Foto-ouvinte: Amigo urso no buraco

 

Urso no buraco

Por Devanir Amâncio
ONG EducaSP

Na guerra contra o terror dos buracos , a população da cidade apela para tudo: espeto de pau, pneu, tocha caseira e até boneco com cara de político. No Jardim Jangadeiro, área de responsabilidade da Subprefeitura do M’ Boi Mirim, zona sul, um urso de pelúcia de um metro foi colocado em cima de um buraco na rua Abílio César,altura do número 622.

Pelo jeito, Beto Tatu está está recebendo amigos e influenciando muita gente com sua ideia fixa de “cidade ideal “.

Foto-ouvinte: Prefeitura reprovada na inspeção

 

Inspeção alagada

O carro tem de passar por ali uma vez ao ano. A inspeção veicular é obrigatória. Garantem que melhora a qualidade do ar. Talvez esteja faltando uma lei – já que as do bom senso e cidadania não mobilizam – que obrigue a prefeitura a cuidar da qualidade de vida do cidadão e evite alagamentos como este na porta da Controlar de São Miguel Paulista, na zona leste.

O ouvinte-internauta Marcos Paulo Dias, colaborador do Blog, que flagrou a cena, só tem dúvida se a kombi em destaque foi aprovada na inspeção. Porque a prefeitura foi reprovada.

Vereadores de SP têm de dizer não a gatilho salarial

 

Os vereadores de São Paulo vão receber, a partir de março, R$ 15.013,00, um aumento de 61,8% em relação ao que ganham atualmente (R$ 9.288,00). Um decreto legislativo de 1992 garante a eles o mesmo reajuste determinado para os salários dos deputados federais.

Com esta regra, os vereadores paulistanos mostram estar a frente do seu tempo. Afinal, artigo 29 da Constituição prevê que o aumento decidido no Congresso Nacional atinja o bolso de todos os vereadores brasileiros somente a partir de 2003. Em São Paulo, isto ocorre desde o século passado. Nada como dar o bom exemplo.

O “gatilho salarial” foi imposto para impedir abusos de vereadores em cidades nas quais o controle da sociedade e dos meios de comunicação é frágil. Levava em consideração, porém, que os deputados federais tivessem respeito com o dinheiro público. Quando se tem um Congresso que dá as costas ao cidadão, o resultado é uma avalanche de aumentos que varre as casas legislativas e os cofres públicos.

Além disso, os vereadores não sofrem o desgaste da discussão do reajuste salarial e deixam para seus colegas em Brasília o peso da decisão.

Uma curiosidade é ver que todos os 55 vereadores paulistanos apoiam o reajuste em uníssono, mesmo aqueles que há menos de um mês chegaram a ir as vias de fato na disputa pela presidência da Câmara andam agora de mãos dadas.

“É legal”, defende-se o novo presidente da Casa, José Police Neto (PSDB). Tem razão, todos os procuradores da Câmara respaldam o reajuste. Mas alguém que chega com o ar da renovação deve oferecer aos seus pares a oportunidade de rever a regra diante da insensatez dos deputados federais, sob a justificativa da moralidade. E não lavar as mãos diante da legalidade.

A Câmara de São Paulo ainda tem a chance de ao se reunir em março, quando se encerra o recesso parlamentar, mostrar que realmente (sem ironia) está a frente de seu tempo. Abrir mão do reajuste salarial seria um sinal de respeito à opinião pública. E mostraria o quanto eles realmente valem para a cidade.

Conte Sua História de SP: A química de Paulo Goulart

 

Ao chegar de Ribeirão Preto, interior paulista para estudar química industrial na capital, Paulo Afonso Miessa não tinha ideia do destino que o aguardava. Foi para o rádio – veículo pelo qual revela sua paixão a cada palavra – e se transformou ator ao conquistar os ouvidos do mais críticos que haviam na Tupi Difusora, Oduvaldo Viana. Ganhou novo sobrenome e virou Paulo Goulart, admirado por todos nós pelo talento e pela personalidade.

Casou com a carioca Nicette Bruno com quem teve duas filhas e um filho. Uma delas, Beth Goulart, coincidência, nasceu no dia de São Paulo, 25 de janeiro, no Rio. Foram todos criados e crescidos na capital paulista e o pai fala disso com orgulho.

