrido alguns balões de ensaio … e isso deixa cicatrizes

Ouça a entrevista completa com Marcelo Neri, da FGV Social

O difícil e inútil dilema entre permanecer e mudar

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto Pixabay

Na escolha entre permanecer ou mudar, em geral, eu prefiro as mudanças. Já mudei várias vezes de casa. Mudei de cidade, de país e de projetos.  Mas confesso que colocar as coisas numa caixa e mudar de destino, muitas vezes, parece mais fácil do que vasculhar e alterar aquilo que guardamos dentro de nós, tão bem armazenado... que dá até medo de mexer!

O medo de mudar pode estar associado às incertezas diante de situações desconhecidas, como a ideia de perda de controle ou de previsibilidade, e à crença de haver pouca habilidade para enfrentar os desafios e superar as adversidades.

A tendência de manter os pensamentos ou ações de maneira mais inflexível, possibilita uma impressão de segurança, de domínio de uma situação, mas, por outro lado, pode perpetuar comportamentos e condições bastante disfuncionais e mesmo prejudiciais.

Mudanças pressupõem transformações. Parecem bem-vindas ou mais fáceis quando planejamos e desejamos que ocorram.  Causam estranheza quando surgem de maneira inesperada, demandando que a nossa capacidade de adaptação ou de resiliência entre em ação. Um exemplo disso é a pandemia de COVID-19: impôs alterações para a vida cotidiana, com aulas a distância, trabalho em casa, compras on-line e encontros virtuais. 

Desejamos que o mundo mude. Desejamos que as pessoas mudem. Mas, na impossibilidade de mudarmos os outros, podemos começar modificando uma atitude, um hábito, um sentimento ou uma ideia.

A gente pode até não querer, mas a vida vai exigir deslocamento…

Quando a gente aprende a andar, engatinhar perde a função. Precisamos ficar em pé, nos equilibrar e dar passos. Exige mais esforço? Sim, mas permite ir mais longe, alcançar o que parecia distante.

E depois? Depois a gente vai se apropriando e acredita que não muda mais. E o que acontece? Como disse Luis Fernando Verissimo:

“Quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas”. 

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Saiba por que o número de pessoas com vacinação completa não passa de 12%, no Brasil

Imagem: Governo do Estado de SP

Todas as vacinas disponíveis no Brasil são seguras e eficazes e, por isso, a turnê realizada por alguns brasileiros em busca do imunizante preferido é inconsequente e egoísta. Foi o que nos disse, nesta manhã, no Jornal da CBN, doutor Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, quando perguntado sobre os sommeliers de vacinas, que foi como passaram a ser chamadas aquelas pessoas que só aceitam tomar vacina de determinadas marcas seja por desconfiarem da eficiência de alguns fabricantes, seja por temerem efeitos colaterais, seja para facilitar acesso a países no exterior. 

Pior do que escolher a marca é se negar a tomar a vacina. Isso é criminoso. 

Apesar de dizer que o “brasileiro gosta de vacina” e oferecer uma visão otimista em relação a adesão ao programa nacional de imunização contra Covid-19, Juarez Cunha teme a ação dos negacionista e mostra que ao deixar de se imunizar você coloca em risco também a vida das outras pessoas:

“Não se vacinar é uma decisão egoísta”

Nem os sommeliers nem os negacionistas, porém, são o motivo de, há duas semanas, o número de pessoas vacinadas com duas doses se manter na faixa de 11 a 12% dos brasileiros.

No levantamento desta noite de segunda-feira, feito pelo consórcio de veículos de imprensa, o Brasil chegou à marca de cerca de 27,3 milhões de habitantes com vacinação completa contra a Covid-19 — esse número corresponde a 12,92% da população nacional.

Juarez Cunha explicou que a despeito de algumas pessoas não terem voltado para a segunda dose —- e isso exigirá uma forte campanha no sentido de mostrar que o ciclo vacinal precisa ser respeitado —, o índice se mantém estável porque atualmente a maior parte das vacinas distribuídas no Brasil exige intervalo de até 90 dias entre a primeira e segunda doses.  

Ao contrário da Coronavac, que prevê intervalo de apenas 28 dias, e foi aplicada em maior número no início da vacinação, atualmente a maior quantidade de imunizastes é da AstraZeneca que, assim como a Pfizer, sugere cerca de três meses de intervalo entre uma dose e outra. Por enquanto, apenas a Janssen, recém-chegada e em quantidade pequena, prevê apenas uma dose.

Ouça a entrevista completa que fiz ao lado de Cássia Godoy, no Jornal da CBN

Avalanche Tricolor: que melhor sorte nos seja reservada nesta segunda-feira

foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Domingo começou cedo, como cedo começam todos os meus dias. Ainda bem. Assim pude estender os momentos de calmaria dominical, com o céu ainda clareando, o frio rachando e os passarinhos se esbaldando nas frutas e árvores que restam aqui na minha rua. Gosto de ficar sentado na porta de casa, apenas observando o amanhecer. Não chega a ser a cadeira na calçada, como nos bairros de origem italiana aqui em São Paulo, mas é suficientemente agradável para o ritmo de vida que imprimimos ao vivermos na capital.

O sábado havia sido dedicado a uma série sul-coreana que fala do respeito aos mortos (Move to Heaven), tema que nos torna mais reflexivos, especialmente diante de tantos conhecidos que nos deixaram nesse último ano. Reservei, então, o domingo para o esporte na televisão —- já que sair de casa não me motiva diante de tudo que estamos vivendo. E fiquei atento a dois jogos em especial.

O primeiro, o do basquete masculino do Brasil, que disputava a última chance de se classificar para os Jogos Olímpicos. Os caros e raros leitores deste blog já devem ter lido por aqui do meu passado no esporte —- até porque só eu mesmo falo dele: por 13 anos vesti a camisa do Grêmio, anos de muita luta e suor, e pouca inspiração. Apesar de convocado duas vezes para seleções gaúchas, confesso, sem titubear, era um jogador mediano (medíocre — palavra que deixo de lado, apesar de ser sinônimo, porque carrega fardo muito pesado em seu sentido). Jogador mediano e torcedor pé frio, como percebi neste domingo.

Depois de uma sequência de jogos bem jogados no pré-Olímpico disputado na Croácia, quando venceu na fase preliminar inclusive o time da casa, com placares elásticos e revelando uma superioridade surpreendente, a seleção brasileira perdeu para a Alemanha e desperdiçou sua última chance de chegar a Tóquio. Ouvi Hortênsia comentar que é comum que em meio a tantos jogos de qualidade se tenha uma apresentação ruim e ela torcia para que esta não fosse no jogo final Foi! E enquanto os comentaristas buscavam uma explicação, além do sobrenatural, saí da frente da televisão convicto de que o azarão sou eu que não havia assistido a nenhum dos jogos anteriores do Brasil.

À noite, no segundo compromisso esportivo, a sensação era outra. Nem a camisa tricolor que o filho mais velho estende na cadeira ao nosso lado nem as duas meias que calcei seriam suficientes para mudar a sorte gremista em partida que fechou a rodada do Campeonato Brasileiro. O time entrou derrotado com a forma como a crise atual foi gerenciada pela diretoria do Grêmio —- talvez desacostumada nos últimos anos em ter de administrar tamanhas dificuldades técnicas, táticas e emocionais. Jogadas marcadas pela falta de confiança se repetiram durante toda a partida, com bolas mal chutadas, passes sem destino e marcação distante. Antes de a inanição do futebol tricolor me absorver, pensei no que havia dito Hortênsia e cheguei a acreditar na lógica invertida: depois de tantos jogos ruins ao menos uma partida boa haveria de ocorrer e poderia ser essa. Não foi!

Que melhor sorte nos seja reservada, nesta segunda-feira, quando será escolhido o substituto de Tiago Nunes.

Conte Sua História de SP: sinto o pulso da cidade ao levantar com o sabiá

Por Fernando Dezena

Ouvinte da CBN

Foto: André Pereira/Flickr

Confesso que São Paulo sempre me amedrontou quando menino, mas, ao mesmo tempo, imantava meus pensamentos, como o canto da sereia. Há dez anos, era junho, convidado a trabalhar por estas bandas, não pestanejei. Troquei as ondas do Atlântico, que quebravam sob minha janela, pelos prédios inumeráveis.

Antes da cidade, do todo, quem primeiro me acolheu foi a Mooca. No labor, o Brás; a Letícia, nos estudos em Higienópolis pelo Mackenzie e o Lucas terminando o colegial. A Mooca guarda um pedaço que a cidade perdeu: algo de humano, de brisa, de andar pelas calçadas. Pode ser que em outros bairros aconteça assim: na Penha, na Vila Maria, em Santo Amaro, em Heliópolis; em cada canto dentro de suas verdades. A identidade do bairro sussurra, às vezes grita:

– Olhem para mim! 

Gosto — pena que o isolamento não mais permita — de encontrar a cidade.

Em alguns lugares é possível. A Avenida Paulista, reduto dos milionários do café, virou um misturador de todas as raças e credos, mas é no centro que brota algo mais forte, genuíno. Se na Paulista respiramos folhas e flores, no centro tem-se o gosto de raiz, o cheiro forte da terra, de minhocas, de rios, de histórias que construíram a cidade. 

Não é a primeira vez, mas repito que gosto de andar por suas ruas.

Aos domingos, em especial, como a cidade demora a acordar, as janelas tardam a abrir, aproveito, interiorano que sou, madrugadinha, para correr por suas ruas; depois, ao volante, ando pelos bairros como a escutar a cidade. Já fiz tal questionamento em um poema e, como na crônica, não encontro resposta.

E a cidade continua se expandindo, subindo, por vezes morrendo, alagando, alongando tentáculos de concreto, barro, tijolos, madeiras, para além de seus limites.

A cidade tem fome e vai engolindo o entorno; ela tem fome e vai ganhando os céus; muita fome e desce por sob a terra com seus túneis, metrôs em subsolos sombrios. 

São Paulo pulsa e é possível senti-lo. Não ao meio-dia, no turbilhão de milhões de pessoas à procura de sobrevivência. Quem pensa que é nesta hora, engana-se. Para sentir o pulso da cidade é preciso levantar-se de madrugadinha, junto com o sabiá, abrir a janela, colher a brisa fresca, fechar os olhos e respirar pausadamente. Ao se escutar um canto estranho, por vezes sem melodia, saiba que ele não vem das sereias, mas da coragem de teu povo que em boa parte nesta hora dorme e sonha com a luta por um dia melhor. Assim pulsa a cidade!

Fernando Dezena é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio.  Seja você também um personagem da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca: livros que inspiram ideias

Foto de Element5 Digital no Pexels

“Branding é fruto da compreensão das pessoas. E o que lemos, além dos livros de negócios, é fonte de inspiração para entender melhor de gente. Pelo amor de Deus, não deixem de ler!”

Jaime Troinao

A cena é bastante comum. Já aconteceu milhares de vezes. Talvez até com você. Diante do entusiasmo e do prazer de estar em frente a um prato de espaguete a pomodoro, a pessoa se descuida e um pingo de molho de tomate cai na blusa que veste. A primeira reação: “que azar, sujei!”. Perceba que curioso: enquanto está no prato, ou no campo do alimento, o molho é uma delícia; no instante em que cai na blusa, uma sujeira.

O que isso tem a ver com branding? 

Cecília Russo conta essa história inspirada no livro “Pureza e Perigo” da antropóloga Mary Douglas, que fala de rituais de poluição em várias culturas e analisa a relação entre ordem e desordem, pureza e impureza, contágio e purificação. A ideia de que coisas fora do lugar podem nos remeter à desordem ou a significados diferentes é um alerta para gestores que estejam planejando a extensão da marca:

“Quando penso em outras categorias de negócios que eu posso avançar no meu produto, tem áreas em que vou entrar que podem ser consideradas “sujeiras” e outras que não, que reservam a ordem da marca”.

No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Cecília e Jaime Troiano apresentaram uma série de livros que não estão na categoria de negócios —- tratam-se de ensaios, romances e contos — que ajudam os gestores de marcas a pensarem sobre o seu negócio. Uma dessas obras é “O espelho – esboço sobre uma nova teoria da alma” de Machado de Assis que conta a história do alferes que só se enxergava sua imagem refletida no espelho quando estivesse vestindo sua farda —- tema que, aliás, já foi assunto de um episódio do programa:

“O conto chama atenção para o fato de que as marcas são, sim, uma opção em nossas vidas, mas o branding não pode criar um aprisionamento”.

Fernando Pessoa também está na biblioteca de sugestões da nossa dupla de especialistas em marcas com o poema sobre o rio Tejo, em Lisboa:

“O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

 Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia 

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”

Jaime vibra ao declamar o primeiro verso desse poema e ao lembrar que essa forma de pensar é pura etnografia, estudo que se faz com consumidores, pois somente convivendo com eles, nas suas ‘aldeias’, somos capazes de entender suas motivações e sentimentos.

A lista de livros e lições é longa; e você poderá entender melhor a relação de cada um com a gestão de marcas ouvindo o comentário completo do Jaime Troiano e da Cecília Russo.

Antes, deixo a lista  dos livros que citamos neste episódio do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso:

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, 7h55 da manhã, no Jornal da CBN

Mundo Corporativo: no marketing digital, o cientista erra 999 vezes até chegar a fórmula certa, ensina Dener Lippert, da V4 Company

Foto: Pixabay

“Compreender os fundamentos é mais importante do que compreender as ferramentas porque a ferramenta dependem do comportamento”.

Dener Lippert, V4 Company

Foi o desejo de assistir a um show de Charlie Brown Jr que moveu o instinto empreendedor de Dener Lippert, aos 15 anos, quando abriu seu primeiro negócio. Sem dinheiro para viajar de Canoas, na “periferia de Porto Alegre”, ao litoral gaúcho, onde sua banda preferida tocaria, fretou um ônibus e vendeu as passagens com os bilhetes para o show. Um negócio digital com transação fechada pelo Orkut e o MSN que deu super certo. 

Entusiasmado com a possibilidade de novos negócios, aos 17 anos, Dener abriu com a irmã uma casa noturna. “Esse (negócio) eu quebrei”, confessa sem vergonha e com a certeza de que ao empreender, independentemente do resultado, é importante aprender. Parece que entendeu bem a lição, porque aos 18, fundou a V4 Company, especializada em marketing digital, e a transformou em uma empresa com 140 escritórios e 700 profissionais, no Brasil, 1.500 clientes ativos e investimentos acima de  R$ 50 milhões em mídia.  

Hoje, com 32 anos, Dener Lippert, entrevistado do programa Mundo Corporativo, além de comandar sua empresa, defende a tese de que devemos ser cientistas de marketing digital:

“A publicidade e o marketing, por muito tempo, foram atrelados ao aspecto mais artístico, em que o objetivo era ganhar prêmio. Na prática, o pequeno e médio empresário não está interessado em prêmio, mas em vender da maneira mais provável de trazer receita para ele. Minha ideia foi sair da arte, da subjetividade, e trazer para algo mais científico, que eu possa controlar, medir e ter um caminho mais assertivo e replicável para o meu negócio”. 

A maior parte dos clientes de Dener Lippert não é digital. São indústrias, serviços e varejos físicos, que usam a internet para vender, mas não vendem na internet —- e é preciso que essa diferença fique bastante clara.

“A V4 faz isso, faz todo processo de venda pela internet. Nosso foco é no digital …  pegamos o que a empresa é, para ver para onde o cliente quer ir e como a internet pode trazer essa receita para o negócio”.

No livro “Cientista do Marketing Digital, como vender para mais pessoas, por mais vezes e pelo maior valor”, que lançou pela editora Gente, Dener explica que tudo começa por entender qual a fase de maturidade que a empresa está no processo de venda pela internet. Smartfit e Spotify, dois dos clientes de Dener, estão no patamar mais alto —- marcas conhecidas, forte presença de público e alto investimento em campanhas. A maioria, porém, está ainda em uma fase incipiente e, por isso, a jornada começa pequena, de forma rápida e com baixo custo, tendo como primeiro foco a geração de tráfego.

Há casos, segundo Dener, em que o empreendedor se lança no comércio eletrônico e faz um grande investimento na plataforma, mas esquece que precisa ter tráfego para a loja ser conhecida. Na analogia com o varejo físico é como tomar a decisão entre abrir uma loja em uma rua na cidade de Guarulhos, em São Paulo, ou dentro de um shopping center, onde o custo será maior, mas a movimentação, também, o que aumenta a possibilidade de se gerar receita. 

A propósito, na hora de pensar em estratégia para o marketing digital é preciso considerar quatro passos essenciais:

  1. Tráfego
  2. Engajamento
  3. Conversão
  4. Retenção

No livro e na entrevista ao Mundo Corporativo, Dener explica de forma mais precisa cada uma dessas etapas e alerta para a necessidade de se entender que esses passos são dados de forma  não-linear ou seja de maneira integrada. 

Uma das perguntas que surgiram durante a entrevista, foi de um ouvinte interessado em saber qual o melhor canal para investir em marketing digital. Depende, foi resposta. É preciso analisar se o produto que pretende vender é de desejo ou necessidade. Por exemplo, moda é desejo, desentupidor de pia é necessidade. Moda exige investimento em mídia de display, que tem exposição de banner como Google dAs, Facebook e Instagram. E já que dificilmente alguém vai ao Instagram procurar um desentupidor, a opção são as mídias de necessidade como Google Search ou plataformas como o Mercado Livre.

Uma dica de quem tem conseguido excelentes resultados no mercado:

“Foca em executar e ir aprendendo com a execução, porque às vezes o cara pensa em ter um baita site. Compra mídia da melhor maneira. Qual é o canal certo? Testa pequenino, vai fazendo e vai descobrindo a partir dessa experimentação. Isso é um método científico: descobrir 999 formas de não fazer até tu chegares na forma certa de fazer”

Assista ao Mundo Corporativo e tenha acesso a outras sugestões que ajudarão você a investir melhor em marketing digital

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, toda quarta-feira, às 11 horas, no site e nos canais da CBN no Facebook e no Youtube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo, ou a qualquer momento em podcast. Colaboram com o programa: Izabela Ares, Bruno Teixeira, Debora Gonçalves e Rafael Furugen.