Corinthians, devolve minha alma roubada

Sou torcedor forjado a sofrimento e lágrimas, acostumado a lutar sempre e não aceitar a derrota mesmo quando esta é inevitável e a vitória, injustificável. Estou sempre disposto a mais uma conquista sabendo que esta somente será alcançada após driblar todos os percalços e no último minuto do jogo, se preciso for que seja no tempo extra. Foi assim que aprendi a me contorcer nas arquibancadas do Olímpico Monumental – no início apenas Olímpico -, empurrando a bola pela linha de fundo para impedir o ataque advesário, chutando o encosto da cadeira da frente para ajudar o volante a despachar o perigo e de bico enfiar a bola onde o goleiro não alcançará jamais. Nunca me iludi com os elogios ao futebol-maravilha, arma preferida de comentaristas e “especialistas” contra o futebol de verdade, aquele que rende títulos e emoção. Desdenham do time viril, bravo e competitivo que alcança sua meta, seja esta qual for, quando deveriam compreender que em campo não há mais espaço para firulas, lances rebuscados e goleadas – e na me venha com as exceções, estão aí apenas para confirmar a regra. Reclamam de jogadores limitados e placares espremidos. E daí ? Futebol é sangue, suor e camisa rasgada.
Chega-se a mais um título brasileiro nestas condições. Não se tem futebol de sobra nem jogador para ser chamado de craque. Tem-se um grupo de guerreiros dentro de campo e uma torcida alucinada do outro lado do alambrado. No banco, o técnico xinga, esbraveja, esmaga o rosto com as mãos, faz substituições para enfeiar a partida se isto for necessário no caminho da vitória. Sabe que todo drible será esquecido se esta não for alcançada e gol do título só serve para agradar programa de televisão. Por isso, se precisar que se vença de 0 a 0.
Caro e raro leitor deste blog (cada vez mais raro), estou feliz pela conquista que a Alma Tricolor alcançou nesta temporada de 2011. Aprendi seu significado e como esta contamina jogadores, técnicos e torcedores transformando-os em campeões lendo o filósofo do futebol Eduardo Bueno, o Peninha, no livro “Grêmio: nada pode ser maior”. É lá que se descobre que esta Alma foi campeã Mundial em 1950 vencendo o iluminado Brasil, no Maracanã; destroçou a Holanda em 1974 e 1978; conquistou a Copa de 2002 contra os badalados alemães; foi a maior e mais forte – nunca a mais talentosa – nas Libertadores de 1983 e 1995, no Mundial de Tóquio, em 1983 e nas muitas Copas do Brasil, em especial a de 2001, que tive oportunidade de comemorar no microfone com os gritos de gol no 3 a 1 contra o Corinthians, no Morumbi – estas últimas todas vestindo a sua tradicional camisa azul, preto e branco.
Neste ano, a Alma Tricolor, sabe-se lá porque os Deuses do futebol assim quiseram, fardou-se de corintiana e acaba de se transformar Campeã Brasileira, sem marcar gols, brigando com o adversário, reclamando do juiz mesmo que ele esteja certo, sofrendo ataques no poste e no travessão, e comemorando ao fim de tudo sob a batuta de um maestro que construiu sua imagem no Monumental, Tite. Fim de temporada, me cabe apenas um pedido ao Corinthinas que festeja merecido título: devolva-me a alma roubada – está fazendo uma falta danada para a turma da Azenha.
N.B: O futebol jogado, a vitória do Corinthians e a temporada de lamentos gremistas nada mais importam diante do minuto eterno de respeito que devemos a Sócrates e sua família. Um jogador que incluiu o calcanhar no vocabulário do futebol e a política no vestiário da bola. Ele também tinha Alma Tricolor.
De crime e castigo
Por Maria Lucia Solla

Ouça De crime e castigo na voz e sonorizado pela autora
Por que coisas ruins acontecem a pessoas boas é o título de um livro que li há muito tempo. Do conteúdo só me lembro o título, um mistério que me fascina, levada em caríssima conta a relatividade dos adjetivos ruins e boas. Me distancio, aperto bem os olhos, olho para o mistério dos acontecimentos, tento enquadrar uma tela onde o desenho do que percebo faça algum sentido, mas o desenho muda, muda sem trégua, e não vejo sombra de definição antes que uma cena tome o lugar de outra, e outra e outra.
Quem sabe? Se é que existe resposta que não mude de feitio no mesmo ritmo em que se cria a próxima pergunta. Ontem aquela ruga não estava ali, a dor do abandono também não. O novo amor, que parecia que nunca ia chegar, chegou e já foi embora também, como todos os amores de todos os tempos, de todos os mundos. Como tudo. Tanto chega e tanto vai, o movimento é contínuo; dele é feita a vida, mas a gente não passa incólume. Se permite marcar, se permite impressionar. E o registro se modifica também, como foto velha que desbota. A dor do parto cresce para ser lembrança de alegria; uma ou outra alegria, que estava na caixinha de pronto socorro contra a tristeza, foi se perdendo pelo caminho, e quando mais a gente precisa dela, cadê?
O Deus que mora em mim, e em quem eu moro, não tem fraqueza humana; é equilíbrio puro, na essência da pureza jorrada da fonte. Lá onde ela não nasce porque sempre jorrou. Ele não mantém um diário, ou blog, onde anota cada falha tua, cada escorregão meu para depois enviar-nos a sua ira em forma de dor. Sei que ruim e bom são faces da mesma moeda que nos serve de chão; agora, o difícil é deixarmos de ser a criança mimada que sofre a cada coisa que não acontece a seu contento. Somos pirralhos batendo os pés. Por isso sofremos. Não somos santos nem bandidos.
Não sei você, mas eu tenho a tendência de melhorar o ruim e enfeitar o bom. Para esse eu tenho sempre tempo e disposição para mais um retoque. O ruim da história é que à medida que camuflo as crateras, ando em círculo e caio no mesmo buraco. Aí, dói.
Sou inteligente, dura na queda, mas aprendo a viver devagar demais. Fico tentando puxar a vida para a minha estrada, quando o indolor seria andar livremente explorando quantas alamedas pudesse. Cabeça mais rápida que o coração. Imagino uma ponte entre os dois e tento mandar o conhecimento ponte adentro, estrada a fora, para chegar ao coração, onde tudo se concretiza, porque é só quando ele entende, quando ele aprende, que teoria cresce e vira compreensão.
Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung
Nós amamos sapatos
Por Dora Estevam
Que as mulheres amam sapatos mais que tudo nesta vida não é nenhuma novidade, mas convenhamos, hoje em dia, tem cada modelo de sapato que não dá para se apaixonar. Não é porque é de marca que temos de comprá-los ou aceitá-los.
Vou dar um exemplo: tem um modelão do estilista Christian Louboutin que é tão grosseiro que não dá para entender como saiu do forno.

Mas eu posso interpretar à minha maneira: Sr. Louboutin, assim como nós, também tem seus dias de pouca inspiração, aquele em que se erra a mão. Todas nós erramos. Sir Louboutin, na maioria das vezes, faz as mulheres se apaixonarem pelas suas criações, uma mais linda e mais cara que a outra. As vitrines são um verdadeiro paraíso para as endinheiradas. São os sapatos mais desejados do mundo, creio.

Voltando aos modelos, tenho visto nas fotos de moda de rua de Paris, Londres e Milão algumas sandálias com saltos tão diferentes. Elas usam no dia-a-dia sem a menor culpa, ou dor nas costas, aparentemente. Eu sei que tem mulher que não gosta de sair de casa sem salto, mas têm muitas outras que não usam mais salto, só sapatilhas ou chinelos, por vários motivos: dor nas costas, depois de ter filhos e conforto, entre outros.

Agora, o bacana de tudo isso é acompanhar os desfiles e ver o que os estilistas estão propondo e se for do seu agrado aproveitá-los. No desfile de verão Yves Saint Laurent, para 2012, foram lançados sapatos com umas placas de metais em cima do peito do pé, são chiquérrimos. São bonitos e têm uma cara de confortável.

Por aqui as vitrines estão todas recheadas de sandálias de verão: muito coloridas como laranja, amarelo e turquesa. Os bichos continuam nesta temporada, prints em cobra ou leopardo, são maravilhosas. Os scarpins em camurça também estão com a corda toda, e eu, particularmente, adoro, cai bem com calça, shorts ou saias. Como os estilistas brasileiros são criativos não faltam modelos e estilos de saltos. Das sapatilhas às sandálias, as brasileiras vão passar o verão muito bem assessoradas no quesito moda.
Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda, ao sábados, no Blog do Mílton Jung
Mundo Corporativo: olho de Tigre pra vencer na selva
O Mundo Corporativo pode não ser uma selva, mas é importante desenvolver seu instinto de sobrevivência, por isso o gestor Renato Grinberg sugere: tenha um Olho de Tigre. Ele conta quais os métodos que devem ser implantados para você desenvolver esta atitude vencedora na sua carreira e negócio. Na entrevista ao Mundo Corporativo, Grinberg descreveu sete características fundamentais para o profissional ter sucesso: autoconhecimento, traçar objetivos, dedicação e resiliência, criatividade na resolução de problemas, identificar oportunidades, networking e saber se posicionar. Renato Grinberg é presidente da Trabalhando.com no Brasil, um site de emprego, no qual são oferecidas mais de 120 mil vagas, e lançou o livro “A Estratégia do Olho de Tigre”, pela Gente Editora.
O Mundo Corporativo é apresentado às quartas-feiras, às 11 horas, no site da rádio CBN, com participação dos ouvintes-internautas pelo Twitter @jornaldacbn e pelo e-mail mundocorporativo@cbn.com.br. Aos sábados, o programa é reproduzido no Jornal da CBN.
Comboio dos pobres
O comboio de kombi transportando carrinhos e ambulantes, fotografado pelo ouvinte-internauta Francisco dos Santos, revela bem mais do que uma curiosa imagem do cotidiano da cidade de São Paulo. Após publicá-la no nosso álbum digital do Flickr, o colaborador do Blog Devanir Amâncio acrescentou informações que alertam para um tipo de exploração bastante comum na periferia da capital. Fiquei sabendo que comboios como esses são muito conhecidos nas áreas mais pobres da Grande São Paulo, alguns considerados suspeitos e odiados por parte desta população:
“Eles vendem queijo, ‘danone caseiro ‘, carne seca ,mel , roupas de cama,mesa e banho e muitas bugigangas. Pães não se vê mais. Vendem para receber no final do mês ou em três vezes. No Jardim Jangadeiro, Jardim Ângela, Capão Redondo, os pobrezinhos – a um passo da “classe C” – estão endividados com as “lojas ambulantes”. São como agiotas ou piores. Ai de quem não pagar. A cobrança fica por conta de um “Xerife”. Os índios, em Parelheiros, zona Sul e no Jaraguá, zona Oeste, estão devendo até a alma para os ‘ambulantes deliverys’, que poderiam ser chamados de empresários da miséria e necessidade alheia.
……
Não podemos generalizar. A maioria dos jovens (vendedores) que empurram os carrinhos, subindo e descendo morros – quase sempre – é menor de idade, se alimenta e se veste mal; tem a aparência debilitada pelo desânimo, é semi-analfabeta. Eles saíram do sertão do Nordeste e outras regiões do Brasil em busca de uma vida melhor.
Devanir conversou, também, com Dona Antônia do Grajaú, gari e moradora da zona Sul da capital. Ela disse que essa gente não tem nada dos mascates de antigamente, de Minas e Paraná. Na descrição dela, aqueles eram honestos, donos do próprio negócio: “Quando chegavam, na época da colheita, era uma festa. Dormiam na casa do freguês, parecia da família”.
Pelo que se percebe a situação é completamente diferente e beira ao desrespeito aos direitos humanos, com necessidade de intervenção do Ministério do Trabalho, Vigilância Sanitária, Polícia Militar e órgão de assistência social.
Preocupações de pai
Por Milton Ferretti Jung
Assino embaixo de tudo o que o Mílton escreveu em sua Avalanche Tricolor depois do empate do último domingo, aquele malsinado Grêmio 2 x 2 Atlético GO. O texto, como já ocorreu várias vezes, me emocionou, mas não por ter driblado com maestria o que se viu em campo (ou seria o que não se viu?), nada agradável para nós, gremistas, mas pelas reminiscências nele contidas. Ainda há tempo de lê-las. Quem não fizer isso, perderá a mágica. Ou não é pura mágica trazer de volta ao nosso mundinho o seu padrinho de casamento Ênio Vargas de Andrade, meu inesquecível amigo e, na minha opinião, o melhor técnico de futebol dos muitos cujas carreiras acompanhei. Como os times de futebol, meu filho teve uma temporada infeliz nos estudos, o que lhe pareceu uma experiência trágica. Quem leu a Avalanche ficou sabendo que Ênio, tal qual deve ter feito muitas vezes com Renato Gaúcho, colocou a mão no ombro do menino, que não tinha coragem de contar para o seu pai que precisaria repetir o ano, aconselhando-o a encarar a bronca. Não lembro, creio, porém, que as “justificáveis reprimendas” não foram das mais azedas.
