Natal 2009: crédito em descrédito

 

Por Carlos Magno Gibrail

Do álbum digital de Fotero, no Flickr

A menos que você tenha todos os cartões de crédito ou de débito, certamente já passou apuros na hora de pagar contas.

Entretanto, nada comparável ao que ocorreu na véspera de Natal, principalmente se o seu cartão é da operadora Redecard. O sistema Redecard dos cartões de crédito Mastercard e Diners e dos cartões de débito Mastercard, Maestro e Redeshop, apresentaram um apagão ou uma queda, tipo Itaipu ou Rodoanel. Talvez para comprovar a similaridade entre grandes corporações, quer pública ou privada. Resultante indesejável, mas inevitável nos regimes oligopolizados ou monopolizados.

As lojas perderam vendas, e bares e restaurantes tiveram outros problemas, pois não havia como devolver a mercadoria consumida. De qualquer forma o comércio, já emparedado pelo duopólio dos cartões com cifras fora do padrão internacional, além de receberem o dinheiro 30 dias após, tiveram neste episódio efetivo prejuízo.

Os consumidores, que pagam a conta, ficaram sem ela, mas pagaram caro pelo atendimento do serviço que não veio. Ficaram sem os presentes de Natal.

Por que as prestadoras de serviço cobram multas e juros aos inadimplentes, e quando falham no suprimento dos mesmos não são obrigadas a ressarcir os prejuízos advindos?

O CDL – Câmara dos Dirigentes Lojistas informa que 30% das vendas do mês do Natal são realizadas no dia 24, e que 70% das vendas em Shopping Center são realizadas através dos cartões de crédito e de débito.
Com volumes crescentes de negócios e operando em regime de duplo monopólio, Visa e Redecard apresentam lucros significativos. Acima de 60%.

A Redecard é controlada pelo Itaú Unibanco (50,1%). A margem EBTIDA (Earning, Before, Interest, Taxes, Depreciation, Amortization – ou lucro antes de juros, taxas, depreciações e amortizações) da companhia, indicador de sua lucratividade, foi de 68,03% em 2008. A da VisaNet, de 62,3%.

Ao encaminhar ontem notificação extra oficial à Redecard, o CNDL – Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas, em nota à imprensa assinada pelo seu presidente, empresário Roque Pellizzaro Júnior, destaca: “esse lamentável evento expõe a fragilidade do sistema e comprova nossos questionamentos e apreensões quando condenamos os constantes abusos desse duopólio, de um mercado dominado praticamente por duas grandes empresas que, além de cobrar altas taxas aos lojistas, não correspondem às nossas expectativas no momento que mais precisamos”. É o início do caminho jurídico que o CNDL se propõe.

A ALSHOP, entidade que representa lojistas em Shoppings Centers acena em outra direção, propondo uma negociação informal, sem interferência dos canais legais. Nabil Sayon, seu presidente nos afirmou que está em contato com a direção da Redecard para estabelecer um canal de entendimento com os lojistas associados à ALSHOP. E, diz que: “O maior prejudicado foi a Redecard”; “Todos tem mais de um cartão”; “O dia 24 não é o de maior movimento”.

O diretor da Mixxer consultoria de varejo, Eugenio Foganholo aponta a fragilidade da tecnologia disponível pela Redecard, diante da importância dos cartões como meio de pagamento e da resultante dependência do varejo.

O Prof. Nelson Barrizzelli, USP e Sênior Partner da AGC International, vê há tempos com preocupação as tarifas e as operações inadequadas do sistema de cartões, ressaltando o incomodo do oligopólio do setor. Entende que o caminho mais promissor será ações de órgãos diversos convergindo sem divergências para o interesse de quem interessa, o consumidor .

O fato é que o problema não vem de agora, pois a SDE – Secretaria de Direito Econômico, órgão subordinado ao Ministério da Justiça abriu processos administrativos para apurar eventual infração à ordem econômica praticada no âmbito do comércio eletrônico pela Redecard e uma possível conduta anticompetitiva da Visanet e da Visa International. E, justifica: “Em vista da gravidade da conduta e do perigo de lesão irreparável ao mercado, a SDE adotou uma medida preventiva a fim de suspender os efeitos da exclusividade”.

