De magia

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Olá,

 

ia começar a falar sobre não ter a mínima ideia do que dizer, quando apareceu ‘ olá ‘, num girar das pás do ventilador de teto sobre a minha escrivaninha. Palavra só de três letras: o, l e a, que formam também alô, lá e Ló do personagem bíblico do Antigo Testamento e do pão de ló.

 

Salva pelo trio, ‘o, l e a’, que também trago no nome, vou procurar um ritmo. OLÁ tem três letras no nome e, ainda assim, é bissílaba: O-LÁ. Duas batidas ta-ta. O mesmo com A-LÔ.

 

Mar e Sol, no entanto, com três letras cada uma, são monossílabas: mar – uma batida – ta. E aí já faço um SOM (que também é monossílabo) ta tata ta tata ta tata, batendo no tampo da mesa. MAR OLÁ, SOM, ALÔ.

 

e palavras vêm chegando
aos borbotões
me fazendo de escrava
definindo meus bordões

 

enchem a sala toda
trazendo
mar
levando
com elas
meu ar

 

como dizer não
agora não
como não abrir
a elas
as portas
como fechar
lhes
as janelas

 

E se ao se oferecerem e se virem rechaçadas, porventura, se ofenderem? É um risco tremendamente arriscado, um texto arisco que vai acabar todo riscado, no fundo do cesto, coitado.

 

Mas com você que está aí do outro lado, quero compartilhar um pouco da paz que sinto, que acalma e revigora. Magia a cada Bom Dia. Então me recosto e ouço as palavras que chegam faceiras, sorridentes, falantes.

 

Mar traz amar que ensina a calar esperar escutar aninhar respeitar sonhar.

 

E então me calo.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Mundo Corporativo: cruzando culturas sem ser atropelado

 

 

A cultura nacional pesa mais do que a cultura organizacinal, apesar de os donos das empresas não gostarem disso. E o fato de muitas vezes não entenderem essa relação é que leva a choques culturais que podem ser fatais para o destino de uma organização. A opinião é de Fernando Lanzer, consultor de empresas, que foi entrevistado pelo jornalista Mílton Jung no programa Mundo Corporativo, da rádio CBN. Ele explica que as empresas passaram a perceber essas diferenças e a discutir o tema a partir das décadas de 70/80 quando surgiu o processo de globalização. Lanzer é autor do livro “Cruzando culturas sem ser atropelado – gestão transcultural para um mundo globalizado”, lançado pela editora Évora.

 

O Mundo Corporativo vai ao ar, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, no site http://www.cbn.com.br com participação dos ouvintes pelo e-mail mundocorporativo@cbn.com.br, pelo Twitter @jornaldacbn ou com perguntas feitas no grupo de discussão Mundo Corporativo na CBN do Linkedin. O programa é reproduzido aos sábados, no Jornal da CBN.

A simplicidade é um luxo

 

Por Ricardo Ojeda Marins

 

 

Carros, joias, aviões particulares, roupas, sapatos e outros bens caríssimos. Não há dúvidas que esses itens nos remetem a pensar em luxo, ou mais que isso, são associados ao luxo. Cada vez mais, porém, esse exigente consumidor busca algo muito além de produtos. Sabedoria, paz de espírito e simplicidade, por exemplo, são desejos que estão na lista de privilegiados do mundo contemporâneo.

 

Como o luxo em si, a simplicidade também é subjetiva. Pode ser um fim de semana em spa exclusivo, um retiro espiritual em hotel de luxo no Butão, uma viagem de balão na Capadoccia, aulas de gastronomia com um Chef em resort na Toscana ou a degustação de café preparado por você mesmo. Pode ser, simplesmente, admirar o pôr do sol em destinos cuidadosamente selecionados.

 

A simplicidade pode ser tanto um artigo de luxo como um produto Premium: imagine pipocas cobertas de chocolate da Chocolat du Jour, as guloseimas mais simples da Bolo à Toa ou, até mesmo, as sandálias Havaianas, consideradas Premium principalmente na Europa e Estados Unidos.

 

 

E não se engane, a simplicidade pode ser cara. Atente-se ao SHA Wellness Clinic, hotel de luxo em Valência, na Espanha, considerado um dos mais exclusivos complexos de Spa da Europa, com uma vista privilegiada para o Mar Mediterrâneo. Com diárias de hospedagem que se iniciam na faixa de 300 euros, ali pode-se cuidar do corpo e da mente através de tratamentos de beleza e desintoxicação, além de se entregar aos prazeres da gastronomia e participar de atividades como mergulho, esqui, golfe e passeios de barco.

 

A simplicidade está presente no olhar do cliente, no que ele almeja ao buscar um determinado serviço. Nos benefícios adquiridos, no seu bem estar, na realização pessoal, no sentimento de ser único ao receber tratamento personalizado, com suas necessidades e desejos realizados.

 

O luxo deslocou-se para o subjetivo universo do consumidor, repleto de sentimentos, necessidades e valores que envolvem especialmente o aprimoramento sociológico das pessoas.

 

Sim! A simplicidade também exige o maior grau de sofisticação.

 

Ricardo Ojeda Marins é Administrador de Empresas pela FMU-SP e possui MBA em Marketing pela PUC-SP. Possui MBA em Gestão do Luxo na FAAP, é autor do Blog Infinite Luxury e escreve às sextas-feiras no Blog do Mílton Jung.

Conte Sua História de SP: coisas que não existiam no Egito

 

Por Nadine Vogel
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Dia 17 de setembro de 1957.

 

Chegamos em Santos, após uma viagem de 25 dias. Eu tinha 2 anos. Ficamos atordoados com a quantidade de gente no cais: homens, mulheres, crianças, brancos, negros. Isso não havia no Egito. País que por questões políticas havia nos expulsado.

 

Viemos para cá porque minha tia, irmã mais velha de minha mãe, estava aqui. Ela nos havia jurado que São Paulo era uma cidade grande, cheia de oportunidades. Meus pai vieram muito ressabiado, trouxeram uma bagagem enorme e dentro delas latas de óleo, louça, máquina de costura. Nunca havíamos ouvido falar de Brasil e muito menos de São Paulo.

 

Meus tios foram nos pegar em Santos, mas tivemos que deixar nossas 25 malas num guarda malas, pois não cabiam no ônibus. Pegamos a estrada e depois o bonde e chegamos na Vila Mariana, onde minha tia morava, lá no Edifício Amarante.

 

Meu pai disse em árabe:
-Essa cidade é grande!

 

No dia seguinte saiu de casa para procurar emprego. Saiu apenas com o número dos ônibus que deveria tomar e com o endereço do edifício Amarante. Número de telefone? Apesar da pujança da cidade, telefone era só para pessoas muito ricas.

 

Estávamos assustados, era noite, e meu pai não havia chegado. Até que a campainha tocou e seus alhos azuis brilhavam muito. Não era um brilho só de agradecimento, era de surpresa. Ele nos contou que havia tomado o ônibus errado e se desesperou. Um padre franciscano ofereceu-se para ajudá-lo. E o acompanhou até a porta.

 

Meu pai gritava, em árabe:
– Essa cidade é maravilhosa!

 

As coisas melhoraram. Conseguimos alugar um pequeno apartamento na 9 de julho. Era demais morar próximo do Viaduto do Chá, do Vale do Anhangabaú – afinal era lá que todos faziam suas compras. O bairro era ótimo. Íamos as festa na Rua Avanhandava, Manuel Dutra, Rocha e voltámos de madrugada a pé. A cidade era segura, apesar da iluminação amarelada da avenida. Um dia alguém entrou em nosso apartamento enquanto estávamos passeando na Praça 14 bis, mas isso não abalou nossa confiança.

 

Minha irmã começou a trabalhar, minha mãe, também, como balconista na Augusta, uma rua super luxuosa. Meu pai vendia canetas tinteiro. Mais tarde, passou a vender esferográficas. Em época de férias, eu saia com ele pelo centro e visitava todos os caneteiros, seus clientes. Era divertido, aquele centro apinhado de gente num vai e vem que atordoava a todos. Olhava as mulheres chiques chegando de carro para tomar o chá no Mappin; a variedade de mercadorias nas lojas If, Modélia, Americanas e no Esportes Moura, me enlouquecia.

 

Quando eu me mostrava assombrada diante da vitrine, meu pai dizia, em árabe:
-A cidade é grande e maravilhosa!

 

Eu andava de mãos dadas com ele, com medo, mas segura; eu fazia parte dessa grandeza.

 

O fim de semana era demais. Ia aos Sábados na feira. Lá na Praça Roosvelt. Tinha de tudo; frutas, verduras, roupas, sandálias, mas as bijuterias eram irresistíveis.

 

– Que cidade! Tem tudo que precisamos!
Cada vez mais tinha a certeza que éramos muito felizes aqui.

 

O domingo era meu dia preferido. Minha mãe e minha irmã ficavam em casa preparando comida e costurando nossas roupas na máquina Singer, que veio conosco do Egito. E eu me aprontava logo cedo. Era dia de visitar a TV Excelsior e assistir ao programa de auditório “Jardim Encantado” apresentado por Clarice Amaral e Vicente Leporace. Andava feliz na rua com meu vestido novo, cheio de babados, e o sapato comprado nas lojas do centro. O trajeto era longo, e longa era a fila que deveríamos enfrentar para assistir ao programa, mas isso não importava, afinal estávamos em São Paulo.

 

Nadine Vogel é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra aqui no Blog.

Nove dicas (e mais uma) para criar senhas seguras

 

 

Em questões de segundos, o dinheiro da conta vai parar no cartão de viagem e do cartão de viagem no caixa do comerciante. A operação eletrônica envolve meu computador e o terminal de pagamento da loja. No computador, acesso minhas contas bancárias no Brasil e dependendo a instituição são exigidas uma ou duas senhas, o token eletrônico e algumas confirmações de datas de nascimento. No terminal de compras, basta deslizar o cartão e assinar o recibo na própria maquininha, sem necessidade de apresentar qualquer identificação ou senha. Mais rápido do que colocar as compras nas sacolas de plástico usadas aos borbotões por aqui, tanto quanto no Brasil, apesar das várias campanhas pelo consumo sustentável.

 

A vida ficou muito mais fácil com o uso dos meios eletrônicos, pois somos capazes de fazer transações sem por a mão no dinheiro e pagamos contas à distância, como tenho feito quase todos os dias aqui dos Estados Unidos. Ainda agora agendei o pagamento do IPVA através da minha agência eletrônica que armazenava todos os dados do meu carro (principalmente o número do Renavam) que está no Brasil, graças a transação feita no ano passado.

 

Tudo isso pode se transformar em transtorno caso você seja alvo de hackers dispostos a roubar seus dados, seu dinheiro e tranquilidade. Apesar de estar ciente de que não existem senhas totalmente seguras nem sistemas imunes a ataques, é sempre importante tomar alguns cuidados. O serviço No-IP relacionou nove dicas para se reduzir o risco de fraude eletrônica:

 

1. Não seja preguiçoso e evite as senhas mais comuns:

 

123456
123456789
password
admin
12345678
qwerty
1234567
111111
photoshop
123123
1234567890
000000
abc123
1234
adobe1
macromedia
azerty
iloveyou
aaaaaa
654321

 

2. Embaralhe tudo e escolha senhas com letras, números e símbolos (!, #, %)

 

3. Esqueça seus dados: evite usar dados relacionados a você, como nome do animal de estimação, data de nascimento ou suas iniciais.

 

4. Exercite sua memória: escolha uma senha para cada serviço.

 

5. Deixe o dicionário de lado: nunca use palavras encontradas nos dicionários. Você pode substituir o L’s por 1’s ou O’s por 0’s

 

6. Escolha senhas com oito caracteres ou mais (isso me faz lembrar meu irmão que em Porto Alegre tem senha de acesso ao wi-fi caseiro maior do que o poema Navio Negreiros, do Castro Alves)

 

7. Use o teclado virtual quando entrar com a senha. Esses teclados não deixam programas espiões capturar a informação

 

8. Use uma sequência de palavras aleatórias, como as sugeridas por xkcd Password Generator. Isto pode parecer difícil de lembrar (e é mesmo), mas existem estratégias para memorizar a senha (leia esta história em quadrinhos). Adianto-lhe que não consegui entender.

 

9. Use um protetor de senhas como Keepass, LastPass ou 1Password – programas de gerenciamento de senhas que vão ajudá-los a gerenciar suas senhas com segurança. Suas senhas são armazenadas por trás de uma senha mestra. Você só precisa se lembrar de uma senha para acessar o restante. Estes programas irão até mesmo gerar senhas seguras para você usar.

 

Se me permite, acrescento a dica de número 10: reze toda noite antes de dormir, diante de tanta facilidade e fragilidade “só Deus salva!”

Resultado com faixas exclusivas de ônibus causa desânimo

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

A CBN, há uma semana, dentro do programa de análise do primeiro ano da gestão Haddad, entrevistou o engenheiro e mestre em Engenharia de Tráfego Prof. Sergio Ejzenberg da USP, que trouxe significativos subsídios ao tema da mobilidade urbana na cidade de São Paulo. Com o objetivo de ampliar o uso do transporte coletivo, Haddad aumentou a área destinada aos ônibus através de faixas e corredores exclusivos, chegando a 290 km. Ao mérito de atacar um dos principais entraves da cidade, o desânimo do resultado, pois não houve progresso, talvez retrocesso.

 

À complexidade do problema, o Eng. Ejzenberg simplificou a solução. Segundo ele, o aumento da área de circulação dos ônibus apenas trouxe mais rapidez aos atuais passageiros, o que não resolveu a questão da mobilidade, pois não houve acréscimo na frota. A meta não é a velocidade, é a capacidade. Para aumentar a capacidade é preciso aproveitar melhor o espaço colocando de 500 a 600 veículos por hora em cada uma destas áreas reservadas, enquanto estão sendo usados apenas os mesmos 30 ônibus por hora. O ônibus chega ao destino em menos tempo, mas não sai outro a seguir. Ao ocupar mais espaço com o transporte coletivo, Haddad reduziu o espaço para os automóveis. Além de não conseguir a transferência de passageiros dos automóveis para os ônibus, piorou as condições de tráfego para os usuários do transporte privado. Fato grave, não tanto quanto ao discutível aspecto econômico, pois são as pessoas que movem valores maiores no trabalho, mas pela quantidade. Metade da população usa transporte coletivo e metade usa transporte privado.

 

E como desgraça pouca é bobagem, ainda poderemos ter a proibição dos táxis circularem pelos corredores. Já são subutilizados e poderão ficar ainda mais, enquanto os automóveis disputarão espaços cada vez mais reduzidos.

 

Esse farto e valioso material deixado pelo Eng. Ejzenberg nesta entrevista à Fabíola Cidral ainda provou que ninguém é perfeito, porque o Professor depois de apontar tantas falhas deu nota 8 ao primeiro ano da gestão Haddad.

 

Ouça aqui a entrevista que foi ao ar no CBN São Paulo:

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Aeroporto são feitos para funcionar; quando não funcionam …

 

 

Aeroportos são feitos para funcionar, tanto quanto os aviões. Problemas técnicos ou falhas no gerenciamento de crise costumam provocar grandes prejuízos (até mortes, no caso dos aviões): negócios deixam de ser realizados, reuniões não ocorrem, agendas sofrem transtornos e sonhos não se realizam. Especialmente no período de férias, expectativas de famílias inteiras são frustradas, pessoas que se reencontrariam têm de estender a saudade, e planos, às vezes construídos por um ano inteiro, outros por toda uma vida, são adiados. Fora os momentos que nunca mais serão vividos (ou sentidos) pelos passantes.

 

Há situações, porém, inevitáveis, para as quais aeroportos e aviões têm de estar preparados. Nos Estados Unidos, onde estou nessas férias, turistas vivem um cenário de intranquilidade, para dizer o mínimo. Todo dia, milhares de voos são cancelados devido as nevascas que atingem parte do país, que enfrenta um dos seus mais rigorosos invernos. Algumas temperaturas beiram o absurdo, termômetros marcaram -40ºC, em Minnesota, e a sensação térmica pode chegar a -51ºC, em Chicago. Onde estou, mais ao leste, a neve foi intensa e curtimos um inverno de aproximadamente -20ºC, aulas não foram reiniciadas depois dos feriados de Natal e Ano Novo e muitos trabalhadores ficaram em casa. A possibilidade é que o frio permaneça intenso por mais alguns dias.

 

Domingo passado, a caminho do aeroporto La Guardia, em Nova Iorque, cruzamos por painéis eletrônicos anunciando o fechamento do aeroporto JFK, que fica um pouco mais à frente. Logo me solidarizei com as centenas de brasileiros sem condições de retornar para o Brasil, conforme havia lido em reportagens horas antes na imprensa local. Soube depois que um avião da Delta derrapou na pista sem causar danos, mas espalhou neve e medo na tripulação e nos passageiros. A mesma empresa domina os terminas C e D do La Guardia, aeroporto que tem voos mais curtos do que o JFK, e de onde pretendíamos seguir para Burlington, cidade que está a meia hora de uma estação de esqui, Stowe, no Estado de Vermont. Depois do check in feito, malas despachadas, bilhetes na mão e todos assentados na sala de embarque fomos informados que o voo estava cancelado. Mais informações no guichê à direita, orientou o funcionário da Delta. Não demorou muito para percebermos que a diversão ficaria adiada para as próximas férias. Não havia lugar nos voos para os dias seguintes e menos ainda a garantia de que estes conseguiriam decolar em direção à Vermont.

 

E agora você começará a entender porque iniciei este texto reforçando a ideia de que os aeroportos foram feitos para funcionar. Os daqui dos Estados Unidos costumam andar muito bem levando em consideração o número de passageiros e voos diários, além da complexidade de se atender um pais com essas dimensões e o trauma de atentados. É o que se espera de qualquer aeroporto do mundo: atendimento rápido, serviço de qualidade, conforto para o embarque, organização e segurança. O problema é que existem fatores que fogem do controle de seus administradores como as intempéries: vento forte, nevoeiro, chuva ou neve intensas. E para essas tem de se ter um plano de contingenciamento que ofereça o mínimo de respeito aos passageiros, vítimas de todo este processo e, afinal de contas, quem financia o negócio.

 

A experiência que encarei no La Guardia não me dá garantias de que os administradores estejam prontos para essas dificuldades. O valor da passagem, disseram os funcionários, será restituído, bastando fazer contato com a empresa por telefone. Tudo muito simples (e em 20 dias úteis, me parece). Tanto quanto seria para resgatar minhas duas malas que, soube depois, deveriam ser devolvidas em até uma hora e meia. A primeira apareceu uma hora depois em uma esteira rolante de outro voo no terminal em que eu pretendia embarcar. A segunda foi protagonista de uma aventura que me levou a visitar mais três terminais por mais de uma oportunidade, entrar na fila de reclamações quatro vezes – algumas enormes (as filas) – e perceber como é vulnerável o sistema de segurança. Vários passageiros a espera das malas assim como várias malas a espera de passageiros formavam um cenário caótico. A argentina soube que suas malas tinham seguido para Vermont, o polonês teve a garantia de que as suas estavam por ali, em algum lugar qualquer, provavelmente acompanhadas pela minha mala que a atendente, bastante simpática, tinha certeza de que permanecia no aeroporto, apenas não sabia onde. Foram cinco horas de espera até ser informado de que algumas malas teriam sido entregues em terminal próximo dali e, se eu tivesse a sorte, a minha estaria por lá. Dei sorte.

 

Aeroportos foram feitos para funcionar, mas quando não funcionam, têm de estar prontos para gerenciar crises e oferecer o mínimo de transtorno possível ao passageiro que, convenhamos, já teve frustração suficiente ao não alcançar seu destino.

 

PS: com as malas de volta e roteiro modificado, minhas férias vão muito bem, obrigado. E os patrícios estão mais tranquilos por saberem que não me arriscarei em uma pista de esqui, novamente. Ao menos, por enquanto.

Tyson diz trocar desejo pelas drogas pelo de ser uma pessoa melhor

 

 

Semana passada, ao escrever sobre MMA aqui no blog trouxe minhas lembranças das lutas de boxes e citei Mike Tyson como ponto final pela admiração que tinha com o esporte. Por coincidência, lendo The New York Times, no fim de semana, me deparo com artigo assinado pelo ex-boxeador no qual fala das tradicionais resoluções de Ano Novo, ponto de partida para tratar de sua maior luta: o vício com drogas e bebidas.

 

Tyson diz que, por ser viciado, faz parte de um grupo que não pode se dar ao luxo de fazer promessas que não mantêm: “a disciplina não é algo por que lutar a cada ano novo – é necessário a cada momento”. Apesar dos pesares, considera-se disciplinado, lição que aprendeu com seu primeiro treinador, Cus D’Amato, com quem trabalhou duro para se tornar o mais jovem campeão dos pesos pesados na história, quando sacrificou boa parte de sua vida social como adolescente e durante anos exigiu de seu corpo ao extremo todos os dias. D’Amato morreu um ano antes de Tyson conquistar o título mundial, em 1986, e com ele se foi o cara que o mantinha sob controle e distante das drogas e bebidas.

 

Tyson conta que os anos de sucesso foram os mais perigosos de sua vida, pois ouvir “você é um Deus” ou “seu retorno é incrível” detonava a certeza de que ele era capaz de beber, se drogar e se conter quando quisesse. Ledo engano. “Quando estava no auge de minha carreira, tinha um sistema de apoio ruim. Abutres gananciosos estavam em volta de mim, colocando suas mãos nos meus bolsos, usando meu status para seu ‘auto-engrandecimento’. Não havia como vencer assim” – escreve. O ex-boxeador conta que estava sóbrio por cinco anos quando teve um deslize e voltou a beber novamente em agosto do ano passado. Em lugar de se esconder, seguir “alto” até se deparar com uma prisão ou um acidente de carro, depois de três dias, ele buscou ajuda, sem necessidade que houvesse uma intervenção: “eu tinha aprendido na terapia a não bater em mim mesmo. Eu lembrei que a recaída é parte da recuperação”.

 

O caminho da humildade e do reconhecimento de sua fraqueza, diz Tyson, o faz se sentir muito melhor: “tive de substituir o desejo por drogas ou álcool pelo desejo de ser uma pessoa melhor”. Encerra o artigo desejando que todas as resoluções mais bem-intencionadas se realizem em 2014. Que as de Tyson, que parece estar construindo uma nova história vencedora, também se concretizem.

 

Conte Sua História de SP: as carroças da Visconde de Parnaíba

 

Por Darcy Gersosimo
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Durante oito anos de minha vida, de 1942 a 1950, moramos na Rua Visconde de Parnaíba, no Brás. Naquela época, São Paulo era tão diferente … A Visconde de Parnaíba era tida como muito movimentada devido ao tráfego de automóveis, caminhões, carroças puxadas a burros ou cavalos de padeiros, leiteiros, verdureiros, que trabalhavam nas empresas Matarazzo e Souza Cruz. Além da linha de ônibus Belém, número 24, cujo ponto era na Praça Clóvis Bevilaqua, defronte ao Palácio da Justiça.

 

Era uma alegria quando mamãe, por algum motivo nos levava para as avenidas Celso Garcia e Rangel Pestana, andando para ver as vitrines das lojas que estavam em toda sua extensão. Eram de calçados, tecidos, armarinhos, presentes, vestidos de noiva, chapéus para senhoras e senhores, flores de seda. Tinha a Pirani -a Gigante do Brás -, as Americanas … Passávamos pela Igreja de São João Batista, em cujo Largo havia um bebedouro para cavalos. Na esquina da Rua Bresser, no bar “O Garoto”, comíamos um pedaço de pizza feita na hora. Que delícia…

 

Nessas avenidas existiam cinemas famosos como o Universo, Roxi, Brás Politeama, Piratininga. Havia também a Escola Normal Padre Anchieta, com as normalistas vestidas de azul e branco, como cantava Nelson Gonçalves, e o Grupo Escolar Romão Puiggari, com seus alunos uniformizados. Os “studios” fotográficos registravam nosso desenvolvimento físico, anualmente. Tenho diversas fotos do “Foto Stúdio Progresso”, na rua de mesmo nome. Às vezes, chegávamos até o Largo da Concórdia, onde as quermesses eram realizadas com barracas de jogos de argolas e do coelhinho que entrava na casinha (ou não). Ali ficava o Teatro Colombo e bem próximo o tristemente famoso Cine Teatro Babilônia. Eu admirava um lindo palacete na Celso Garcia onde estava instalada a 8a. Delegacia de Polícia. Hoje, o imóvel está em completo abandono, que pena! Antes de ir para casa, fazíamos uma rápida visita à Tia Izabel que morava no número 900, da mesma avenida. Nesse imóvel, na frente da casa, meu tio montara uma loja de venda de discos e conserto de rádios (aqueles de válvulas). Ainda não existiam LPs, nem TVs.

 

Depois do cafezinho, voltávamos para casa.

 

Darcy Gersosimo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você também pode contar mais um capítulo da nossa cidade. Mande seu texto para milton@cbn.com.br ou marque entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistória@museudapessoa.net. Ouça outras histórias de São Paulo aqui no Blog do Mílton Jung

De oponente

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung