Plano Diretor….novos rumos para São Paulo?

 

 

Por Regina Monteiro
Arquiteta, urbanista e cidadã

 

Acabamos de vivenciar momentos difíceis e polêmicos na Câmara Municipal de São Paulo. O Executivo Municipal mandou no ano passado projeto de Lei o PL 688/13, para a revisão do Plano Diretor que foi aprovado em 2002. Para quem não acompanhou faço questão de lembrar como foi o processo e o que resultou em forma de Lei em 2002 do tão esperado planejamento para a São Paulo dos nossos sonhos.

Começou com uma correria para que, em nome da participação popular, audiências publicas fossem feitas e nós cidadãos motivados pelo interesse público acreditamos e participamos. A prefeitura se gabava que mais de 10.000 pessoas participaram. Ridículo! Depois, a Prefeitura mandou para a Câmara Municipal um projeto de Lei que viria a mudar conceitos consolidados da cidade. Consagrou-se o solo criado, que eu resumo da seguinte forma – “não tem cálculo para ver se cabe mais gente empilhada, mas pagando pode”. Simples assim.

 

Foram definidos índices de ocupação e aproveitamento dos lotes de forma empírica sem que cálculos da capacidade da infra-estrura de um bairro fossem feitos para receber o novo adensamento proposto. Os recursos da “outorga onerosa” resultantes da compra do potencial construtivo deveriam dar conta de requalificar o estrago feito pelo novo adensamento. Não vi nenhuma requalificação de áreas saturadas nos últimos 12 anos. Inventaram o zoneamento, que os urbanistas chamam de paramétrico. Coisas assim como se o cheiro não sair do lote um restaurante pode ser instalado em um determinado imóvel! Eram sete parâmetros que a prefeitura deveria regulamentar. Nunca foi feito.

 

Ah …um conceito que nunca esqueço. A anistia! Leis para anistiar imóveis so poderiam ser feitas depois de 10 anos. Ou seja, faça o que quiser, mas “segure o seu fiscal” que depois de 2012 vai ter anistia! Mas acho que a vergonha maior não foi a anistia, até porque que ela não aconteceu de forma expressa. Muitos dos que estão lendo este artigo agora devem ter ouvido do seu subprefeito – “Não vou mandar fiscal para multar os imóveis irregulares porque pode ser que o zoneamento mude com o novo Plano Diretor”.

 

Esses são só alguns exemplos do que a Prefeitura deveria ter avaliado no que aconteceu nestes 10 anos, o que deu e o que não deu certo no Plano Diretor então vigente. Nenhuma avaliação foi feita – e se fizeram ninguém ficou sabendo – para não cometermos os mesmos erros e consolidarmos os acertos.

 

Então, mais uma vez, a nossa generosa cidade se torna um grande laboratório e a Prefeitura tira da cartola projetos surpreendentes para a salvação do território urbano e, em nome da MORADIA PERTO DO TRABALHO surge o arco do futuro e o adensamento auto aplicável ao longo dos eixos de transportes! O projeto de lei que chegou na Câmara no final do ano passado era tão ruim e tão desestruturado que o relator do PDE e a Comissão de Politica Urbana tiveram que fazer um substitutivo totalmente diferente, mas com uma condição: não se podia alterar o que ficou conhecido como “núcleo duro” – o arco do futuro e o adensamento ao longo dos eixos de transportes.

 

Nunca foi dito, mas sabíamos que havia uma agenda política. O Plano deveria ser aprovado até abril, para que leis complementares, como o zoneamento, fossem aprovadas antes das eleições. Muitas audiências e reuniões com vereadores foram feitas, cada setor com sua demanda, muitas interessantes para a cidade, outras nem tanto. Mas na minha avaliação foi o processo mais democrático que se deu até agora com relação às discussões do Plano Diretor. Não que os resultados foram necessariamente bons ou objetivos, mas ninguém pode dizer que alguns vereadores mais interessados não ouviram exaustivamente o que cada segmento da sociedade clamava.

 

Dentro dessa ótica, tudo estava correndo bem até que um dia um grupo de pessoas invade uma grande área de proteção dos mananciais com Decreto de Utilidade Pública para implantação de um Parque, com o objetivo de obter as suas moradias. Ate aí podemos tentar compreender a proposta, uma vez que movimentos semelhantes se organizam em anos eleitorais, pois fica mais fácil evidentemente de negociar as suas demandas.

 

Em março deste ano, esse grupo e vários outros ligados a um movimento que luta por melhores condições de moradia vão em passeata até o gabinete do Prefeito fazer suas reivindicações. Após reunião com representantes da Prefeitura e com as lideranças do Movimento, o Prefeito sobe no caminhão de som pega o microfone e dispara: “Nós revogaremos o Decreto de Utilidade Pública da área tão logo a Câmara aprove o Plano Diretor e demarque a área como Zona Especial de Interesse Social.”

 

Eu não sei se foi de propósito essa solução, mas foi no mínimo equivocada. Por que o prefeito não teve a coragem pública de revogar um decreto que bastava uma canetada? E qual o problema de colorir de vermelhinho nos mapas mais uma área para HIS – Habitação de Interesse Social? É certo que numa área de proteção dos mananciais, com muitas nascentes, área importantíssima de produção de água para recarga das represas, precisaria de algo mais impactante.

 

Virou uma guerra. Informações desencontradas (ou não) levaram o Movimento a acampar em frente a Câmara, a apedrejar e botar fogo nos banheiros químicos que estavam por ali para lhes dar conforto e dignidade. Nós que estávamos na Câmara, justamente nas audiências que tratavam de tantos outros temas importantes para a cidade, ficamos ali, sitiados, olhando pelo janelão de vidro estupefatos pensando como de uma hora para a outra apareceram tantos pneus para serem queimados. A partir de então, as audiências tomaram outro rumo. Com o acompanhamento da imprensa, vereadores que nunca apareceram resolveram perambular por ali e discursar. E ao som dos “gritos de guerra” – “criar, criar, governo popular”, estava certa que o Plano seria aprovado rapidamente.

 

Chegou o dia da votação. Chegamos na Câmara às duas da tarde, estávamos em 12 pessoas e queríamos entrar no plenário para acompanhar a votação porque queríamos ter certeza que as nossas demandas que foram sinalizadas como aceitas seriam atendidas. Queríamos ouvir os argumentos dos vereadores na hora da votação quem votou contra e a favor. Não conseguimos entrar. O movimento que mantinha as pessoas acampadas na porta da Câmara estava muito organizado e em nome de 20 entidades distintas conseguiram lotar o plenário. Graças a uma policial que entendeu que o nosso movimento também tinha o direito de participar e a um vereador que também se esforçou muito, conseguimos entrar em quatro pessoas para ficar em pé no cantinho.

 

O PDE foi aprovado e comemorado com muito confete e serpentina que o pessoal da galeria jogava lá em baixo nos vereadores. De onde estávamos podíamos ouvir os rojões lá fora. Saímos todos juntos apertadinhos na multidão que gritava freneticamente algo assim – “Quem não pode com a formiga não cutuca o formigueiro.” Esperamos eles descerem e fomos até o janelão de vidro e atônitos vimos que as duas pistas de carro estavam lotadas de pessoas e o caminhão de som lá embaixo e alguns vereadores, um a um discursando.

 

Para nós a luta continua! Lembrei-me dos tempos que a gente fazia vigília na Faria Lima contra a Operação Urbana. Quem sabe!

 

O que a cidade ganhou com o Plano aprovado? Isso fica para uma outra vez.

