Avalanche Tricolor: o Grêmio fez por merecer neste Carnaval

 

Grêmio 1×0 Coritiba
Copa Sul-Minas-RJ – Arena Grêmio

 

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Geromel salva de cabeça foto LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA no Flickr

 

Carnaval no Brasil já foi coisa séria. Antigamente, o país parava de sexta à quarta-feira de cinzas; o consumidor ainda não estava acostumado com a cultura dos shoppings, que nos ensinaram a fazer compras de domingo a domingo; e ai de quem se atrevesse a questionar se era ou não feriado oficial na terça-feira gorda. Claro que sim!

 

Nas festas de Momo ninguém se metia a jogar futebol, porque na avenida o Rei era outro. Mesmo no Rio Grande do Sul, onde Momo não tem lá essa fama e passei boa parte dos meus Carnavais, a bola deixava de rolar pela total ausência de torcedor. A turma toda se mandava para praia. Exceção para confirmar a regra: o Rio abria as portas do velho Maracanã e botava seus times mais tradicionais em campo de olho nos turistas que visitavam a cidade.

 

Hoje, por mais que a maioria ainda acredite que nada se faz nos quatro dias de Carnaval, as lojas funcionam aos domingos; o comércio de ruas populares abre às segundas-feiras, a espera do pessoal do interior; supermercados, mesmo desabastecidos, estão com os caixas à disposição; e jogador de futebol não tem mais folga no entrudo: o calendário gordo dos clubes os obriga a jogar em pleno domingo carnavalesco.

 

Foi assim que ontem, em meio a desfiles de blocos e escolas, no Brasil, e com uma cidade esvaziada pela migração temporária, em Porto Alegre, o Grêmio apareceu no gramado da Arena com time titular e tudo para disputar partida pela Copa Sul-Minas-RJ e foi recebido por cerca de 11 mil pessoas.

 

Ao menos quem estava lá teve o direito de ver o lance do único gol da partida. Para quem, como eu, assistiu ao jogo, pela TV, restou o replay, pois o diretor, responsável por escolher as imagens que seriam levadas ao ar, dormiu no ponto, assim como o zagueiro adversário ao tentar devolver a bola para o goleiro.

 

Ao vivo, a TV perdeu o lance do gol a 24 minutos do primeiro tempo. O que foi uma pena, pois até então nada de mais havia sido produzido pelo nosso ataque. Depois, a jogada foi repetida à exaustão destacando a pixotada do zagueiro. Foi descuidado, sem dúvida. Afoito, ao tomar a decisão do passe.

 

Quero, porém, ver a jogada por outro ângulo.

 

Dos muitos méritos de Roger no Grêmio está o sistema defensivo que montou. Longe de ser retranqueiro, amontoando zagueiros e volantes, o técnico sabe que apenas roubando a bola pode-se pensar em atacar. Impõe a participação de toda a equipe na marcação, que começa na saída de bola. Quem não está prestes a tomá-la, ou não tem habilidade para tal, encurta o espaço em campo e obriga o adversário a forçar o passe.

 

Na cobrança do tiro de meta, em vez de voltar para o meio de campo a espera do adversário, o Grêmio estava com seus jogadores mais avançados perto da linha da grande área. No momento em que o goleiro, em vez de repor a bola com um chutão para o alto, decidiu sair jogando com o zagueiro mais próximo, caiu na arapuca montada por Roger. Com Luan de um lado e Douglas de outro, o defensor se atrapalhou. Aproveitando-se do vacilo, Douglas ficou sozinho diante do goleiro e fez uso de sua categoria para, com o pé esquerdo, desviar a bola para o gol.

 

O Grêmio fez por merecer o gol!

 

Escrevi alguns parágrafos acima sobre os muitos méritos de Roger. Destaco outro: eliminar o chutão como alternativa de ataque. Sempre que retomam a bola, os jogadores se aproximam e formam triângulos e losangos em campo, segundo descrição do próprio técnico. Isso facilita o passe, faz a bola correr, deixa o marcador desorientado e permite que se chegue ao ataque com rapidez.

 

Ontem, como uma bateria que atravessa o samba na avenida, o Grêmio não conseguia manter a harmonia regida por seu técnico, por mais que ele tentasse, aos berros, acertar o ritmo. Preferiu a ligação direta ao passe preciso e desconcertante. Isso fez o time render bem abaixo do que está acostumado e o torcedor sofrer muito mais do que era necessário.

 

E se sofremos para vencer, fizemos por merecer!

 

Aliás, mais um pitaco deste escrevinhador na transmissão das partidas de futebol: com tantos microfones captando o som ambiente, sugiro que falem menos nas transmissões na TV e nos deixem ouvir as instruções enviadas pelos técnicos aos seus comandados. Teria sido excelente, se tivéssemos tido oportunidade de saber o que Roger tanto gritava com Everton, Wellington Oliveira e companhia. Principalmente porque ouvir Roger instruindo nos ajuda a entender melhor o futebol.

 

Como estou no clima de Carnaval, para encerrar esta Avalanche destaco mais um mérito gremista: Geromel. Ontem, novamente, foi precioso. Não bastasse exercer com eficiência o papel de zagueiro, senhor da área, ainda defendeu no gol e driblou no ataque quando necessário. Foi aplaudido e aclamado como melhor jogador em campo.

 

Geromel, fez por merecer!

Conte Sua História de SP: andava de bicicleta com licença da prefeitura, em Pinheiros

 

Por Silvia Maria Aleixo Araujo

 

 

Bairro de Pinheiros … aquele que a atualidade desconhece.

 

Pinheirense da gema.

 

Nasci no prédio que ainda está lá, no térreo funciona o famoso bar das Batidas, bem atrás da Igreja Nossa Senhora do Montserrat, no largo de Pinheiros. Ali no largo, o bonde que descia a rua Theodoro Sampaio fazia a volta e retornava para a rua Xavier de Toledo, no centro.

 

O grupo escolar era na rua Sumidouro. Arquitetura dos anos 40/50, naquela época sem muros, só jardins, construção que lá permanece livre das obras do metrô e da tal revitalização do bairro que o descaracterizou em nome do progresso.

 

Era um bairro tranquilo, eu andava de bicicleta – ela chegou a ter uma placa de licença da prefeitura – no largo de Pinheiros e na rua Cardeal Arcoverde, onde moravam meus avós, entre a rua Theodoro Sampaio e a avenida Eusébio Matoso, onde hoje é o Shopping Eldorado e naquela época, um campinho de futebol.

 

Trânsito escasso e o respeito entre as pessoas era evidente.

 

No Carnaval, a família, primos e amigos sentavam em cadeiras nas calçadas da rua Theodoro Sampaio para assistir à passagem dos blocos carnavalescos, enquanto brincávamos com lança-perfume e seringas plásticas com ‘sangue de diabo’, um corante vendido em farmácia.

 

Brincadeiras inocentes e crianças felizes.

 


O Conte Sua História de São Paulo tem narração de Mílton Jung e sonorização do Cláudio Antonio. Você pode participar enviando seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: no cortiço, os melhores dias da minha infância

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto de Mariza Christina, de 60 anos, moradora da Água Funda, que preferiu escrever uma carta à mão em lugar de nos enviar um e-mail, pois assim se sente mais próxima das pessoas:

 

 

Em 1961, eu estava com 7 anos e minha irmã, 5. Meus pais passavam por dificuldades financeiras, não podiam pagar mais o aluguel da casa onde morávamos, no bairro da Ponte Rasa, onde nasci, por isso decidiram que iríamos morar com a minha avó materna até a situação melhorar. Ela morava na Rua da Glória, entre a Rua Conselheiro Furtado e a Rua Lava-pés, bem no centro de São Paulo. Era um terreno longo e estreito com vários quartos. Imagine seis pessoas num quarto 6×3, mais ou menos, era um aperto danado, bem diferente da casa grande e confortável que vivíamos, mas para mim e minha irmã era novidade e nos divertíamos muito.

 

Naquela época era comum quartos como aquele por serem baratos e fáceis de alugar, eram popularmente chamados de ‘cortiços’. E foi nesse quarto tão simples e apertado que passei os melhores dias da minha infância. Moramos lá um ano, mas o suficiente para deixar muitas lembranças.

 

Fiquei encanada quando vi pela primeira vez o bonde, aquele carro grande que andava sobre trilhos carregando pessoas, e fiquei intrigada como elas não se molhavam quando chovia, pois não tinham portas! Será que elas abriram o guarda-chuvas?! Corri para contar à minha avó, tão curiosa e ofegante que mal podia falar. Assim que pude, a enchi de perguntas. Quanto ela me disse que os bondes iriam acabar, pois estavam sendo substituídos por ônibus, fiquei muito triste: eles eram tão bonitos! Às vezes, ficava horas no portão só para vê-lo passar, queria gravar aquela imagem na memória.

 

Todos os dias, as duas horas da tarde, saía uma fornada de pão da padaria que havia em frente a nossa casa, o cheiro era inebriante e tão delicioso que até hoje quando me lembro posso sentir aquele cheirinho maravilhoso. É inesquecível!

 

O Carnaval estava próximo. A ansiedade era grande, eu nunca tinha assistido a um desfile. Ao lado da nossa casa tinha uma lojinha que vendia de tudo; fantasias, plumas, máscaras, adereços, etc … O movimento na loja era enorme, pessoas que entravam e saíam alegres com fantasias que iriam vestir. Meus olhos brilhavam com tantas coisas bonitas e coloridas. Meus pais também iam desfilar e deixaram que eu ajudasse a escolher suas fantasias. Compraram ainda confetes, serpentinas e bisnagas de água, para mim e minha irmã.

 

Ainda não existiam blocos ou escolas de samba, eram cordões. As fantasias simples, sem luxo, porém, muito bonitas e criativas. Os cordões se concentravam na Rua Lava-pés e de lá saíam cantando marchinhas que até hoje são lembradas, subiam a rua da Glória e outras ruas do bairro. Quem não desfilava acompanhava jogando confetes e serpentinas. No ar, exalava um perfume delicioso de lança-perfume. Ao fim do desfile ia-se atrás do cordão preferido.

 

Apesar das dificuldades foram os dias mais felizes das nossas vidas e, com certeza, deixou muitas saudades em todos nós.

 

Mariza Christina é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br. Ou mande um carta como fez dona Mariza.

Aproveite que o ano começa agora e encontre seus objetivos!

 

Por Ricardo Ojeda Marins

 

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É incrível! A frase pronta “O Brasil só começa depois do Carnaval” é cada vez mais levada a sério em nosso país. Ainda que este ano o Carnaval aconteceu no meio de fevereiro, o que nos leva a começar o ano antes de março. O feriado do Carnaval, assim como os de fim de ano, são os mais desejados pelos brasileiros, tanto que as diárias de hotéis e bilhetes aéreos têm seus preços multiplicados, tornando-se até abusivos. Ir para o Rio de Janeiro, por exemplo, fica mais caro do que passar alguns dias (em alto estilo) em Paris. Lei de oferta e procura? Sim! Também não podemos negar que o Brasil é um país que encanta e não apenas aos brasileiros. Vêm estrangeiros de diversas partes do Mundo.E isso tem seu preço!

 

Fora essa questão, há um aspecto moral bem interessante: após o Carnaval, as pessoas começam a (tentar) por em prática suas promessas, aquelas feitas durante o Ano Novo: fazer dieta, encontrar o amor da vida, trocar de emprego…enfim, inúmeros desejos que somente poderão ser almejados com muito esforço da própria pessoa. Profissionalmente, como coach, ou apenas pela curiosidade que tenho no ser humano, faço muitas análises e observações. E aproveito o texto de hoje para comentar algo que tem me feito pensar nestes últimos dias.

