Férias, meninas!

 


Por Sérgio Mendes

 

As meninas encontravam se todas as tardes estudando na biblioteca, naquele tempo pouco frequentada por meninas por que não muitas delas chegavam a cursar a faculdade. Menos ainda em escolas que não fossem só para elas. Se juntaram meio que empurradas pelo instinto de proteção. Só depois, passaram a cumprimentar-se no café, na cantina, no bandejão e finalmente começaram também a freqüentar as casas e as famílias de cada uma.
Elas não foram amigas na infância, não liam os mesmos livros nem gostavam dos mesmos gostos. Partiram da vontade comum de ascender profissionalmente no mundo que até ali pertenceu só aos homens. Daí é que o tempo encarregou-se de esculpir nas quatro, laços para a vida toda. Igualzinho ao que fazem o vento e a água, moldam as pedras devagar e sutilmente.

 

Amélia ( Melinha), Corry, Júlia e Aida (Ida), sonhavam com carreiras promissoras e queriam ser mulheres independentes. Vida como a de suas mães e avós passava nem pela conversa delas. Queriam carreiras e conquistas pessoais numa época em que as mulheres ainda eram talhadas para o casamento e a submissão a seus esposos. O espaço feminino fora de casa recém era aberto por outras como elas.

 

Apesar da liberdade, a conta dos estudos, aquela era realidade incomum para moças em idade de se casar e os limites estavam bem ali às vistas. Seus pais as controlavam com horários muito rígidos. O que nunca as impediu estripulias ou de sonhar com elas.

 

Foi justamente nesse tempo que uma vez apareceu a idéia de um passeio sozinhas. Quiseram uns dias sem dar conta do que faziam a nada e a ninguém. Era a urgência de serem livres, independentes. Tudo não passava de um fim de semana na praia, complicado por aqueles dias, mas não mais impossível como teria sido uma ou duas gerações de mulheres antes delas. A aquela pausa chamaram de férias.

 

De qualquer maneira o passeio nunca aconteceu. Não antes que os ventos de muitas mudanças permeassem quase tudo na vida das quatro.

 

E eles não demoraram a soprar, mudando junto com outros objetivos tão sólidos como a vontade que eles continham, e transformaram instantaneamente as urgências de ao menos uma delas.

 

A primeira lufada trouxe de cara um noivo. E olha que o rebuliço nem foi pra vento de verdade. Não passou de uma brisa, por nome Claudio, anunciando às quatro os percalços à frente. O compromisso de todo não desagradou a moçoila, até então não casamenteira. Tratava-se da ação do vento rolando aquelas pedras, e pedras muito pouco entendem de quereres. O casório de Melinha foi menos de um ano depois.

 

Para as demais, um absurdo. A amiga tinha traído os sonhos firmes do quarteto por que casou-se ainda antes de terminar o curso, e não contente, largou a faculdade ficando distante das outras por um período longo.!
As três solteiríssimas seguiram firmes e graduaram-se, mas em seguida, no primeiro ano de trabalho, mais ventos e duas delas também sucumbiram. Corry e Ida formaram família, e do mesmo jeito distanciaram-se do grupo um bocadinho.

 

A vida seguiu seu curso e as amigas deixaram de se ver, coisa que nunca mais voltaria a acontecer.!
Tão pouco tempo depois dos propósitos deitados nas horas de charla sobre o futuro, e três delas já estavam casadas, ocupando-se de endurecer os casamentos e construir sobre eles as casas que encheriam de gente. Júlia, a que não se casou, bateu duro contra o vento e ocupou-se não de gente, mas do que lhe serviu para fundar sua carreira. Ela escolheu pagar o preço de não passar de seu pai a posse da sua vida, para ser independente no mundo que escolheu. Bem mais tarde descobriu que o custo foi muito alto, por que também teve vontade da casa refrescada por alguma brisa, uma qualquer que fosse. Quando se deu conta, pensou se velha demais. Esse seria o seu sacrifício. Mas ela não era mulher de dramas, abanava-se sempre que podia.!
Quatro anos se passaram depois do ultimo casamento e essa também foi a conta que as amigas não se frequentaram.

 

Cada uma nesse tempo adaptava-se a sua nova história e seus novos enredos pra fiar. As casadas foram ter com as lições das escolas de boas moças, e perceberam que lá não ensinavam o que elas mais precisavam saber. Mal passavam do polido da aparência e um babujado que nunca foi mais do que peso inútil. Mais um na cangalha de todo dia das donas de casa em qualquer tempo. A que não se casou, também penou para ser reconhecida no mundo que não enxergava mulheres liderando.

 

Logo, as três casadas viram-se escondidas na imagem das mães de cada uma projetada nas outras, e a executiva em posições que ela sabia, estavam muito aquém da sua capacidade.

 

Segundo o passo do tempo, cada uma à sua maneira, cresceu dura feito pedra.
Perfeito para o vento.

 

E ele chegou outra vez não tarde, mas na hora certa. Num outro acaso, em alguma loja de armarinhos, juntou as três casadas e elas foram buscar a outra pra completar de novo o quarteto. Todas estavam diferente, eram agora mulheres duras e cheias de certezas, novas certezas.

 

Os primeiros encontros dessa fase diferente começaram mensais e recheados de formalidades. Diante das fartas mesas dos primeiros chás, elas encenaram rapapés de damas finas. Mas, como no passado, as rochas não demoraram a exibir as fendas por onde o vento marcava suas intempéries, e a proximidade varreu das quatro mais aqueles novos filtros.

 

Júlia teve alguma dificuldade por que suas prioridades eram muito diferentes das que as outras compartilhavam. Para ela sempre foi difícil raciocinar pela lógica das emoções se era muito menos dolorido ajustar os números e fazer a melhor escolha. Chegou mesmo a sentir como se tivesse sido enganada pelas demais e entrado na turma errada. Demorou para se encontrar no grupo, e mesmo quando se achou, guardadinho lá no fundo, algum desconforto seguiu com ela.

 

Mas, onde as mulheres se esconderam, as meninas se encontraram e absorveram todas as experiências compartilhadas. Nem perceberam, já se ajudavam outra vez com as cangalhas de cada uma. A vida continuou soprando, e soprou bastante o tempo por sobre as quatro sem uma pausa sequer. Juntas, viram passar os segredos do amor, as traições, as reconciliações, as fraldas, os chefes, as formaturas, os assédios, os casamentos. Depois vieram os netos, e com eles todo o processo prestes a se repetir.!
Elas ajudaram-se a não querer entender a vida. Riram dela. Bastaram-se nos encontros que passaram a ser semanais. Eles até viraram lenda entre os parentes por que não aconteciam às vistas de outros que não as quatro.

 

Júlia nisso também era diferente. Não tinha para quem fazer mistérios.
Foi filha única. De sua família não demorou e sobrou só as outras três amigas.
Cada uma tornou-se outra vez livre e cativa, exatamente como quando se conheceram na biblioteca.
Vieram também tufões de mais mudanças, e chegou para duas delas a viuvez.

 

As quatro apegaram se ainda mais. Pareciam ter o mesmo sobrenome de tão irmãs que ficaram, pareciam mesmo fisicamente. Pareciam tanto que até quando esqueceram, esqueceram juntas. Mas dos esquecimentos lá longe no passado, coisas como planos para uma certa viagem resolveram dar o ar da graça.

 

Aconteceu com algum tempo que desfrutavam de calmaria. Uma delas caiu doente.
E foi justo Melinha, pioneira em quase tudo. As demais meninas se fecharam ao redor da amiga enferma. O tratamento dela foi custoso e elas penaram, resultado de tantas internações, sem que o corpo da amiga respondesse como esperado. A pioneira estaria também nessa vanguarda. Desenganada pela equipe médica depois de quase dez anos de clínicas e um par de cirurgias. A casa dela durante este processo ganhou um quarto para as meninas também.

 

Ela, sempre espirituosa, brincava com as outras dizendo estar cada vez mais velha e cada vez mais enxuta, modelito 7.5 pela metade da mulher que jamais foi.

 

Desenganada dos tratamentos convencionais, liberaram-na para aproveitar os dias em companhia dos seus. Por aquela semana, ao seu estado somou-se uma gripe, dessas de verão mesmo. A gripe não seria muito para preocupar, se não pelo restante do quadro que já era de todo muito grave.

 

Júlia, que foi das quatro a com pensamento mais objetivo e a mais dura, achava-se aquém das amigas por que sua vida não tinha gente, tinha números. Por isso também, quis presentear a companheira prestes a partir dessa para a melhor, com o passeio que num tempo remoto foi desejo de todas elas. Como ela pensou, aquela seria umas férias da vida, e o passeio que antes selaria o compromisso delas com elas mesmas, se tornaria na despedida do grupo completo. Foi por ela que as férias chegaram lá de longe.

 

Ah a vida! Tão grande e tão infinitamente pequena.

 

Até ali, as quatro trajetórias tinham sido tão distinto do que planejaram na juventude quanto foi possível ser, mas elas permaneceram juntas. Talvez desde o início esse tivesse sido o único plano à prova de tempestades. As meninas, amigas do tempo e irmãs de alma como gostavam de dizer, as que somaram as alegrias e diminuíam a tristeza entre elas, estavam prestes a ter que conviver com a falta.

 

Elas tinham da vida a sensação de saciedade à mesa nos chás só delas quatro. Com tudo o que enfrentaram até ali juntas, nem uma delas dava por falta de nada.

 

Confrontada como que estava para acontecer, Júlia desencavou dos tempos da mocidade o tal passeio para servir de selo sobre elas e testaria a coragem das amigas no próximo chá.

 

Naquela semana como já sabiam, Melinha não foi ter com as amigas. Ela estava em casa, livre de envenenar-se ainda mais com a medicação e portanto sem a debilidade causada pelos remédios. Tinha certa autonomia e estava bem. Mas por causa da gripe, não foi possível ir.

 

Lá pelas tantas, várias xícaras e biscoitos depois, Júlia jogou o tal passeio sobre a mesa e as reações vieram exatamente como ela anteviu:

 

_Que é isso companheira? De que baú você foi tirar essa lorota?- Corry saltitou da cadeira com a xícara fumegante nas mãos e voltou a acomodar-se fitando a amiga por sobre os óculos.
_Eu estive considerando seriamente por que foi um desejo nosso, e por que hoje eu vejo nele a força que nós tínhamos e vamos precisar.
_Júlia criatura, como é que vamos nós quatro velhas arriscar ir morrer longe de casa?- foi a vez de Ida.
_Fale por você Ida, eu não tenho a menor intenção de nada parecido com isso nem por agora nem por bastante tempo ainda. – Disse a proponente.
_Ela tem razão Júlia, nós não temos mais 20 anos, aliás, não temos mais nem o dobro disso. Virgem santa, nem o triplo – Completou Corry entre uma soprada na xícara de chá e outra.

 

Naquele fim de encontro ninguém levou a sério o que ela falou. Depois de exaurirem o assunto, rindo-se delas próprias, continuaram às galhofas e às amenidades de cada casa. O que não as fez esquecerem-se do lugar vazio à mesa.

 

A atitude das amigas não era exatamente sorumbática, mas distava do que já havia sido em outros encontros na ausência de alguma delas. Podiam sentir a presença sutil do de ventos que não queriam pensar ou dizer. Nunca tinha sido assim. Mesmo nas ocasiões mais bicudas, não permitiam longas pausas silenciosas abaterem o espírito que as ligava.

 

Para Júlia, aquela tornou-se uma corrida sozinha contra o tempo. Nenhuma das demais a ajudaria a fazer nada. Ela estava segura que precisava inclusive contornar a falta que as amigas fariam fora de suas casas ou não conseguiria levá-las.

 

Das outras duas naquela tarde, uma também já era viúva. Seria a mais fácil. A outra, continuava casada com uma ventania de nome Rodolfo, que foi imitação de Valentino em priscas eras. Hoje, aposentado e entrevado em casa, dependia da mulher para quase tudo. A terceira era Melinha, não mais sob cuidados médicos, e morando com a filha caçula que cursava o último ano na universidade. Terminaram os biscoitos e cada uma das outras duas voltou para suas casas, seguir seus afazeres e a falta deles. Despediram-se na porta do apartamento, combinando uma passadinha na casa de Melinha na tarde do próximo sábado. Mas Júlia não desistiria tão fácil.
Ela se considerava entre as amigas a mais determinada. Com razão, foi a única a manter a promessa de não entregar-se a ninguém. Foi mão forte em todos os lugares que trabalhou e era referencia pra muito marmanjo. Por esse pensamento convenceu-se que seria ela quem levaria as amigas custe o que custasse.

 

Nas costas se fosse preciso.

 

Bateria nas casas das amigas e explicaria o acontecido a tanto tempo. Com isso esperava convencer todo mundo que tinha que ser convencido. Fácil, ao menos no caso das duas relativamente saudáveis, uma viúva e a outra não. Naquela mesma noite, a ex-executiva deitou estes planos sobre o travesseiro, e na manhã seguinte já estava agindo. Como não podia contar com a ajuda de ninguém, escolheu ela mesma o roteiro. Primeiro pensou em algum lugar conhecido e eram várias as opções. Abortou a praia de Arembepe, lugar para onde pensaram ir um fim de semana ideal as quatro moçoilas, à época, todas não casamenteiras. E então, às providencias: comunicar e combinar com os parentes – reais – mais próximos das outras três. O primeiro da lista a convencer foi o ex- furacão, Valentino.

 

E lá foi ela.

 

Júlia tinha a aparência e gestos treinados para intimidar, especialmente aos homens. Ela usou bastante dessa carapaça enquanto abria passagem para a sua carreira nos lugares onde trabalhou. Os maridos das amigas percebiam isso muito nítido nela. Não faziam muita questão de tê-la por perto socialmente. Se tinham razão ou não é uma outra conversa, a opinião deles nesse aspecto não adiantava absolutamente nada. A questão é que ela também não fazia de nenhum deles uma idéia muito positiva.

 

Por isso quando atendeu o interfone e autorizou entrar, Rodolfo, o marido de Ida, estranhou a insistência dela em subir se ele tinha dito que a esposa não estava em casa.

 

O estranhamento continuou quando ele abriu a porta e convidou a entrar. Estavam diante um do outro, dois conhecidos de ha tempo, mas completamente estranhos.

 

Júlia entrou e tomou assento sem ser convidada, mais além da grosseria, convidou o dono da casa a sentar-se também.

 

Rodolfo, queria ser o mais objetiva possível e por isso vou direto ao ponto: você sabe da nossa história, disse referindo-se a amiga, esposa do dito ventania. Estamos a beira de perder uma de nós quatro, e eu gostaria de fazer uma viagem que planejamos faz mais tempo do que eu mesma posso me recordar. É um desejo nosso que nunca realizamos.

 

Rodolfo olhava aquela figura desconhecida, até ali muito tosca, mas com a voz quase doce, quase amável.
E ela continuou: Você não precisa preocupar-se nem com custos nem com a casa de vocês. Vim aqui para te pedir que não interfira, e ao mesmo tempo te oferecer escolher se prefere que alguém venha te ajudar ou ir você também passar estes dias hospedado em um hotel. Não se preocupe com mais nada depois de escolher.

 

Rodolfo abaixou a cabeça e teve vontade de dizer alguma coisa, mas não conseguiu. Ele demorou alguns segundos olhando para o chão e tornou a levantar os olhos para encontrar o rosto atento de uma pessoa que ele nunca conheceu.