São Paulo é motivo de muitos e emocionantes momentos descritos por Paulo Goulart com uma beleza que me encantou, durante a apresentação do programa desta terça-feira. Ele foi o personagem do Conte Sua História de São Paulo, em homenagem aos 457 anos da cidade. Acompanhado por uma alegria contagiante, Goulart marcou a conversa com frases que ensinam: “é preciso crer no amanhã, o amanhã é o desenvolvimento, e o aprender é fundamental”.

Ouça o depoimento de Paulo Goulart, na CBN

Durante esta semana, entrevistamos personagens e personalidades para o Conte Sua História de São Paulo. E você também pode participar deste programa contando mais um capítulo da nossa cidade. Agende uma entrevista ou envie seu texto para o site Museu da Pessoa.

Soluções simples para cidades complexas, diz Lerner

 

Jaime Lerner é ex-prefeito de Curitiba, ex-governador do Paraná e ex-político do Brasil. Há oito anos, preferiu se dedicar as carreiras de arquiteto, urbanista e sonhador nas quais tem alcançado resultados impressionantes. Apesar disso, a lembrança da maioria dos brasileiros ainda é do início de sua vida política quando transformou a capital paranaense em referência internacional.

Convidado pelo programa Roda Viva, da Tv Cultura, tive oportunidade de conversar com ele, na tarde dessa segunda-feira, no ar e no bastidores. Tanto em um lugar como no outro é o mesmo otimista de sempre. Acredita na capacidade do homem, por mais que este tenha a tendência de complicar as coisas simples. E na possibilidade de as grandes cidades se transformarem em ambientes de convivência e qualidade de vida, mesmo que identifique em nossa realidade a existência de uma guerra urbana.

“Sou otimista por que já vivi isto, já fiz isto, tenho legitimidade porque fiz algumas coisas, eu sei fazer isto”, ressalta para que este sentimento não se confunda com ilusão.

Lerner fala pausado, parece cansado, mas é extremamente dinâmico nas suas ideias. Desenha uma rua móvel, que se constrói à noite e se desmonta de dia, ou vice-versa. Projeta um carro elétrico para curtas distâncias e para ser usado de maneira coletiva. Desenha soluções para ilhas, cidades e prefeituras. Para São Paulo, também, apesar de a prefeitura ter dado de ombros à sua proposta para a Cracolândia.

Acredita que com a política de acumputura urbana consegue melhorar a qualidade de vida em qualquer ambiente em três anos.

Para resolver catástrofes como a que assola a serra fluminense, entende que precisamos primeiro dar solução às tragédias do dia-a-dia. Lembra que o trânsito e a falta de planejamento urbano matam tanto como as guerras. Na capital paulista, morrem em média 1.400 pessoas por ano. No Rio, já são mais de 600 os enterrados pelas enchentes e deslizamentos de terra.

Não se assusta com a dimensão da capital paulista. Critica autoridades e especialistas que a usam para justificar a falta de ação. Para ele, o tamanho não é desculpa. E diz, fora do ar, que a Cidade do México com seus quase 9 milhões de moradores hoje é bem melhor do que São Paulo, que tem pouco mais de 11 milhões. “Não é a escala, é a visão que interessa”, destaca.

Para falar de solução para as tragédias, fala de habitação e mobilidade. E defende que as cidades copiem a tartaruga – abrigo, trabalho e locomoção no mesmo lugar. “O casco lembra a tessitura urbana, se quebrarmos este casco, a tartaruga morre”, completa a analogia.

Não gosta da ideia adotada pelos Governo e prefeitura de São Paulo que ampliaram a Marginal Tietê e apostam todas suas fichas no metrô. “Em São Paulo, 84% das pessoas se deslocam na superfície, para o metrô funcionar bem a superfície precisa funcionar bem”. Lerner não está no time dos que defendem o fim do automóvel, entende que todos os modais têm sua função. É necessário metrô esperto, ônibus esperto e carro esperto, reforça.

E o que fazer para resolver o problema de agora, quando centenas de pessoas morreram e milhares perderam as casas ?

Quer abrigo imediato para as pessoas, seguro para as casas que serão abandonadas e correm o risco de serem saqueadas, proibição de moradias nas áreas de risco e a criação de uma zona franca que isente de impostos quem se comprometer a criar empregos nas regiões que sofreram os desabamentos.

E para as cidades brasileiras ?

Mobilidade, sustentabilidade e sociodiversidade são a solução, explica de maneira simples.

Ouvir Lerner por uma hora e meia, mais o tempo extra antes e após o programa, nos faz acreditar que as grandes cidades são possíveis, as soluções estão na simplicidade e os homens é que complicam a coisa. E nos dá esperança de que é possível mudar a qualidade de vida no ambiente urbano.

Mas para isso é preciso sonhar: “Você tem de ter um sonho e propor um cenário que seja desejável para as pessoas. Quando as pessoas veem um sonho realizável, elas se transformam”. Não se fruste se o sonho não se realizar, pois se você se dedicar, um dia este sonho vai te cutucar e perguntar: lembra de mim ? – ensina.

Conte Sua História: Ronnie Von vai a Santo Amaro

 

Ronnie Von era garotão, nascido e vivido no Rio, quando foi convidado para visitar a casa de Nilton Travesso, em São Paulo. Era fácil chegar lá. Bastava pegar um táxi no aeroporto de Congonhas, ir até a avenida Santo Amaro e entrar no segundo farol à direita. A primeira surpresa foi saber que o nome do santo batizava uma estrada, uma rua e uma avenida – havia um bairro, também. Pediu para ir na mais famosa e teve sorte, aquele era o caminho. Procurou o farol e não encontrou nenhum. Ao fim da avenida, ouviu do motorista: “Terminou aqui, onde o senhor quer descer”. Foi quando descobriu que o farol paulistano era o semáforo no Rio.

Esta foi uma das muitas histórias de São Paulo contada pelo cantor, compositor, publicitário e apresentador de Tv Ronnie Von no programa que abriu a série em homenagem aos 457 anos da capital paulista. A entrevista, ao vivo, no CBN SP foi marcada por momentos de emoção, ao menos para este jornalista.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo com Ronnie Von

Nesta semana, personagens e personalidades serão convidados do Conte Sua História de São Paulo – 457 anos. Você também pode participar do progama que vai ao ar, tradicionalmente, aos sábados, às 10 e meia da manhã. Envie seu texto ou marque uma entrevista no site do Museu da Pessoa.

Que São Paulo você quer no fim desta década ?

 

Paulistanos, os de nascença e os que se aprochegaram, querem deixar a cidade. Ao menos mais da metade deles disse isso em pesquisa feita pelo Ibope, encomendada pela Rede Nossa São Paulo (leia aqui). Opinião que não me surpreende dada a relação que temos com o ambiente urbano.

É o trânsito, é a escola, é o trabalho, é a poluição, é a violência. É um monte de coisa que nos atrapalha todo o dia. É tanta coisa que tem uma hora que a gente pensa em voz alta: “tô louco pra ir embora daqui”. O propósito não costuma vingar e a maioria prefere ficar por estas bandas seja porque é onde estão as oportunidades, a família e a nossa vida seja porque fora dela também não se tem certeza de que algo melhor haverá.

E como é aqui mesmo que viveremos, esta semana é ótima para refletirmos sobre que cidade queremos para nós. No dia 25 de janeiro, São Paulo completa 457 anos de fundação e uma série de atividades está programada para celebrar a capital paulista.

Aproveitando este clima, o CBN SP leva ao ar, a partir de hoje, uma provocação. Pelo twitter, pelo e-mail ou aqui mesmo no Blog, responda: “Que São Paulo você quer no fim desta década ?”

Imagine como você gostaria que esta cidade fosse dentro de 10 anos, e não deixe de pensar o que você poderia fazer para torná-la possível. As ideias que forem enviadas ao CBN SP vão ao ar durante a semana e as mais interessantes serão apresentadas, também, no programa especial em homenagem a São Paulo que será apresentado, ao vivo, no Pátio do Colégio, dia 25, terça-feira, das 9 e meia ao meio-dia.

Programação

Na festa promovida pelo CBN SP no dia do aniversário de São Paulo duas atrações musicais estão confirmadas: Zé Geraldo e o pessoal que integra o projeto Retrato.

No centro da festa um convidado especial: o livro. Além de entrevistas sobre a importância da leitura na nossa vida, o CBN SP estará de mãos dadas com a Campanha Doe um Livro, que surgiu no Twitter e incentiva o cidadão a doar livros que são distribuídos para escolas públicas e bibliotecas.

Você que pretende assistir ao programa, antes de sair de casa procure na sua biblioteca os livros que podem ser doados e leve até o Pátio do Colégio.

Acompanhe outros programas da CBN em homenagem aos 457 anos de São Paulo:

Por dentro de São Paulo, com os pontos curiosos da capital paulista apresentados por Heródoto Barbeiro (7h15 e 14h20)

Ser Paulistano, em que personalidades falam sobre a identidade com São Paulo em reportagens apresentadas por João Vito Cinquepalmi (11h10 e 17h45)

Conte Sua História de São Paulo, com depoimentos de personagens que contarão mais um capítulo da nossa cidade em entrevistas ao vivo para mim, no CBN SP (10h02)

Adaptação, mudança e coragem para combater enchentes

 

Debate na CBNSão Paulo tem jeito e recursos para enfrentar as enchentes, concordaram os três convidados do debate promovido pelo CBN SP, neste sábado. Há necessidade de se adaptar às mudanças do clima e rever nosso comportamento, disseram eles. Nem todos se entenderam, porém, quando o assunto era saber se as medidas que estão sendo adotadas seguem o caminho certo.

Em torno da mesa do estúdio que discutou “Ambiente urbano e mudança climática”, duas visões contaminadas pelo pensamento político, sim, mas muito bem intencionadas e embasadas: Eduardo Jorge, secretário municipal do Verde e Meio Ambiente, ligado ao PV, e Nabil Bonduki, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e ex-vereador do PT. Ao lado deles, um técnico disposto a mostrar que há tecnologia e conhecimento sendo desenvolvidos, professor Hélio Diniz, do Instituto de Geociência da USP.

Eduardo Jorge deixa claro que se a discussão é sobre a mudança do clima não há tempo a perder, chegou duas horas antes do programa. Aproveitou para colocar em dia vários e-mails pendentes. Na camiseta desbotada, um recado: o meio ambiente é o equilíbrio. O professor Hélio fez aquecimento antes do debate ao explicar para o pessoal da redação o que leva a terra se mover a ponto de causar a tragédia assistida na área serrana do Rio. E Nabil Bonduki chegou quando todos estavam no estúdio e disposto a apontar erros das administrações municipal e estadual no combate às enchentes.

Com números e ações, o secretário Eduardo Jorge se esforça para mostrar as diferenças no comportamento dos governos paulista e paulistano com os do Rio de Janeiro diante da mudança do clima. Disse que enquanto na capital paulista foram removidas cerca de 20 mil famílias de áreas de risco, em seis anos, na serra fluminense tiraram apenas dez famílias.

Mesmo com estes dados, o problema na capital ainda é grave. Levantamento do IPT que não está à disposição do público mostra que ainda existem 29.993 famílias morando em 407 áreas de risco, informa o secretário.

Bonduki lembra que a prefeitura erra ao promover a saída das famílias através do pagamento de aluguel social. Segundo ele, é preciso políticas habitacional e fundiária para impedir que estes deixem uma área de risco por outra.

Pouco depois, o repórter Juliano Dip relata que encontrou famílias que viveram esta situação no Jardim Romano. Ficaram alagados ano passado, perderam a casa, receberam o aluguel social e se mudaram para o Jardim Pantanal. Estão alagados de novo.

E como o assunto é ocupação do solo, o professor Diniz comenta que fez pesquisa no Vale do Paraíba e identificou que 99% das estradas vicinais foram construídas ao lado do rio, em local impróprio e arriscado. Uma lógica que também marcou o desenvolvimento da capital paulista com avenidas sendo instaladas sobre e na várzea dos rios e córregos.

Foi a oportunidade para Eduardo Jorge alertar para a construção de parques lineares e o risco que mudanças no Código Florestal podem trazer para o ambiente urbano. Na réplica, Bonduki criticou o investimento na Nova Marginal que impermeabilizou a região e beneficiou o transporte individual.

Antes de encerrar perguntei sobre qual seriam as prioridades no combate às enchentes:

Eduardo Jorge

– Remover as quase 30 mil famílias de áreas de risco

Nabil Bonduki

– Políticas habitacional e fundiária para reduzir a especulação imobiliária e baratear o preço da terra;
– Desestímulo ao uso do automóvel com investimento em corredor de ônibus;
Liberar fundos de vales

Hélio Diniz

– Criação de selo verde para infraestrutura, ou seja obras apenas com respeito ao meio ambiente.
– Armazenamento da água da chuva

Acompanhe o debate nos links a seguir:

Governo promove ações para evitar o efeito estufa, diz Eduardo Jorge

Ações do governo são paliativas, critica Nabil Bonduki

Viabilização de Plano Diretor de Macrodrenagem é importante para evitar enchentes, afirma professor Diniz

Quais são as prioridades para evitar novas enchentes ?

De estrada

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De estrada” na voz e sonorizado pela autora

Sabe quando a gente pega a estrada errada e continua, e continua, e continua tanto, e vai tão longe que fica difícil voltar?

a gente acaba parando
por um tempo
no lugar onde foi parar

Aí dá aquela vontade de conhecer outro lugar, acaba se encantando com o próximo, e fica literalmente hipnotizado pela beleza e pela riqueza de mais um. Acaba se perdendo.
Pois foi o que aconteceu com a gente. Foi o que aconteceu com todos nós.

Não adianta apontar o dedo para a turma do lado de lá, para o parente, para o ex ou o pretendente, o mandante ou o obediente. Não dá mais tempo. É tempo de abrir bem os olhos, de criar vergonha na cara, cada um fazendo o que sabe fazer. Fazendo direito, fazendo às claras, sem segundas, terceiras ou quartas intenções. Sem vender a alma. Do gari à presidente. Nós. Todos nós: os bonitinhos, os feios, as marombadas, as gordinhas. Nós. Os burros, os inteligentes, descolados e condenados. Nós. Espertalhões e bobalhões.

Fomos longe demais pela estrada errada, e depois de tanto tempo, tanto dinheiro, tanta energia gasta, da enorme distância do verdadeiro ponto de origem e do verdadeiro destino, a gente se dá conta de que ficou igual a todo mundo, como queria, vestindo igual, tendo carro igual, usando joia igual, falando igual, sofrendo mais e curtindo menos; a gente se dá conta de que vendeu a alma e, com ela, a graça.

Isso que tem acontecido em volta, no meio, dos lados, em cima e embaixo, é a prova de que este é o lugar errado; onde chegamos, todos. O que a gente vê é a paisagem errada!

Foi isso que nos hipnotizou? É difícil de acreditar! É isso que continua nos fazendo destruir o verdadeiro e a água do terreiro; o bosque, o pássaro, a borboleta? É essa ganância desmesurada, esse egoísmo generalizado e banalizado que deixa um amargo na boca, essa tristeza que sempre sobra no coração, esse medo e esse desalento que se mostram no olhar, que incluídos em letrinhas minúsculas no final do contrato vieram no pacote e levaram em troca o bom-humor, e transformaram tudo em dor, em desgraceira, em resgate onde acaba cabendo saque, num palco de lágrimas e horrores onde cabem boatos criminosos?

Em que lugar do caminho se perdeu o prazer de dirigir na estrada, sem rumo, à noite, só para ouvir no silêncio, com o corpo inteiro, as músicas favoritas, no rádio do carro? Onde se perdeu o prazer de acampar; de dormir no embalo dos pingos da chuva? De nadar na cachoeira sem medo de verminose, de virose ou de cirrose? Onde está nossa cidade antiga, nosso berço, cercado, protegido, fotografado e cuidado diariamente para que ninguém o destrua, para que ninguém o desfigure, para que a gente se lembre de onde veio e para onde estava indo?

