A montanha a Maomé

 

Por Carlos Magno Gibrail

Ainda sem recompor as apreensões e energias despendidas nas discussões sobre o novo Código Florestal, eis que a Câmara procede à votação de dois projetos sobre a criação de novos Estados federativos.

Sem voto nominal, apenas em votação simbólica, na qual apenas os líderes partidários comparecem, foram aprovados os plebiscitos para os desmembramentos do Estado do Pará:

O Projeto do senador Mozarildo Cavalcanti do PTB–RR que trata do Estado de Tapajós a oeste, com 27 municípios, 58% da área e 1,3 milhões de habitantes.

O Projeto do ex-senador Leomar Quintanilha do PMDB–TO sobre o Estado de Carajás no sul e sudoeste, com 39 municípios, 25% da área e 1,6 milhões de pessoas.

Esta decisão reabriu o debate sobre a divisão do Piauí, Projeto do deputado Paes Landim PTB, reunindo 87 municípios no sul composta de 27% da população do Estado e tendo Alvorada do Gurguéia como capital. Entretanto, diferente do Pará, que conseguiu através de fortíssimo esquema a votação simbólica, não houve nem manobras nem consenso de peso.

Todavia não se pode desconsiderar interesses e forças na direção de manipulações futuras, pois segundo o senador Wellington Dias PT há mais de 20 projetos semelhantes no Congresso, e oficialmente o seu partido é contrário a novos desmembramentos. Posição que o PSOL se destacou no caso recente do Pará, atacando com veemência o tipo e o resultado da votação. Tomada que difere do DEM, ao menos na visão do piauiense Júlio César Lima na reportagem de Vanessa Mendonça de O DIA:

“Não é divisão. É fortalecimento. Os estados criados recentemente, Mato Grosso do Sul e Tocantins, mostram isso. Vamos nos articular com os parlamentares do Maranhão (que lutam pela criação do Maranhão do Sul) para colocar a matéria em votação”.

A empresária Sofia Avny do Nacional Shopping atesta o sucesso de Tocantins, mas contesta a réplica no Pará alegando que Carajás e região são áreas ricas em recursos naturais, e com eficácia administrativa não precisam de divisão. Além disso, lembra que é preciso investigar compras recentes de grandes áreas nas regiões envolvidas, tais quais as aquisições de ações no mercado financeiro podem caracterizar crime se realizadas com informações privilegiadas.

A jornalista Lucia Hipólito, tão precavida quanto a gasto público e meio ambiente, surpreendeu ontem ao descrever ao âncora do Jornal da CBN Milton Jung , o apoio aos desmembramentos de estados.

Estudo do IPEA, Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas mostra que o custo fixo anual estimado para a manutenção de um novo Estado é de R$832milhões.

Enfim, de todos os riscos parece que o maior mesmo é ao chegar a montanha entregá-la a Maomé. Neste caso, exímio planejador e manipulador em benefício próprio.

Carlos magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

Como reduzir pela metade mortes no trânsito, em 10 anos

 

Acidente na Inajar de Souza

Reduzir o número de pessoas mortas em acidentes de trânsito pela metade em 10 anos é o desafio que Organização das Nações Unidas lança nesta quarta-feira aos governos de todo o mundo. O Brasil e mais uma centena de países se comprometeram com as metas do que está sendo chamado pela ONU como a ” Década de Ação para a Segurança Viária”

A Agência Nacional de Transporte de Passageiros coordenou trabalho com uma série de organismos públicos e privados para propor ações que permitirão que o Brasil consiga atingir este objetivo. O presidente da ANTP, Ailton Brasiliense, enviou o resumo do documento que contém 40 páginas nas quais estão descritas as medidas a serem adotadas nas cidades brasileiras.

Tomo a liberdade de reproduzir este material – apenas o sumário executivo – para compartilhar com você algumas das ideias e abrir a possibilidade de uma discussão mais profunda sobre o tema.

PLANO NACIONAL DE REDUÇÃO DE ACIDENTES DE TRÂNSITO NA DÉCADA 2011-2020

PROPOSTA PARA O GOVERNO E A SOCIEDADE BRASILEIRA

A Organização das Nações Unidas – ONU, em Assembléia Geral realizada em março de 2010, com base em estudos da Organização Mundial de Saúde, estabeleceu a década 2011-2020 como a Década de Ação para Segurança Viária, convocando todos os países signatários da Resolução, e o Brasil foi um deles, para desenvolver ações para a redução de 50% de mortes em 10 anos.

Para mobilização mundial, e como subsídio aos países membros, a ONU lançou dois documentos – o “Global Plan” e o “Toolkit for Organizers for Launch Events”. O primeiro, contendo subsídios para o desenvolvimento de planos de ação nacionais e locais, e o segundo, contendo um conjunto de idéias para eventos de lançamento do Plano de Ações, marcado para o dia 11 de maio de 2011.

Os estudos de 2009 da Organização Mundial de Saúde – OMS, que motivaram a ONU a lançar o Plano Global, registraram 1,3 milhão de mortes por acidente de trânsito em 178 países. Segundo esses estudos, se nenhuma ação mundial for empreendida, o número de mortes em todo o mundo poderá chegar a 1,9 milhão até 2020.

Os dados de mortes no Brasil são controversos, pela falta de um sistema seguro de estatísticas, e indicam números que vão de 35 mil a 50 mil mortes por ano. Na pior das hipóteses, no entanto, em comparação aos números apresentados pelo estudo da OMS, as mortes de trânsito no Brasil representam quase 3% das mortes em todo o mundo.

Estudos realizados pelo DENATRAN, ANTP e IPEA em 2004 e 2006, em aglomerados urbanos e nas estradas, respectivamente, estimaram o custo social dos acidentes no Brasil em cerca de R$30 bilhões, em valores de 2010.

Acrescente-se que grande parte dos recursos do Sistema Único de Saúde – SUS são drenados todos os anos para o socorro a acidentados no trânsito no próprio local do acidente, no transporte de vítimas, no serviço hospitalar e no processo de recuperação e reabilitação, prejudicando inúmeras outras pessoas com doenças graves a espera de atendimento público de saúde.

O relatório anual do DENATRAN de 2010 contabilizou a arrecadação de cerca de R$300 milhões para o Fundo Nacional de Segurança e Educação de Trânsito – FUNSET e de aproximadamente R$290 milhões provenientes do Seguro Obrigatório (DPVAT). Por lei, o FUNSET é composto por 5% dos valores de multa arrecadados em todo o Brasil, sendo possível calcular o total de recursos disponíveis para os órgãos executivos de trânsito em R$6 bilhões. Mantido o nível de arrecadação atual também no período de 2011 a 2020, só o DENATRAN disporá de FUNSET e DPVAT, ao fim desta década, de cerca de R$5,9 bilhões, enquanto os demais órgãos executivos de trânsito terão recolhido em valores de multa algo em torno de R$60 bilhões, recursos que precisam ser inteiramente aplicados no combate à violência no trânsito.

É indispensável rever-se, no entanto, a verdadeira cultura da impunidade no Brasil, da qual participam não apenas cidadãos comuns, mas parte das estruturas do executivo, legislativo e judiciário e de setores da sociedade e a mídia, a estimular, por um lado, a prática de atos infracionais e toda sorte de ilegalidades e fraudes e, por outro, contingenciar os recursos legais, ou direcioná-los a outras iniciativas governamentais, tornando os órgãos de trânsito incapazes de cumprirem com eficiência suas competências.

Por todos estes motivos, apoiados nos documentos divulgados pela ONU, no Plano sugerido pelo Comitê Nacional de Mobilização pela Saúde, Segurança e Paz no Trânsito, coordenado pelo DENATRAN, nos princípios contidos no Manifesto da Frente Parlamentar de Redução do Acidente de Trânsito e nas contribuições de inúmeras outras entidades e profissionais colaboradores, a Associação Nacional dos Transportes Públicos – ANTP, por meio da Comissão de Trânsito, o Instituto de Engenharia de São Paulo e o Conselho Estadual para Diminuição do Acidente de Trânsito e Transporte do Estado de São Paulo – CEDATT, apresentam uma proposta de Plano Nacional de Redução de Acidentes para a Década 2011-2020, organizado segundo seis pilares estratégicos: gestão, fiscalização, educação, saúde, segurança viária e segurança veicular, com os seguintes objetivos estratégicos:

Gestão: Instituir uma gestão eficiente e capacitada, baseada em eficientes sistemas de informações e de indicadores de desempenho, capaz de coordenar adequadamente o Sistema Nacional de Trânsito e as ações e os recursos disponíveis, com planos de metas e acompanhamento permanente. Destaca-se o fortalecimento do órgão executivo federal (Denatran) e a criação do Observatório Nacional, este constituído por entes de governos e da sociedade civil, com o objetivo de observar e acompanhar os planos de governo.