Fora da Área: Neymar abatido pelas costas faz parte de um roteiro épico

 

 

Terminei a sexta-feira assistindo, na tv à cabo, à 42 – A História de uma Lenda, que tem como personagem principal Jackie Robinson (Chadwick Boseman), primeiro jogador de beisebol negro a entrar na Major League, na década de 1940, recrutado pelo dono da equipe dos Dodgers, do Brooklyn. O executivo Brach Rickey (Harrison Ford) desafiou o racismo que manchava os Estados Unidos enquanto Robinson suportou as mais absurdas ofensas e agressões de torcedores, colegas e jogadores, demonstrando abnegação e talento. A atitude deles escreveu capítulo importante do combate à segregação e transformou Robinson em lenda atualmente representada pela sua camisa 42, número que foi aposentado pelo beisebol americano, em 1997, e é vestido por todos os jogadores no dia 15 de abril, data que ele estreou na liga “dos brancos”. Evidentemente que os roteiristas precisam se esforçar e adaptar as histórias à tela e ao tempo e nos apresentam um resumo de fatos marcantes, alguns reescritos para glamourizar a cena. Mas é inevitável que percebamos como o esporte por sua própria beleza e dramaticidade é protagonista de momentos fantásticos que, apesar de surgidos de forma espontânea, parecem terem sido previamente escritos por alguém disposto a criar um filme inesquecível.

 

Nestas três últimas semanas, temos sido espectadores da Copa do Mundo de futebol com suas histórias incríveis contadas ao vivo, sem roteiro prévio, e captadas por centenas de câmeras ultramodernas que registram lances, gestos, expressões e palavras por diferentes ângulos e reproduzidas à exaustão e lentidão suficientes para estender nosso sorriso e sofrimento até o próximo capítulo. O corpo de Neymar estendido no gramado quase ao fim da partida contra a Colômbia, vítima de agressão sofrida pelas costas, é uma dessas imagens que serão eternizadas e nos ajudarão a entender o fim do filme, feliz ou não. Fico imaginando que roteirista, se não a nossa própria vida, seria capaz de escrever aquele instante. O maior craque da seleção local, aquele em que o país que sedia a competição deposita sua esperança, abatido pelo adversário com um tiro certeiro, traiçoeiro, sem direito à defesa. Com o rosto esfregando de dor na grama, ele agoniza à frente de seu público e seu choro é compartilhado pela enorme arquibancada que a Nação se transformou desde que se iniciaram os jogos. A alegria que se desenhava com a classificação à semifinal ganha tons de cinza e a incerteza se torna unânime mesmo entre os mais otimistas. O que será de nós a partir de agora? O escritor conduz a plateia a imaginar o pior.

 

Desculpe-me se você, caro e raro leitor deste blog, está cético com nosso futuro nesta Copa. Eu tendo a enxergar em cada drama o ponto de virada da história, como se fizesse parte da estrutura mítica que os contadores usam para criar narrativas poderosas que impactam todos nós e nos levam a grudar os olhos nas páginas seguintes, ansiosos por descobrir o final, certo de que o autor está pronto para nos impressionar. Não acredito nos que pregam a derrota antecipada pela ausência de Neymar nas duas partidas finais deste Mundial. Os vejo como incapazes de compreender o enredo planejado pelo destino que nos quer campeão. Temos, porém, de provar que somos merecedores desta conquista e fortes para suportar o gol contra no início da história, o futebol mal jogado nas primeiras partidas e a bola que explodiu na trave no minuto final. Vamos forjando nossos ídolos: o goleiro que chora antes de se transformar em herói ou os zagueiros que desbravam o ataque para nos fazer vencer. Até o título precisaremos ainda encontrar aquele que vai substituir o insubstituível – talvez vestir a todos com o nome do craque ferido na camisa. E esperar pela redenção de muitos dos que ainda não estiveram a altura de seu nome. Dentre eles, o escritor haverá de escolher um para marcar o gol definitivo, que nos permitirá chorar diante da imagem do capitão levando a taça às mãos de Neymar, sentado em uma cadeira de rodas.

 

Insisto em acreditar que Luis Felipe Scolari saberá, como nenhum outro, escrever esta história para nós.

Conte Sua História de SP: levei meu pai pela primeira vez ao estádio

 

Por Clarindo Oliveira

 

 

Ouça aqui a história do ouvinte Clarindo Oliveira que foi ao ar no Conte Sua História de São Paulo

 

Como tantos outros meninos, lá pelos meus 7 ou 8 anos, escolhi o time que iria torcer pelo resto da minha vida. Por influência do meu pai e do meu irmão, decidi ser palmeirense. Decisão fácil. No começo dos anos 70, o time era fantástico! Era a famosa Academia. O Verdão ganhava tudo: Campeonato Paulista, Brasileiro, torneios internacionais. Enquanto isso, o nosso rival amargava quase 20 anos sem nenhum título.

 

Minha estreia como torcedor num estádio foi em 1977 no Morumbi. Era um torneio chamado Taça Governador de São Paulo. Foram dois jogos numa noite só: “Ex-Time da Marginal sem número” versus “Time da Vila” e Palmeiras versus Atlético de Madrid. Nosso time tinha Leão, Jorge Mendonça, Edu. E Ademir da Guia, é claro. Muitos diziam que ele era lento, ultrapassado. Pura dor de cotovelo. Ele estava sempre onde precisava estar. Seus passes eram precisos. Dava ritmo ao time. Um verdadeiro maestro! Do time espanhol, eu só conhecia um “tal” de Luís Pereira. O placar foi 1 x 1 e depois perdemos nos pênaltis. Na rodada seguinte, os espanhóis se sagraram campeões.

 

Além de admirar o Divino, muita coisa me encantava. A começar pelo fato de que 3 grandes torcidas dividiam pacificamente o mesmo espaço num Morumbi lotado. Todos sentados lado a lado. Diziam que havia mais de 100.000 pessoas naquela noite. Num dado momento, começou um coro lá do outro lado do estádio e eu aderi na hora: “Ôôôôôôô, Ôôôôôôô”. Dizem que a torcida “daquele time” trouxe um leitão pintado de verde e o lançou arquibancada abaixo. Isso eu não vi mas, na verdade, o coro era “Porcoooo, Porcoooo”!

 

Mal sabia que eu e toda a nação alviverde seríamos atormentados por aquele apelido por muitos anos… Até que, num lance de mestre, a nossa torcida decidiu adotar o simpático animal como um de seus mascotes.

 

Passemos a Janeiro de 2007. Meu pai, já com mais de 80 anos, passou o fim de semana comigo. Ao levá-lo para casa, ele me disse que não estava reconhecendo o caminho de volta. Foi quando parei na Avenida Sumaré e peguei sua camisa do Palmeiras e disse: “Pai, estamos indo ao Parque Antarctica para ver um jogo”.

 

Ele, que nunca havia entrado um estádio, balbuciou umas poucas palavras, dizendo que já estava velho e que o joelho não aguentaria subir as arquibancadas. Que nada! Ele cantou, xingou e vibrou muito quando o Verdão de Marcos, Edmundo e Valdivia marcou o único gol da partida contra o Santo André.

 

Guardo aquele domingo com muito carinho no coração. Pelos poucos anos que ainda esteve conosco, meu pai sempre falava com muito orgulho que seu filho o levou para assistir uma partida de futebol. Eu via em seus olhos a alegria de um sonho realizado. Tenho certeza que ele via nos meus o sentimento de missão cumprida.

 

Clarindo Oliveira foi o personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Participe deste programa enviando textos para mundocorporativo@cbn.com.br ou agende entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.com.

Mundo Corporativo: Marcelo Pinto dá sugestões para gerenciar o humor na sua empresa

 

 

Cuidar do humor no seu local de trabalho pode render muito mais do que boas risadas, é o que pensa o advogado trabalhista Marcelo Pinto, entrevistado do programa Mundo Corporativo, da rádio CBN. O consultor oferece inúmeras sugestões que colaboram com a criação de um ambiente criativo e saudável nas empresas. O método que defende é composto por etapas que reunidas formam num acróstico a palavra SMILE – Sorria, Mude de atitude, Identifique oportunidades, Lidere positivamente, Envolva e execute. “O humor é uma competência que começa a ser valorizada pelas empresas”, diz o autor do livro que leva o mesmo nome do método que propõe: “O Método S.M.I.L.E. para Gestão do Humor no ambiente de trabalho – Um guia prático para humanização corporativa”.

 

O Mundo Corporativo vai ao ar às quartas-feiras, 11 horas, no site da rádio CBN (www.cbn.com.br) e você participa com e-mails para mundocorporativo@cbn.com.br e pelos Twitters @jornaldacbn e @miltonjung (#MundoCorpCBN). O programa é reproduzido aos sábados, no Jornal da CBN.

Selfridges amplia boutiques para homens de luxo, em Londres

 

Por Ricardo Ojeda Marins

 

 

Que luxo e a Inglaterra combinam, a gente já sabe. Londres é a prova disso, com suas boutiques de grifes prestigiosas, lojas de departamento, restaurantes com estrelas Michelin, opções culturais e históricas. Agora, a rede de lojas de departamento britânica Selfridges ampliou seu leque de opções de marcas de moda masculina com a inclusão de novas boutiques no interior de sua loja na capital inglesa. As boutiques recém-abertas tem o objetivo de criar espaço amplo e exclusivo destinado ao público masculino dessa unidade. Recentemente, muitos varejistas e marcas de vestuário começam a se concentrar mais na segmentação, enfatizando ações e espaços reservados ao consumidor do sexo masculino.

 

Em sua loja londrina, a Selfridges incluiu em seu portfólio marcas internacionais renomadas como Givenchy, Dries Van Noten, Lanvin e Rick Owens, somando a um espaço que já possuía marcas desejadas como Brunello Cucinelli, Ralph Lauren, Paul Smith, Ted Baker e outras. A rede mostra viver um momento de crença no homem, pois sua unidade de Manchester, na Inglaterra, também foi ampliada e recebeu investimento de 3 milhões de libras para o segmento masculino, projeto em que incluiu a expansão de seu espaço, bem como a inclusão de marcas como Tom Ford, Bottega Veneta e Dan Ward. A rede investe não apenas em novas marcas como também cria espaços exclusivos que proporcionam ao cliente experiências e contato direto com suas marcas de desejo, além, é claro, a possibilidade de vivenciar tudo que uma loja de departamentos de luxo como a Selfridges oferece.

 


Ricardo Ojeda Marins é Professional & Self Coach, Administrador de Empresas pela FMU-SP e possui MBA em Marketing pela PUC-SP. Possui MBA em Gestão do Luxo na FAAP, é autor do Blog Infinite Luxury e escreve às sextas-feiras no Blog do Mílton Jung.

Fora da Área: e se o Brasil perder?

 

 

Ao fim do único jogo da Copa que assisti ao vivo, na Arena Corinthians, fui apresentado a Matthew Cruickshank, um dos responsáveis pelos desenhos que animam a página do Google, conhecidos por doodle. Ele nasceu em Londres, na Inglaterra, país pelo qual acabara de torcer sem muito sucesso, pois os ingleses haviam perdido para o Uruguai por 2 a 1, o que praticamente os eliminou do Mundial ainda na fase de grupos. A derrota não foi suficiente para tirar o bom humor de Matthew que começou nossa conversa dizendo que o ônibus em que estávamos sacudia tanto, devido aos buracos nas vias que deixam o estádio, em Itaquera, que ele pensou estar em São Francisco, cidade onde mora e sempre ameaçada por terremotos. Ele tinha outros motivos para estar satisfeito, a começar pelo fato de pela primeira vez a equipe de doodlers ter deixado a sede americana do Google para vivenciar o evento que inspira suas ilustrações. Em lugar de planejar com dois, três meses de antecedência os desenhos, o desafio imposto a eles foi criá-los com apenas duas, três horas baseado na experiência que estavam tendo no país da Copa. Por isso, Matthew está sempre em busca de ideias. Papo vai, papo vem, ele não se conteve e me perguntou: “e se o Brasil perder, o que eu desenho?”. Confesso que fui surpreendido, pois até aquele momento não havia me passado pela cabeça essa possibilidade. Desde que o Brasil se prepara para o Mundial, e me refiro aqui a nossa seleção, a meta é uma só: ser campeão. Meta não. Obrigação que o país se impôs. É como se o título de 2014 tivesse o poder de apagar da memória do mundo a derrota contra o Uruguai na final de 1950. O que considero uma bobagem, pois uma coisa não tem nada a ver com a outra e se não vencermos a vida segue amanhã, os filhos vão para a escola, você para o trabalho e os problemas a serem enfrentados serão os mesmos de ontem.

 

No início dos preparativos, a seleção teve resultados titubiantes, trocou o técnico quando dava sinais de recuperação, ganhou novo rumo e confiança. A vitória na Copa das Confederações fez aumentar o otimismo dos torcedores e da própria seleção. Lá se enxergou pela primeira vez que, mais do que uma obrigação, tínhamos chances reais de sermos campeões. Jogar em casa nos oferecia vantagem sobre os adversários que se somava a nossa própria história no futebol, marcada por grandes espetáculos e cinco títulos mundiais. Foi por isso que, antes dos jogos se iniciarem, Parreira disse – e me parece foi mal compreendido – que tínhamos uma mão na taça. E é por isso que temos assistido a cenas explícitas de emoção, tensão e pressão protagonizadas por nossos jogadores, sobre as quais já escrevi e defendi aqui neste Blog. Jamais pensamos no risco de sermos derrotados (houve até quem acreditasse que ganharíamos apenas porque a Copa já estava comprada, sem perceber a falta de lógica da tese).

 

As partidas da Copa, nosso desempenho abaixo do esperado e a decisão levada para os pênaltis contra o Chile mostraram que não somos imbatíveis. Para muitos, abalaram a confiança que tinham na equipe brasileira. Colocaram em nossa perspectiva o risco de mais uma decepção em casa, a possibilidade de perdermos o Mundial. Fez com que muitos de nós repetíssemos a indagação do recém-conhecido Matthew: “e se o Brasil perder?” Pois vou lhe dizer sem pestanejar que, para mim, todos esses acontecimentos até aqui apenas fortaleceram a ideia de que somos capazes de superar nossas próprias fraquezas e com humildade e perseverança nos tornarmos habilitados a disputar a final. Fred, o goleador sem gols, Thiago Silva, o capitão que sabe chorar, e Hulk, o atacante que nasceu para ser Cristo, são alguns dos muitos personagens que passam por um período de provação e assim são forjados para terem sua história enaltecida. Serão transformados em heróis, lembrados para o todo e sempre (até que dure). É nisso que acredito. Por tanto, caro Matthew, invista seu tempo imaginando como ilustrar a página do Google quando o Hexa chegar – até porque se o Brasil perder, melhor nem imaginar.

Porto Alegre, 22 gols depois da Copa do Mundo

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Na semana passada fiz algumas projeções ao tratar da Copa do Mundo e os seus reflexos em Porto Alegre,porque é daqui que escrevo no blog ancorado pelo Mílton. Algumas se confirmaram,outras não. Redigi as projeções,como sempre,dois dias antes da postagem. Foi um risco,mas bem menor do que andaram correndo as oito seleções classificadas para disputar as Quartas de Final. Não foi fácil para nenhuma delas alcançar a segunda meta da mais importante competição de futebol do planeta. Como o recomeço está marcado para sexta-feira,desta vez,não será necessário me meter de pato a ganso com prognósticos acerca de quem está mais perto das Semifinais.Vou escrever sobre o que já ocorreu nesta Copa do Mundo.

 

O Internacional encerrou gloriosamente as suas atividades copeiras. Foram cinco jogos muito interessantes realizados na Arena Beira-Rio,começando por Austrália x Holanda e se encerrando com a disputa entre uma das seleções favoritas e outra que nunca havia ido além da fase de grupos do Mundial,a Argélia. Não vou esquecer tão cedo dessa partida. Para homenagear postumamente a memória dos meus avoengos – foi da Alemanha que veio o meu bisavô Jung – torci pelos germânicos. E não me arrependi. Diga-se a bem da verdade que os eliminados argelinos lutaram bravamente durante 120 minutos,mas tiveram de se render aos alemães. Esses,no entanto,tiveram em Neuer,um misto de goleiro e volante,eis que saiu cinco vezes da goleira para desarmar perigosos contra-ataques. A Alemanha,com seis titulares do Bayer, me fez lembrar do Grêmio,que conquistou o seu primeiro Campeonato Brasileiros em 1981 enfrentando,no Morumbi,sob o comando de Ênio Vargas de Andrade,um São Paulo com sete jogadores da Seleção Brasileira. Choramos todos com a comoção provocada pela vitória:Jacque,Mílton,Christian,a mãe deles,Ruth e eu.

 

A conclusão dos jogos na Arena Beira-Rio,durante os quais foram marcados 22 gols,demonstrou que a Copa,por aqui,deixou felizes os torcedores das nações que jogaram no estádio colorado e os que assistiram a bem disputadas partidas de futebol. Os moradores da Zona Sul de Porto Alegre vão,por sua vez, contar com obras que prometem facilitar acesso ao Centro Histórico e demais regiões da Capital gaúcha. A rigor,a prefeitura ficou devendo a conclusão da Avenida Tronco. Essa não progrediu porque vai ser necessário remover para outro locais moradores de casas situadas ao longo da via. Outro projeto que gorou foi o do metrô. A mobilidade urbana melhoraria muito se essa obra fosse realizada,mas não houve tempo hábil para que pudesse ter sido,pelo menos,iniciada. Vamos,a partir de sexta-feira,assistir aos jogos das Quartas de Final,torcendo,é claro,para que a Seleção Brasileira faça o que dela se espera. Ser campeã!

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, publica seu texto no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Sob o domínio do MTST

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

O churrasco comemorativo patrocinado pelo MTST na segunda-feira em frente à Câmara Municipal de São Paulo ilustra bem o poder deste movimento dentro do sistema político da cidade. O Plano Diretor aprovado na tarde de 30 de junho contempla o MTST em todas as suas mais otimistas expectativas, tanto genéricas como específicas, tanto atuais como futuras. Pois aumenta as áreas para habitações populares, incluindo terrenos invadidos pelo Movimento e regulariza favelas e loteamentos clandestinos.

 

Até mesmo a ação pontual de Itaquera, a “Ocupação Copa do Povo” foi atendida, assim como a invasão da “Vila Praia” no Portal do Morumbi, realizada com a intenção de aumentar a pressão na votação do Plano Diretor. Em Itaquera e no Morumbi não houve o mínimo cuidado da administração da cidade para cercear inicialmente as invasões, a despeito da ampla divulgação em todas as mídias. As convencionais e as sociais. No Morumbi, ao lado das notas sobre recentes assaltos na tradicional Giovanni Gronchi, surgiram por parte dos moradores muitas fotos sobre a rápida invasão do MTST no Portal, quando houve uma acentuada multiplicação de barracas e tendas. Se os moradores do Morumbi não tiveram resposta do Poder Público, receberam o recado de Guilherme Boulos, líder dos Sem Teto em declaração à FOLHA:

 

“Para desespero das madames do Morumbi, vai ter pobre do lado. Hoje nós provamos que quando o povo se organiza, a vitória vem. Que essa lição de mobilização popular continue para que essa lei vire letra morta”.

 

É hora de perguntar a Boulos não só o que entende por “madames do Morumbi”, mas principalmente por que sua entidade intitula-se Trabalhadores e como ela se mantém financeiramente.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Fora da Área: a cara da nossa torcida na Copa 2014

 

A Copa das Selfies registrou nos 48 jogos da fase de grupos o envio de mais de 32 milhões de fotos, segundo informou Ethevaldo Siqueira, no quadro Mundo Digital, do Jornal da CBN. O SindiTeleBrasil, que reúne as empresas do setor, relatou que durante essas partidas foram feitas 2,5 milhões de ligações telefônicas e em torno de 31 milhões de conexões para envio de dados. A frente de todos esses números, estão milhões de torcedores que foram aos estádios ou curtiram a festa do futebol. Para ilustrar essas marcas, convidei ouvintes do Jornal da CBN a enviarem suas fotografias pelo Twitter @jornaldacbn. Consegui reunir 77 fotos, algumas de colegas nossos da rádio como você poderá ver no painel a seguir:

 

Mais Brasil

 

Por Nei Alberto Pies
professor e ativista de direitos humanos

 

Desde a Copa de 98, escrevo sobre a realização das Copas do Mundo e a participação da Seleção Brasileira neste grande evento esportivo. Acredito que estádios de futebol representam para os brasileiros “espaços de construção de identidade, de cultivo de bons valores humanos e espaço para viver e experimentar os melhores relacionamentos”. Acredito que, em todas as Copas do Mundo, brasileiros e brasileiras fazem uma revisão de si mesmos, jogando com seu orgulho, sua cidadania e seu amor à Pátria como componentes fundamentais da identidade brasileira.

 

Em 2014 não faltaram aqueles que quiseram ensinar um novo jeito de torcer por esta nação e pelo futebol brasileiro, sendo contra aquilo que vem de nossa alma e nossa essência: o gosto pelo futebol. Mas “erraram o pulo”, pois para a imensa maioria, o futebol reflete as diferenças, os potenciais, os talentos e a criatividade. O futebol representa muito do nosso povo, de sua postura e de sua vontade de vencer e apresentar-se ao mundo.

 

O Brasil não precisa mais impressionar ninguém, em nenhum quesito, muito menos no futebol. O Brasil deve se fazer respeitar por tudo aquilo que tem de bom e todos os brasileiros deveriam orgulhar-se do país que somos. Esta é a atitude fundamental para continuarmos lutando, diariamente, por um Brasil cada dia melhor. Este imenso país possui um povo que não pode ser subestimado por sua inteligência, criatividade e ousadia.

 

O falso pessimismo que tentaram imprimir neste país tem a ver com a resistência às mudanças substantivas que ocorreram no Brasil nos últimos anos, para a maioria dos brasileiros. Tem a ver com a ampliação das possibilidades democráticas de vivermos a cidadania, nem sempre bem vistas por aqueles que se sentem donos desta nação. Tem a ver com um novo e importante advento que se aproxima: as eleições gerais.

 

Os brasileiros provam, mais uma vez, que a maior riqueza está na garra, na fé e na esperança que se fazem na luta cotidiana de cada cidadão e cidadã brasileira. Os brasileiros manifestaram que querem mais do que já conquistaram, mas sabem que não existem mágicas nem ideias “mirabolantes” que irão mudar o percurso da ampliação de sua cidadania.

 

Emprestamos nossa terra, nossa altivez e nossa cultura para a realização do maior espetáculo do mundo. Sem medo de expor ao mundo nossas contradições, durante a realização da Copa do Mundo, fomos nos alimentando daquilo que mais temos de bom. Apesar de excessos de uma minoria, unimos os nossos sentimentos de brasilidade nos mais equidistantes rincões e comunidades deste país.

 

A Copa do Mundo pode não trazer título à nossa Seleção, mas já nos trouxe de volta o que queriam nos tomar: a fé e a esperança de que nosso país vai dar certo! Brasileiro de verdade acredita no Brasil e age nas horas certas. Sabe que este país tem uma enorme dívida com a cidadania e com a falta de oportunidades para com a maioria dos brasileiros: pobres, explorados, sem estudo, sem trabalho, sem saúde, sem dignidade. Esta conta quem vai pagar é a nossa rica nação brasileira e quem deve exigir é a organização e a luta da coletividade, agora alimentada por um sentimento de “mais Brasil”.