 

Os dois fitaram-se como se procurando um ao outro nas expressões faciais, e em seguida ele pediu que ela contasse mais daquela história.

 

Júlia estava preparada para arguir se fosse necessário, mas não foi. O que ela fez foi pontuar tudo como entendia, enquanto ele, em silencio, a escutava atentamente. Depois que terminou, levantaram-se e cordialmente apertaram as mãos. Ele em seguida respondeu que não precisaria de nada e agradeceu o cuidado. Disse para aquela Júlia descoberta naquele instante, que estaria bem sabendo que a esposa iria ter as férias que sempre quis.

 

_O que eu quero para ela é o melhor que eu puder dar, e se a minha parte nisso for apenas não interferir, que assim seja – soprou a agora brisa, ex- ventania, completo desconhecido para ela também.

 

Foi a vez de Júlia perder-se diante de um homem que não sabia mais quem era.

 

Eles puseram fim à visita e despediram-se com um último aceno desde a entrada do elevador. Ele fechou a porta meio atordoado e orgulhoso de si, e ela foi embora. Uma vez na rua, tomou um taxi e rapidamente seguiu rumo a faculdade onde estudava a filha de Melinha. Ao encontrar com a moça repetiu a mesma história. Foi direto ao ponto e ouviu que elas precisariam falar com os outros filhos da amiga para decidirem.

 

Desta vez seria bem mais difícil. Tinha o medo de todos que alguma coisa lhe acontecesse sem eles por perto. Júlia praticamente teve que prometer uma UTI de emergência para servir-lhes de pagem. Melinha voltaria mesmo inconsciente, em caso sinistro, para estrebuchar perto deles. Os filhos, sempre próximos, reunidos em assembléia no fim daquela mesma tarde, acharam que a mãe tinha o direito de ela mesma decidir, e assim foi feito. Curiosamente, na reunião da semana seguinte, quando Júlia colocou as cartas na mesa e comunicou às amigas, Melinha foi a mais animada a ir.

 

Faltava só Corry, viúva e sem parentes morando naquela cidade. Júlia tirou de letra com dois ou três telefonemas feitos naquela noite mesmo. Quando já havia acertado tudo o que precisava para intimar as amigas, desafiou a coragem das demais durante o encontro do domingo seguinte:

 

_Meninas, eu estive pensando seriamente sobre o que falamos na semana passada – disse Julia.
_Falamos tanta coisa – respondeu Corry elevando a xícara para soprar o calor.
_Falaram de mim, tenho certeza – arguiu Melinha.
_Falamos sim, mas não como a senhorita está pensando nessa cabecinha torta – Júlia contestou – A conversa foi de nos darmos umas merecidas férias.
_Eitah, voltamos a ser colegiais? – Continuou Melinha.
_Se as férias vierem sem as tarefas escolares, eu topo! – Disse rindo enquanto baixava a xícara Corry.
_Pois então, nada de tarefas. Vamos nós quatro velhinhas curtir o mundo! _ Continuou Júlia
_Não me diga que você ainda não tirou aquela idéia de Arembepe da cabeça? – Retrucou Aida

 

Melinha desconfiada, arregalou os olhos e perguntou:
_Que passeio? Oi? Que férias? Vocês estão combinando me deixar de fora de alguma estripulia?

 

Corry outra vez com a xícara nas mãos abriu o bico gargalhando: – _Deixar você de fora? Continuou sorrindo. Esse passeio deixamos para trás quando esquecemos dele no tempo que ainda tínhamos pernas e o resto do corpo pra nos levar por aí.

 

Corry não era muito de falar sério, o negócio dela era mesmo tomar chá e alfinetar as outras. Mas tinha umas tiradas muito certeiras:
_Imagina nós quatro entrando na praia de chapéu de palha e toalhas de flores feito as ripongas de 1960? Em 1960 eu acho que ainda nem tinha nascido – brincou. – Que tal um shopping como fazem todas as meninas ajuizadas da nossa idade?
_Nem todas tem juízo.
_E eu não sei? Te conheço dona Júlia- completou Corry.
_ Vamos ao shopping, mas em Paris. Vamos a Galerrie Lafayette.! Outra gargalhada monumental e desta vez Corry quase engasgou.
Lafaiete? Disse puxando o fôlego.
_Nem Paris nem a galeria importam como é importante irmos juntas.
Vamos as quatro juntas. Juntas como sempre vivemos. – Julia disse, agora mudando de tom.
Aida que estava meio de canto entrou na conversa.
_Júlia, você se esqueceu de um detalhe muito importante, aliás, dois: de nós todas, você é a única que poderia bancar alguma coisa como uma viagem dessas. Eu sinceramente adoraria! Imagina, Paris…. Mas se disser isso pro meu marido é capaz dele pedir o divórcio.
_Seria uma benção Ida. Mas ele não faria isso de jeito nenhum, pode apostar!
Ida continuou: eu sei, eu sei. Mas a esta altura do campeonato eu acho que nem eu mesma quero mais isso. Estamos em paz com a nossa história. A outra questão é a Melinha…
_Que é que tem eu? Perguntou a menina sobre rodas.
_Melinha tem tudo. De nós quatro você é a mais frágil. Como podemos tirar você daqui assim sem mais nem menos? Continuou Ida.
_Oxente? Que é isso? Tá parecendo que eu sou um pacote – Emendou rindo: _Quem foi que te disse que eu vou ser tirada ou levada. Se eu for, vou por vontade própria. E ademais, nos últimos anos fui escrava de um tratamento que não deu em nada! Eu mereço mais é ser feliz.
_Claro que sim minha querida, não é disso que eu estou falando. Na verdade nenhuma de nós está mais na idade de…
_Êpa, pode ir parando por aí mesmo Ida! Que mané idade é essa conversa? – Interrompeu Júlia.
_É idade sim senhora. Agora, vai querer tapar o sol com a peneira? Numa dessas a gente pifa a biela ainda antes de levantar do solo! Ria ainda mais Ida. E por falar em levantar de algum lugar, e a bufunfa pra essa brincadeira toda, de onde vem?
Corry, que seguia a charla balançando a cabeça e o pescoço. Estava mais ouvindo que falando desde o início e resolveu pronunciar-se: Acho que a Ida tem alguma razão Jú. Na verdade ela tem duas razões. Como é que a gente resolve esses pequenos detalhes?
_Ja disse que eu não sou problema pra ninguém resolver, muito menos detalhe. – Ralhou séria mais uma vez Melinha. Pelo dinheiro eu até concordo, mas o restante não senhora! Se pudesse eu iria.

 

Dois dedos de silencio e Julia entregou:
_Ninguém tem mais que pensar em nada. Já está tudo decidido, comprado e sacramentado. Essa semana falei sobre tudo e com todo mundo. Partiremos domingo que vem. Passaremos três dias em Paris só nós.
Mais dois dedos de silencio e Corry finalmente assentou a xícara na mesa enquanto soprava o nada.
_Você é completamente louca Júlia. Melinha girou as rodas da cadeira na direção da amiga que estava sentada do outro lado da mesa. Isso deve ter custado uma fortuna! Santos céus.
Sempre séria e objetiva, Júlia as abraçou e chorou sentindo pena de si e das amigas que sabia, estavam era se despedindo.
_Vocês não perceberam suas tontas, a vida inteira eu vivi pro meu trabalho e pra mim mesma enquanto vocês tinham suas casas e seus tesouros divididos comigo. Eu é que nunca dividi nada por que isso foi de verdade o que eu sempre tive. Desse pouco valor tenho de sobra. Não faz sentido guarda-los para mim se daqui a pouco eu também vou ter que abrir mão deles e colocá- los de volta para outros usarem. Usaremos nós, esse privilégio não me escapa mais. Seremos as quatro meninas, aqui ou em Paris, como fomos a vida inteira.

 

As quatro se abraçaram como puderam e se desmancharam chorando, molhando a mesa com mais do que o chá das xícaras que soçobraram.
_Se alguma coisa der errado, Lorenzo vai morrer outra vez de tanto rir de mim. – Disse Corry quase balbuciando.
_Ele aproveitou todas as chances pra se divertir as suas custas quando era vivo Corry, agora não dá mais. – Júlia respondeu pondo fim ao abraço e a reunião daquela semana.

 

Os dias de um domingo até o outro passaram voando. Depois foram elas que voaram pra Europa e voltaram a ser meninas. Júlia não aliviou a mão e abriu mesmo as burras da caderneta de poupança. A todo instante vinha alguém perguntar em bom português, se alguma delas precisava de alguma coisa.

 

Bem acomodadas e motorizadas, foram a vários museus, passearam pelos lugares históricos, jantaram no restaurante da torre e tudo mais que desejaram. Ficaram não três, mas no total foram seis dias por lá.!
O ultimo passeio foi reservado para a Laffayet.

 

Na ultima noite antes de retornarem das férias, aprontaram se vestidas de gala e enfeitaram-se com jóias para o gran finale.

 

Apesar da pompa, chegaram à galeria tão naturalmente como se chegassem a praia numa época que pensaram ter ficado para trás. A elegância das quatro contrastava com os demais, e não houve quem não se perguntasse quem seriam as celebridades naquele grupo animado.

 

Não conseguiram ver direito os detalhes, mas olharam absolutamente tudo. Era tanta coisa linda junta que ninguém daquela gente sabia direito pra onde mais virar os olhinhos e a cabeça. As quatro amigas, muito elegantes, desfilaram a beleza das moçoilas que foram à época de casamenteiras. Até Júlia se deu o desfrute dos olhares transeuntes alheios ao que as acontecia. Melinha achou-se lindamente remoçada. Tinha outra vez força para girar ela mesma as rodas de sua cadeira e sentia-se tal qual estivesse de novo sobre as próprias pernas. Desfilou com as amigas pela galerie iluminada para elas.

 

Na porta do restaurante encontraram o maitre que as conduziu para a mesa que estava reservada.

 

_Queridas, eu não fazia idéia que um único lugar pudesse estar tanta coisa bonita como aqui. Que noite linda! Que cidade linda – Foi assim que Melinha se manifestou.
_Julia, eu também estou abismada! E você já veio aqui outras vezes? – Perguntou Ida.
_De passagem, nunca como agora.

 

A mais séria das amigas estava maravilhada com a alegria de suas irmãs diante das belezas que ela conhecia de outras passadas por aquela cidade. Em várias oportunidades ela inclusive já havia jantado naquela mesma galeria, vezes abanando se algum ventinho, por que afinal, debaixo da carapaça, era mulher de muito fogo e bem viva, noutras vezes a trabalho.

 

Chegou a Champagne e foi servida à moda da casa.
Ela que nunca foi afeita a espumantes, preferia cervejas e as mais encorpadas, encheu a taça e brindou às quatro. Tomou com gosto.
Ida percebendo o entusiasmo da amiga sobre rodas, foi logo lembrando que aquela poderia não ser uma boa idéia. “Não estou aqui para morrer!” respondeu Melinha.”Hoje eu vou viver de novo!”
Naquele instante a vida delas quatro fez sentido e misturou-se com a beleza da galeria e de todo mundo dentro dela. E elas poderiam estar em qualquer lugar por que eram meninas e estavam vivas agora.
Nenhuma das três estava mais feliz do que Julia.
Estava feliz pelas amigas do tempo e da vida, e mais ainda por ter sido quem foi. Por ter finalmente provado não andar na turma errada, inda que entre todas, tivesse sido a única sem uma brisa que a apagasse o rastro da solidão em seu apartamento.
Elas celebraram as férias e voltaram pra casa. Fechava-se um ciclo.
O tempo de cada uma só chegou na hora certa. Igualzinho como quando o vento e a água esculpem as pedras e dão para elas as formas que elas tem.

 

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