Quintanares: Outra canção

 

 

Poesia Mário Quintana
Interpretação de Milton Ferretti Jung

 

Não me deixem ir tão só,
Tão só, transido de frio…
Eu quero um renque de vozes
Por toda a margem do rio!
Como alguém que adormecendo
E umas vozes escutando,
Nem soubesse que as ouvia,
Ou se as estava sonhando,
Eu quero um renque de vozes
Por toda a margem do rio:
Vozes de amigo calor
Na lenta e escura descida
Como lanternas de cor
E aonde mais longe eu me for
(Quanto mais longe na vida!)
A borboleta perdida
Da tua voz, pobre amor…

 

Quintanares foi programa produzido, originalmente, na Rádio Guaíba de Porto Alegre. Esta gravação é do acervo de Milton Ferretti Jung

Quintanares: Canção do poeta difícil

 

 

Poesia de Mário Quintana
Interpretada por Milton Ferretti Jung

 

A minha pena é áspera; a folha, que nem zinco!

 

Onde a cantiga tão doce
Que o meu amor cantava?

 

As palavras ficam-me nas linhas como urubus
plantados na cerca.

 

Quando eu era um passarinho
Morava numa gaiola
Que eu pensava que era um ninho…

 

Mas até onde, até onde eu vou puxar esta carreta?!
Quando eu era pequenino
Não usava ponto-e-vírgula…

 

Onde o arroio tão puro
Que de tão puro sumiu?”

Quintanares: Canção dos romances perdidos

 

 

Poesia de Mário Quintana
Publicado em Canções (1946)
Narração de Milton Ferretti Jung

 

Oh! o silêncio das salas de espera
Onde esses pobres guarda-chuvas lentamente escorrem…

 

O silêncio das salas de espera
E aquela última estrela…

 

Aquela última estrela
Que bale, bale, bale,
Perdida na enchente da luz…

 

Aquela última estrela
E, na parede, esses quadrados lívidos,
De onde fugiram os retratos…

 

De onde fugiram todos os retratos…

 

E esta minha ternura,
Meu Deus,
Oh! toda esta minha ternura inútil, desaproveitada!…

 

Quintanares foi programa apresentado originalmente na Rádio Guaíba de Porto Alegre. O áudio é do arquivo pessoal de Milton Ferretti Jung.

Quintanares: Canção de Ballet

 

 

Poesia de Mário Quintana
Interpretação de Milton Ferretti Jung
Publicado em Canções

 

Ele sozinho passeia
Em seu palácio invisível.
Linda moça risca um riso

 

Por trás do muro de vidro.

 

Risca e foge, num adejo.
Ele pára, de alma tonta.
Um beijo brota na ponta
Do galho do seu desejo.

 

E pouco a pouco se achegam.
Põem a palma contra a palma.
Mas o frio, o frio do vidro

 

Lhe penetra a própria alma!

 

“Ai do meu Reino Encantado,
Se tudo aqui é impossível…
Pra que palácio invisível
Se o mundo está do outro lado?”

 

E inda busca, de alma louca,
Aquele lábio vermelho.
Ai, o frio da própria boca!

 

O amor é um beijo no espelho?

 

Beija e cai, como um engonço,
Todo desarticulado?
Linda moça, como um sonho,
Se dissipa do outro lado?