Por Carlos Magno Gibrail

Há cem anos, a Cia. City iniciava um novo conceito urbanístico para as cidades de Londres e São Paulo: “Harmonizar o urbano com o humano”. Era a ideia da cidade jardim, onde o homem pudesse viver em residências construídas em ruas exclusivas, que limitassem pelo seu traçado o tráfego de veículos. Assim surgiu, vigoroso e formoso, o Jardim América na capital paulista. Pacaembu, Alto de Pinheiros e, posteriormente, Morumbi receberam o mesmo tratamento urbanístico.
Primeiro o automóvel, o inimigo aparente, depois o crime inimigo transparente e, agora, a especulação imobiliária, inimiga camuflada, são as grandes ameaças ao protótipo original. A novidade mais recente: o apoio da mídia. Talvez até com lobby e patrocínio das construtoras e imobiliárias paulistanas.
A revista Veja São Paulo do dia 30 não se fez de rogada e com a manchete “Duro de vender” utilizou duas páginas a dedurar com fotos algumas residências “invendáveis”. Uma delas há dez anos à venda. A segurança é um dos fatores determinantes alegados pela reportagem. O Estadão de domingo não deixou por menos e atacou de caderno imobiliário: “Preço de casa de alto padrão despenca”. Alegando que o alto custo de manutenção e as ondas de assaltos são as causas da queda.
Entretanto, toda esta cantoria está mais para o fator COPA 14 do que para uma abordagem policial.
De um lado, o aspecto da segurança é efetivamente crescente. Porém não é exclusivo de casas em bairros residenciais. Edifícios e condomínios horizontais apresentam conhecidas vulnerabilidades.
De outro lado, é visível a carência de áreas na capital para novos empreendimentos verticais ou mesmo horizontais. Os tão “populares” condomínios de luxo. Galinha dos ovos de ouro dos construtores da cidade.
Igualmente, o cidadão urbano atual, tende a se enclausurar cada vez mais em condomínios e abdicar do “urbano humano” preconizado pelos ingleses da Cia. City.
A continuar nesta tendência, São Paulo abdicará da ultima área verde, mantida pela região residencial. Com o apoio das incorporadoras, do governo, da população cada vez mais urbana e menos humana. E com o meu protesto. Aqui e agora.
Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung