Premissas do passado norteiam o novo Plano Diretor

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

14609762030_a6f5994f17_z

 

Tomando a mobilidade como uma das metas principais a serem alcançadas, autores e apoiadores do Plano Diretor têm usado argumentos fora de conexão com a atualidade.

 

Uma das premissas é que o Plano possibilitará a criação de moradias e empregos dentro do mesmo bairro, evitando que os moradores cruzem a cidade para ir de casa ao trabalho. Por isso será permitido o adensamento residencial e comercial. Ora, hoje as pessoas mudam de emprego várias vezes no transcurso de seu período de trabalho, e continuam no mesmo endereço.

 

A outra premissa é que os corredores comerciais propostos ajudarão na diminuição da mobilidade, pois fornecerão produtos aos moradores da região, evitando que se desloquem para fazer compras. Sem contudo interferir na qualidade da região. Premissa tão falsa quanto a primeira, pois está baseada no passado. Hoje, o pequeno varejo de cadernetas de fiado, deu lugar a formatos que irão perturbar as características ambientais, além de não se sustentarem com a clientela de vizinhança. Haja vista, que serão permitidas operações de 500 a 1000m2 de área.
Ao mesmo tempo em que o Plano Diretor considerou o passado para justificar a melhoria da mobilidade, desrespeitou o passado das zonas de preservação, colocando nelas novos corredores comerciais. Estas, embora pequenas em proporção ao tamanho da cidade, pois apenas ocupam 3,8% do território de 1500km2, serão totalmente descaracterizadas. Terão redução na importante função de equilíbrio ecológico que prestam a São Paulo.

 

Uma simples examinada no mapa proposto dá a dimensão do estrago que os corredores comerciais farão dentro destas áreas preservadas. Em avenidas onde hoje estão localizadas parcialmente áreas comerciais, o Plano abre corredor comercial em toda a extensão. Em outras ruas estritamente residenciais, o Plano permitirá comércio total. Um ataque tão intenso que precisará de “Super-heróis”. Neste caso, urbanistas de méritos.

 

Por ordem alfabética: Cândido Malta, Heitor Marzagão, Ivan Maglio, Lucila Lacreta, Luiz Carlos Costa, Regina Monteiro, Sergio Reze.

 


Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Conte Sua História de SP – 461 anos: quando os engenheiros chegaram para construir o Minhocão

 

Por Deborah Pereira

 

 

Em 1965, minha família se mudou para a Rua Albuquerque Lins no trecho entre a Praça Marechal Deodoro e a Brigadeiro Galvão. O bairro era ótimo, tranquilo e residencial. A rua era de paralelepípedos e andávamos de bicicleta com tranquilidade até a praça.

 

De repente começaram a aparecer uns engenheiros da prefeitura, mediam aqui, ali e só diziam que haveria uma obra enorme que mudaria o bairro. São Paulo não podia parar e isso, na época, era sinal de progresso, valorização dos imóveis e crescimento econômico. Nada foi perguntado ou informado aos moradores.

 

Depois dos engenheiros chegaram os trabalhadores e o minhocão começou a subir. E foi rápido. Se me lembro bem, coisa de um ano. Na véspera da inauguração deixaram as bicicletas curiosas subirem sob os olhares surpresos dos adultos.

 

Nossa que obra! Isso sim é um país que cresce!

 

E cresceu, e se tornou um problema para os vizinhos que moravam em frente e que aos poucos foram se mudando. A rua foi se deteriorando, meu pai foi transferido para uma cidade do interior e nós também partimos.

 

A vida me trouxe para morar na Rua Albuquerque Lins de novo, agora entre a Alameda Barros e a Rua Baronesa de Itú e daqui observo agora o destino que se quer dar ao elevado Presidente Costa e Silva.

 

Do meu modesto ponto de vista, ele deve ser demolido e o seu entorno recuperado. O sol deve voltar a iluminar a praça Marechal para que as crianças possam voltar a andar de bicicleta.
 