Fiscalização: Promover fiscalização eficaz e eficiente em todo território nacional, por meio de recursos humanos, tecnológicos e de sistemas informatizados de gestão, em especial focada sobre atos infracionais e fatores de risco dos quais possam resultar riscos de acidentes e mortes no trânsito, tendo como princípio a reeducação e a redução da impunidade.

Educação: Mobilizar os setores governamentais e não governamentais, empresariais, educacionais, técnicos e acadêmicos para que participem e adotem ações educativas que promovam o respeito às regras de trânsito, às pessoas e ao meio ambiente e que incentivem os cidadãos a desenvolverem um comportamento mais seguro, ético e solidário no trânsito.

Saúde: Promover a saúde voltada para a mobilidade urbana, em especial o estímulo e o fomento de ações práticas para a redução de mortes ou da gravidade de lesões às vítimas de acidente de trânsito, capacitar os agentes de saúde, assim como promover a educação para o trânsito por meio das redes de assistência da saúde em comunidades.

Segurança Viária: Prover as vias urbanas e rodoviárias de infra estrutura física e de sinalização que dê prioridade ao transporte coletivo e aos não motorizados e que proporcione a segurança de todos os usuários da via, em especial o desenvolvimento de ações voltadas para os principais fatores de risco e para os usuários mais vulneráveis no trânsito, como os pedestres, ciclistas e motociclistas.

Segurança Veicular: Realizar o controle sobre a frota de veículos automotores, na fabricação e no uso, de forma a melhorar os níveis de segurança veicular e reduzir os níveis de emissão de poluentes. Criar programa de incentivo financeiro para substituição da frota de veículos fora das condições de segurança e de alto custo para recuperação.

Desta forma, convocamos a sociedade brasileira, assim como os membros dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário a nos comprometermos com a meta proposta pela ONU de redução de 50% de mortes por acidente de trânsito na Década 2011-2020 e, se possível, preservarmos e qualificarmos um número maior de vidas.

“O Estrangeiro” vai resistir a renovação do Anhangabau

 

Estrangeiro

Por Marcos Paulo Dias
jornalista e ouvinte-internauta

Acabei de ler a informação publicada no Diário Oficial do Município de São Paulo, de 08/04/2011, que o prédio do Sindicato dos Comerciários na Rua Formosa , Vale do Anhagabau, foi desapropriado e será demolido pela Prefeitura. Na lateral deste prédio há um personagem batizado “O Estrangeiro” que parece estar só e perdido. É um grafite gigante, pintado pela dupla Gustavo e Otávio Pandolfo, mais conhecidos como Os Gêmeos.

O prédio começa a ser demolido neste mês, manualmente, como o foram o São Vito e o Mercúrio. Desconstrução que pode levar até três meses e não deve oferecer risco aos prédios tombados nas proximidades. O objetivo da prefeitura fazer ali o Complexo Praça das Artes, com mais de 28,5 mil m², conjunto de espaços culturais ligados por um boulevar, oferecendo novo visual ao Vale do Anhagabaú.

De imediato veio na memória, o registro que fiz no ano passado do personagem criado e pintado pelos Gêmeos. Segundo informação publicada no Diário Oficial, a prefeitura pretende manter a fachada do prédio onde funcionava o antigo Cine Cairo, edifício vizinho. A opção da prefeitura em manter a fachada do prédio onde foi o cine, embora ele não seja tombado, foi por conta da importância dele para cidade.

Coleta no buraco e fogo no lixo

 

Por Devanir Amâncio
ONG EducaSP

Lixo atolado

Sábado, 12 de fevereiro. Por volta da uma da tarde, um caminhão de coleta de lixo teve suas rodas engolidas por um buraco na Avenida Dona Belmira Marin, número 4.200, Grajaú, na Capela do Socorro, zona sul. Até às três e meia, o veículo ainda não havia sido retirado do buraco. Garis afirmam: “Isso acontece sempre, mas quase ninguém fica sabendo.”

