Conte Sua História de São Paulo: tudo bem ficar de pijama

Lidia Amorim

Ouvinte da CBN

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Nasci em São Paulo, na infância fui para o interior e adulta retornei para estudar e trabalhar. Casei, fui mãe e para encurtar distâncias entre casa, creche e trabalho voltei ao interior. Fui viver em São Carlos.

Por um ano estive em uma indústria nada adaptada ao teletrabalho, que nos foi imposto pela pandemia. A jornada nos últimos meses estava exaustiva, com mais de dez horas de trabalho e reuniões atrás de reuniões. Foi então que resolvi arriscar, para manter a sanidade mental e encontrar conforto na vida pessoal. 

O ‘tiro no escuro’ foi certeiro. Encontrei na nova empresa um ambiente mais progressista e trabalhar em casa virou um conforto. Além de jornada mais flexível deparei com gestores confiantes, que entendem que a produtividade está estritamente relacionada ao bem estar social. 

Com duas semanas de empresa, ainda em período de experiência, descobriram o meu hobbie e me incentivaram a escrever um texto para o evento virtual de fim de ano da diretoria, com cerca de 200 pessoas assistindo online. 

Foi quando escrevi algo como: 

“A vida parecia bem mais simples quando não exigia longas presenças com nós mesmos ou com as pessoas de nossa casa ..

“Alguns especialistas insistem em nos ensinar a simular no trabalho remoto o mesmo comportamento de trabalhar em escritório. Se arrumar, se isolar em um cômodo da casa, comer comidas saudáveis, se exercitar, alongar…”

“E para as pessoas reais? Como a gente! Que precisa cozinhar o próprio almoço; que sente falta de conversar e rir com os colegas”  

“O padrão deveria ser feito para quem não é sempre perfeito; que precisar retomar a concentração mil vezes por dia, na casa barulhenta; que dá o seu melhor mesmo nas quedas do sinal da internet ou da falta de energia”

“Tudo bem ficar de pijama! Estamos todos na mesma, tentando sobreviver a um período fora do contexto. E são as pessoas de verdade que fazem do negócio, extraordinário; feito para servir gente”

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Lídia Amorim é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung@cbn.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Pequena correção, sem pretensão

Outras …

Dia desses ouvi o repórter do rádio dizer que somente algumas doenças eram aceitas por um órgão público para justificar a ausência na prova: “Covid-19, influenza, meningite e outras”. Como “outras” não é uma doença, soou-me estranha a presença dela na frase. Parecia ser apenas a reprodução de um texto burocrático escrito pela assessoria do órgão público —- se não o for, me desculpe a assessoria. Vamos concordar que o “outras” está sobrando na frase, fica feio e não informa. Uma pequena correção de rumo resolveria: “somente algumas doenças são aceitas para justificar a ausência, como Covid-19, influenza e meningite. A lista completa de doenças, você encontra no site ….”

Veio a óbito

A senhora, que não tem nome, porque nem sempre nos importamos com isso (ou o nome não é divulgado), não apenas foi vítima da Covid-19 como deu o azar de ser contaminada pela nova variante do novo coronavírus — e já que insistimos com essa denominação, apesar de a pandemia ter completado um ano, talvez fosse o caso de chamá-la de novíssimo coronavírus. Infelizmente, a senhora morreu. E ao ter a morte noticiada, foi vítima de outro mal que contamina as redações: a língua complicada. O repórter, não contente com toda tragédia, substituiu o simples e significativo “morreu” por um pernóstico “veio a óbito”. Se ainda fosse “foi a óbito”, vá la. Mas “veio a óbito”, sai pra lá, urubu!

Ninguém mais compra

Nessa crise econômica que enfrentamos ninguém mais compra nada, só adquiri. É o que se ouve nas notícias de rádio e TV. É o que se lê nos jornais e na internet. Quanto maior a importância da compra, mais o verbo adquirir é conjugado no noticiário. Governos, que usam nosso dinheiro, nunca compram nada, só adquirem: de latas de leite condensado a vacinas (estas bem menos do que aquelas). Hoje, até as famílias — sempre que citadas como instituição — são contempladas com o verbo adquirir, como se isso valorizasse o ato de comprar ou o texto jornalístico. Nem uma coisa nem outra.

Pra não cair nessas esparrelas, na hora de noticiar basta pensar o seguinte, como eu falaria para minha vovozinha.

Se você me permitir, aqui vão três sugestões para quem pretende escrever bem, simplificar a mensagem e evitar erros:

Sábio Chico: só queremos “uma ofegante epidemia que se chamava Carnaval”

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Imagem de JL G por Pixabay

“E um dia, afinal

Tinham direito a uma alegria fugaz

Uma ofegante epidemia

Que se chamava carnaval

O carnaval, o carnaval”

Chico Buarque

Confesso que nunca fui das maiores folionas de Carnaval, mas admirava aqueles dias de festa, as pessoas nas ruas, a explosão de sons e cores. 

Esse ano nosso Carnaval está diferente, como todas as demais festas que foram canceladas por conta da pandemia. A maior manifestação cultural brasileira foi silenciada.

O Carnaval no Brasil teve início no período colonial, como uma brincadeira popular praticada pelos escravos, alguns dias antes da Quaresma, na qual as pessoas saiam às ruas e jogavam umas nas outras líquidos que poderiam ser desde água, café ou até mesmo urina.

No século XIX, houve uma campanha para reprimir essa brincadeira ao mesmo tempo em que surgiam os bailes em clubes e teatros criados pela elite do Império. Apesar disso, as camadas mais populares não desistiam das comemorações de Carnaval e criaram os cordões. Ainda no século XIX, surgiram as marchinhas de Carnaval. No século XX, o frevo, o maracatu, as escolas de samba, os trios elétricos… o Carnaval continuou fazendo história. Se tornou uma das peças da formação da identidade e símbolos do nosso povo.

Retratado em poesias e canções, o Carnaval serviu de inspiração para muitos artistas, com seus ideais de liberdade, de sonhos, de fantasias e do saudosismo trazido com a Quarta-Feira de Cinzas, anunciando o fim da festa.

Exatamente na Quarta-Feira de Cinzas, algumas religiões cristãs iniciam a Quaresma, momento dedicado ao recolhimento e à penitência.

Das inversões produzidas pela pandemia, temos um Carnaval com privações, distanciamento e silêncio. 

Quiçá isso seja capaz de reduzir as contaminações e, com as vacinas em curso, possamos logo nos livrar desse mal que nos atinge.

Me sinto como aqueles foliões que na Quarta-Feira de Cinzas ficavam sonhando com o próximo Carnaval. Não porque eu esteja desejando tal data, mas porque vislumbro o momento no qual poderemos sair às ruas, cantar, dançar e nos abraçar como fazíamos em outros carnavais. Parafraseando Chico Buarque, a única epidemia que queremos agora é de uma alegria contagiante: “Vai passar!”.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

AvalancheTricolor: o WhatsApp do Diego Souza

Grêmio 1×2 São Paulo

Brasileiro — Arena Grêmio

Diego Souza comemora seu 28º gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Eita aninho mala esse que não termina! A gente está encerrando a primeira quinzena de fevereiro de 2021 e 2020 ainda não foi embora. Sem contar este Carnaval sem graça. Que me perdoem os caros e ainda mais raros leitores foliões desta Avalanche: essa história de festa em laive —- como escreve meu cronista Artur Xexeo —- é pra folião dormir, né. Vestir uma fantasia, levantar o som do notebook, jogar confete, gliter e serpentina para o alto e dar seus pulinhos na sala de casa, é muito sem graça. Não que eu seja desses que curte ir para a avenida, desfilar no bloquinho ou assistir à desfile na televisão. Mas gosto de saber que as pessoas reservam essa data para extrapolar e se divertir. E fico triste ao ver que a turma este ano teve de conter a folia.

No futebol, a coisa também não está das melhores. Exceção àquele campeonato estadual lá no início de 2020, o resto foi uma sequência de frustrações. Até vimos momentos de esperança, mas a frequência com que empatamos ou desperdiçamos pontos nos fez patinar no Campeonato Brasileiro e nos eliminou na Libertadores. Que a Copa do Brasil reverta essa expectativa!

Das pouca diversões que o futebol me ofereceu neste ano interminável, foi saber que o filho do meu querido amigo Luiz Gustavo Medina é fã de Diego Souza —- vista qual camisa esteja vestindo. Foi daí que surgiu minha ideia: a cada gol marcado por nosso atacante, fotografo a comemoração da tela da TV e envio a imagem pelo WhatsApp para o Teco. Até esta noite, foram 28 fotos enviadas —- poucos centroavantes seriam capazes de me proporcionar tantas imagens em um só ano. Pena que não basta um Diego Souza no time para resolver todos os nossos problemas. E ainda bem que o Teco se conteve e não me retribuiu com uma foto do Luciano.