O processo Redecard envolvendo vendas on-line foi iniciado em agosto e o da VisaNet focando a exclusividade começou em novembro. Efetivamente a SDE estava no caminho certo e, como entidade responsável é quem possui a autoridade pertinente e esperamos que atue com a necessária competência.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve no Blog do Mílton Jung

Canto da Cátia: Córrego, lixo e morte

 

Guarulhos - Corrego Baquirivu (Cátia Toffoletto)

O lixo é tamanho que o córrego Baquirivu parece entupido após a chuvarada desse domingo, na cidade de Guarulhos. Em outro córrego, na estrada do Bonsucesso, um homem morreu após o carro em que estava ter sido arrastado pela enxurrada à noite. A imagem do córrego e de outras ruas alagadas na segunda maior cidade do Estado de São Paulo foram feitas pela Cátia Toffoletto.

O poder transformador do cidadão

 

Foto de Ullysses Martins Moreira Neto - 1o Concuso de Fotos de Árvores SP

Há muito tempo se defende no CBN São Paulo a ideia de que está nos centros urbanos a solução para frear o aquecimento global. Mudanças de hábitos que começam com escolhas simples como a embalagem do produto que você vai comprar ou o modelo de transporte que pretende usar para chegar ao trabalho. Não há como deixar o carro na garagem, pois é baixa a qualidade do transporte público ? Então acelere menos, mantenha o motor bem regulado, queime combustível mais limpo ou troque aquele “beberrão” por algo mais econômico.

Assim como está nas mãos do cidadão o poder de comprar de um fabricante mais verde, também está o de escolher um político comprometido com o combate as mudanças climáticas. Ou de pressionar seu representante a votar em projetos de lei que beneficiem o meio ambiente.

Este poder transformador do cidadão esteve ausente em boa parte das discussões na Conferência do Clima em Copenhague, na Dinamarca, de acordo com a avaliação do diretor-presidente do Instituto Akatu, Helio Mattar que conversou com o CBN São Paulo. A instituição que incentiva o consumo consciente está convencida de que não haverá sustentabilidade sem uma mudança no estilo de vida das sociedades.

Ouça a entrevista de Helio Mattar do Instituto Akatu, ao CBN SP, e mude seus hábitos

Ex-Observer aposta em jornalismo no “livro eletrônico”

Kaplan aposta na paixão americana por novos brinquedos. O brinquedo eletrônico certo, ele promete, pode salvar a indústria da mídia e tirar do exílio bons editores que vão oferecer ao leitor uma nova estética e preservar o poder democrático do jornalismo.

Texto de Lúcia Guimarães publicado no caderno dominical Aliás, do Estadão, sobre entrevista com Peter Kaplan, consagrado como editor-chefe do New York Oberver e agora na editora Condé Nast Traveler, na qual ele aposta que a solução tecnológica do tablete, leitor eletrônico que deve ser lançado pela Apple, será uma espécie de tábua da salvação do jornalismo impresso. Para ele, os anúncios se tornarão mais atraente e será criado um novo modelo de receita. Otimista, fala, também, em novo modelo de jornalismo.

Nove de Julho tem Fonte da Dengue

 

Chafariz da 9 de Julho

“Acabo de receber uma ligação de ‘prestação de serviço da prefeitura de São Paulo’. Na gravação, a campanha sobre como se prevenir da dengue. Será que o responsável pela fonte próximo ao Túnel da 9 de Julho já recebeu esta ligação, também ?” – e-mail que recebi de Marcos Paulo Dias, fotógrafo e autor da mensagem.

Caso o responsável pela fonte queira saber o risco que ele impõe a cidade com esta água parada, deico aqui o link para o site da prefeitura sobre dengue (clique aqui). Se você estiver interessado no assunto, clique também.

De céu e inferno


Por Maria Lucia Solla

Ouça “De céu e inferno” na voz da autora

Angustia

há dois modos apenas
de curar a vida
lamber a ferida
ou roer
as
penas

há dois modos da boca sorrir
arrastar a cara com ela
ou com a cara amarela
só
rir

há dois modos de ser amada
dançar ao som do amor
driblar aqui ali a dor
ou partir para o jogo do tudo
ou
nada

há dois modos de ser
ser na vida ser com ela
ou assistir da janela
e de inveja
pa
de
ser

há dois modos de chegar ao céu
reconhecer o inferno
partilhar com ele o denso véu
ou negar o demo e vagar
ao
léu

há dois modos de dizer a que veio
pular na frente
vim
gritar de trás olha eu aqui
enfim
ou estagnar na fileira
do
meio

há dois modos de sonhar
assistir ao sonho do outro
esticar o pescoço torto
ou sonho a sonho
or
ques
trar

há dois modos de beijar
a alma nos lábios do outro entregar
ou sonegar
sonegar
só
negar

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza cursos de Comunicação e Expressão, aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung provocando nossos sentimentos de todos os modos.

Conte Sua História de São Paulo: O trem da vida

 

Por Elza Guerra Alemán
Ouvinte-internauta

Ouça “O trem da vida” com sonorização de Cláudio Antonio

Bairro do Brás

O ano de 1947 corria. E corria mesmo. Minha mãe falava todos os dias que o ano estava passando muito veloz. Isto porque ela não queria mudar-se do bairro do Brás onde morávamos e meu pai já havia estipulado o mês de janeiro para a mudança. A cada 24 horas mais se aproximava o dia de irmos para outro bairro, o longínquo Real Parque. Era longe, muito longe, naquelas montanhas cheias de eucaliptos, depois da ponte sobre um grande rio. Varias vezes tínhamos ido até lá visitar a família Valladares – o senhor Andrés, dona Luisa e suas duas filhas. Até que achávamos divertido passar o dia na granja deles! Enquanto minha mãe se lamentava, eu e minha irmã não víamos a hora de mudar de casa.

Meu pai tinha uma hospedaria no bairro do Brás, na rua Dr. Almeida Lima. Era a “Pensão Brasil”, um hotelzinho de poucas ou nenhuma estrela e onde também morávamos.

Nessa ocasião, eu tinha 7 anos. Estava no primeiro ano do curso primário, na Escola Normal Padre Anchieta. Todos os dias, pela manhã, passava pela rua 21 de abril para chamar minha coleguinha Olímpia e juntas chegávamos à avenida Rangel Pestana, no belo colégio, para as aulas da professora Idalina Guerra.

Apressadamente o ano caminhava para seu final.

Meus pais procuravam levar-nos, a mim e a minha irmãzinha, a todos os lugares onde provavelmente seria muito difícil voltar depois da mudança. Íamos então com mais freqüencia aos cinemas do bairro. No Piratininga, no Brás Polytheama, no Universo, assistiamos filmes espanhóis, americanos, brasileiros e argentinos. Quando íamos a noite, a sessão era de dois filmes e não podíamos ficar na sala de exibição depois das vinte e duas horas. O lanterninha vinha avisar meus pais para se retirarem com as crianças. Alguns filmes, talvez o “Sob a luz de meu bairro”, o “24 horas na vida de uma mulher” ou o “Os sinos de Santa Maria” eles não puderam ver o final, pois certamente tiveram que sair antes de terminada a sessão. Era a lei na época.

O Teatro Colombo, no largo da Concórdia, além de espetáculos musicais e peças de teatro, também exibia filmes. Lá, nas matineés de algazarra, assistíamos desenhos e seriados cujos finais nunca mais saberíamos.
Aquele final de ano rendia em passeios. Fomos ao circo montado na rua Visconde de Parnaiba , quando levavam a peça “Os milagres de Lourdes” e lembro-me que eu e minha irmãzinha choramos emocionadas.

De outra feita vimos também a peça “O Ébrio”, talvez no mesmo circo, onde também nos derretemos em lágrimas.

O Parque Shangai, instalado no parque Dom Pedro, era um acontecimento. E lá fomos nós ver todas aquelas luzes, brinquedos que se moviam, a mulher gigante que ria, ria sem parar e acho que se chamava Chica Pelanca.

Assistir aos casamentos na igreja Bom Jesus era também uma grande distração. Tenho a impressão que não perdemos nenhum sábado. E depois de analisar os vestidos das noivas e os trajes dos convidados passávamos pela rua Caetano Pinto para que minha mãe pudesse matar a saudade de seu tempo de criança.(Foi ali que meu pai a viu pela primeira vez, quando não passava de uma menina, filha de imigrantes espanhóis).

Atravessar as Porteiras do Brás, quando estas se fechavam, era cansativo, pois tínhamos que subir uma escada de muitos degraus, andar por um corredor e descer do outro lado. Dentro da estação de trens, no local de embarque, havia uma balança para pesar volumes. Não sei como funcionava, porém quando meu pai nos pesava, a balança soltava um cartãozinho com desenho de algum animal. Lembro-me que sempre recebia o desenho de um carneirinho, talvez pelo meu pouco peso. Gostava de ouvir o sinal avisando que as porteiras iriam se fechar ou abrir. Elas barravam o fluxo de carros, bondes e ônibus que cruzavam a avenida Rangel Pestana, para a passagem dos trens.

Mas, voltemos a Pensão Brasil que tinha altas portas e janelas idem que se abriam para a rua. A construção seria com certeza do século XIX. Fazia parte de uma serie de casas geminadas, que nessa época, anos 40, eram residências de famílias proletárias. Meu pai alugara duas daquelas casas, que possuíam muitos quartos e as transformou em um pequeno hotel. Hotel que servia tanto aos estudantes da Escola

Aeronáutica, da rua Visconde de Parnaíba, como aos migrantes, despejados aos montes na Estação do Norte. Esses eram seus hospedes. O grupo de casas fazia vizinhança ao “Laticínios Paulista”, a usina de leite, que por sua vez ficava junto a outra passagem dos trens. Uma passagem também com porteiras que cortava a rua dr. Almeida Lima.

Pensam que não? Lembro-me e ainda penso ouvir o barulho dos trens… dos vagões de carga, do trem de luxo, da litorina… ouço o barulho das caixas metálicas, arrastadas pelos funcionários do Leite Paulista…com vasilhames de vidro…na calçada que estava constantemente molhada…

Aquele 25 de dezembro chegou num instante. A Aurora Pazzito, o Alfredo, a Maria, a menina bem vestida da última casa, eu e minha irmã, logo cedo saímos a rua para mostrarmos os presentes que havíamos ganhado. Uma boneca, um joguinho de sofá, panelinhas e um revolver do Roy Rogers faziam a alegria daquela meninice.

Os dias rolaram como bolinhas de gude na ladeira. E uma noite ouvi minha mãe nos chamando para ouvir os apitos das fábricas, as buzinas dos carros, os estrondos dos fogos de artifícios, os meninos com paus batendo nos postes. Era a festa do reveillon. Terminava 1947 e nascia um ano novo.

Dias depois, nossa parca mudança chegava ao Real Parque. Casas pequenas com grandes quintais, árvores, cachorros, galinhas e pássaros. Água de poço. Rua de barro. Era uma nova etapa, um novo trajeto do trem de nossas vidas.


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, às 10 e meia da manhã, no CBN SP. Você participa enviando seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br.

Neta escreve “Sem Remetente”

 

Neta Mello em lançamento de livro (Foto: Blog da Neta)

‘Sem Remetente’ guarda segredos em cartas escritas durante toda uma vida e leva o leitor ao próximo capítulo porque sempre parece que algo novo está para ser desvendado. Não é capaz, porém, de esconder características da autora Neta Mello, ao menos aquelas que ela nos permite conhecer em seus textos no blog ou em entrevistas como a que concedeu ao CBN São Paulo, que foi ao ar no dia de Natal.

O perfil de historiadora é evidente nos detalhes com que constrói os personagens e desenha os cenários por onde passam a família da Dona Julia, a escrevinhadora. As mulheres que surgem na trama tem a força da escritora. Perguntei qual das personagens femininas era ela, e a resposta está na segunda parte da entrevista que você acompanha aqui no blog.

Antes de chegar até lá, porém, Neta (pronuncie com ‘e’ fechado) conta o que a inspirou para tornar ‘Sem Remetente’ (Scortecci Editora) seu primeiro romance. Antes havia escrito “Crônicas Memórias” e “Pauliceia Ignorada”, a partir de histórias contadas por personagens anônimos da capital paulista.

Ouça a primeira parte da entrevista de Neta Mello

Agora, ouça o que diz Neta Mello na segunda parte da entrevista

Conheça mais de Neta Mello e “Sem Remetente” no Blog da Neta.

(Alertado pela Neta, descobri que a primeira parte da entrevista estava em alta rotação. Consertado o problema, uso a falha técnica para descobrir mais uma faceta da autora: segundo mensagem escrita por ela, os filhos disseram que a mãe é assim mesmo, acelerada, em altíssima rotação)