Quem você vê quando se olha no espelho?

Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de michael.handsome.gaida no Facebook/Pixabay
Foto de michael.handsome.gaida no Facebook/Pixabay

No conto “O espelho”, de Machado de Assis, durante uma reflexão filosófica sobre a existência, Jacobina — o protagonista — revela uma situação ocorrida na sua juventude para elucidar suas concepções sobre o tema abordado, alegando que os seres humanos teriam duas almas: uma interior, que olha de dentro para fora e outra exterior, que olha de fora para dentro.

  Jacobina conta que fora nomeado alferes da Guarda Nacional, causando muito orgulho a seus familiares e amigos. Eis que é convidado a passar uns dias no sítio de sua tia, sendo solicitado que leve sua farda, recebendo inúmeras cortesias por conta do cargo ocupado. 

No entanto, a tia precisa viajar às pressas e, em seguida, há uma fuga dos escravos. Na ausência das bajulações, Jacobina olha-se no espelho e não se reconhece na imagem refletida: danificada, com contornos imprecisos. Somente tem a sua imagem integralmente refletida quando se veste novamente com a farda.

A astúcia – ou provocação – de Machado de Assis nos aproxima de inquietações sobre nós mesmos: quem realmente somos?

Essa questão que poderia ser simples, a princípio, já que temos uma série de informações a nosso respeito, torna-se desafiadora quando compreendemos que a nossa identidade é construída diariamente, ou seja, apesar de sermos a mesma pessoa, estamos em constante transformação.

A construção da identidade envolve aspectos permanentes, como nome, parentescos, nacionalidade; além dos subjetivos, que permitem a compreensão de si mesmo e a consciência enquanto ser único, tais como os pensamentos, sentimentos e valores.

Entretanto, nossa identidade não está limitada apenas a esses aspectos subjetivos; compreende a relação constituída entre a subjetividade e as interações sociais.

É no processo de socialização, no encontro com o outro, com a sociedade, com a cultura, que a autoimagem vai se consolidando, permitindo a construção da nossa identidade social. 

Somos as características biológicas herdadas, somadas e transformadas pelas experiências vividas, como as oportunidades sociais, a profissão, os relacionamentos afetivos… Numa combinação que promove mudanças constantes e que guardamos na memória para nossa autorreferência.

Poderíamos então dizer que somos as memórias que temos sobre nós? O professor e cientista Ivan Izquierdo costuma dizer: 

“Somos o que lembramos e o que decidimos esquecer”

As memórias pessoais ou autobiográficas, de certo modo revelam nossas experiências de vida e permitem essa construção da nossa imagem; no entanto, pesquisas têm mostrado que não acessamos ou usamos todas as memórias disponíveis ao criarmos narrativas pessoais. 

Selecionamos como memória pessoal aquilo que de certo modo se ajusta à ideia atual que temos de nós mesmos, numa fusão entre memórias de quem fomos no passado e quem somos no presente, envolvendo a autoimagem, necessidades e objetivos. 

Somos aquilo que está dentro de nós e aquilo que o outro nos permite ser. 

Não podemos apenas ser. Mas também não podemos vincular quem somos exclusivamente ao desempenho de papéis estabelecidos e de atividades desempenhadas, que por vezes nos sufocam, nos engessam em cargos, títulos e organizações. Como numa engrenagem, as duas partes constituem um mecanismo que permite um movimento coerente e contínuo. Se uma das partes falhar, não conseguiremos nos reconhecer. Nossa imagem estará distorcida em formas e contornos.

Machado de Assis estava certo! 

“Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro (…). Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência”.

Resolvo encerrar o texto e ir para o espelho… Quem será que vejo?

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

O exemplo dos cidadãos de Santana de Acaraú na semana em que os bárbaros atacaram a democracia nos EUA

Na mesma semana que a maior e mais longeva democracia do mundo era atacada por bárbaros que, seguindo as ordens de seu grande líder, invadiram de forma violenta o Capitólio, bem distante de lá, aqui no Hemisfério Sul, um grupo de cidadãos ocupava seu espaço no Palácio Legislativo Vereador José Ananias Vasconcelos —- o  título de palácio soa exagerado diante do tamanho do imóvel que abriga a Câmara Municipal de Santana de Acaraú, apesar de sua fachada em pedras escuras que destoam do padrão na cidade, mas segue o protocolo político no Brasil em que as casas que recebem os três poderes  tendem a ser assim reconhecidas.

Santana de Acaraú fica ao Norte do estado do Ceará, distante 228 quilômetros da capital, Fortaleza, e bem mais próxima de Sobral. Por lá moram cerca de 30 mil pessoas que, em novembro do ano passado elegeram o prefeito e seus 13 vereadores —- todos já empossados e trabalhando. Foi na sessão de sexta-feira, dia 8, único dia da semana em que o parlamento se reúne, provavelmente para não atrapalhar as funções profissionais que os vereadores seguem exercendo, quatro cidadãos santanenses se apresentaram na Casa e pediram direito a fala.

De máscara —- não para se esconder; para cumprir o protocolo sanitário —- o professor da rede pública Paulo Roberto, escolhido para falar em nome do grupo, foi ao púlpito, sacou do bolso um roteiro feito em papel e usou da arma mais poderosa que ele e seus colegas têm à disposição: a palavra. Sim, foi com palavras ponderadas ao mesmo tempo que firmes, respeitosas mas sem serem subservientes, que ele apresentou aos parlamentares o movimento cidadão que planejavam implantar desde o fim das eleições em novembro.

Inspirados no Adote um Vereador, criado em 2008 na cidade de São Paulo, os santanenses —- 16 deles até aqui —- se reuniram e assumiram o compromisso de fiscalizar os vereadores desta legislatura que se inicia em 2021 e vai até 2024. A intenção é que, coletivamente, monitorem os projetos apresentados, discutidos e aprovados, cobrem a presença efetiva dos parlamentares nas sessões em plenário e nas reuniões das comissões permanentes, observem se os vereadores estão exercendo seu principal papel, que é o de fiscalizar o Executivo ou estão apenas se beneficiando do próprio; e fiquem de olho se o dinheiro do Legislativo está sendo usado ou abusado. Aplaudido pelos vereadores ao fim da fala, o grupo ouviu mensagens de apoio e colaboração com o trabalho que estão iniciando.

Foi um encontro amistoso, como se espera continue sendo a relação entre os legisladores e seus representantes. Moderação é uma das quatro virtudes que Platão entende que devem ser harmônicas para que a justiça seja alcançada. Aos integrantes do Adote, em Santana de Acaraú — os que estão com o grupo desde o início e os que ameaçam juntar-se a ele —,  caberá exercitar as outras três virtudes da mesma forma, para que superem os obstáculos que virão —- tenham certeza, eles sempre aparecem. Coragem, sabedoria e a própria justiça também serão necessárias para o momento em que o interesse fiscalizador do grupo entrar em choque com os interesses paroquiais de vereadores.

Digo isso, porque a reação inicialmente positiva dos parlamentares não deve iludir os integrantes do Adote —- nem em Santana de Acaraú nem em qualquer outro canto deste país. A medida que se começa a expor a maneira como os temas de interesse da cidade são debatidos e votados, as intenções que movem as escolhas feitas pelos vereadores e, principalmente, como eles se comportam no exercício da função, haverá de surgir represálias, críticas e tentativas de divisão. É do jogo político, no qual os profissionais da política conhecem bem as regras e as artimanhas. Nós cidadãos estamos em processo de aprendizado. 

Uma questão que poderia ser debatida na cidade do interior do Ceará —- e levada a todos os demais municípios —- é o vencimento dos parlamentares que por lá beira os 7 mil reais, levando a Câmara a gastar cerca de 96 mil reais por mês somente com a folha de pagamento dos vereadores, conforme levantamento publicado no site da casa. Esse valor está muito acima da média salarial da cidade e supera o PIB per capita do município, que é de R$ 6.550,00, de acordo com dados do IBGE. Se o assunto vai para a pauta ou não, é uma decisão dos cidadãos santanenses, mas é um bom exemplo de como nem sempre os interesses pelo que é melhor para a cidade e as pretensões dos parlamentares estarão sintonizados nessa jornada.

Moderação, coragem, sabedoria e justiça serão virtudes a serem praticadas  diariamente para que a política — não aquela só feita por partidos e poderosos — se realize em comunidade.  A presença do cidadão na “praça pública” que deve ser a Câmara Municipal sinaliza que podemos exercitar a política de uma forma diferente, distante da intolerância que tem dividido o Brasil e resultou na violência contra a democracia americana. O Adote um Vereador em Santana de Acaraú é um sopro de esperança a todos que acreditamos na ideia de que o homem não se basta a si mesmo, está destinado a viver em sociedade, porque somos animais políticos por natureza —- como nos ensinou Aristóteles.

Avalanche Tricolor: a disputa do título é agora!

Fortaleza 0x0 Grêmio

Brasileiro — Arena Castelão, Fortaleza/CE

Ferreirinha parte para o ataque em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Ferreirinha parte para o ataque em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Sabe aquele jogo que começa e você já sabe qual vai ser o resultado? A gente fica torcendo para estar errado, mas a cada minuto que passa aumenta a certeza de sua previsão inicial. Foi assim neste sábado à noite. O empate —- o décimo terceiro no campeonato —- foi sendo desenhando no chute para fora, no cruzamento cortado pela defesa, na falta (quase) bem cobrada, no contra-ataque que se perdeu em um passe errado e no gol que por milímetros foi anulado. A previsão de que seria empate tem muito a ver com o time que vai a campo —- éramos na maioria reservas e, claro, paga-se um preço quando tomamos essa decisão. No caso, dois pontos desperdiçados na disputa pelo título do campeonato. 

Verdade que outras vezes entramos em campo sem escalar os principais titulares e conquistamos a vitória mesmo assim —- mas, sei lá o motivo, assim que começou a partida deste fim de noite, tive a impressão de que não sairíamos do zero a zero. Impressão confirmada ao fim deste que foi o vigésimo-oitavo jogo gremista no Campeonato Brasileiro. Não que tenhamos jogado pelo empate. Longe disso. Tentou-se de um lado e de outro. Muitas vezes pelo meio. Chutou-se 12 bolas no gol  — pelo que anotei — e forçamos o goleiro adversário a fazer defesas difíceis. Esforço fugaz. 

Apesar de não termos saído com a vitória, que é o que todos queríamos, o empate nos mantém na disputa do título e entre os cinco primeiros classificados. O mais importante é que, independentemente do que acontecer no domingo, a ideia de que o campeonato será decidido em janeiro permanece. A partir de agora —- e aí entendemos a escolha pelo time reserva —- todo jogo será uma decisão direta pelo título. Nas próximas quatro partidas, o Grêmio terá de ser gigante porque enfrentará quatro adversários que estão embolados e disputando a liderança da competição. 

Seja o que os deuses do futebol quiserem!

Conte Sua História de SP: o desembarque na cidade após a Segunda Grande Guerra

Anna Maria Amato Nardelli

Ouvinte da CBN

 

Eu e minha família chegamos no Brasil, em São Paulo, vindos da Itália, em 1950, após a Segunda Grande Guerra Mundial. Tínhamos passado, por determinação de meu pai, cinco anos viajando por muitas cidades e vilarejos em busca de lugares menos perigosos e longe de bombardeios e de objetivos bélicos.

Acabada a guerra, em 1945, voltamos à nossa cidade Messina, na Sicília, encontrando-a quase totalmente destruída. Foi a cidade que mais recebeu bombardeios aéreos e navais, devido a sua posição geográfica estratégica.

A decisão de meu pai, então, foi buscar trabalho em outro país e como ele mantinha contatos no Brasil, não deixou escapar a oportunidade… Naquela época para entrar no país, somente com um prévio contrato de trabalho.  Chegamos aqui depois de 21 dias de viagem de navio, com muitas ilusões e sonhos: o Brasil era notadamente pacífico.                                 

São Paulo logo nos pareceu uma grande metrópole e não demorou para nos inserimos em um ambiente agradável: italianos, filhos e netos de italianos, “quatrocentões” — cujos filhos tinham estudado na Europa —  e outros descendentes de pais asiáticos.  

Povo alegre e colorido!

Eu, com 18 anos, observava que na maioria das vezes prevaleciam costumes afrancesados; de fato havia restaurantes franceses; a Aliança Francesa, muito frequentada que, além de cursos de língua, oferecia espetáculos teatrais. As lojas de moda de prestígio eram francesas. Ditava a moda, a tecelagem Francesa. Em vários programas de rádio eram tocadas música com cantores que faziam sucesso na França. 

Os colégios de freiras, mais conceituados, eram franceses; e  à época dos anos 1950-1960, numa São Paulo cosmopolita de mais de um milhão de habitantes, notava-se uma “média burguesia” em busca de afirmação e com uma boa bagagem intelectual.

Naqueles anos, a população contribuiu muito para o progresso de São Paulo por isso guardo no meu coração com carinho aqueles anos dourados cheios de promessas e ilusões.

Quando me perguntam se a pandemia de hoje se equivale a guerra que eu passei, respondo que esta é mais assustadora. Não obstante os cinco anos de perigo constante, nós conhecíamos o inimigo e suas estratégias. Agora, o vírus é um inimigo cruel, obscuro e imprevisível, mas tenho fé de que a humanidade vai conseguir desmascará-lo e superar este momento mesmo tendo pago um duríssimo preço..!  

Anna Maria Amato Nardellii é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

A Democracia venceu nos EUA; vencerá no Brasil?

Mike Pence e Nancy Pelosi, em foto: POOL / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP/ CBN
Mike Pence e Nancy Pelosi, em foto: POOL / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP/ CBN

 

Havia uma sensação de ressaca que me anuviava os olhos quando acordei nesta quinta-feira. Nem mesmo o céu pintado com nuvens vermelhas do sol de verão, que acorda cedo aqui em São Paulo, tornava o cenário mais claro. A imagem e a mente estavam ofuscadas pela barbárie e ignorância que os Estados Unidos proporcionaram ao Mundo ao longo do dia de ontem, desde que o grupo de alucinados, sob o comando de Donald Trump, iniciou a subida nas escadarias do Capitólio —- alguns preferiram arrombar janelas e portas secundárias. Quando fui dormir era tarde, e pouco se sabia como a primeira e mais longeva Democracia da Era Morderna resistiria aos ataques.

Prestes a entrar no ar na CBN, pouco depois das 5 e meia, chegou a informação que tornaria o horizonte mais amplo nessa manhã: a sessão do Congresso, que havia sido retomada, após a expulsão dos antidemocratas, acabara de certificar a vitória de Joe Biden à presidência. Ou seja, senadores e deputados respeitaram o voto do cidadão. Provavelmente estávamos noticiando naquele instante o resultado mais importante de todas as sessões de certificações já realizadas desde a posse de George Washington, em 1789. 

Como saberíamos pouco depois, na conversa com Walter Fanganiello, em Justiça e Cidadania, a certificação é um dos rituais mais tradicionais da democracia americana. Uma formalidade que tem simbolismo histórico. James Madison, um dos pais da federação e o maior nome da Constituição dos Estados Unidos, de 1787, assinalou na época que “a ratificação do resultado eleitoral pelo Parlamento era uma forma de chamada à unidade nacional” —- enfatizou meu colega. Embora soubesse que as 13 colônias britânicas, fundadas em 1607 e 1682, estivessem amadurecidas e expressassem o sentimento de nação democrática, entendeu por bem Madison comprometer todos os representantes dos estados federados —— deputados e senadores —- evitando qualquer tentativa de cisão.

Trump buscou desconstruir a história americana ao incentivar seus seguidores a interromperem pela força um ritual democrático e dividiu o país. Não respeitou esse ritual, assim como jamais respeitou os próprios valores que levaram à construção dos Estados Unidos da América. Ao longo dos quatro anos de mandato interferiu nas instituições, contaminou a independência de poderes, colocou a nação de costas aos interesses multilaterais e com palavras e atos buscou corroer os sistemas político e eleitoral, questionando sua legitimidade a partir de mentiras que ele próprio patrocinava.

E palavra de presidente tem uma força extraordinária, alertou o ex-embaixador Rubens Barbosa, que por cinco anos representou o Brasil em Washington, em entrevista ao Jornal da CBN. Sem que Trump tivesse incitado seus apoiadores a invadir o Capitólio, não teria havido o que o embaixador chamou de “insurreição” e “ataque sem precedentes à democracia”. Diplomata nos gestos e no comportamento, Barbosa preferiu não admitir que a lição a ser aprendida fosse um recado ao presidente Jair Bolsonaro, mesmo que as descrições que tenha feito de movimentos de intolerância e desrespeito que se reproduzem em outras partes do Mundo nos remetessem a imagem do “Trump Mequetrefe” que temos aqui no Brasil.

Na conversa diária com Miriam Leitão, o recado foi mais explícito. Nossa comentarista chamou atenção para a necessidade de fortalecermos a democracia brasileira, impedindo que os atos ocorridos nos Estados Unidos se repitam por aqui, em 2022.  Trump e Bolsonaro “são do mesmo DNA: governos de direita extrema populista e líderes que desprezam as regras democráticas”, disse Miriam. É uma gente —- e aí sou eu que estou dizendo —- predisposta a golpes institucionais, mesmo que todas as vezes que são expostos a essa verdade e ao escrutínio da justiça ou do jornalismo profissional se revelem covardes.

A manhã não havia se encerrado e o presidente Jair Bolsonaro — que parece ter assistido com prazer e sadismo às cenas no Capitólio, que resultaram na morte de quatro pessoas —-, com suas palavras, voltava a ameaçar a democracia brasileira, em uma retórica que vem construindo desde que foi eleito: “se não tivermos voto impresso em 2022, vamos ter problema pior dos que os Estados Unidos”. O discurso é mambembe, porque é desprovido de lógica e provas, mas tem capacidade de mobilizar sua turba —- como já havia feito diante de um quartel àqueles que pediam um golpe militar ou em direção aos que cercaram e explodiram fogos contra a sede do STF. Nas duas situações, vozes e instituições protegeram nossa democracia, e o presidente recuou. 

A “Democracia não foi interrompida nos Estados Unidos”, a despeito do esforço de Trump e sua turba, observou Pedro Doria, em outra das conversas de primeira que tive a oportunidade de participar durante o programa matinal. O fato é que se mesmo em um país no qual o regime democrático está estabelecido há mais de 200 anos, ainda existam forças internas capazes de ameaçá-la, devemos estar alertas para os sinais emitidos por grupos e milícias que atuam em países como o Brasil, onde a democracia é intermitente. Para protegê-la, temos de responder aos atos antidemocráticos com mais democracia, fortalecendo as instituições, o livre direto do cidadão se expressar e, por consequência, a liberdade de imprensa, que se exerce com veículos de comunicação independentes e jornalismo profissional.

Avalanche Tricolor: vencer é o que importa

Grêmio 2×1 Bahia

Brasileiro — Arena Grêmio

Vanderson comemora em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

A temporada 2020 está de volta. A mais atrapalhada das temporadas que já vivemos na era moderna, começou ano passado, parou em março com a pandemia, foi retomada em junho, intrometeu-se nas festas de fim de ano e só deu descanso para times e jogadores passarem o réveillon em casa. Apesar de estarmos, conforme calendário gregoriano, na primeira semana de 2021, ainda sofremos os percalços do ano passado. A impressão é que estamos vivendo a segunda temporada deste triste seriado que foi 2020 — e sequer estou fazendo menção ao que assistimos nesta quarta-feira, nos Estados Unidos; estou falando apenas de futebol.

Para o Grêmio, o mês de janeiro reserva algo raro nesta temporada: um mês inteiro dedicado a um só campeonato, o Brasileiro. A decisão da Copa do Brasil ficou para fevereiro, a persistirem os sintomas. Mês raro e importante, porque teremos jogos decisivos para as nossas pretensões na competição. Alguns dos adversários que enfrentaremos estão no meio do caminho do que pretendemos alcançar que é o título brasileiro, segundo Renato, naquela entrevista ao lado do campo a espera do apito inicial; ou o G4 que garante vaga direta na Libertadores do ano que vem … ops, deste ano. 

Na partida de hoje, o adversário não era direto nem por isso os três pontos deixavam de ser importantes — vencer é sempre importante. Uma vitória agora, além de manter o time com moral alto e motivar para os próximos desafios, também cria gordura para qualquer percalço nos próximos 11 e decisivos jogos. 

E o Grêmio venceu. 

Não foi tão simples quanto parecia nos primeiros minutos de partida, quando impusemos nosso jogo bonito e qualificado, o que culminou com o primeiro gol de Vanderson, que aos 19 anos fez sua segunda partida como titular. O guri —- mais um dos guris gremistas —- fez uma assistência importante no primeiro jogo e hoje foi presenteado com um cruzamento pelo alto que o fez cabecear de maneira consciente no gol adversário. Chorou na comemoração. E nós comemoramos com ele. 

Depois do primeiro gol, assistimos à uma sequência de atrapalhadas e espaços abertos que permitiram a proximidade do adversário na nossa goleira. Se o gol que marcaram no fim do primeiro tempo foi salvo pela linha de impedimento, no segundo tempo, fomos punidos logo no início com a bola desviando na cabeça de outro guri gremista, Rodriguez. 

Coube a um dos veteranos decidir a nosso favor, em meio a uma série de jogadas erradas, passes mal dados, cortes mal-feitos e uma marcação malemolente em alguns momentos. Foi Diego Souza. Sempre ele. Infalível. E foi em um cobrança de falta tão estranha quanto o próprio jogo. A bola desviou na barreira, desviou no braço do goleiro e quando parecia que havia desistido de entrar no gol, foi parar no fundo da rede. E o que vale é bola na rede. E com esta bola, Diego marcou mais um gol decisivo para o Grêmio. 

Somos o time que menos perdeu nesta competição, apenas três vezes; que mais empatou, 12 vezes; e estamos invictos há treze jogos no Brasileiro. Uma estatística suficiente para nos deixar na disputa do título. Cada vitória que vier a partir de agora nos colocará mais próximo dos nossos objetivos — se vier com uma bola do acaso, um desvio do goleiro ou em um gol contra, pouco me interessa. O que importa agora é a vitória.

Governador e prefeito decretam “elixir da juventude” e cortam o direito de parte de idosos viajarem de graça, em São Paulo

Foto Rovena Rosa/ABr, no site da CBN

O presente de Natal que o governador João Doria e o prefeito Bruno Covas deram aos idosos chegará em Fevereiro, depois que os “bons velhinhos” decidiram prorrogar em um mês a entrada em vigor da regra que proíbe as pessoas de 60 a 64 anos de viajarem de graça nos ônibus da capital, na EMTU, no Metrô e na CPTM. A extinção da gratuidade deveria começar em 1º de Janeiro, mas Governo e Prefeitura deram um mês para que os passageiros se adaptem ao novo sistema.

A coisa é mais ou menos assim: o senhor e a senhora que antes tinham o cartão do idoso deixaram de ser idosos; agora são passageiros comuns. Terão um mês para trocar este cartãozinho que permitia viagens de graça por um cartão comum, no qual você pagará tarifa cheia, ajudando os cofres das empresas que exploram o serviço de transporte. Para provar que a fonte da juventude descoberta por Doria e Covas funciona, além de pagar a passagem, já que você não é mais idoso, ainda terá de buscar o seu novo cartão em um posto da SPTrans. Faz o pedido pelo site, mas busca no posto.

Falei do assunto nessa segunda-feiras no Jornal da CBN e pisei na bola. Disse a Raquel, ouvinte que mandou mensagem pelo WhatsApp, que a extinção da gratuidade havia sido decidida administrativamente. Meia verdade. 

Vamos aos fatos:

O governador João Doria editou decreto suspendendo a regulamentação da legislação que permitia a gratuidade para essa faixa de idade, alterando a Lei nº 15.187, de 2013.

No caso da prefeitura, Bruno Covas teve de aprovar a mudança na Câmara Municipal de São Paulo. Portanto, o prefeito contou com o apoio de vereadores e, para isso, usou de uma estratégia comum e capciosa da política brasileira: a criação de jabutis.

Jabuti é a inclusão de uma lei, um artigo ou uma regra que trata de um tema em um projeto que dispõe de outro assunto. 

No caso, o projeto de lei em discussão era o de número 89/2020, do prefeito Bruno Covas, que “dispõe sobre a criação de subprefeituras no município de São Paulo”. O que as subprefeituras tem a ver com o quanto você paga para viajar de ônibus na cidade? Só um jabuti (ou um tucano) para explicar.

Nesse projeto de lei (o 89/2020), o artigo 7º revoga trechos de outras leis que nada tem a ver com subprefeituras. E no inciso IV —- aqui está a pegadinha — revoga a lei número 15.912 de 16 de dezembro de 2013 que é a que isentava idosos a partir de 60 anos de pagar a passagem de ônibus na cidade.

Você que é atento, já percebeu a coincidência: as duas leis que garantiram a gratuidade são de 2013 —- época das manifestações de rua no Brasil, que pressionaram Fernando Haddad, na prefeitura, e Geraldo Alckmin, no Governo, a oferecer transporte de graça aos idosos.

O Projeto de Lei 89/2020 que traz o “elixir da juventude”, na cidade de São Paulo, foi aprovado em votação simbólica no plenário da Câmara Municipal, em 22 de dezembro. Essa é outra manobra típica de quem tem medo de assumir decisões impopulares, pois em votação simbólica não há registro individual do voto e os vereadores não precisam se expor.

