Férias, meninas!

 


Por Sérgio Mendes

 

As meninas encontravam se todas as tardes estudando na biblioteca, naquele tempo pouco frequentada por meninas por que não muitas delas chegavam a cursar a faculdade. Menos ainda em escolas que não fossem só para elas. Se juntaram meio que empurradas pelo instinto de proteção. Só depois, passaram a cumprimentar-se no café, na cantina, no bandejão e finalmente começaram também a freqüentar as casas e as famílias de cada uma.
Elas não foram amigas na infância, não liam os mesmos livros nem gostavam dos mesmos gostos. Partiram da vontade comum de ascender profissionalmente no mundo que até ali pertenceu só aos homens. Daí é que o tempo encarregou-se de esculpir nas quatro, laços para a vida toda. Igualzinho ao que fazem o vento e a água, moldam as pedras devagar e sutilmente.

 

Amélia ( Melinha), Corry, Júlia e Aida (Ida), sonhavam com carreiras promissoras e queriam ser mulheres independentes. Vida como a de suas mães e avós passava nem pela conversa delas. Queriam carreiras e conquistas pessoais numa época em que as mulheres ainda eram talhadas para o casamento e a submissão a seus esposos. O espaço feminino fora de casa recém era aberto por outras como elas.

 

Apesar da liberdade, a conta dos estudos, aquela era realidade incomum para moças em idade de se casar e os limites estavam bem ali às vistas. Seus pais as controlavam com horários muito rígidos. O que nunca as impediu estripulias ou de sonhar com elas.

 

Foi justamente nesse tempo que uma vez apareceu a idéia de um passeio sozinhas. Quiseram uns dias sem dar conta do que faziam a nada e a ninguém. Era a urgência de serem livres, independentes. Tudo não passava de um fim de semana na praia, complicado por aqueles dias, mas não mais impossível como teria sido uma ou duas gerações de mulheres antes delas. A aquela pausa chamaram de férias.

 

De qualquer maneira o passeio nunca aconteceu. Não antes que os ventos de muitas mudanças permeassem quase tudo na vida das quatro.

 

E eles não demoraram a soprar, mudando junto com outros objetivos tão sólidos como a vontade que eles continham, e transformaram instantaneamente as urgências de ao menos uma delas.

 

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Amizades que valem ouro

 

Por Abigail Costa

 

Começo hoje citando agradecimento dos autores W.Chan Kim e Renée Mauborgne do livro “A estratégia do Oceano Azul”:

 

“À amizade e às nossas famílias que tornam nossos mundos mais significativos”

 

Fui criada num universo totalmente rosa!
Pai… Mãe e três irmãs. Na soma prevaleceu o sexo feminino. Foi assim na infância até metade da adolescência. Assim que fui pra faculdade e comecei no trabalho, encontrei um mundo diferente de amizades, as masculinas. Nele tive o privilegio de conviver por quase 30 anos e ainda continuo com boa parte delas. Nesse tempo foi possível encontrar diferenças que me aproximaram ainda mais do sexo oposto.

 

Em casa convivo com três deles: marido, filhos, cachorros e gato – todos sem alterações hormonais, e confesso: é bem mais fácil lidar com eles sem a bipolaridade daqueles dias enfrentados por nós mulheres todos os meses ( deixo aqui minha constatação: mudanças de “personalidade” nada bem vinda com a chegada da TPM). Mas não é apenas a  troca de um olhar diferente que tornou a minha aproximação com os homens mais agradáveis.

 

No trabalho, era normal ter sempre três deles ao meu lado, diariamente. Não por ser a única mulher do grupo, mas sempre recebi um carinho especial….. Sem maiores interesses a não ser o de tornar a minha vida mais agradável, mais leve, mais luxuosa.

 

Eles tem características especiais (deixo as explicações teóricas aos especialistas), mas o fato é que são mais fáceis na lida do dia a dia. Aquela competição horrorosa, do tipo sou mais… Sou diferente de você… Porque você tem…. Olhares atravessados e comentários que em certos momentos te desmontam entre as mullheres, com eles isso não acontece com frequência, ou pelos menos com os bons e sinceros amigos.

 

Essa facilidade em me identificar com o sexo oposto (e aqui vai uma ressalva…. sem interesses que ultrapassam uma boa conversa e opiniões) me levaram a uma admiração e desejos em mantê-los sempre por perto. Um contato tão profundo que certa vez um amigo me pediu desculpas dizendo: “às vezes esqueço que você é mulher e me pego falando com um homem!”.

 

Minhas pouca e boas amizades femininas entendem que esse meu lado tendencioso em permanecer mais próximo deles não anula meu carinho por elas.

 

Não por que sou paparicada, por ser poupada de assuntos digamos mais pesados. Essas amizades são mais práticas, diretas e sem rodeios, e problemas que não merecem maiores dores de cabeça são tirados do caminho. Com eles tenho a sensação de aprender mais com uma linguagem mais simples.

 

Essas amizades deixam a minha vida mais prática!

 

Abigail Costa é jornalista, faz MBA de Gestão de Luxo e escreve no Blog do Mílton Jung

Casamento de celebridades

 

Adriane Galisteu casou com o filho no colo, leio em um portal de notícias e entretenimento. Não fiz questão de acessar a notícia. Nada contra a moça que leva a vida do jeito dela e feliz. Menos ainda contra o casamento, estou em um desses há 17 anos (e que muitos mais tenhamos pela frente). Mas é das notícias que não me chamam atenção, raras vezes me levam para dentro de um página ou me desviam do que procuro neste emaranhado que está a rede.

Apesar de que hoje ficaria muito feliz em saber notícias de um casamento em especial. Simone e Marcos não estão na lista dos casais VIPs, aqueles que são caçados pelos fotógrafos e procurados pelos patrocinadores, mas fazem parte de uma restrita lista que mantenho em minha caderneta de anotações (meu ‘contacts’ pra ser mais preciso). Eles não são, necessariamente, amigos de receber em casa ou trocar confidencias, mas são daquelas pessoas pelas quais estarei sempre na torcida pelo sucesso.

Conheci os dois por causa do Marcos quando ainda ele era estudante de jornalismo. Me levou a São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo, pra conversar com algumas dezenas de alunos. A Simone estava ao lado, era namorada ainda. Os dois se tratavam com um carinho contagiante e se dirigiam a mim com uma reverência que não merecia. Logo vi que ali estava um casal pronto para viver em harmonia, capaz de entender que a relação deles está acima de qualquer desafio que, certamente, surgirá.

Ele se formou e segue trabalhando em meio a jornais e revistas, na banca que foi do pai, em frente a FGV, na Nove de Julho. Tem tino jornalístico, identifica os fatos que são notícia com facilidade, não se cansa de me sugerir reportagens, está sempre de olho nas cenas que valem a pena ser registradas e tem uma capacidade singular para transformá-las em fotografias – muitas estão lá no álbum digital do CBNSP, no Flickr.

Hoje à tarde, Simone e Marcos casaram em Atibaia, interior de São Paulo, em um sítio, acompanhados de pessoas que são importantes na construção da vida que eles imaginaram levar em frente. Seu Joaquim, pai do Marcos, não estava presente, pois decidiu-se pelo descanso eterno, há pouco tempo, provavelmente após ter tido a consciência de que o menino dele estava pronto para seguir sua caminhada. Seu espírito e o caráter que transmistiu aos filhos, tenho certeza, estavam lá.

Particularidades de família me deixaram distante desta celebração à felicidade. Fisicamente distante, apenas. Fiquei o sábado imaginando como estaria sendo este momento singular. Da alegria sincera e humilde do Marcos ao beijo apaixonado da noiva. Do olhar entusiasmado dos parentes à satisfação dos amigos próximos. Dona Maria, Seu José e Dona Genésia, pais e mães dos noivos, orgulhosos dos filhos que criaram. Não tenho dúvida, para todos eles testemunhar a vitória de gente bacana neste mundo contaminado do qual fazemos parte foi um momento especial.

Simone e Marcos foram hoje celebridades. E a eles transmito meu desejo de que a mesma magia que os uniu siga interferindo nas suas escolhas.

(e que o Marcos Paulo Dias não esqueça de seguir fornecendo informações e fotos para este blog)

A difícil arte de confiar

 

Por Abigail Costa

Penso que ninguém escolhe ninguém pra ficar ao lado já com desconfiança.
Isso no caso de pessoas normais.
Ninguém escolhe amigos e desta relação manter o pé sempre atrás.
Entre irmãos o natural é se doar, não renegar.
Mas em todo o momento da vida a pessoa se vê obrigada a fazer escolhas.
Quando acontece alguma coisa fora do esperado, puxamos o breque.

Sempre tive dúvidas em relação a uma traição.
– Dá pra recomeçar sem a desconfiança natural?
– É possível encarar o outro de novo sem fantasmas ?
– Será que vai se repetir ?

Numa relação de intimidade entre amigos, onde se faz tudo junto, se diz tudo despreocupado e se toma uma bola nas costas, por experiências pessoais, nada é como antes
Desculpas são aceitas. Mágoas esquecidas.
Mas dá pra sentar num restaurante e brindar a amizade?

Tenho que melhorar isso com a meditação.
Na família isso é complicadíssimo.
Se tira a pessoa das listas de festas, dos almoços de domingo.
Foge dos telefonemas desagradáveis.
Mas não se deleta do coração.

É um conflito entre a razão e a emoção.
Crescemos lado a lado, dormimos juntos, fizemos planos.
E, agora, cada um para um lado.

Deveria ser assim: O médico prescreve um remédio, alguns meses de tratamento e….
A confiança de volta!
Sem o remédio pra isso, fica o amargo de um sentimento que era, não é mais, e quem sabe se um dia voltará a ser.
Enquanto isso vamos no lema dos que umdia se entregaram ao vício e estão se recuperando.
Pelo menos por hoje vou confiar.

Abigail Costa é jornalista e, confiante, escreve às quintas-feiras no Blog do Mílton Jung

Me dá um dinheiro aí !

 

Por Abigail Costa

Experimente contar um problema pra alguém.

– Isso não é nada!
– Imagine que….

Como se problema tivesse dimensão de mais ou menos, maior ou menor.
É problema e pronto.
Simples ? Não.

Fulano tem uma dívida, você ganha um pouco mais do que ele.
Logo, você vai dar uma força para cobrir a conta bancária do camarada.
Isso é o que ele espera, claro o teu salário é maior!
Mas e as suas despesas ? Elas também não são maiores ?

Tenho vivido fases parecidas.
Não se iluda, não falo de “gordos rendimentos”, mas dos que ainda acreditam que a obrigação é sempre dos outros.

Esse era um assunto que realmente não me incomodava. Deixava rolar.
Passou a incomodar quando começei a perder amigos e dinheiro.

É assim:

– Preciso da sua ajuda. No fim do mês, eu pag….

Sempre no fim de um mês que nunca chega.
Ele fugindo de você, e você sem jeito de cobrar.

E vem o pensamento:
– Por que não apliquei esse dinheiro na bolsa, lá se perdesse sabia do risco.

Passei por uma saia justa outro dia.
Eu e ele.
Quando desliguei o telefone, fiquei com raiva de mim.
Repeti em alto e bom som:
– Eu não aprendo !

Do fim do mês vai ficar para o dia 15.
Você acredita?
Quer apostar?
Não faça isso.
Corremos o risco de perder.
De novo.

Abigail Costas é jornalista, escreve às quintas-feira no Blog do Mílton Jung e, que fique claro, nunca me emprestou dinheiro.

De sentada na calçada


Pássaro por Maria Lucia Solla

Por Maria Lucia Solla

Ouça ‘De sentada na calçada’ na voz da autora

mas é real o que estou a ver
encontro e desencontro
tim tim
rindo a comer e beber
se fartando de mim

e quem está com os dois
não pode ser olhe lá
esperança e desesperança
não acreditaria se ouvisse falar

a Vida é mesmo mistério
digo rindo
e falando sério

pensava que fossem
de tribos opostas
que no mesmo ambiente
não estariam
nem de costas

no entanto parecem entrosados
os quatro
partilhando uns dos outros
copo e prato

tim tim
rindo a comer e beber
muito furtando de mim

há intimidade
é mais que um primeiro encontro
parece que vem de longe
que é sólida a amizade

riem
é só o que me falta
além do ar
desencontro abraçado
à esperança
os dois a gargalhar

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira, realiza curso de Comunicação e Expressão, escreve no Blog do Mílton jung aos domingos, e é ótima companheira para bater papo sentada na calçada.

Carta a uma amiga

 

Por Abigail Costa

Hoje, sei que quando chegar ao trabalho não ouvirei aquela voz marcante gritando pelos corredores para mim: gataaaaaaa!!!! Sei que enquanto estiver driblando o trânsito e o calor, você estará longe dessa loucura. Aproveite esse tempo para ser mais feliz. Para ficar ainda mais bonita (se é que isso é possível).

Passe mais tempo na academia. Vá mais vezes à loja da sua amiga. E entenda, nem é pra comprar. Vá, admire os anéis, os colares. Tá bom, se gostar, compre, se dê de presente, mais um ou vários.

Passe um protetor solar e vá curtir o sol! Aproveite, sem a preocupação de borrar a maquiagem.
Por um tempo, livre-se das escovas e chapinhas diárias. Dê um sossego para os cabelos. Deixe sua pele respirar.

Longe da luz e do calor, preseve seu rimel, seu blush, seu batom. Eles não vão demorar pra encher sua necessaire outra vez.

Nesse tempo, apareça de surpresa no trabalho dele e ofereça um almoço.

Ele só tem 15 minutos? Que tal um suco?

O importante é ter você como companhia.

Não se preocupe, a gente vai se encontrar sempre. Se quiser, pode ser na minha casa neste fim de semana. Na próxima, num restaurante. Ou melhor, quero lhe ver hoje para desejar, pessoalmente, toda a sorte do mundo.

Beijos!

Abigail Costa é jornalista e às quintas-feiras está no Blog do Mílton Jung. Hoje, escreve especialmente para alguém que você não reconhece. Mas pode ser uma amiga sua ou, quem sabe, você mesma.

Amigos e o prazo de validade

 

Por Abigail Costa

Confesso já tive mais amigos do que tenho hoje, muito mais. A conta de dimiuição nesse caso tem um por quê. Lá atrás, com menos idade, mais paciência, menos desconfiada e mais aberta, conhecia, gostava, era amigo.

Em alguns casos, até era de verdade; na grande maioria amizade de passagem.
Isso, amigo com prazo de validade.

Considere até laços por conveniência. Entra na faculdade. Com sorte pra sair dela serão quatro, seis ou mais anos. Nesse tempo, encontrando a mesma turma, nos mesmos horários, vidas mais ou menos parecidas, conversas, confidências e AMIZADE.

Diploma, festa, os encontros diários são reduzidos, as ligações do tipo: hã acabei de me lembrar que…. Tô ligando pra dizer que acabei de ver o….

Rotinas diferentes podem até interferir quando essa amizade tem prazo de validade e, sem se dar conta, não tivemos tempo de ler o rótulo.

Alguém já teve um amigo, amigão no trabalho.

– Oi! vou me atrasar! você pode abrir o computador, estou precisando de uma informação, está na pasta pessoal. A senha é….

– Calma que eu já estou abrindo….

A senha foi passada sem desconfiança, não é preciso pedir sigilo. É amigo.
Você sai da empresa, ele fica. No meio do caminho vão ficando as sobras, as lembranças e um dia, nada.

O nada vem não pela falta do “cultivar aquilo que és responsável”. O fim do relacionamento chega por conta do prazo de validade.

Impossível escrever e não se lembrar de nomes. Um é da turma da igreja. No colégio pelo menos mais um. Minha primeira viagem ao nordeste foi a convite de uma amiga da faculdade. A Cleide, a Izilda, a Sandra….. nos despedimos um dia e ninguém se preocupou em trocar os telefones.

Uns saem, outros entram na nossa vida. Às vezes saem mais do que chegam….
Ultimamente tenho motivos para comemorar. Tenho amigos. Poucos, mas dos bons. E confesso, tenho usado meios para conservá-los !

Espero que com prazo LONGO de validade.

Abigail Costa é jornalista e escreve no Blog do Mílton Jung sem prazo de validade.

De volta

 

Por Abigail Costa

Agora é quase fim de semana. Não tenho do que reclamar.

Trabalho concluído e…. mesa de um boteco. Situação com a qual, quem me conhece sabe, não sou muito chegada, mas estou de mudança. Gostando do que ontem nem ousaria em pensar.

Pois bem, aperitivos e cerveja. Cerveja? Mas não engorda? Entre um gole e outro, engulo o que tanto disse a respeito desta bebida.

Ao meu lado um colega de trabalho. Um cara de 20 e poucos anos, com cabeça de gente grande. Bom de papo, ótimo profissional e a quem, daqui a pouco, terei o prazer de chamar de amigo. Na minha frente meu camarada (é assim que ele me chama). Naná foi uma grande surpresa na minha vida que chegou quando eu tinha só 22 anos e aprendendo a conhecer o jornalismo. Fomos apresentados, trabalhamos juntos, viajamos e enquanto ele ficou na empresa, eu decidi por outra.

Vinte e poucos anos depois, trocamos juntos de empresa. Ele lá e eu do outro lado, acabamos nos reencontrando. Naná mais velho, como eu. Ele absolutamente terra, eu, a eterna Alice no País das Maravilhas.

Novas surpresas, novos descobrimentos. Ele, não mais assistente, agora um baita repórter cinematográfico. Eu, repórter desde de sempre.

Dentre os 20 e poucos profissionais da “firma”, ele é o meu preferido. Não pense você que é só porque ele acerta o foco. Ele é diferente. Diferente no jeito de ser, diferente na maneira de pensar. Diferente porque ele é amigo. Daqueles que entendem o universo femino, desde a TPM, até escolher a camiseta pisicodélica para o meu filho usar numa feira da escola.

Estamos quase para encerrar o expediente, e Naná me pergunta:

– Onde estão os seus textos?
– Dei um tempo….
– Eu procurei por eles….

Decidi retomá-los….

Assim, pra dizer que coisa boa é ter alguém pra chamar de meu. MEU AMIGO. Daqueles de amor declarado. Porque ele é terra, mas tem sentimento.

Abigail Costa é jornalista e volta a escrever às quintas-feiras no Blog do Mílton Jung