Mundo Corporativo: Andreia Roma, da Leader, explica como o RH se transformou de uma sala escura a setor estratégico

“Os RHs tiveram de transformar o seu 2020 olhando para eles, olhando para dentro de si e se transformando em profissionais mais humanos dentro do contexto RH”

Andreia Roma, CEO da Editora Leader

O setor de recursos humanos por muito tempo era a sala escura que ninguém queria entrar. Essa imagem mudou ao longo dos últimos 20 anos e, hoje, o RH é estratégico dentro das empresas. Uma transformação protagonizada por mulheres que encontraram nessa área o espaço para influenciar nos rumos das organizações. É assim que Andreia Roma, CEO da Editora Leader, enxerga a influência feminina no segmento que sempre foi o responsável por cuidar das pessoas. Andreia é coordenadora, ao lado de Tania Moura, do livro “Mulheres do RH — o poder feminino na gestão de pessoas”.

Em entrevista ao programa Mundo Corporativo, Andreia explica que o livro reúne a história de 31 mulheres que atuam com recursos humanos e a linha mestra que uniu esses textos foi a ideia de que por mais simples que possam parecer suas histórias, o fato de relatarem a experiência desenvolvida vai inspirar as mais jovens a seguir carreira neste setor.

“Elas conseguem conectar aprendizados, erros e acertos, ou seja, o que precisa ser mudado, o que precisa ser ajustado, tanto no quesito pessoal, como no profissional”

Essas mulheres do RH também têm papel significativo no combate à discriminação de gênero, destaca Andreia:

 Eu acho que não é parar e olhar para discriminação; é realmente ressignificar e falar o que é que eu vou fazer com este aprendizado; o que é que eu vou ensinar para jovens que vão vir através deste aprendizado; então a gente precisa começar a ensinar e aprender até mesmo com este momento difícil que existe dentro das organizações, relacionados à discriminação.

De acordo com a editora, um dos desafios enfrentados pelas empresas e as profissionais de RH, durante a pandemia, foi o distanciamento das equipes de trabalho e a realidade de cada uma dessas profissionais que tiveram de cuidar de gente das suas empresas sem se descuidar de suas famílias. A ideia de deixar a empresa fora do trabalho perde o sentido no instante em que muitos de nós tivemos de levar o trabalho para dentro da família, diante das restrições sanitárias que impactaram o mundo inteiro:

“A pandemia tem nos ensinado a pegar todos nossos certificados e colocá-los  no bolso. O RH começou a olhar para outros setores, entender que uma empresa é a união de muitas pessoas.”

Para Andreia Roma a crise provocada pelo coronavírus tornou as realizações ainda mais incertas, mas serviu para influenciar o comportamento dos profissionais desta área nas empresas:

“Esse futuro incerto pode trazer o olhar de muitas mulheres, trazendo este lado humanizado de profissionais que entenderam que ser o RH estratégico, hoje, nas organizações, passou a ser humano.”.

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, no site, no perfil do Facebook e no canal da CBN no Youtube. O programa vai ao ar no Jornal da CBN, às 8h10 da manhã ou ais domingos. às 10 da noite, em horário alternativo. Colaboraram como programa Juliana Prado, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves

Conte Sua História de SP: fui a louca dos cursos

Jovanka de Genova

Ouvinte da CBN

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Resolvi fazer parte da população que aceita a ciência e aderi a quarentena. Foi fácil? Claro que não. Não tem romance nesse processo. Dias intermináveis, de luto — luto de uma vida que parece que nunca mais será igual. O jeito foi pensar em caminhos possíveis dentro de casa… construí minha carreira a partir de uma premissa: estudar é sempre a melhor opção e, nesse norte, fiz um direcionamento bem óbvio no meu caso: estudar seria minha boia salvadora nessa pandemia. E foi.

Sou profissional da área de comunicação empresarial e educação, meu mestrado, que encerrei em janeiro de 2020, tem como tema central: Afetividade na Educação a Distância. Muita gente duvida que isso seja possível. Criar relações? Construir vínculos? No digital? Eu também tinha dúvidas e preconceitos. 

Antes de seguir minha história: não vou dizer que foi um processos fácil e para todos, não. Infelizmente, foi para a minoria. A educação na pandemia ficou muito a desejar para a maior parte dos brasileiros.

No meu caso, foi a oportunidade de alinhar meu objeto de estudo com a prática, e entender como as emoções fazem diferença na educação, principalmente em 2020. Eu não escondo que fiquei mais carente; sozinha fisicamente; e abri meu coração para todo e qualquer tipo de apoio, mesmo digital.

Fui a louca dos cursos. Conclui ao menos cinco. O mais importa foi o da diversidade nas organizações — tema que junto à pandemia esteve no noticiário com casos de racismo, assédio sexual, moral e discriminação de gênero. Meu curso foi todo digital. Mais de 100 participantes. E criamos uma rede de apoio pelo WhatsApp que acolheu pessoas de todos o país que se sentem seguras para dividir angústias, desafios, tristezas, alegrias … todos os tipos de sentimentos e emoções. Nunca nos vimos, fomos unidos por uma causa, por uma postura responsável e o compromisso em tornar o ambiente corporativo em lugares melhores para receber diferentes raças, gêneros, orientação sexual e pessoas com deficiência. Praticamos a escuta e a troca, sem julgamentos e expectativas. Colocamos na prática a afetividade no mundo digital, com a criação de vínculos e o exercício do relacionamento saudável e construtivo.  

Também organizei o iEduque, um coletivo afetivo para a discussão, formação e acolhimento de profissionais de educação.Nasceu na pandemia com o propósito de colaborar com professores nesse período de exceção. Somos três profissionais que idealizamos um projeto todo através do digital. Experiência possíveis em uma cidade como São Paulo. Sei que falar de cidade, de um lugar físico, fica até meio sem sentido, mas, mesmo no digital, São Paulo une as pessoas e possibilita encontros incríveis e potentes.

E eu descobri que, sim, existe amor no mundo digital.

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Jovanka Mariana de Genova é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para  contesuahitoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

De gatos, gafes e gafanhotos

A imagem de um advogado com cara de gato participando de sessão virtual em um tribunal do Texas circula na velocidade da internet e leva as pessoas às gargalhadas, onde quer que esteja sendo assistida. O caso —- vou repetir por praxe jornalística já que todos vocês, caros e raros leitores deste blog, devem ter visto o vídeo — teve como protagonista Rod Ponton que apareceu conversando com os colegas e o juiz tendo em lugar de seu rosto o avatar de um gato de pêlo branco e olho azul. O juiz bem que tentou avisá-lo, mas era tarde e enquanto buscava entender o que acontecia, saiu-se com um “estou aqui ao vivo, não sou um gato”. Ufa, devem ter respirado aliviado os coadjuvantes da cena. 

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Vídeo gravado, divulgado e viralizado —- está na hora de eliminarmos esta expressão diante de tudo que o vírus corona tem nos proporcionado —-, vieram as explicações. Na  plataforma Zoom para reuniões virtuais é possível usar filtros que cobrem a sua face mantendo as expressões dos olhos e o movimento da boca. —- uma forma de se divertir nos encontros com os amigos. Ponton alegou que usava o equipamento de uma assistente e para surpresa dele o filtro foi ativado, causando o constrangimento e a frase esclarecedora.

Estas assistente, viu! Servem sempre de desculpas para as nossas gafes.

Fui vítima de uma delas —- no papel de coadjuvante, é verdade. Em 2003, apresentava o Jornal do Terra, o primeiro ‘telejornal’ na internet. Entrevistava o procurador geral do Estado de Roraima, Darlan Airton Dias. Era coisa séria. O Ministério Público havia deflagrado a Operação ‘Praga do Egito’ que logo ganhou o apelido de ‘Gafanhoto’. 85 denúncias, 52 processos abertos e a família do governador  Neudo Campos envolvida até os bolsos —- naquele momento a mulher dele era alvo de investigação. Por ser governador, a operação lhe preservava até então. E por ironia, perguntei ao procurador se havia alguma possibilidade de toda a família estar envolvida e o governador não saber de nada. A resposta veio em forma de gargalhada com trejeitos de galanteio e seguida por um suspiro acompanhado do nome de uma mulher: “ahhhhh, Luciana!!!”.

Fiquei sem jeito apesar de logo perceber que havia uma linha cruzada. A entrevista se encerrou e a desculpa é que alguém na procuradoria, inadvertidamente, apertou o botão errado do PABX e levou em ‘rede mundial de computadores’  —- era assim que a gente chamava naquela época —- parte da sua conversa com uma das assistentes. O resultado da paquera, não quis saber. De minha parte, guardei o vídeo por curiosidade. Já o ex-governador Neudo Campos esteve preso até pouco tempo e foi libertado depois de o ministro do STF Gilmar Mendes reconsiderar a decisão que ele próprio havia tomado em favor da prisão do Rei dos Gafanhotos.

Bebida alcóolica não é terapia

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

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A pandemia de COVID-19 exigiu mudanças no padrão de hábitos e comportamentos apresentados em todas as esferas da vida cotidiana. Exemplos disso são as reuniões de trabalho que trocaram os escritórios pelas plataformas digitais; os shows que saíram das casas de espetáculo e foram para as redes sociais; e o consumo de bebidas alcoólicas, que aumentou significativamente e migrou dos espaços públicos para o ambiente doméstico.

Dados da indústria de bebidas alcoólicas indicam um aumento de 25,4% na venda de cervejas no terceiro trimestre de 2020. Esse aumento também foi identificado na comercialização de bebidas alcoólicas pela internet, cujos dados apontam um aumento de 195% nas vendas entre março e outubro de 2020 em relação ao mesmo período do ano anterior. 

Um estudo realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) corrobora esses dados e indica que 18% dos participantes relataram um aumento no consumo de álcool durante a pandemia, relacionado especialmente às mudanças no estado de ânimo, como o aumento de sentimentos de tristeza. 

Apesar desse padrão observado mais recentemente, relatos apontam que o consumo de bebida alcoólica está presente desde tempos remotos, tanto em sociedades primitivas como industrializadas. 

As bebidas fermentadas se originaram na Índia, difundindo-se para o Oriente Médio, a Grécia e o Egito e, posteriormente, para a civilização mediterrânea, chegando ao Império Romano. Inicialmente a bebida limitava-se ao uso doméstico, porém, por exigências comerciais, passou a ser negociada em forma de troca. 

Derivada da cultura de arroz na Índia e da cevada no Egito, a cerveja foi a primeira bebida alcoólica produzida em grande escala. 

No Brasil, antes da colonização portuguesa, a bebida fermentada utilizada pelos indígenas era extraída da mandioca ou de suco de frutas, como caju ou milho, que eram mastigados, misturados, colocados para ferver em vasilhas cerâmicas e, em seguida, enterrados para fermentar por alguns dias. 

Com a colonização, foram instalados os engenhos de cana-de-açúcar no Nordeste, Rio de Janeiro e São Paulo, que serviam também para a produção de aguardente, possibilitando que os trabalhadores dos latifúndios se embriagassem. 

No cenário internacional, uma mudança significativa no consumo de bebidas alcoólicas ocorreu com a Revolução Industrial, uma vez que o aumento da produção reduziu os preços e aumentou a oferta, tornando-as mais acessíveis.

 Se por um lado o consumo de bebidas alcoólicas não é um fato novo, o aumento nesse consumo tem se tornado um dos maiores problemas de saúde pública da atualidade, com impactos econômicos e sociais, sendo responsável por 10 a 50% das admissões hospitalares, grande parcela de contribuição em acidentes automobilísticos, homicídios, agressão sexual, violência familiar, abuso infantil, problemas ocupacionais e educacionais.

Em baixas doses, o álcool pode promover relaxamento, porém, o uso durante a pandemia, como forma de reduzir a tensão e a tristeza, podem aumentar os sintomas de ansiedade e depressão, promovendo um círculo vicioso. Além disso, o uso frequente pode aumentar os riscos de desenvolvimento da dependência e de outros problemas de saúde, como o aumento da pressão arterial.

Outro fator que deve ser considerado em tempos de pandemia é o aumento do risco de contaminação, uma vez que a pessoa alcoolizada tende a diminuir as medidas de proteção recomendadas contra o vírus.

O álcool carrega em si essa característica paradoxal: por um lado traz relaxamento a curto prazo; por outro, está envolvido em situações de violência e agressão e em casos de doença, como o próprio alcoolismo e aumento do risco de contaminação pelo coronavírus.

Essa linha divisória entre o consumo moderado e os transtornos relacionados ao uso do álcool nem sempre é tão nítida.

Se o consumo da bebida alcoólica é percebido como uma válvula de escape e está associado a relaxar e esquecer os problemas, isso pode ser um enorme sinal de alerta. Nesse caso, o consumo exagerado deve ser avaliado não apenas pela quantidade e frequência, mas também pelos prejuízos que o álcool possa trazer para si e para quem está à sua volta.

Bebida alcoólica não é remédio. Bebida alcoólica não é terapia. Realizar atividades físicas e de lazer podem contribuir de maneira significativa para aliviar o estresse. Medidas de prevenção e tratamento em saúde mental são mais eficazes e duradouras aos efeitos psicológicos causados pela pandemia. 

Além disso, passado o efeito do álcool os problemas ainda existirão e, mais do que isso, o álcool pode potencializá-los. E, vamos combinar, de problemas e pandemia já estamos fartos! 

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Avalanche Tricolor: xô, zica!

Botafogo 2×5 Grêmio

Brasileiro – Nilton Santos, RJ/RJ

Matheus comemora o 5º gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Fizemos 5 gols. Tomamos 2. Fizemos de bola tocada, de bola colocada e de falta cobrada. Teve gol de Churín. Gol de pênalti. Gol de Jean Pyerre. De falta. Teve o primeiro do Alisson. E os dois últimos do Matheus Henrique. Do último, tiro inspiração para esta crônica. 

Já com a braçadeira de capitão —- legado de Maicon que havia saído mais cedo —-, nosso camisa 7 marcou o quarto gol gremista depois de uma assistência de Isaque, aos 27 do segundo tempo. Da entrada da área e com a defesa no meio do caminho, encontrou um espaço para colocar a bola com classe na rede adversária. Foi um gol importante porque pouco antes havíamos levado o primeiro e, apesar de ainda estar 3 a 1, a saga de empates que marcou nossa jornada na temporada voltava a fazer sombra.

Se no primeiro que fez a comemoração foi tímida, no segundo, Matheus revelou o peso que estava sobre os seus ombros —— o mesmo que pesa nos ombros de toda a equipe. Aos 32, após mais uma assistência de Isaque, desta vez de calcanhar, Matheus entrou na área conduzindo a bola até encontrar o gol. Na festa, fez aquele movimento com as mãos sobre o próprio corpo que, em bom português, significa: “xô, zica!”

Zica tem diversos significados aqui no Brasil.

É nome do vírus que nos assustou anos antes da Covid-19. É como, em alguns estados, descrevemos jovens descolados, com estilo próprio, que têm a capacidade de fazer coisas que fogem do nosso comum. Matheusinho —- é assim que locutores de futebol gostam de chamá-lo para revelarem uma intimidade inexistente —- pode ser considerado um moleque zica ou um guri zica, apesar de a gíria não ser própria do Rio Grande. Naquele momento do gol, do seu segundo gol, a zica que Matheus queria afastar nem era uma nem era outra. Era a zica que vem acompanhada pelo azar, pelos lances de infortúnios, pelo tanto de coisa ruim que se acumula em um determinado momento de nossa vida.

O quinto gol gremista definiu o placar e encerrou uma interminável trajetória sem vitórias neste ano de 2021. Já passava de um mês desde a última conquista, em 6 de janeiro. De lá para cá, além de resultados doloridos e pênaltis esquisitos, tivemos um amontoado de empates que nos fizeram patinar na subida ao topo da tabela do Brasileiro, momentos depois de uma arrancada que chegou a nos dar alguma esperança.

A despeito da capacidade do adversário,  tão abatido quanto rebaixado, que os gols de Alisson, de Jean Pyerre, de Churín, de Matheus Henrique, de pênalti, de falta, de bola passada e bola colocada, nesta noite de segunda-feira, sejam os gols que nos livraram da zika que carregamos nesta ano e marquem a virada de expectativas para as três rodadas finais do Brasileiro —- que ainda podem nos devolver, pela porta da frente, a Libertadores —- e nas duas partidas finais da Copa do Brasil.

Xô, Zica!