Lixo no Grajau 1

Enquanto um caminhão de coleta afundado era a atração em um ponto da Avenida Dona Belmira Marin, a poucos metros dali, no número 2577, uma outra cena de fazer inveja à ‘blitz do lixo’ de Beto Tatu, acontecia: o lixão que demora para ser recolhido, segundo os moradores, queimava e incomodava quem passava pelo local.

Conte Sua História de SP: Roupa chique na Penha

 

Odete Gouveia

No Conte Sua História de São Paulo, a personagem é Odete Gouveia Alves, de pais portugueses e coração paulistano. Nasceu na Vila Formosa, em 1945, mas viveu mesmo no bairro da Penha, na zona leste da capital.

No depoimento ao Museu da Pessoa, Dona Odete falou do quanto ama ver São Paulo do topo de seus prédios mais altos, mas não esconde que gosta mesmo é de falar das marcas do passado como a procissão nas ruas da Penha e a roupa chique para ir ao cinema.


Ouça o depoimento de Odete Gouveia Alves sonorizado por Cláudio Antônio

O Conte Sua História de São Paulo é uma parceria da CBN e do Museu da Pessoa e vai ao ar, sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP. Você também pode contar mais um capítulo da nossa cidade. Agende uma entrevista ou envie seu texto ao site do Museu da Pessoa.

Foto-Ouvinte: A feira de orgânicos na Água Branca

 

Feira organica

Foto e recado do ouvinte-internauta Luis Fernando Gallo:

Frequentador assíduo do parque Fernando Costa(Água Branca)não poderia de deixar de comentar o que ocorre lá todos os sábados pela manhã. Todo mundo com suas sacolinhas recicláveis, uma feira de verdade, mas muito especial, todos produtos responsalvemente orgânicos. O ambiente natural com faizão, muitas galinhas ao redor, dão um tom muito especial.

A democracia bilionária e o contribuinte

 

Por Antonio Augusto Mayer dos Santos

Toma fôlego no Congresso Nacional o financiamento público de campanha como solução eficaz e derradeira para revestir de igualdade e lisura as disputas eleitorais. Convém lembrar, no entanto, que a Lei dos Partidos Políticos já admite plenamente a possibilidade de utilização de dinheiro público para tal finalidade a mais de quinze anos. Sendo assim, é oportuno verificar os números concretos das cifras decorrentes de impostos recolhidos pelo poder público em nome e em função dos contribuintes para análise da razoabilidade ou não desta pretensão.

Antes, porém, é essencial frisar que faz parte da tradição normativa deste país assegurar verbas públicas aos partidos políticos com registro no Tribunal Superior Eleitoral. Por conta disso, vultosos repasses mensais do Fundo Partidário gerenciados pelo TSE explicitam uma eloqüente contradição: os partidos brasileiros são instituições privadas tuteladas financeiramente pelo Estado. O cálculo para estes quinhões decorre do desempenho eleitoral de cada agremiação para a Câmara dos Deputados.

A contar da Lei nº 9.096, o valor repassado aos partidos brasileiros aproxima-se de R$ 1.440.658.941.61, conforme os números oficiais daquele Tribunal. Também de acordo com estes dados, pode-se constatar que em 1996 foram repassados R$ 47.511.529,06, ao passo que em 2010 o valor atingiu R$ 160.425.649,00. Ou então que PT, PSDB, PMDB e PP foram os partidos que mais receberam verbas públicas para as suas atividades.

Nesta década e meia de repasses, tanto agremiações governistas quanto de oposição receberam os seus percentuais. Detalhe do país da Copa do Mundo e seus vergonhosos aeroportos: a lei, boazinha, contempla inclusive partidos que não contabilizam um único Vereador em todo o território nacional. Ou seja: mesmo sem voto, é certo que há dinheiro garantido, basta estar funcionando e ter sede em Brasília.

Por óbvio que este paternalismo do Fundo Partidário incentiva a proliferação de siglas de ocasião cuja ocupação é negociar horário gratuito de rádio e televisão no período da propaganda eleitoral e depois dificultar a governabilidade pela via da acomodação de “militantes” na burocracia estatal.

Levando-se em conta que cada brasileiro significará, a princípio, R$ 7,00 por voto, o financiamento exclusivamente público de campanha, ainda que dotado de suas virtudes (ao menos teóricas), é um formato que não pode receber adesões emocionais ou acríticas pois caso aprovado para 2012, observada uma projeção a partir dos 135.804.433 eleitores atualmente cadastrados, isto implicará em no mínimo R$ 950.631.031,00 para os partidos agirem “em nome do povo”, sem se contabilizar o valor destinado ao Fundo Partidário para o mesmo período, o qual deverá ultrapassar os R$ 165 milhões.

