Conte Sua História de SP: quando era um bosque o meu bairro

 

Por Silvio dos Santos
Ouvinte da rádio CBN

 

Imagem aérea da época em que o Bosque da Saúde era um bosque

 

Sou paulistano do Bosque da Saúde, bairro criado com a construção da linha de bonde nº30, no início do século 20. O bairro era realmente um bosque de araucárias que resistiram até a década de 1950. O Bosque, como era conhecido, começava na atual Praça da Árvore (estação da linha Norte-Sul do metrô), antiga primeira secção da linha de bonde Jabaquara. Descia pela Av. Bosque da Saúde, ruas Ibirarema e Guararema até o ponto final na Tiquatira. O Grupo Escola Princesa Isabel, imponente construção em tom rosa, da década de 1940, foi o berço do conhecimento de muitas gerações, posteriormente complementada pelo Instituto de Educação Conde José Vicente de Azevedo, conhecido apenas como Conde. Cortado pelo histórico  Riacho do Ipiranga  era reduto de numerosos campos de futebol de várzea, entre eles o Corintinhas do Bosque, o Cometa e o Granadeiros. Enfim, era um reduto aprazível dentro do mosaico dos bairros paulistanos.

 

Sílvio dos Santos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você também pode contar mais um capítulo da nossa cidade. Mande seu texto para milton@cbn.com.br ou marque entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistória@museudapessoa.net.

Mundo Corporativo: Bruno Caravati, da Fisk, fala de gestão de negócios

 

 

“Transparência, honestidade e olhar no olho da pessoa com a qual está trabalhando, sem isso você não consegue absolutamente nada, se você não tratar estas coisas com seriedade você não ganha credibilidade, portanto você pode esquecer. Por que se você sair dessa linha a possibilidade de você não conseguir sucesso é grande”. Essa é a estratégias para uma boa gestão na área de educação na opinicão de Bruno Caravati, CEO das Escolas de Inglês FISK, entrevistado pelo programa Mundo Corporativo, da rádio CBN. Com mais de 40 anos de carreira, Caravati falou dos desafios na administração de empresas e contou curiosidades sobre a história do grupo construído por Richard Fisk, no Brasil.

 

Você participa do programa Mundo Corporativo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, assistindo ao programa, ao vivo, pelo site da rádio CBN e enviando perguntas para o e-mail mundocorporativo@cbn.com.br e pelo Twitter @jornaldacbn e @miltonjung (#MundoCorpCBN). O programa é reproduzido aos sábados, no Jornal da CBN.

Não se engane: luxo não é premium, premium não é luxo

 


Por Ricardo Ojeda Marins

 

 

O mercado do luxo ganha cada vez mais espaço no cenário mundial, porém este ainda é um conceito que costuma ser confundido com o de premium, apesar de serem completamente distintos. No Brasil, especificamente, é comum empresas criarem marcas com produto de certa qualidade e preços altos entitulando-se de luxo, o que depende de cada caso: da qualidade, da distribuição, da acessibilidade (ou inacessibilidade).

 

Marcas de luxo têm história, tradição, exclusividade. São produtos feitos em edição limitada ou muitas vezes feitos sob medida para cada cliente, sempre mantendo os valores do criador-fundador da marca. O luxo é destinado a poucos, enquanto o premium tem como objetivo estar presente no mercado de consumo em massa. Um produto premium em geral possui qualidade superior em relação a um produto comum, porém é produzido em grande escala e considerado acessível. Não tem o apelo emocional que o luxo envolve em seus produtos e serviços desejados por consumidores ao redor do mundo.

 

Apesar de conceitos distintos, muitas marcas de luxo expandem sua produção e possuem também produtos premium ou sub-marcas com produtos premium principalmente porque com a concorrência acirrada e a globalização, um dos maiores desafios para essas empresas é manter seu crescimento.

 

A expansão da marca para outras classes tem sido uma estratégia bastante adotada, criando novos produtos: perfumes Chanel, camisetas e chaveiros Ferrari, ou casos como Armani, que têm diversas marcas em seu guarda-chuva, como a acessível Armani Exchange, com produtos de qualidade superior, porém com política de preço e distribuição menos seletivas que no caso do Emporio Armani, Armani Collezioni ou Giorgio Armani.

