Eleitores perversos, anistias imorais e reformas

 

Por Antônio Augusto Mayer dos Santos

Sejamos objetivos. A expressão “homem cordial”, corriqueira e genérica na pretensão de qualificar o brasileiro como pacato ou pacífico, se aproxima do aviltante quando analisada sob o prisma de seu comportamento eleitoral. Assim, porque a história recente registra dezenas de exemplos, não será nenhuma surpresa se parlamentares e gestores públicos envolvidos nos escândalos mais recentes forem eleitos ou reeleitos mediante expressivas votações.

Daí se entender oportuno relembrar uma frase de Voltaire do início do século XVIII: “A política tem sua fonte antes na perversidade do que na grandeza do espírito humano”.

Esta célebre assertiva do iluminista francês confere a dimensão do ambiente quando se constata, por exemplo, o cinismo nas entrevistas e manifestações de alguns acusados, embora filmados com cédulas de dinheiro em meias ou cuecas. Alguns destes patifes serão recompensados pelos próprios eleitores dos seus Estados através de votações que glorificarão o reprovável e anistiarão quem maculou o mandato anterior. Assim foi com o mensalão ou com o episódio das ambulâncias, apenas para citar uma referência próxima no tempo.

Isto é corriqueiro no Brasil. Primeiro, porque eleição é um fenômeno social à parte, capaz de prescindir de memória, coerência e razão. Na maioria das situações, os eleitores não examinam o currículo ou a vida pregressa dos candidatos. Votam supondo que “o cara é bom” ou o que é pior: “ele é inteligente”. Inteligente qualquer bicho é. Reeleger um parlamentar ativo e participativo é reconhecer trabalho; reeleger alguém porque este tem opinião mas não trabalha, não apresenta projeto e não se envolve nos grandes problemas do Parlamento é manter o sistema.

Depois, que a recondução daqueles cuja vida pregressa não é recomendável e que muito provavelmente impediria sua inscrição num concurso público, evidencia o efeito catalisador e pirotécnico das campanhas eleitorais. Cabe ao eleitor não votar em candidato maculado ou envolvido em processos escandalosos. Sempre existem candidatos dignos e confiáveis.

Por fim, reforçando as anteriores, nesta atual quadra da História, não se pode divinizar a cidadania ou tornar a representação popular algo intocável ou insuscetível de questionamentos pois quem escolhe os candidatos e vota é o eleitor. Se elegeu com caixa dois, distribuindo vantagens mesquinhas e pessoais? Que seja cassado e afastado do mandato, seja Governador, Vice, Senador ou Deputados. Os exemplos estão aí.

É bem verdade que parte desta sensação de impotência e inconformidade deve ser debitada à anacronia da legislação eleitoral que não estabelece regra decente e realista capaz de impedir a candidatura de quem, mesmo sem mínimos predicados morais mas amparado nas lacunas ou brechas legais, se apresenta ao eleitorado e alcança a Casa Legislativa para “representar” o povo. Contudo, é exatamente este último que vota e que elege formadores de quadrilha, estelionatários e ímprobos para mandatos de relevo.

Também, registre-se, que a presença de um presidente grotesco e midiático que pronuncia “merda” num discurso oficial não serve de bom modelo.

O “novo” Congresso (novo apenas porque será uma outra Legislatura, eis que nenhum índice tem ultrapassado 45%) terá o dever de reexaminar a Lei de Inelegibilidades e potencializar a moralidade como requisito para candidaturas pois, do contrário, eleitores tão ou mais perversos que os próprios vilões seguirão reconduzindo-os aos Parlamentos que outrora desrespeitaram.

O início de tudo está no voto, na escolha sensata. O eleitor elege o eleito. O Mito de Sísifo.

Antônio Augusto Mayer dos Santos é advogado especialista em direito eleitoral e autor do livro “Reforma Política – inércia e controvérsias” (Editora Age). Às segundas, escreve no Blog do Mílton Jung dando publicidade as regras do jogo político.

Audiência pública do Orçamento com baixa audiência

 

Plenário da Câmara (Foto da assessoria de Floriano Pesaro)

@miltonjung Estou presidindo a última audiência pública do orçamento 2010 e só 6 pessoas participam do debate. http://twitpic.com/t1mdy

@miltonjung a discussão é importantíssima pois trata de r$ 28bilhões que serão aplicados na nossa cidade.

Foto e recados chegaram pelo Twitter do vereador Floriano Pesaro (PSDB), @floriano45, que comandava a audiência pública sobre o Orçamento da cidade de São Paulo, na manhã desta sexta-feira. O lamento do parlamentar com a restrita participação do cidadão deve servir de provocação para que o eleitor e os próprios vereadores reflitam sobre a participação popular no legislativo.

Logo após colocar a discussão no Twitter, recebi algumas opiniões:

@miltonjung nada contra as audiências publicas,mas elas poderiam acontecer em horários q o cidadão pudesse participar,ex.: depois das 18:00? (@amandalho)

@miltonjung @amandalho Houve mtas aud.públicas em outros horários, à tarde,noite e em todas as regiões da Cidade.Veja calendário na internet (@dilze)

@miltonjung Concordo com @amandalho. Da forma atual, as audiências públicas existem só para constar. (@sil_s)

@miltonjung E pq não uma audiência pública com participação pela internet? (@panicoemsp)

Talvez os R$ 17 milhões que serão gastos em uma diretoria de comunicação, criada para o ano que vem pelos vereadores, possam ser aplicados para aumentar a presença de cidadãos no legislativo municipal.

Foto-ouvinte: Córrego é uma tragédia, em Santo André

 

“A prefeitura nem passa perto. Casas a beira do córrego com ratos, risco de dengue, doenças e desabamento. Somos vizinhos de uma tragédia”.

O recado é do ouvinte-internauta Marcelo Arena Crapino contra o descaso em relação ao córrego Cassaquera, em Santo André, no ABC Paulista, que chegou com o vídeo produzido pela Universidade Metodista que descreve a situação enfrentada pelos moradores da região.

Canto da Cátia: Viciado em lixo

 

Entulho na calçada 2

Um “passeio” pela cidade, sem precisar ir muito longe, é suficiente para a repórter Cátia Toffoletto encontrar pontos “viciados” de lixo em São Paulo. Nesta manhã, passou pela avenida Presidente Wilson, no Ipiranga, e encontrou a calçada tomada pelo entulho. Em seguida se deparou com outro desrespeito à cidade na rua Coelho Netto, na Vila Prudente. Fotografou e conversou com os moradores e comerciantes da região que não gostam nada desta situação.

Ouça a reportagem de Cátia Toffoletto

Depois que a reportagem foi ao ar no CBN São Paulo, a Secretaria Municipal de Serviços enviou nota ao programa afirmando que o lixo seria recolhido e as subprefeituras responsáveis pelas áreas iriam intensificar a fiscalização no local para punir os autores desta irregularidade.

Interessante constatar que todos na região sabem do problema, o serviço de limpeza já esteve lá em outras oportunidades, mas somente agora prometem “intensificar a fiscalização”.

Cassação de governadores não comove eleitores

 

Por Antônio Augusto Mayer dos Santos 

Um pedido de vista – o Ministro pediu o processo para examinar o seu conteúdo para depois votar – interrompeu o julgamento do governador de Rondônia, Ivo Cassol, no TSE. O placar está empatado em um a um. Corre o risco de ser cassado pois a decisão no TRE local foi unânime em cassá-lo. Está no cargo porque obteve uma Medida Liminar (provisória) do mesmo TSE, que entende prudente evitar o rodízio e o trauma das substituições.

Meses antes, o Tribunal havia confirmado a cassação dos mandatos do governador e do vice-governador da Paraíba por abuso de poder econômico e político e prática de conduta vedada nas eleições de 2006.  O TSE, tal e qual como já fizera o Tribunal Regional Eleitoral daquele Estado, reconheceu a utilização viciada e espúria de programa social para distribuir recursos públicos mediante a entrega de cheques a determinadas pessoas, eleitores, visando à obtenção de benefícios eleitorais. Diante da ausência de previsão legal e orçamentária para distribuição daqueles recursos e da ausência de critérios objetivos tais como estudos sociais, perfil do beneficiado, comprovação de carência, etc para escolha e concessão de benefícios, aquele Tribunal declarou o uso promocional do programa social. 

Um detalhe decisivo para a cassação: o próprio governador distribuía os cheques e atendia pessoalmente a eleitores em diversos municípios do Estado. Depois, numa prática nauseante, o Governo por ele chefiado, em nome do contribuinte, claro, enviava foto do governador junto com os cheques distribuídos. Para arrematar, às vésperas do pleito, ocorreu uma elevação dos gastos com o “programa”.

Embora afastado do cargo, Cunha Lima lidera com folga absoluta as pesquisas para o Senado Federal, a ser disputado em 2010.  

No início de março, o mesmo TSE cassou os mandatos do governador e do vice-governador do Maranhão por abuso de poder político, eis que suas campanhas eleitorais haviam sido drenadas por práticas não menos medonhas pelo governador da época. No julgamento, o Tribunal registrou a ocorrência da assinatura de convênios públicos do Estado em comícios do candidato Jackson Lago. Cassado e afastado, Lago provavelmente será candidato a Governador novamente em 2010, dizem os sites maranhenses.

Tanto o sucessor de Cunha Lima quanto de Lago respondem em processos junto aos seus TREs e TSE por motivos bastante semelhantes: abusos nas eleições de 2006.

Sabe-se que um expressivo contingente de candidatos disputa eleições desenvolvendo campanhas limpas e pregando propostas sem a interferência do abuso de poder econômico, político ou de autoridade. Todavia, não se pode ignorar que o discurso piegas de conotação sebastianista tem se mostrado deveras eficaz a ponto de vitaminar aristocracias estaduais, especialmente diante do horário gratuito de rádio e televisão proporcionado pela legislação, que a tudo distorce. 

A eficácia da relação paroquial e clientelista é indiscutível, sobretudo junto àqueles colégios eleitorais que apresentam altos índices de analfabetismo, baixa renda e desemprego.

Tal contexto, num país onde muitas campanhas eleitorais são drenadas pela corrupção e oportunismo entre o público e o privado, torna impossível divinizar a cidadania e transformar a representação popular em algo intocável ou insuscetível de questionamento judicial. Logo, cassar mandatos obtidos de forma espúria, indevida e sob o rompimento da legalidade, é uma valorização da Democracia.

Adiante, no início de novembro, o STF, confirmando decisão do TSE, cassou o mandato do Senador Expedido Júnior por corrupção eleitoral (cassado em Rondônia neste mesmo processo que o Governador Ivo Cassol responde). Porém, o Senador que assumiu a sua cadeira responde a vários processos, sendo que num deles, criminal, foi condenado à pena de prisão. Mais? Seu primeiro suplente no Senado é o seu pai. Mais um registro de nepotismo na Suplência.

Retomando, cabe uma pergunta: quem será que lidera as pesquisas para o Governo Estadual de Rondônia em 2010? O mesmo ex-Senador cassado!

Caso DF: juridicamente, há possibilidade de Impeachment, eis que os fatos, segundo as informações e gravações denunciantes, envolvem atos de gestão pública.

Estes processos, assim como mais meia dúzia de similares envolvendo outros Governadores que aguardam pauta no TSE, evidenciam que a reeleição para o Poder Executivo não deu certo no Brasil É necessário repensar o seu formato atual, que facilita a recondução do titular por conta da verdadeira confusão que se estabelece entre o gestor-candidato, um verdadeiro palanque ambulante.

O eleitor destes colégios eleitorais é, sem dúvida, partícipe direto deste circo de horrores. Aliás, a responsabilidade é parelha tanto dele como dos eleitos, vez que o candidato concorre porque sabe – e usufrui – desta relação neurótica. Afinal, todos os demandados na Justiça Eleitoral nestes processos foram eleitos ou reeleitos.

Por outra, cassar governadores que foram eleitos de forma ilícita não significa uma interferência de um poder no outro, tampouco rompimento da representação popular e muito menos vulneração da cidadania. Trata-se de uma restauração compulsória da normalidade, da ordem e até mesmo da higiene. 

Contudo, de tudo isso, também é possível se concluir que as cassações judiciais, se a um ângulo determinam o encerramento dos mandatos obtidos de forma espúria, a outro, não comovem os eleitores, visto que estes, sob a forma de desagravo, reconduzem cassados a relevantes cargos públicos.

Antônio Augusto Mayer dos Santos é advogado em direito eleitoral e escreve às segundas-feiras no Blog do Mílton Jung.

Calçadas tem lei de mais, respeito de menos

 

Calçada ou escada

Boa parte dos moradores de São Paulo usa as calçadas, mas não tem ideia das leis municipais que regulamentam a construção e manutenção deste espaço público. Sem publicidade, cada proprietário faz o que bem entende e ninguém sabe ao certo se tem direito a reclamar, e do que reclamar. Uma das situações que mais me chamam a atenção é a transformação da calçada em extensão da rua, principalmente em postos de combustível.

Os carros entram e saem dos postos na maioria das vezes sem sinalizar ou levar em consideração a preferência do pedestre. Os proprietários dos postos se preocupam em rebaixar toda a guia, de ponta a ponta, para facilitar o acesso dos veículos, mas se esquecem de avisar às pessoas infringindo ao menos um dos artigos do decreto (no. 45.904 de 2005) que trata do conceito de passeio livre:

“Os locais destinados a postos de gasolina, oficinas, estacionamentos ou garagens de uso coletivo deverão ter suas entradas e saídas devidamente identificadas e sinalizadas” (Capítulo V, art. 16, parágrafo único)

Na conversa com dois urbanistas no CBN São Paulo ficou evidente que há muitas dúvidas sobre o que a lei permite ou não em relação as calçadas. Cândido Malta, da FAU-USP, desconhece regras que impeçam o rebaixamento total das sarjetas diante dos postos de combustível. Sugere que a área seja sinalizada com piso diferenciado que faça o carro diminuir a velocidade e alerte o pedestre para o fato de que aquele trecho é de uso compartilhado. Da maneira como está hoje, um deficiente visual, por exemplo, é incapaz de saber se a calçada é ou não para acesso de veículos.

Regina Monteiro, diretora da Emurb, diz que a confusão nas leis também impede um comportamento padrão por parte dos subprefeitos e fiscais. Ela procurou o Secretário das Subprefeituras Ronaldo Camargo para que, em conjunto, seja elaborado um decreto que esclareça uma vez por toda o que pode ou não. Entende que deve ser estudado modelo que adapte o acesso dos veículos à segurança do pedestre.

Na entrevista ao CBN SP, Regina chama atenção para o fato de que, além do espaço maior do que o permitido, a calçada muitas vezes ganha degraus ou fica inclinada prejudicando o passeio.

Ouça a entrevista de Regina Monteiro ao CBN São Paulo

Uma das leis ainda em vigor é de 1988, de autoria do então prefeito Jânio Quadros, que permite o rebaixamento de até 3 metros da calçada, a cada lote. Seria clara não houvesse exceções: se o proprietário solicitar e o agente público aceitar, a área rebaixada pode ser maior. Mais recentemente, nova lei aceita que o acesso dos veículos ocupe até 50% do lote, porém nunca além de 5,5 metros, exceto os terrenos menores que podem ter toda a frente rebaixada.

De lei em lei, de exceção em exceção, ninguém é capaz de impor respeito e fazer com que o pedestre, pelo menos na calçada, seja prioridade.

ONG que fiscaliza políticos pode fechar

 

A informação é de reportagem da jornalista Tatiana Conceição, publicada no jornal Diário do Grande ABC e se refere a ONG Politicus(e-mail: jornalista@politicus.org.br), mantida por dois irmãos, que tem como meta cobrar de parlamentares a opinião deles sobre diferentes temas. A ação facilita o acesso do cidadão com o político.

Há alguns anos entrevistei Hamilton e Ailton Tenório, no CBN São Paulo, curioso que estava sobre o trabalho que realizavam, a partir de sua “base” em São Caetano. Nosso contato ocorreu durante muito tempo por e-mail com troca de informações sobre os dados que levantavam. Por isso, me surpreende a notícia de que uma ideia séria como a deles tenha dificuldade para seguir em frente por falta de apoio.

Para conhecerem a ONG Politicus, reproduzo aqui trecho da reportagem do Diário:

“A ONG (Organização Não Governamental) Politicus, que se dedica a ajudar as pessoas a fazer contato com seus políticos, pode fechar daqui a alguns meses por falta de apoio, segundo Hamilton Tenório da Silva, 50 anos, microempresário, que mantém a entidade sem fins lucrativos junto com seu irmão, Ailton Tenório, 45, fotógrafo profissional.

Segundo Hamilton, a Politicus, que foi registrada como Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), surgiu no ano de 2000, em São Caetano. Na ocasião, a dupla pensou em fazer alguma coisa em prol dos seus filhos, sem precisar entrar na política tradicional.

O trabalho dos irmãos funciona da seguinte forma: eles selecionam um tema da atualidade para discussão e, a partir deste assunto, é divulgado um texto para os leitores cadastrados no site da Politicus, convidando-os a se manifestarem.

As manifestações são enviadas aos parlamentares, sem que o e-mail dos usuários cadastrados seja divulgado. As respostas dos políticos retornam para o sistema criado pela dupla, que depois redistribui as mensagens aos usuários.

Leia a reportagem completa aqui.

Canto da Cátia: Promotor na Calçada da Fama

 

Calçada da Fama em construção 1

As estrelas ainda não estão na Calçada da Fama, a polêmica, sim. A rua Canuto do Val, região central de São Paulo, tem sido palco de discussão desde que a empresária Lilian Fernandes conseguiu apoio da Câmara Municipal e da prefeitura para ampliar a calçada na área em frente aos restaurantes dos quais é proprietária. Agora, o Ministério Público mandou instaurar um inquérito civil para apurar se existe alguma irregularidade nas obras.

Ouça a reportagem da Cátia Toffoletto, no CBN SP

Se ninguém faz, ela faz

 

O nome não se sabe, mas a consciência que ela tem do seu papel na sociedade fica evidente no flagrante feito por Devanir Amâncio da ONG EducaSP, colaborador do Blog do Mílton Jung. Essa mulher preocupada com o risco provocado pelo enorme buraco na avenida Nove de Julho decidiu fazer o que as autoridades esquecem. Com alguns pedaços de pau e papelão sinalizou o enorme buraco, perigo para pedestres e motoristas. Simples como seu ato, explicou a atitude: “É para evitar acidente”.