Avalanche Tricolor: se é “vida ou morte”, então é com a gente

 

Universidad Católica 1×0 Grêmio
Libertadores – Santiago do Chile

 

Gremio x Universidad Catolica

Kannemann,  o melhor do nosso time, é destaque em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

A experiência em assistir, ao vivo,  à uma partida pelo Facebook começou muito mal — em todos os sentidos. Meus computadores da Apple me deixaram na mão.  A bola já estava rolando e em nenhum dos meus equipamentos, em nenhuma das minhas contas e em nenhum dos links que os amigos gremistas me enviaram fui capaz de ver o futebol gremista.

 

Cheguei a pensar que era uma conspiração das máquinas — logo elas que sempre haviam me tratado bem e oferecido facilidades para trabalhar e me divertir ao longo do tempo. Demorei para perceber que aqueles computadores estavam apenas querendo me alertar. Mandavam recados do tipo “não insista”, “hoje nada vai funcionar” ou “quem sabe quando a transmissão for pela televisão?”. Não entendi a mensagem. Insisti.

 

Busquei a salvação no Windows de um dos filhos. Mas quando descobri que ali estava a solução, já tínhamos quase meia hora de jogo. E, sim, o pior já havia acontecido. Não, minto. Pior mesmo foi ver o que vi na sequência. Já com a imagem tomando conta de todo o super-monitor que um dos meus guris joga seu games e disputa suas partidas virtuais, ficou muito claro que não seríamos capazes de sequer operar um milagre em campo, nesta noite de quinta-feira.

 

O atraso comum no sinal da internet — coisa de 30 segundos, não muito mais do que isso —, mesmo com uma banda larga de qualidade aqui em casa, refletia o atraso do futebol que apresentávamos. A bola chegava atrasada no pé do companheiro, o marcador chegava atrasado no atacante adversário, o passe saia para trás. 

 

Mesmo com a boa conexão que gerava uma imagem de qualidade, não fui capaz de ver o futebol gremista em campo, simplesmente porque o futebol gremista não se apresentou em campo, nesta terceira partida da Libertadores. 

 

Para ter ideia, a melhor notícia da noite foi saber que tanto nosso técnico  quanto nossos jogadores — e jamais desconfiei que agiriam diferente — saíram de campo conscientes de seus erros, em lugar de buscar desculpas naqueles elementos que geralmente os times que jogam mal se debruçam para justificar uma derrota. 

 

Foi ali, ainda ao lado do gramado, que ouvi de Everton a frase: “agora é vida ou morte”. Como sou um eterno torcedor e otimista, voltei ao meu Apple, abri a calculadora, fiz as projeções, somei três pontos aqui, mais três ali, menos três do adversário acolá, e cheguei a conclusão de que está muito difícil mas ainda temos chance nesta Libertadores. 

 

Até porque, caro e raro leitor desta Avalanche, se “agora é vida ou morte”, chegou a nossa hora. Que venham os próximos compromissos, mas , por favor, que sejam só na televisão, porque esse negócio de Facebook dá um baita azar.

 

 

 

 

 

 

Avalanche Tricolor: no deserto, líder e prejudicado

 

 

Deportes Iquique/Germano Delfino 2×1 Grêmio
Libertadores – Zorros del Desierto/Calama CHI

 

 

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Barrios marca em jogada ensaiada, na reprodução da FoxSport

 

 

O jogo foi no deserto de Calama. E o deserto é seco. Como era seco o campo, onde a bola mal rolava. Secou também o futebol do Grêmio, nesta noite, no Chile, especialmente após a intervenção do árbitro.

 

 

No mano a mano, enquanto éramos nós contra eles, fomos melhor.

 

 

E melhor chegamos ao gol, após cobrança de falta bem ensaiada: o cruzamento encontrou Kanemann no primeiro pau que, de cabeça, desviou para o outro lado, onde estava Barrios, o goleador. E goleador está lá para fazer o que Barrios faz. Marcado, acossado … tanto faz. Ele chuta a gol. E marca. Foi o quinto nas três últimas partidas.

 

 

Um pouco antes do gol, foi o mesmo Barrios que se colocou à frente dos zagueiros para cabecear no travessão. Um pouco à frente. O suficiente para estar impedido, o auxiliar perceber e o juiz parar a jogada. Estava certo o árbitro, desta vez. Em todas as outras jogadas cruciais, ele errou. E errou todas contra nós. Nenhuma para o adversário. Um típico árbitro ruim só para um lado.

 

 

Do pênalti, se desse jogo perigoso teríamos aceitado. Deu pênalti, permitiu a reação do adversário e tirou o Grêmio do sério. Não bastasse, usou o cartão amarelo para impedir a marcação forte do nosso time. Nos obrigou a entrar com mais cuidado contra uma equipe que sabe jogar com a bola no pé.

 

 

A secura do futebol gremista só acabou quando Arthur entrou no meio de campo. O menino fez a bola rodar para cá e para lá. Virou o jogo, encontrou colegas livres de um lado e de outro. Aproximou-se de Barrios e buscou o gol. Confesso, me fez pensar que se estivesse no time desde o início talvez tivéssemos reagido melhor aos erros do árbitro. E à marcação do adversário.

 

 

Agora é esperar que na rodada final volte a confiança no futebol que gostamos de jogar, com marcação alta, movimentação intensa, troca de passe rápida e velocidade em direção ao gol. Esperar que o árbitro se limite a arbitrar. E a Arthur seja dada a oportunidade de jogar.

 

 

Em tempo. Antes de começar com mimimi, lebre-se: o Grêmio é líder na Libertadores.

Conte Sua História de São Paulo: fui recebido na cidade pelo Henfil

 

Por Alejandro Rosas Vera

 


 

 

Morava no Chile quando surgiu a possibilidade de uma viagem para Belo Horizonte. Era janeiro. Eu deveria estar lá em março. Por tanto, e para fazer hora, fui pelo Norte: –Assim aproveito e conheço a Amazônia–, disse aos meus pais. – É só dar a volta por cima, descer pelo litoral, e do Rio a Minas, um pulinho.  Os mapas mentem descaradamente. Passei mais de um ano viajando pelo Brasil e meu compromisso em BH foi para as cucuias.
 

 

São Paulo me chamou mais forte com seus cantos de sereia, e acabei fixando como destino final da minha viagem essa cidade da qual ouvia falar em cada estradinha da Amazônia, casinha do Nordeste ou bar dalgum morro carioca.
 

 

Aprendi português na viagem, e quando cheguei na Rodoviária do Tietê,  carregava todos os sotaques possíveis do Brasil e a mochila suja do pó da estrada. Olhei um mapa e assustado pelo tamanho da cidade e da minha solidão decidi buscar alguém em quem pudesse confiar para me dar uma aula de sobrevivência neste mundo por descobrir. Como não conhecia ninguém e ninguém  sabia de mim, era livre de escolher a qualquer um dos milhões de habitantes para pedir um glosário paulistano, mapa prático, diagnóstico emocional ou um simples cafezinho para me dar as boas vindas. Fui até a banca de jornal, pedi uma Veja, anotei um telefone e liguei. 
 

 

–Oi, bom dia, acabo de chegar e busco o Henfil
 

 

Era o ano 1983, e a doce voz do outro lado, sem perguntar nada, me passou um número. Agradecido, desliguei e respirei fundo.
 

 

No dia seguinte passei cinco horas com o maestro Henfil, que depois de me chamar de cara de pau, me recebeu no seu apartamento perto de Higienópolis e me deu dicas preciosas, me contou do desastre que foi sua estadia nos Estados Unidos pois seus desenhos escandalizaram a sociedade. Disse-me que as viagens de avião são violentas porque não dão tempo de se adaptar ao novo destino, e que para chegar a um lugar como se deve é necessário o mesmo tempo que demoraria se você fosse caminhando.
 

 

Pensava ficar uns meses em São Paulo, mas demorei 20 anos em conhecê-la e me apaixonar. Talvez o tempo que teria demorado em percorrer todas as suas ruas caminhando.

 

Hoje, moro na Espanha, e de São Paulo trouxe comigo o melhor: a saudade, o sentimento de ser parte daquela loucura, e uma paulista que conheci uns dias depois que ao Henfil, que ama a Graúna e cujo celular toca Sampa cada vez que liga alguma de minhas três filhas, paulistas, obviamente.

 

Avalanche Tricolor: isto é jogo de Libertadores

 

Huachipato 1 x 1 Grêmio
Libertadores – Talcahuano (Chile)

 

Huachipato x Gremio

 

Isto é jogo de Libertadores! Luta-se com as habilidades que se tem, supera-se as que carecem com coragem e nada pode ser tão difícil que não sejamos capazes de enfrentar.

 

Fez-se um gol para enaltecer os craques Zé Roberto, nosso melhor jogador nesta primeira fase, e Barcos, um atacante que impressiona mesmo sem marcar. Um golaço de “meia-bicicleta” que teve a participação desta dupla no início, quando a bola foi tomada na intermerdiária, e na conclusão da jogada. O que revela disposição e talento.

 

Ganhou-se um herói. O herói de uma perna só. Manquitolando, Werley vestiu a camisa tricolor com orgulho até o seu final, mesmo com dor. Nada lhe impediria de lutar até o fim (e mesmo depois do fim)

 

Sofreu-se com a pressão adversária e o empate. Chutões para despachar a bola foram necessários. Carrinho na bola, bola prensada e até mão na bola, também, fizeram parte do nosso repertório nessa noite no Chile.

 

E diante de tudo que se enfrentou dentro de campo e no jogo, por que fugir da luta (agora me refiro a campal)? Enfrentamos a violência, injustificável, após a partida, com a mesma garra e determinação que nos levaram a conquista da vaga.

 

Uma noite de Libertadores!

Cético e entusiasmado, o Brasil no voo para o Hexa

 

O aeroporto na Cidade do Cabo estava vazio para suas dimensões. E cheio de torcedores brasileiros a caminho de Johannesburgo. Eram 10 da manhã, e a partida do Brasil seria apenas às oito e meia da noite, hora local. Um deslocamento tranquilo e tenso, ao mesmo tempo. Com check-in sem estresse e voo na hora certa, a apreensão ficava por conta do que aguardaria a seleção no estádio Ellis Park, na disputa pela vaga nas quartas-de-final.

Para completar este cenário de contradições, eu com mala em punho seguia o mesmo caminho que eles, passaria por Johannesburgo, mas não assistiria ao jogo. Nem mesmo na televisão. Estaria a bordo de outro avião tomando o rumo que a nossa seleção só pretende seguir depois do dia 11 de julho: São Paulo.

Duas horas e meia depois de deixar a cidade em que morei nos últimos 21 dias, estava em Johannesburgo e do futebol consegui assistir apenas a alguns minutos da vitória da Holanda na Eslováquia. Suficiente para enxergar o meio-campo Arjen Robben comandando os Laranjas e tocando bola com uma categoria reservada a poucos. Fui saber da classificação holandesa pelo comandante do voo que ao anunciar em um “inglês-africano” o placar foi recepcionado com um leve murmurinho dos passageiros. Ninguém ali parecia preocupado com esta partida.

No ar, restava fechar os olho e esperar que após duas, duas horas e meia, o comandante fizesse novo anúncio. De preferência, a vitória do Brasil. Não consegui dormir. Passei a lembrar daqueles torcedores animados do aeroporto. Um grupo se organizava para vestir a enorme camisa coletiva fabricada em verde e amarelo com o nome do Brasil a frente. Três outros levavam uma imagem de Ronaldinho Gaúcho: “se o Dunga não chama, a gente convoca”. A menina que encerrara seu compromisso no Cabo e deveria voltar ao Brasil conosco ficou exultante ao saber que havia um brasileiro vendendo ingresso para o jogo por U$ 200, bastaria descer na escala em Johannesburgo, remarcar o voo e torcer para que as malas já despachadas chegassem, sozinhas, com segurança a São Paulo.

Todos repetiam o que parece ser um mantra do torcedor brasileiro: “rumo ao Hexa”.

Passavam das 10 e meia da noite, jantar servido, serviço de bordo realizado, quando meu silêncio foi interrompido pela voz no alto-falante: “Ladies and Getlemen: Brazil 3, Chile 0, Brazil qualified for the last 8 of the World Cup”. Gritos e aplausos tomaram conta do voo 224 da South Africa. E eu pude dormir tranquilo sabendo que mais uma vez se confirmava a superioridade brasileira nesta Copa.

O desembarque no Brasil foi depois das 11 e meia da noite, em um aeroporto de Guarulhos ainda mais vazio do que aquele que deixei na Cidade do Cabo. Apenas não tão bonito, muito menos moderno.

Assim que matei a saudade com abraços e afagos, passei a receber um relatório completo sobre o que foi a partida, a partir dos dois analistas mirins que tem me municiado de avaliações técnicas e emocionais durante esta Copa:

“Juan, Robinho e aquele número 9 fizeram os gols”, disse o mais velho. “Precisa ver o que o 9 (eles esquecem o nome composto de Luis Fabiano) fez, pegou a bola assim, cortou pra cá, tirou o goleiro e chutou no gol”, comentou o mais novo desenhando com as mãos toda a jogada do nosso goleador. “Gostei mais do Robinho, ele soltou a perna”. “Legal foi a barreira que os amigos fizeram para o Juan cabecear”, e eles se colocaram lado a lado para mostrar o posicionamento na cobrança de escanteio. “Foi mais de 50 quilômetros por hora a cabeceada que ele deu”. Nesta altura já não sabia mais quem contava o quê. Todos queriam mostrar seu entusiasmo com a vitória sobre o Chile de Bielsa: “o cara não parava no banco, se agachava, virava a cara, bufafa, e ele colocou três atacantes”.

Hoje pela manhã, acordei cedo pra ver os lances da vitória brasileira e ouvir a avaliação dos críticos sobre o futebol jogado pelo Brasil. Do ufanismo que cega ao pessimismo que despreza, havia um pouco de tudo à disposição na TV e nos jornais.

Na dúvida, resolvi pedir ajuda a Marcão, torcedor sofrido do Brasil que tem acompanhado o jogo com os meus dois comentaristas de plantão e que apesar de estar feliz por ter ganhado uma Jabulani de presente ficou cabreiro com a vitória: “Tô lembrando do Maguila que batia em todo mundo, mas quando pegou um cara bom mesmo, se entregou”, referência ao lutador de boxe sucesso por aqui, mas que beijou a lona quando encarou gente grande como Evander Holyfield (1989) e George Foreman (1990).

A alegria dos meninos e o ceticismo do Marcão são sentimentos que parecem uma contradição, mas que se completam e têm ajudado o Brasil a construir seus resultados nesta Copa. Que sigam juntos, assim, até o Hexa.

Árbitros, erros e trapalhadas no caminho do Hexa

Direto da Cidade do Cabo

O Brasil estará em campo na disputa por uma vaga nas quartas-de-final enquanto eu estarei em um avião no caminho de volta pra casa, duas semanas depois de ter desembarcado na África do Sul. Dunga terá todo seu time à disposição ao que parece, com o retorno de Kaká, insubstituível mesmo combalido, Elano, imprescindível neste momento, e Robinho, imbatível quando se solta a driblar. O treinador vive o melhor dos cenários, comparado a colegas de profissão, despachados mais cedo ou com times sem capacidade para ficar entre os 16 melhores.

De todas as seleções que apareceram até aqui, boa parte da crítica esportiva, fora do País, concorda que o Brasil é das mais equilibradas – outras equipes tem um ou outro setor em destaque – e segue firme e forte entre os candidatos ao título. Mesmo o baixo rendimento do jogo anterior, prejudicados que fomos pelas mudanças por suspensão ou exaustão, mostrou que o time pode segurar ataques fortes e atrevidos.

O Chile é um adversário curioso, pois apesar de seus bons momentos aqui na Copa e mesmo nas Eliminatórias sofre ao saber que terá de pegar o Brasil pela frente. Foi goleado na ida e na volta (3×0 e 4×2) na disputa sul-americana. E Bielsa terá de ter muito mais do que arrojo e competência para ganhar da seleção brasileira, apesar de alguns de seus jogadores apontarem suposta fragilidade da nossa defesa.

Hoje, vimos o que pode acontecer com uma equipe que respeita além da conta seu adversário. E me refiro ao México que, apesar de prejudicado pelo árbitro, visivelmente, temia a força argentina.

Nosso favoritismo, porém, não nos dará o direito de errar. O futebol jogado nesta Copa e a estratégia montada pelos treinadores têm demonstrado que o espaço para construir é cada vez mais escasso. O ato de destruir tem privilégio nos esquemas táticos e, assim, fica-se a espreita da bola mal cortada, do passe irresponsável, da falta próximo da área, do vacilo do goleiro ou de alguma artimanha da jabulani.

Soma-se a isto o erro dos árbitros, fundamental nos dois resultados desse domingo, a começar pela conquista alemã. A seleção da Inglaterra não tinha futebol suficiente para superar a Alemanha, mas se o gol legítimo tivesse sido sinalizado as dificuldades da equipe de Joachim Low seriam muito maiores.

Dunga e o Brasil mostraram que sabem encarar estas situações e têm dado poucas chances ao adversário. Portugal, o mais habilitado, não alcançou nada além de um empate contra uma seleção desmontada em seu meio-campo pelos motivos que já conhecemos. Por isso, não se arrisca nenhum resultado que não seja o da vitória, com direito a classificação a fase seguinte.

É provável que somente saiba do placar quando estiver a bordo do avião. Não terei o direito de torcer pela bola chutada por nossos atacantes ou secar o avanço chileno contra o gol de Júlio César. Fico com a impressão de que não terei como ajudar o Brasil neste desafio. Pura pretensão de torcedor, sem dúvida. Pois nada do que façamos lá fora é suficientemente maior do que os jogadores podem aprontar em campo. Ou o que podem aprontar com eles.

Que a seleção brasileira jogue o futebol para o qual está capacitada e foi preparada. E que esteja livre destes árbitros trapalhões no caminho do Hexa.

Conte Sua História de São Paulo: Cidade conquistada

 

Celina Fernandez

No plano de viagem, Celinda Fernandes Aguillera ficaria com o marido e os filhos não mais do que três anos no Brasil, país no qual se refugiou da violência da Ditadura Militar no Chile. Os ditadores demoraram um pouco mais para ser banidos do mapa e a vida desta enfermeira criou raízes na capital paulista, onde vive até os dias de hoje. Tem saudades de Santiago, não o suficiente para fazê-la retornar ao país de origem.

No depoimento ao Museu da Pessoa, Celinda conta como chegou ao Brasil e registra algumas de suas primeiras lembranças na capital paulista que passam pelos encontros na Catedral da Sé às compras no Mappin:

Ouça trechos do depoimento de Celinda Fernandes Aguillera sonorizados por João Amaral

O Conte Sua História de São Paulo reúme depoimentos sobre a cidade gravados especialmente para o programa pelo Museu da Pessoa. Para participar, agende uma entrevista pelo telefone 011 2144-7150 ou acesse o site do Museu da Pessoa. O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10 e meia da manhã.

Santiago e o trânsito

Por Fernando Gallo

– Como anda o trânsito por aqui? Muito caótico? – perguntei ao motorista do táxi que me levava do aeroporto de Santiago para o albergue onde ficaria hospedado.

– Não. Pra te falar a verdade, o trânsito melhorou muito de uns dois anos para cá – devolveu ele.

A mente paulistana começa a trabalhar, buscar registros, fazer indagações. Não, eu não me lembrava de nenhum lugar no mundo onde o trânsito pudesse ter melhorado nos últimos dois anos. Talvez eu estivesse enganado.

– Como é? – indaguei, não porque não tivesse certeza de ter ouvido corretamente, mas porque ficara subitamente quase incrédulo.

– Pois é, melhorou muito de uns dois anos pra cá – confirmou.

E por quê?

A palavra-chave para entender o que aconteceu é Transantiago, o nome do projeto que tenta melhorar o transporte publico na capital chilena desde 10 de fevereiro de 2007.

De mirabolante a idéia nada tem, mas é uma verdadeira revolução se olharmos para a gestão do trânsito e do transporte público na América Latina, com as honrosas exceções de Curitiba e Bogotá, nas quais, aliás, o Transantiago se baseia.

O que se fez foi reorganizar o transporte público. Acabar com linhas distintas que faziam o mesmo trajeto, diminuir o número de ônibus que cruzavam longos trechos da cidade, aumentar o numero de linhas que correm percursos menores, integrar melhor os ônibus com o metrô, aumentar o numero de corredores exclusivos, implementar um bilhete magnético nos moldes do Bilhete Único paulistano. Tanto no caso do metrô quanto no dos ônibus, nos horários de pico há composições e carros que não param em todas as estações, o que dá celeridade ao processo. Ademais, outro objetivo do Transantiago é reduzir o número de ônibus em circulação na cidade de 7.000 para 4.600, de modo a diminuir a poluição do ar e a sonora.

Uma das diferenças – talvez a principal – entre a implementação em Santiago e em Curitiba e Bogotá consiste em que nestas duas ela foi feita em etapas, enquanto na primeira realizou-se de uma só vez.

Mas o resultado foi catastrófico. O sistema de cobrança eletrônica funcionava mal e havia poucos ônibus, o que provocou uma corrida ao metrô que, já operando no limite, saturou. A vida do usuário, claro, foi um suplício durante um par de meses.

Isso custou caro, muito caro, para a presidente Michelle Bachelet. Sim, porque os assuntos do município de Santiago, em última instância, são de responsabilidade do presidente, que é quem escolhe o intendente (o correspondente ao nosso prefeito). De fevereiro a março o apoio ao governo Bachelet caiu de 55% para 42%. (Choveram críticas também a Ricardo Lagos, presidente anterior, em cuja gestão o sistema foi desenhado). Até hoje os danos estão lá, e o custo político do início do Transantiago ainda é grande. É considerado por muitos o maior desastre do atual governo.

Do jeito que estava não podia ficar. Então deram jeito nas maquininhas, compraram ônibus novos – brasileiros – e arrumaram as barbeiragens que tinham feito. Alguns meses depois, boa parte dos problemas estava resolvida.

Para se ter uma idéia, exatamente um ano após o início do Transantiago, o jornal El Mercúrio, o principal diário chileno, publicou uma comparação entre o que acontecia um dia antes do sistema ser implantado e o que acontecia um ano depois. O tempo de espera por ônibus, que na média era de mais de 30 minutos, tinha caído para de 4 a 8. O número de pontos de ônibus subira de 3.100 para 8.200. O número de trens do metrô saltara de 666 para 751 (confesso que não sei se novas estações de metrô foram abertas, mas desconfio seriamente de que não). Um utilíssimo site (www.transantiagoinforma.cl) fornece ao usuário todas as informações de que ele necessita, como rotas (por menos tempo ou menos baldeações), paradas, horários, freqüência, etc.

Claro, nada é perfeito. Principalmente nos horários de pico o metrô ainda anda a full. Mas nada que assuste um bom paulistano.

E não é de surpreender que o trânsito esteja melhor. Com um sistema de transporte público de qualidade, muitas pessoas agora deixam o carro na garagem.

Ou seja: ao contrário do que se costuma propagandear por aí, o metrô é bom, mas não é a solução para todos os problemas do transporte público. Muita coisa pode ser feita apenas repensando-o, reorganizando-o, racionalizando-o. O caso de Santiago é muito emblemático. Convido os gestores do trânsito/transporte público do Brasil a darem um pulinho em Santiago para ver como funciona.

Fernando Gallo é jornalista da CBN e publicou este texto no Blog Miradouro

Foi a caipirinha: Cartilha com erro vira galhofa no Chile

Recortes de La Nacion 1

Com ironia e bom humor, foi assim que o jornal chileno La Nacion tratou do erro encontrado em cartilhas de geografia distribuídas pela Secretaria Estadual de Educação, em São Paulo. A manchete entre aspas grafou as duas palavras de maneira errada, e a reportagem diz que os autores brasileiros teriam decidido refazer o trabalho de Simon Bolivar e redesenharam a América do Sul, beneficiando o Paraguai com uma saída para o Atlântico e lhe oferecendo mais um território, afastando o Uruguai do mar, retirando um pedaço da Bolívia – “sem ao menos dar-lhe uma prainha” – e eliminando do mapa o Equador.

Para que não ficasse dúvida, o jornal resolveu ilustrar a reportagem com as correções feitas no mapa entregue aos alunos das escolas públicas do Estado de São Paulo. E concluiu o texto: “Buena la caipiriña!”.