 

Deborah Pereira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar a sua história da nossa cidade, escrevendo para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo – 461 anos: da Serra Pelada ao Jardim Filhos da Terra

 

Por Clair Ramalho

 

 

Quando era pequena, ouvia dos velhos moradores algumas passagens históricas da conquista desse morro. No meu imaginário infantil, essas passagens eram tão fantásticas que me pareciam verdadeiras epopeias. Então, com o passar do tempo, eu quis recontar o que ouvi.

 

O pessoal daqui é gente simples! A riqueza está em nossa origem e em quem somos.

 

Construímos um patrimônio no alto do morro, carpindo o mato, limpando o terreno, martelando pregos em madeiras, colocando telhas de barro sobre a estrutura de paus, formando barracos.

 

Cada morador, ainda que não fosse muito escolarizado, escreveu a história desse lugar através da oralidade. Uma multiplicidade vozes sob uma arquitetura improvisada, no subir e descer das ladeiras, escadarias e becos.

 

Minha mãe também me contava, que o Jardim Filhos da Terra* (bairro localizado na região do Jaçanã, Zona Norte de São Paulo), a Serra Pelada, como ficou conhecido após a limpeza do mato, surgiu em um movimento de ocupação. Esse movimento foi iniciado pela igreja local na metade da década de 80, após a construção de um barraco à margem do córrego, abaixo da serra, para uma moça chamada Maria, vinda do nordeste com três filhos pequenos sem um lugar para moradia.

 

A notícia desse fato se espalhou rapidamente e trouxe inúmeras Marias e Josés, com histórias parecidas. Então, a igreja liderou a busca de terra e moradia.
Um terreno foi encontrado, estava desocupado e sem uso, no topo do morro íngreme e sinuoso. A estratégia de abrigar quase mil famílias foi desenha em cartolinas brancas que receberam grafites e riscos com a divisão do terreno para cada família. Tudo estava organizado.

 

Há 30 anos, no cair da noite, a ladeira foi tomada por um longo tapete de pessoas. Era quase cinco mil! Estavam com tochas, foices, martelos e enxadas as mãos. Mulheres grávidas e crianças à frente do grupo, formando um cordão, para repreender confronto policial, caso houvesse. O restante do grupo viera depois. Os policiais não usaram seus revólveres, e nem a multidão usou suas foices. A ocupação foi pacífica, com reza, com canto e com a lua testemunhando essa chegada.

 

A Pracinha, lugar que preserva o verde de nossa origem, foi o primeiro lugar a ser ocupado. Depois formaram ruas estreitas, ao lado, barracos de madeira ligeiramente construídos. Surgiu a periferia! A informalidade urbana na metrópole paulistana. Nasceram os “Filhos da Terra”.

 

O tempo trouxe a evolução de nossas casas. Agora tijolo, cimento e laje.

 

O bairro foi edificado e vive nas lembranças doces dos antigos moradores que viveram essa conquista. E, hoje, a história perpetua em suas vozes, nas vozes de seus filhos e nas de tantas outras crianças, que assim como eu cresceram e continuam contando, aqui, no alto do morro.

 

Clair Ramalho é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua história da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br

A Boa Mentira: para quando quiser pensar além do seu umbigo

 


Por Biba Mello

 


FILME DA SEMANA:

“The Good Lie”
Um filme de Phillipe Falardeau.
Gênero: Drama
País:USA

 

 

Uma aldeia no Sudão é atacada por guerrilheiros e apenas algumas crianças sobrevivem. Elas caminham por um longo período até chegar em um acampamanto das Nações Unidas. Uma missão humanitária as levam, após muitos anos, para viver em solo americano.

 

Por que ver: É um filme baseado em relatos verídicos, a história é tocante e profunda. A atriz Reese Whitherspoon fica em segundo plano como coadjuvante e nos ajuda a entender que somos todos iguais; e assim nos leva a pensar um pouco além do conforto de nossa vida urbana. Em uma frase que chega a ser engraçada pela ingenuidade e ignorância de um dos personagens, ele questiona a um criador de gado lá no EUA: “devo me previnir contra algum animal perigoso?- criador – qual animal? E o rapaz responde – Leão”.

 

Como ver: Sempre que quiser sair de algum momento “raso”de sua existência e pensar além do seu próprio umbigo.