Para justificar tão expressiva destinação de verba pública, rigorosamente desconhecida da maioria da “sociedade civil” mas que poderá atingir R$ 1.115.631.196, somente se o Brasil fosse um país decente e dotado de elevadíssimos índices de politização, alfabetização e participação popular, o que nem de longe ocorre.

Partidos políticos são indispensáveis nos regimes democráticos, tanto para viabilizar a representatividade popular nos parlamentos quanto para exercer a fiscalização como para instrumentalizar críticas e oposições. Contudo, no Brasil, assim como em diversos outros países do mundo, os mesmos estão desacreditados e sob constante suspeita.

Em suma: a introdução do financiamento exclusivamente público com a manutenção do fundo partidário é um escárnio ou deboche com o cidadão. Diante das demais leis e da própria estrutura da Justiça Eleitoral, limitada para apuração de todos os ilícitos possíveis, o mais sensato é introduzir restrições a doadores perniciosos (via de regra decisivos nas disputas), estabelecer limites de gastos por cargos (De Presidente a Vereador) e aperfeiçoar o sistema de prestação de contas de campanhas tornando-o mais dinâmico, eis que hoje ele se assentado em premissas insuficientes para detectar a hipocrisia de alguns gastos praticados “em nome do povo”.


Antônio Augusto Mayer dos Santos é advogado especialista em direito eleitoral, professor e autor do livro “Reforma Política – inércia e controvérsias” (Editora Age). Às segundas, escreve no Blog do Mílton Jung.

Mantega no País das Maravilhas

 

Por Frederico Mesnik

Certa vez, nos tempos em que ainda era permitido, voltei em um vôo da Varig dentro da cabine do piloto. Perguntei de tudo, mas o que me chamou a atenção foi a aparente sensação de descontração entre os pilotos. Falavam de tudo, menos do vôo. De vez em quando, pelo canto do olho monitoravam algum instrumento, mas nada que justificasse algum ajuste. “Estamos em piloto automático”, justificou o comandante. “Voamos em céu de brigadeiro, sem nuvens carregadas à frente e nosso próximo check-point está a 2.000 milhas”, complementou o co-piloto que percebera minha inquietação sob o oceano a 33 mil pés em total escuridão.

O fato é que nesta situação o avião voa tranquilamente em piloto-automático, mas é durante uma turbulência, uma mudança de rota, ou a necessidade de alguma manobra que o piloto mostra seu talento; do futebol ao painel de controle em milissegundos dos fatos às decisões na fração necessária para colocar a aeronave de volta ao prumo.

Durante anos surfamos as ondas da prosperidade, dos ventos a favor, do céu de brigadeiro, e o Brasil decolou no piloto automático. Vieram as nuvens bem carregadas de 2008 com rajadas fortes, fechamos os flaps e subimos à altitude para novo cruzeiro. E agora, precisamos aterrissar de forma suave, com combustível baixo, pouca visibilidade e ventos que empurram a aeronave rumo ao chão. Porém, o piloto ainda age como se pilotasse um planador.

Nos meus mais de 20 anos de mercado financeiro, não me lembro de um momento tão delicado, com tantas situações interligadas prestes a estourar. Sinto-me como o Mário Bros® na primeira versão do Donkey Kong® em que o gorila frenético, atira do topo de um prédio, barris em direção ao pobre encanador que luta com veemência para desviar das ameaças rumo ao cume e salvar sua princesa.

O mundo, na nossa analogia, o valente Mário, luta para crescer e conquistar um crescimento sustentável de longo prazo. Porém, a cada minuto surgem novos barris e nosso gorila não hesita em atirá-los, com intuito de desaprumar a economia global da expansão. Do problema da impagável dívida soberana dos países periféricos do bloco europeu, dos levantes no Oriente Médio, terremoto no Japão, desemprego nos países desenvolvidos e inflação à alta incessante dos produtos agrícolas, o mundo vai caminhando para desviar com destreza das ameaças ao seu crescimento.

E o governo brasileiro, parte deste imbróglio, vai tocando seu dia a dia, em clara negação dos riscos inflacionários, com medidas isoladas sem efeito, desafiando o mercado e afugentando investidores estrangeiros. Como se houvesse certa esperança de que no final, tudo dá certo, de que Deus nasceu aqui. Enquanto isso, os índices de inflação vão rompendo o teto da meta estabelecida pelo Banco Central e o governo, assiste nas arquibancadas a confiança do consumidor, esvaindo-se.

O jogo é o mesmo, mas o nível de dificuldade é muito maior com mais barris para acertar a cabeça do bravo Mário. Porém, independentemente do barril, cada um individualmente tem o poder de descarrilar o mundo da sua rota de recuperação de crescimento da pior crise financeira desde a Grande Depressão.

O mundo está em um momento complicado e os mercados refletem esta falta de visibilidade. A inflação corre solta e nossos líderes globais vão tomando medidas isoladas, sem coordenação alguma num mundo globalizado e interligado, em que um ato do lado de lá afeta o lado de cá, quase sempre de forma instantânea. Pelo jeito algum barril ainda vai acertar nosso pobre Mário antes que ele adquira a destreza para enfrentar os obstáculos à frente e salvar sua princesa amada.

Por aqui, o governo já disse que não cumpre a meta em 2011, mas sim em 2012. O ponto não é o número em si, mas a perda de credibilidade num momento de tantas dúvidas.

Credibilidade traz investimentos de longo prazo e consumo. Um aumento substancial das expectativas inflacionárias afugenta tanto o capital de longo prazo como o consumidor, ambos os alicerces essenciais para nosso crescimento. Infelizmente, parece que a economia brasileira vai piorar antes de voltar ao seu prumo. A incoerência matemática de querer controlar a valorização do real ao mesmo tempo em que se tenta domar a inflação por meio do aumento de juros, mostra a falta de coordenação e excesso de confiança que rege nossa Fazenda e Banco Central.

Fica difícil ser um otimista num mundo tão conturbado em que os preços dos alimentos e da principal fonte de energia estão em patamares elevados e sem perspectiva de alívio num horizonte visível. O cenário é delicado e precisamos ser muito seletivos nos nossos investimentos. Não há como ficar imune às volatilidades inerentes da falta de visibilidade.

Nos dias de hoje vamos gerir como pregam os textos clássicos do Tai Chi Chuan:

Vencer o movimento através da quietude (Yi Jing Zhi Dong)
Vencer a dureza através da suavidade (Yi Rou Ke Gang)
Vencer o rápido através do lento (Yi Man Sheng Kuai)

E com isso, vamos colher os frutos da paciência e da perseverança naquilo que conhecemos e acreditamos. O dinheiro sempre persegue os bons investimentos e sabemos que conforme nossas empresas forem divulgando seus resultados vamos nos beneficiar. Há liquidez abundante de capitais no mundo e o Brasil tem grandes oportunidades.

Isso, se o governo não atrapalhar.

Frederico Mesnik é gestor de recursos, mestre em Administração de Empresas pela London Business School, especialização em Finanças pela Universidade de Chigago, GSB, e escreve no Blog do Mílton Jung

Avalanche Tricolor: O melhor do Grêmio é o Grêmio

 

INTER 2 X 3 GRÊMIO
Gaúcho – Beira Rio (POA-RS)

 


“Tio, quem é o melhor do Grêmio?” Não deu tempo para responder. Milésimos de segundos para pensar foram suficientes para ser atropelado pela próxima pergunta: “Tio, no que o Grêmio é melhor?”.

O interrogatório era de uma sobrinha que nasceu em Roma, na Itália, recém-chegada ao Brasil que gosta de jogar futebol na escola americana em que estuda, em São Paulo. Diz que é meio-campo. Enquanto perguntava, a bola rolava sem tempo para respirar (e responder).

Valentina, o nome dela, assistiu ao Gre-Nal ao meu lado, com os olhos esbugalhados diante da televisão, impressionada com a velocidade e a movimentação no placar de um jogo eletrizante, bem diferente daqueles que vimos nas últimas rodadas.

Ela estava gostando muito do menino de moicano que deixava o adversário mais arrepiado que o próprio cabelo. Ficou feliz em saber que Leandro tinha apenas 17 anos e era capaz de fazer tudo aquilo em campo. E ele nem tinha marcado o seu gol de bico, ainda. Até agora nem ela nem eu entendemos porque foi substituído. Será proibido driblar?