 

Estamos cada vez mais apegados a modismos e, por exemplo, adoramos as soluções propostas por sucos detox (que eu tomo, frequentemente). Não percebemos ainda que o necessário é um “detox” interno. Autorreflexão, autoconhecimento, análise do valores de vida e o questionamento desses valores, a busca por se tornar uma pessoa melhor … e, principalmente, se convencer de que não bastam reclamar e prometer mudanças. É necessário ser coerente consigo mesmo. Tantas pessoas se dizem tão abertas para o que buscam, mas não basta buscar. É essencial identificar suas qualidades e, também, seus pontos de melhoria. É necessário agir como seus pensamentos, ir ao encontro de seus objetivos e, se não souber quais são eles, procurar a ajuda de um profissional. Dependendo do nível da questão, pode ser um terapeuta, um coach, um profissional de consultoria ou mentoring. Pessoas que vão ajudá-lo nessa caminhada, agora que o ano começou no Brasil!

 

O luxo no mundo contemporâneo é cuidar do SER, com muito mais valor que o TER.

 

Agora sim: Feliz 2015!

 

Ricardo Ojeda Marins é Professional & Self Coach, Administrador de Empresas pela FMU-SP e possui MBA em Marketing pela PUC-SP. Possui MBA em Gestão do Luxo na FAAP, é autor do Blog Infinite Luxury e escreve às sextas-feiras no Blog do Mílton Jung.

Falta de educação: o tênis no Ibirapuera e o Carnaval na Vila Madalena

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Sábado no ginásio do Ibirapuera, o tenista italiano Luca Vanni, que disputou uma emocionante semifinal com o brasileiro João Souza (Feijão), foi visivelmente prejudicado em determinados momentos pela má educação de alguns torcedores. Menos mal que venceu a partida.

 

Domingo e segunda, os brasileiros moradores da Vila Madalena foram enormemente perturbados por conterrâneos.

 

Em comum, a falta de educação!

 

No jogo de tênis, menos pela exigência de alto custo para a sua prática e mais pelo necessário silêncio para sua boa execução, a pretensão de massificação fica necessariamente descartada. Embora em grandes partidas sempre há a possibilidade da importação de público não habilitado ao esporte.

 

No bairro da Vila Madalena, tradicional pela vocação artística e pela mistura de residências, lojas, restaurantes e bares, tão defendida por alguns urbanistas que buscam a redução da mobilidade, o tumulto prova, ao menos, que tal modelo urbano não exporta mas importa mobilidade.

 

Para o tênis a sugestão é melhorar o sistema de controle do espectador com câmeras e pessoal treinado.

 

Para a Vila Madalena, as câmeras e a polícia deveriam resolver o problema. O que devemos temer é que a Prefeitura faça o que sempre tem feito. Quando a degradação começa, ao invés de coibir, regulariza.

 

Assim tem sido quando se trata de zoneamento. A nova lei pretendida não só vai regularizar o que foi degradado como criará potenciais zonas em locais que hoje são ilhas de conforto e qualidade de vida. Se duvida, visite a Avenida Morumbi em trechos ainda totalmente residenciais e, principalmente, a Alameda das Begônias. Ambas com proposta de corredor comercial.

 

Talvez tenha sido uma boa esta arruaça carnavalesca da Vila, se servir de alerta à Proposta de Zoneamento que será votada em breve.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

 

O vídeo que ilustra este post foi gravado pelo SOSego Vila Madalena. O grupo que incita à violência é o bloco Anti-Acadêmicos do Baixo Pinheiros.

Conte Sua História de SP: embalei meu filho no samba da Vai Vai

 

Maria da Conceição Pereira nasceu em Sabinópolis, Minas Gerais, em 1951. Neta de portugueses, cresceu em ranchos feitos pelo pai, que trabalhava na agricultura como meeiro. Aos oito anos foi morar na casa do padrinho para poder estudar. Com 13, mudou-se para São Paulo onde começou a trabalhar com arte. Vivia em Santo Amaro, mas gostava mesmo de passear nos Jardins, sempre acompanhada da irmã e amigas. Foi lá, ainda com 18 anos, que conheceu o marido: homem bonito, de bigode e sempre com um carrão. Não era dele, era do dono do banco para o qual trabalhava. Motorista exemplar, era respeitado por todos os colegas, podia até levar o carro para casa. A mãe e a irmã providenciaram o enxoval, todo comprado na loja do Mappin. E Maria da Conceição Pereira casou-se, em uma igreja no Piraporinha, zona sul da cidade. Orgulhosa, diz que todo povo do banco compareceu. Foi morar no Bixiga, bem onde a escola de samba Vai Vai ensaiava para o Carnaval. No depoimento, gravado pelo Museu da Pessoa, Dona Conceição lembra de como o samba da Vai Vai a acompanhou durante toda a gravidez:

 

 

Maria da Conceição Pereira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. O depoimento dela foi gravado no Museu da Pessoa. Você pode contar mais um capítulo da nossa cidade, e registrar suas memórias, agendando entrevista, em áudio e vídeo, pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Se quiser, mande seu texto para mim: milton@cbn.com.br e leia outras história de São Paulo aqui no Blog.

O Carnaval dos aposentados

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Parte dos 30 milhões do total de aposentados do INSS deverá pensar em carnaval somente a partir de amanhã. Simplesmente porque recebem acima do salário mínimo nos primeiros dias do mês, e o INSS somente os pagará amanhã, sexto dia do mês. O contingente de aposentados que recebem no dia primeiro, por exemplo, está acostumado a ter seu crédito no sábado quando é o primeiro dia do mês, mas desta vez irá receber somente na quinta-feira, dia seis.

 

É verdade que esta é uma pequena indeferência, diante das acentuadas diferenças dentro do sistema de aposentadoria brasileiro. A começar pelo déficit de quase 60 bilhões para um milhão de aposentados do funcionalismo, enquanto o déficit para cobrir os 30 milhões de aposentados e pensionistas do INSS não chega a 50 bilhões. E essas discrepâncias não ficam nisso conforme elencou Ruy Altefender, presidente da APLJ Academia Paulista de Letras Jurídicas, em artigo na FOLHA de quinta-feira. Por exemplo, a média de ganho mensal entre os setores privado e público:

É bem verdade que estes “gaps” têm uma tendência a diminuir em função da EC14 de 2003, que acabou com a paridade entre servidores ativos e inativos, e da limitação de benefícios a partir de 2012, quando se estabeleceu que o optante pagasse mais pelo que quiser a mais. Entretanto, ainda há distorção na atualização monetária, pois o RGPS Regime Geral da Previdência Social aplicado à CLT tem apresentado índices de reajuste abaixo da inflação. Distorção esta que piora em muito aos que recebem acima do salário mínimo, pois além de abaixo da inflação, o reajuste a que fazem jus é inferior aos demais.

 

Aposentado, idoso e com valor acima do mínimo tem mesmo é que questionar e protestar. Na realidade a longevidade está cobrando um preço alto, pois as vagas especiais nos estacionamentos, as meias entradas, e as filas exclusivas nem de longe compensam planos de saúde sobretaxados e a atenção da família que muitas vezes vai diminuindo.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Conte Sua História de SP: o carnaval da Vila Esperança

 

Por Ana Maria dos Santos

 

Ana Maria dos Santos nasceu em 1956 em São Paulo. Quando criança, não conheceu seu pais. E uma série de coincidências curiosas a levaram a acreditar que finalmente havia revelado esse segredo. Ela contou sua história ao Museu da Pessoa, em janeiro de 2010.

 

 

Quando nasci, isso a mais de cinquenta anos, minha mãe estava sem condições e encontrou uma mulher muito bondosa para me criar. Essa senhora morava então na Rua Maria Carlota, na Vila Esperança. Essa rua ainda não havia sido asfaltada e, na época que asfaltaram, virou a alegria da molecada e a tristeza das mães, com surras e tudo, pois o danado do piche grudava em nós e em nossas roupas, dava o maior trabalho para tirar. Isso quando saía.

A filha da minha mãe de criação me batizou, era a minha madrinha muito querida, e de vez em quando eu falava que queria ter um pai. Às vezes, elas me arrumavam um (acho que era um parente distante do interior) e lembro que recebemos a visita da comadre que elas tanto falavam. Foi quando ela me contou que era a minha mãe verdadeira e que eu tinha de recebê-la (pensava que o nome dela era Rosa Maria?!).

A partir daí comecei a me esconder quando ela vinha me visitar. Eu simplesmente sumia. Até dentro de um cesto de vime enorme eu me escondia, tanto era o pavor que ela me levasse embora. Porém, aos meus sete anos ela teve que me levar para estudar num internato em Pinheiros. Aos onze anos, fugi com mais duas meninas, por causa dos maus tratos desse colégio de freiras, correndo a pé pela rua Cardeal Arcoverde, de Pinheiros até o Pacaembu. Foi tragicômico, pois a família que deu garantias que nos abrigaria, e era também o único lugar mais perto que eu sabia como ir, era do diretor da instituição.

Tudo isso para tentar voltar para minha Vila Esperança. Era fevereiro e eu queria também matar a saudade do meu querido e velho carnaval da infância, que subia pela Rua Evans e descia pela Rua Maria Carlota: as matinês, a batalha de confetes, eu tinha de ir.

Como naquela época eu não tinha muita proximidade física, afetiva, com minha mãe verdadeira e estava muita revoltada por causa da ida pro colégio interno, apesar dos esforços dela para fazer algo por mim, quase não conversávamos. Sabia muito pouco sobre ela, somente que trabalhava demais como empregada doméstica. Um dia, mexendo em seus documentos, li que seu nome era Maria Rosa!? Aí eu, muito infantil, quando escutei a música, marchinha de carnaval do Adoniran Barbosa, “Vila Esperança” – “Foi lá que conheci Maria Rosa, meu primeiro amor/Primeira Rosa, primeira esperança, primeiro carnaval, primeiro amor, criança”.

Criança!? Pensei: sou eu!! Pensei comigo: “Desvendei a segredo da minha mãe!” Que ilusão de mente fértil! Só dando risada mesmo. Mas a Esperança, o carnaval, ainda moram bem profundamente nesta velha criança. Por outro lado, até hoje não consigo cantar essa música inteira até o fim sem conter o choro. Nos últimos anos de vida da minha mãe, conseguimos restaurar muita coisa, principalmente a compreensão.

 

Ana Maria dos Santos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. O depoimento foi gravado pelo Museu da Pessoa. Você pode marcar uma entrevista em áudio e vídeo pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou enviar seu texto por escrito para milton@cbn.com.br

Faltou o grito da torcida

Texto publicado originalmente no Blog Adote São Paulo, da revista Época São Paulo

 

 

A apuração dos votos do Carnaval de São Paulo foi um total anti-clímax. As arquibancadas do Sambódromo estavam vazias devido a proibição de presença de torcidas, resultado da baderna realizada no ano passado. Somente alguns representantes, devidamente credenciados, puderam assistir à leitura dos votos pela diretoria da Liga de Escola de Samba de São Paulo. Na transmissão de rádio e TV, era constrangedor o silêncio que se fazia após uma nota 10 para bateria, samba-enredo, alegoria ou seja lá qual fosse o quesito analisado. Seria melhor, como disse meu colega de Hora de Expediente, Luis Gustavo Medina, mandar as notas pela internet – mais limpo, incolor, insípido e inodoro. Muita gente deve ter aplaudido a decisão em nome da ordem e dos bons costumes. Eu lamentei. Jamais entendi que eliminar pessoas seja o melhor caminho para se resolver os problemas da cidade. É como proibir que as pessoas sigam para os pontos de ônibus, que produzam lixo ou queiram estudar para acabar com a enorme pressão sobre estes serviços públicos. Educar, controlar e punir os envolvidos é melhor caminho do que, simplesmente, proibir todos os demais de se divertir. Organiza-se jogos de futebol com uma só torcida, como em Belo Horizonte, para impedir a violência; proíbi-se celular em agências para combater a saidinha de banco, como aqui na Capital; se quer tirar o carona das motos devido aos assaltos à mão armada. Soluções simplórias para assuntos complexos.

 

São Paulo merece saídas mais inteligentes, sob risco de se transformar em uma cidade sem graça, sem cor, sem alma, sem o barulho das pessoas.

Avalanche Tricolor: Barcos, o Carnaval e um sonho

 

Juventude 2 x 1 Grêmio
Gaúcho – Alfredo Jaconi/Caxias (RS)

 

 

Carnaval não é a minha praia. Curti muito até tempos atrás, pulava de baile em baile, em uma época na qual os clubes abriam suas portas para diversão. Hoje, parece que a maioria prefere não se arriscar com a baixa adesão dos sócios. Fui ousado nos festejos de Momo, me fantasiei, desfilei duas vezes no Sambódromo do Rio, sambei desajeitado, se é que aqueles passinhos ridículos tinham alguma coisa a ver com samba. Agora, estou fora de jogo, nem mesmo os desfiles na televisão me fazem ficar acordado até tarde. Prefiro descansar, ficar com os meninos, passear um pouco, quem sabe pedalar se não chover. Nesse feriado, tirei tempo para acelerar a leitura. Estou com a biografia de Mick Jagger em mãos, ou seja, enquanto o bum-bum-pa-ti-cum-dun-pru-cu-rum-dum soa lá fora, vou de rock and roll aqui dentro. Nem mesmo o futebol costuma me animar nestes dias. Aliás, quando me divertia no Carnaval, os campeonatos entravam em recesso. Atualmente, com o calendário mais apertado que alpargata de gordo, como dizem na minha terra natal, mexem no horário para que as partidas encaixem em um só dia e não respeitam sequer os clássicos, que ficam perdidos no noticiário carnavalesco.

 

Espanta-me pouco que quase não se percebeu a derrota gremista com um misto de time B – havia a gurizada da base e alguns reservas da equipe principal em campo -, pela Taça Piratini, no sábado de Carnaval. O placar impôs dificuldade extra para se classificar à fase final do primeiro turno do Campeonato Gaúcho, pois o Grêmio precisará vencer nas últimas rodadas e contar com uma combinação de resultados que se não é impossível, é difícil. Se tiver que ser assim, que seja, pois, fora desta primeira parte do Estadual, teríamos dedicação total às quatro primeiras rodadas da Libertadores que, afinal, é o que nos interessa. Tanto é verdade que a notícia mais importante do futebol neste Carnaval não veio de dentro dos gramados. Refiro-me à contratação relâmpago de Barcos que chega para ser mais um Imortal Tricolor.

 

Vamos combinar o seguinte. Nem esta é a maior contratação que o Grêmio fez em sei lá quanto anos, como escrito por um cronista gaúcho deslumbrado, nem o Palmeiras passou a perna na gente, como escreveu um paulista despeitado. Barcos é finalizador – alguns preferem chamá-lo de matador. Algo que tem feito falta ao Grêmio, desde a saída de Jonas, há dois anos. Não será, porém, o salvador da Pátria Tricolor. Para isso, temos uma história e um elenco que está bem construído, haja vista os últimos reforços. É o conjunto da obra que nos permite sonhar com o tri da Libertadores. E esta é, para mim, a melhor notícia do Carnaval: conquistamos o direito de sonhar.