Conte Sua História de São Paulo: minha trajetória de office-boy a advogado no banco

José Antonio Braz Sola

Ouvinte da CBN

Quando cursava o quarto ano ginasial, em 1970, fui avisado por meus pais de que, no ano seguinte, como filho mais velho de três irmãos, teria de começar a trabalhar de dia e estudar à noite.

Era necessário complementar o orçamento doméstico. Meu pai era comerciário e seu salário era insuficiente para o sustento da família. Mamãe era dona de casa e cuidava de mim, da minha irmã Lu e do meu irmão Nando.

Assim que terminaram as aulas, matriculei-me em um curso intensivo de datilografia, em Pinheiros, onde morávamos. Em janeiro de 1971, consegui emprego de office-boy em um banco que não existe mais, na rua Boa Vista, no Centro.

A vida era puxada. Trabalhava durante o dia e, à noite, fazia o curso de técnico em contabilidade.

Meu chefe aproveitava meus conhecimentos para alguns serviços internos, mas eu não escapava das entregas pelas ruas de São Paulo.

E não havia Google Maps. O máximo que tínhamos era o Guia Quatro Rodas ou o boca a boca.

Saía do banco com fichas telefônicas da Telesp na maleta. Se fosse necessário, ligava para meu chefe de um dos inúmeros orelhões espalhados pela cidade. Só não podia voltar sem fazer a entrega e sem o protocolo devidamente assinado pelo destinatário.

Na maioria das vezes, almoçava no refeitório do banco. Quando o serviço estava tranquilo, dava até para ir de ônibus almoçar em casa. Tínhamos duas horas de intervalo e o trânsito de São Paulo ainda não era infernal.

E, afinal, nada era comparável à comidinha da mamãe.

Na volta, descia na esquina da rua Xavier de Toledo com a Sete de Abril e passava na banca de jornal do meu amigo Gabriel. Ele me deixava folhear, de graça, A Gazeta Esportiva e o Popular da Tarde para saber as últimas notícias da nossa paixão comum: o Palmeiras.

Era o time de Dudu, Ademir da Guia, Leivinha, Leão, Luís Pereira e companhia.

Uma verdadeira Academia!

Depois, perto do Mappin, parava alguns instantes para admirar o espetáculo diário do Guarda Luizinho. Com bom humor e educação, ele orientava pedestres e motoristas. Era gentil com todo mundo e conhecia muitos office-boys pelo nome.

Nas entregas, também não resistia às lojas da rua 24 de Maio, com seus aparelhos de som de última geração expostos e ligados. Sonhava em ter um daqueles em casa para ouvir Roberto Carlos e os Beatles.

O salário não era dos melhores, mas, de vez em quando, dava para comprar uma calça Lee legítima americana numa importadora da Praça do Patriarca. Todo mundo comprava as “becas” lá, apesar do elevador velhíssimo, que às vezes parava entre um andar e outro.

Outro sonho era ganhar na Loteria Esportiva e acertar os 13 pontos.

Vira e mexe fazíamos bolões. Só conseguimos os 13 uma vez: um colega, jogando no campeonato de futebol do Sindicato dos Bancários, levou treze pontos na canela.

No curso de contabilidade, tive aulas de Noções de Direito com o advogado Belisário dos Santos Júnior. Suas aulas fizeram nascer em mim o desejo de ser advogado.

Daí em diante, sempre que passava em frente à Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, dizia para mim mesmo:

— Um dia vou estudar aqui.

E estudei.

Entrei em 1977 e concluí o curso em 1981. Depois, passei a exercer a profissão em um grande banco, onde trabalhei até me aposentar.

O pouco que sou e que tenho devo ao meu esforço e ao de minha família, mas também a São Paulo.

A cidade onde comecei carregando fichas telefônicas da Telesp e protocolos dentro de uma maleta foi também a cidade onde descobri o que queria ser.

E, para terminar, parafraseio Tom Zé:

“São, São Paulo, quanta dor,

São, São Paulo, meu amor!”

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

José Antonio Braz Sola é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcas do Conte Sua Historia de São Paulo

Você já abriu o APP do seu banco hoje? Cuidado!

Hoje, abri o aplicativo do banco e encontrei dois boletos que não reconhecia.

Um deles, de R$ 595, estava em nome da Sebracom Empresarial. O outro, de R$ 783,60, era da Speed Tecnet. Os dois tinham a mesma data de vencimento e apareciam na área reservada às contas que eu teria de pagar.

