Conte Sua História de São Paulo: joguei pelo Brasil no ginásio do Ibirapuera

Márcia Perecin

Ouvinte da CBN

Foi no 10 de outubro de 1954 que nasci em uma maternidade na Lapa, de um casal apaixonado, unidos pelo destino, —- um do interior do estado e outro de Santa Catarina. Primogênita de seis lembro-me de ouvir falar na Rua Major Sertório, que deve ter sido um lugar importante para meus pais.  Após a segunda filha, meu pai nos levou a todos para Piracicaba.

Voltamos à capital em uma desesperada necessidade. São Paulo acolheu algumas das minhas irmãs, quando minha mãe se viu obrigada a nos deixar sob os cuidados de uma parente, abençoada, da Congregação das Irmãs Paulinas, hoje Santa Paulina, na Av. Nazareth. Uma foi para creche no Jabaquara. Eu fui para Ourinhos, com dois anos e meio; e outra para Avaré. Crescemos todas fortes e voltamos para Piracicaba.

Em 1972, fui convidada a jogar basquete por São Bernardo. Quando então começou minha andança na capital.

Conheci o ginásio na Vila Mariana, fiquei alojada no Baby Barioni, sempre que convocada para as seleções paulista e brasileira. Joguei pelo Brasil no ginásio do Ibirapuera, esse que agora querem destruir. Fiz corrida de revezamento no autódromo de Interlagos. 

Veterana passei por São Paulo jogando e dirigido equipes de várias cidades . A cada vinda para cá, destinos desconhecidos me aguardavam. Por Santo André fui até o SESI A.E.Carvalho, em Artur Alvim; e mesmo não sendo corintiana, me emocionei a primeira vez que vi a Arena de perto.

Nem só de esporte foram feitos os meus caminhos. Na Paulista, linda, visitei a Livraria Cultura, a Casa das Rosas. No Teatro Alfa, assisti a Billy Elliot; no Credicard Hall, Carmina Burana; no Revista, Ópera do Malandro; no Teatro Municipal, deslumbrante, O Cavaleiro da Rosa, nos transportando a outras épocas e nos fazendo sonhar com um mundo melhor, sem medos e com muito amor.

Márcia Perecin é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

O importante em uma amizade é saber conservá-la

 

Dos amigos

 

Dos amigos que ficaram dos tempos do Rio Grande do Sul – e saiba que foram muitos tempos, pois troquei o estado natal por São Paulo apenas em 1991, por necessidades profissionais -, tem um que me acompanha desde lá, mesmo que nossos encontros e conversas sejam raros. Paulinho, que é como teimo em chamá-lo a despeito da idade e da responsabilidade que lhe permite estar há 21 anos em uma das maiores forjarias do Brasil, ficou em Porto Alegre, enquanto eu, de mala e sem cuia, me despachei para a capital paulista em história que você, caro e raro leitor deste blog, deve conhecer minimamente, pois já a relembrei várias vezes – se um dia você quiser, desconfio que não queira, dedico outro post para escrever sobre aquela decisão que foi definidora na minha vida. Desde que deixei o Sul, chegamos a passar anos nos falando por telefone e apenas no dia de nossos aniversários. O dele, curiosamente, é dos poucos que não preciso anotar na agenda para lembrar: dia 2 de janeiro – apesar de os amigos sempre terem desconfiado que ele nasceu um pouco antes,e o pai, já prevendo a carreira esportiva que o guri se dedicaria, o registrou dias depois, o que lhe renderia um ano de vantagem. Essa história, claro, sempre ficou no campo da especulação jocosa dos amigos mais próximos, mesmo porque Seu Valdemar, o pai do Paulinho, é homem de uma correção que pouco se vê por aí.

 

Mesmo que nossos contatos sejam esparsos, quase toda vez que Paulinho vem a São Paulo, por compromissos profissionais, tentamos um encontro. Nem sempre é possível devido as diferenças de agenda e esta necessidade que tenho de estar cedo na cama para madrugar no dia seguinte, na rádio. O bom das férias é que podemos esquecer o relógio e, mesmo que o avião atrase e o trânsito atrapalhe, se pode esperar os amigos até a hora em que ele chegar, como aconteceu ontem à noite, quando o recebi para jantar. Como sempre, excelente oportunidade para atualizar as notícias da vida e relembrar passagens vividas juntos, especialmente porque ele foi meu companheiro de basquete, de namoros, de viagem – a maioria das vezes para Pinhal, no litoral gaúcho, ou para Garopaba, no catarinense -, e de muitas outras coisas que costumamos fazer na adolescência e juventude. Paulinho era mais sério e metódico; eu, menos organizado, me adaptava mais aos hábitos dele; ambos casamos mais ou menos na mesma época e tivemos filhos com a mesma idade; ele se separou de uma amiga da adolescência, casou de novo e hoje tem mais uma menina. Eu estou com dois meninos. Ao contrário dos pais, os filhos pouco se conhecem.

 

Por estranho que possa parecer, especialmente àqueles que desconhecem a tolerância e para os que vivem de esteriótipos, ele é colorado e eu, você já sabe, sou gremista. Diferença clubística que mais nos aproximou do que dividiu, pois as conquistas de um e de outro serviam para nos divertir, um dia em favor de um, um dia em favor de outro. Bem verdade que houve momentos em que o melhor era aguardar alguns dias antes de conversar com o amigo, mas nada que tivesse nos separado em definitivo. Para atrapalhar ainda mais o julgamento dos descrentes, apesar dele ser torcedor do Inter, desses de comparecer na arquibancada ao lado da família, fomos colegas de basquete no Grêmio, onde joguei por 13 anos, e a preferência dele pelo co-irmão não o impedia de brigar em quadra pela vitória. Até há alguns anos, ele guardava no apartamento, em Porto Alegre, uma camisa de basquete tricolor que acabou me presenteando por entender que estaria mais bem venerada na minha casa em São Paulo. Mal imaginávamos que aquela troca de endereço seria fatal para o destino da camisa de manga de regatas com o símbolo do Grêmio no peito e o número 12 nas costas. Ao ter a casa invadida por bandidos, a camisa foi roubada (assim como todo o restante da coleção, a bandeira oficial e a medalha de campeão da Copa do Brasil; além de outros objetos como menor valor sentimental tais como computadores, televisão, roupas, etc).

 

É difícil entender o que faz duas pessoas se transformarem em amigos e, principalmente, o que as faz permanecer nesta amizade mesmo com suas diferenças e distâncias. Muitos em condições parecidas se foram sem deixar história ou saudade. Às vezes, as facilidades de acesso e busca no Facebook forjam reencontros que logo se revelam fugazes. Deve haver alguma explicação baseada na filosofia ou na psicologia, porém o mais importante em uma amizade não são os motivos que a justificam, mas a própria existência dela. Portanto, conserve-a.

 

A foto que ilustra este post é do álbum de Davi_Vazquez, no Flickr

Lembro do tempo em que jogávamos bola na pracinha

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Tenho por hábito ler,quando tomo o meu café da manhã, as páginas da Zero Hora que tratam de esportes. As que mais me interessam são as que versam sobre futebol,automobilismo de competição e basquete e tênis,nessa ordem. Não deixo também de dar uma olhada na que ZH batizou como “De Fora da Área”. Confesso que nem sempre,dependendo do assunto,sigo lendo o texto do dia até o fim. O dessa segunda-feira,17 de novembro,foi um dos que chamaram a minha atenção.Li-o de cabo a rabo.

 

Cristiel Gasparetto,editor de esportes do Diário Gaúcho,um dos jornais que fazem parte do Grupo RBS,informo aos que não são de Porto Alegre,assinou um texto com o seguinte título:”Menos Videogame e mais campinhos”. Lembra adiante que,na sua infância,na década de 80 em Santa Maria,os espaços para a prática do futebol eram fartos”. “Passávamos horas jogando bola em campinhos ou mesmo no meio da rua de paralelepípedos que quase não tinha movimento”,escreveu Gasparetto. No texto,propriamente dito,queixa-se que vê crianças hipnotizadas diante de monitores. Essas,hoje em dia,passam o seu tempo livre,desde que sejam controladas por seus pais para que não exagerem,jogando videogame.

 

Ocorre que, se os jovens da década de 80,foram talvez os primeiros a ver minguarem os espaços livres,onde jogavam futebol,o que dizer dos que vieram ao mundo bem depois. Gasparetto lembra como era fácil montar projetos de goleiras e improvisar outros apetrechos parecidos com os do futebol de verdade,o dos estádios, e jogar mil peladas,de pés descalços,os mais ricos com chuteiras,aquelas com uma proteção na frente,que facilitava dar bicos na bola quando isso se fazia necessário.

 

Eu,que nasci na década de 30,ainda aproveitei muito os espaços vazios. Morei grande parte tanto da minha infância quanto da adolescência,até me casar,na Rua 16 de Julho,157,que era separada da Zamenhof por uma pracinha. Foi o único espaço livre, depois que todos os terrenos baldios foram ocupados,no qual jogamos vários arremedos de esporte:futebol,vôlei,basquete e até tênis.A prefeitura de Porto Alegre tentou plantar flores no local,mas quando os trabalhadores terminam o serviço e iam embora,recuperávamos o “nosso” espaço.

 

Trabalhei 60 anos na Rádio Guaíba e várias vezes fui a São Paulo para transmitir futebol. Em um hotel no qual nossa equipe se hospedou,havia um computador e nele era possível jogar o tataravô dos videogames. Os jogos,pouco depois,foram se sofisticando e ficaram cada vez mais atraentes,que o digam os meus netos homens: Gregório e Lorenzo,paulistanos; Fernando,gaúcho de Porto Alegre.

 

Dos meus filhos,apenas o Mílton se dedicou a jogar futebol,primeiro na escolinha do Grêmio e após,basquete,também pelo Imortal Tricolor,começando no infantil e chegando ao time adulto. Fernando,filho do Christian,joga basquete no Colégio Nossa Senhora do Rosário. Ah,Malena e eu,diariamente,jogamos Tetris,um game que nos acompanha faz muitos anos. Seja lá como for,gostei do texto do Gasparetto. Ele me fez lembrar do tempo da pracinha,que nunca foi ocupada. Não sei se os meninos que moram nas duas ruas ainda a usam para praticar esportes. Acho,porém,que preferem videogame.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, publica seu texto no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Telê Santana tinha razão, também no basquete

 

Joguei basquete por 13 anos, boa parte deste tempo vestindo a camisa do Grêmio. Era uma época em que assistir aos jogos da NBA aqui no Brasil era um privilégio, pois ainda não tínhamos a TV a cabo e faltavam espaço e dinheiro na grade de programação dos canais abertos. Ficávamos esperando ansiosos pela chegada de um amigo qualquer que tivesse tido oportunidade de visitar os Estados Unidos, pois sabíamos que traria na mala alguns pares a mais de tênis All Star. Enquanto não nos era possível calçar uma daquelas relíquias, contentávamos com o Charrua, comprado nas lojas uruguaias de Rivera, cidade separada por apenas uma avenida de Santana do Livramento, no extremo do Rio Grande do Sul.

 

Meus tempos de quadra me renderam algumas poucas convocações para a seleção gaúcha e um título estadual estudantil, além de muito atrevimento para enfrentar os grandalhões com meu 1 metro e 74 de altura. Em um dos períodos em que treinei no Grêmio, o futebol era comandado por Telê Santana que adorava basquete e fazia questão de levar grupos de jogadores, em dia de concentração, para assistir às nossas partidas. Telê se espelhava nos técnicos de basquete para montar seus treinos táticos e organizar jogadas ensaiadas, além disso arriscava alguns palpites. Lembro que ele criticava a forma como cobrávamos o lance livre, impulsionando a bola com uma só das mãos e movimentando uma complicada engrenagem do braço para que esta alcançasse a cesta. Dizia que o mais óbvio e certeiro seria que cobrássemos no estilo lavadeira, arremessando com as duas mãos abaixo da cintura, usado até as décadas de 1960 e 1970. Aqui no Brasil, alguns devem lembrar que o lendário jogador brasileiro Ubiratan usou este recurso devido o baixo desempenho dele nos lances livres.

 

Ao assistir o basquete brasileiro enfrentar a Argentina, nas quartas-de-final dos Jogos Olímpicos, nesta tarde, não tive como não lembrar do saudoso Telê Santana. Talvez se nossa equipe, hoje cheia de estrelas da NBA, coisa inimaginável no meu tempo, arriscasse alguns lances livres de lavadeira ainda estaríamos na disputa de uma medalha e não teríamos assistido à festa argentina. Alguém deverá pensar que a ideia é ridícula no basquete moderno. Eu penso que ridículo é um time com a qualidade do brasileiro acertar apenas metade dos arremessos de lance livre em uma partida decisiva.

 

Não é que Telê tinha razão, mais uma vez.