O que nos cerca nos escoa por entre os dedos e não ecoa o prazer esperado, porque traz consigo a desgraça, a tristeza, o isolamento, a solidão, a armadilha que nos atraiu até aqui, até agora.

Está tudo sossobrando porque nem o Planeta nos aguenta mais. Não aguenta tanto desrespeito, tanta prepotência de quem se julga dono dele. Se não pararmos agora e não assumirmos, cada um, o seu latifúndio de responsabilidade, criaremos filhos apenas para que ajudem a suportar, nas costas, a custo das próprias vidas, até o último segundo, os pilares da Terra.

Não custa lembrar que, hoje e sempre, não é dado apenas a um ou a poucos, entender e traduzir a magnitude da Vida. É preciso que haja quorum, que estejamos juntos, todos, porque só o todo pode compreender O Todo.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

Avalanche Tricolor: Saudade do Gaúcho

 

Grêmio 2 x 2 Lajeadense
Gaúcho – Olímpico Monumental

A televisão ainda passava jogos em video tape. A tecnologia oferecida não permitia transmissões de partidas a longa distância, ao menos não a um custo que valesse a pena investir. Jogo ao vivo e em cores era na arquibancada e os mais próximos disputados pelo Campeonato Gaúcho.

Era uma época em que competição daquele quilate não exigia aumentativo para ser valorizada. Desconfio que esta mania de chamar as disputas de Gauchão, Paulistão e outras coisas mais surgiu no momento em que a importância destes campeonatos diminuiu.

Gauchão pra gente era o Paixão Cortês que surge na ilustração do Xico Silva.


Seja como for, foi nas viagens ao interior do Rio Grande do Sul que aprendi como se joga futebol de verdade. Deixava-se Porto Alegre para cruzar o estado e éramos abrigados em estádios de madeira, com alambrado despencando, vestiários precários e torcida adversária vibrando como se fosse final de Mundial.

Foi nestes gramados – forma de dizer porque há muito a grama não era vista nem plantada naqueles campos – que assisti às mais impressionantes retrancas; zagueiros que trocariam um Troféu Belford Duarte pela canela do primeiro atacante que se atrevesse cruzar na intermediária; carrinhos que riscavam o chão e trilhavam o caminho com faíscas da chuteira de cravo antes de alcançar a perna alheia.

E eu gostava muito de tudo aquilo.

Jogar futebol era uma aventura, principalmente para os jogadores que chegavam da capital, sempre um alvo a ser abatido. Mesmo assim, o meu time era melhor e superava todas estas intempéries. Voltava para a “cidade grande” com sangue na camisa, barro nas meias, calção corroído pela poeira e a satisfação pela batalha vencida.

Sofri muito ao lado do campo vendo tudo isso acontecer. Vibrei e chorei com vitórias incríveis. Entendi que no futebol nem sempre o melhor ganha, é preciso também ter mais coração. Sabe aquela coisa de raça e determinação ? Pois é, nos jogos do Gaúcho era mais do que necessário.

Eu fui forjado torcedor neste campeonato, onde ganhei meu primeiro título – história já contada neste blog.

Muitos de nós passamos a nos apaixonar pelo futebol nas competições estaduais que se iniciaram neste fim de semana. Não exatamente neste arremedo de jogos disputados em fórmulas que mal conseguimos explicar aos nossos filhos. Hoje, os grandes times entram em campo preocupados em preservar seus jogadores para os jogos importantes da temporada.

O Grêmio, por exemplo, está de olho na pré-Libertadores, no dia 26 de janeiro, e para se livrar dos compromissos do Gaúcho fará, nos próximos dias, uma sequência absurda de partidas para um time que recém começa o ano – a largada para esta maratona foi hoje. Jogou muito bem no primeiro tempo, sem fôlego para marcar mas com talento na troca de bola. No segundo, cansou, desistiu ou estava desacostumado com as coisas do Estadual.

Distante do Olímpico e de volta ao papel de torcedor de PPV, assisti à partida sem a apreensão do passado. Sinal dos tempos, talvez. Apesar disso, tenha certeza de uma coisa: eu ainda acho muito bom ser campeão Gaúcho.

Veja mais ilustrações do Xico Silva no álbum do Picasa