Volta às aulas na pandemia: meu medo é o dia em que o gato fugir

Foto do site CBN de Denny Cesare / Código 19 / Agência O Globo

Ao longo da vida, em São Paulo, minha casa foi visitada duas vezes por assaltantes. Em uma a visita foi consumada e na outra, ficou apenas na tentativa. A experiência nos levou a adotar cuidados que não tomávamos. Os portões da frente agora são vazados —- há uma teoria de que bandidos sentem-se menos à vontade para trabalhar quando quem passa do lado de fora enxerga o que acontece dentro; a máquina do portão automático é mais veloz para reduzir o risco de surpresas quando se manobra o carro; os acessos à casa são redundantes —- ou seja, há necessidade de passar por ao menos duas barreiras antes de chegar onde querem; câmeras e alarmes estão instalados em posições estratégicas. Na busca por mais tranquilidade … ops, tranquilo nunca é … por mais segurança, certifica-se de quem bate à porta antes de abri-la, bate-papo na calçada nem pensar e é redobrada a atenção no entra e sai de pessoas —- momento de maior fragilidade diante de assaltantes de ocasião.

As medidas que tomamos aumentaram a segurança, sem eliminar o perigo — esse nos ronda a todo momento quando vivemos em sociedade. O problema é que no cotidiano, há outras coisas a se pensar e as medidas preventivas acabam sendo deixadas em segundo plano se não entrarem na rotina residencial. Dia desses levei um puxão de orelha do meu filho mais novo. E o problema não era nem o perigo que poderia vir de fora, mas os gatos que podiam fugir de dentro. Como estava sendo realizado trabalho de manutenção na minha casa, e insistíamos em deixar a porta da cozinha aberta, ele lembrou que um dos nossos gatos —- mais serelepe e curioso com a vida —- poderia sair para a parte externa e escapar para a rua. Diante do descaso, ele mesmo fez dois cartazes com o anúncio: “deixar esta porta fechada sempre”. Colou do lado de dentro e do lado de fora. A medida nos ajudou a ficarmos atentos. Nas duas primeiras semanas. Hoje mesmo, fui até a cozinha, saí, voltei e deixei a porta aberta, apesar de o cartaz estar à mostra de todos. O gato já estava na garagem.

Perdo-e se preenchi dois parágrafos para contar coisas caseiras, da minha intimidade familiar, talvez de pouca importância para você, caro e raro leitor deste blog. Se as conto, porém, é por um bom motivo. E interesse público. É para ilustrar o que penso sobre os riscos aos quais estamos submetidos neste momento em que há quem aposte que não virá uma segunda onda da pandemia da Covid-19, mas uma segunda epidemia com um variante do que um dia chamamos de ‘novo coronavírus’. Tenho dúvidas se hoje, quando mais de 231 mil pessoas morreram no Brasil e voltamos a marca de ao menos mil mortos por dia, mantemos metade da rotina que criamos no início desta jornada. Lembra que lá atrás, havia uma série de regras para impedir que qualquer coisa que entrasse na nossa casa —- a começar por pessoas —- nos colocasse em contato com o vírus? Comida lavada com álcool-gel, pacotes tocados com luvas, tapete antibacteriano, sapato e roupas deixadas em um saco plástico … No comércio, o moço na entrada apontava uma pistola para medir sua temperatura, a cada passo havia um frasco para limpar a mão e o controle de acesso era rígido. O frasco agora está vazio, a máquina de vaporizar não tem manutenção e a pistola —- que parece não servia para nada mesmo — está abandonada no escaninho de algum gerente da loja. 

O risco de baixarmos a guarda assim como muitos baixam a máscara para o queixo aumenta no momento em que assistimos ao retorno das aulas nas escolas. Permita-me não entrar na discussão se o momento da volta é esse ou não —- se você quiser análise mais bem argumentada no assunto leia gente como a professora Cláudia Costin e o jornalista Antônio Gois. Nesses dias em que tudo é novidade, após tantos meses distantes dos colegas e professores, toda medida possível é adotada. Os avisos de atenção estão pendurados pelos cantos da escola, as marcas pintadas no piso para evitar aglomeração, as classes separadas para respeitar o distanciamento, proteção de acrílico impede o contato dos mais distraídos e os protocolos de comportamento são lembrados a todo momento. Tem mais álcool-gel na garrafinha do que água nos banheiros. Cada aluno leva o seu. E as recomendações dos pais são acompanhadas com atenção pelos filhos. Meu foco não é com o que vai acontecer agora, mas daqui duas, três, quatros semanas. Quando estar na sala de aula não será mais novidade, os protocolos terem entrado para o rol das coisas corriqueiras e as distrações do cotidiano se sobrepuserem as preocupações. 

Meu medo, confesso, é com o dia em que o gato fugir.