 

Quando não ver: Se você estiver em um momento “curtir a vida”…Vai quebrar o clima te botando rapidinho com os pés no chão.

 


Biba Mello, diretora de cinema, blogger e apaixonada por assuntos femininos.

Venha declarar sua paixão por São Paulo, neste sábado, na CBN

 

5390270278_3c1bc4a4d3_z

 

Se você é apaixonado por São Paulo já está convidado a participar do programa CBN SP – especial, em homenagem aos 461 anos da cidade, que será apresentado, neste sábado, dia 24 de janeiro, a partir das 10 da manhã, no Pateo do Collegio. O Thiago Barbosa e eu estaremos recebendo convidados da área cultural, artística, esportiva e ambiental que falarão sobre suas experiências na capital paulista e as ações que desenvolvem para ajudar a cidade a crescer e melhorar a qualidade de vida.

 

Os ouvintes também terão espaço para declarar seu amor pela cidade. Desde às 9n horas da manhã, a CBN terá locais abertos para que o cidadão paulistano grave uma mensagem para São Paulo. Esses depoimentos serão publicados no site da rádio CBN para você compartilhar com os seus amigos nas redes sociais.

 

Participarão das conversas no palco central, do Pateo do Collegio, Andre Sturm, diretor do Museu da Imagem e do Som e responsável pela reabertura do Cine Belas Artes; Eduardo Kobra, artista plástico, criador de vários painéis de grafite da cidade, alguns representando uma São Paulo do início do século XX; Stela Goldenstein, ambientalista, diretora da ONG Águas Claras do Rio Pinheiros; e os comentaristas da CBN Juca Kfouri e Gilberto Dimenstein. Durante todo o programa vamos ouvir a música de Negra Li que estará ao vivo também declarando a sua paixão por São Paulo.

 

Ouça aqui a chamada para a festa da CBN:

 

Pena de morte nivela o Estado ao criminoso, diz filósofo Renato Janine Ribeiro

 

pena_de_morte_capa

 

O Brasil é pioneiro na abolição da pena de morte, apesar de a Constituição Federal ainda prever essa punição em caso de crimes cometidos em tempo de guerra. A mesma Constituição impede a pena capital em qualquer outra situação ao tratá-la como cláusula pétrea – e aí virá o constituinte a discutir se estas têm sentido. Quem sou eu para me meter com os especialistas? Deixo a discussão jurídica aos estudiosos da lei.

 

Dos tempos em que vigorou no Brasil, a pena morte cabia apenas aos escravos. Gente rica, por mais bárbaro que fossem os crimes cometidos, jamais seria enforcada. Exceção feita ao fazendeiro Manoel da Motta Coqueiro, acusado de matar família de colonos, na metade do século 19. Foi condenado e morto. Justiça? Não, vingança. Em entrevista à BBC Brasil, o jornalista Carlos Marchi, autor do livro “A Fera de Macabu”, disse que Coqueiro tinha inimigos políticos na região, que exerciam influência na política, no judiciário e também na imprensa. Mais tarde surgiram indícios de sua inocência. Como escrevi: era tarde.

 

Com a Proclamação da República – e sem escravos para punir – veio o fim da pena de morte, que voltaria a ser prevista no Regime Militar, no código escrito pelos milicos em 1969. Ainda bem, jamais levada a cabo.

 

O fuzilamento do traficante brasileiro Marco Archer na Indonesia trouxe a discussão de volta e as diferenças ficaram evidentes nos debates públicos proporcionados pela internet. Texto que escrevi no fim de semana, originalmente no Blog do Milton Jung, me aproximou de muitas opiniões e revelou personalidades. Nem todas com argumentos muito firmes, mas sempre determinadas: a favor ou contra. No que escrevi, parece-me, não ficou dúvida: sou contra a pena de morte. Quanto aos argumentos que usei, julgue você mesmo.

 

Volto ao assunto, hoje, porque entrevistei, sobre o tema, no Jornal da CBN, o filósofo Renato Janine Ribeiro que definiu a defesa da pena de morte como “a solução para os ignorantes”. Para ele, boa parte da argumentação dos que se dizem a favor da punição está construída sobre o ódio e não se sustenta. Não que o pensamento do respeitado filósofo precise do meu respaldo, mas sempre disse que toda sociedade que age com ódio, erra. Não devemos ser movidos pela vingança, apenas pelo desejo de justiça.

 

“A ideia de matar pessoas quais quer que sejam os crimes é uma ideia fácil de vender para um público assustado pelo aumento da criminalidade”, disse Janine, ao comentar a política de combate ao tráfico de drogas, promessa de campanha eleitoral, do presidente da Indonésia, que fez até um plano de metas: cinco execuções por mês. Está cumprindo. Janine mostra que a pena de morte não tem qualquer influência nos índices de violência. Nem para o bem nem para o mal. Além disso, impõe duas situações dramáticas: a impossibilidade de corrigir um erro judiciário e o nivelamento do Estado ao criminoso. Considera ser esta uma saída simplista com a qual se deixa de discutir a violência e a criminalidade dos pontos de vista da miséria social, da ética e da moral:”para problemas difíceis sempre se tem uma solução fácil e errada”.

 

Ouça aqui a entrevista completa do filósofo Roberto Janine Ribeiro, ao Jornal da CBN

Conte Sua História de São Paulo – 461 anos: meus passeios na Galeria do Rock e o cheiro do churrasquinho grego

 


Por Rogério Loro

 


 


Quando meus pais disseram que mudaríamos para a cidade de São Paulo, eu sabia que muita coisa seria diferente na minha vida. Imagina o que seria para um garoto de 14 anos que nasceu e viveu em uma cidade do interior, se mudar para a capital.

 


Nossa nova casa ficava em uma rua sem saída no bairro da Vila Formosa, bairro que tratei logo de explorar com minha bicicleta. Pedalando em meio ao trânsito local, pude conhecer lugares como o Mercado Municipal, o CERET, a Praça Sampaio Vidal e a Praça Silvio Romero.

 


Fui estudar na escola SENAI na Rua Anhaia no bairro do Bom Retiro e para chegar até lá utilizava o Metrô saindo da Estação Tatuapé, passando pela Sé até a Luz, mas na volta dava preferência ao trem que saia da Estação Brás, pois ele era mais barato que o Metrô e o dinheiro economizado, eu juntava com o que meu pai me dava, para comprar meus discos e camisetas na Galeria do Rock no centro, lugar que conheci com meus amigos de escola.

 


O centro de São Paulo era um paraíso para nós, lá ficavam além da Galeria, a maioria dos cinemas, lojas de troca de discos e livros e componentes eletrônicos. Ruas como a Barão de Itapetininga, 7 de Abril, Santa Ifigênia e a Praça da República, faziam parte do nosso roteiro particular em busca de novidades e claro, dos inesquecíveis carrinhos de Churrasco Grego com suco grátis, que alimentavam toda a molecada com um precinho bem camarada. As recomendações de meus pais eram sempre as mesmas: “-Tome cuidado nas ruas, pois é muito perigoso andar pela cidade e não fique comendo bobagens por aí”. Ah, nossos pais sempre exageram, a cidade nem era tão perigosa e os lanches e as esfihas da Rua Mauá nem eram tão porcaria assim. No Vale do Anhangabaú, eu e meu pai pegávamos os ônibus da CMTC em direção ao Morumbi para assistirmos aos clássicos do Timão, ou quando os jogos eram no Pacaembú íamos caminhando da Praça Marechal Deodoro até o estádio, e sempre tive a impressão que as caminhadas eram sempre mais curtas do que nossas conversas.

 


Passei minha adolescência e me tornei um adulto, casei e constitui família sempre aproveitando todas as inúmeras oportunidades que a cidade oferece, cheguei a retornar para Jundiaí minha são cidade natal, mas acabei voltando para São Paulo atraído pelas inevitáveis oportunidades profissionais que ela oferece.

 


Hoje sigo minha vida ainda pedalando pela cidade, em meio a um trânsito muito pior do que na década de 80, a Galeria do Rock hoje parece ter muito mais jovens fantasiados de roqueiros do que aquela molecada da época com correntes de xaxim das samambaias da mãe penduradas no cós da calça, o centro da cidade me parece mesmo perigoso como os meus pais diziam, para ir aos jogos do Corinthians não preciso mais ir ao Vale do Anhangabaú, apenas caminho até o Itaquerão que fica próximo da minha casa, agora sem a companhia e as conversas com meu pai. Os lanches de Churrasco Grego?

 


Alguns ainda estão pelo centro da cidade, me falta agora coragem para comê-los.

 


Rogério Loro é personagem do Conte Sua Historia de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua história da nossa cidade, escreva para milton@cbn.com.br

Sinto tristeza e pena da morte de Marco Archer

 

marco-archer-cardoso-moreira-size-598

 

Neste sábado, senti tristeza alheia. Sentimento estranho porque não deveria nos pertencer. A tragédia não é minha, está distante da minha família e ocorre com pessoa de quem tenho quase nenhuma referência. Sei tanto quanto você sabe, assistindo ao noticiário. A tristeza que me tocou foi pelo fuzilamento de Marco Archer, condenado a pena máxima por tentar entrar na Indonésia com 13 quilos de cocaína escondidos em uma asa delta. Ele estava há 11 anos na prisão e havia completado 53 de vida, pouco mais do que eu, o que me faz acreditar teria muitos outros pela frente, não fosse o erro grave que cometeu. A vida se foi diante de um pelotão de 12 soldados que portavam rifles, sendo que apenas três deles realmente tinham balas de verdade para matar.

 

Todos sabemos que Archer cometeu um crime e tinha consciência do risco que corria ao aceitar a oferta que, segundo ele, o ajudaria a pagar dívida hospitalar que contraiu após tratamento por acidente sofrido. Percorreu o caminho mais perigoso, talvez por estar acostumado com as coisas aqui no Brasil, onde a impunidade é a regra. Tudo conspirou contra a vida de Archer, a começar por seu próprio ato. Além de ser flagrado pelos agentes de segurança no Aeroporto de Jacarta – por onde imagino passem outros tantos sem serem importunados -, ainda se deparou com um presidente que acaba de se eleger com a promessa de ser implacável com os criminosos condenados à morte por tráfico de drogas. Assassinar Archer e mais 63 traficantes que já tiveram pena decidida foi promessa de campanha. E lá parece que eles cumprem com suas promessas, mesmo que sejam bárbaras. Mesmo que incompetentes para dar uma solução às drogas.

 

Sei, também, que o consumo de drogas tem causado danos profundos a pessoas doentes e suas famílias. Um parente viciado faz com que a doença se espalhe como metástase, contamina a todos, quando não os mata. Provoca sentimentos dúbios de compaixão e ódio. Põe em dúvida nossas convicções de respeito à vida. E nos faz sofrer mais ainda quando a morte do viciado traz alívio em lugar que deveria ser destinado à tristeza. Sim, as drogas nos matam. Mas isto não me faz desejar a morte de ninguém.

 

A imagem de Archer, com cara de bonachão, olhar assustado e voz arrependida apareceu com frequência nas nossas casas nesses últimos dias com o aprofundamento da cobertura jornalística. Está na cara que ele não produz, não comercializa e não mata para manter a enorme rede criminosa que atua no tráfico de drogas. Está distante dos que ocupam o topo desta hierarquia. Era uma mula, como muitos desses desgraçados que são presos em aeroportos brasileiros levando droga pra lá e pra cá. Archer era mais um desgraçado consciente do que fazia, é verdade; querendo tirar proveito da oportunidade oferecida, sem dúvida; mas muito longe de ser merecedor da morte nestas circunstâncias. Lembrar do olhar dele voltado para a câmera, como se estivesse pedindo ajuda para alguém, me provocou tristeza.

 

E mais tristeza senti ao me deparar com gente que não acredita na força do ser humano e na sua recuperação. Pior, gente incapaz de perceber a desproporcionalidade da pena diante do crime cometido. Ou muito pior, gente que mesmo diante de uma tragédia humana como a do fuzilamento de Archer, encontra espaço para partidarizar o debate. Gente sem alma, gente desgraçada essa por quem sinto tristeza. E tenho pena, mas não de morte!

Conte Sua História de SP: os doces que eu ajudava fazer e o sabor do troco no bolso

 

Por Ricardo Aleixo

 

 

Desde muito cedo descobri que vivia em uma cidade que aceitava gente de todo o mundo como iguais. Uma família imigrante havia se mudado para próximo de nossa casa num Brooklin ainda cheio de mato e cavas (espécie de lagoa restante da exploração de areia). Imediatamente minha família fez amizade com o Sr. Carlos (seu nome não era esse pois ele era alemão de nascimento), sua esposa Dona Margarida (seu nome não era esse pois ela Grega), a Iaiá (a Mãe de Dna.Margarida) e a Helena (nome verdadeiro pois era brasileira). Como não tinham mais familiares por aqui, acabamos por ter boa amizade, afinal nossa família tinha italiano e espanhol do lado de meu pai e português e baiano por parte de minha mãe.

 

No fim do ano, muitos dias eram gastos em produzir quitutes conforme as tradições das duas famílias. Reunidas, punham-se na cozinha as mulheres a fazer doces (a culinária grega tem absoluta semelhança com a árabe, afinal se misturam em Istambul), charutinhos recheados, panetones (tinha sem frutas para me alegrar pois não gostava das frutas cítricas) e muitas outras coisas. Lembro disso não porque ajudasse muito na cozinha, com minha pouca idade mais atrapalharia se tentasse.

 

Mas alguns dois ou três doces dependiam totalmente da minha participação.

 

Com pouco mais de nove anos, eu era o encarregado de ir pegar a encomenda daquele tipo de macarrãozinho que é comum em alguns doces que hoje vemos nas casas de comida árabe. Ia de ônibus até o centro. Tinha aprendido o caminho no ano anterior com a Margarida e precisava andar uma meia hora para lá chegar. O fornecedor ficava num tipo de sobreloja na Rua 25 de Março, que eu acessava subindo uma longa escada com dois patamares até chegar lá em cima. Lá encontrava o homem que fazia a tal massa. Numas mesas enormes (maiores ainda para uma criança de nove anos) ele as fazia com um tipo de chuveiro de balde sobre umas folhas de papel manteiga. Embrulhava-os e eu pagava e descia aquela baita escada com um embrulho enorme nos braços. Não caí nunca nem sei por conta de quem, deve ser do tal Alá do turco que fazia a massa.

 

Na rua, fazer um taxi entender que um garoto daquele tamanho queria fazer uma corrida era outra dificuldade, mas sempre tinha alguém que me ajudava. Era uma cidade de gente cordial e educada. Rapidamente ia de volta para casa com a massa no banco de trás do taxi todo feliz por ter conseguido realizar minha missão. O rapidamente demorava praticamente uma hora, não por trânsito, mas as avenidas Tiradentes, Nove de Julho e Santo Amaro eram na verdade umas ruas comuns com mão dupla e razoavelmente cheias de carros e ônibus.

 

Lembro docemente agora desses tempos, pois fico até admirado em como, numa São Paulo já populosa, no inicio dos anos 60, uma criança como eu tinha a liberdade de ir ao centro da cidade para pagar as contas da família o que me dava experiência suficiente para ir retirar a encomenda da tal massa.

 

No início dos meses minha mãe separava o dinheiro necessário para cada conta e juntava-o, embrulhava-o e fazia uns macinhos para os pagamentos correspondentes. Eu pegava um ônibus no Brooklin, e lá ia para o ponto final embaixo do viaduto do Chá. Macinhos na mão. Contas & dinheiro. Nunca fui roubado.

 

Subia a escadaria e dava rapidamente no prédio da Light (esquina da Xavier de Toledo com o Viaduto do chá – hoje há um shopping por lá) e nele pagava a conta de luz. Pronto, um maço a menos e uma conta paga no bolso.

 

Atravessava a Xavier, e entrada no Mappin, bem em frente. Sempre tinha algum carnê relativo às de compras que  nem se lembrava mais relativas a que. Pronto, depois do homem do elevador avisar: “crediário, roupas de cama, mesa e banho)” saía do elevador e depois de uma filhinha, que não demorava tanto ,mais um maço pago.

 

Agora era ir ao DAE (Departamento de Águas e Esgotos do Estado). Esse ficava bem mais longe, o que era muito bom pois podia passear pela cidade. Por cima do Viaduto do Chá pegava a Rua São Bento que parte da Praça do Patriarca e ia em direção ao Largo São Francisco. Ali minha mãe tinha me mostrado a Igreja e pouco acima um prédio enorme onde é a Faculdade de Direito da USP. Dali seguia até a Rua Riachuelo para pagar a conta de água. Pronto, mais uma conta pro bolso.

 

Aí era hora de contar o troco que tinha recebido.

 

Somado, eu tinha que reservar o dinheiro do ônibus para a volta. Algumas vezes, não todas, sobrava o suficiente para um sanduíche de linguiça que uma lanchonete servia na Rua São Bento. Se não sobrasse, não ficava chateado. Era assim mesmo, a vida era dura naquele tempo. E estando por ali sempre valia a pena dar uma passeada pela cidade.

 

Numa travessa da Líbero ficava a loja do Sr. Armando, de relógios e canetas, além dele vender, os consertava. Era meu vizinho que, aos sábados de noite, me chamava para sua casa para tomar um pouco de vinho com pão italiano, parmesão e aliche. Seus filhos não gostavam já eram adolescentes e iam para algum bailinho.

 

Tinha a Michelangelo que vendia produtos de arte e papelaria, que vitrine adorável para uma criança. Muitas vezes visitada depois. Na Conselheiro Crispiniano havia uma loja de departamentos (acho que era a Sears) que tinha um subsolo onde havia uma casa de chá, algumas vezes fomos lá: minha mãe, minha irmã e eu. Nos dávamos tempo para viver, os segundos eram muito maiores que os atuais.

 

E as lojas de instrumentos musicais na Barão de Itapetininga? Enchia-nos os olhos, como eram bonitos e perfeitos. Às vezes, da Barão eu cruzava a Praça da República, em frente ao Caetano de Campos (ah que lindas as alunas daquela escola) e ia ao Largo do Arouche, onde meu pai trabalhava como gerente de uma loja de tecidos importados. Naquele tempo a roupa era feita por costureiras e alfaiates.

 

Uma vez o Gigio (um dos melhores alfaiates da capital e amigo de meu pai) me fez um terninho, se usei uma vez foi muito, mas que era bonito era. Tropical inglês, com calça curta claro. Por vezes visitava a Tecidos L.Caldas, a loja que meu pai gerenciava, o Primo Carnéro, famoso lutador com quase dois metros de altura. Céus quando o conheci pareceu-me um gigante.

 

Dependendo da hora voltava para casa com meu pai que pegava um carro de aluguel que era chamado lotação. Era muito grande, cabiam uns 8 ou mais passageiros.

 

Eu era muito feliz naqueles tempos idos.
Feliz como nunca mais consegui ser.

 


Ricardo Aleixo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais uma capítulo da nossa cidade, envie seu texto para milton@cbn.com.br

Mundo Corporativo: Rogério Boeira fala de aprendizado contínuo e desenvolvimento profissional

 

 

O aprendizado contínuo é a chave para o desenvolvimento profissional mas é preciso ter disponibilidade para aprender, não só de tempo; emocional e moral, também. Quem ensina é o professor Rogério Lodero Boeira, da Escola de Aprendizagem Contínua Cultman, em entrevista ao jornalista Mílton Jung, no programa Mundo Corporativo, da rádio CBN. Para se criar estas condições, explica Lodero, é necessário “saber que você não sabe tudo e partir do princípio de que eu tenho de aprender sempre”.

 

O programa Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, quartas-feiras, 11 horas, no site http://www.cbn.com.br Os ouvintes participam enviando e-mails para mundocorporativo@cbn.com.br ou para os Twitters @jornaldacbn e @miltonjung. O Mundo Corporativo é reproduzido aos sábados, no Jornal da CBN.