O avanço da inteligência artificial já impacta a forma como empresas produzem conteúdo, constroem campanhas e definem estratégias de comunicação. O ganho de velocidade é evidente. O risco, menos visível, aparece na perda de identidade. Como trabalhar diante do aumento de eficiência que a IA proporciona e o risco de perda de originalidade foi o tema da conversa com Jaime Troiano e Cecília Russo, no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso.
Cecília chama atenção para um movimento que contraria avanços recentes na representação de pessoas na publicidade. “Eu vejo que um dos riscos que a IA traz para a comunicação é a de estarmos dando um passo atrás em algo que já achávamos que estava resolvido.” Ela se refere ao esforço das marcas, nos últimos anos, para mostrar pessoas mais reais e diversas.
Segundo Cecília, a tecnologia pode recriar um padrão artificial ainda mais distante do cotidiano. Imagens com traços irreais, imperfeições exageradas e ausência de expressão humana voltam a ocupar espaço. O efeito prático é um recuo em uma agenda que buscava aproximar marcas e consumidores por meio da autenticidade.
Esse ponto exige equilíbrio. A comunicação também trabalha com aspiração — aquilo que desejamos ser. O desafio está em não perder o vínculo com a realidade ao tentar projetar esse ideal.
Jaime aborda outro risco: a dependência intelectual. Para ele, o uso excessivo da IA pode limitar a capacidade criativa. “Estamos cada vez mais reféns da IA”, diz. A consequência aparece no resultado final das marcas: soluções parecidas, previsíveis e pouco distintas.
Ele recorre a uma referência cultural para ilustrar o problema. “A desobediência é uma virtude necessária à criatividade.” A frase, associada a Raul Seixas, reforça a ideia de que inovar exige romper padrões. Quando todos recorrem às mesmas ferramentas e bases de dados, a tendência é a padronização.
Na prática, isso significa campanhas que se parecem, discursos que se repetem e marcas que perdem aquilo que as torna reconhecíveis. A identidade — construída ao longo do tempo — passa a ser diluída por respostas automatizadas.
O alerta não é contra o uso da tecnologia. Pelo contrário. Ambos destacam que a IA traz benefícios importantes e deve ser incorporada ao trabalho. A questão central está no modo de uso. A ferramenta não pode substituir o pensamento crítico, a intuição e a criatividade humana.
A discussão reforça um princípio básico do branding: valor de marca está ligado à diferença. Quando todas falam do mesmo jeito, deixam de ser lembradas.
A marca do Sua Marca
A tecnologia deve servir como apoio, não como substituição da inteligência humana. Marcas relevantes combinam eficiência com criatividade própria e mantêm sua identidade mesmo diante de novas ferramentas.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.
Meu triciclo segue pela rua Santa Elisa, no bairro de Vila Ema, zona leste. A rua me parece enorme; as pessoas, também. O portão da casa dos meus avós estava aberto, e por ali eu passei.
Meu bisavô Eugênio comprou aquele terreno com o suor do seu rosto e levantou aquelas paredes ao custo de alguns dedos perdidos no maquinário das antigas Indústrias Nadir Figueiredo, no bairro do Cambuci.
Sssssss… o vento bate no meu rosto. Sigo em direção à avenida que dá nome ao bairro. Tico, tico, tico. A mesma avenida pela qual meu avô José caminha todos os dias para trabalhar em outra indústria, uma metalúrgica. Uma polida aqui (tico, tico, tico). Outra polida acolá (tico, tico, tico lá). E as torneiras ficavam tão reluzentes quanto o sorriso do meu avô, uma das pessoas mais doces que já conheci.
Sigo no meu passeio de menino levado. Não tinha dois anos ainda, mas aparentemente queria ampliar meus horizontes. Ti-co, ti-co, ti-co. Diminuo a velocidade.
Tiiiico. Paro por um instante.
Do outro lado da avenida, havia uns homens de chapéu. Era início dos anos 1970, e aquelas pessoas me lembravam o vô José. Pareciam felizes. Talvez me ensinassem a fazer um novo aviãozinho de papel. Parecia promissor.
Ti… ti… ti… hesito. Carros de um lado e de outro da avenida. Meu bisavô não está aqui. Nem meu avô. Nem meus pais. Talvez fosse melhor voltar. Mas, para isso, eu teria de enfrentar uma subida.
Não sinto vontade de chorar. Mas sei que, quando eu for encontrado, levarei umas palmadas. Vejo um trator na avenida e uma fila de carros atrás dele. O trânsito é interrompido nos dois sentidos. Reflexões de criança pequena…
Tico, tico, tico, tico. Ti, ti, ti… Co, co, co… Tiiicooo. Desço do triciclo e subo no meio-fio, do outro lado da rua. Completo a travessia. Logo vou falar com o homem que lembra meu avô. Ele me oferece uma bala Juquinha, e todos ali se perguntam onde estariam os pais daquele menino.
Minha permanência não é longa. Mas minutos são uma eternidade para uma criança. De repente, a vó Maria aparece, desmilinguida. Estou salvo, pensa ela. Estou encrencado, concluo eu.
Sou levado de volta entre as lágrimas da minha avó, o júbilo das pessoas que me acolheram e os meus pensamentos, que tentavam processar o que havia se passado. Tudo me parecia estranho. Eu provavelmente não esperava ter causado tanta comoção.
Essa é uma aventura que se passou com uma criança que aprendia a viver, sem se dar conta do esforço de seus pais, avós e bisavós para manter a família — o que se confunde com a história de tantos outros paulistanos.
Hoje, substituo o tico, tico, tico pelo vrum.
Ouça o Conte Sua História de São Paulo
Marcelo F. Cerqueira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Conte você também a sua história: envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Bruna e Fábio, da Shopper, em entrevista ao Mundo Corporativo Foto: Priscila Gubiotti/CBN
“A gente tem que ter pressa para fazer rápido, para crescer rápido, só que na hora de pensar em colher o que a gente tá plantando, tem que ter uma paciência de monge” Fábio Rodas
O varejo alimentar ainda é dominado pelo modelo tradicional: cerca de 97% das compras são feitas em lojas físicas, mesmo com o avanço das plataformas digitais e das mudanças no comportamento do consumidor. Foi nesse ambiente que surgiu a Shopper, um supermercado online criado para testar se as pessoas estariam dispostas a mudar seus hábitos — tema de entrevista de Bruna Vaz e Fábio Rodas ao programa Mundo Corporativo, da CBN.
A empresa nasceu em 2015 com um experimento simples, feito na faculdade. Um site que não permitia concluir a compra. A proposta era medir interesse. “Olha, desculpa, a gente ainda não atende a sua região”, informava a página após o cadastro. A estratégia funcionou. Em poucos meses, os fundadores perceberam que havia demanda.
Depois do teste que exigiu um investimento de R$ 28 mil, o passo seguinte foi iniciar a operação do negócio ainda com recursos limitados. “Éramos nós, eu e Bruna… a gente ia para o supermercado… empacotava e entregava”, contou Fábio.
Crescimento com aprendizado constante
Ao longo da trajetória, a empresa mudou de escala e de foco. Hoje, tem cerca de 2 mil funcionários, três centros de distribuição e atende mais de 120 cidades em São Paulo.
A mudança de prioridades acompanhou esse crescimento. “Lá atrás, talvez as nossas maiores preocupações era entregar o pedido e ao longo do tempo ele vai se direcionando cada vez mais para time”, disse Bruna. “Acho que o nosso principal desafio hoje em dia é formar esse time.”
A formação de equipe passou a ser central para garantir a continuidade do negócio sem dependência direta dos fundadores. Segundo ela, o objetivo é construir uma estrutura capaz de operar de forma autônoma.
A empresa também estabeleceu uma meta clara: alcançar R$ 2 bilhões de faturamento até 2027. Para isso, aposta na combinação entre crescimento orgânico e fortalecimento de parcerias estratégicas. Entre os investidores estão fundos de venture capital, a Minerva Foods e o iFood, que ampliam o acesso a conhecimento, tecnologia e base de clientes. “Quando a gente fez essa parceria, agora a gente abriu um outro leque gigante de possibilidades, dado todo o abrangência de clientes que o iFood tem”, afirmou Bruna.
Segundo os fundadores, o avanço depende de três fatores centrais: evolução tecnológica, expansão da operação e contratação de pessoas. “A gente contrata dezenas de pessoas por semana e vamos continuar contratando”, disse Fábio.
O modelo de crescimento também foi sendo ajustado. A empresa começou com compras recorrentes mensais e, com o tempo, ampliou para compras semanais, entregas pontuais e até pedidos em poucos minutos. Ainda assim, há um elemento que permanece constante.
“O como a gente faz, ele vai evoluindo… mas sempre o pilar do encantamento tem que estar lá”, afirmou Fábio.
Esse foco na experiência do cliente se tornou base da estratégia. A lógica é simples: uma boa primeira experiência aumenta a chance de fidelização. Uma falha pode afastar o consumidor.
Tecnologia, operação e cultura
Um dos aprendizados mais relevantes veio de um erro. No início, a Shopper tentou usar tecnologias de terceiros. A decisão gerou problemas operacionais.
“A gente sofreu muito e a gente aprendeu na pele que não seria o caminho”, disse Fábio.
A partir dessa experiência, a empresa decidiu desenvolver seus próprios sistemas. A mudança reposicionou o negócio. “A gente teve que se tornar uma empresa de tecnologia que faz supermercado.”
A operação passou a ser desenhada a partir da experiência desejada pelo cliente. Primeiro define-se o resultado. Depois, os processos. Por fim, a tecnologia que sustenta essa estrutura.
A cultura interna também acompanha essa lógica. Em momentos de pico, funcionários de diferentes áreas atuam diretamente na operação. O objetivo é manter o padrão de entrega e identificar falhas no processo.
Longo prazo em um ambiente de urgência
O tempo necessário para construir um negócio, especialmente considerando que tudo se iniciou quando Bruna e Fábio tinham pouco mais de 20 anos, foi um dos principais ensinamentos que tiveram durante a experiência com a Shopper.
Bruna destacou a dificuldade de manter o foco em um horizonte mais longo. “O pensamento de longo prazo, ele é importante, ele é difícil”, afirmou. “Depois de 10 anos, eu vi quanto isso foi importante.”
Fábio complementou com a lógica que orienta a gestão da empresa. “A gente tem que ter pressa para fazer rápido… só que na hora de pensar em colher o que a gente tá plantando, tem que ter uma paciência de monge.”
A combinação entre velocidade na execução e paciência na estratégia resume o modelo adotado pelos fundadores. Um equilíbrio que, segundo eles, só se comprova ao longo do tempo.
Assista ao Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Wender Starlles, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.
Foto: Álbum CBN SP Flickr da ouvinte Ana Lucia Vieira Santos
O ano era 1990, e eu cheguei a São Paulo para fazer cursinho e tentar entrar na faculdade. Embora nascida aqui, passei a infância e a adolescência no interior do Paraná. Minha animação e alegria eram imensas, afinal, sempre sonhei com a “cidade grande” — e que grande!
Fazia cursinho no Anglo da Consolação. Pegava ali o ônibus que me deixava no Largo da Batata, em Pinheiros. Ainda sem o menor conhecimento dos ritos e ritmos da cidade e quase quarenta anos antes dos alertas que hoje a Defesa Civil faz pelos nossos celulares, peguei o ônibus em um fim de tarde, debaixo de um enorme temporal, sem maiores preocupações. Afinal, era só chuva!
Aos poucos, porém, fui ficando assustada. O cenário no trajeto sinalizava algo diferente de tudo o que eu jamais tinha vivido: muitos alagamentos, carros parados, o ônibus seguindo apenas por conta de seu tamanho. No Largo da Batata, o motorista abriu a porta, e eu e mais dois gatos pingados olhamos para fora: a água batia no degrau do ônibus. Olhei para ele e, ingenuamente, disse: “Não dá para descer!”. Enquanto as outras duas pessoas nem pararam e mergulharam na água sem temor, ele respondeu: “Não tem jeito, aqui é o ponto final. Estou indo para a garagem”.
Sem outra alternativa, arregacei a barra da minha calça e, com um nojinho inevitável, comecei a caminhar em direção à minha casa, debaixo do temporal e com a água acima dos joelhos. Para quem se lembra de como era o Largo antes da chegada da Faria Lima nova, fui caminhando por aquela rua estreita, com casinhas dos dois lados, que seguia em direção à igreja da Cruz Torta, sem uma alma por perto. Em certo momento, percebi que precisava caminhar pelo meio da rua, onde a correnteza parecia menos forte e a água estava um pouco mais baixa.
A noite foi caindo. Só tive completa noção do perigo que estava correndo quando, um pouco antes do cruzamento da rua Coropé, jorrava do bueiro uma quantidade de água tão grande que parecia uma cachoeira invertida. Congelei. Olhava para todos os lados e não via ninguém. Obviamente, não passava um carro sequer. Não sabia se seguia ou se voltava quando, de repente, vi avançar uma caminhonete. Os dois faróis acesos, a água na altura do capô, feito o Mar Vermelho se abrindo, e eu, no meio da rua, à frente dela.
Não sei o que me deu. Em vez de sair da frente, estendi as duas mãos para o motorista e gritei: “Páaara!!!”. Ele parou. Abriu o vidro e gritou comigo: “O que você está fazendo aí? Entra já!”. Pois é, pessoal, imaginem onde foi parar o conselho “nunca entre em um carro com estranhos”. Já que estava em perigo, perigo e meio…
Então ele me disse: “Onde você mora, menina? Vou te levar”. E eu: “Na rua Costa Carvalho, fica pertinho daqui”. “Nossa!”, ele respondeu. “Eu morava nessa rua! Que número?”. E eu: “93”. E ele: “Não acredito! Na vila? Eu morava lá também! Que casa?”. E eu: “11”. Aí, pasmem, ele disse: “Não acredito mesmo! Eu morava nessa casa!”.
Pois é, pessoal. Qual a probabilidade de isso acontecer em uma megalópole como esta? Eu não sabia se admirava a coincidência ou se curtia o alívio de ter encontrado um anjo da guarda que, inclusive, sabia onde eu morava! Em poucos minutos, eu estava sã e salva em casa. Nessa vila que, aliás, teve sua fundação feita pelo meu avô, quando tudo por ali ainda se chamava Estrada da Boiada. Mas essa já é outra história desta cidade cheia de pessoas boas… e de boas histórias!
Ouça o Conte Sua História de São Paulo
Nina Campos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Conte você também a sua história: envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Rodolfo Chung no estúdio de podcast da CBN Foto: Priscila Gubiotti/CBN
“Para quem você cria valor, não necessariamente é com quem você deveria monetizar.”
Só cerca de 15% das prescrições médicas no Brasil são digitais, enquanto a maior parte do sistema de saúde ainda opera em um modelo fragmentado, no qual médicos, farmácias, laboratórios, hospitais e planos de saúde trocam pouca informação entre si. Foi a partir desse diagnóstico que a Memed estruturou seu negócio e buscou crescer conectando atores que, em geral, trabalham de forma isolada. O assunto foi tema de entrevista com Rodolfo Chung, CEO da Memed, ao programa Mundo Corporativo, da CBN.
Chung descreveu um setor em que há muitos participantes, mas pouca integração. “É impressionante como são tantos atores na saúde e parece que ninguém conversa com ninguém. Ninguém parece que coopera com ninguém. É tudo quebrado, tudo separado”, afirmou. Na visão dele, esse cenário abre espaço para modelos que unam diferentes agentes em torno de um mesmo processo. “Eu acho que tem uma oportunidade enorme nesse setor de saúde da gente unir mais cada um desses atores, são todos importantes, mas são todos isolados.”
A Memed nasceu nesse ponto de encontro. A plataforma, conhecida pela receita médica digital enviada ao paciente por SMS ou WhatsApp, precisa operar em contato com médicos, pacientes, farmácias, laboratórios, clínicas, hospitais, planos de saúde, órgãos reguladores e indústria farmacêutica. “A Memed ela é especial porque ela toca em vários, quase todos os atores da saúde”, disse Chung.
Um negócio que decidiu não cobrar de médico nem de paciente
Um dos pontos centrais da entrevista foi a lógica de negócio da empresa. Fundada por médicos da cidade de Avaré, no interior de São Paulo, há 15 anos, a Memed optou por ampliar a adoção de sua plataforma antes de buscar faturamento. Havia a convicção de que o negócio não deveria priorizar a cobrança do serviço nem dos médicos nem dos pacientes. Esse modelo foi mantido por anos. “A Memed durante muitos anos, ela passou sem faturamento, sem receita”, afirmou.
A mudança veio quando a empresa definiu quem financiaria a operação sem alterar a proposta original. E isso ocorre com a chegada de Rodolgo Chung ao comando da Memed. “Hoje ela já sabe como se manter e ela sempre vai ser de graça para o médico, para o paciente, para a farmácia. Ela nunca vai precisar cobrar do paciente nem do médico.”
Segundo Chung, quem sustenta esse modelo é a indústria farmacêutica, interessada em se comunicar com médicos que estão espalhados por todo o país — mais de 500 mil profissionais. Hoje, cerca de 150 mil utilizam a Memed todos os meses. Nesse contexto, a plataforma funciona como uma espécie de “Google da prescrição”: ao indicar um medicamento, o médico visualiza alternativas terapêuticas disponíveis no mercado. Parte dessas opções ganha maior visibilidade a partir de acordos com os fabricantes, em uma lógica que lembra os links patrocinados dos buscadores, aplicada ao ambiente médico.
A lógica por trás desse arranjo resume a visão de parceria defendida pelo executivo. “Você pode muito bem criar valor para um ator, para uma entidade e cobrar ou criar valor para uma outra. Não tem que ser linear dessa forma.” E completou: “A Memed é assim, por isso que ela pensa que ela cria valor para o médico, mas não necessariamente ela precisa cobrar do médico.”
Parceria no lugar da verticalização
O presidente da Memed argumentou que nem todo elo da cadeia precisa se transformar em fonte direta de receita. Em muitos casos, o ganho está na cooperação e na integração. “Na maioria das vezes é uma troca de integração, de parceria, eu faço o negócio dele ser melhor, ele faz o meu negócio ser melhor e não precisa ter uma troca monetária nisso.”
Essa ideia aparece, por exemplo, na relação com as farmácias. Embora a Memed tenha testado o varejo farmacêutico, decidiu não seguir por esse caminho. “A Memed escolheu não fazer o varejo farmacêutico, não entrar nesse setor de compra e venda de remédios”, afirmou. A avaliação da empresa foi direta: havia especialistas mais preparados para essa etapa do processo. “Eu não acho que a gente tem uma competência de fazer esse negócio melhor do que a própria farmácia.”
Em vez de concorrer, a opção foi cooperar. “A gente reconhecendo a fortaleza desse setor achou que era muito melhor ajudar a conectar, a integrar, a digitalizar do que concorrer com eles”, disse. É dessa escolha que nasce a defesa de um modelo mais horizontal. “Foca no que você faz bem feito e procura parceiros para as outras coisas. Dessa forma, você consegue fazer com que a jornada seja mais fluída.”
A digitalização ainda avança devagar
Mesmo após 15 anos de operação, a digitalização da prescrição médica ainda enfrenta resistência. Chung reconheceu que a mudança de hábito é lenta, especialmente entre profissionais mais experientes. “Os mais experientes usam menos e acho que é uma curva natural”, afirmou. Ainda assim, ele vê crescimento consistente: “Eu estimo que ela cresça 35% todo ano.”
Na avaliação do executivo, o digital já oferece vantagens objetivas em relação ao papel. Uma delas está na segurança. Ao tratar das receitas de medicamentos de controle especial, ele defendeu que o sistema eletrônico deveria ocupar posição central. “Digital é mais seguro. Digital você traqueia, você monitora as fraudes”, disse. E reforçou: “O digital deveria ser melhor.” A nova regulamentação da Anvisa pode acelerar essa transição. Provavelmente em abril, os remédios tarjas preta poderão ser prescritos também pelo sistema digital.
A prescrição digital também resolve situações práticas do dia a dia do paciente. Chung citou o caso de tratamentos longos, em que a pessoa não consegue comprar toda a medicação de uma vez. “No digital, não”, respondeu, ao explicar que o saldo remanescente da receita pode ser reutilizado eletronicamente. “Você pode reutilizar o saldo que sobrar.” Ou seja, se você recebeu uma receita para usar o remédio por três meses, obrigatoriamente você não precisar comprar três caixas do remédio de uma só vez. Poderá comprar mês a mês, sem necessitar de uma nova receita.
Inteligência artificial e o futuro da saúde
O impacto da inteligência artificial no setor também foi tema discutido com Rodolfo Chung. Para ele, a tecnologia deve ampliar a capacidade de médicos e pacientes, sem substituir a decisão humana. “A gente sempre vai achar que a IA é um superpoder para o médico, nunca para substituir o médico”, afirmou.
Ele vê a saúde como uma das áreas mais afetadas por essa transformação, seja na redução da burocracia, seja no apoio à decisão clínica, seja no acesso do paciente à informação. “O paciente vai se beneficiar muito com IA … o nível de informações, de engajamento, o empoderamento do paciente; isso vai ser muito importante.”
Ao relacionar essa visão ao modelo da Memed, Chung deixa claro que a empresa pretende seguir apostando na combinação entre tecnologia e cooperação. Numa área em que cada ator costuma cuidar apenas do seu pedaço, a estratégia é construir conexões duradouras. A receita, nesse caso, não sai apenas do consultório. Ela depende da capacidade de fazer setores diferentes trabalharem juntos.
Assista ao Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Wender Starlles, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.
Sou um carioca de 54 anos. Minha relação com São Paulo começou ainda pequeno, nas décadas de 1970 e 1980. Meus bisavós italianos migraram para cá no início do século XX. Dos irmãos, apenas minha avó decidiu viver na cidade do Rio de Janeiro. Por isso, com alguma regularidade, visitávamos nossos parentes em São Paulo.
Lembro, inclusive, de ter vindo em uma dessas viagens no antigo Trem de Prata, que ligava a Estação Barão de Mauá, no Rio, à Barra Funda, em São Paulo. Também estava na cidade quando soube das mortes de Elis Regina, em 1982, e do zagueiro Daniel González, do meu Vasco, em 1984.
Na juventude, essa relação se intensificou, mas de maneira diferente. Entre 1993 e 1999, fiz diversas viagens para o Sul do país, sempre passando por São Paulo. Eu seguia pela Dutra para acessar a Régis Bittencourt. Não existia Rodoanel, a Marginal era mais estreita e o trânsito, muito pesado. Perdíamos horas apenas atravessando a cidade. Foi nesse período que prometi a mim mesmo que nunca moraria em São Paulo.
O “nunca”, porém, decidiu se vingar. Por causa do meu emprego, fui transferido para São Paulo no início de 2000. Vim já casado, com minha esposa, que é de Fortaleza. Aqui moramos até 2009. Nesse período nasceram nossas três filhas e vivi um momento de grande crescimento profissional. Foi uma fase marcante das nossas vidas.
Em 2009, tentei “fazer as pazes com o nunca”. Surgiu a oportunidade de voltar ao Rio e fizemos a mudança com tranquilidade, já que as meninas ainda eram pequenas. Aproveitamos bastante aqueles anos em que o Rio vivia um ciclo otimista, pré-Copa e pré-Olimpíadas, com o Cristo estampando a capa da revista The Economist, em 2009.
Alguns anos depois, o país e o Rio entraram em um período difícil. A mudança de clima foi simbolizada, novamente, pela Economist, agora com o Cristo despencando. E o “nunca” reapareceu. Em 2017, fui convidado a trabalhar outra vez em São Paulo. Aqui estou desde então, agora com filhas se formando e construindo suas vidas nesta cidade que nunca para.
Os cariocas não costumam ser fãs de São Paulo. Guardo meu saudosismo do Rio, é claro. Reconheço, porém, que a cidade e os paulistanos me acolheram muito bem. Depois de tantos anos, aprendi a lidar com essa metrópole intensa e complexa, cheia de possibilidades. Hoje sou feliz aqui e não tenho motivos para pensar em sair.
Só que, desta vez, prometo não dizer mais “nunca”. Vai que ele resolve se vingar de novo.
André Luiz Marques é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Letícia Pavim em entrevista ao Mundo Corporativo Foto: Priscila Gubiotti/CBN
“Só do jovem agir, ser proativo, ter mais auto-responsabilidade, inovar, trazer ideias, oferecer ajuda, pedir ajuda, tudo isso já agrega, já te coloca para frente.”
A presença cada vez maior de jovens da geração Z nas empresas tem exposto dificuldades de comunicação, diferenças de expectativa e novos padrões de comportamento no ambiente de trabalho. Para líderes, o desafio passa a ser entender como integrar essas mudanças sem perder produtividade e alinhamento nas equipes. O tema foi discutido em entrevista de Letícia Pavim, cofundadora da Rede Pavim, ao programa Mundo Corporativo, da CBN.
A Rede Pavim atua na formação de líderes e no desenvolvimento de jovens talentos, com foco na relação entre diferentes gerações dentro das empresas. O trabalho é conduzido por Letícia e Igor Chohfi, que se conheceram em um programa de voluntariado no Egito. Eles apoiam organizações na criação de ambientes mais preparados para integrar profissionais jovens às equipes e alinhar expectativas entre líderes e liderados.
Segundo ela, a convivência entre diferentes gerações exige ajustes dos dois lados. Jovens chegam ao mercado com disposição para participar mais ativamente das decisões e com expectativa de desenvolvimento acelerado. Ao mesmo tempo, enfrentam limites impostos pelo tempo de carreira e pela dinâmica das organizações.
Letícia afirma que a postura individual tem impacto direto no crescimento profissional. Para ela, atitudes simples no dia a dia já contribuem para maior visibilidade dentro das equipes.
Tempo de carreira e expectativas
A ansiedade por resultados rápidos aparece como um ponto de atenção. Letícia observa que muitos jovens esperam avanços em um ritmo que nem sempre corresponde à realidade das empresas. Essa diferença de ritmo pode gerar ruídos entre líderes e liderados. Enquanto gestores lidam com metas e prazos de longo prazo, parte dos jovens busca respostas imediatas e reconhecimento constante. O desafio, segundo Letícia, está em equilibrar essas expectativas para manter o engajamento sem comprometer o desempenho coletivo.
Outro ponto destacado por Letícia é a importância da colaboração dentro das equipes. Ambientes em que as pessoas se sentem à vontade para pedir ajuda e compartilhar dificuldades tendem a funcionar melhor. “Então, quando a gente tem equipes integradas que tem esse ambiente até de segurança psicológica de eu poder trazer as minhas vulnerabilidades, eu poder falar onde eu quero me desenvolver, poder levantar a mão para o meu time, pedir ajuda, e todo mundo ir se ajudando, a gente vai ter um time que vai andar mais rápido.”
A integração, nesse contexto, deixa de ser apenas um discurso e passa a influenciar diretamente os resultados. Equipes que trocam mais informações e trabalham de forma colaborativa conseguem responder com mais agilidade às demandas do negócio.
Assista ao Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Luis Delboni, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.
Tenho 66 anos. Sou paulistano. Moro no Alto de Pinheiros. Minha história em São Paulo não começa comigo. Inicia-se antes, bem antes, no fim do século XIX, em Piracicaba, com meu avô materno, Olégario José de Godoy.
Ainda moço, ele já dedilhava a viola e compunha suas próprias modas. A música, naquela época, não era sonho distante — era destino Olegário veio para São Paulo para fazer história: gravou, em 1934, o primeiro disco de música sertaneja do Brasil. Ficou conhecido como Sorocabinha, com a dupla Mandy e Sorocabinha. E, sem saber, deixou gravado não só uns discos, mas um legado.
Tempos depois, já instalado na capital, trouxe a família. Foi aqui que, nos anos 1940, minha mãe conheceu meu pai, na frente da igreja do Calvário, em Pinheiros — um jovem recém-chegado de Franca, como tantos outros, tentando a vida na cidade grande.
Meu pai montou uma oficina mecânica, trabalhou muito, como se trabalhava naquela época: com as mãos, com o corpo e com esperança. Em 1943, ele e minha mãe se casaram. Construíram uma família simples, sólida, cheia de valores.
Tiveram três filhos. Eu fui a rapa do tacho. Nasci em 1959. Cresci aprendendo pelo exemplo o valor do trabalho, da honestidade e do afeto. Honro profundamente meus pais por isso — pela educação, pela formação e, sobretudo, pelo carinho.
A vida seguiu seu curso. Quase aos 50 anos, me casei com uma mulher maravilhosa. Trabalhamos bastante, sou engenheiro, viajamos pelo mundo, conhecemos muitos lugares. Mas há algo curioso: por mais bonitas que sejam outras cidades, o coração sempre bate mais forte quando o avião pousa em São Paulo.
Foi aqui que nasci. Aqui fui criado. Aqui trabalho. Aqui me casei. E é aqui que exercemos um dos maiores aprendizados da vida: o de servir. Somos voluntários do Grupo Solidar, uma ONG onde preparamos e servimos café da manhã para pessoas em situação de rua. Em cada xícara de café, em cada pão entregue, há respeito, dignidade e humanidade — valores que São Paulo também carrega, mesmo em meio ao concreto.
Ouça o Conte Sua História de São Paulo
Valmir Roney da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
“Se a casa é o principal lugar de violação, a escola é o principal lugar de proteção.”
Os dados são duros e ajudam a dimensionar um problema que, muitas vezes, permanece escondido. A Pesquisa Nacional de Saúde Escolar 2024 aponta que 9% dos estudantes de 13 a 17 anos afirmaram já ter sido forçados ou ameaçados a ter relações sexuais, enquanto 18% relatam algum tipo de contato físico sem consentimento. O tema foi tratado em entrevista à CBN pela juíza Vanessa Cavalieri, titular da Vara da Infância e Juventude Infracional do Rio de Janeiro.
Logo no início da conversa, a magistrada deixa claro que o enfrentamento desse tipo de violência exige duas frentes de atuação: “a punição dos agressores e a prevenção”, afirma. Para ela, a resposta do Estado não pode se limitar à responsabilização posterior. O objetivo maior é evitar que o crime aconteça.
A violência que nasce dentro de casa
Um dos pontos mais sensíveis da entrevista é a origem da violência. Segundo a juíza, na maioria dos casos, o agressor não é um desconhecido. Ou são familiares ou são pessoas com quem a vítima tem um relacionamento de afeto.
Esse dado ajuda a entender por que o crime costuma permanecer oculto. O ambiente que deveria proteger é, muitas vezes, o mesmo em que a violência acontece. E isso dificulta a denúncia.
Diante desse cenário, a escola ganha um papel decisivo. Não apenas como espaço de aprendizagem, mas como lugar de escuta. Vanessa Cavalieri cita um exemplo concreto. Durante a pandemia, os registros de abuso sexual infantil diminuíram — não porque os casos tenham reduzido, mas porque as escolas estavam fechadas. “Essas crianças eram violadas e ninguém via, ninguém relatava, ninguém denunciava”, explica.
Para ela, o desafio está em preparar as instituições de ensino. “A escola precisa ter fluxos, precisa ter protocolos e que todos os funcionários saibam o que fazer.” Não apenas professores ou diretores, mas qualquer profissional que possa ser procurado por um aluno.
Escutar sem revitimizar
A entrevista também destaca a importância da escuta protegida, prevista em lei. Trata-se de um método que evita que a criança seja exposta novamente à violência ao relatar o ocorrido: “Existe uma metodologia para ouvir essa criança de forma que ela possa fazer um livre relato, sem ser manipulada e sem ser culpabilizada.” Essa escuta deve acontecer não só no sistema de justiça, mas também em escolas, hospitais e conselhos tutelares.
Outro ponto abordado pela juíza é a educação sexual, frequentemente cercada de desinformação. “Educação sexual não é ensinar prática sexual. É ensinar quais partes do corpo não devem ser tocadas e o que fazer diante de uma situação de abuso.”
Ela relata que, em visitas a escolas, é comum ouvir histórias de jovens que sofreram violência e não sabiam que aquilo era crime. Muitas meninas dizem que foram estupradas, mas não sabiam, porque não houve penetração: “.… e estupro é qualquer ato sexual sem consentimento.”
A palavra da vítima como prova
A magistrada também combate uma ideia recorrente: a de que só é possível denunciar com provas materiais. “A prova para apurar um abuso sexual é a palavra da vítima.” Ela explica que, por se tratar de um crime cometido sem testemunhas e muitas vezes sem marcas físicas, o relato da vítima tem peso central no processo judicial. “É muito frequente a gente condenar um estuprador só com a palavra da vítima.”
Um problema maior do que os números
Ao analisar os dados da pesquisa, Vanessa Cavalieri faz um alerta: a realidade pode ser ainda mais grave. Ela entende que exista uma subnotificação. Muitas vítimas não denunciam. Outras nem reconhecem o que viveram como violência.
A mensagem que fica após ouvir as palabras da juíza Vanessa Cavalieri é clara: enfrentar esse problema exige ação coordenada, informação e, sobretudo, disposição para ouvir. Porque muitas histórias ainda estão escondidas, esperando alguém disposto a escutar.
Ângelo Guerra em entrevista ao Mundo Corporativo da CBN Foto: Priscila Gubiotti/CBN
“Nós tivemos 12 milhões de interações no mês de janeiro.”
O setor de atendimento ao cliente no Brasil reúne mais de 1 milhão de empregos formais e processa milhões de contatos todos os dias. Deixou de ser um serviço baseado em telefone e passou a operar como um sistema amplo de relacionamento com o consumidor. Esse movimento, impulsionado por tecnologia, dados e novas demandas do público, foi tema de entrevista com Ângelo Guerra, presidente da Atento Brasil, ao Mundo Corporativo, da CBN.
Ao explicar essa transformação, Guerra recorreu à memória do próprio setor. Citou o 102, serviço de auxílio à lista telefônica, e as Páginas Amarelas. Hoje, segundo ele, o modelo mudou na base: “Quando a gente fala desse setor de atendimento, a gente fala que é de contact center, não mais de telemarketing; nós podemos desde ajudar com uma dúvida técnica sobre um produto que você acabou de comprar, como também uma assessoria financeira para fazer uma aplicação, um investimento, uma marcação de uma consulta”.
Os números ajudam a entender a mudança. “Desses12 milhões de interações, 70% são através de canal de voz e 30% canal digital, chat, e-mail, o que seja. Todos foram receptivos”, afirmou. E acrescentou: “Menos de 3% hoje delas são relacionadas com o que nós chamávamos antigamente de telemarketing”.
Dados, tecnologia e escuta
Cada contato com o cliente gera informação. E essa informação passou a orientar decisões. A qualidade dessa informação é muito rica, de acordo com Guerra. E o volume de dados permite corrigir processos e ajustar operações. Ao mesmo tempo, exige mudança de comportamento.
“Se você me pergunta hoje quais das três prioridades que eu tenho como líder, eu acho que a escuta ativa é um ponto primordial”, afirmou.
O treinamento acompanha essa exigência, explica o executivo. O novo colaborador passa por cerca de 25 dias de capacitação inicial. Depois, o aprendizado segue na prática: “Isso é on the job training, você vai treinando ele continuamente”.
A inteligência artificial entrou nesse processo. Atua desde a seleção de candidatos até o atendimento: “Posso emular o Milton através de uma inteligência artificial”, explicou, o que torna o treinamento mais efetivo. A tecnologia também apoia o operador com informações em tempo real. Sugere respostas, interpreta o comportamento do cliente e ajuda na tomada de decisão. “A gente tem convertido bastante vendas em chamadas que não são para vendas”, disse.
Esse modelo levou a criação de um agente de IA, batizado de Robocop — permitindo que o assistente seja potencializado pela inteligência artificial. O Robocop já estará em teste em cinco mil das 45 mil posições de atendimento da empresa.
Imagem do setor e chamadas indesejadas
O setor ainda convive com um problema de reputação. As constantes ligações feitas de forma indiscriminada geram um quantidade enorme de reclamações às empresas que atuam neste mercado: “Qualquer pessoa que eu encontro na rua me pede ajuda para parar de receber chamadas que são inconvenientes”, relatou. Guerra esclarece que essas ligações não são feitas pelas empresas de atendimento ao cliente. São centrais clandestinas que atuam para coletar dados ilegalmente e dar golpes nas pessoas.
Ao apontar a atuação de grupos criminosos, ele separa essas práticas do trabalho das empresas estruturadas. Entende que uma das respostas está na regulação: “A Anatel colocou uma norma regulatória e as empresas têm até 2028 para criar o que se chama de chamada autenticada”. Quando o sistema estiver funcionando plenamente, o número que aparecerá no celular da pessoa estará acompanhando de uma espécia de selo de verificação.
A experiência internacional com este modelo indica resultado relevante: “A gente viu uma redução de 80% dessas chamadas inconvenientes”.
Emprego, inclusão e pressão de custos
O setor mantém papel relevante na geração de emprego. São mais de 1 milhão de trabalhadores com carteira assinada. Na Atento, cerca de 45 mil. As centrais de atedimento ao cliente têm por caracaterística serem o primeiro emprego de milhares de trabalhadores: “… você pega um primeiro emprego, treina e fica um período, depois está apto para coisas diferentes”, disse Guerra chamando atenção para a altar rotatividade.
A empresa também investe em inclusão. Segundo Guerra, 70% dos colaboradores são mulheres. Há equipes formadas por imigrantes, com atuação em outros idiomas.
Ao mesmo tempo, há pressão sobre custos. Ele cita o impacto da reforma tributária. “Se o meu custo é mão-de-obra, como é que nessa jornada eu consigo fazer uso de crédito (tributário)”, questionou, lembrando as mudanças que estão em andamento no sistema tributário e a dificuldade para o setor se beneficiar das compensações previstas na nova lei.
A jornada de trabalho também entra no debate. “Nós hoje fazemos 36 horas semanais, são jornadas de 6 horas com pausas”, explicou.
Atendimento como área estratégica
O atendimento passou a ocupar espaço na estratégia das empresas. Nem todas perceberam. “Tem algumas empresas que ainda não perceberam que é importante sentar e entender o que que está acontecendo no dia a dia para ajustar a jornada do seu cliente”, disse. A análise dessas interações permite corrigir falhas e melhorar a experiência, tornando-a customizada, o que resultará em maior satisfação e retenção do cliente.
Ao falar de liderança, Guerra aponta a presença como fator central. “Eu diria para você hoje que talvez o meu papel mais importante hoje é estar disponível, escutar, ajudar, apoiar”. E resume a responsabilidade: “44.999 pessoas me tirando da cama todo dia cedinho porque eu represento tudo isso”.
Assista ao Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Luiz Delboni, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.