Avalanche Tricolor: Se inspirem em Lumumba

 

Ceará 2 x 1 Grêmio
Brasileiro – Fortaleza

8822911Azul de tão negro, assim se definia Paulo Lumumba, que conheci quando ainda era menino e visitava quase que diariamente o estádio Olímpico com meu pai. “Meu irmão” era como chamava seus interlocutores mais próximos, com um cumprimento recheado do sotaque sergipano que manteve apesar de tantos anos vivendo longe de seu Estado.

O orgulho por sua própria história e raça estava não apenas no andar altivo, com peito cheio e cabeça em pé, mas na voz e forma de conversar. Tinha condição física invejável, e lembro-me razoavelmente dele batendo a mão sobre o músculo do antebraço para mostrar suas resistência. Se não me falha a memória, ensaiava discursos para enaltecer a força daqueles que foram escravos.

Tive o prazer de passar às mãos dele, no Pórtico dos Campeões, a tocha carregada em maratona para comemorar os 80 anos do Grêmio. Dela participei pois ainda era jogador de basquete no clube. Quando a recebeu, o rosto de pele lisa – e azul – não escondia a emoção pela homenagem. A conduziu até a parte interna do estádio Olímpico com a certeza de que ali havia o reconhecimento a tudo que ele representou ao Tricolor.

Não o assisti jogando, pois quando vestiu a camisa gremista eu estava para nascer. Diziam ter sido um atacante e tanto. Formou uma das melhores equipes que o Grêmio teve em sua história com Marino, Milton Kuelle, Gessy, Juarez e Vieira, nos anos de 1960.

Fui saber recentemente que também havia jogado no São Paulo, onde fez ao menos uma boa temporada, antes de ser vendido para o Sul. A transferência foi definitiva. Depois de encerrar carreira como jogador, permaneceu no clube onde chegou a treinar a equipe principal, antes de Telê Santana assumir como técnico. Trabalhou no auxílio de treinadores e foi responsável pelas categorias de base. Nunca mais deixou o Rio Grande do Sul.

Antes de a partida de sábado à noite se iniciar, o árbitro pediu um minuto de silêncio em homenagem a Paulo Lumumba, que havia morrido aos 74 anos. Provavelmente a maioria daqueles jogadores que vestiram a camisa do Grêmio contra o Ceará não tinham a menor ideia do que ele significou para o clube. É bem provável, também, que eles não tenham a menor ideia do que o Grêmio significa para nós.