 

Não se engane: o luxo é ainda é raro, exclusivo, tentador, instiga o desejo. Ele inspira e encanta…

 

Ricardo Ojeda Marins é Professional & Self Coach, Administrador de Empresas pela FMU-SP e possui MBA em Marketing pela PUC-SP. Possui MBA em Gestão do Luxo na FAAP, é autor do Blog Infinite Luxury e escreve às sextas-feiras no Blog do Mílton Jung.

Um empate em memória do amigo Salvador

 

Milton Ferretti Jung

 

Somos dois aqui em casa que acompanhamos a Copa do Mundo pela televisão:Maria Helena,minha mulher,e eu. Não faço a mínima questão de assistir a algum jogo na Arena Beira-Rio ou seja lá como estão chamando o reformado estádio do Inter. Não deixei de ver até agora nenhuma das já várias partidas disputadas. Somente sento à mesa da cozinha para tomar o café da manhã. Faço as restantes refeições diante da tevê do living. Já Maria Helena divide o interminável CityVille,que ela joga no computador,com os embates que rolam pela televisão. Não sei como ela consegue acompanhar a Copa e o seu jogo compartilhado por amigas de várias nacionalidades. Sei que Malena,como é chamada pelos íntimos,não gosta do futebol português e implica,especialmente,com o craque Cristiano Ronaldo. Nem preciso dizer para que seleção ela torceu no dia 16.

 

Ao contrário de Malena,eu fiquei com pena do Melhor Jogador do Mundo. Ele é vaidoso,mas vá lá. No jogo contra a Alemanha,Cristiano,além de estar enfrentando uma equipe que, em matéria de futebol pode ser vista como,no bom sentido,Deutschland über alles,não contou com o apoio dos seus companheiros. Deixaram-no abandonado. Não há quem não saiba que,em um esporte coletivo,embora alguns sejam protagonistas,os demais têm de exercer da melhor maneira possível as suas funções. E não foi isso que se viu em Alemanha 4 x 0 Portugal.

 

Assim como não gosta de Cristiano Ronaldo e,por tabela,da Seleção Portuguesa,Maria Helena cai de amores pelo México. Ocorre que,por seis anos,cultivamos forte amizade com um mexicano,odontólogo e professor universitário,com quem conversamos diariamente pela internet. Ele sabia tudo sobre computadores. Quando as nossas máquinas não funcionavam a contento,Ignacio Salvador Mendés Ordóñes as corrigia por controle remoto. Malena e eu tivemos nele um extraordinário professor de espanhol. Hoje,ela fala e escreve nessa língua com perfeição. Em troca,eu escrevia para ele em português,bancando professor. Salvador,de uma hora para outra,desapareceu. Creio que morreu,porque era uma pessoa com saúde frágil. Sentimos sua falta,mas ficamos apreciando o México e,por extensão,a sua Seleção,graças à nossa amizade com ele. Em homenagem a Salvador,torcemos por um empate no jogo dessa segunda-feira. Achamos que,com isso não estaríamos traindo a nossa Seleção.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Plano Diretor: a última audiência

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Segunda-feira foi realizada a última audiência pública para discutir o Substitutivo do PL 688/2013 da cidade de São Paulo, antes da votação pela Câmara Municipal.

 

A reunião foi inicialmente tumultuada pelo movimento Anchieta pró-moradia, mas após acomodação de um número limitado de manifestantes a sessão teve prosseguimento. Onde as discussões ficaram concentradas basicamente em dois grupos. O grupo favorável ao comércio, oriundo das regiões de Santo Amaro, Campo Belo e Jardim da Saúde. E, em oposição, o grupo das 55 entidades pró ZERs zonas exclusivamente residenciais coordenado pelo Defenda São Paulo.

 

Como se não bastasse a atuação de Andrea Matarazzo e do relator Nabil Bonduki, sinalizando a posição favorável a manutenção das ZERs, que preocupava os postulantes da sua extinção, um fato novo gerou alguma irritação nesta oposição. Ficou levemente perceptível a repercussão da fala da arquiteta Lucila Lacreta, diretora do Defenda São Paulo, na entrevista concedida a Fabiola Cidral no programa CBN São Paulo. Não só por parte das entidades adversárias, mas também pela equipe de Fernando Melo, Secretário do Desenvolvimento Urbano de Haddad.

 

Na expectativa da publicação do substitutivo ao substitutivo ao PL 688/2013, documento sobre o qual será realizada a votação do Plano Diretor pela Câmara Municipal na próxima semana, e cuja publicação deverá ocorrer hoje, há um razoável grau de ansiedade. Tanto para o grupo comercial quanto para o residencial.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Fora da Área: empate do Brasil é resultado do lugar comum

 

 

É jogo de Copa do Mundo.
São onze para cada lado.
Contra o México é sempre difícil.
Todo mundo quer jogar contra o Brasil.
Temos que respeitar o adversário.

 

Jogadores de futebol costumam ser bem mais criativos com a bola no pé do que com as palavras, por isso não me surpreende o desfile de lugar-comum nas declarações ao fim do jogo, como nesta terça-feira, em Fortaleza. Em raras oportunidades encontramos afirmações relevantes ou explicativas, quando muito tiramos algumas “aspas” para escrever a reportagem ou destacar em manchete (tirar aspas, no jornalismo, é reproduzir a frase ou expressão usada pelo entrevistado). Portanto, não me surpreenderam as entrevistas que assisti na televisão com jogadores brasileiros ainda ofegantes e suados, minutos após o empate em zero a zero com o México.

 

Esperava mais deles dentro de campo. Lá, sim, me parece, faltou criatividade para driblar o forte bloqueio mexicano e encontrar espaços que nos permitissem chegar ao gol da vitória. Às vezes, havia dois, três e até quatro jogadores marcando nossos principais talentos, em especial Neymar. Mesmo assim, o camisa 10, com seu topete esbranquiçado, foi responsável por dois dos principais lances de gol que tivemos nos 90 minutos. Na primeiro deles, surpreendeu-nos com um salto que o agigantou diante dos zagueiros mexicanos. A cabeçada foi bonita, a bola – apenas para usar um lugar comum dos locutores de futebol – tinha endereço certo, mas aí apareceu aquele camisa 13 deles para impedir o gol. Ochoa com sua cara de guri novo se esticou todo e conseguiu espalmar para fora. Fez naquele momento, fez depois com Paulinho, fez ainda com Tiago Silva, quando já havia feito, pouco antes e outra vez, com Neymar. Foram quatro defesas incríveis. Nem dava pra reclamar, afinal se os goleiros tem alguma função no futebol esta é a de estraga-prazer. E Ochoa a exerceu muito bem. Roubou o prazer de milhares de torcedores no Estádio do Castelão, em Fortaleza, e de milhões de brasileiros que esperávamos por mais uma vitória na Copa.

 

Há quem tenha ficado muito incomodado com o empate e a falta de solução para superar o adversário, contra quem, aliás, não temos tido muita sorte nas últimas décadas. A sensação se justifica pois estamos muito mal acostumados. Para nós é mais comum assistir ao Brasil vencer. Desde a Espanha’82, por exemplo, vínhamos ganhado as duas primeiras partidas do Mundial. Lá se vão 32 anos. Além disso, Luis Felipe Scolari havia vencido todos os jogos em que comandou a seleção em Copas da Confederação e do Mundo (a propósito, ainda não perdeu nenhum.) Seja com for, eu considerei o resultado de hoje a coisa mais comum do mundo, já que estávamos diante de uma seleção complicada de se passar, o empate nos deixa na liderança do grupo e muito próximo da classificação à próxima etapa. Além disso, prefiro identificar fragilidades agora, quando podemos nos dar ao luxo de sair de campo sem vitória, do que sermos surpreendidos nas etapas eliminatórias quando nos restará apenas chorar em caso de derrota.

Fora da Área: nona Helena veste a camisa porque hoje tem Brasil na Copa

 

Hoje tem Brasil na Copa. E lá vai a Nona Helena para o guarda-roupa tirar a camisa da seleção, guardada com carinho na gaveta a espera da partida seguinte. O uniforme é obrigatório para jogos do Brasil desde que se conhece por torcedora. Este ano, como a Copa é por aqui, caprichou na indumentária e, na loja perto de casa, comprou a corneta e a peruca verde e amarela. Aos 88 anos, espera pela seleção brasileira com a ansiedade de criança e não se cansa de se emocionar com o hino nacional. Provavelmente, legado dos tempos de aluna em que se perfilar no pátio da escola, antes da aula começar, era obrigação transformada em prazer. Sentada no sofá diante da televisão, porque ninguém é de ferro, põe a mão sobre o peito, acompanha a torcida reunida no estádio e não perde o ritmo quando levada a cantar à capela. Há quem jure que os olhos se enchem de lágrimas já nos primeiros acordes. Os netos acham divertido, os filhos tem orgulho e a Nona faz questão de espalhar na família que é apaixonada por jogo de Copa: “não perca um sequer!”. Quem vai jogar no lugar de Hulk, se é que Hulk não vai jorgar, ainda não sei, mas que ela vai estar a espera da seleção, não tenho dúvida.

 

A Copa tem dessas coisas. Provoca as mais estranhas reações em seus torcedores. E você deve ter visto muitas delas nas arquibancadas apesar de estar completando somente agora a primeira rodada de jogos. Existem torcedores enlouquecidos que vestem fantasias bem mais apropriadas a baile de Carnaval. Tem torcedores alucinados que saltam e cantam, e cantam e gritam, e continuam saltando, independentemente do que esteja acontecendo em campo. Tem os sofredores que fazem careta, roem unhas, esbravejam e choram o revés. Tem os críticos que parecem saber bem mais do que o técnico, gesticulam e orientam suas seleções mesmo que ninguém os ouça no gramado. Tem o torcedor do telão, que passa os 90 minutos pedindo para ser flagrado pelas câmeras de TV. Tem os religiosos, que agradecem aos céus cada graça alcançada nem que esta seja a desgraça do adversário.

 

Eu sofro muito mais quando o Grêmio está em campo do que a nossa seleção, o que não me tira a pressão. Ainda mais que, como já contei algumas vezes, torço por aqueles que admiro e o Brasil comandado por Luis Felipe Scolari merece minha admiração. Não vou vestir a camisa, encaixar a peruca ou cantar o hino (os ouvidos da família agradecem), mas esfragarei as mãos, massagearei as bochechas e pentearei o cabelo para trás com a ponta dos dedos quantas vezes forem necessárias. Ou até a seleção me convencer de que a vitória está garantida, o que costuma acontencer lá pelos 45 do segunto tempo.

 

Eu, assim como a Nona Helena, que não é minha nona mas a peguei emprestada para este texto, também sou apaixonado por jogo de Copa. E você? Vai torcer como? Porque hoje tem Brasil na Copa.

Fora da Área: a bola rola solta no centro de São Paulo

 

 

Eram apenas três garotos e uma bola, supervisionados pela bandeira do Brasil estendida na fachada do prédio que abriga a Secretaria Estadual de Justiça de São Paulo. O campo era de asfalto e delimitado pelo meio fio nas laterais e os carros estacionados fazendo às vezes de linha de fundo. Não havia goleiras demarcadas nem torcida organizada, menos ainda árbitro para impedir qualquer jogada violenta. Nem tinha necessidade para tanto rigor, já que o futebol jogado por eles não tinha adversário. Todos faziam parte do mesmo time, sem camisa ou patrocinador, e movidos por um só objetivo: a diversão. Flagrei essa cena ao lado do Pateo do Collegio, onde São Paulo foi fundada, no centro da cidade, que, nesse sábado à tarde, estava tomado de passantes e turistas – nenhum deles, porém, parecia interessado pelo acontecimento naquela praça, mesmo que o futebol fosse o motivo de muitos deles estarem por aqui. Ao contrário da maioria, fui logo conquistado pela espontaneidade dos gestos, as embaixadinhas desajeitadas e os gritos de gol. Parei, assisti ao jogo por alguns minutos, fotografei e fui embora. Não tinha o direito de estragar a naturalidade dos movimentos daqueles craques em formação.

 

É difícil encontrar garotos brincando de bola nas ruas da cidade, as calçadas quase não têm espaço e o meio da rua é arriscado. Nossos filhos saem pouco, os que gostam do futebol descem na quadra do prédio e os sem-prédio têm a opção dos campos dos clubes e escolinhas. Têm de marcar hora na portaria e adaptarem-se as burocracias locais. Nada tão natural como na época em que o dono da bola chamava a turma aos berros, atravessávamos para o outro lado da Saldanha Marinho, em Porto Alegre, e transformávamos o portão de grade do açougue do Seu Ernesto em goleira. O jogo rolava solto e somente se encerrava quando ao escurecer os pais davam o apito final. Às vezes, a partida era interrompida pelo próprio açougueiro que, avisado por vizinhos mal-humorados, saia da casa dele, há algumas quadras dali, e corria a tempo de salvar seu portão dos nossos chutões. Costumava ser tarde, os gols assinalados já haviam marcas eternas na grade.

 

Dentre tantas outras sensações, a Copa do Mundo nos faz crescer os instintos mais naturais do futebol, o desejo de tomarmos novamente as calçadas e jogarmos com as regras que nós mesmos determinamos, sem a interferência dos cartolas, a autoridade do juiz ou a ganância dos agentes. A alegria daqueles três meninos que tomaram o espaço público para si e o transformaram na sua Arena pode ser um dos muitos legados deste Mundial.

 

Vai lá, pega a bola escondida embaixo da cama e vamos às ruas!

Defenda SP diz que Plano Diretor vai acabar com áreas residenciais

 

Publicado na área de comentários do Blog, abro post para dar mais destaque a informação e preocupação de Heitor Marzagão Tommasini, conselheiro do Movimento Defenda São Paulo, em relação ao andamento do Plano Diretor de São Paulo e o impacto que pode ter nas áreas exclusivamente residenciais da capital paulista, prejudicando toda a cidade:

 

Hoje no programa Caminhos Alternativos teve uma matéria da ONG Resgate Cambui e outra realizada com a médica Thais Mauad que mostram a importância da cidade saudável e a saúde dos moradores. Aqui em São Paulo, os moradores dos bairros exclusivamente residenciais lutam para manter a qualidade de vida, mas o Plano Diretor condena as áreas residenciais a desaparecerem. Isso porque existe um pensamento ideológico e sistemático da atual governança simplesmente contrário às Zonas Exclusivamente Residenciais, e as autoridades, de forma irresponsável, estão retirando, do novo texto do Plano Diretor, artigos da atual legislação que protegem essas áreas .

 

Simplesmente desaparece o texto do artigo 156 da lei 13.430/02, que diz o seguinte “preservação e proteção das áreas estritamente residenciais” e outro que também desaparece é “manutenção do zoneamento restritivo dos bairros estritamente residenciais com a definição precisa dos corredores de comércio e serviços”.

 

É um retrocesso imensurável na legislação protetiva de áreas essenciais reconhecidas cientificamente e a proximidade de dano irreparável à cidade e à saúde da população desses bairros e da cidade como um todo, eis que os bairros exclusivamente residenciais prestam serviços ambientais significativos ao território.e ao meio ambiente.

 

São dezenas de entidades regularmente constituídas que protocolaram documentos e se manifestaram de diversas formas para a proteção desses bairros e a governança simplesmente desconsidera essas organizações e mantém postura antidemocrática e nociva à cidade, eis que, repetem que os bairros residenciais estão protegidos quando na verdade retiram dispositivos que hoje protegem esses bairros.

 

Hoje, sábado, 14 de junho, tomei conhecimento da última versão do projeto substitutivo do Plano Diretor que está sendo elaborado pelo Vereador Nabil Bonduki, o qual, mesmo com o constante pedido técnico das entidades e com demonstração da necessidade de preservação dessas áreas, a governança mantém postura “atécnica” e danosa, desprotegendo os bairros exclusivamente residenciais e que, por efeito sinérgico ao longo do tempo, vai produzir danos à toda cidade e seus moradores.

 

Lamentável mesmo.

 

Conte Sua História de SP: nada como a Holanda para enfrentar ETs

 

 

Por Álvaro Donizeti de Carvalho
Ouvinte da rádio CBN

 

Acompanhe o texto completo enviado pelo ouvinte; e no arquivo a seguir, ouça o programa que foi ao ar no CBN São Paulo, sonorizado pelo Cláudio Antonio

 

 

Bairro da Penha, verão de 1976. Tempos áureos do Mercado Municipal que resistiu bravamente a um incêndio na década passada, da belíssima Basílica de Nossa Senhora da Penha, da Loja Eletroradiobraz que virou Extra, da papelaria “A Estudantil” na rua Dr. João Ribeiro, e da charmosa “Loja das Bagunças” na Av. Penha de França, atrás da Igrejinha do Largo do Rosário que, assim como a Estudantil, permanece imponente no endereço original.

 

Na “Loja das Bagunças”, meus pais compraram meu primeiro carrinho de brinquedo: o famoso Pé na tábua, um carrinho de fórmula 1 feito de plástico movido pelo impulso de ar que recebia de um tipo de fole que se encaixava na parte de trás do brinquedo. Bastava pisar no fole e o bicho saia em disparada. Na papelaria “A Estudantil” comprávamos o material escolar que não encontrávamos no bazarzinho da simpática dona Herminda que funcionava bem ao lado da escola: o Grupo Escolar Esther Frankel Sampaio onde eu estudava.

 

Os alunos das escolas públicas estaduais usavam avental branco com um mapa vermelho do estado de São Paulo estampado em um bolso gigante no lado esquerdo do peito. Naqueles tempos, a escola pública era de respeito e nós, alunos, ficávamos em pé quando os professores ou o diretor entravam na sala de aula.

 

Eu, na época com 11 anos, levava a típica vidinha de moleque dos anos 1970: futebol no campinho de terra batida, na travessinha da Rua Barra do Rio Grande; pião, bola de gude, taco, pipa nas férias de janeiro e julho, pega-pega e até queima (quando as meninas nos desafiavam). Depois do futebol, a gente corria para a vendinha do Seu João, palmeirense roxo, que ficava lá na Rua Goiapi para encher a pança de doce e refrigerante. Na vendinha o cliente comprava fiado e deixava marcado numa caderneta que o dono preenchia à mão mesmo. Nossos pais, lógico, só ficavam sabendo daquele montão de doces no fim do mês quando acertavam as contas com o Seu João. Era bronca para todo lado.

 

Vou narrar um caso que me lembra o Hospital da Penha, que durante décadas, foi a opção de tratamento mais tradicional da região. No início, apesar de particular, o hospital possuía convênio para atendimento público (anos 1970 e 1980). Durante os anos 1990 passou a atender exclusivamente como hospital particular. Fechou no início dos anos 2000 e reabriu administrado pelo Sociedade Beneficência Portuguesa. Eu e todos os meus irmãos nascemos lá. O prédio na rua Santo Afonso (ao lado da Igreja Velha da Penha) que durante tempos foi usado como consultório, não foi reaproveitado e hoje está para alugar. Pena, pois pela beleza arquitetônica deveria ser tombado. O outro prédio, na rua Arnaldo Vallardi Portilho ainda não foi totalmente reativado, mas conserva incrivelmente o mesmo aspecto de décadas atrás.

 

Eu preferia brincar na rua como a maioria dos moleques, mas também assistia à TV quando, nos horários em que minha mãe ia trabalhar, ficava encarregado, com o meu irmão, de tomar conta da casa e de nossa irmãzinha chorona e babona de apenas 3 anos de idade. Bem, garoto que se prezava não gostava de assistir à novela. Preferia Ultraman, Vingador do Espaço, Fantomas ou qualquer outra atração grotesca que tivesse monstros no enredo.

 

Foi naquele verão que, apesar do ótimo desempenho escolar, bom relacionamento com vizinhos, amigos e até de tocar na banda da escola (que a gente chamava carinhosamente de fanfarra), o garoto que vos escreve passou a ter certos “pesadelos noturnos” nos quais a Terra era invadida por seres extraterrestres os quais controlavam monstros gigantes que destruíam tudo que encontravam em seu caminho. Durante à noite, eu levantava e corria pela casa dormindo, gritando e acordando todo mundo para que fugissem dos tais alienígenas.

 

Depois de cortar sem resultados a TV, meus pais, já preocupados com a situação, resolveram procurar um médico. O bom doutor me examinou, fez um montão de perguntas para ver se eu regulava bem das ideias e, depois de muito coçar a cabeça, resolveu me encaminhar para um exame neurológico, que consistia na extração, por meio de seringa com agulha, de líquido da medula espinhal (dói só de lembrar isso!!!).

 

Naturalmente, meus pais tentaram me tranquilizar dizendo que era só uma “picadinha”. Eu, malandramente, logo quis aproveitar a oportunidade para fazer uma chantagenzinha: concordei em fazer o exame desde que eles me comprassem o jogo de futebol de botão da seleção da Holanda.

 

Lembro-me que o exame estava marcado para a manhã de um sábado e lá fomos nós para o hospital. No caminho, fiz minha mãe parar no pequeno bazar da japonesa que ficava no finzinho da Rua Penha de França ao lado do mercado da Saúde (início da Avenida Cangaíba) para mostrar o jogo de futebol de botão que eu queria ganhar.

 

Chegamos adiantados ao hospital e lá conhecemos uma jovem e simpática senhora que também aguardava o exame. Ela era loira, bonita, aparentava ter por volta de 40 anos e era muito comunicativa. Conversa vai, conversa vem e ninguém falava em outra coisa além do “bendito exame.”

 

Ela entraria antes de mim e havia outros pacientes que fariam o exame depois. Eu tinha saído de casa tranquilo mas aos poucos fui ficando desesperado com tanto burburinho:  “fulano não sentiu nada, mas ciclana quase morreu”,  “ouvi falar que a agulha é pequena!” ” Não, a agulha parece carga de caneta bic!”. Percebendo que eu estava de olhos arregalados e apavorado com os comentários dos outros pacientes, a jovem senhora e a minha mãe tentaram desconversar. “É muito tranquilo. Meu sobrinho que é pequenininho já fez e nem chorou” – disse a mulher com um sorriso nada convincente. A enfermeira então apareceu na sala e chamou a jovem senhora. Acompanhada pela irmã e pela enfermeira, ela rumou para o fim do corredor meio escuro onde ficava a salinha do médico.

 


Minha mãe então recomendou: – fica quietinho que vai acabar logo e a gente vai pra casa. No entanto, a mulher não saía mais da sala do médico e eu ali paralisado não conseguia tirar os olhos daquele corredor escuro. Depois de um tempão, vi que três vultos vinham caminhando. Era a jovem senhora, escorada de um lado pela irmã e do outro pela enfermeira. Ela que tinha pele clarinha estava vermelha como um pimentão maduro. Ao chegar perto de mim, fitou-me com os olhos ainda cheios de lágrimas e balbuciou, com a voz toda trêmula: – Não dói nada, não… O quê? Não tive dúvidas, aos berros fui me afastando e gritei para a o bairro inteiro da Penha ouvir: – Não quero, não vou fazer, eu vou embora! Naquele momento, minha mãe toda envergonhada, a enfermeira e outros pacientes tentavam me agarrar e me arrastar para a sala do médico, que, ao ouvir a gritaria saiu até o corredor para saber que “barraco” era aquele. Não teve jeito, Nem médico, nem enfermeira, nem os outros pacientes conseguiram me segurar. Como um foguete eu ganhei a rua e ainda ouvi o médico gritar algum tipo de elogio que eu não entendi, mas também não fiz a menor questão de saber o que era.

 


No caminho de volta, sozinho e ainda assustado, passei em frente ao pequeno bazar da japonesa para dar “adeus” ao presente que eu certamente não iria mais ganhar. Morávamos em um sobrado e eu, com medo de levar umas belas palmadas, tratei logo de subir no telhado e puxar a escada para não ser alcançado. Assim foi o sábado inteiro, sem café nem almoço, até que, à noite, meus pais finalmente me convenceram a descer prometendo que eu não seria punido. Tive apenas que escutar um longo sermão durante o jantar. Eles decidiriam, depois, se remarcariam, ou não, o exame médico. Nem foi preciso. Eu nunca mais tive pesadelos. O medo da tal agulha gigante que parecia “carga de caneta bic” espantou, para sempre, os seres espaciais.

 


Bem, a vida segue. Hoje, adulto, acho graça quando vejo as crianças assistindo aos seriados bobos de monstros na TV e sempre que passo pela Penha, lembro, com saudades, daquela travessura de meus tempos de moleque.