A morte do amigo Carlos

Éramos tricolores, um de São Paulo e o outro do Rio Grande do Sul. Isso não nos separava. Era ponte para conversas. Nem só de futebol falávamos em almoços anuais, telefonemas esporádicos e trocas de mensagens frequentes. Carlos era muito bem informado de tudo que acontecia e escreviam. Daí que a fronteira do futebol era facilmente ultrapassada para a política, a economia, a história, o comportamento, a moda, o meio ambiente … uma quantidade desafiadora de assuntos que ele provocava e eu me esforçava para acompanhar.

“Você leu … ?” era a pergunta que o Carlos costumava fazer quando queria comentar de algum artigo publicado na imprensa —- ele jamais abandonaria o hábito de ler jornais e tinha, claramente, preferência pela Folha, assim como era assíduo ouvinte do Jornal da CBN. Demorei para escapar da armadilha da minha ignorância. Aprendi que o melhor a fazer era responder com outra pergunta: “o que ele disse?”.  Dali pra frente vinha o resumo e a análise crítica independente — e esse era outro privilégio de conversar com o Carlos, porque seu pensamento não estava envencilhado a dogmas e mitos. Sabia discernir  certo e errado por conta própria.

Pelo tempo do verbo em que escrevo este artigo ou se você, caro e raro leitor deste blog, já tiver lido o post anterior haverá de saber que o Carlos não está mais com a gente. Morreu no primeiro do ano. Era “o amigo que agoniza, ainda não sei” — lembrado na crônica que abriu este blog em 2021. Se havia tristeza naquele texto, muito dela era pela dor que sentia no coração desde que soube que ele foi internado na noite de Natal após ter sofrido um AVC, em estado grave.

Leia “Carlos Magno, um homem à frente do seu tempo”, escrito por André Gibrail

Triste mas cultivando esperança nas reservas intelectuais e físicas que o Carlos acumulou em seus 78 anos de vida, pedia a Deus todas as manhãs que o trouxesse de volta. Repeti a súplica na manhã de primeiro de Janeiro —- seria minha última tentativa. Carlos morreu à tarde. Soube depois que a pandemia havia consumido boa parte de sua energia, que vinha tentando recuperar nos treinos de tênis supervisionados pela filha Elaine. 

Que vergonha! Durante todo este tempo, o Carlos ouviu minhas queixas, meus relatos de ansiedade, depressão e tristeza, e eu não lhe dei espaço para contar de seus desafios. Ou não soube entender sua mensagem ou ele próprio tomou cuidado de me proteger de más notícias ao perceber meu desalento. Ele nunca baixava a guarda, sempre me reconfortava e depositava confiança na retomada das atividades, acreditava que poderíamos sair melhores desta crise e lembrava de como as ideias que cultivou no passado se realizavam neste momento —- há muito, defendia, por exemplo, que o varejo migrasse para o eletrônico e reinventasse o conceito de loja física. Estava entusiasmado com o filho mais novo, Rodolfo, que fazia vestibular online e acabara de passar no curso de Direito. Eu não fui capaz de ver que nesse esforço para manter a minha, a nossa energia, o Carlos estava se desabastecendo. Seu tempo estava se encerrando.

“Todos sabem que o tempo é um dos mais preciosos bens à nossa disposição. E, por isso, é algo escasso, que deve ser bem administrado”

Com essa frase iniciou seu primeiro texto publicado neste blog, em 11 de junho de 2008 — era o mais longevo dos colaboradores. Transformou a prática da escrita em missão semanal e a usou para provocar temas, defender ideias inovadoras, criticar propostas retrógradas e relembrar histórias. Nos últimos tempos, sua atenção, nos textos e no trabalho, estava dedicada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, participava do pacto Global no Grupo de Excelência do CRA-SP e incentivava o debate no mercado de moda para reduzir o impacto ambiental das confecções.

Sua preocupação com o meio ambiente vem de épocas distantes — cultivada em Paraty, no Rio de Janeiro, onde nasceu, e estendida a São Paulo, cidade em que viveu, desde 1947, e nos aproximou. Atuava em defesa da preservação do espaço verde nos bairros, denunciou derrubada de árvores na região do Morumbi, em que morou, e fazia de sua indignação textos capazes de mobilizar centenas de pessoas.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo de Carlos Magno Gibrail 

Um dia antes de iniciar o seu martírio, conversou com o Alexandre, um de seus quatro filhos, sobre Grêmio e São Paulo que jogariam à noite, pela Copa do Brasil. Ouviu considerações, fez observações e chegou a conclusão que Renato tinha capacidade de montar um time que anularia o seu tricolor e isso seria fatídico: “… pelo menos o Mílton estará contente”, concluiu. 

Se a generosidade que o Carlos me ofereceu, eu nunca mereci, a confiança que depositou em mim, mudou meu comportamento; sua inteligência em pensar, me desafiou; sua opinião, me pautou e sua elegância em vestir e se comportar, foi referência.

Carlos, obrigado por tudo que me ensinou; desculpe-me, por tudo que não aprendi!

Leia os artigos de Carlos Magno Gibrail que escreveu em 11 anos dedicados ao Blog

Carlos Magno, um homem à frente do seu tempo

Por André Gibrail

As pessoas que estão à frente do seu tempo, em geral, ficam famosas pelos seus feitos, resultados ou simplesmente, por acertarem muito antecipadamente algum movimento da evolução humana. Outras com essa mesma capacidade, porém, podem não se tornar famosas, mas a sua valia permanece nos mais altos níveis de contribuição e admiração. E aqui relato uma dessas pessoas:

Ele, bacharel em dose tripla (administração, ciências contábeis & atuariais e economia) e um mestrado, tinha uma capacidade intelectual e de análise crítica tão acima da média, que por vezes, levantava dúvidas e desconfiança do resto dos mortais. Lia compulsivamente artigos, revistas, blogs, periódicos e livros de assuntos absolutamente diversos — de economia e política à consumo, moda e gastronomia. Tendências de tecnologia e suas implicações sócio-culturais eram uma de suas favoritas.

Com sua visão diferenciada, ainda na década de 70 e no começo de 80, prevendo a instauração de mercados comuns, fez um plano de negócios para montar uma empresa no Paraguai, tendo a certeza do advento do Mercosul, que viria longínquos 20 anos depois. 

Nessa época ainda à frente de três confecções de moda infanto-juvenil (Pataca, Caramelo e Nautik), lançou muitas inovações como jaqueta que virava mochila, camiseta com logomarca com líquido colorido que movia-se como ondas no mar, jaqueta infantil com leds coloridos que piscavam — isso tudo há 40 anos! Apostou em uma modelo infantil que iniciava sua carreira na Caramelo e que depois seria conhecida nacionalmente, Angélica.

Ainda na década de 80, prevendo a tendência dos consumidores de migrarem sua preferência de lojas de rua para os shopping centers, liderou a criação de toda a rede de varejo da Cori, a principal marca de roupa feminina AA da época. E foi um sucesso absoluto! 


Na década de 90, com o varejo da Cori a todo vapor, repetia incansavelmente que “ter caixa em loja era miopia”. Dizia que a consumidora deveria ser atendida pela mesma pessoa do começo ao fim, pois ser direcionada ao caixa para pagar a conta (com outro funcionário que não teve nenhum contato com ela na compra), quebraria todo o relacionamento. Ele já falava de experiência e jornada do cliente nessa época! Dez anos depois, Steve Jobs inaugurou a primeira loja da Apple, aplicando os conceitos que tanto ouvi em casa: nenhuma loja da Apple tem caixa. O vendedor é responsável por toda a sua jornada na loja.

Novamente sua visão crítica acertou mais uma vez ao conhecer e dar apoio a uma apresentadora de TV que iniciava um programa ainda pouco assistido na TV Record, Ana Maria Braga.

Com o advento da Internet, foi o primeiro a prever por aqui o boom de consumo de moda no comércio eletrônico. Na época, ouvia de praticamente todas as pessoas de que o consumidor jamais compraria roupa ou acessórios via Internet. Mas ele, com toda sua persistência, criou o primeiro site de moda do Brasil (quiçá de toda a América Latina) o Modasite. Falava que, além das pessoas, sim, consumirem roupa na internet, iriam preferir um site completo, multimarca. Faria todo sentido prover um marketplace ao consumidor. Infelizmente, não estávamos preparados na época. Somente 20 anos depois o mundo provou que ele estava certo. 

E as histórias de sua genialidade continuaram, afinal, depois de mais de 30 anos de Cori, mesmo beirando seus 70 anos, tornou-se um dos consultores mais especializados em varejo e relacionamento com shopping centers ajudando tanto empresas quanto shoppings a se reinventarem; participou de três startups  — a última ano passado com seus 77 anos —, e agora em Dezembro dizia que estava animado com algumas perspectivas para o começo de 2021 … novos horizontes iriam se abrir. 

Além de tudo isso, arrumava tempo para uma das atividades que mais lhe dava prazer e orgulho: escrever um artigo semanal para o blog do Mílton Jung. E eram artigos sensacionais!!!

Sendo uma pessoa tão animada, tão cheia de energia de vida e com uma cabeça tão privilegiada como a dele, para pará-lo só parando o seu cérebro. Carlos Magno Correa Gibrail, teve um AVC e morreu em 1º de Janeiro de 2021. Pai de quatro filhos e avô de seis netos, são paulino convicto, tenista e apaixonado também por futebol, leitura e atividades sociais, paratiense de nascença com muito orgulho, nos deixa um legado inacreditável. 

Obrigado Carlos Magno!

Eu te amo. 
Seu admirador e filho,

André

Refugiados podem salvar a Europa de suicídio demográfico

 

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A onda de refugiados pode se transformar em oportunidade para a economia da Europa, segundo o vice-presidente do Banco Europeu, Vítor Constância. A afirmação do dirigente português foi um dos destaque na conversa de hoje com o jornalista Lourival Sant’Anna, recém-chegado a equipe do Jornal da CBN e titular do CBN Internacional, que faz parte do Time das Nove. De acordo com o nosso comentarista o argumento de Constância é que o continente europeu está vivendo um suicídio demográfico com a baixa natalidade e o envelhecimento da população. Diante desse cenário, os imigrantes podem se transformar em capital humano valioso, pois são pessoas formadas, geralmente jovens e com desejo de trabalhar.

 

 

Assim que Lourival trouxe o tema para nosso bate-papo pela manhã, lembrei de texto publicado aqui no Blog, semana passada, assinado pelo colaborador Carlos Magno Gibrail sob o título “Imigração pode gerar riqueza” quando apresentou análises que são feitas desde o início da década passada e ratificadas por diferentes economistas. Os números porém, ainda, não foram suficientes para sensibilizar dirigentes e nações, movidas, segundo Gibrail, “de um lado pela preservação de culturas locais e até mesmo pela xenofobia e, de outro, pelo aumento expressivo de refugiados”

 

Aproveito para reproduzir o texto publicado, originalmente, quarta-feira, dia 9 de setembro:

 

Em 2005, Dilip Rhata, economista do BIRD,concluiu estudo em que um aumento de 3% na força de trabalho pela imigração acarretará um acréscimo de 0,6% no PIB. O produto realizado será de US$ 356 bilhões, dos quais US$ 162 bilhões para os imigrantes, US$ 143 bilhões para os países em desenvolvimento e US$ 51 bilhões para os países ricos.

 

Paul Krugman já havia feito um trabalho em que concluiu que, inicialmente, os imigrantes pressionam os salários para baixo, mas em longo prazo há um movimento contrário, pelo retorno dos investimentos.

 

Em 2013,dezenas de renomados economistas da Universidade de Chicago foram perguntados se o americano médio estaria melhor se estrangeiros com baixa qualificação entrassem no mercado de trabalho: 50% Sim, 28% dúvida e 9% não. Entretanto, se fossem trabalhadores qualificados: 89% sim e 5% incertos.

 

Embora a teoria econômica ainda não tenha uma convergência a esse respeito, há até estudos que estimam um crescimento do PIB mundial de 20% se não houvesse barreiras à imigração. O fato é que a maioria dos economistas considera a imigração compatível com a geração de riqueza. E, essa anuência econômica, não tem sido o bastante para que as barreiras à imigração tivessem diminuindo. De um lado pela preservação de culturas locais e atém mesmo pela xenofobia e, de outro, pelo aumento expressivo de refugiados.

 

Entretanto, a foto do menino na praia, viralizada mundialmente, acelerou um processo que os economistas não tinham conseguido.

 

A emoção suplantou as ressalvas e as nações começaram a se reposicionar. A Alemanha saiu na frente, e vimos na FOLHA de ontem:
“Com sua força econômica, a Alemanha pode receber meio milhão de refugiados por ano a médio prazo, afirmou o vice-chanceler e ministro da Economia, Sigmar Gabriel.”

 

Angela Merkel anunciou que vai destinar 6 bilhões de euros para administrar o grande fluxo de migrantes e afirmou que o fluxo em massa de imigrantes mudará o país, prometendo trabalhar para que estas modificações sejam “positivas”.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.