A primeira reação foi tentar descobrir se havia alguma despesa esquecida. Não havia. Eu nunca contratei serviços dessas empresas.

Ao pesquisar, encontrei diversos relatos semelhantes. Empresários de várias regiões do país receberam boletos nos mesmos valores, também sem reconhecer qualquer contratação.

As empresas dizem que esses documentos não representam dívidas. Seriam “boletos-proposta”: ofertas comerciais cujo pagamento é facultativo. Quem paga aceita contratar o serviço. Quem não tem interesse pode simplesmente ignorar.

O problema é a maneira como essa oferta aparece. Ela não chega como propaganda. Surge dentro do aplicativo bancário, misturada às contas de condomínio, impostos, mensalidades e serviços efetivamente contratados. Tem nome de empresa, valor e vencimento. Parece uma dívida à espera de pagamento.

E há um risco evidente: alguém menos atento pode pagar todos os boletos apresentados pelo banco sem perceber que, entre eles, existe uma proposta comercial que nunca pediu.

É importante esclarecer que a presença de um boleto no DDA — o sistema que apresenta eletronicamente as cobranças registradas em nosso CPF ou CNPJ — não significa que a dívida foi reconhecida pelo banco. Também não significa que o dinheiro será retirado automaticamente. O pagamento só ocorre com a autorização do cliente.

A regulamentação do Banco Central determina que o boleto-proposta deve ser apresentado de forma clara e que sua emissão depende de manifestação prévia do pagador sobre o interesse em recebê-lo. No meu caso, não houve pedido nem manifestação de interesse.

Por isso, fica o alerta: abra o aplicativo do banco, examine cada boleto e não pague nada apenas porque a cobrança apareceu ali. Confira o nome do beneficiário, o valor e a origem da despesa.

Se não reconhecer, não pague. Marque a cobrança como desconhecida, peça a baixa do boleto e comunique o banco.

A tecnologia ajuda a organizar as contas. O cuidado continua sendo nosso. Até porque boleto não cria dívida. E proposta que chega disfarçada de obrigação merece, no mínimo, a nossa desconfiança.

Conte Sua História de São Paulo: uma greve no caminho do meu primeiro dia de trabalho

Fatima Novais

Ouvinte da CBN

Foto de Fabio Akamine on Pexels.com

Em 1978, aos 16 anos, cursando o último ano do colegial, iniciei o que seria minha carreira no sistema bancário. Feliz da vida, dia 13 de setembro de 1978, recebi orientações para ir sozinha de ônibus para o centro da cidade. Primeiro dia de trabalho. Imagine a alegria.

Desci no Largo do Paissandu e entrei na igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos — pedi proteção para aquele que seria o primeiro dia de muitos anos de trabalho. Caminhei até a rua Boa Vista, que era o centro financeiro e histórico de São Paulo. 

Assim que cheguei, algo totalmente inesperado aconteceu. Jovem, ingênua, pouco informada, ainda sem o hábito de ler os jornais, fui surpreendida. Era dia de greve dos bancários. Pessoas com bandeiras em mãos. Gritos de protesto. A cavalaria na rua. Policias com cacetetes em punho. Tentavam acertar quem passasse pela frente.

Chorando, em um local que ainda não conhecia. Morrendo de medo de perder meu emprego, sem ao menos ter começado. Foi quando por sorte — dessas que só São Paulo para proporcionar — encontrei um anjo. Daquelas pessoas que cruzam nossa vida quando mais precisamos — quero crer que foi obra daquela ida a Igreja. Pedi uma ajuda. Precisava de uma orientação do que fazer. Não havia celular para ligar para casa, falar com os pais. 

O anjo, que conhecia bem a região, me indicou um caminho que estava livre e permitia entrar no banco, pelos fundos, em uma portaria na 25 de Março. 

Com essa ajuda fugi dos riscos daquele confronto e me abriguei no prédio onde haveria de iniciar meu primeiro emprego, contratada para ser conferente de dados. Eu tinha de verificar as informações em listagens imensas emitidas pelos computadores.Algo impensável para os dias de hoje mas que deu início a construção de uma história de quase 48 anos no mercado de trabalho, em São Paulo. 

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Fatima Novais é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros cap[itulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: adolescente, carreguei malotes com cheques, contratos e documentos de bancos

Sérgio Slak
Ouvinte da CBN

Foto de Piotr Baranowski on Pexels.com

Estou com 68 anos e moro no bairro de Moema, na zona sul. Aos 14 anos, fiz o curso de datilografia. Naquela época, era essencial para se conseguir emprego. No começo de 1973, fui contratado pelo Banco da Bahia com o cargo de contínuo, outro nome para a função de office boy.

Trabalhava meio expediente na agência da Domingos de Moraes, nº 193, na Vila Mariana, das sete da manhã até a uma da tarde. Havia um detalhe: eu precisava pegar o malote antes na Sucursal, que ficava na Rua São Bento, nº 480, no Centro. Chegava lá por volta das 6h15 da manhã e passava por três andares para recolher os malotes: havia cheques, contratos e documentos de lançamentos em conta corrente. Coleta feita, atravessava o Vale do Anhangabaú para embarcar no ônibus 570 – Planalto Paulista, da Viação São Benedito.

Quando lembro dessa situação, fico admirado. Caminhar bem cedo pelo Centro de São Paulo, carregando malotes e sem ser importunado. Nos dias atuais, isso seria impossível.

Chegava antes das sete na agência da Vila Mariana e começava o meu trabalho interno: separar as correspondências, envelopar e deixá-las à disposição dos clientes. Os clientes gostavam de passar na agência para pegar as correspondências.

Lembro que a maioria dos processos era manual. Alguns poucos eram mecanizados, de forma bem simples. Usavam-se máquinas que lançavam as fichas de conta corrente. Havia o som das máquinas de datilografia e das de somar também — as operações aritméticas eram feitas puxando a alavanca. Outra máquina, acionada manualmente, gravava o nome e o número da conta corrente do cliente no verso da folha de cheque.

Por volta das dez da manhã, eu tinha que retornar à Sucursal, levando muitos documentos e trazendo outros tantos.

Ainda em 1973, o Bradesco comprou o Banco da Bahia, e passei a trabalhar oito horas por dia. Visitava muitas agências de outras instituições para pagar títulos e duplicatas. A maioria ficava nas ruas Boa Vista e 15 de Novembro. Eram grandes, com muitos caixas, filas e pessoas.

Aos poucos, começou a modernização. Os cheques passaram a ser magnetizados com a identificação do cliente, e o processo de informatização se iniciava. Ainda assim, existia muito papel: talões de cheques, títulos, duplicatas, contratos, extratos.

Com o tempo, vieram os caixas eletrônicos. Muitas agências foram fechadas, e as que restaram diminuíram bastante de tamanho.

É maravilhoso recordar um tempo em que, ainda adolescente, eu andava rapidamente pelas ruas de São Paulo carregando toda aquela papelada. Hoje, ao fazer todas as operações bancárias pelo celular, custo a acreditar como as coisas eram tão diferentes em um passado não muito distante. Melhor assim, pois sobra tempo para curtir esta cidade que eu amo tanto.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Sérgio Slak é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos $72 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 472 anos: os caminhos que me levaram a ser economista

João Oswaldo Esotico

Ouvinte da CBN

Impostômetro
Fachada de prédio na rua Boa Vista Foto: CBNSP/Flickr

O que é do homem o bicho não come. Esta expressão representa muito bem aquilo que está destinado a alguém e, que, nos chega por meios estranhos; aquilo que parece ser coincidência, na realidade é, talvez, o universo trabalhando em seu favor.

Eu era office boy, numa pequena indústria de tintas, ali no Jabaquara. Era um emprego simples sem grandes aprendizados nem muito esforço da minha parte. No fim de 1968, eu precisava me dedicar aos estudos. Estava no cursinho Visconde de Cairu, na confluência da rua Quirino de Andrade com a Ladeira da Memória, próximo ao Vale do Anhangabaú.

Combinei com meu pai que largaria o emprego até entrar na faculdade. Vieram os exames vestibulares e consegui uma vaga na Álvares Penteado. Em economia.

Estudava pela manhã e meu tio me ajudou a encontrar um emprego no Banco da Bahia, na rua Boa Vista. Fui ser operador de lançamento de FGTS nas fichas de funcionários da Volkswagem. O trabalho, de seis horas, era de produção incessante e extenuante. Me sobressai como operador de máquina e fui promovido: transferido para o departamento de controle de contas correntes da sucursal do banco. Entrava às cinco da tarde e saía quando o trabalho terminava, pura mamata. Trabalhava em média quatro horas por dia. No fim do mês apertava: de oito a nove horas, saindo de madrugada.

Certo dia, meu chefe disse que queriam falar comigo lá na sede da sucursal do Banco. Cheguei e me apresentei ao gerente. Uma figura magra, simpática e com olhar penetrante, Benedito Otaviano. Queria que eu trabalhasse no departamento dele com análise de balanços, algo que não me era todo estranho, pois foi matéria do curso de contabilidade.

Transferência feita, para tristeza do outro chefe, comecei a rever conceitos de análise de balanços diretamente com o Benê, e ele já tinha contratado outro colega o Paulo Nashiro. Depois de algum tempo o Benê, contente com o meu desenvolvimento no trabalho, me contou que eu não estava na lista de estudantes de Economia e Contabilidade que o RH do banco lhe fornecera. Eu, intrigado, perguntei, como ele havia me encontrado em outro departamento.

Aí é que a gente vê que o universo conspira a nosso favor. O Benê havia entrevistado um colega meu da faculdade que ao sair da entrevista perguntou se ele chamaria, também, o Esotico. Foi então que o Benê pediu para o RH encontrar o tal de Esotico dentro do banco. 

Este foi o pontapé inicial para me deslanchar na carreira de economista, fazendo análises para investimentos e empréstimos bancários.

E pensar que tudo isso se desenrolou nessas ruas que agora completam 472 anos. O mesmo Anhangabaú que eu atravessava apressado para o cursinho, a mesma Rua São Bento onde minha vida profissional mudou de rumo.

O que é do homem o bicho não come.

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Conte Sua História de São Paulo: fui office-boy com pastinha de plástico na mão

Carlos Assis

Ouvinte da CBN

Foto: Ouvinte da CBN Ricardo Biserra

Meu pai tinha uma firma de material industrial na rua dos Andradas. E minha mãe ajudava fazendo os pagamentos nos bancos. Antigamente, um título do Bradesco — título, era assim que chamávamos os boletos — só podia ser pago no Bradesco. O do Banco do Brasil só no Banco do Brasil. E havia bancos em São Paulo com apenas uma ou duas agências. Então, a gente tinha de ir ao centro velho, na rua Boa Vista, na São Bento, na Quinze de Novembro … E fazia tudo a pé. Não tinha metrô. Desse modo, conheci bem a cidade. 

Passei dezenas e dezenas de vezes no viaduto Santa Ifigênia, no viaduto do Chá, no Largo Paissandu. A agência do Citybank era na avenida São João com a Ipiranga, em frente ao Bar Brahma — bar que nunca visitei, apesar de passar pela frente uma centena de vezes. 

Minha mãe era uma pessoa simples e católica, o que me fez conhecer as igrejas do centro: o Mosteiro de São Bento, a Sé, a de São Francisco, a do Rosário, a de Santo Antônio.

Lembro quando fui com ela pagar um título no Unibanco, na Praça do Patriarca. Assim que entramos havia uma escada rolante. Precisávamos subir no primeiro pavimento. Minha mãe tinha medo da escada rolante, que era algo novo na cidade. O segurança teve de desligar a escada para a gente subir e depois descer. 

Com uns 13 anos, já era office-boy e andava com aquela pastinha de plástico na mão. Mas não me atrevia a fazer malabarismos como os garotos maiores. Minha diversão era entrar por uma rua e sair em outra, passando por dentro de prédios. Adorava andar na galeria da Avenida São João, passar pelas lanchonetes, sentir aquele cheiro de comida no ar, e sair na 24 de Maio. 

Entrava nas Lojas Americanas e Brasileiras, na rua Direita, e saia na rua José Bonifácio, do outro lado. Entrava no Banco de Boston, no Vale do Anhangabaú, e alcançava a Libero Badaró — essa agência foi a primeira a ter porta automática e era m luxo ver a porta se abrindo sozinha. Outro atalho que usava era entrar no prédio da Telefônica, na Sete de Abril, e sair na Basílio da Gama. Ou entrar na Galeria Metrópole para chegar na praça da Biblioteca Municipal.

Além de pagar contas, eu fazia entregas de documentos, cartas e cotações. Frequentava os Correios para passar telegramas e despachar cartas. Os Correios tinham máquinas automáticas que selavam as cartas. Eu levava centenas de cartas em uma mochila. E lá era o único lugar em que se podia fazer isso. Entregava cotações paras as empresas. 