Quatorze dos 54 parlamentares em plenário fizeram questão de registrar votos contrários ao projeto.  São eles, segundo site da Câmara:

ALESSANDRO GUEDES – PT

ALFREDINHO – PT

ANTONIO DONATO – PT

ARSELINO TATTO – PT

CELSO GIANNAZI – PSOL

CLAUDIO FONSECA – CIDADANIA

EDUARDO MATARAZZO SUPLICY – PT

ELISEU GABRIEL – PSB

GILBERTO NATALINI – S/PARTIDO

JAIR TATTO – PT

JANAÍNA LIMA – NOVO

JOSÉ POLICE NETO – PSD

SENIVAL MOURA – PT

SONINHA FRANCINE – CIDADANIA

Considerando que os demais 40 registraram presença e não se pronunciaram contrários ao projeto, pode-se dizer que apoiaram a ideia de acabar com a viagem de graça dos idosos. São eles:

ADILSON AMADEU – DEM

ADRIANA RAMALHO – PSDB

ANDRÉ SANTOS – REPUBLICANOS

ATÍLIO FRANCISCO – REPUBLICANOS

AURÉLIO NOMURA – PSDB

BETO DO SOCIAL – PSDB

CAIO MIRANDA – DEM

CAMILO CRISTÓFARO – PSB

CELSO JATNE – PL

CLAUDINHO DE SOUZA – PSDB

DALTON SILVANO – DEM

DANIEL ANNEMBERG – PSDB

EDIR SALES – PSD

FÁBIO RIVA – PSDB

FERNANDO HOLIDAY – PATRIOTA

GEORGE HATO – MDB

GILBERTO NASCIMENTO – PSC

GILSON BARRETO – PSDB

ISAC FELIX – PL

JOÃO JORGE – PSDB

JULIANA CARDOSO – PT

MARIO COVAS NETO – PODEMOS

MILTON FERREIRA – PODEMOS

MILTON LEITE – DEM

NOEMI NONATO – PL

PATRICIA BEZERRA – PSDB

PAULO FRANGE – PTB

QUITO FORMIGA – PSDB

REIS – PT

RICARDO NUNES – MDB

RICARDO TEIXEIRA – DEM

RINALDI DIGLIO – PSL

RODRIGO GOULART – PSD

RUTE COSTA – PSDB

SANDRA TADEU – DEM

SOUZA SANTOS – REPUBLICANOS

TONINHO PAIVA – PL

TONINHO VESPOLI – PSOL

XEXÉU TRIPOLI –  PSDB

ZÉ TURIN – REPUBLICANOS 

O vereador OTA, do PSB, estava ausente, segundo registro oficial da Câmara Municipal de São Paulo.

Antes de propor leis, vereador tem de se preocupar em montar um bom gabinete

Com o começo de nova legislatura nos municípios, vereadores eleitos e reeleitos chegam às câmaras municipais com uma série de ideias para transformá-las em projetos de lei, que se aprovados se somarão a uma montanha de outras leis já criadas pelo Executivo e o Legislativo. A maioria tem efeito nulo no desenvolvimento da cidade e na melhoria de qualidade de vida do cidadão. Para ter ideia, na última legislatura, na cidade de São Paulo, de 2017 a agosto de 2020, foram apresentados 2.969 projetos e aprovados 588.

Por trás da apresentação de projetos, tem muito de  boa intenção —- o que não significa que se transformará em boas ação. Tem também a ansiedade do parlamentar em dar solução para problemas que o Executivo não se mostra disposto a resolver  —- o que nos remete a outro problema que é o fato de que muitas dessas iniciativas não cabem, por lei, ao vereador; são da alçada do prefeito. Há os que apresentam o projeto apenas para dar resposta a demanda de algum grupo social que faz parte da sua base eleitoral —- e mesmo que não se transforme em lei, o vereador ao menos tem uma desculpa quando for cobrado: “eu tentei”. Ainda existem os que querem apenas aparecer, pegando carona em assuntos de apelo popular.

Em reportagem do jornal Agora, na edição desta segunda-feira, o advogado Armando Rovai, especialista em direito administrativo, eleitoral e empresarial da Universidade Mackenzie, critica o excesso de leis municipais no Brasil. Alguns projetos, segundo ele, “têm como único objetivo autopromover o vereador”. Rovai comenta que a Lei da Liberdade Econômica, em vigor desde 2019, exige que o parlamentar faça uma “análise de impacto regulatório” antes de apresentar “propostas de edição e de alteração de atos normativos”. No entanto, a maior parte dos legisladores desconhece essa obrigação e apresenta projetos sem um estudo de impacto.

O vereador não tem de entender de todas as minúcias da legislação, mas precisa conhecer o seu papel e o seu direito. Um dos caminhos para resolver esse problema, especialmente nesse momento em que novos vereadores estão assumindo suas cadeiras, é o cuidado com a formação do seu gabinete. Os vereadores têm verba específica e número de funcionários limitado por lei ou regulamento interno da casa legislativa, que pode mudar conforme a cidade. Em São Paulo, o vereador pode contratar até 18 funcionários — entre chefe de gabinete, assessor especial, assessor parlamentar ou assessor de gabinete.

Recomenda-se que a escolha desses funcionários, que serão pagos com dinheiro público, seja criteriosa e leve em consideração os temas centrais de um mandato. Por exemplo, se a ideia do vereador é tratar de assuntos relacionados à saúde, é importante que tenha entre os seus funcionários especialistas em saúde pública. Parece óbvio, mas não é. 

Ter alguém que conheça a burocracia legislativa —- leis, regimentos, processos, direitos e deveres —- evitará erros na condução das discussões. 

Contratar um especialista em finanças públicas ajudará no planejamento dos estudos de impacto econômico. 

Um profissional de comunicação permite que o Gabinete desenvolva canais de contato com o cidadão, com a imprensa e outros órgãos de interesse do mandato. 

Na capital paulista, será inconcebível um vereador montar seu gabinete, este ano, sem especialistas em planejamento urbano, a medida que um dos principais temas de debate na cidade será a revisão do Plano Diretor e Lei de Zoneamento —- aquele arcabouço de regras que decide como se pretende desenhar a cidade e pode mudar por completo a forma como o seu bairro ou a sua rua serão explorados.

Levando em consideração que muito mais produtivo do que propor uma lei atrás da outra é fiscalizar a atuação do prefeito — saber  como ele implanta as políticas públicas ou  como administra o cofre da prefeitura — é fundamental que o vereador leve para o seu gabinete gente que está preparada para desenvolver essa função.

Um bom gabinete — com mais técnicos e especialistas do que cabos eleitorais —, rende mais, gasta menos e torna o trabalho do vereador mais produtivo.

A morte do amigo Carlos

Éramos tricolores, um de São Paulo e o outro do Rio Grande do Sul. Isso não nos separava. Era ponte para conversas. Nem só de futebol falávamos em almoços anuais, telefonemas esporádicos e trocas de mensagens frequentes. Carlos era muito bem informado de tudo que acontecia e escreviam. Daí que a fronteira do futebol era facilmente ultrapassada para a política, a economia, a história, o comportamento, a moda, o meio ambiente … uma quantidade desafiadora de assuntos que ele provocava e eu me esforçava para acompanhar.

“Você leu … ?” era a pergunta que o Carlos costumava fazer quando queria comentar de algum artigo publicado na imprensa —- ele jamais abandonaria o hábito de ler jornais e tinha, claramente, preferência pela Folha, assim como era assíduo ouvinte do Jornal da CBN. Demorei para escapar da armadilha da minha ignorância. Aprendi que o melhor a fazer era responder com outra pergunta: “o que ele disse?”.  Dali pra frente vinha o resumo e a análise crítica independente — e esse era outro privilégio de conversar com o Carlos, porque seu pensamento não estava envencilhado a dogmas e mitos. Sabia discernir  certo e errado por conta própria.

Pelo tempo do verbo em que escrevo este artigo ou se você, caro e raro leitor deste blog, já tiver lido o post anterior haverá de saber que o Carlos não está mais com a gente. Morreu no primeiro do ano. Era “o amigo que agoniza, ainda não sei” — lembrado na crônica que abriu este blog em 2021. Se havia tristeza naquele texto, muito dela era pela dor que sentia no coração desde que soube que ele foi internado na noite de Natal após ter sofrido um AVC, em estado grave.

Leia “Carlos Magno, um homem à frente do seu tempo”, escrito por André Gibrail

Triste mas cultivando esperança nas reservas intelectuais e físicas que o Carlos acumulou em seus 78 anos de vida, pedia a Deus todas as manhãs que o trouxesse de volta. Repeti a súplica na manhã de primeiro de Janeiro —- seria minha última tentativa. Carlos morreu à tarde. Soube depois que a pandemia havia consumido boa parte de sua energia, que vinha tentando recuperar nos treinos de tênis supervisionados pela filha Elaine. 

Que vergonha! Durante todo este tempo, o Carlos ouviu minhas queixas, meus relatos de ansiedade, depressão e tristeza, e eu não lhe dei espaço para contar de seus desafios. Ou não soube entender sua mensagem ou ele próprio tomou cuidado de me proteger de más notícias ao perceber meu desalento. Ele nunca baixava a guarda, sempre me reconfortava e depositava confiança na retomada das atividades, acreditava que poderíamos sair melhores desta crise e lembrava de como as ideias que cultivou no passado se realizavam neste momento —- há muito, defendia, por exemplo, que o varejo migrasse para o eletrônico e reinventasse o conceito de loja física. Estava entusiasmado com o filho mais novo, Rodolfo, que fazia vestibular online e acabara de passar no curso de Direito. Eu não fui capaz de ver que nesse esforço para manter a minha, a nossa energia, o Carlos estava se desabastecendo. Seu tempo estava se encerrando.

“Todos sabem que o tempo é um dos mais preciosos bens à nossa disposição. E, por isso, é algo escasso, que deve ser bem administrado”

Com essa frase iniciou seu primeiro texto publicado neste blog, em 11 de junho de 2008 — era o mais longevo dos colaboradores. Transformou a prática da escrita em missão semanal e a usou para provocar temas, defender ideias inovadoras, criticar propostas retrógradas e relembrar histórias. Nos últimos tempos, sua atenção, nos textos e no trabalho, estava dedicada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, participava do pacto Global no Grupo de Excelência do CRA-SP e incentivava o debate no mercado de moda para reduzir o impacto ambiental das confecções.

Sua preocupação com o meio ambiente vem de épocas distantes — cultivada em Paraty, no Rio de Janeiro, onde nasceu, e estendida a São Paulo, cidade em que viveu, desde 1947, e nos aproximou. Atuava em defesa da preservação do espaço verde nos bairros, denunciou derrubada de árvores na região do Morumbi, em que morou, e fazia de sua indignação textos capazes de mobilizar centenas de pessoas.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo de Carlos Magno Gibrail 

Um dia antes de iniciar o seu martírio, conversou com o Alexandre, um de seus quatro filhos, sobre Grêmio e São Paulo que jogariam à noite, pela Copa do Brasil. Ouviu considerações, fez observações e chegou a conclusão que Renato tinha capacidade de montar um time que anularia o seu tricolor e isso seria fatídico: “… pelo menos o Mílton estará contente”, concluiu. 

Se a generosidade que o Carlos me ofereceu, eu nunca mereci, a confiança que depositou em mim, mudou meu comportamento; sua inteligência em pensar, me desafiou; sua opinião, me pautou e sua elegância em vestir e se comportar, foi referência.

Carlos, obrigado por tudo que me ensinou; desculpe-me, por tudo que não aprendi!

Leia os artigos de Carlos Magno Gibrail que escreveu em 11 anos dedicados ao Blog

Carlos Magno, um homem à frente do seu tempo

Por André Gibrail

As pessoas que estão à frente do seu tempo, em geral, ficam famosas pelos seus feitos, resultados ou simplesmente, por acertarem muito antecipadamente algum movimento da evolução humana. Outras com essa mesma capacidade, porém, podem não se tornar famosas, mas a sua valia permanece nos mais altos níveis de contribuição e admiração. E aqui relato uma dessas pessoas:

Ele, bacharel em dose tripla (administração, ciências contábeis & atuariais e economia) e um mestrado, tinha uma capacidade intelectual e de análise crítica tão acima da média, que por vezes, levantava dúvidas e desconfiança do resto dos mortais. Lia compulsivamente artigos, revistas, blogs, periódicos e livros de assuntos absolutamente diversos — de economia e política à consumo, moda e gastronomia. Tendências de tecnologia e suas implicações sócio-culturais eram uma de suas favoritas.

Com sua visão diferenciada, ainda na década de 70 e no começo de 80, prevendo a instauração de mercados comuns, fez um plano de negócios para montar uma empresa no Paraguai, tendo a certeza do advento do Mercosul, que viria longínquos 20 anos depois. 

Nessa época ainda à frente de três confecções de moda infanto-juvenil (Pataca, Caramelo e Nautik), lançou muitas inovações como jaqueta que virava mochila, camiseta com logomarca com líquido colorido que movia-se como ondas no mar, jaqueta infantil com leds coloridos que piscavam — isso tudo há 40 anos! Apostou em uma modelo infantil que iniciava sua carreira na Caramelo e que depois seria conhecida nacionalmente, Angélica.

Ainda na década de 80, prevendo a tendência dos consumidores de migrarem sua preferência de lojas de rua para os shopping centers, liderou a criação de toda a rede de varejo da Cori, a principal marca de roupa feminina AA da época. E foi um sucesso absoluto! 


Na década de 90, com o varejo da Cori a todo vapor, repetia incansavelmente que “ter caixa em loja era miopia”. Dizia que a consumidora deveria ser atendida pela mesma pessoa do começo ao fim, pois ser direcionada ao caixa para pagar a conta (com outro funcionário que não teve nenhum contato com ela na compra), quebraria todo o relacionamento. Ele já falava de experiência e jornada do cliente nessa época! Dez anos depois, Steve Jobs inaugurou a primeira loja da Apple, aplicando os conceitos que tanto ouvi em casa: nenhuma loja da Apple tem caixa. O vendedor é responsável por toda a sua jornada na loja.

Novamente sua visão crítica acertou mais uma vez ao conhecer e dar apoio a uma apresentadora de TV que iniciava um programa ainda pouco assistido na TV Record, Ana Maria Braga.

Com o advento da Internet, foi o primeiro a prever por aqui o boom de consumo de moda no comércio eletrônico. Na época, ouvia de praticamente todas as pessoas de que o consumidor jamais compraria roupa ou acessórios via Internet. Mas ele, com toda sua persistência, criou o primeiro site de moda do Brasil (quiçá de toda a América Latina) o Modasite. Falava que, além das pessoas, sim, consumirem roupa na internet, iriam preferir um site completo, multimarca. Faria todo sentido prover um marketplace ao consumidor. Infelizmente, não estávamos preparados na época. Somente 20 anos depois o mundo provou que ele estava certo. 

E as histórias de sua genialidade continuaram, afinal, depois de mais de 30 anos de Cori, mesmo beirando seus 70 anos, tornou-se um dos consultores mais especializados em varejo e relacionamento com shopping centers ajudando tanto empresas quanto shoppings a se reinventarem; participou de três startups  — a última ano passado com seus 77 anos —, e agora em Dezembro dizia que estava animado com algumas perspectivas para o começo de 2021 … novos horizontes iriam se abrir. 

Além de tudo isso, arrumava tempo para uma das atividades que mais lhe dava prazer e orgulho: escrever um artigo semanal para o blog do Mílton Jung. E eram artigos sensacionais!!!

Sendo uma pessoa tão animada, tão cheia de energia de vida e com uma cabeça tão privilegiada como a dele, para pará-lo só parando o seu cérebro. Carlos Magno Correa Gibrail, teve um AVC e morreu em 1º de Janeiro de 2021. Pai de quatro filhos e avô de seis netos, são paulino convicto, tenista e apaixonado também por futebol, leitura e atividades sociais, paratiense de nascença com muito orgulho, nos deixa um legado inacreditável. 

Obrigado Carlos Magno!

Eu te amo. 
Seu admirador e filho,

André