Vivendo e aprendendo com os anjos da bicicleta

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Vivendo e aprendendo. Quem não conhece esse ditado popularíssimo? Vou até um pouco mais longe: em algum momento, provavelmente, o amigo leitor, no mínimo, ouviu alguém repetir o velho adágio, se é que não se serviu dele num papo com amigos. Lembrei-o quando li reportagem de Priscila de Martini, colunista de ambiente do caderno Nosso Mundo Sustentável, do jornal gaúcho Zero Hora, em sua edição do último domingo. A chamada na contracapa me despertou a atenção: ”AJUDA PARA PEDALAR”. Fiquei tão curioso para saber o que continha a matéria que, contrariando o meu hábito, deixei de lado as páginas de esportes, minhas preferidas, e abri o periódico nas duas que continham a reportagem.

 

A manchete dizia:” Um anjo em duas rodas”. Abaixo, lia-se que o assunto de Priscila referia-se ao trabalho de voluntários que ajudam ciclistas a ir para as ruas. Como escrevi na abertura do meu texto desta quinta-feira, vivendo e aprendendo. Jamais havia imaginado que houvesse pessoas, anjos, segundo a autora da reportagem, especializadas, em instruir quem, como eu, teme enfrentar, pedalando bicicleta, o trânsito cada vez mais maluco, de uma cidade do tamanho da minha Porto Alegre.

 

Em São Paulo, fiquei sabendo agora, esses mestres ciclistas angelicais já existem faz tempo. Aí, com certeza, eles são ainda mais necessários do que aqui. Logo, não estou contando nada de novo. Para os ciclistas porto-alegrenses, porém, salvo melhor juízo, o trabalho gratuito executado pelos Bici Anjos precisa ser divulgado. Priscila de Martini, em sua primeira viajada tendo à frente um deles, o publicitário Cadu Carvalho, garantiu que aprendeu como o trânsito pode não ser tão assustador assim se o ciclista souber como se portar nas vias. Convém salientar, entretanto, que todas as interessantes dicas que Priscila ouviu do seu guia, somente funcionarão se motoristas e motociclistas se dispuserem a compartilhar vias públicas e até estradas, inclusive, com os que usam bicicletas tanto para passear quanto para trabalhar. Vanderlei Cappellari, diretor-presidente da EPTC, lembra que “nosso motorista acha que tem preferência na via, quando, na verdade, o próprio Código de Trânsito determina o contrário”.

 

Em Porto Alegre, há 10 voluntários cadastrados para atender aos pedidos de quem pretende pedalar com menos insegurança nas nossas ruas. Solicite os serviços de um Bici Anjo entrando no site http:/bicianjo.wordpress.com. Particularmente, enquanto os nossos motoristas tiverem pés pesados, por mais valioso que seja o trabalho dos abnegados Bicis Anjos, vou pedalar nas calçadas da Zona Sul de Porto Alegre. Bem devagar,é claro,respeitando os direitos dos pedestres.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Além da engenharia de tráfego

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Considerar o trânsito além da engenharia de tráfego foi o propósito de Enrique Peñalosa, economista e doutor em Administração Pública, ao assumir a cidade de Bogotá entre 1998 e 2001. Submetendo a técnica à cidadania e transformando radicalmente uma cidade de mais de sete milhões de habitantes.

 

Optando por Bogotá como uma cidade cidadã, agiu como um Administrador Geral, e tomou medidas radicais: comprou o Country Club e construiu um parque público, estabeleceu mais de 300 km de “Ciclorutas” nas avenidas da cidade, colocou obstáculos no meio fio impedindo o estacionamento em frente a grandes prédios e áreas de compras, demoliu a grande área dos drogados e criou um jardim infantil, instituiu o “Pico y Placa” rodízio de carros com quatro finais de placas diárias, aumentou o espaço para os ônibus, alargou as calçadas, substituiu áreas de garagem por espaços públicos.

 

Estas realizações deram a Penãlosa uma extraordinária bagagem, testada na RIO +20 e também na excelente entrevista publicada em 24 de junho no caderno Cotidiano da Folha, realizada por Vaguinaldo Marinheiro e Regiane Teixeira e, enaltecida por Ruy Castro em sua coluna no dia 13.

 

Ficou claro que como Administrador soube tratar a cidade como um todo, assim como diferenciar o público do privado, evidenciando que o automóvel é um bem privado e deve ser tratado como tal. Ou, como exemplificou, se é aceito que guardar suas roupas não é da alçada da prefeitura, por que o carro também não é da conta de cada um? Assim como cidade rica não é aquela em que os pobres andam de carro, mas onde os ricos usam transporte público. Vide New York, London, Zurich. E, mais: “Devemos pensar em cidades para os mais vulneráveis. Para as crianças, os idosos, os que se movimentam em cadeiras de rodas, os mais pobres. Se a cidade for boa para eles será também para os demais”.

 

Será?

 

Enrique em 2007 e 2011, embora mais famoso e festejado inclusive internacionalmente, perdeu as eleições para o cargo que tanto revolucionou.

 

Será que para as grandes cidades brasileiras teremos algum candidato disposto a Administrar Geral e considerar o que reza a Constituição no sentido de igualdade de todos perante a lei como Enrique Penãlosa assim a lê?

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos, e escreve às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

Em família, pedalando na natureza de La Feniglia

 

Bicicleta em Ansedonia

 

Pedalar é uma das melhores maneiras de conhecer uma região, sendo assim não podia rejeitar o convite da família assim que cheguei a Ansedonia. Perto da casa onde estou aproveitando as férias, é possível alugar bicicletas a € 6 e andar o dia inteiro, a única obrigação é estar de volta antes das oito da noite, caso contrário você vai ter de ouvir poucas e boas do dono do negócio, que, por sinal, arrisca algumas palavras (e palavrões) em português, fruto do casamento com uma brasileira. Eles haviam descoberto o passeio alguns dias antes e não viam hora de me apresentar o programa que, sabiam bem, iria me agradar em cheio.

 

Antes de seguir em frente nesta história, dadas as imagens que tenho acompanhado da campanha eleitoral em São Paulo, considero ser importante o alerta aos raros e caros leitores do blog que, apesar de aparecer em fotos com uma bicicleta, não me lançarei candidato a prefeitura nem a vereador.

 

Dito isto, vamos as minhas pedaladas.

 

Pedalando em la Feniglia

 

Logo no primeiro dia de descanso éramos cinco embarcando em quatro bicicletas, lógico que o carona sobrou para mim, supostamente o mais bem preparado para pedalar em longa distância, já que a maioria dos meus companheiros de viagem não se atreve a “bicicletiar” quando está em São Paulo. O caminho sugerido não poderia ser mais inspirador, uma trilha de seis a oito quilômetros nas dunas de La Feniglia, uma reserva florestal que liga Ansedonia a Monte Argentario, tomada de pinheiros mediterrânicos que amenizam o intenso calor desta época do ano. Ao contrário do que se poderia imaginar, o terreno é firme e com subidas amenas, o que me permitiu percorrê-lo com tranquilidade, apesar do peso do meu carona. O trajeto segue em paralelo a praia e a cada um quilômetro você tem o acesso ao mar lhe convidando para uma parada. A trilha sonora, composta por uma enormidade de cigarras, embala cada pedalada. E a copa das árvores se encontrando criam a sensação de um extenso túnel verde com sombra e ar agradável.

 

Bicicleta na praia

 

Das muitas coisas legais neste caminho é saber que a qualquer momento você pode descansar na beira do mar. Antes de entrar na praia você encontra locais apropriados para estacionar as bicicletas, apesar de a maioria das pessoas preferir deixá-las o mais próximo possível das barracas. E são muitas as famílias que usam a bicicleta para chegar ao local, apesar de haver estacionamentos para carros nas duas pontas, do lado de Ansedonia e de Monte Argentario. Muitos combinam os dois tipos de transporte. Nossa intenção não era ficar na praia, portanto fizemos apenas um pit stop, entramos no mar, nos refrescamos e logo retornamos às bicicletas. É possível pedalar até o lado de trás desta faixa de areia de onde se consegue ver a cidade de Orbetello e o lago que a cerca e, se tiver fôlego, seguir em frente para cruzar por um santuário de pássaros. Um dos poucos obstáculos foi uma cobra que cruzou nosso caminho, que parecia bem mais assustada do que todos nós.

 

Orbetello

 

Desta vez, decidimos não entrar em Monte Argentário e retornamos pelo mesmo caminho, assim que avistamos a saída de La Feniglia. Em todo passeio encontramos famílias pedalando, muitas transportando sacolas, barracas e outros penduricalhos típicos de quem pretende ficar o dia à beira mar. E o dia merecia este descanso. Nós estávamos entusiasmados demais para pararmos por muito tempo em qualquer lugar, queríamos mesmo era pedalar e aproveitar toda a paisagem. E o fizemos com muito prazer.

Pedágio urbano pode render 3km de metrô por ano

 

Uma mesa com convidados que não andam de carro ou se o fazem, tentam deixá-lo cada vez mais estacionados na garagem. Foi o jornalista Leão Serva e o empresário Alexandre Lafer Frankel que conseguiram a façanha no almoço dessa terça-feira, no Spot, restaurante próximo da congestionada avenida Paulista, para comemorar a edição do guia “Viver Bem Em São Paulo Sem Carro”, no qual contam a história de 12 pessoas que se tornaram mais felizes ao aposentar o automóvel, ou em alguns casos, reduziram seu uso – e foi nesta categoria que me encaixei entre os convidados. Ao contrário de mim, adepto da bicicleta nas horas vagas, a maioria prefere andar a pé e se socorre do trem, metrô ou táxi, dependendo a distância a ser percorrida. Fui privilegiado no almoço ao sentar ao lado da autora de novelas e pedestre Maria Adelaide Amaral. Para ela o carro é meio de transporte somente para viagens fora da cidade ou em ocasiões muito especiais, gosta bem mais de caminhar e de preferência sozinha, diz que depois dos passeios é outra pessoa e escreve melhor. Ir aos cemitérios da vizinhança na Vila Madalena, zona oeste, é fonte de inspiração.

 

Falo deste compromisso aqui no Blog para registrar uma informação que me foi passada pelo urbanista e arquiteto Cândido Malta, que também prefere caminhar a andar de carro e adoraria viver em uma cidade mais compacta, na qual os bairros se sustentassem, com emprego próximo de casa ou a curtas distâncias. Malta é um veterano defensor do pedágio urbano para conter o crescimento da frota de carros e aumentar a velocidade do transporte público. Contou que, a partir de ensaios feitos em computador, foi possível identificar que com a cobrança de R$ 4 por dia, se reduziria em 30% o número de carros nas ruas, índice semelhante ao que deixa de rodar nos feriados, em São Paulo. Seriam arrecadados pelo poder público cerca de R$ 600 milhões por ano, dinheiro com o qual daria para construir ao menos 3 quilômetros de metrô subterrâneo. Para se ter ideia do que isso representa, o Governo de São Paulo consegue tocar, em média, de 0,5 a 1 quilômetro por ano.

 

Nesta semana, o presidente da Fecomércio Abram Szajm, em artigo, provocou os candidatos a prefeito a discutirem o pedágio urbano durante a eleição e criticou os políticos que “se elegem com os votos das pessoas, mas governam para motores e pneus” (leia o texto completo). Em editorial, a Folha de São Paulo entrou no debate. Enquanto o ex-presidente da CET-SP Roberto Scaringela propôs o pedágio em reportagem na revista Época SP, sobre a qual já tratei aqui no Blog.

 

Aos que odeiam a ideia do pedágio urbano, uma notícia tranquilizadora: São Paulo não tem gestor com coragem e disposição para enfrentar este desafio. E enquanto isso não acontece, mesas ocupadas por pessoas que não usam carro serão raras nos centros urbanos.

 

Em tempo: “Viver Bem Em São Paulo Sem Carro” será lançado no museu Emma Klabin, na avenida Europa, em frente ao MIS, no dia 28 de junho. Quem for de bicicleta terá valet service à disposição.

416 metros de ciclovia e muitas polêmicas, em Porto Alegre

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Cidades que se prezam, especialmente as metrópoles, onde quer que estejam situadas, possuem ciclovias. Em muitas, porém, as existentes não são suficientes para atender a crescente e justa exigência dos que, além de usarem a bicicleta para ir ao trabalho, pedalam por esporte ou, simplesmente, por prazer. Em São Paulo, essas vias expressas, segundo imagino, estão ainda distantes do que seria ideal. Já Porto Alegre faz força para se inscrever entre as capitais brasileiras que oferecem aos ciclistas a segurança de conduzir suas “magrelas” sem medo de que precisem enfrentar veículos motorizados. Aqui – e cito Porto Alegre porque é de onde digito este texto – polêmicas sobre os mais diversos assuntos brotam com frequência e viram, é claro, assunto para a mídia. É o que vem acontecendo com a construção daquele que é apenas o trecho inicial da ciclovia da Avenida Ipiranga, inaugurado nessa segunda-feira. O prefeito José Fortunatti, candidato à reeleição, preferiu dizer que não participava de uma inauguração ,mas da “entrega de um trecho da obra à cidade”. Sem mais delongas,vamos às polêmicas.

 

A primeira ocorreu em novembro de 2011. Beto Albuquerque, secretário estadual de infraestrutura e logística, declarou que a ciclovia, por situar-se debaixo de fios de alta-tensão e em cima de um gasoduto, ao contrário de proporcionar segurança para os seus futuros usuários, traria riscos de vida. A segunda polêmica foi provocada pelo “guard rail” ou, se preferirem, guarda-corpo. A ideia é que fosse feita uma cerca de madeira, criticada por especialistas no assunto e população. Até um concurso entre arquitetos foi, então, criado pela prefeitura. O autor do modelo vencedor foi o arquiteto Rodrigo Troyano. Corria já o mês de janeiro de 2012. Em fevereiro, faltou material para a construção do guarda-corpo mas o atraso provocado por esse fato, apesar de ter adiado a conclusãoa e do trecho, não chegou a virar polêmica. O primeiro módulo do guarda-corpo foi apresentado aos ciclistas no dia l6 de março. Nem todos ficaram satisfeitos com a obra. “Esta é a bicicleta de Tróia e esta ciclovia é um presente de grego”. Leu-se isso numa placa de madeira posta nas proximidades da obra.

 

Era de se acreditar que, com a entrega do primeiro trecho da ciclovia, as polêmicas se encerrariam, mas não foi o que aconteceu com a liberação, para os ciclistas, dos 416 metros que estão à disposição do público. Uma faixa com o texto “Mudar 5x de lado dá tudo errado” foi colocada próximo a uma das avenidas que cortam a ciclovia. O presidente da Associação dos Ciclistas de Porto Alegre, Pablo Weiss, também questionou a segurança da pista nos cruzamentos com os carros. Ouviu-se ainda reclamações quanto ao uso da ciclovia por pedestres. Esses, sem dúvida, correm risco de atropelamento. Já se viu que somente boas intenções não são suficientes para agradar ciclistas. Eu diria que, apesar dos pesares, inclusive da necessidade da conclusão dos restantes nove quilômetros, as ciclovias da Avenida Ipiranga e a da Avenida Diário de Notícias, com ou sem polêmica, representam um começo, titubeante, é verdade, mas sempre uma esperança de melhores dias para quem pedala.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Bicicleta: “ruas não são um ringue”

 

Ciclovia da Radial Leste

 

As cidades amigáveis da bicicleta e os benefícios que esta traz para a saúde foram temas do comentário de Sérgio Abranches, no Ecopolítica, que vai ao ar, no Jornal da CBN. Pouco depois de falarmos sobre o assunto, soube da morte de mais um ciclista na capital paulista. Hoje, também, recebi a mensagem do ouvinte-internauta Wilson Teixeira Soares, jornalista e ciclista, que compartilho com você. Além de chamar atenção para o papel dos jornalistas na mudança de comportamento da sociedade, também destaca medidas fundamentais para que as cidades brasileiras apareçam na lista citada por Sérgio no comentário que você ouve clicando aqui. Mas antes, leia o texto do Wilson:

A cada dia, quando de casa para o treino saio, ouço, quando começa, o teu programa na CBN. Hoje, pouco antes das sete, abordavas com um especialista na matéria a questão do sódio na alimentação. E o especialista elogiou o fato de os meios de comunicação terem, de maneira regular, abordado o assunto, o que levou os consumidores brasileiros a terem interesse em saber o que estão a comprar, para tanto consultando a tabela nutricional dos invólucros.

 

Findo o treino – como não é a passeio, giro, com os camaradas de treino diário, nas vias públicas de Brasília, compartilhando-as com os veículos motorizados -, guardei a bicicleta, liguei o rádio do carro e escutei teu bate-papo, sobre ciclovias, com o Sérgio Abranches. Boa conversa.

 

Mas, por quais cargas d´água te escrevo? Por singela razão: ciclovias são necessárias? São. Ciclofaixas, igualmente, são necessárias? Por suposto.  Mas nós, que treinamos, que socamos a bota, usamos as vias públicas.  Porque somente um rematado idiota se dá ao desplante de girar forte em uma ciclovia, colocando em risco o ciclista de lazer, o usuário da bicicleta que a utiliza para ir trabalhar. Como sabemos, o trânsito é um ambiente de risco.

 

Para reduzir os riscos, um tripé é fundamental: obras de infraestrutura, fiscalização e educação. Na verdade, deveria ser um quadrilátero: obras, fiscalização, educação e maior rigor na aplicação da legislação. E educação para o trânsito, para que o conjunto da sociedade tenha consciência de que a vias públicas são um ambiente que a todos pertence – pedestres, ciclistas, motociclistas e motoristas de ônibus, caminhões e automóveis -, é o elemento diferencial. O mais importante. E, no Brasil, desprezado.

 

Por isso, torço, espero, desejo que continues a abordar o assunto. Que seja essa uma pauta constante, regular. Porque se foi pelo martelar do assunto que o consumidor brasileiro passou a se interessar pela composição e pela data de vencimento dos alimentos que adquire, será, também, pelo bater na tecla de que as ruas não são um ringue, não são uma arena, de que são um ambiente de convivência, que se expandirá a consciência de que ciclistas, por estarem expostos ao perigo quando pedalam nas estradas, avenidas e ruas, têm de ser objeto de precaução por parte dos que eventualmente estão atrás do volante.

 

Um grande abraço, Wilson Teixeira Soares – jornalista, ciclista, membro do grupo ciclístico Coroas do Cerrado, conselheiro da Ong Rodas da Paz.  

Caminhoneiros e ciclistas na conquista do espaço urbano

 

Bicicleta na pista

 

A morte de cinco ciclistas na sexta-feira passada – em Brasília, Pará, Pernambuco, Santa Catarina e São Paulo – e o protesto frustrado dos motoristas de caminhão na capital paulista estão mais próximos do que se possa imaginar. Nos dois casos, há disputa pelo direito de usar o espaço público nas cidades, superlotadas desde que o homem deixou o campo e passou a ocupar de forma abusiva o ambiente urbano, onde vivem 80% da população brasileira, atualmente. Com ruas, avenidas e grandes vias engarrafadas, bicicletas dividem o asfalto com carros, motos, caminhões, ônibus e todo tipo de meio capaz de nos levar de um ponto a outro (em Porto Alegre, recentemente, ainda vi carroças puxadas a cavalo percorrendo corredores importantes de tráfego). Elo mais fraco desta rede de transporte, os ciclistas, ao lado de pedestres, são as maiores vítimas – as duas categorias juntas têm 584 mil mortes ou 46% de um total de 1,2 milhão de pessoas que perdem a vida em acidentes de trânsito, por ano, no Mundo, conforme relatório da Organização Mundial de Saúde.

 

A mesma política que privilegiou o transporte individual nas cidades, impediu investimentos sérios em ferrovias e fez com que a economia brasileira tivesse de ser carregada em caminhões que atravessam as regiões metropolitanas para chegar a seu destino, transtornando ainda mais o ambiente urbano. Sem opções seguras e com desvios que encarecem o transporte, os caminhoneiros insistem em cruzar as duas marginais de São Paulo, e a prefeitura tenta conter o impacto desses caminhões proibindo passagem na Pinheiros e restringindo horário para andar na Tietê. Não se avalia o que isso pode significar para a logística de empresas que funcionem ou precisem entregar suas mercadorias na capital nem o efeito dessa medidas na própria cidade. Pois se são retiradas carretas, para substituí-las contrata-se 20 vans ou 15 VUCs – estes caminhões menores -, segundo cálculo feito pelo presidente da Apemelt – Associação das Pequenas e Médias Empresas de Logística e Transportes do Estado de São Paulo, Jorge Soares.

 

Os caminhoneiros reclamaram segunda-feira sem sucesso, hoje será a vez dos ciclistas pedalarem em algumas das principais cidades brasileiras, a partir das sete da noite. Na falta de espaço urbano, uns morrem e outros gritam. Enquanto estivermos vivos, melhor gritar. Ou pedalar.

Preservem os ciclistas

 

Ciclovia na Radial Leste

 

A morte de mais uma ciclista na avenida Paulista, sexta-feira, ocorreu no dia seguinte a reportagem publicada no Jornal Nacional a qual mostrava que a bicicleta ganhava espaço na cidade. Ao assisti-la na noite de quinta-feira, além da satisfação de ver meu incentivador Andre Pasqualini como personagem, pensei como esta poderia influenciar a visão das pessoas e, principalmente, atenuar o medo que meu pai sente sempre que tem notícias de que irei pedalar na cidade. Ele, por mais de uma vez, escreveu nos posts de quinta-feira aqui no Blog, às muitas restrições que tem ao uso da bicicleta em ruas tomadas por automóveis, e defendeu a ideia de que o comportamento dos motoristas e a diferença de forças entre os dois modos de locomoção são um risco a vida de quem pedala. Importante ressaltar que meu pai, aos 76 anos, gosta de dar suas pedaladas aos fins de semana e aproveita a proximidade para exercitar as pernas de casa até as margens da praia de Ipanema, no Rio Guaíba, na zona sul de Porto Alegre. Em seus textos já confessou, porém, que prefere usar as calçadas e faz questão de descer da bicicleta toda vez que precisa atravessar a rua até chegar a ciclofaixa disponível ao longo do rio. Ao ler as notícias que chegam de São Paulo, seu temor de que serei vítima de acidente vai se acentuar, não tenho dúvidas. Quase consigo ouvi-lo: “não te avisei ?”

 

O fato é que ciclistas morrem todas as semanas na cidade de São Paulo – um por semana, dizem as estatísticas oficiais. Quando esta se registra em avenida tão conhecida ganha caráter simbólico, provoca protestos, mensagens indignadas e pedidos de punição exemplar. Em Porto Alegre, não é diferente, foi lá que um tresloucado acelerou seu carro e atropelou vários ciclistas durante uma bicicletada. Lembra? Fez um ano há poucos dias. Precisamos, porém, perceber que além de ciclistas, morrem pedestres, também. E muitos. Assim como motociclistas e motoristas de carros – estes últimos em menor número. Nem por isso, defendemos o fim dos passeios a pé – apesar de que este parece ser o sonho de alguns governos de tanto que incentivam o uso do transporte motorizado individual.

 

Onde quero chegar com este texto, é mostrar a você que me acompanha no Blog que não adianta deixarmos as bicicletas em casa sob a alegação de que do jeito que as coisas estão é praticamente um suicídio encarar o trânsito pesado. Sei que esta é a primeira reação da maioria, eu mesmo pensei duas vezes antes de sair pedalando no fim de semana, em São Paulo. Meu temor havia aumentado. Mas isto é o que desejam aqueles que seguem acreditando que os carros são os donos das ruas. Nós precisamos é ocupar, cada vez mais, as cidades com bicicletas, pois enquanto pedalar for um fator surpresa no trânsito, muitas mortes vão ocorrer. Precisamos transformá-la em lugar comum, abrir espaço e tomar as vias públicas, ganhar o respeito dos demais que a utilizam a bordo de um automóvel, ônibus ou caminhão – e, também, respeitá-los, seguindo as regras de boa convivência e de trânsito. Ao menos assim, quando souber que fui andar de bicicleta, meu pai, em lugar de medo, terá orgulho. E eu, também, da cidade que escolhi viver.

Pais têm medo de deixar filhos irem de bicicleta para escola

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Ainda não tinha ouvido falar em um programa chamado Caminho da Escola. Li sobre ele, nessa terça-feira, na Zero Hora, e achei-o muito interessante. Ele está sendo colocado em prática não somente no Rio Grande do Sul, mas em outros estados. Ao todo, por enquanto, foram entregues 100 mil bicicletas até o final de 2011. Vou me fixar, porém, no que está ocorrendo, no meu estado,o Rio Grande do Sul, com o Caminho da Escola. A matéria do jornal explica que três municípios daqui receberam bicicletas visando a beneficiar estudantes que precisam caminhar de dois a 12 quilômetros para que cheguem às suas escolas ou aos pontos onde embarcam em ônibus escolares. Barros Cassal ganhou 400, Marcelino Ramos, 150 e Santo Cristo, 450.

 

Não chega a me espantar, preocupado que sou com questões de trânsito, que a secretária municipal de Educação de Marcelino Ramos, Isabel Ramich, esteja encontrando dificuldades para encontrar famílias dispostas a permitir que os filhos participem do programa. Os meus caros e pacientes leitores já devem ter adivinhado o que leva os pais a temerem que seus filhos pedalem até suas distantes escolas. Claro, a preocupação deles é com a segurança das crianças. Essas, evidentemente, encontrarão veículos pelo caminho. Fosse eu pai de família em uma cidade beneficiada pelo Caminho da Escola, com certeza, pensaria seriamente na questão da segurança e não sei se aceitaria que um filho meu usasse bicicleta para ir ao colégio.

 

Seja lá como for, os pais interessados no programa que, repito, é interessante, devem procurar a prefeitura de sua cidade para fazer o cadastro e assinar contrato de cessão de uso. Os prefeitos precisam, igualmente, entrar em contato com a Polícia Rodoviária Estadual para que, por meio de palestras de seus integrantes, as crianças, que utilizarão as bicicletas, recebam lições sobre segurança, principalmente se terão de pedalar por estradas vicinais. Há, afinal, muitos motoristas que, esses sim, não aprenderam a respeitar sequer os adultos que andam de bicicleta. O que dizer, então, quando se trata de ciclistas infantis? A propósito, a PRF bem que poderia promover palestras. E atenção! Nesta sexta-feira começa a Operação Carnaval 2012 da Polícia Rodoviária Federal. Ponham suas barbas de molho, apressadinhos!

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Faça parte do Fórum Mundial da Bicicleta

 

1º Forum Mundial da Bicicleta – English Subtitles from Forum Mundial da Bicicleta on Vimeo.

 

Os leitores deste blog sabem bem a opinião de seu titular em favor do uso indiscriminado de bicicleta, mesmo que este não se habilite a fazê-lo com a frequência que gostaria. Insisto em pedalar mas não consigo ir além da prática do lazer, apesar de adorar a ideia de ter a bicicleta como meio de transporte. Volto ao assunto, hoje, porque recebo através de meu irmão, o Christian Jung, que tem o mais famoso blog especializado em fusca do sul do continente (menos, Milton, menos !), o post sobre a organização do primeiro Fórum Mundial da Bicicleta, em Porto Alegre – cidade na qual nasci como muitos de vocês já devem saber -, entre os dias 23 e 26 de fevereiro. O evento é resultado de uma série de ações geradas após o atropelamento coletivo que ocorreu há cerca de um ano – em 25 de fevereiro de 2011 – na capital gaúcha, e contará com a presença do americano Chris Carlsson, um dos idealizadores da primeira Massa Crítica, que se realizou em São Francisco, nos Estados Unidos, em 1992. Ele deve passar por São Paulo, também, de acordo com informações dos organizadores do Fórum que tentam pelo sistema colaborativo arrecadar R$ 3,5 mil, dinheiro que pagará as passagens de avião, único pedido feito por Carlsson para estar no Brasil, neste perído. Durante o encontro será discutido o futuro das cidades e o papel da bicicleta nos âmbitos social, econômico, ambiental, esportivo e cultural. Para saber como ajudar entre no site do Fórum Mundial da Bicicleta ou veja o vídeo que coloca à sua disposição.

 

Obs: Se quiser conhecer o Blog do meu irmão, vá até o MacFuca, vale a pena, mesmo que o seu negócio seja a bicicleta.