Além da engenharia de tráfego

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Considerar o trânsito além da engenharia de tráfego foi o propósito de Enrique Peñalosa, economista e doutor em Administração Pública, ao assumir a cidade de Bogotá entre 1998 e 2001. Submetendo a técnica à cidadania e transformando radicalmente uma cidade de mais de sete milhões de habitantes.

 

Optando por Bogotá como uma cidade cidadã, agiu como um Administrador Geral, e tomou medidas radicais: comprou o Country Club e construiu um parque público, estabeleceu mais de 300 km de “Ciclorutas” nas avenidas da cidade, colocou obstáculos no meio fio impedindo o estacionamento em frente a grandes prédios e áreas de compras, demoliu a grande área dos drogados e criou um jardim infantil, instituiu o “Pico y Placa” rodízio de carros com quatro finais de placas diárias, aumentou o espaço para os ônibus, alargou as calçadas, substituiu áreas de garagem por espaços públicos.

 

Estas realizações deram a Penãlosa uma extraordinária bagagem, testada na RIO +20 e também na excelente entrevista publicada em 24 de junho no caderno Cotidiano da Folha, realizada por Vaguinaldo Marinheiro e Regiane Teixeira e, enaltecida por Ruy Castro em sua coluna no dia 13.

 

Ficou claro que como Administrador soube tratar a cidade como um todo, assim como diferenciar o público do privado, evidenciando que o automóvel é um bem privado e deve ser tratado como tal. Ou, como exemplificou, se é aceito que guardar suas roupas não é da alçada da prefeitura, por que o carro também não é da conta de cada um? Assim como cidade rica não é aquela em que os pobres andam de carro, mas onde os ricos usam transporte público. Vide New York, London, Zurich. E, mais: “Devemos pensar em cidades para os mais vulneráveis. Para as crianças, os idosos, os que se movimentam em cadeiras de rodas, os mais pobres. Se a cidade for boa para eles será também para os demais”.

 

Será?

 

Enrique em 2007 e 2011, embora mais famoso e festejado inclusive internacionalmente, perdeu as eleições para o cargo que tanto revolucionou.

 

Será que para as grandes cidades brasileiras teremos algum candidato disposto a Administrar Geral e considerar o que reza a Constituição no sentido de igualdade de todos perante a lei como Enrique Penãlosa assim a lê?

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos, e escreve às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

8 comentários sobre “Além da engenharia de tráfego

  1. As cidades projetadas a la Oscar Niemeyer, que hoje mal consegue assinar os projetos que projetam para ele, foram feitas para coisas, monumentos apreciáveis, admiráveis, aplaudíveis, coroáveis e não abitáveis ou transitáveis, infelizmente é assim nossas cidades, quanto maior menos temos acesso a vida e a paz, que tanto divulgam nas pradarias dos monumentos robotizados de mentes egoístas, que apenas pensam em deixar uma assinatura póstuma de concreto armado a beira da vista do mundo em via verde que de verde não tem nada, a não ser escuro e tenebroso, assim como o asfalto que o cobre.

  2. Hélio Silva Guerra, é realmente hora de funcionalidade. A forma é importante, mas a utilização também.
    A CBN está fazendo reportagens em São Paulo, capital, nos diversos bairros que compõem a Metrópole. Um dos aspectos mais reclamados é a ausência de calçada trafegável.
    Chega-se a alguns pontos pitorescos como aquele na Av. Morumbi na altura do portal de concreto nas proximidades da Capela, em que não há calçada. O pedestre precisa entrar no asfalto para continuar andando.

  3. Julio Tannus, antes de mais nada precisa optar entre a visão social e a visão eleitoral, pois por incrível que pareça o enfoque humano neste caso não dá votos.A não ser que haja uma mudança de percepção da população.
    O crucial é que pela teoria e prática de Enrique os mais beneficiados são minoria em termos de poder.

  4. Milton Jung, é hora de botar a turma na parede. Por etapas, pois haverá aqueles que desconhecem estas alternativas e este foco social.
    De outro lado a distinção entre público e privado é essencial. A começar pelos temas. Não dá para esquecer campanhas anteriores quando se discutiu Deus, aborto, etc.
    Ora, são assuntos privados e não tem nada a ver com Administração de uma cidade.
    Um outro ângulo importante é não transformar funções meio em fim. Por exemplo o trânsito. Não pode ser tratado como um fim, como normalmente é considerado, quando se permite adentrar com fluxo pesado em ruas despreparadas.
    Bem, temos muito que atentar.

  5. Carlos, o problema do trânsito em SP e nas grandes cidades é que todos saem no mesmo horário para trabalhar e todos voltam no mesmo horário. Tirando uma empresa ou outra todas abrem entre 7hs e 8hs e fecham entre 18hs e 19hs. Os bancos por exemplo funcionam das 10hs às 16hs. Por que uma metalurgica não pode funcionar por das 13hs às 22hs? Por que uma empresa não funciona das 6hs da manha até 15hs? E para quem adotasse esses horários alternativos o Governo poderia dar isenção de impostos. Do contrário não há transporte público que resolva o problema. O Trânsito emperra.

  6. Daniel, Ricardo Semler, autor de “Virando a mesa” e “Você está louco”, e quase candidato à prefeitura de São Paulo, aplica esta sugestão. Estabeleceu escritórios em vária regiões da cidade, além de criar horários alternativos para os funcionários de suas várias empresas.
    Esta sem dúvida é uma das boas medidas que certamente irão beneficiar a locomoção.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s