Não nasci aqui, cheguei ao Brasil em 1939, no porto de Santos aos 2 anos, juntamente com minha mãe e minha irmã mais velha. Meu pai, Manuel Afonso era um português muito comunicativo e empreendedor. Ele já havia estado no Brasil em anos anteriores, veio trabalhar com seu irmão mais velho ainda na década de 20 e, acredito, vislumbrou São Paulo como uma cidade muito mais promissora do que a pequena Carapito, aldeia na região norte de Portugal onde nascemos.
Não lembro com exatidão das nossas primeiras moradias, mas tenho algumas recordações sobre o convívio com outros familiares (tios, tias, primos, quase todos portugueses). Minhas memórias são mais nítidas a partir do início da década de 40, período em que morávamos numa chácara rodeada por vastos morros — região hoje entre o Bosque da Saúde e o Jardim da Saúde — próximo à avenida do Cursino. Não tínhamos energia elétrica e a água era de poço. Nessa época, meu pai era leiteiro, tínhamos umas dez vacas; o leite era vendido nos bairros vizinhos.
Em 1943, aos sete anos, comecei a frequentar a escola, o grupo escolar Princesa Isabel, na Rua Ibirarema, bem em frente ao trecho em que havia um desvio dos trilhos do bonde da linha 30. Íamos a pé para a escola, eu e minha irmã 2 anos mais velha; tínhamos liberdade total em ir e voltar para casa sozinhos.
A maioria dos veículos de transportes na região eram carroças puxadas por burros e cavalos. Pouquíssimos veículos automotivos circulavam pelas ruas; era época da 2ª guerra e a gasolina não era tão fácil para se adquirir; as bicicletas também eram muito utilizadas como meio de transporte.
Nossa chácara era relativamente perto de uma grande mata que nós chamávamos de Mata do Governo, onde hoje é o Zoológico de São Paulo. Lembro-me muito bem da inauguração do Zoológico, em 1958. Era perto dali, na Avenida Miguel Estéfano, avenida movimentada por carros que iam sentido Anchieta, onde eu gostava de passear de bicicleta.
Mas a melhor recordação da minha infância é a do dia em que chegou o caminhão que meu pai comprou, importado dos Estados Unidos, no início da década de 50. Ele havia desistido das vacas leiteiras e passou a fazer transporte de mercadorias do porto de Santos para São Paulo. Foi uma alegria só quando vi chegar aquele caminhão novinho, um Chevrolet verde, modelo 1951. E como eu não era muito afeito à escola, decidi lançar-me a aventura de acompanhar meu pai nas viagens durante os anos de 1952 a 1953. Meu pai era semi-analfabeto e precisava de minha ajuda nas negociações que fazíamos para transportar as mercadoria pela recém-inaugurada Rodovia Anchieta.
Jacinto Afonso do Amaral Sobral é o personagem do Conte Sua História de São Paulo. Seu Jacinto escrevei este texto no início do ano. Em agosto, infelizmente nos deixou. Reproduzo essas lembranças a pedido da filha Renata Afonso Sobral que assim também faz uma homenagem em memória do pai. A sonorização é do Cláudio Antonio. Para ouvir outras história da nossa cidade visite meu blog miltonjung.com.br ou assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
“O franqueador que tampa os ouvidos para as contribuições dos franqueados, está fadado ao insucesso, está fadado a ter somente um pico de expansão e você vê aquilo depois desmoronando” — Júlio Monteiro, CEO da Megamatte
Julio Antonio Dias chegou de Portugal e foi morar com uma tia no Rio, nos anos de 1970. Tinha só 15 anos e passou a vender limão na feira. Criou uma casa de suco, virou sócio de quitanda, montou negócio em São Paulo e voltou ao Rio para inaugurar na Galeria Condor, no Largo do Machado a primeira loja da marca Megamatte, em 1994. Hoje, a rede de franquia está sob o comando do filho, o advogado Júlio Monteiro, responsável por cerca de 150 operações em diferentes cidades brasileiras.
Pai e filho jamais devem ter imaginado que um dia assistiriam a todas suas lojas interromperem suas atividades de uma hora para outra, resultado da pandemia que chegou ao Brasil, em Março. Medidas de emergência tiveram de ser adotadas, a troca de informações foi agilizada —- com a participação do CEO da franquia em conversas ao vivo pela internet —- e uma espécie de manual de salvação foi definido. No programa Mundo Corporativo, da CBN, Julio Monteiro falou de algumas das medidas adotadas para a rede de franquias se manter em pé, apesar da crise econômica e do medo que tomou conta de franqueados.
“No dia 20 de março, fiz uma live e chamei toda a rede de fornecedores, franqueados, esposas e falei o seguinte: essa é a nossa guerra, é a guerra do equilíbrio, vai ser menos um dia e a retomada começa hoje”
Além de filtrar informações que fossem relevantes ao negócio, evitando um turbilhão de mensagens desconectadas nem sempre fiéis à verdade, Monteiro disse que a Rede Megamatte se uniu aos franqueados para renegociar os contratos de locação que têm um peso importante nos custos e resultados econômicos das lojas.
“No franchising é preciso ter uma simbiose: franqueado, franqueadora, consumidores e fornecedores. É dessa forma que você mantém o equilíbrio e eu acho que essa estratégia funcionou muito bem nas franqueadoras e nesse momento de pandemia”.
A avaliação de Júlio Monteiro é que a rede reagiu dentro da expectativa que tinha quando traçou as estratégias no início desta crise. As lojas que fecharam o fizeram por problemas anteriores a pandemia, disse o CEO. Ainda segundo ele, nesse período alguns franqueados ampliaram suas participações na rede, fazendo com que hoje mais de 40% desses investidores tenham ao menos duas operações.
“Quando você tem esse envolvimento de operadores e investidores de sua marca, o propósito alinhado a cultura da empresa e uma segurança da franqueadora para esses investidores isso cria, sim, um apetite de investimento”
Com gestores de empresas sendo demitidos de suas funções e profissionais afastados de seus empregos, o mercado de franquias surge como uma oportunidade de negócios aos empreendedores. Perguntado por uma ouvinte do Mundo Corporativo se isto não pode levar aventureiros ao mercado, Monteiro responde:
“Eu gosto das pessoas que buscam por necessidade, porque você vai ter um perfil de pessoas que querem trabalhar. O franchising é um investimento mas também é um lugar de trabalho; você estar no segmento de varejo requer muito envolvimento e participação, é dali que você vai tirar o seu sustento”.
Quanto as pessoas que pensam se vale a pena empreender em franquia, neste momento, Monteiro acredita que sim, mas recomenda que a escolha não seja feita no calor da emoção: é preciso buscar informações completas, conversar com o franqueador e procurar os franqueados.
A entrevista completa com o CEO da Megamatte Julio Monteiro você assiste no vídeo acima ou pode baixar em seu podcast. O Mundo Corporativo é apresentado ao vivo, no Canal da CBN no You Tube, às quartas-feiras, 11 horas. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN. Colaboram com o Mundo Corporativo: Julian Prado, Jéssica Bernardo, Rafael Furugen e Priscila Gubiotti.
Se muita gente estagnou diante da pandemia, também é verdade que a situação de emergência e a necessidade de superar as restrições impostas pela Covid-19 acelerou inúmeros processos. Você deve ter percebido isso na sua dinâmica de trabalho, na relação com seus parceiros de negócio e mesmo no seu cotidiano em casa. Quanta gente que jamais havia se encorajado em comprar pela internet agora até esqueceu o caminho do shoppping?
No Mundo Corporativo, tenho entrevistado gestores e consultores dos diversos setores da economia que identificaram, por exemplo, que a transformação digital avançou “em cinco dias 50 semanas” — foi a expressão usada por Luiza Trajano, do Grupo Magazine Luiza. Hoje, no Jornal da CBN, percebi que o mesmo ocorre com a burocracia.
Por favor, ao ler a palavra burocracia não a receba de mal-grado: a burocracia é necessária para administração de empresas e realização de determinados trabalhos — sem essa, muitos dos processos se perderiam no tempo e no espaço.
De volta à minha percepção. Deu-se a partir da entrevista que a Marcella Lourenzetto e eu fizemos com o gerente-geral de medicamentos da Anvisa, Gustavo Mendes. A Anvisa é a agência de vigilância sanitária responsável por uma série de procedimentos que permitem a produção e a venda de remédios e afins, no Brasil. Sem o certificado da agência talvez você não tenha acesso àquela droga que pode salvar sua vida, que já está à venda lá nos Estados Unidos, por exemplo.
Diante da pressa que estamos —- necessária, diga-se —- por uma vacina que nos proteja do Sars-Cov-2, a Anvisa já havia publicado resolução, no inicio da pandemia, na qual a meta para análise de medicamentos que pudessem ser usados na defesa da saúde da população fosse de no máximo 60 dias. O procedimento legal em vigor dá a agência até um ano para que a resposta seja apresentada.
Agora, com o avanço das pesquisas em torno de uma vacina anti-Covid-19 e a urgência por uma solução, a Anvisa decidiu aceitar que a documentação científica, que comprove a eficiência de um medicamento, seja enviada mesmo que os testes não tenham sido concluídos. A ideia não é atropelar etapas; é aumentar a velocidade da análise, explicou o dirigente.
Antes a agência só recebia o pedido de análise dos laboratórios ao fim de todos os testes; agora, aceita receber os documentos preliminares para avaliar as informações e ter agilidade no instante em que a pesquisa estiver concluída. Decidiu abrir o guichê mais cedo para que os laboratórios entreguem seus trabalhos antes de concluídos.
Dois dias após o anúncio, o primeiro pedido foi protocolado pela AstraZeneca que trabalha em parceria com a Universidade de Oxford no desenvolvimento de uma das vacinas —- neste caso, testada aqui no Brasil sob os cuidados da Fiocruz. A Sinovac, que desenvolve a Coronavac, testada em São Paulo pelo Instituto Butantan, ainda não fez o pedido, mas já demonstrou interesse em encaminhar a documentação disponível.
“A gente colocou na resolução que foi publicada depois da situação de pandemia uma meta para nós de 60 dias; então já reduziu-se significativamente considerando um ano que é o prazo legal. Mas a gente acredita que com esse procedimento específico de submissão contÍnua a gente pode reduzir ainda mais esse tempo” — Gustavo Mendes, Anvisa
Isso significa que a vacina, seja ela qual for, já estará disponível no dia 15 de dezembro, como chegou a afirmar o governador de São Paulo, João Doria, entusiasmado em ganhar a corrida contra o Governo Federal? Não. Nenhuma garantia existe para que esse calendário político seja cumprido. Aliás, a maior aposta é de que não se terá a vacina para aplicar nos agentes de saúde antes de janeiro. A ver (e torcer para que os apostadores estejam enganados).
O importante e o que quero destacar aqui é a necessidade de aprendermos com o momento em que estamos vivendo. A Anvisa e sua burocracia se mobilizaram para acelerar processos sem abrir mão da segurança técnica e sanitária que necessitamos ter —- é o que diz. Segurança, qualidade e eficácia ainda são necessários se realmente queremos uma droga que salve vidas e não nos cause mais desafios. O mesmo ocorre em processos de outros aspectos da nossa vida. A velocidade não pode prejudicar o resultado.
Passada a pandemia, deve-se avaliar se aprendemos a fazer este trabalho com maior rapidez ou se só é possível fazê-lo em casos isolados. Há o risco de com o ritmo acelerado, estressarmos o sistema de análise e provocarmos falhas de avaliação em outras drogas. Por outro lado, podemos descobrir que não é necessário usar o prazo de um ano, previsto em lei, nos demais casos, certificando remédios e vacinas que podem salvar vidas de pessoas que, muitas vezes, têm de importar o produto ou trazê-lo como “contrabando” para o país porque a nossa burocracia —- aí sim com sua conotação negativa —- emperra o desenvolvimento.
“Branding não resiste se não estiver alinhado com a realidade demográfica da cidade” — Jaime Troiano
A pior cisa que uma marca pode fazer é não para fora e entender as características das pessoas a quem ela se dirige. Existem muitas lentes para serem usadas que permitem essa visão mais apurada, desde observações pessoas, orientadas por sensibilidade e atenção até pesquisas que se aprofundam nos hábitos, comportamentos e crenças de seus consumidores. Em Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Jaime Troiano e Cecília Russo destacaram um desses instrumentos que são os dados públicos e muito bem coletados do IBGE — o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
A título de exemplo, é possível identificar que entre 1970 e 2020, a participação de crianças abaixo de 12 anos no Estado de São Paulo caiu pela metade: eram 30% da população e hoje são 15%. Cenário semelhante ao que se encontra quando se calcula a taxa de fecundidade da população brasileira —- representada pelo número médio de filhos que as mulheres têm no período reprodutivo. Conforme o censo de 1970, esse índice era de 5,8 filhos por mulher, em média; em 2010, esse número despencou: 1,9 filho por mulher.
“Imagine como aumenta a concentração de renda familiar em torno de um número menor de crianças; assim, a variedade de coisas que uma criança passa a consumir é bem maior do que quanto a família tem vários filhos” —- Cecília Russo
Ficando apenas na questão de faixa etária, outro dado que se extrai das pesquisas do IBGE é que o número de pessoas com mais de 60 anos cresceu muito ao longo das décadas e a expectativa de vida, também:
“Por isso cresceram ofertas para a pessoas que estão na maturidade, serviços especiais e instituições que recebem pessoas com mais de 60 anos …. veja como a rede Prevent Senior surgiu e cresceu por se dedicar a esse público” — Jaime Troiano
Entender a demografia da região em que se atua é fundamental para a realização de uma estratégia eficiente de branding, concluem os dois comentaristas. O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN.
Foi um dia de festa, reminiscências, boas histórias e tropicões este 1º de outubro em que a rádio CBN completou 29 anos. No Jornal da CBN, tive a oportunidade de comandar duas mesas de conversa que reuniu, virtualmente, todos os nossos comentaristas das faixas das 7h e das 8 h da manhã.
Em Conversa de Primeira, o rádio foi o foco do nosso bate-papo com Pedro Doria, Marcelo Lins, Mário Sérgio Cortella, Walter Fanganiello Maierovitch e Artur Xexéo. Nessa roda, exceção a Doria e Lins, que chegaram mais recentemente ao programa, os outros três, quatro se eu me incluir, são velhos conhecidos do ouvinte.
O Xexéo começou no Liberdade de Expressão com Carlos Heitor Cony e apresentação de Heródoto Barbeiro; hoje faz a Crônica de Sexta, com olhar mais voltado à cultura, sem deixar de observar todo e qualquer outro tema que mexa com o cotidiano das pessoas.
O Cortella já se apresentou em diversos formatos e espaços da programação. Atualmente, temos o privilégio de contar com ele em duas versões: diariamente no Academia CBN e às quartas-feiras, no Meio do Caminho. Pessoalmente, tenho a lembrança de ter sido ele meu primeiro entrevistado, ao vivo, na TV Globo, quando chegava em São Paulo, em 1991.
Maierovitch esteve comigo na época em que apresentei o CBN SP e pela maneira como era capaz de traduzir o juridiquês foi ganhando espaço na programação. Na época do Mensalão e com as sessões do STF transmitidas ao vivo para o Brasil, fez inserções diárias no Jornal da CBN. Atualmente, é nosso colega no Justiça e Cidadania, às quintas-feiras ou a qualquer momento em edição extraordinária. Velho companheiro de guerra, nos conhecemos no Portal do Terra, onde dividíamos bancada do primeiro “telejornal” da internet brasileira.
Marcelo Lins e Pedro Doria, os mais novos, em tempo de casa, além de flamenguistas e cariocas, dão diversidade nos temas do Conversa de Primeira. Um com o olhar voltado para o mundo e o outro com a visão direcionada à tecnologia.
O resultado de nossa Conversa de Primeira de hoje, você ouve aqui:
Em tempo: os tropicões que me referi lá no alto do texto se devem as histórias que fomos levados a contar sobre gafes e falhas no nosso dia a dia, no Estúdio CBN, programa em que participei na tarde desta quinta-feira.
Manguezais correm risco; São Paulo, também – Foro JULIOCALMON/CBN
Os ambientalistas além de vivenciarem uma semana de luto pela liberação de áreas preservadas, através de quatro resoluções do Conama, órgão do Ministério do Meio Ambiente, estão assistindo ao triste espetáculo das justificativas.
Pelo menos ninguém pode alegar surpresa, pois o anúncio foi feito em Brasília naquela reunião em que o menos chocante foram os palavrões.
Também não se pode atribuir originalidade quanto ao desrespeito ao meio ambiente. Afinal, a degradação ambiental é um processo extenso e intenso que vem ganhando conotação política e principalmente econômica.
A cidade de São Paulo, por ocasião do dia da árvore, evidenciou as queimadas no Pantanal, na Amazônia e na Mata Atlântica com fantásticas imagens projetadas em edifícios na área urbana.
Atitude positiva que pecou por não enfatizar o quanto as árvores da cidade também são derrubadas por interesses econômicos.
A analogia entre as árvores da cidade e da Amazônia, por exemplo, desconsiderando o volume, é válida pela causa e efeito, ou seja, pelo interesse pecuniário e pela degradação. Além disso, enquanto Salles argumenta que as resoluções aprovadas modernizarão o sistema, na capital paulista o Zoneamento é colocado com o mesmo tom de modernidade, alegando que é uma leitura contemporânea para acompanhar o fato da cidade viva.
Não é preciso, portanto, ir à Amazônia ou ao Pantanal para identificar a agressão ao meio ambiente. Como sentenciou Nelson Rodrigues, basta observar o quarteirão onde você mora, para identificar todos os tipos humanos e a potencialidade e diversidade de relações entre si. O próprio Nelson era uma prova, pois sua primeira viagem ao exterior se deu quando já tinha se consagrado como jornalista. Dramaturgo retratando “a vida como ela é” não precisou sair de sua cidade para entender o ser humano nas emoções e motivações.
É intrigante e até assustador como se pode eliminar um ordenamento que preserva os mangues e aplicar uma fala justificando obsoletismo das normas vigentes.
Nesse caso, talvez haja necessidade realmente de sair do seu quarteirão e ir até um mangue para atestar a enorme quantidade de vida nessas áreas.
No contexto urbano, temos uma cinzenta cidade como São Paulo em termos de arborização, que só conseguiu manter uma área verde residencial em apenas 1% de sua área total.
O absurdo é que este 1% está permanentemente sendo vítima do setor imobiliário.
Por exemplo, inserida neste 1% está a região do Morumbi, cuja urbanização original obedeceu ao molde da Cia. City de Londres. A Av. Morumbi, guardando ainda várias áreas arborizadas, foi descaracterizada no recente Zoneamento realizado pelo Município, com aprovação da Câmara de Vereadores — atendendo à solicitação dos proprietários de terrenos, sob a alegação que não havia demanda. A avenida ficou cadastrada como ZCOR 3, isto é, corredor comercial.
Hoje, diante do Palácio dos Bandeirantes, ainda preservado, resta apenas a Fundação Oscar Americano. O terreno ao lado, ex-Pignatari, teve 70% da arborização derrubada. A uma quadra do Palácio foram cortadas aproximadamente 100 árvores.
À essa devastação autoral não precisou de índios nem caboclos desconhecidos. Os beneficiários têm seus nomes expostos em placas. E sem vergonha.
Carlos Magno Gibrail é consultor, autor do livro “Arquitetura do Varejo”, mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.
A festa de Rodrigues na foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA
A notícia de que Geromel e Kannemann foram abatidos pela Covid-19 ecoou nas arquibancadas vazias da Arena do Grêmio e fez correr um frio na espinha do torcedor, momentos antes de a partida pela Libertadores se iniciar. Nós sabemos o que essa dupla representa no futebol sul-americano — no do Sul, então, nem se fala. Tricolores, incrédulos e crentes, olharam para o céu a se perguntar: o que acontece com o meu time? Os resultados não saem como gostaríamos (sim, nesta hora ninguém, lembra da vitória no Gre-nal), o futebol não rola a bola com o talento que conhecemos, jogadores importantes se lesionam e quando mais precisamos da nossa dupla imbatível vem esta peste fazer com nossos zagueiros o que os adversários não foram capazes.
Renato —- que conhece o grupo como ninguém —- apostou na dupla Rodrigues e David Braz para substituir os insubstituíveis. Braz é experiente, conhece os atalhos no campo, e leva o jogo na conversa. Apesar de nem sempre estar no lugar que gostaríamos quando a bola é cruzada na nossa área, gosto de vê-lo comemorando com os punhos cerrados sempre que a despacha para longe de nosso gol. Rodrigues é uma incógnita. Ou era. Foi elevado ao time titular em maio do ano passado, no Campeonato Brasileiro, em situação de emergência. Recomendação que ouviu do técnico: joga simples.
Há duas semanas, Rodrigues e Braz tinham feito uma atuação desastrada na derrota para o Universidad Católica, em Santiago do Chile. Braz saiu jogando no lugar de Kannemann e foi expulso; Rodrigues substituiu Geromel, que se lesionou durante a partida, e os dois gols do adversário passaram por ele. Assim que a escalação foi confirmada com a dupla de zagueiros, tive a impressão de ter visto os corneteiros de plantão afinarem seus instrumentos, prontos para fazê-los soar alto e forte.
Foi nesse clima que entramos na Arena para a partida decisiva na temporada —- isso mesmo, da temporada, não apenas na Libertadores. Nossos jogadores davam sinais de que desconfiavam de sua força e revelavam o sofrimento pela pressão dos desempenhos anteriores. Por mais que o DJ elevasse o som da torcida, a bola queimava no pé de cada um deles. Quando era cruzada na nossa área, contávamos mais com a sorte do que com o juízo.
Antes de o intervalo chegar, equilibramos o jogo; mas foi no vestiário que Renato ajustou as peças e convenceu a equipe de que em campo a nossa imortalidade tem de falar mais alto. Em dois minutos uma movimentação pela direita de Orejuela, Alisson e Robinho fez a bola chegar pelo alto para Diego Souza desviar e deixar Pepê em condições de marcar. Gol de Pepê, o Menino Maluquinho do Grêmio.
Maluquice mesmo foi o que vimos mais à frente.
O zagueiro que estreou no Grêmio com a recomendação ‘faça simples’ desembestou e complicou a vida do adversário. Na primeira arrancada, ergueu a cabeça, passou para Pepê e foi completar a jogada dentro da área — o goleiro defendeu. Na segunda, aos 17 minutos do segundo tempo, novamente foi ele quem levou o time ao contra-ataque, passou para Alisson, que deu uma meia-lua de cinema no defensor e entregou de bandeja para o nosso zagueiro concluir em gol. Gol de Rodrigues, o Tonhão do Grêmio.
Antônio Josenildo Rodrigues de Oliveira nasceu em Arez, no Rio Grande do Norte. Grandalhão, logo ganhou o apelido de todos os Antônios de estatura alta: Tonhão. E como Tonhão chegou ao Grêmio, em 2017, disposto a escrever sua própria história. Para escapar do estigma de zagueiro grosso e sem talento, assumiu o sobrenome da mãe e deu uma incrementada: incluiu o Z no final de Rodriguez, quase tão espanhol quanto Kannemann, apesar de ser fã mesmo de Geromel.
Da mesma forma que buscava o melhor nome para ser considerado, se esforçava em campo para se manter entre os profissionais. Desde que estreou sempre foi visto com ressalvas pelo torcedor. Tinha muito mais cara de Tonhão do que de Rodrigues —- já com o S recuperado em mais uma tentativa de ser protagonista em campo.
A poucos dias de completar 23 anos —- nasceu em 10 de outubro de 1997 —, Tonhão, ou melhor Rodriguez, digo Rodrigues, colocou o seu nome na privilegiada lista de jogadores que marcaram gols em Libertadores com a camisa do Grêmio — e sem medo do azar, vestindo a camisa 13 (da qual sou um admirador em particular).
Foi o primeiro dele desde que chegou aos profissionais. E não poderia ter sido mais importante. Porque o gol de Tonhão, ops, Rodrigues, colocou o Grêmio na próxima fase da Libertadores tanto quanto mostrou a resiliência de Renato e sua equipe. Um grupo capaz de superar as adversidades, driblar seus limites, aguentar firme as cornetas e se mostrar forte no momento em que mais precisamos na competição.
A redução das taxas de mortalidade em todo o mundo tem promovido um aumento da expectativa de vida, resultando no crescimento da população idosa. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2000 a população idosa com mais de 60 anos era de 14,5 milhões de pessoas. Atualmente, esse número passa dos 29 milhões com projeções de que em 2050 tenhamos uma população de 50 milhões de idosos em nosso país.
O envelhecimento, apesar de ser muito associado ao conceito de perdas físicas ou deterioração do corpo, compreende um processo singular, heterogêneo e influenciado por aspectos socioculturais, cujas definições foram sendo modificadas ao longo da história da humanidade.
Nas sociedades antigas os idosos eram valorizados, por conta de sua experiência, auxiliando os mais jovens em suas atividades diárias e transmitindo seus conhecimentos adquiridos no transcorrer da vida. Na Grécia, o envelhecimento era compreendido a partir da classe social pertencente. Os idosos da elite tinham o poder político, econômico e cultural e eram reconhecidos como sábios. Por sua vez, os idosos que pertenciam às classe sociais inferiores representavam a invalidez, a doença e a morte. Na sociedade romana os idosos detinham uma posição privilegiada, dotados de autoridade, o que geralmente provocava conflitos com as gerações mais novas.
Na Idade Média, atingir a longevidade era algo raro e a velhice era compreendida como a fase na qual o indivíduo não era mais capaz de trabalhar. No renascimento houve uma valorização da juventude e da beleza.
No fim do século XVIII, com a industrialização e o surgimento do capitalismo, o poder econômico se centralizou nas pessoas mais jovens e os idosos, por sua vez, passaram a ser vistos como mendigos, em virtude da dificuldade de conseguir um emprego. Isso favoreceu uma associação da velhice com a incapacidade física, acentuando a perda da importância social do idoso, que ficou marginalizado na sociedade.
No século XX, novas regras de aposentadoria e pensões reduziram a associação da velhice com a incapacidade de produzir, uma vez que todas as pessoas, a partir de uma determinada idade, foram dispensadas da necessidade de trabalhar.
Novas mudanças aconteceram e ao fim do século XX o idoso recebeu maior atenção da indústria do consumo, englobando também o lazer e o turismo. A busca por um modelo de envelhecimento ideal, fez surgir o conceito de “melhor idade” vinculado à ideia de se ter um envelhecimento saudável, no qual se manteria a autonomia, a liberdade, a tomada de decisão e comportamentos capazes de preservar a saúde.
Ser idoso e estar na “melhor idade” passou a exigir um repertório de atitudes que contemplassem a capacidade de manter-se fisicamente ativo, ter uma alimentação saudável, fazer treinos cognitivos para exercitar o cérebro, controlar os sinais de envelhecimento físico, como a utilização de cosméticos ou cirurgias estéticas.
Se houve um tempo no qual à margem da sociedade estavam aqueles que não eram produtivos, a culpabilização passou a recair sobre os idosos que não adotassem o estilo de vida capaz de “retardar” a velhice e suas consequências. Numa sociedade marcada pelo consumo e pela negação das situações mais incômodas, como adoecimento ou morte, deixar a vida seguir seu ritmo passou a soar como passividade, beirando a irresponsabilidade.
Isso não significa que não se possa construir um envelhecimento mais saudável e com qualidade de vida. Pelo contrário, há muito a ser feito. Mas esse processo dever começar muito antes do envelhecimento.
Diversos estudos apontam que envelhecer de forma saudável envolve fatores genéticos e uma série de comportamentos adotados ao longo da vida, como controle da pressão arterial, dos níveis de açúcar no sangue, evitar o tabagismo e o etilismo, manter uma prática regular de atividades físicas e intelectuais.
Atualmente, diversas pesquisas procuram compreender a importância da reserva cognitiva no processo de envelhecimento, como um fator de proteção para o cérebro. Reserva cognitiva compreende a capacidade de ativação das redes neuronais em resposta às diversas atividades realizadas. Essas atividades intelectuais desenvolvidas durante a vida, como leitura, cálculos matemáticos e aprendizagem de idiomas, aumentam a reserva cognitiva e, de certo modo, permitem que tais competências cognitivas se mantenham em idades mais tardias, minimizando as manifestações clínicas de doenças neurodegenerativas, como as demências. Além das atividades intelectuais, atividades físicas, sociais e de lazer também estão envolvidas na construção da reserva cognitiva.
Apesar desses fatores de proteção, a velhice trará consigo as perdas funcionais e estas serão progressivas. Portanto, as atitudes adotadas para uma vida equilibrada e saudável não devem ser concebidas como uma batalha contra o envelhecimento, mas como facilitadoras para que essa fase se desenvolva de maneira tão natural quanto nascer e crescer, de modo ativo e com propósitos.
Envelhecer de forma saudável não é sinônimo de juventude. Envelhecer saudável é envelhecer com dignidade, com políticas públicas que se preocupam com a população desde idades mais precoces, favorecendo medidas que promovam a saúde física e mental, que garantam a escolaridade, ocupação e renda aos cidadãos. É a promoção de atenção, cuidado e proteção à população idosa de maneira acessível a todos e não um privilégio de poucos.
Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung
Pra que você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, não tire conclusões precipitadas. Eu, assim como toda a torcida gremista, não ficamos satisfeito com o desempenho do time no Mineirão —- nem Renato e seus jogadores ficaram, é claro. Jogamos contra o líder, não por acaso o único dos primeiros colocados dedicado apenas ao Brasileiro, que conta com um jogador iluminado, e cometemos falhas que, se evitadas, poderiam ter tornado a disputa mais equilibrada, mesmo levando em consideração que o jogo do sábado à noite foi jogado entre duas decisões importantes da Libertadores —- a primeira, já ganhamos, na quarta-feira e você sabe de quem.
Dito isso, vamos ao tema principal desta Avalanche.
As cornetas enrustidas que estavam enfiadas no saco desde quarta à noite não precisaram mais de 10 minutos de jogo para soarem forte na janelas das redes sociais.
A primeira vítima: Paulo Victor —- goleiro que com resiliência e humildade suporta a reserva de um time que já comandou por temporadas e pelo qual conquistou títulos com defesas importantes. Tem consciência de que não fez um bom último ano e Vanderlei merece ser o titular. Foi colocado em campo, ontem, tendo a sua frente uma zaga reserva e sem a mesma qualidade daquela que admiramos com Geromel e Kannemann — que, convenhamos, facilita a vida de qualquer goleiro.
Com pouco tempo de jogo, Paulo Victor assistiu a três de seus colegas cercarem o goleador do adversário pegar a bola, se livrar da marcação e chutar com força no gol — ninguém foi capaz de travar aquele chute. Ainda evitou que a bola chegasse às redes com uma defesa que, se não fosse atrás da linha do gol, como se confirmou em seguida, era merecedora de aplausos.
Bastaram as cornetas tocarem nas redes sociais para meus colegas jornalistas esportivos começarem a repercutir e especular erros que, claramente, não ocorreram por parte do nosso goleiro. Aliás, justiça seja feita, todos os comentaristas, na emissora em que assisti ao jogo, foram afirmativos ao dar mérito para Keno e eximir Paulo Victor de responsabilidade.
Não adiantou: as cornetas seguiram em busca de um bode expiatório. E a televisão seguiu a dar voz aos insensatos como se a voz do povo fosse realmente a voz de Deus —- confesso: o velho ditado não se faz mais presente na minha biblioteca. Tive a impressão de que a insistência das críticas levou alguns dos comentaristas a ficarem mais reticentes quanto a Paulo Victor.
Mal iniciado o segundo tempo, o mesmo Keno fez 2 a 0 em uma bola que desviou na defesa e saiu do alcance goleiro. As cornetas soaram ainda mais alto e se voltaram para a lateral do gramado: a culpa é de Renato. Uma das mensagens reproduzidas na transmissão foi de alguém que identificou o que fazia diferença no placar: de um lado um time bem treinado e de outro um time que não sabia o que fazer em campo, comandado por um incapaz. Fora Renato! (se há um mérito nos corneteiros é que eles não desistem nunca).
Que o adversário estava e está jogando um futebol mais bem qualificado do que o nosso, é inegável. Seu treinador tem talento, algumas das peças de seu time são especiais, Keno está vivendo momento que sequer ele acredita e o time tem condições plenas de se preparar durante toda a semana para o adversário seguinte — não precisa poupar gente extasiada e lesionada e recorrer a reservas. Sequer Copa do Brasil tem para jogar, pois foi desclassificado lá no início. Nada disso é levado em consideração.
Ninguém foi capaz de ponderar que no meio da semana, o “time mal treinado” de Renato ganhou do seu principal adversário com uma apresentação de excelência, marcando forte e jogando bonito quando a bola era trocada de pé em pé.
Ninguém foi capaz de lembrar que aquele time do meio da semana passada —- com alguns reforços — terá de voltar ao gramado já na terça-feira pela Libertadores em jogo que se for vencido e dependendo a combinação de resultado garantirá com antecipação vaga à próxima fase da competição (curioso em saber onde os corneteiros irão enfiar o instrumento se isso ocorrer).
Ninguém foi capaz de lembrar que este é um ano atípico na preparação dos clubes devido a interrupção da temporada e uma retomada titubeante dos campeonatos, com jogadores expostos a riscos e um esforço descomunal para dar conta do recado de mais de uma competição ao mesmo tempo.
Exigir coerência de torcedores, me parece ilusão. Querer calar cornetas, é calar uma instituição do futebol. Renato e o time sabem disso. O que poderíamos fazer apenas é contrapor com fatos e opinião equilibrada essas reações insanas em lugar de termos medo de corneteiros de rede social e queremos navegar na onda populista (putz, bem que essa última frase caberia em um outro texto na editoria de política, não?).