Conte Sua História de São Paulo: a gargalhada da velha na porta do Parque Shangai

Por Ulysses Cruz

Ouvinte da CBN

Assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Ali nos baixios do Glicério, mais pro lado do complexo de viadutos que leva à Radial Leste e à Celso Garcia, onde hoje tem uma igreja evangélica, ficava o Parque Shangai. Era enorme. Eu o via sempre da janela da lotação na volta da loja de departamentos Clipper —- a preferida de minha mãe. Dela pelas roupas e minha também porque tinha a escada rolante.

A lotação fazia uma curva e meu coração saltava com aquela imagem vista rapidamente da janela do enorme carro. Eu enxergava um pedaço da Montanha Russa de madeira, altíssima;  quase toda a Roda Gigante — que era de verdade gigante. E ao torcer o pescoço para trás ainda conseguia olhas  o Trem Fantasma. E só.

Minha mãe era uma morena bonita, peitos fartos, que gostava de se vestir bem — na Clipper, claro. Só agora me dou conta que minha paixão pelo amarelo vem de um vestido dela, usado em ocasiões especiais, como ir à cidade fazer compras, ela adorava, sempre de lotação e comigo ao lado. Naquela época, mulher casada não andava sozinha na lotação.

Não lembro quem me levou ao Parque Shangai pela primeira vez. Papai era sério, policial, não era dado a essas coisas. Minha mãe, talvez. Meu tio Eloi? Era o boêmio da família. Pode bem ter sido ele. Não lembro. 

O que lembro, passados mais de 60 anos, é da risada da boneca gigante que nos recebia na entrada do parque. Era uma velha com uma bolsa na mão. Ela ria e chacoalhava o corpo para cima e para baixo, sacudindo a bolsa como se fosse uma arma. Tudo era movimento na boneca. Sua roupa, seus cabelos debaixo do chapéu … Ela ficava com em um relicário profano cheio de luzes e cores, lá no alto. Atração até mesmo para quem não tinha dinheiro para entrar no parque. Ela contagiava. Você poderia ficar meia hora ali em frente que não enjoava de rir. Se não ria dela, ria das pessoas que se dobravam de tanto gargalhar.

O curioso é que mesmo com todas as atrações que havia dentro do parque, em minha memória a imagem que ficou foi a da velha com a bolsa. A ponto de eu pensar hoje que minha cidade tem esse som: o da risada da velha da bolsa. Às vezes maligna, às vezes cruel. Na maioria das vezes, uma risada divertida, alta e barulhenta. 

Assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Ulysses Cruz é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Convite aos eleitos

Cezar Miola

Conselheiro do TCE-RS

 

Foto: Pixabay

 

Texto publicado originalmente no blog de Fausto Macedo/Estadão

Em quase 40 anos exercendo funções públicas, tenho convivido com a notável experiência de estar próximo do ambiente da gestão governamental, tendo começado, inclusive, no âmbito local, no Município, que é o “palco da vida”. E particularmente nas quase três décadas de atuação no Ministério Público de Contas e no Tribunal de Contas gaúcho, muito desse trabalho incluiu realizar auditorias, apontar irregularidades, emitir pareceres técnicos e jurídicos, recomendar, determinar, sancionar. E orientar, porque essa é uma função muito presente nos órgãos de controle.

Mas, a poucos dias do importantíssimo processo de escolha dos novos administradores e dos vereadores de mais de 5,5 mil municípios brasileiros, considero que a hora seja mais própria a um convite, quiçá um desafio. Que esses novos gestores e representantes dos mais de 200 milhões de brasileiros façam dos próximos quatro anos o exercício diário de ações em defesa da educação e do bem-estar das nossas crianças e jovens. Creches para aquelas de zero a três anos, as quais, ao longo desse período, já deverão ingressar na pré-escola; quanto às que hoje iniciam o ensino fundamental, que concluam essa etapa, e assim sucessivamente. Numa perspectiva de longo prazo, um quadriênio pode parecer pouco, mas poderá ser determinante para a vida de muitos brasileiros. Hoje, temos mais de 6,5 milhões de crianças de até 3 anos fora das creches; 1,5 milhão com idade entre 4 e 17 – faixa na qual o ensino é obrigatório – não estão na escola. De igual modo, cabe ressaltar que a pandemia trouxe efeitos deletérios em termos de mais abandono e evasão. São números impressionantes, mas que podem impactar menos se distribuídos pela grande federação: cada uma das mais de 5 mil células desse todo cuidando da sua parte, empregando verbas próprias e aquelas do Fundeb, além do necessário apoio da União, conforme prevê a Constituição da República.

Ainda na linha propositiva, emerge uma respeitosa reflexão: a possibilidade de se reforçar esses aportes com uma fonte adicional, ou seja, parte dos valores alocados nas emendas parlamentares ao projeto de lei orçamentária. Veja-se: conforme dados do Portal da Transparência, de janeiro de 2018 a outubro de 2020 houve o empenhamento de R$ 47 bilhões em emendas. Desse total, foram pagos R$ 24 bilhões. Embora a exigência (legítima, diga-se) de se reservar parte específica às ações e serviços públicos de saúde, o certo é que, no período, apenas 1,2% deste último total se destinou à educação básica. Nesse quadro, respeitada a legitimidade democrática, parece haver espaço para um precioso incremento de recursos, que ajudariam a concretizar a prioridade que todos defendemos para a educação. Um exemplo de aplicação: investimentos imediatos na inclusão digital, instrumento cada vez mais essencial no processo pedagógico, em benefício de escolas, professores e alunos.

Em outra dimensão, há de se olhar, igualmente, para aspectos como os da gestão e da eficiência. Em inúmeros municípios brasileiros, de diferentes regiões, encontramos evidências que nos permitem assegurar: sabemos como alcançar bons resultados; cabe ter a humildade e o compromisso de adotá-las. Não há soluções mágicas, mas se pode aproveitar o que comprovadamente tem dado certo, inclusive em locais cujas condições socioeconômicas são desfavoráveis. A propósito, veja-se o estudo “Educação que faz a diferença”, elaborado em parceria entre o Instituto Rui Barbosa (IRB) e o Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), disponível neste link.

Não se ignoram os desafios da covid-19, que está longe de ser vencida, mas o convite, a conclamação, o desafio, são para que façamos dos próximos quatro anos o tempo em que, investindo nas pessoas, desde os primeiros anos, construiremos a base para um futuro promissor, menos desigual e de perspectivas para todos os brasileiros, independente da renda das suas famílias ou da cidade onde nasceram. E se os sucessores dos agora eleitos seguirem pela mesma trilha, assegurando todos os meios imprescindíveis, irá se construindo um alentador processo virtuoso.

Mas também se tenha presente que o desempenho positivo não se dá por fatores isolados. Ele só é factível num cenário dialógico entre gestores, profissionais da educação e famílias, todos comprometidos com a responsabilidade educacional, que se traduz na universalização do acesso, na equidade e na qualidade.

Aos que desejarem percorrer tal caminho, posso assegurar: em todos os Estados brasileiros haverá um Tribunal de Contas aliado para ajudar a concretizar esses objetivos.

Texto publicado originalmente no blog de Fausto Macedo/Estadão

*Cezar Miola, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul e presidente do Comitê Técnico da Educação do Instituto Rui Barbosa (CTE-IRB)

Avalanche Tricolor: na monarquia do futebol, o passe é o imperador e Renato …

Cuiabá 1×2 Grêmio

Copa do Brasil — Arena Pantanal, Cuiabá/MT

Jean Pyerre a caminho do gol Foto Lucas Uebel/GrêmioFBPA

 

Renato é o Rei. O passe é o Imperador. E antes que alguém pense que o escrevinhador desta Avalanche aderiu à monarquia, assumo o compromisso de me ater as coisas do futebol, apesar deste jogo que tanto admiramos ser capaz de explicar o mundo —- ao menos foi o que o jornalista americano Franklin Foer me convenceu, em livro publicado em 2010.

Quanto a realeza de Renato, se alguém duvida faça uma visita à esplanada da Arena Grêmio, no bairro do Humaitá, em Porto Alegre, e veja de perto a estátua que erguemos para ele que foi o maior jogador da história gremista. E um dos técnicos mais importantes a comandar nossa equipe. Chegou a seis vitórias consecutivas neste início de noite, algo que não havia alcançado desde que reassumiu o comando gremista. Curiosamente, resultados positivos que surgem em uma temporada na qual nunca foi tão criticado nesta última jornada, iniciada em 2016, em que foi campeão da Libertadores, da Copa Brasil e várias vezes do Campeonato Gaúcho.

Por muitas vezes nesses últimos jogos, tanto a televisão quanto os indiscretos microfones ao lado do campo flagraram nosso técnico esbravejando com seus comandados, incomodado com bolas perdidas no ataque, movimentação precipitada, chutes desperdiçados, marcação folgada e permissão para o adversário nos atacar. Reclama de Ferreirinha, critica Lucas Silva, diz impropérios para Cortez, xinga quem passar pela sua frente e tenta acertar o posicionamento de seus jogadores. Ele sabe que para recuperar o futebol que nos fez campeão é preciso melhorar muito.

O Grêmio vive uma fase de transição — e já falei sobre isso em Avalanches anteriores. Sofreu com a lesão e a Covid-19 de jogadores importantes. Obrigou o técnico a mudar a forma do time jogar e abrir mão daquele futebol que encantou o Brasil. Independentemente de todos os percalços, foi campeão Gaúcho, terminou líder de sua chave de classificação na Libertadores, subiu na tabela do Brasileiro e hoje deu mais um passo importante rumo à semifinal da Copa do Brasil, mesmo fazendo seu primeiro jogo fora de casa. 

Soma-se às seis vitórias consecutivas uma série de nove jogos sem perder, mesmo com todas as dificuldades para montar o time em meio as contusões e as competições. E dos muitos méritos de Renato está a paciência em aguardar o momento certo para lançar jogadores no time titular. O maior exemplo — e aí me encaminho ao segundo tema desta Avalanche —- é Jean Pyerre que torcedores pediam em campo há algum tempo em meio a ataques ao técnico que preferia escalar um time sem articulador.

Nosso camisa 10 —- mesmo que não carregue o número às costas, ele é o 21 do time —- é um jogador especial, diferente no toque de bola, com movimentos elegantes em campo, que se diferencia dos demais pela forma como olha o jogo do alto e de cabeça em pé, enquanto dos seus pés surgem as melhores jogadas. Seu passe é preciso —- errou apenas um em todo o primeiro tempo, três em todo o jogo. Dos muitos passes certos —- este fundamento que diferencia os craques dos mortais —, colocou Cortez em condições de cruzar a bola que levou ao pênalti, que foi cobrado por ele com a precisão que tanto esperamos em uma cobrança desta importância.

Jean Pyerre tem futebol para ser titular, mas Renato não se ilude com isso. Sabia pelo que o meio de campo passava, pelas dificuldades com sua condição física e psicológica, impactadas pela doença do pai e o sofrimento da família. O jogador falou muito no intervalo da partida sobre essa condição especial e sensível que enfrentou. E está ciente de que precisa voltar aos poucos para ser o jogador que sonhamos que seja um dia —- um novo Rei da América. Ou o Imperador do Passe.

Sou maricas, sim!

Foto: Pixabay

 

Foi o presidente Jair Bolsonaro quem disse: somos um país de maricas! Somos não! Se o significado for a covardia, como no espanhol, não somos, não!  Este é um país de brava gente. Porque é preciso muita coragem para sair da cama todas as manhãs sem saber o que será do amanhã. Se lá fora o vírus vai me matar. Uma bala vai me atingir. Um louco resolve se vingar porque ao fim da saliva apela à pólvora. Tem de ter muita coragem para enfrentar os desafios do escritório, do armazém e da rua; do medo do desemprego, da falta de educação e do hospital sem leito para me atender.

Agora, presidente, se maricas é ser afeminado, sou sim, maricas. Porque ter alma fêmea, feminina nos faz melhor. Nos torna acolhedor, solidário. Em Alma Feminina, canta Daniela Mercury: “… porque sou guerreira; tenho alma de mulher; sou fé, sou brasileira … tenho alma de menina e uso a força da voz para falar de amor”.

Então, sou maricas, sim!

E isso não me faz pior: tenho coragem de assumir minhas fragilidades. Não tenho medo de compartilhar essas fraquezas. De ter desejo de chorar diante da covardia de quem ataca os mais fracos. De sofrer ao assistir pusilames travestidos de líderes desdenhando  o peso de uma morte — uma não, mais de 163 mil mortes —; incapazes que são de identificar o quanto a violência por atos e palavras impacta a saúde mental de jovens, especialmente de jovens que na sala de aula, no pátio da escola ou na plataforma digital são vítimas de ataques, que agora chamamos de bullying —- palavra que para o presidente não faz sentido, porque com ele é na pólvora, é na porrada. 

Ele é machão — da pior espécie. Eu sou maricas, sim!

Tomado por essa alma feminina que todos devemos preservar sem medo, preocupo-me com a maneira como tratamos a morte de um rapaz de 33 anos que havia se colocado à disposição da ciência para salvar vidas e desistiu da sua própria vida, sabe-se lá por quê. Nesse caso, não apenas pelo presidente — que comemorou, sem aspas, a morte e a paralisação de testes de uma vacina que poderia dar vida a outras pessoas — mas pela maioria de nós que tratou o suicídio como algo banal, descreveu com detalhes o laudo e a jornada à morte. Uma morte sempre difícil de explicar, que leva embora jovens, muitos vítimas do bullying, do desrespeito, dos machões de taverna. 

É preciso que estejamos atentos em casa, com sensibilidade para ouvir o que nossos filhos, nossos jovens não são capazes de falar; nos mostrarmos sempre acolhedores para entender como está batendo o coração desse menino ou dessa menina; uma gurizada que tem seus sentimentos tolhidos por essa cultura machista em que tristeza é frescura, depressão é coisa de vagabundo. Depressão, tristeza, solidão …. um caminho que se for percorrido com gente acolhedora —- como somos os maricas, nós de alma feminina —- se torna mais fácil. E pode ser transformador no rumo que vamos tomar em vida.

O suicídio jamais pode ser tratado com a irresponsabilidade com que se tratou este tema nas últimas horas aqui no Brasil. É coisa muito séria. Quem tiver dúvidas de como abordar o assunto, seja politicamente seja jornalisticamente, busque orientação nos manuais da Organização Mundial de Saúde. Quem tiver dificuldade para falar do tema, busque o Centro de Valorização da Vida, que tem uma experiência incrível, formada por pessoas que estão sempre à disposição para ouvir, abraçar e ajudar. Para nos salvar!

Precisamos votar atentos ou vamos necessitar de um Ralph Nader, em São Paulo

 Por Carlos Magno Gibrail

Av Morumbi com Adibo Ares foto: Carlos Magno Gibrail

 

A cidade de São Paulo estará revisando o Plano Diretor e a Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo – Zoneamento, na próxima legislatura. Em poucos dias a população estará votando para eleger Prefeito e Vereadores, a quem caberá executar a Revisão do Plano, cuja experiência  desde sua aprovação, em 2014, até hoje deve servir para sinalizar o que deverá ser mantido, acrescido ou descartado.

Da rádio CBN e do portal Ig, duas informações publicadas recentemente geraram um alerta. A primeira é que dos 14 candidatos a prefeito, apenas sete incluíram o Plano Diretor e o Zoneamento em seus programas de governo. No programa “Mais São Paulo” da rádio CBN, Américo Sampaio citou os sete: Andrea Matarazzo, Artur do Val, Guilherme Boulos, Jilmar Tatto, Joice Hasselmann, Mario França e Marina Helou.

Andrea Matarazzo, Guilherme Boulos e Jilmar Tatto, se propõem a focar na aplicação da Lei, enquanto Artur do Val, Joice Hasselmann e Mario França, pretendem efetivar a revisão com a participação da população. 

Outro alerta foi dado pelo portal iG, transcrevendo material da FOLHA, anunciou que “ Covas é patrocinado pelo mercado imobiliário” .

No aspecto da aplicação da lei, é comum a constatação do uso do solo divorciado das restrições originais do loteamento, que por lei, tem que ser cumpridas. Por exemplo o caso atual da Av. Morumbi com a Av. Adibo Ares em que a TEGRA TGSP 39 Empreendimentos Imobiliários desconsiderando o loteamento original projetou e está executando a construção de torres completamente fora dos parâmetros de adensamento permitidos. A obra foi acelerada diante dos protestos iniciais dos moradores, para atingir certamente o tão conhecido estágio  do “ninguém terá coragem de ordenar a demolição”.      

A Revisão com a participação da população é pretensão louvável, mas nem sempre possível, pois é comum nestas sessões a presença de agentes do mercado imobiliário distorcendo objetivos dos reais ocupantes do solo em pauta. 

Quanto ao  Covas estar sendo apontado como beneficiado de construtoras e incorporadoras, ao receber de empresários do setor  aproximadamente R$ 880 mil reais para a campanha, é legal, mas é preciso monitorar as decisões futuras.  Além disso, segundo a reportagem, Covas encaminhou proposta para aumentar no miolo dos bairros o gabarito dos prédios, bem como a flexibilização das vagas de garagem. Medidas que ainda não foram implementadas devido a judicialização que encontraram pelo caminho. 

Convenhamos que este é um cenário de confronto entre várias partes envolvidas,  principalmente entre ambientalistas e negacionistas, em que os agentes imobiliários não exercem o amplo papel que lhes cabe, atuando apenas como comerciantes a curto prazo. Não se importam com impactos ambientais nem com a preservação de recursos escassos. 

Ralph Nader neste contexto é bem lembrado quando partiu dele a vigorosa ação contra a poderosa indústria automobilística americana que fabricava “maravilhosos” automóveis sem o mínimo padrão de segurança.  Conseguiu que as técnicas existentes fossem introduzidas e os automóveis nunca mais foram os mesmos.  

A nossa indústria da construção civil também é poderosa, enquanto não surge um Ralph Nader local, estamos identificando ações de associações de moradores.  Neste momento recebemos material do morador e engenheiro civil Chico Lima sobre o processo citado acima sobre a obra da TEGRA, cuja decisão judicial é embargo e demolição. *

“Ante o exposto e considerando tudo o mais que dos autos consta, JULGO PROCEDENTE a ação que ASSOCIAÇÃO DOS MORADORES DO JARDIM GUEDALA, move contra a TGSP – 39 EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS LTDA e PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO, e o faço para declarar a vigência das restrições convencionais em relação aos lotes objeto do empreendimento. Em consequência, reconheço a nulidade dos atos administrativos consubstanciados nos alvarás de aprovação de obra nova expedidos respectivamente nos processos administrativos 2017-0.108.508-5 e 2018-0.027.294-0 e atos subsequentes. Condeno a requerida à obrigação de fazer consistente na demolição de toda e qualquer obra do empreendimento em questão, repondo-se integralmente o “status quo ante”, bem como na obrigação de não fazer, consistente na não construção dos empreendimentos “Il Faro” e “Il Bosco”. Arcarão as requeridas com as custas processuais e honorários advocatícios, que fixo em vinte por cento do valor atribuído à causa. Oportunamente, ao arquivo.

P. Intime-se. São Paulo, 03 de novembro de 2020.

CYNTHIA THOMÉ Juíza de Direito “

Carlos Magno Gibrail é consultor, autor do livro “Arquitetura do Varejo”, mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.     

*

Como ficam nossos neurônios-espelho e a empatia se interagimos apenas com telas de celular

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicolog

 

Cena do filme “O Enigma de Kaspar Hauser”

 

O filme “O Enigma de Kaspar Hauser” (1974), do diretor alemão Werner Herzog, narra a história de um adolescente encarcerado até a idade de 16 anos, quando teve seu primeiro contato verbal e social. Nos dois anos seguintes, com a ajuda de uma família e de um padre, ele consegue ampliar o seu vocabulário, mas nunca desenvolveu a competência linguística de maneira plena. Aprendeu algumas atividades como tricô e jardinagem, mas não adquiriu a compreensão de regras e convenções da época, especialmente sociais e religiosas, permanecendo com habilidades sociais muito prejudicadas.

De lendas a casos reais bem documentados, crianças que passaram por privação de contato social, chamadas de crianças selvagens, em geral apresentam dificuldades na aquisição de algumas habilidades ou aptidões cognitivas, como a linguagem, apesar de todos os esforços e incentivos realizados. Isso mostra o impacto da privação social para o desenvolvimento humano. 

Diversos estudos têm sido realizados sobre a capacidade humana de aprender pela observação.

Albert Bandura, psicólogo canadense, realizou experiências nas quais crianças assistiam a vídeos de adultos que agrediam um boneco do tipo “João Bobo” e em seguida eram levadas para uma sala de brinquedos, onde também tinha o tal boneco. Nessa condição, 90% das crianças apresentavam as mesmas atitudes dos adultos em relação ao boneco, indicando que comportamentos podem ser aprendidos a partir da observação da ação realizada por outras pessoas.

Para Bandura, a aprendizagem por observação, ou aprendizagem social, acontece pela observação das pessoas com as quais convivemos, como pais, irmãos e amigos. 

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento: inscreva-se no canal 10porcentomais no Youtube.

Em meados da década de 90, na Universidade de Parma, Giacomo Rizzolatti e sua equipe descobriram em cérebros de macacos Rhesus os neurônios responsáveis pela aprendizagem por imitação. Os cientistas descobriram nesses macacos a ativação de determinados neurônios durante a execução de uma ação e também quando observavam o experimentador realizar a ação. Daí a origem do termo neurônio-espelho.

Posteriormente, estudos utilizando ferramentas de neuroimagem, como ressonância magnética funcional, demonstraram a ativação de regiões do córtex cerebral em humanos durante a execução e/ou observação de ações  realizadas com a mão, a boca ou os pés. Semelhante aos achados com animais, a observação da expressão facial de nojo em outra pessoa, irá ativar regiões específicas do cérebro que também serão ativadas quando a própria pessoa sentir nojo.

Os neurônios-espelho estão envolvidos na compreensão da base biológica de algumas habilidades mentais, sugerindo sua contribuição na origem da linguagem humana e no desenvolvimento de funções importantes como imitação, aprendizado e habilidades de relacionamento interpessoal, como a empatia.

Em tempos de isolamento social provocado pela pandemia e numa sociedade que permanece longos períodos diante das telas, a nossa capacidade de aprender pela imitação estaria comprometida? Isso poderia prejudicar as nossas habilidades sociais?

Artigo recentemente publicado no Globo (Neurônios-Gandhi’s, em 31-10-2020), destaca a preocupação da psicóloga Kimberly Quinn, professora do Champlain College, quanto à exposição de crianças e jovens à internet, como fator que poderia reduzir a aprendizagem por imitação. Além disso, a psicóloga manifesta sua preocupação quanto ao tempo excessivo de tela e a possibilidade disso nos transformar em robôs. 

Os avanços na tecnologia da comunicação têm reduzido as diferenças entre espaços de aprendizagem virtual e presencial. Entretanto, diversos estudos envolvendo aprendizagem e realidade virtual têm demonstrado que apesar das conquistas tecnológicas, existem prejuízos no processamento de informações comunicativas, tanto gestuais quanto linguísticas, com redução de aprendizado baseado nas telas em comparação com as interações ao vivo, especialmente em crianças pequenas.

Ainda permanecem muitas questões sem respostas relacionadas à aprendizagem social, comunicação e mecanismos envolvendo neurônios-espelho em situações cada vez mais virtuais; porém, o isolamento social provocado pela pandemia é completamente diferente da privação social vivenciada pelas crianças selvagens. 

Talvez o excesso de tecnologia nos aproxime de atitudes mais robotizadas. Não sabemos. Mas possivelmente se Kaspar Hauser tivesse um smartphone ao seu alcance, possivelmente teria desenvolvido mais habilidades humanas. 

Enquanto não temos respostas definitivas, o bom senso no uso das telas ainda deve prevalecer e as interações humanas, sempre que possíveis, são muito bem-vindas.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento: inscreva-se no canal 10porcentomais no Youtube.

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Sua Marca: classes C e D têm de ser tratadas com dignidade e respeito

Assine o podcast do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

“Empresas e marcas que olham para as classes C e D com a dignidade e o respeito que merecem conseguem grandes resultados” — Jaime Troiano

As marcas têm o compromisso autêntico de inclusão social, e devem estar cientes desse papel, sob o risco de excluírem parcela da população agindo de forma inadequada na comunicação e no desenvolvimento de produtos. O alerta é de Jaime Troiano e Cecília Russo no quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN. Um dos erros mais comuns apontados pelos comentaristas é o empobrecimento da marca para torná-la viável:

“Imagine um gerente de marca que trabalha para as classes A e B, desenvolvendo uma forma de seus produtos chegarem às classes C e D: ele pega a planilha de custo e começa a cortar tudo que pode até encontrar uma formulação mais barata que vai levar a uma identidade visual mais simples a ponto de o consumidor se sentir mais pobre do que ele realmente é” — Jaime Troiano.

Cecília Russo chama atenção também de que ao se falar de classes C e D, estamos falando de um mercado consumidor enorme que não pode ser desdenhado pelas empresas:

“São pessoas, e pessoas que representam 2/3 da população, que têm preferências, têm gostos e são muitas e merecem ser tratadas com respeito —- elas são o Brasil de verdade” — Cecília Russo

Enquanto há marcas que apesar de enxergarem a capacidade de compra das classes C e D atuam com timidez e até expressam vergonha, outras se orgulham de serem acessíveis a essa população: dois exemplos positivos citados no programa são a Caedu, no setor de varejo de roupas, e a Kallan, no segmento de calçados:

“Eles sabem muito bem como receber e tratar seus clientes, independente mente da classe social a que pertencem. Mesmo porque alguns dos funcionários dessas empresas, que trabalham nas lojas, pertencem a essas classes. E sabem com o tratamento com dignidade é fundamental”— Cecília Russo

Assine o podcast do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar, aos sábados, às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN.

Tecnologia e campanha eleitoral: o que está por vir?

Por Valentina Buccoliero

Imagem de filme Great Hack

 

Texto original publicado em inglês no site Liberty.

Notícias falsas, bolhas ideológicas, anúncios direcionados. Há chances de que, desde 2016, você provavelmente tenha ouvido um ou mais desses termos usados em discussões sobre mídia social e política. Desde então, a ligação entre a mídia social e a política só se aprofundou. A tecnologia, em suas diversas formas, sempre fez parte das campanhas eleitorais. Da mídia impressa à televisão e agora à internet e smartphones, os candidatos em cada ciclo eleitoral dão mais importância ao uso da tecnologia para divulgar sua mensagem aos eleitores.

O uso mal sucedido, mas visionário, de Howard Dean da internet em sua campanha presidencial de 2004 prenunciou a importância da web e abriu caminho para sucessos futuros no mundo online, como a campanha de Obama em 2008. No entanto, 2016 nos mostrou que o novo garoto de ouro da propaganda política são as mídias sociais. Desde então, plataformas como Facebook, Instagram e Twitter desempenharam um grande papel não apenas na eleição americana de 2016, mas nos processos de votação em todo o mundo.

Então, como a campanha eleitoral de 2020 se diferenciou da última?

Tecnologias atualizadas

Os avanços tecnológicos ocorrem em uma taxa exponencial; as tecnologias usadas no último ciclo eleitoral podem se tornar arcaicas na próxima. Em 2020, as principais estratégias utilizadas foram construídas com base nas inovações de 2016, como microssegmentação em mídias sociais e uso de Big Data. Por exemplo, à luz das deficiências em 2016, o Comitê Nacional Democrata criou o Democratic Data Exchange (DDX), que supostamente reuniu mais de 1 bilhão de pontos de dados. Esta eleição também mostrou aplicativos de candidatos avançando em direção à coleta de dados, como o aplicativo de Donald Trump coletando informações sobre os contatos do usuário, localização e Bluetooth. Finalmente, novos aplicativos, como a plataforma de compartilhamento de vídeo TikTok também desempenharam um papel não trivial na eleição e desencadearam o debate público sobre certas questões. À medida que os pesquisadores continuam investigando a área, mais estratégias usadas por ambas as campanhas provavelmente serão divulgadas nos meses seguintes à eleição.

Auto-regulação da plataforma: novos tempos, novas regras

As plataformas de mídia social têm, desde o início, operado principalmente por meio de autorregulação. Embora alguns países, como a Alemanha, tenham implementado suas próprias políticas em relação ao conteúdo de mídia social, os Estados Unidos ainda não introduziram nenhum regulamento específico, especialmente em relação às eleições. No entanto, à luz do debate pós-2016 sobre a desinformação, os gigantes da mídia social endureceram suas próprias políticas sobre o conteúdo eleitoral. Do Twitter proibindo anúncios políticos em outubro de 2019 às políticas atualizadas do Facebook para o dia das eleições, houve uma mudança notável nas plataformas que aceitaram seu papel no processo democrático. A implementação dessas novas medidas não é apenas uma reação à opinião pública sobre o assunto, que tornou-se cada vez mais crítica, mas também uma resposta a algumas demandas do mercado. Por exemplo, a campanha global “Stop Hate for Profit” uniu mais de 1.000 marcas, entre as quais gigantes da indústria como Coca-Cola e Ford, para boicotar os anúncios do Facebook na esperança de impulsionar mudanças nos padrões da comunidade que está na plataforma. Com alguns especialistas entendendo que as medidas promulgadas foram “um pouco tarde demais”, os efeitos totais de ações como rotular a desinformação e limitar os anúncios políticos na corrida para as eleições, não serão compreendidos até depois da eleição e análises adicionais.

Pandemia Covid-19: o catalisador digital

Com o mundo paralisado (conforme medidas de bloqueio em todo o país foram postas em prática), o uso da Internet aumentou rapidamente quase da noite para o dia. Com o método tradicional de campanha porta-a-porta e grandes comícios interrompidos, a tecnologia tomou a dianteira conforme a maior parte das campanhas se tornava digital. Trump estava em vantagem, ostentando cerca de 87,7 milhões de seguidores no Twitter e 31 milhões no Facebook. No entanto, a equipe de Joe Biden foi rápida em lançar várias campanhas com influenciadores, para atingir mais pessoas em nichos específicos. Por exemplo, Biden realizou um Facebook Live com Dulce Candy, uma grande influenciadora com um número expressivo de pais que são seus seguidores, sobre suas propostas políticas para o cuidado das crianças. A pandemia forçou as campanhas a se adaptarem rapidamente a novos modelos e será interessante ver quais estratégias permanecerão em vigor em 2024.

No geral, diagnosticar o passado é sempre mais fácil que o presente, então o impacto total das tecnologias nesta eleição é difícil de avaliar imediatamente. No entanto, conforme nosso tempo diário de tela aumenta e as tecnologias de campanha eleitoral ficam mais precisas, a crescente aliança tecnologia-política não é uma questão de se, mas de como vai ocorrer.

Valentina Buccoliero está atualmente concluindo mestrado em Política e Comunicação na LSE. Ela se juntou à Liberty para um estágio de pós-graduação, em novembro de 2020.

Avalanche Tricolor: motivos para sorrir

Fluminense 0x1 Grêmio

Brasileiro — Maracanã

Festa do gol em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA

nbsp;

Devagar e sempre. Cadenciando quando pode. Acelerando quando precisa. Trocando passe no meio do campo e esperando a defesa se abrir. Arriscando dribles pela direita ou pela esquerda. Assustando o adversário e tirando a tranquilidade dele com uma marcação mais forte. Nem sempre exuberante — como nos acostumamos —, mas com uma eficiência que chama a atenção especialmente nas últimas partidas.

Assim tem sido o Grêmio nesta transição que Renato realiza com muita paciência e na qual o time disputa três competições. Duas delas, as Copas, nas quais estamos em uma jornada vitoriosa e a alguns passos da final. No Brasileiro, mais longo e desgastante, os resultados voltaram a acontecer e os pontos foram sendo somados: um aqui, três acolá, mais três agora e quando menos esperavam, o Grêmio saltou seis posições na competição, está a três pontos da Zona da Libertadores e a seis da liderança, com um jogo a menos do que alguns dos que disputam o topo da tabela.

Renato tem mesclado jogadores, descansado quem precisa e aos poucos remontado o elenco. Hoje mesmo, voltou a mudar a dupla de laterais, relançou Jean Pyerre no time titular —- conforme já vinha preparando com calma, apesar das cornetadas de torcedores —-, manteve Pepê, afinal o guri é insubstituível, e saiu jogando com Churín, no comando do ataque.

Pepê dispensa comentários —— mesmo que eu insista em fazê-los. Está sempre pronto para disparar, solidário na marcação e decisivo no ataque. Mais uma vez foi ao Maracanã e deixou sua marca. Que me permitam chamá-lo de Rei do Rio, apesar de saber que o título é de Renato. 

Já o gringo parece estar à vontade no time e com seus colegas. Participou de todas as jogadas de ataque no primeiro tempo e com um deslocamento por trás dos zagueiros, soube dar assistência para Pepê marcar o único gol da partida. Mais cedo já havia colocado de cabeça uma bola na trave. E ao longo do jogo, enquanto teve fôlego, disputou jogadas por todo o gramado. 

O sorriso ao fim da entrevista no intervalo da partida foi o que mais me chamou atenção: transmitiu a mensagem de que está feliz em campo, e tudo que precisamos é de jogadores com alegria para jogar. 

Assim como Churín, o Grêmio também volta a dar motivos para o torcedor sorrir. Porque, estamos chegando, nas Copas e no Campeonato Brasileiro.

Conte Sua História de São Paulo: a tinturaria da minha avó na rua Augusta

Por Rosângelo Callejo

Ouvinte da CBN

Assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Nasci no bairro da Vila Maria onde moro até hoje. Da minha infância, recordo com alegria dos passeios de fim de semana onde saíamos eu, meus irmãos e meus pais para visitar a rua Augusta. Era onde minha avó paterna morava. Ela mantinha uma tinturaria, a Gato Branco, onde meu pai também trabalhava .

Nossa aventura começava logo cedo pois tínhamos um longo trajeto pela frente. Pegávamos ônibus na avenida Guilherme Cotching até o Vale do Anhangabaú, gostávamos de dar uma passada pela galeria Prestes Maia. Era fantástico. Depois seguíamos de ônibus elétrico até a Augusta.

Nossa chegada era uma festa. Ficávamos encantados com tudo na tinturaria: os enormes tanques de lavagem de roupas; as mesas de passar com aqueles ferros pesados; tudo era novidade para mim e meus irmãos. 

Na sala da casa da minha avó, havia um telefone e nós adorávamos mexer naquele aparelho. Na cozinha, tinha um rádio enorme no qual ela ouvia suas novelas preferidas…. 

Da sacada da casa, ficávamos assistindo ao movimento da rua, os ônibus elétricos, os carros passando e as pessoas caminhando pela calçada.

A tarde, saíamos nós para passear pelas galerias —- que eram os shoppings daquela época —- com suas lojas elegantes. Lembro que havia escada rolante: era o máximo; subíamos e descíamos correndo. Nosso passeio se encerrava nos divertindo no Parque Trianon. 

No fim do dia fazíamos o caminho de volta para a Vila Maria. Exaustos e felizes, já ansiosos no aguardo do próximo fim de semana.

Assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Rosangela Callejo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também as suas lembranças e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o podcast do Conte Sua História de São Paulo.