Ecos do carnaval: roteiro de acidentes é lugar-comum no Brasil

 

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Vítimas de acidente são atendidas no Sambódromo (reprodução site CBN)

 

 

Perdão pelo lugar-comum. Sei que poucas coisas são tão antigas quanto a expressão “ecos do carnaval”. Leio e ouço isso desde os tempos em que a mãe pintava um pinico na minha testa e me convencia que era o suficiente para estar fantasiado para o baile de carnaval dos Gondoleiros, clube da zona norte de Porto Alegre do qual meu avô era sócio remido – e reproduzo aqui essa informação pois lembro que na infância imaginava que esta categoria de associado era destinada às famílias nobres e, portanto, tinha orgulho de contar aos amigos.

 

 

O uso da palavra “eco” é uma desculpa que costumamos usar quando queremos voltar a escrever sobre assuntos que parecem esgotados, mas ainda reverberam na nossa cabeça. É o meu caso neste momento.

 

 

Mesmo depois de três semanas seguidas de festa, o carnaval ainda nos oferece subsídios para reflexão, especialmente diante dos acontecimentos no Sambódromo do Rio de Janeiro, onde dois carros alegóricos, da Paraíso do Tuiuti e Unidos da Tijuca, estiveram envolvidos em acidentes ferindo ao menos 30 pessoas, entre as quais algumas com gravidade.

 

 

Um dos diretores da Liesa – Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro – Elmo José dos Santos comparou os dois acidentes na Marques de Sapucaí a desastres de avião, mas não para revelar a dimensão da tragédia: “Tudo pode acontecer. O avião não cai? O avião não foi feito para cair, mas ele também cai. Então tudo pode acontecer”.

 

 

Infeliz comparação.

 

 

Apesar do clamor popular que acidentes de avião geram, por motivos óbvios, é inegável a seriedade com que os agentes envolvidos – fabricantes, companhias aéreas, engenheiros, pilotos, autoridades entre outros – tratam a questão da prevenção. Atitudes como as que levaram a tragédia da Chapecoense são raras. Se em lugar de desdenhar da gravidade dos acontecimentos no Sambódromo, o dirigente se espelhasse na forma como o setor aéreo atua, provavelmente estaríamos aqui apenas comemorando o título da Portela (aliás, eu nem estaria aqui escrevendo).

 

 

Por coincidência, ao mesmo tempo em que nossos carros alegóricos se envolviam em acidentes, no Rio, o mundo se mostrava escandalizado com a gafe proporcionada pela organização do Oscar, o maior prêmio do cinema internacional.

 

 

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Gafe histórica no Oscal (Reprodução site CBN)

 

 

Apenas para relembrar: os apresentadores Warren Beaty e Faye Dunaway anunciaram “La la land” como melhor produção quando o vencedor na categoria havia sido “Moonlight”. A PwC – PriceWaterhouseCooper, auditoria contratada para a apuração dos votos dos 6.600 jurados do Oscar, assumiu a responsabilidade pelo erro, imediatamente. Um de seus funcionários, no mínimo descuidado, entregou o envelope trocado aos apresentadores, enquanto ainda curtia o resultado de uma selfie com Emma Stone, vencedora na categoria melhor atriz.

 

 

A retratação não foi suficiente para a PwC, uma das empresas de auditoria e consultoria mais conhecidas do mundo, presente em 157 países, cerca de 223 mil colaboradores e receita bruta de US$ 35,9 bilhões, em 2016. Sua história não resistiu ao erro humano e a organização do Oscar cancelou o contrato e a parceria que durava oito décadas. Manchou seu legado.

 

 

Aqui no Brasil, a Liesa premiou as escolas responsáveis pelos carros alegóricos acidentados ao decidir que, neste ano, não haveria rebaixamento para não prejudicar as agremiações. E, sem pestanejar, isentou de culpa o engenheiro Edson Marcos Gaspar de Andrade, que certificou o carro da Paraíso do Tuiuti. Um engenheiro pra toda obra, como destacou em manchete o jornal O Globo, ao constatar que ele tem longa ficha de serviços prestados à Liga e a nove das 12 escolas de samba do grupo principal, no Rio.

 

 

O mais triste é perceber que tanto quanto a expressão “ecos do carnaval”, o comportamento da Liga das Escolas de Samba diante dos acidentes é lugar-comum no Brasil. A maneira leniente com que a Liesa trata o assunto é a mesma que permitiu a morte de 242 jovens na Boate Kiss, em Santa Maria (RS), e causou o maior desastre ambiental que se tem notícia, além de ter matado 19 pessoas e deixado milhares sem abrigo, em Mariana (MG). Infelizmente, não faltariam exemplos se quiséssemos estender essa lista de tragédias. E não nos faltarão no futuro. Ao menos enquanto políticas de segurança e prevenção não se transformarem, estas sim, em lugares-comuns no Brasil.

2 comentários sobre “Ecos do carnaval: roteiro de acidentes é lugar-comum no Brasil

  1. Não se sabe por que as escolas de samba de São Paulo insistem em realizar aquele triste espetáculo mostrado anualmente no Anhembi. O que é aquilo se não uma cópia-xerox exatamente igual ao original, o desfile da Sapucaí no Rio de Janeiro?

    Tudo o que vemos ali foi criado pelos cariocas. As escolas de samba, figurantes, desfile, apoteose, comissão julgadora, resultados etc. São Paulo chupou tudo. Até o sambódromo foi feito pelo mesmo arquiteto, o Oscar Niemeyer. A cópia porém, qualquer criança em idade escolar sabe que não tem valor algum uma vez que jamais deixará essa condição. É falsa, por definição.

    Muitas cidades brasileiras especialmente as capitais do norte e nordeste fugiram à padronização do carnaval das escolas de samba e criaram seus próprios carnavais ancorados na forte cultura local. É o caso de Salvador, Recife, Olinda, São Luís e Manaus. Nesta última, o carnaval está assumindo contornos de festa de boi-bumbá, uma tradição da amazônia. Hoje os carnavais de Recife, Olinda e Salvador rivalizam com o Rio em repercussão mundial.

    São Paulo poderia seguir o exemplo e reinventar suas escolas de samba. Se insistirem em copiar o Rio, nosso pobre desfile-cópia pirata jamais obterá o reconhecimento e o respeito dos brasileiros. Basta percorrer os olhos nos principais portais de notícias de outros estados para ver que a mídia não publica sequer uma única linha sobre o desfile paulistano. Só dá Rio. Mesmo a mídia paulista dá destaque maior para o desfile da Marquês de Sapucaí, onde estão as ‘famosas’ do Rio e São Paulo.

    Por que então insistir com isso? Qual a justificativa para a Prefeitura de SP dar todo ano algo entre 20 e 25 milhões de reais para as escolas produzirem um espetáculo que depõe contra São Paulo, os paulistanos e que transformou-se em um mero programa de televisão que ninguém vê?

  2. Gostei da sua avaliação, apesar de não considerar ruim o desfile das escolas de samba em São Paulo. Com certeza busca-se reproduzir o que se faz no Rio com maestria. Encontrar um modelo diferente é que se transforma em enorme desafio. Fugir da Sapucaí e fazer um Carnaval com a cara do Anhembi exigirá criatividade e originalidade. Caso você se identificasse com seu nome e me enviasse seus dados, publicaria este comentário no formato de texto no próprio blog. Grande abraço!

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