Fábio Rochenback também lhe chamava atenção. É o capitão, então tem de ser bom, pensou em voz alta. A gente sabe que não é bem assim, mas no caso do volante gremista a análise está correta. Ficou admirando a força e o talento, principalmente quando passava a bola com um toque certeiro e colocava o companheiro na cara do gol.

“Como é o nome desse aí, tio?”. Júnior Viçosa.

O desengonçado atacante não causava deslumbre na minha coleguinha de torcida. Aliás, ela ficou indignada duas vezes quando ele desperdiçou as chances de empatar. “Até eu faço !”. Mas como eu, vibrou muito no primeiro e, em especial, no segundo gol dele, o da vitória, aquele que põe o Grêmio em condições de ser campeão Gaúcho semana que vem.

Quando a TV deu destaque ao técnico adversário não me contive e para colocá-la no assunto comentei que ele já havia sido considerado o Rei de Roma: “Nunca ouvi falar , tio”.

O jogo termina, nós dois vibramos abraçados e ela me dá o presente que esperava: “Tio, eu quero ser gremista”.

Mas afinal, quem é o melhor e o que o Grêmio tem de melhor ?

Foram perguntas que não respondi enquanto ela esteve em casa. Fiquei pensando sobre isso até o fim deste texto e conclui que o melhor do Grêmio é essa força que o faz reerguer-se tão rapidamente por pior que sejam as circunstâncias. Que o faz crer na possibilidade de virar um placar mesmo que o futebol não esteja a altura da façanha. O faz superar seus momentos mais medíocres. E com isso conquista o coração da minha sobrinha italianinha.

O melhor do Grêmio é o próprio Grêmio.

E você, Valentina, já é gremista. Bem-vinda à Imortalidade.

De pai e mãe

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De pai e mãe” na voz e sonorizado pela autora

Somos dependentes de deuses, da mesma forma que são dependentes de nós, os filhos. Somos dependentes, cada um na sua medida, de objetos, sensações, hábitos, entidades, crenças. Não resistimos ao invisível, intocável, inatingível, impensável. E lhes conferimos poder. Nas suas mãos depositamos a responsabilidade que deveria ser nossa.

Há deuses para todos os gostos: os que exigem algumas coisas, os que são contra outras, os que têm emoções humanas como ira, vingança, preferência; e todos têm seus inimigos também. Como nós.

Não sei como são os teus deuses, nem qual é o grau da tua dependência. Nem você sabe, mas vou enfrentar a minha, com tudo; com minhas células, meu sangue, meus músculos. Com a consciência.

Quando digo: Deus! – Criador, Pai, Mãe, Grande Ser – me dirijo a uma entidade desconhecida, raras vezes intuída, questionada, idolatrada, traduzida nas mais diversas línguas, pelos mais diversos corações.

E digo: Pai! – Mãe – dá-me força para que eu não bata o pé feito criança mimada, sempre que alguma coisa não toma o rumo que eu esperava que tomasse. Pai! – Mãe, Irmãos invisíveis, Anjos, Arcanjos, Entidades de todas as raças, de todos os credos, Devas da Natureza, Natureza – olha para mim que sou pequena, frágil, solitária e que vivo em busca do ponto de origem que mora em mim, e que é a fagulha que faz existir tudo o que deve existir. Eu sei que está ali, em algum lugar, em mim, no outro, em tudo o que é; um ponto mágico para ligar e desligar, aqui e ali, para que eu me equilibre, que possa oferecer amor, respeito, consideração, solidariedade, e para que eu aprenda a atrair para mim, o mesmo, e mais.

Pai! – Mãe, Senhor dos Mares dos Ares, da Terra, Ondinas, Fadas Silfos, Senhor da Lua e do Sol – ilumina minha consciência, para que eu, de algum modo, encontre o que procuro. Ilumina minha consciência para que ela perceba quanto ainda é pequena, e quanto espaço ainda precisa ocupar.

Mãe! – Pai, invisíveis, visíveis, faz o mesmo a todo aquele que demonstrar no coração, que busca o mesmo que eu. Mesmo que não saiba expressar esse desejo. E o mesmo a todos os outros, à minha esquerda, à minha direita, que vão lá na frente e aqueles de quem ouço os passos, ali atrás.

Você ouve? você pensa nisso? ou não…

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung