Conte Sua História de São Paulo: chama o Tonico! Ele faz

 


Por Hélio Borgoni
Ouvinte da CBN

 

 

— “Chama o Tonico”

 

Era assim. Sempre foi assim. Tonico era conhecido como o “faz tudo”. No jargão popular: Tonico é pau pra qualquer obra. Eu o conheci no ano de 1944. Foi numa festa regada com a bebida preferida dele “fogo Paulista”. Essa bebida era sempre servida nos aniversários, nascimento de filhos, batizados, crismas ou até mesmo quando ele participava de um telhado terminado. Os batismos de crianças eram frequentes. Todo mundo tinha um monte de filhos.  As famílias sempre numerosas. Tinham tantos irmãos e primos, e primos de primos, e amigos de primos, e amigos de amigos… todos eram, de alguma forma, compadres.

 

Os pais do Tonico eram imigrantes italianos. Foram trabalhar em fazendas de café, no sul de Minas, mais precisamente na cidade de São Sebastião do Paraíso. Tonico era o terceiro filho. Pela ordem dos mais velhos vinha Evaristo, Iolanda, ele, Laudelina, conhecida como Fiona, Alzira e Olímpio, o caçula. 

 

Como a historia é sobre o personagem Tonico vou me abster de falar dos outros, por enquanto. Tonico, tinha como tarefa trabalhar como “carreador de boi”, andava ao lado da carroça, descalço. Por que sei? Um dia, ele comentou que o frio era tanto que nem sentia os  espinhos nos pés; a mãe dele fazia um escalda pés e tirava os espinhos com agulha de costura. Ele contou que veio a usar sapato com 18 anos de idade,quando mudou-se para São Paulo e seu irmão Evaristo o presenteou com uma bota.

 

Analfabeto, mas muito esperto, começou trabalhando como ajudante de pedreiros e ia observando e perguntando como se lidava com prumos, ajudava tirar níveis dos alicerces, e, assim, foi aprendendo uma profissão. Mas nunca parou nisso. Aprendeu a pintar, fazer telhados, encanamentos de água esgoto, etc… até a parte elétrica ele acabou dominando. Chegando a ser capataz de obras e autorizado a recrutar trabalhadores, São Paulo vivia uma febre de obras. Todo o centro, periferias e até Mooca, Ipiranga, Perdizes … Era escolher o melhor salário. Então, ele começou a escrever cartas pros primos em Minas Gerais: “venham pra São Paulo, eu arrumo onde te encaixar”. Cada parceiro que chegava era festa. Em pouco tempo, cada qual mandava buscar a família: eram pais, irmãos, avôs, sogros, … e, assim, as Famílias Borgoni e Zambelli foram se estabelecendo na Capital, e também em São Caetano, São Bernardo e Santo André.

 

—- Chama o Tonico! Ele faz.

 

Tonico nunca deixou de ajudar os amigos. Mesmo que fosse só nos domingos, ele pegava as ferramentas, tomava o ônibus e ia. O  sonho dele era estudar para ser “guarda livros” — não sei o que seria hoje, mas já foi descrito como  “contador”. Autodidata, mal conseguia escrever um orçamento, às vezes errava e tomava prejuízo, mas sempre cumpriu os tratos. Dizia que a palavra dada tem que ser respeitada. Sonhava em criar galinhas poedeiras, comprou livros e os nomes Plymouth Rock Barrado e,Rhod Islan Red faziam parte das suas conversas.

 

Teve tantos tombos na vida que foi ficando sem energia. Mas até então nunca deixou de trabalhar um dia sequer. Nas décadas de 1940, 1950 e meados de 1960 , tinha muita energia e vontade de vencer na vida.

 

Agora, já não mais tomava “fogo paulista” nas festas. Parava em vários bares a caminho de casa, tomava vinho, rabo de galo, conhaque, cachaça; e, assim, foi se apagando o brilho no olhar. Festas para ele só nos domingos quando um dos irmãos passava para papear. Ele ficava contente. As visitas foram ficando escassas. Quem mais vinha, eram os irmãos Evaristo, Olímpio, Laudelina, Fiona, o marido dela, o Atíllio, e alguns netos.

 

Ele faleceu em outubro de 1989.

 

Tonico, era meu pai

 


Hélio Borgoni é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br.

O Estado reprovado como gestor avança como interventor

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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A proibição total do aborto cogitada neste momento por uma minoria coloca em evidência a excessiva intervenção do Estado nos assuntos pessoais.

 

A Administração Pública não dá conta das atribuições que lhe compete, pois é má feitora, péssima gestora e interventora indevida, e agora quer ampliar a intromissão em direitos individuais das cidadãs brasileiras.

 

Ao mesmo tempo aflora a incongruência de liberar o fumo e o álcool, quando proíbe o jogo, o aborto e as drogas.

 

A proibição ao jogo é insustentável a qualquer argumento adulto. A não ser quanto a paternalismo ou estatismo.

 

O aborto tem seu melhor exemplo no caso americano da redução da criminalidade.

 

Rudolph Giuliani, prefeito de Nova Iorque, empossado em 1994, foi o herói aparente da mudança nos índices policiais. Entretanto o economista Steven Levitt e o jornalista Stephen Dubner foram os anti-heróis ao mostrar matematicamente que a causa real foi a lei que descriminalizou o aborto. Os filhos indesejáveis deixaram de nascer.

 

“O que o vínculo aborto-criminalidade nos diz é: quando o governo dá a uma mulher a oportunidade de escolha, ela pondera se está em condições de criar bem o bebê. Se não está, geralmente opta pelo aborto”.

 

O New York Times Magazine relatou:

 

“Em seu trabalho a respeito do aborto, Levitt e seu coautor avisavam que suas descobertas não deveriam ser erroneamente interpretadas como um aval ao aborto. Apesar de tudo, o assunto conseguiu ofender praticamente todo mundo. Os conservadores ficaram furiosos, os liberais manifestaram decepção com a discriminação contra as mulheres pobres e negras. Os economistas argumentaram que a metodologia não era sólida. Enquanto a mídia se esbaldava com o tema.”

 

A questão das drogas, a mais controversa de todas, não pode ignorar as pesquisas realizadas. Por exemplo, o Juiz Roberto Luiz Corcioli Filho em artigo apresenta a seguinte nota:

 

Conforme notícia publicada no jornal Folha de S. Paulo (Álcool provoca mais prejuízos que crack, heroína e maconha), “o álcool é uma droga mais perigosa do que o crack e a heroína e três vezes pior do que a cocaína e o tabaco, de acordo com pesquisadores do Comitê Científico Independente para Drogas do Reino Unido. Segundo a Organização Mundial da Saúde, os riscos associados ao álcool causam 2,5 milhões de mortes por ano”.

 

Enfim, é preciso questionar as (ile)gítimas intervenções do Estado sob o propósito de proteger o cidadão de uma conduta auto lesiva.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.
 

Caça a motorista bêbado tem de ser predatória

 

Por Milton Ferretti Jung

Acidente de trânsito e carro clonado

A caça a motoristas que dirigem alcoolizados os seus veículos está se tornando, me permitam a expressão, cada vez mais predatória. Esta é, sem dúvida, uma boa notícia. São Paulo deu ao país um bom exemplo quando o governo estadual mandou à Assembléia Legislativa projeto visando a impedir que, em pontos comerciais, sejam vendidas bebidas alcoólicas, oferecidas ou que o seu consumo seja permitido a menores de 18 anos. No Rio Grande do Sul há uma idéia ainda mais abrangente. Pais e responsáveis também ficariam proibidos de deixar crianças e adolescentes beberem em sua companhia. Na lei paulista, apenas o proprietário do estabelecimento vendedor é responsabilizado. Uma equipe multidisciplinar, liderada pela Secretaria Estadual de Justiça e Direitos humanos gaúcha, pretende apresentar um projeto de lei acerca do tema em fins de setembro.

Mas tem mais. Tenho certeza de que meus leitores, se é que os possuo, já leram ou ouviram notícias sobre projeto aprovado na Câmara dos Deputados segundo o qual se proíbe que bebidas alcoólicas sejam transportadas nas cabines de veículos. Essas, então, apenas poderão ser levadas no porta-malas. Nada impedirá, porém, que um motorista “sedento” pare o veículo que dirige e abra uma das garrafas guardadas no maleiro. A referida lei é daquelas de difícil fiscalização. Foi Edson Lobão, hoje Ministro de Minas e Energia, quando senador, o autor do projeto que data de 2002. Não foi especificado por ele se as garrafas devem obrigatoriamente estar lacradas. Vá lá, o condutor do veículo não pode beber, mas e os passageiros? Seja lá como for ,a propostas volta ao Senado e necessitará de aprovação da presidente Dilma.

Vou insistir num dos pontos que já abordei em postagens antigas que tratavam de trânsito: nada resolverá os excessos tanto de ingestão de bebidas alcoólicas quanto de velocidade, nas estradas e nas ruas, se desde a mais tenra idade as crianças não forem educadas, em casa e na escola, a respeitar as leis. Por outro lado, as punições impostas aos maus motoristas, especialmente os bêbados, têm de ser revisadas. Hoje, quem comete um acidente por estar sob efeito de alcool e provoca a morte de alguém, é julgado por cometer crime culposo, quando o mais correto seria ser punido por crime doloso.

N.B: No homicídio culposo, sem intenção de matar, o motorista é julgado por um juiz. Se condenado, pode pegar de dois a quatro anos de prisão. A habilitação pode ser suspensa por um ano. No homicídio doloso, intencional, o motorista vai a júri popular. Se condenado, a pena é de 6 a 20 anos. A pessoa pode perder o direito de dirigir.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)