No tempo em que os meus filhos eram estudantes fui um pai um tanto ausente por culpa da profissão: narrador de futebol e outros esportes. Isso me ocupava, especialmente, quando era escalado para viajar. Recordo-me que fiquei 45 dias, certa vez, cobrindo a seleção brasileira. Por isso, não podia ser muito severo com eventuais notas ruins da menina e dos dois meninos. Acho que Greg e Lorenzo, os filhos do Mílton, não causam ao pai grande preocupação como estudantes. Prova disso, está na história que o responsável por este blog contou no mesmo dia em que produziu a Avalanche Tricolor: a alegria emocionada do Lorenzo ao ver seu esforço na segunda metade do ano pelo Conselho de Classe de sua escola. Esta permitiu ao pai satisfeito produzir esta frase no encerramento do seu texto (frase que gostaria fosse lida pelos jogadores do Grêmio): “O mérito da vitória não existe para aqueles que não lutaram por ela. Ele lutou e nós vibramos muito com isso. Não posso dizer o mesmo do meu time”. Nem eu, Mílton. Pior, porém, e preciso fazer isso à guiza de desabafo, é aturar os narradores de futebol televisivos. Todos entendem que têm de imitar os narradores das rádios. Se não fizerem isso, pensam, não passarão emoção aos telespectadores.Triste engano. Parecem acreditar piamente que somos todos deficientes visuais. Dizem tudo o que vemos. E ainda nos enchem com estatísticas que nada acrescentam. O pior é que os assinantes de PPV, com eu, necessitam pagar caro para ouvir obviedades.
Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)
Mulheres que compram
Por Carlos Magno Gibrail

Na sexta-feira, o varejo norte-americano mudou os rumos da economia mundial, ao apresentar movimentação altamente positiva na tradicional promoção “Black Friday”. Quando após o dia de Ação de Graças apresenta descontos significativos.
Esta é uma medida vital para as previsões econômicas, refletindo o papel importante do sistema comercial no contexto global.
Ao observador atento cabe lembrar a personagem que aciona este mecanismo de compra. A mulher. Compradora absoluta deve ser permanentemente ouvida sobre seus desejos.
Das pesquisas qualitativas de mercado*, que encomendei à OUT OF THE BOX, sobre o comportamento de compras das mulheres, das quais desenhei estratégias e reconsiderei conceitos, destaco alguns ensinamentos:
– Todas admitem que tem seu “dia de perua”, embora reprovem em princípio: “Tem dias que eu penso assim: hoje eu vou de perua! Por exemplo, eu tenho um par de sapatos cheio de coisas, que eu gosto muito de usar, mas não uso com uma roupa emperiquitada, e sim com uma roupa básica – uma perua básica!”
– Produtos precisam sempre levar em conta o “feminino”. “A executiva não é muito inspiradora, não “anima” muito, as mulheres não tem muito que falar dela”.
– A roupa é o produto mais importante para a mulher. “A primeira coisa que penso quando acordo é na roupa que eu vou vestir”. “Por melhor que tenha sido à noite”.
– O brinco é a peça essencial. “A peça mais importante é o brinco”. “Já esqueci a calcinha e não voltei para colocá-la, mas com o brinco já voltei”.
– O aspiracional é o produto a ser vendido. “A mulher atual não quer comprar o “uniforme” da profissional, ela quer a roupa que se identifica com o aspiracional da mulher bonita, bem cuidada, bem resolvida de nossos dias”.
Neste universo, destaco a hegemonia da moda do vestuário. A inovação dos produtos regida pela natureza – primavera, verão, outono, inverno – sabiamente apreendida pelas roupas, é o grande diferencial. Atingirá certamente os demais produtos de consumo. Já acostumados à velocidade de Steve Jobs, teremos que nos adaptar a dinâmica das tendências de moda. Para a felicidade geral das mulheres que compram. Que tal automóveis de verão e de inverno para acompanhar os últimos lançamentos do SPFW (São Paulo Fashion Week)?
Bem, para quem quiser discutir pessoalmente sobre este tema, estarei abrindo o Seminário FASHION LAW em São Paulo dia 8, falando mais um pouco em Moda.
*Pesquisa realizada na cidade de São Paulo através de 1 Discussão em Grupo, junto a mulheres de classe A1/A2, na faixa dos 30/55 anos. E, através de 2 Grupos de Discussão de mulheres classe A/B, entre 25 e 45 anos.
Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung
Inspeção veicular: limpar o ar e os contratos
O artifício usado pela prefeitura de São Paulo para implantar a inspeção veicular na cidade é questionado pelo Ministério Público e está no centro de polêmica que levou ao bloqueio de bens do prefeito Gilberto Kassab e do Secretário Municipal do Meio Ambiente Eduardo Jorge e mais uma dezena de executivos da CCR, grupo que comanda a Controlar, responsável pela prestação do serviço na capital paulista. Isto, porém, não deve ser motivo para a cidade desperdiçar uma experiência interessante que será estendida para os municípios brasileiros com mais de 3 milhões de moradores. É fundamental que se analise os resultados práticos da medida que obriga toda a frota licenciada em São Paulo a passar por vistoria uma vez ao ano.
A inspeção veicular tirou do ar da cidade de São Paulo um volume de poluição equivalente ao produzido por uma frota de quase 1,4 milhão de carros, calculou o engenheiro Gabriel Murgel Branco, da empresa Enviromentality, em estudo apresentado no meio do ano. Para chegar a este número, levou-se em consideração a redução da emissão de monóxido de carbono na camada atmosférica. Em outro trabalho, o doutor Paulo Saldiva, do Laboratório de Poluição Atmosférica da FMUSP, identificou que a vistoria rendeu ao PIB paulistano R$ 55,56 milhões, cruzando os dados do quanto foi retirado da poluição do ar, o custo médio das internações na rede de saúde e o quanto o trabalho de um paulistano rende.
Apesar das avaliações positivas de especialistas, sexta-feira passada, a Cetesb divulgou o Painel da Qualidade Ambiental, no qual a poluição do ar na Grande São Paulo surge dos maiores inimigos à saúde do cidadão. Ozônio e poeira estavam mais presentes no ar em 2010 do que em 2009, conforme balanço da Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. Por exemplo, foram registrados 37 microgramas por metro cúbico de material particulado, em 2010, contra 32, em 2009.
Mesmo com a inspeção na capital, a poluição está mais presente no ar devido aos aumentos da frota de carros e do trânsito – mais carros por mais tempo nas ruas. Seria pior se a vistoria não fosse realizada, mas é péssimo, também, sabermos que todos os veículos licenciados na cidade ao lado – seja ela qual for – roda por aqui sem nenhum controle. Sem contar que a falta de fiscalização efetiva permite que “carros fantasmas”, na maioria mais antigos, poluam o ar sem qualquer punição.
Digo isso para concluir que a suspeita de erro nos procedimentos de contratação da empresa que faz a inspeção em São Paulo, denunciado pelo Ministério Público Estadual, não deve ser motivo para suspender definitivamente o programa na capital. Que se limpe os contratos, assim como a inspeção pode ajudar a limpar o ar.
Conte Sua História de SP: Zuzu e Darwin
No Conte Sua História de São Paulo, Zuleide Oliveira Monteiro de Castro, nascida em 1948, na capital. Aos 12 anos conheceu o amor da sua vida. Eles quase dançaram juntos na festa junina da segunda série, mas alguém se intrometeu no romance, como ela contou ao Museu da Pessoa, em outubro de 2008:
Ouça o texto que foi ao ar no Conte Sua História de São Paulo, sonorizado pelo Cláudio Antonio
Fui da primeira turma da Escola Estadual Wolny de Carvalho Ramos, em 1958, quando da expansão do ensino no estado de São Paulo. O velho Wolny chamava-se Ginásio Estadual de Água Rasa e funcionava à noite no prédio do Grupo Escolar Professor Theodoro de Morais. Naquele tempo a escola era bem diferente. Embora mista, os meninos e as meninas não se comunicavam, ficavam segregados, meninas de um lado e meninos do outro de uma linha imaginária, mas muito respeitada, que dividia o pátio. Na sala de aula? Conversas? Nem pensar.
Com 12 anos eu já estava na segunda série do ginásio e estudava à noite! Havia um loirinho, lindo, de olhos azuis, na minha turma, que por sorte era mista. Eu o achava o máximo! Apesar de só olhar de longe e quase não ouvir a sua voz, pois era tímido e ficava absolutamente calado durante todas as aulas. A distribuição da sala de aula era assim: por ordem alfabética, quase duas fileiras de meninas. Eu lá, na última carteira de meninas, ao lado da Zilda. Atrás de nós sentava o Constantino e isso nos proporcionava a oportunidade de trocar umas palavrinhas e uns bilhetinhos com ele e seu parceiro. As carteiras, antigas, eram duplas.
Constantino, esperto como ele só, logo percebeu o meu interesse pelo Darwin, o loirinho de olhos azuis, e resolveu dar uma de cupido. Tentou marcar um encontro entre nós no Cine Vitória, lá na Álvaro Ramos, mas o cinema era um pouco longe da minha casa, o dinheiro era curto, e papai muito severo. Então, não deu certo.
Começou então a brincadeira. No início das aulas ele passava um bilhetinho: “O Darwin é casado”. No segundo, escrevia: “O Darwin é casado e tem um filho”. No terceiro: “O Darwin é casado e tem dois filhos”. E assim, sucessivamente. Ao final da quinta aula, o meu loirinho já tinha mais de 50 filhos, segundo as notícias do colega casamenteiro. Ríamos como só riem os adolescentes.
Mas, de repente… chega a grande oportunidade. A Professora Cida, de Português, prontificou-se em ensaiar a quadrilha para a Festa Junina. O Constantino seria o sanfoneiro, o que lhe deu um certo prestígio com a nossa mestra.
–- Professora, será que a Zuzu (esse era o meu apelido, como mascotinha da turma) poderia dançar com o Darwin?
Dona Cida, uma mocinha muito “pra frente”, topou na hora. Os ensaios eram aos sábados, no galpão, atrás da escola. Constantino no fole: ((Taratantan-tan-tan-tan. Taratantan-tan-tan-tan… Taratantan-tan-tan-tan, ra-ta-tan-tan-tan… )) O baile na roça foi até o sol raiar… O loirinho, do alto de seu metro e sessenta, dançou o tempo todo calado, olhando por cima da minha cabecinha oca de menina. Não trocamos uma palavra sequer. Mas foi ótimo, não via a hora de chegar o próximo sábado para dançar com aquele garoto tão lindo!
No dia da festa eu estava uma maravilha, vestido estampado de florzinhas vermelhas, chapéu de palha com laço de fita, batom vermelho nos lábios e até uma pintinha feita com carvão na bochecha, para ficar bem catita. Ensaiei o dia inteiro o que iria falar para não perder a última chance de conversar com meu amado. Meus olhos brilhavam mais que a lua de inverno. Não é que a Lúcia, uma coleguinha bem mais velha e, portanto, bem mais alta, chegou na festa toda arrumadinha e sua mamãe foi pedir à professora Cida que ela participasse da quadrilha:
–- Sabe, professora, minha filha não veio aos ensaios porque ela me ajuda no salão. E a senhora sabe como é o movimento no fim de semana…
O pedido viera a calhar. Estava faltando uma dama para o terceiro par da fila, um garoto baixinho, que eu já nem lembro quem era, mas sei que era quase do meu tamanho. Foi quando aconteceu o pior: lá fui eu dançar com o nanico e a Lúcia saiu pelo terreiro nos braços do meu loirinho. Perdi a última oportunidade. Era junho, mas aquele namoro às antigas não conseguiu evoluir até o final do ano. O Darwin repetiu e eu fui para a terceira série.
Estamos em agosto de 2008, e enquanto digito este texto, o Darwin está dando mamadeira para uma das minhas netinhas gêmeas, de três meses. Ele é meu marido desde 1994. Como isso aconteceu? Isto é uma outra história de São Paulo. Ah, um detalhe: ele já não é tão alto assim ..
Conheça a segunda parte desta história aqui
O depoimento de Zuleide Oliveira Monteiro de Castro está no Museu da Pessoa. Você também pode contar mais um capítulo da sua cidade. Marque uma entrevista ou envie um texto para o site do Museu da Pessoa. Se quiser mande o texto para mim: milton@cbn.com.br, vou ficar bem feliz de conhecer a sua história.


