Mundo Corporativo: entenda o metaverso e reduza o risco da desigualdade digital, recomenda Martha Gabriel

Reprodução Facebook

“O futuro não espera e não perdoa”

Martha Gabriel, futurista

O metaverso — esta que é uma das coisas mais faladas nos últimos anos e, talvez, desconhecida da maioria de nós — existe muito antes do que imaginamos. Parece que surgiu ontem ou, para não ser exagerado, que surgiu durante a pandemia. Mas Martha Gabriel, nossa entrevistada no Mundo Corporativo, garante que já está entre nós há muito tempo. O que acontece agora é que a infraestrutura alavancada, diante dos desafios impostos pela pandemia, possibilitou a ascensão do metaverso —- com o perdão do trocadilho — em uma versão muito mais avançada e viável. 

A expressão metaverso foi criada por Neal Stephenson, escritor americano, e publicada no livro Snow Crash (Nevasca, na edição em português, editada pela Aleph), em 1992. Autor de obras de ficção especulativa, Stephenson ilustrou a ideia futurista com pessoas que usavam avatares de si mesmas para explorar um universo online. E previu o metaverso sucedendo a internet. 

Para Martha Gabriel, futurista e autora do best seller “Você, eu e os robôs” (Atlas), o metaverso começa a se formar no início do mundo digital e a primeira experiência mais próxima do 3D foi o Second Life, criado em 1999 e lançado em 2003, que oferecia um ambiente virtual onde as pessoas interagiam através de avatares. Uma simulação da vida real que não se sustentou pela ausência de estrutura, conexões e máquinas com capacidade de administrar as transações necessárias para o experimento naquela ambiente.

A transformação digital que vinha se constituindo ao longo do tempo e acelerou na pandemia, por uma questão de sobrevivência dos negócios, fez com que tecnologias desenvolvidas anteriormente — tais como o blockchain, as NFTS e as criptomoedas — chegassem a um ponto de maturidade que permite configurar as próximas etapas do metaverso. 

“Da mesma forma que o nosso universo era composto de vários planetas, era composto de empresas, das pessoas, etc, o nosso universo sofreu um upgrade com mais coisas digitais e passa a ser metaverso. Por isso que a gente tem meta: vai além daquilo que era o nosso universo”.

O comerciante que fechou as portas de seu negócio na pandemia e abriu conta comercial no Instagram para vender seus produtos, sem perceber, deu um passo em direção ao metaverso, ainda em um modelo 2D, explica Martha Gabriel. Aliás, ela entende que mesmo a nossa entrevista, gravada por uma plataforma de transmissão de vídeo, com este apresentador e sua entrevistada em espaços diferentes e conectados pela tenologia é uma parte do metaverso. A medida que vamos incluindo novas camadas digitais, mais integrado passamos a estar e mais transações se tornam possíveis. 

“O metaverso é a fusão do on e off. Quanto mais essa fusão acontece mais híbrido nós somos e mais a gente está vivendo o tempo todo nos dois, fluindo entre um e outro”.

Antes de sair por aí “comprando terreno na lua”, é importante ter consciência da possibilidade de participar do metaverso sem gastar dinheiro e da necessidade de entrar nesse universo quando tiver clareza do que pretende realizar, ou seja, ter um objetivo bem definido. 

“Se eu puder dar uma dica aqui pra todo empreendedor, seja pequeno médio ou grande,  entenda o que tá acontecendo mesmo que você não vá usar agora. O metaverso é o de menos. O importante é entender o que está acontecendo nas coisas que estão configurando o metaverso. Porque é isso que vai transformar sua vida. Se você não souber o que é blockchain, inteligência artificial, NFT, dificilmente você consegue aproveitar tudo que está surgindo de possibilidades dentro desse universo misto de on e off”.

Dos riscos que assistimos nesse cenário, bem além da perda de oportunidades e desperdício de dinheiro por desconhecimento, está a possibilidade de as desigualdades social e digital se ampliarem ainda mais. Para Martha é urgente que se faça um “acordo social” porque, desde sempre, quem teve acesso à tecnologia tem acesso ao poder, e isso tende a contemplar apenas pessoas privilegiadas — aliás, como assistimos na pandemia em que os alunos de famílias das classes média e alta deram seguimento aos seus estudos, enquanto boa parcela da população mais pobre viu seus filhos regredirem no conhecimento.

Quanto ao desenvolvimento de carreira, para que estejamos preparados para esse futuro que se avizinha, Martha identifica três grandes categorias de habilidades essenciais: 

  1. Pensamento crítico: para entender as regras do jogo, traçar estratégias, é preciso desenvolver essa habilidade por meio da educação; para saber o que fazer.
  2. Adaptabilidade: temos de ser adaptáveis em um mundo que muda o tempo todo e nessa categoria entram ‘soft skills’ como comunicação, negociação e gestão de equipe; para fazer.
  3. Humanidade: é preciso garantir que não se perca a humanidade e se preserve os conceitos de ética e moral nas relações; como fazer.

“Estou pensando direito? Estou entendendo as regras do jogo? Será que eu continuo humano nesse caminho? Esse é um pensamento fundamental, hoje em dia, porque a gente começa a olhar muito o digital e esquece dessa parte humana que talvez seja o nosso diferencial competitivo”

Seguindo a recomendação da Martha Gabriel, que diz da necessidade de entendermos o que está acontecendo no metaverso, comece por assistir à entrevista completa que fizemos com ela no Mundo Corporativo. Depois, procure suas participações no TED e, finalmente, leia, leia muito porque é pela educação que vamos nos preparar para o futuro e reduzir a desigualdade que se expressa na sociedade.

O Mundo Corporativo tem a produção de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.

Conte Sua História de São Paulo: o Tchaikovsky de Perus

Por Flávio Cruz

Ouvinte da CBN

Quando você fica um certo tempo longe de sua terra, as imagens, os aromas, as visões e as lembranças se tornam ainda mais fortes. Por isso, é que, às vezes, me lembro do vilarejo onde passei minha infância, com especial intensidade. 

Perus, norte da Grande São Paulo, não era, como agora, um aglomerado de casas e comércio. Ao contrário, era então, uma paisagem quase bucólica. A estrada de ferro, antes chamada de Santos—Jundiaí, ainda corta o local bem no meio e tem, como acompanhante, um rio que vai serpenteando ao seu lado e, no caminho, divide a praça principal. 

O rio e a ferrovia formam, assim, uma espécie de vale cercado de elevações — ou morros, como dizíamos. Na minha infância ainda era tudo muito espalhado, não havia tantas casas e estavam como que semeadas pelas elevações; enquanto o comércio, os bancos, o cinema e tudo mais, estavam no centro do bairro, em volta da praça. 

De um dos  lados saía uma rua, na verdade uma rampa íngreme, que chamávamos de Morro do Cartório, e que levava a algumas habitações mais para cima, inclusive a casa onde eu morava. O cartório – o Tabelionato Farias – ficava no meio desta rua, que subia, subia e continuava subindo. 

Lá embaixo, no começo, estava a igreja católica, cuja padroeira era a Santa Rosa de Lima. 

E antes de continuar a andar pela “cidade”, quero parar um pouco por aí. Era uma igreja como outra qualquer, branca, com uma torre, sino. Sei que mudou, desde então. Toda tarde, às seis horas, algo muito especial acontecia. 

Nessa época, a essa altura do dia, as pessoas estavam encerrando as atividades, fechando o comércio, voltando para casa. Então, com uma pompa e força inusitadas para todos, soava o “Concerto no. 1 para Piano e Orquestra de Tchaikovsky”. 

O som saía das torres da pequena igreja e ecoava pelas montanhas, pelas ruas, entrava nas casas, ia, ia, para além das fronteiras do nosso bairro. Era vibrante, imponente, poderoso, sensacional. Enchia os ouvidos, o ar e a alma. 

Depois de algum tempo, o som baixava, sem desaparecer. Entrava então  a voz de um locutor, altivo e pomposo: 

“Ao som deste prefixo musical, vai ao ar o Serviço de Alto-Falantes da Paróquia da Santa Rosa de Lima de Perus”. 

Não podia haver nada mais solene do que isso. Naquele momento, Perus e sua paróquia eram mais importantes que o Vaticano, que Roma, que Aparecida do Norte, Brasília ou Rio de Janeiro. Éramos insuperáveis. Tudo parava por alguns segundos, pelo menos na minha imaginação. Nem sei o que o locutor falava depois. Talvez banalidades, anúncios locais… Não importa. Naquela hora era Tchaikovsky.  E  Tchaikovsky  era o papa. Ele nos aproximava de Deus, mais do que qualquer sermão, livro, exortação. Era um momento simplesmente lindo, majestoso…

O locutor era meu irmão, o Bonifácio. Ele faleceu há alguns anos e entre as inúmeras coisas boas e bonitas de que me recordo a seu respeito, essa foi a mais apropriada que achei para homenageá-lo.

Como dizem meus filhos, “era a sua cara”… Tchaikovsky em Perus, São Paulo.

Flávio Cruz é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Envie você também seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: cinco passos para construir a sua marca

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“O produto tem de ser bom, tem ter qualidade, porque não existe marca boa com produto ruim”

Jaime Troiano

Começar um negócio nunca é fácil, por mais entusiasmados que os novos empreendedores estejam. A tarefa se tornará mais simples a medida que alguns processos sejam respeitados, a começar pelo desenvolvimento do produto e serviço, que exigem planejamento, tempo e recursos. É depois dessa etapa que se inicia a jornada em busca de uma marca que se identifique com os propósitos do negócio e entregue aquilo que está sendo prometido. 

No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Cecília Russo e Jaime Troiano trouxeram um guia de construção de marca, com cinco passos que podem ser seguidos independentemente do ramo em que se pretende atuar: loja, roupa, escola, oficina técnica … enfim, o negócio você cria. A marca, a gente ajuda.

Vamos ao passo a passo:

  1. Definir o público-alvo com que a marca quer conversar: raramente uma marca fala para todo mundo, por isso decidir o perfil dos clientes é ponto de partida sempre. Uma dica: faça uma descrição completa, não apenas em termos sócio demográficos, mas também comportamentais.
  2. Definir o posicionamento: quais são os diferenciais do seu negócio? O que se quer que as pessoas pensem dele? É preciso listar diferenciais e eleger os mais relevantes. Um posicionamento não pode ser uma extensa soma de atributos, pois as pessoas não conseguirão captar tudo.
  3. Nome da marca: tem de estar apoiado no produto e na promessa que o negócio carregará. O nome não conseguirá contar tudo, mas não pode atrapalhar. Fuja do lugar-comum e busque algo que ajude você a ser lembrado. Nomes muito genéricos ficam perdidos na paisagem. 
  4. Criar logotipo e identidade visual: essa etapa vai guiar todas as expressões da marca — design, fachada, ambiente, símbolos e cores — para dar coerência ao negócio, e, por isso, temos que respeitar o posicionamento definido no passo dois.
  5. Fazer a comunicação: é preciso que o público conheça a marca e passe a considerá-la. Nessa etapa entram todas as iniciativas de comunicação, on e offline, desde fazer parcerias com outros negócios, usar as redes sociais, fazer publicidade e desenvolver conteúdo que podem ser aproveitados nas mais diversas mídias.

“Dediquem-se a construir um produto excelente, claro, mas não atropelem a construção da marca. É a partir dela que seu produto vai acontecer”

Cecília Russo

No programa que você ouve a seguir, Jaime e Cecília ilustram os cinco passos para construção da marca, tendo como exemplo o desenvolvimento de um buffet infantil. Vale a pena ouvir para entender como você pode aplicar a fórmula no seu produto ou serviço:

Mundo Corporativo: Luciano Santos, do Facebook, sugere que você seja egoísta em sua carreira (antes de criticar, leia o texto)

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“Tanta gente veio antes, aprendeu tanta coisa, então, tente achar aí a sua maneira e a sua estratégia, mas tenha mentores na sua carreira”

Luciano Santos, Facebook

Seja colaborativo. Compartilhe o seu conhecimento. Escute as pessoas. Entenda a necessidade do seu colaborador. Todas essas frases, não por acaso com o verbo no imperativo, devem ser exercitadas no ambiente de trabalho e nas relações profissionais; e nos remetem a olhar para o outro. Luciano Santos, executivo de vendas do Facebook, concorda com isso, mas, diante do que encontra nas corporações e com as pessoas com quem interage, decidiu-se por fazer um convite diferente: olhe para você mesmo! Parece uma ideia egoísta. De certa parte é mesmo. Mas, se é possível assim dizer, é um “egoísmo saudável”.

Luciano é autor do livro “Seja Egoísta Com a Sua Carreira – descubra como colocar você em primeiro lugar em sua jornada profissional e alcance seus objetivos pessoais” (Editora Gente) e explicou seu objetivo em entrevista ao Mundo Corporativo:

“As pessoas consideram o que os familiares falam, o que o chefe fala, e sempre se colocam em último lugar. Então, eu falo que o título (do livro) é um pouco de exagero; é uma provocação, para a gente ter consciência que, se eu não me colocar como protagonista da minha própria carreira, ninguém vai”.

Considerando o melhor dos sentidos para esse egoísmo defendido por Luciano, ele assume que o foi durante a carreira, por instinto, muito mais do que por ensinamento. Nessa linha, sempre que possível privilegiou o aprendizado ao salário. Por duas vezes, deixou empregos que remuneravam mais por empregos que o ensinariam mais. A despeito da formação em letras, migrou para o ramo da tecnologia, tendo passado pelo UOL, Google e, agora, Facebook. Diz ter sido um acidente o fato de o profissional de letras com pós-graduação em comunicação jornalística se transformar em profissional de tecnologia. Um acidente provocado por intervenção do irmão que havia estudado processamento de dados e o ensinou a acessar e-mails e navegar na internet — duas habilidades que eram diferenciais competitivos na época em que se iniciou na carreira.

“Eu estava procurando uma vaga de redator júnior, algo ligado à minha formação. Meu irmão insistiu para colocar no meu currículo. Não tinha colocado esse dado tão importante. Eu coloquei, mandei para Folha de São Paulo, que na época tinha aquele projeto junto com a Abril, chamado Universo Online, o UOL, e só porque meu irmão me deu aquela mentoria de currículo e eu coloquei aquelas duas pequenas informações acabei parando no UOL e Isso mudou completamente a minha carreira”.

Cuidar bem do seu currículo é um dos passos para “ser egoísta” na carreira. É o primeiro elemento do que Luciano chama de tripé da empregabilidade: currículo, narrativa e networking: 

  • Currículo — um erro muito comum é não colocar algumas experiências  que são absolutamente relevantes.
  • Narrativa — uma entrevista bem sucedida nada mais é do que uma história bem contada; esteja preparado para contar a sua história.
  • Networking —  é o irmão direto da indicação, a melhor forma de ingressar no mercado de trabalho. Networking é estratégia de longo prazo que deve ser alimentada em toda carreira e não apenas quando o profissional perde o emprego.

Ao consultar 1.500 profissionais, Luciano Santos encontrou 60% deles infelizes em suas carreiras, e muitos extremamente infelizes, o que leva a uma série de problemas de saúde e comportamento: burnout, ansiedade, e dificuldade em tomar decisões. Ele entende que são múltiplos  os motivos que levam a esse cenário e destaca dois: o primeiro é a falta de treinamento de lideranças; e o segundo, a falta de consciência sobre como gerencias a própria carreira”

“… como eu tomo uma decisão? Eu devo planejar minha carreira? De que maneira eu comunico com o meu líder? Tem muitas coisas que a gente pode aprender e não só pode como deve aprender a fazer”

Assista ao vídeo  completo da entrevista com Luciano Santos ou ouça o podcast do Mundo Corporativo.

O Mundo Corporativo tem a colaboração de Bruno Teixeira, Débora Gonçalves, Renato Barcellos e Rafael Furugen.

Conte Sua História de São Paulo: o charme da gente simples nos tempos da minha Oscar Freire

Por Yip Cho Paul

Ouvinte da CBN

Vivi grande parte de minha infância, dos seis aos 13 anos, na rua Oscar Freire. Não na Oscar Freire das butiques cheias de glamour e da gente elegante. Na Oscar Freire da gente simples e das casinhas singelas. Elegantes — que eu me lembre, e que me marcaram — só havia mesmo dois lugares: o antigo ateliê de Clodovil Hernandes e o restaurante Frevinho — este ainda lá, embora não exatamente no mesmo local. Passava por eles sempre que ia à Rua Augusta. Essa sim, famosa e imortalizada pela música de Ronnie Cord, da Jovem Guarda. Era repleta de lojas, e com bondes subindo e descendo. Visitava com frequência uma loja de armarinho, onde tínhamos o costume de comprar lã; e, também, sempre passávamos em frente à loja Zogbi.

Cursei os dois primeiros anos do primário em uma escola de freiras, a Madre Maria Eugênia. Ia a pé com minhas irmãs, sempre tomando cuidado para atravessar a perigosa Avenida 9 de Julho. A escola tinha um amplo bosque e, nesse bosque, uma pequena gruta com a estátua da Virgem. Toda segunda-feira havia missa e nós, alunos, atravessávamos o bosque para chegar à igreja ao lado do colégio Assunção. O colégio, particular, ainda existe, já a minha antiga escola foi vendida em meados de 1970 para ser demolida e, com outros prédios, dar lugar ao supermercado Eldorado, depois Carrefour e atualmente Shopping Pamplona. Na época, os pais reclamaram do absurdo de uma escola dar lugar para um supermercado. Coisas do progresso? Pelo menos a estátua da Virgem foi conservada quando o supermercado foi construído. Hoije, já não sei o que foi feito dela.

Naquela tempo, andava-se muito. Não raramente tínhamos que subir ladeira acima até a Paulista para chegar na agência de Correios. 

Quem já viu a ladeira da Rua Ministro Rocha Azevedo deve saber da dificuldade de se subir até o espigão a pé! Mas, felizmente, havia a ladeira da Rua Padre João Manuel, um pouquinho menos íngreme, ainda assim, árdua! Coitado do meu irmão que estudava no Dante Alighieri e tinha que escalar o morro todos os dias! Haja pernas e fôlego! Sorte que para ir ao supermercado não se precisava andar muito. Ficava logo na esquina. Hoje, o supermercado Hispania deu lugar ao Pão de Açúcar.

Quanto à casa em que eu morava, era geminada, tipo “linguiça”, muito estreita, com cerca de quatro metros de largura e 40 de profundidade. Fuçando os documentos  — sim, na época eu já gostava de fuçar! —, descobri que a casa tinha história: fora construída por um imigrante, doceiro, de nome David Kopenhagen! Quem diria! Pena, a casa não existe mais. Como muitas outras foi vendida para empreendimento imobiliário e, em 1976, mudei-me para o Brooklin. Mas aí  já é outra historia.

Yip Cho Paul é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para  ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: quando a “Sucessão” dá certo!

Cena de Sucession em foto: divulgação

“Não existe uma receita de bolo pra isso”

Jaime Troiano

Logan Roy é um famoso bilionário que lidera uma rede mundial de comunicação e construiu um império empresarial, nos Estados Unidos. Ao descobrir uma série de complicações de saúde, sai em busca de alguém da família para substituí-lo, movimento que abre uma sucessão de dramas, conflitos e escândalos que, se não resolveram o problema da empresa familiar até agora, proporcionaram ao público uma das melhores séries de televisão de todos os tempos. Roy é interpretado pelo ator Brian Cox e a série Sucession, que está em sua terceira temporada, tem roteiro assinado por Jesse Armstrong e a direção de Adam McKay. 

Além de entretenimento garantido, Sucession tem todos os elementos para quem pretende entender os motivos que levam empresas familiares ao sucesso ou ao fracasso. Foi o que disse Jaime Troiano na conversa de sábado, ao lado da Cecília Russo, em Sua Marca Vai Ser Um Sucesso. Como não havia uma receita de bolo para oferecer, Jaime deixou a cozinha de lado e foi encontrar a resposta na sala de TV:

“A melhor lição de casa que eu poderia sugerir. Uma aula sobre relações familiares e empresariais”.

Jaime Troiano

No comentário, que foi ao ar no Jornal da CBN, Jaime e Cecília listaram cinco razões que explicam porque algumas marcas familiares alcançam a longevidade e outras ficam no meio do caminho. 

Vamos a elas:

  • Famílias estruturadas que partilham de valores humanos sólidos, que pautam o que fazem por meio deles, dão mais certo. Famílias, onde há respeito entre as gerações tendem a crescer e se preservar.
  • Quando o corpo de funcionários sente como os que gerenciam a família, se entende bem e nutrem relações construtivas entre si, esse clima passa a todos.
  • A falta de harmonia familiar contamina o ambiente e o bem-estar dentro da empresa e leva cada um a ter uma visão, um olhar sobre as marcas da empresa diferente. 

“A energia interna despendida em disputas drena a energia que poderia fortalecer a marca”

Cecília Russo

  • A importância de os fundadores e os que vêm depois terem no sangue uma habilidade particular e uma paixão por aquilo que fazem. 
  • Outro fator que compromete a sucessão de uma empresa é não ser pautada por um propósito claro e muito bem disseminado. Um propósito que revele qual a razão de ser dessa empresa no mundo. 

“Quando suas autênticas qualidades se cruzam com as necessidades do mundo, aí está nesta intersecção o seu Propósito” 

Aristóteles

Antes de correr para a tela e assistir a Sucession, clique no arquivo a seguir e ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, com sonorização de Paschoal Júnior:

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar no Jornal da CBN, aos sábados, às 7h55 da manhã. 

Mundo Corporativo: Cláudia Pombal, da DaVita, diz que diversidade tem de estar na cultura da empresa

Imagem reproduzida da @DavIta, no Twitter

“Cultura vai muito além do que a gente bota numa parede, do que a gente faz no discurso. Cultura são os hábitos, são os costumes do dia a dia que nos levam a ter essa realidade”

Cláudia Pombal, DaVita

A diversidade no ambiente corporativo tem de ser legítima e genuína. Mais mulheres entre os colaboradores não é suficiente para que se tornem reais os benefícios que a pluralidade de visões pode trazer. É preciso que isso faça parte da cultura organizacional e tenha o engajamento dos líderes da empresa. É o que Cláudia Pombal, diretora de Recursos Humanos da DaVita Tratamento Renal, defendeu em entrevista ao programa Mundo Corporativo:

“A empresa tem de estimular que a mulher tenha esse protagonismo no ambiente de trabalho, bem como a mulher também tem de entender o seu valor e se colocar, também, nesse lugar. É uma combinação do ambiente ser favorável e a atitude das mulheres”.

A DaVita tem cerca de seis mil colaboradores e 70% são mulheres, muitas em postos de liderança — um facilitador nessa conta é o fato de atuar no setor da saúde em que as funções de enfermagem e auxiliar de enfermagem tradicionalmente são exercidas por mulheres. O grupo nasceu nos Estados Unidos há 20 anos e chegou ao Brasil em 2015, onde mantém 91 operações com presença em clínicas de diálise e hospitais. Por aqui, há um processo de expansão que se acelerou nos dois últimos anos, com 43 aquisições, em 2020 e 2021.

Para enfrentar a pandemia, a empresa teve de conviver com experiências diferentes ao mesmo tempo, pois se funcionários de áreas administrativas migraram para o trabalho remoto, os que atendem os pacientes tiveram de se manter na linha de frente. Houve maior demanda de serviços, o que obrigou a  DaVita a contratar em ritmo acelerado. Cláudia conta que em um dos períodos da pandemia, foram contratados 150 funcionários em apenas 15 dias. Uma das ações desenvolvidas pelo grupo foi a criação de auxílio psicológico para colaboradores e familiares.  Houve, ainda, maior preocupação com o engajamento das equipes, aprofundamento do olhar sobre as particularidades de cada uma das operações e um aprendizado intenso quanto a exigência de todos serem mais flexíveis, diante das mudanças de cenários.

“A pandemia veio para falar: tudo que você tem como crença é muito legal, te trouxe até aqui, mas não te leva para o próximo passo. Então, repensa e repensa rápido, e reconstrói muitas coisas no caminho”.

Cláudia é economista de formação e apesar de gostar muito de números se apaixonou mesmo foi por cuidar de pessoas e, por isso, logo cedo buscou conhecimento no setor de RH e foi convidada para atuar nesta área:

“Eu sou muito feliz e muito realizada. É um caminho incrível. Você aprende muito todo dia, é desafiada a lidar com gente e é algo que não tem fórmula, não tem receita”.

Assista à entrevista de Cláudia Pombal, ao Mundo Corporativo:

Colaboram com o programa: Bruno Teixeira, Renato Barcellos, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.

Conte Sua História de São Paulo: com a cara de todos os povos

Por Maria Aparecida Baricca Ferreira de Sousa

Ouvinte da CBN

Photo by Toni Ferreira on Pexels.com

Conversando com minha afilhada Bia, contamos histórias sobre a convivência em Sampa nos anos 60, 70, 80 — época da minha infância à juventude. Ao relatar a diversidade de nacionalidades que havia na quadra da rua onde crescemos, ela falou: 

“Vocês viviam cercados de Embaixadas!”.

Como sabemos a cidade de São Paulo, no século XX foi se transformando em uma grande metrópole, a população explodindo, movimento intenso. São Paulo da garoa, São Paulo que não pode parar, São Paulo desvairada, São Paulo a locomotiva que move o país. A Sampa, de Caetano Veloso, uma cidade a ser traduzida, uma mistura de arranha céus, deselegância discreta.

A cidade sempre acolheu muitos imigrantes estrangeiros, que chegaram ao Brasil em diferentes momentos e motivos. Muitos brasileiros migraram também para cidade de São Paulo, em busca de melhores condições de vida. Meus pais, no fim dos anos 50, um casal com seis filhos, desejavam estar em uma cidade que proporcionasse estudo, saúde e oportunidade de trabalho. Eles só não sonhavam que teriam mais dois filhos, meu irmão Octavio e eu.

Uma característica de São Paulo é ter bairros com a cara do povo que ali habita. Bairro operário, bairros de italianos, de japoneses, de nordestinos, etc. 

A Vila Romana, na Lapa, era um bairro bem arborizado, com ruas de paralelepípedos, cheio de casas. Ao entrar no bairro, procurando a casa anunciada para aluguel, minha mãe não teve dúvidas que ali era o lugar onde deveria morar. O bairro próximo ao comercio grande, tinha indústrias, fabricas, oficinas. Ao mesmo tempo era muito acolhedor, com muitas escolas, igrejas, parques, transporte farto, segurança, padaria, armazém, mercados, feiras livres, cinemas e festas populares. Enfim, uma comunidade que favorecia criar uma família, vinda ela de qualquer lugar do mundo. 

Ali, fomos descobrindo famílias de várias nacionalidades e famílias de diversas regiões do Brasil. Partilhamos experiências culturais e habilidades diferentes. A amizade permitiu nos aproximar de cada uma delas, sem interferência na intimidade ou discriminações de credo ou raça, vejam:

A família de portugueses, “uma casa portuguesa com certeza”, arrumada na simplicidade e decorada com muito crochê feito pela matriarca. Educados, estudiosos e religiosos. Na época de natal havia uma mesa com rabanadas e vinho do Porto.

A família de alemães, o casal era bem discreto, 05 filhos, as regras da casa eram bem definidas e obedecidas pelas crianças (nem sempre, afinal criança apronta em qualquer nacionalidade). As crianças, além de estudar, também tinham que participar de alguma atividade física extra: ginastica, atletismo ou ballet. Faziam bolos de aniversários imperdíveis, para os convidados. 

Os descendentes de italianos, onde minha família está incluída, sempre foi uma turma mais barulhenta. Tendo sempre uma nona ou um nono para cuidar, mas também para mandar na gente. Muito almoço partilhado com quem chegasse e muita bebida para brindar.

Os sírios com seus olhos marcantes, pessoas bem-humoradas e afetivas, uma família mais patriarcal. Com uma mama que cozinhava muito bem. Uma culinária que parecia festa:  esfiha, Kibe, doces. Pessoas que podemos chegar e bater um papo bom até hoje.

Os mineiros com suas alegrias e também lutas, muita cumplicidade e amizade com todos.

Os alagoanos, família toda trabalhava, a criançada aproveitava para brincar na casa sem adultos.

Os pernambucanos, uma distração a parte, era divertido ver a arruaça que a mãe deles fazia. Não importava a idade da filha ou filho, o que estava fazendo e com quem, ia na janela da casa gritava o nome, dava uma bronca, soltava um palavrão e mandava entrar.

Aliás, naquela época a gente não esperava os pais mandarem entrar, pois você teria um problema. Todos sabiam o seu limite de rua e tratassem de obedecer. Ficar na rua brincando até tarde era igual a ficar no celular ou joguinhos hoje.

Também, conhecíamos os vizinhos pela profissão ou pelo jeitão:

D. Bem, “tudo bem? ”, essa era sua expressão. Uma criatura muito gentil para com todos os vizinhos. A Tereza costureira; D. Graça, espanhola, que vendia os sonhos mais gostosos do mundo. D. Lúcia, portuguesa, dona da mercearia, que se solidarizava com todos que precisavam de sua ajuda para concluir o almoço. O Aguiar do bar da esquina, que gentilmente cedia o seu telefone para recados da vizinhança. Seu Alípio, o barbeiro, um baiano com sorriso de orelha a orelha. O japonês da tinturaria, a lavadeira nordestina, eles foram os primeiros Delivery que conhecemos, ambos retiravam as roupas em casa e as devolviam limpas e passadas.  O dono da fabriquinha, a mulher do tricô, o mecânico, o advogado, o Del Nero do depósito de bebidas, dona Nenê, professora de datilografia.

Parte da nossa integração acontecia aos domingos, era um dia bem distinto. Logo de madrugada armava-se a feira livre. Na parte da manhã, tinha a vida religiosa, missa, cultos, etc., depois as compras na feira, o preparo do almoço e a tarde brincar na rua. Como era domingo apareciam mais criança, pois vinham visitar os parentes e assim conhecíamos os primos, sobrinhos e netos. As mães também tinham seu momento de convivência. Era uma relação sem combinar, espontânea, acontecia na porta de casa ou na varanda. 

As crianças aprendiam a lidar com as situações ou emoções que brotavam naquela convivência, uma pequena ofensa, um machucado causado por um empurrão. A intromissão dos pais só acontecia se essas coisas ultrapassassem os limites de uma boa convivência entre os vizinhos, um desrespeito grave, ou se quebrássemos algo dos amigos ou da vizinhança.

Posso dizer que sempre me senti muito grata por ter vivido num espaço tão diverso em cultura, recheado do propósito de trabalho, educação, cheio de brincadeiras e aventuras de juventude. Isso criou laços de amizades que duram até hoje. Foi uma grande oportunidade como “Ser Humano”. 

Realmente, vivíamos na simplicidade, mas como diplomatas de embaixadas.

Maria Aparecida Baricca Ferreira de Sousa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Envie o seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: cuidado com a tentação de querer ser jovem e moderno

Farinha Dona Benta é um exemplo de marca que mantém as raízes Foto: Kaique Lopes on Pexels.com

“The fruits are in the roots” 

Joey Reiman, sócio-fundados da Bright House

A frase “os frutos estão nas raízes” surgiu originalmente em inglês, língua pátria do publicitário Joey Reiman, e inspirou seus sócios aqui no Brasil de tal forma que até hoje se ouve esta máxima nas conversas, formais e informais, de Jaime Troiano e Cecília Russo. Foi assim, no inglês mesmo, que eles trouxeram o assunto para o nosso bate-papo, no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso. E se o fizeram era pela lição que não deve ser esquecida por marcas e por pessoas: o respeito às suas raízes.

Especialmente em momentos de enorme e rápida transformação, como este que vivemos, é enorme o risco de as empresas e seus gestores terem ideias “geniais, jovens e modernas”. Isso significa que as marcas estão condenadas a serem o que sempre foram? Não, necessariamente! No entanto, qualquer mudança que se pretenda fazer, precisa estar conectada com a sua história: 

“Aquilo que as marcas são nos momentos ou anos iniciais de suas vidas determina como ela se desenvolverá e será vista no decorrer de sua história. Essa é uma visão fundamentalista? Uma condenação que as engessa para sempre? Não. Ao contrário, é a verdadeira fonte de oportunidades que a marca pode aproveitar. É sua fonte de inspiração. É aquilo que faz dela ser ela mesma”

Jaime Troiano

A forma como as marcas são vistas pela sociedade não nasce de repente, fruto de de uma nova campanha de comunicação, de uma nova ação digital ou de uma decisão gerencial de alta direção. O fruto está nas raízes … ops, perdão pela redundância: 

“Como psicóloga, eu aprendi na vida do meu consultório, na vida da minha psicoterapia, nos cursos que fiz, nos livros que li que as raízes nos perseguem, nos orientam, nos inspiram a vida toda. Lembrei de uma coisa: a sombra do Peter Pan fugia dele e precisou ser costurada. Nossa raízes e das marcas não precisam ser costuradas, elas não se descolam de nós”. 

Cecília Russo

Uma das marcas que ilustram bem essa verdade é a ‘Dona Benta’, criada em 1979, pela A.J Macedo, uma empresa que atua no mercado de moagem de trigo. fundada em 1939. Sempre obedeceu suas raízes ao trabalhar com produtos relacionados a comidas saborosas e com “receitas de carinho”, que é o seu lema. A farinha de trigo, os cookies, a mistura pronta para bolo .. todos são frutas das suas raízes, ou seja, do trigo. 

“As marcas que ignoram suas raízes, porque querem dar um salto maior que a perna ou porque um novo dirigente da empresa quer impor uma nova identidade à marca, sempre quebram a cara. O tempo senhor da razão!”

Cecília Russo

Uma área em que a busca pela modernização põe em perigo a manutenção de uma marca é a do setor de bancos, a media que se tem uma ebulição digital, das fintechs, do open banking, do banco digital. Uma transformação que faz com que alguns bancos esqueçam de que solidez, maturidade confiabilidade são as raízes mais importantes de uma instituição financeira: 

“O Itaú é um belo exemplo do quanto o respeito por suas raízes, tem sempre inspirado o crescimento e prestígio do banco. Aliás, seria coincidência que a raiz da palavra Itaú em tupi-guarani significa pedra preta? E se há uma sólida é uma pedra, né?”  Cecília Russo

Diante de todas essas referências, a marca do Sua Marca não poderia ser outra, diz Jaime Troiano: 

“Para as marcas também, assim como para muitas outras coisas na vida, ‘the fruits are in the roots’.”

Jaime Troiano

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, com Jaime Troiano e Cecília Russo. O programa vai ao ar, no Jornal da CBN, aos sábados, às 7h55 da manã.

Mundo Corporativo: Sandra Nalli, da Escola do Mecânico, ensina que lugar de mulher é onde ela quiser

Foto divulgação da Escola do Mecânico

“Quanto mais você estuda,  mais capacitado você se torna”

Sandra Nalli, Escola do Mecânico

Loira, baixinha e mulher! Diante desse perfil, homens — especialmente homens — se espantavam quando chegavam no centro automotivo em que Sandra Nalli trabalhava, em Mogi Mirim, interior de São Paulo. Ela não era a recepcionista. Era a mecânica! Era quem dava as ordens no local. Com a sabedoria de alguém que começou cedo na profissão e sempre apostou no conhecimento como diferencial, Sandra se agigantava assim que passava a ensinar os motoristas sobre o que impedia que seu carro estivesse funcionando bem.

Tinha apenas 14 anos quando começou a receber aulas de  mecânica na oficina em que trabalhou. Foi jovem aprendiz. Depois, decidiu levar a prática para jovens internos da Fundação Casa. Nesse momento, percebeu o quanto poderiam ser transformadores na vida daqueles meninos e meninas os ensinamentos que havia acumulado até então: 

“A empresa que eu gerenciava, que era uma rede de serviços automotivos, precisava contratar profissionais qualificados e eu não encontrava no mercado. Aí, comecei a fazer esse trabalho dentro da fundação. E a observar que tinham meninos que de alguma forma poderiam ser recuperados, voltar à sociedade e, até mesmo, serem incluso no mercado de trabalho”.

Ao programa Mundo Corporativo, Sandra Nalli disse que o trabalho voluntário na Fundação Casa, começou a ganhar forma de negócio quando alugou um pequeno escritório no centro de Campinas e mandou grafitar na parede: “Escola do Mecânico”.

“Eu acabei quebrando algumas barreiras e hoje eu tenho bastante orgulho em dizer que eu sou a fundadora da Escola do Mecânico e que nós temos um grupo de mulheres que estudam com a gente também e que a gente pretende incluí-las no mercado de trabalho”

A sala transformou-se em escola, e a escola em uma rede que, atualmente, tem 35 unidades, em nove estados brasileiros. Naturalmente, a escola passou a ter “cadeiras” ocupadas por meninas, inspiradas na história de Sandra. O sucesso e protagonismo dela também abriram o olhar de parceiros de negócios que entenderam que não existe reserva de mercado para homens:

“A gente tem depoimentos aqui de alguns colegas, donos de oficinas, que em um primeiro momento tinham restrições em contratar mulheres mecânicas. Hoje, a gente tá com o segundo pedido de colocação de mão de obra (feminina) para mesma mesma oficina. Significa dizer que que foi bem sucedido, né?”.

Em 2018, Sandra deu mais um passo na sua jornada para criar oportunidades no mercado de trabalho, criou o “Emprega Mecânico”, um aplicativo que conecta empresas e oficinas com profissionais em busca de emprego:

“O mecânico não está no Linkedin, e a nossa ferramenta é adaptada para esse tipo de ofício”.

Além de mecânico, a intenção da Escola é preparar os alunos para serem gestores dos seus negócios. Assim como Sandra foi aprender no Sebrae sobre a necessidade de criação de um plano de negócios, identificação de barreiras e oportunidades, localização do empreendimento e fluxo de caixa, agora transfere esse conhecimento aos estudantes. De acordo com a executiva, 20% dos alunos querem empreender, abrir um negócio próprio — uma oficina de motocicleta, de reparos automotivos, de caminhões, ônibus e maquinário agrícola. 

Além do conhecimento técnico e das estratégias de gestão, Sandra Nalli ensina na Escola do Mecânico, que é preciso ser resiliente diante das dificuldades que se tem para empreender no Brasil, especialmente se forem mulheres; disciplina, muito estudo e muita coragem:

“Eu me lembro quando eu fui empreender. As pessoas diziam assim: você tá louca, vai sair de um emprego, você tem um emprego extremamente interessante, você levou 20 anos para chegar nessa posição e agora vai pedir demissão. Se eu acredito no  que eu vou fazer, então, tem de quebrar o paradigma do medo, também!”

Em tempo: “loira, baixinha e mulher”, foi assim que Sandra Nalli se descreveu durante a entrevista, tá!

Assista ao programa Mundo Corporativo da CBN com Sandra Nalli, fundadora da Escola do Mecânico

O Mundo Corporativo pode ser assistido ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, no canal da CBN no YouTube, no Facebook e no site da CBN. Colaboram com o programa: Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Priscila Gubiotti e Rafael Furugen.