A CSN Companhia Siderúrgica Nacional ficava na avenida Senador Queirós; a Petrobras na Barão de Itapetininga; a Petrobras Distribuidora ficava no Edifício Andraus. Sim, eu estive no vigésimo-segundo andar do mesmo prédio que pegou fogo. Dei sorte. E algumas vezes, ia na avenida Paulista entregar cotação na Liquigás, no Conjunto Nacional. Fui dezenas de vezes nas Indústrias Matarazzo, na Água Branca, e a na Companhia Antártica, na Borges de Figueiredo. Uma vez fui na Bayer, em Santo Amaro. Acho que demorei quase duas horas para chegar lá. 

Certa vez, passando o farol fechado —- office-boy não esperava o farol abrir —, na rua Xavier Toledo, em frente ao Mappin, levei um apitaço do Guarda Luizinho. Meus ouvidos ficaram zunindo. Nem entendi o que ele disse. Só vi as pessoas rindo. Daquele dia em diante, aprendi a usar a passagem subterrânea que tinha do lado do prédio da Light — acho que por pura vergonha. 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Carlos Assis é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias como essa, vá no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: Felipe Félix, do will Bank, fala de como tornar seu negócio acessível ao cliente que está fora do mercado

Felipe Felix nos bastidores do Mundo Corporativo Foto: Priscila Gubiotti

“77% da população brasileira acha mais fácil controlar seu dinheiro em papel moeda do que dentro de uma conta bancária.”

Em uma época na qual a inclusão financeira se torna cada vez mais vital, é importante adaptar os serviços bancários à realidade dos brasileiros que vivem fora do sistema financeiro. Foi com essa ideia em mente que Felipe Félix, fundou o will Bank, em 2017, um banco digital que tem 1.200 colaboradores e oferece produtos como cartão de crédito e débito, conta digital, investimentos, crédito pessoal e marketplace.

40% da base de clientes guarda dinheiro em casa, ou seja, não usam bancos ou poupanças tradicionais disse Félix, em entrevista ao Mundo Corporativo da CBN, elucidando sobre as barreiras enfrentadas por esses consumidores quando confrontados com produtos financeiros complexos como CDBs e debêntures.

Inclusão Financeira e Simplicidade

Ao longo da entrevista, Felipe Félix compartilhou como o will Bank, ao se aventurar pelo interior do Brasil, adotou uma abordagem simplificada para atrair clientes. Ele destacou a importância de uma oferta acessível e descomplicada:

“Antes de você entender as motivações e os porquês, é essencial entender como esse cliente se relaciona com seu produto”.

Uma das estratégias chave do will Bank tem sido o uso do crédito como porta de entrada para uma nova experiência bancária, especialmente para aqueles que são novos no uso de serviços financeiros. Para Félix a tecnologia pode facilitar o acesso a serviços financeiros sem tarifas proibitivas:

“A grande parte do atendimento ao nosso cliente é feita pelo celular, um canal de atendimento digital, porque isso traz escala”

Cinco lições para usar no seu negócio

A entrevista de Felipe Félix oferece várias lições valiosas sobre atendimento ao cliente, especialmente em contextos de inovação e inclusão financeira. Aqui estão alguns dos principais aprendizados que podem ser extraídos:

1. Conheça profundamente seu cliente: Felipe enfatiza a importância de entender não apenas as necessidades financeiras básicas dos clientes, mas também seus comportamentos, motivações e as barreiras que enfrentam ao acessar serviços financeiros.

2. Simplifique os serviços: Um dos grandes obstáculos para a inclusão financeira é a complexidade dos produtos bancários. A abordagem do will Bank de simplificar esses produtos e o próprio processo bancário torna os serviços mais acessíveis e compreensíveis, o que é crucial para clientes que podem ter limitada experiência financeira prévia.

3. Mantenha um equilíbrio entre tecnologia e interação humana: Apesar de ser um banco digital, o will Bank reconhece a importância da interação humana. Felipe discute como eles combinam atendimento digital com momentos de contato humano direto, garantindo que a tecnologia não substitua completamente o elemento pessoal, mas que trabalhe para aprimorar a relação com o cliente.

4. Resolva dores específicas do cliente: Cada serviço oferecido deve ter como objetivo resolver uma “dor” específica, demonstrando um atendimento focado no cliente.

5. Acessibilidade é chave: A estratégia de oferecer serviços por meio de canais digitais amplia a acessibilidade, permitindo que pessoas em regiões remotas ou com restrições de mobilidade possam acessar serviços financeiros da mesma forma que clientes em áreas urbanas. 

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Malu Mões, Débora Gonçalves, Priscila Gubiotti e Letícia Valente.

Mundo Corporativo: Ricardo Guerra, CIO do Itau, diz que a transformação digital começa na mudança de cultura da empresa

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“Aprender o que a tecnologia de hoje significa, como é que ela é utilizada, como é que ela faz parte do business, propriamente dito: esta é, sem dúvida nenhuma, o grande desafio para as empresas”

Ricardo Guerra, Itau

Sabe o cara da TI? Mudou de cara! Antes era o jovem que você chamava para dar um jeito no computador da empresa que estava lento, ajudar a baixar um programa e, quantas vezes, resolver uma questão crucial para começar o trabalho: “esqueci minha senha”.  Não que esse cara não esteja lá para dar aquela força, mas a tecnologia da informação, há muito tempo, mudou seu perfil: de área de suporte para a de estratégia.  Falei do assunto com Ricardo Guerra, CIO do Itau, instituição que atua no setor bancário um dos que sofreram maior impacto com a transformação tecnológica.

“Se voltarmos uns 20 anos, até menos, a tecnologia era vista pelas empresas como uma área de apoio. As empresas terceirizavam a tecnologia. Era uma grande fábrica de projetos. Eu tenho uma ideia e a tecnologia me entrega para que esta se torne realidade”

Das mudanças que surgiram, Ricardo pontuou o fato de as empresas terem passado a usar a tecnologia como vantagem competitiva, especialmente aproximando-a do cliente:

“ … para que a tecnologia entendesse qual o problema do cliente, onde estão as oportunidades e como é que ela trabalha para agregar valor pra organização no fim do dia”.

Toda esse progresso exige muito mais dos profissionais de tecnologia de informação. Um aprofundamento em temas que pareciam distantes da área como a antropologia, porque no momento em que se pensa em soluções para as pessoas é preciso entender o comportamento delas. O Ricardo, nosso entrevistado, assistiu a essa evolução dentro do próprio Itau, onde trabalha desde 1993. Para ter ideia, o grande passo tecnológico naqueles anos iniciais foi a implantação do primeiro site do banco na internet brasileira:

“Foi em 1995. Foi uma experiência incrível, porque foi uma inovação tecnológica gigantesca para gente. Não tínhamos o conhecimento para isso. Muitos de nós, tiveram que parar para estudar que tipo de tecnologia a gente estava falando. Era desconhecido! Tivemos que parar para profissionalizar o uso da internet para que a gente pudesse levar isso até o cliente. Foi um momento de carreira muito interessante de muito aprendizado”.

A complexidade da transformação tecnológica — termo usado pelo Ricardo na nossa conversa —- impõe desafios aos líderes que estão à frente das equipes de trabalho, como é o caso dele que assumiu o cargo mais alto na área da tecnologia do banco, o de Chief Information Officer. Na entrevista, o CIO do Itau identificou três ações importantes que os líderes devem realizar. O primeiro movimento foi uma mudança de metodologia de trabalho mais ágil, mais integrado, mais colaborativo e mais próximo do cliente e do negócio. Apenas com essa mudança cultural foi possível dar o segundo que foi um processo mais agressivo de mudança tecnológica. E o terceiro passo foi a integração da tecnologia com as diversas áreas do negócio.

“E tudo isso embasado por uma grande mudança cultural de empoderamento, de menos hierarquia, de mais leveza no trabalho. Aqui tem uma série de elementos de mudança de ambiente de trabalho, de mudança de como os líderes falam e incentivam as pessoas, inspiram as pessoas”.

No começo da nossa conversa, Ricardo não aceitou o título de o “cara da tecnologia”, disse que o setor depende de dezenas de outras pessoas, do trabalho em equipe e da colaboração. Agora, com certeza, ele tem a cara dos novos profissionais de tecnologia, porque apesar de ter iniciado sua carreira há 29 anos, soube mudar sua forma de atuar, pensar e liderar equipes.

Assista à entrevista completa com Ricardo Guerra, CIO do Itau, no Mundo Corporativo, que está completando 20 anos: 

Colaboraram com o Mundo Corporativo: Bruno Teixeira, Débora Gonçalves, Rafael Furugen e Renato Barcellos. 

Conte Sua História de São Paulo: passei a vida confinada em uma agência bancária

Por Marlene Bicudo

Ouvinte da CBN

Foto de Anete Lusina from Pexels

Em 1977, fiz concurso público e iniciei minha carreira bancária. Na época, tinha de anotar manualmente, nas fichas individuais de cada cliente, os débitos dos valores dos cheques descontados no caixa. Tudo atualizado diariamente na parte da manhã.

Após poucos anos, chegaram os computadores, os disquetes, os sistemas, as planilhas —— motivos para muitos não tão jovens bancários se aposentarem. Havia medo da máquina, da nossa capacidade de domá-la, sem quebrar nada ou apagar coisas importantes. Naquele tempo, ouvi pela primeira vez de um técnico de informática que um dia trabalharíamos todos de casa. Foi desacreditado por nós.

Em 2020, com a pandemia instalada, trabalhei diretamente de casa atendendo meus clientes em todas as suas necessidades. Vimos que o homem se supera quando é desafiado.

Embora estejamos tendo dias difíceis, de medo pela perda da nossa saúde e dos entes queridos, sinto-me satisfeita por todas as oportunidades que tive dentro de casa, curtindo meus filhos já adultos, aproveitando minha sacada e sua paisagem de flores e pássaros. Ouvindo novos sons do meu bairro. Sons que sempre estiveram ali, mas nunca os havia registrado.

Sinto-me mais solidária com as pessoas. E percebi com a revisão da vida, que passei a maior parte da minha dentro de uma agência bancária. 

A despeito do que este ano tenha feito com a gente, sempre sou grata por aquilo que me acontece.

Marlene Ayres Bicudo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Bancos e lojas avançam no Brasil e são engolidos por eletrônico na China

 

Por Carlos Magno Gibrail

Pelo estudo publicado na revista EXAME*, no ranking 2019 das marcas mais valiosas do Brasil, as instituições financeiras desbancaram as cervejarias do topo, enquanto o varejo se sobrepôs pelos aumentos dos índices de valorização.

Bradesco e Itaú com 35% de valorização superaram Skol e Brahma. O Magazine Luiza, em 7º lugar, teve crescimento de 276%; a Renner, em 9º, apresentou evolução de 132%;  e as Americanas, em 16%, mostrou alta de 23%.

Visivelmente, o mercado atesta a performance no omnichannel das varejistas Magazine Luiza e Americanas como fator alavancador do crescimento.

 

O caso Magazine Luiza é emblemático desde os primeiros passos que foram dados na implantação das vendas pela internet. Houve muita criatividade ao iniciar a venda pelas esposas dos funcionários, como uma vantagem e oportunidade de aumento de renda familiar. E, também, não se pode ignorar o conceito posterior de Marketplace, fundamental para a maturidade do sistema de e-commerce.

 

A Renner, por sua vez, há tempos vem desenvolvendo atenção especial na atualização das coleções e foco no estilo relacionado com o aspecto comportamental, fazendo com que hoje a prioridade na experiência de compras permita oferecer o diferencial para se destacar no mercado de moda.

 

Clique aqui para ter acesso ao resultado completo do Marcas Category Brand Value 2019

 


Enquanto isso, na China os números remetem a dois fenômenos.

 

Alibaba, o gigante do varejo eletrônico, e Tencent, o grandioso portal de serviços de internet, cujas plataformas de meio de pagamento, respectivamente Alipay e WeChar Pay, aglutinam 94% do movimento total chinês, em torno de US$ 13 trilhões anuais — desvinculado do sistema bancário convencional, operando tanto com moeda local chinesa e moedas de outras regiões.

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Na América, através do Facebook, está sendo apresentada a Libra, como uma criptomoeda a ser lançada pela Libra Networks que administrará todo o processo do ecossistema, incluindo suas reservas. Ao mesmo tempo terá a composição de parceiros fortes como Visa, Mastercard, Uber, Spotify; condição sustentável para uma empresa global. Assim como os 2,23 bilhões de usuários do Facebook.

 

Para o Facebook, o Brasil é importante, pois com 130 milhões somos o terceiro maior país com número de usuários, após Estados Unidos e Índia.

 

E para os brasileiros, será importante a Libra Networks?
Como Bradesco e Itaú reagirão?

 

Diante destas dúvidas temos a China na frente e à nossa frente a eminente disrupção de um secular sistema financeiro.

 

Apostas abertas.

 

Carlos Magno Gibrail, Consultor e autor do livro “Arquitetura do Varejo”, é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung