Só cidadão para tirar Assembleia de SP do atraso

 

A Assembleia Legislativa de São Paulo está muito atrasada. Ao contrário dos demais parlamentos somente inicia seu trabalho nesta terça-feira, dia 15, enquanto a maioria já atua com a nova composição eleita em outubro do ano passado desde o início de fevereiro. E a maioria dos 94 deputados estaduais não parece preocupada com a situação, pois entraremos em mais um período legislativo sem que ninguém proponha mudanças no calendário.

Para a ONG Voto Consciente, que acompanha o trabalho da ALESP, além desta demora, perde-se muito tempo, também, na formação das comissões permanentes. A entidade cobra dos parlamentares que os partidos escolham logo – no máximo em duas semanas – os nomes, e as comissões comecem a discutir os temas de interesse do Estado, pois nenhum projeto chega no plenário para votar sem antes ter o aval destas instituições.

A vantagem deste ano é que foram reduzidos de 22 para 15 o número de comissões, uma proposição que havia sido feita pelos integrantes do Voto Consciente.

Os problemas na casa, porém, não se restringem a estas questões. Seria fundamental que a Assembleia Legislativa desse um grito de independência do Executivo, desafio quase impossível de ser superado dado o histórico deste e de outros parlamentos estaduais no Brasil. Os deputados tendem a votar apenas aquilo que interessa ao governador de plantão que não tem dificuldade em formar maioria.

Soma-se a isso a saída de deputados de boa votação para assumir cargos de secretário estadual, sinal de que a função é bem mais atrativa do ponto de vista das pretensões políticas do parlamentar. Em São Paulo, os dois mais votados não permanecerão na casa: Bruno Covas (PSDB), que teve 239.159 votos, é secretário de Meio Ambiente e Paulo Alexandre Barbosa (PSDB), eleito com 215.061 votos, é secretário de Desenvolvimento Social. Mais dois eleitos também assumiram cargo no Governo: Edson Giriboni (PV) é secretário de Saneamento e Recursos Hídricos e Davi Zaia (PPS) é o titular da de Emprego e Relações do Trabalho.

O resultado deste comportamento de parlamentares que abrem mão de suas prerrogativas em troca de verbas e obras que lhe garantam a simpatia do reduto eleitoral ou buscam outras funções, diferentes daquelas para a qual foi escolhido pelo eleitor, é o enfraquecimento do legislativo e a diminuição de sua importância para o cidadão.

Sem contar que o presidente que deve ser reconduzido ao posto nesta terça-feira, deputado estadual Barros Munhoz (PSDB), foi acusado pelo Ministério Público de ter participado de desvio de R$ 3,1 milhões na época em que foi prefeito de Itapira, cidade do interior paulista.

Não por acaso, boa parte dos paulistas talvez nem lembre mais em quem votou no dia 3 de outubro. E isto só vai mudar quando este mesmo eleitor entender que seu papel não se restringe ao ato de votar, que tem o direito e o dever de cobrar do seu deputado comportamento independente e a altura do cargo para o qual foi eleito.

Uma boa oportunidade é este cidadão se unir as entidades não-governamentais que acompanham a ação legislativa, como é o caso do Voto Consciente, ou faça a fiscalização do seu deputado por conta própria integrando a rede de blogs do Adote um Vereador, que se iniciou em 2008 e abriu caminho para outras campanhas como o Adote um Deputado.

Controle os políticos antes que os políticos controlem você.

Por uma reforma política cidadã

 

Senadores formam comissão para discutir a reforma política. Deputados não querem deixar na mão deles as mudanças. Temem serem prejudicados com as decisões tomadas na casa superior. Vão interferir no projeto com base no que entendem ser mais apropriado para a sobrevivência de cada um deles.

O Congresso discute as mudanças enquanto o cidadão assisti de casa ao debate, sem direito de participar. Por enquanto, ninguém lembrou de abrir as portas à sociedade que tem o direito de “meter à mão” nesta história, pois é a principal afetada com as regras que estão em vigor.

Recebi uma colaboração interessante e, por isso mesmo, decidi publicar aqui no blog para que você também participe do tema. Aron Zylberman é ouvinte-internauta, trabalha no ramo imobiliário, mas prefere ser apresentado apenas como cidadão. E foi neste papel que enviou as seguintes sugestões para uma reforma política no Brasil:

“Pontos importantes e que vem sendo debatidos insuficientemente:

SISTEMA ELEITORAL: O atual sistema de votação proporcional para escolha de deputados estaduais e federais precisa mudar. Eu acredito que o voto distrital permitirá uma relação muito estreita entre eleitor e representante. O controle sobre os deputados ficaria muito fortalecido. O seu “adote um vereador” poderia ser facilmente transformado em “adote o seu representante”, tanto na esfera estadual como na federal. Nas grandes cidades, como as capitais, o voto distrital também valeria para a eleição de vereadores. Todas as eleições passariam a ser majoritárias. O custo das eleições cairia muito.

SUPLENTE DE SENADOR: É uma excrescência que precisa ser eliminada. Se um senador, por qualquer razão abre mão do cargo, o segundo mais votado assume e ponto final.

VOTO OBRIGATÓRIO: Centenas de milhares votam sem ter consciência do peso do seu ato. Por outro lado, se o voto for facultativo, o peso da “compra de votos” aumenta muito. Na ausência da corrupção, ou na sua diminuição expressiva, o voto deveria ser um direito e não uma obrigação.

Pontos que não são debatidos:

NÚMERO DE SENADORES POR ESTADO: Nos USA, país muito mais rico, são dois por estado. Por que precisamos de três? Teríamos uma enorme economia com esta redução e o balanço federativo estaria igualmente garantido.

REELEIÇÃO NO LEGISLATIVO: O atual sistema, que permite reeleições sem limite, impede uma maior renovação, no Congresso Nacional. A reeleição para o mesmo cargo deveria ser limitada, da mesma forma que é para o Executivo. Só uma reeleição consecutiva.

FINANCIAMENTO PRIVADO: As doações de pessoas jurídicas deveriam ser proibidas. Os nossos políticos deveriam representar os interesses do povo (pessoas naturais) e não de empresas. Dinheiro doado apenas por pessoa física.

Derrube os muros que dividem a cidade

 

Nesta sexta-feira, lancei o Blog Adote São Paulo em parceria com a revista Época SP, da Editora Globo. No espaço que será atualizado semanalmente, estarei dedicado à capital paulista, sempre pautado pelo tema cidade e cidadania. Na apresentação do novo Blog – que será mantido juntamente com este espaço que tenho na CBN – a indicação de que sou um gaúcho que “não se incomoda de ser chamado de cidadão paulistano” não é retórica, é realidade.

Acompanhe um trecho do primeiro post ou vá direto ao Blog Adote São Paulo“:

Há 20 anos cheguei em São Paulo de mala e sem cuia para trabalhar como repórter na TV Globo. Era a sede antiga da emissora, de cara com o Minhocão, cercada por todo tipo de poluição – visual, aérea e sonora – que se misturava ao estresse deste estreante. De tirar o fôlego.

Vindo de Porto Alegre, cidade que tem o pôr-do-sol no cartão postal, logo percebi que meu maior incômodo era a falta de horizonte na capital paulista. Prédios tomavam conta do cenário diante da janela de minha casa em Pinheiros. Um dia, cansado, escapei até a Cidade Universitária em busca do ponto mais alto e a oeste possível e lá fiquei até o dia ir embora e o sol desaparecer. Foi um prazer só.

Conto minha primeira história de São Paulo porque esta me ensinou lição importante para quem pretendia morar em definitivo por aqui: a cidade nos sufoca, mas se nos esforçarmos, acreditarmos e lutarmos encontraremos nosso horizonte.

É curioso como me identifiquei com a capital paulista. Por acaso e por escolha, minha vida profissional sempre esteve voltada para as coisas desta cidade. A estreia neste blog e o seu nome de batismo apenas ratificam este destino e dão sentido a trajetória de cidadão paulistano que iniciei em 1º de janeiro de 1991.

E como tal, dou-me o direito de alertar a todos que aqui moram sobre comportamentos que considero impróprios para quem sonha em melhorar a qualidade de vida no ambiente urbano.

Nesta semana, duas notícias mostraram como o medo pauta nosso cotidiano. Na praça Vinícius de Morais, vizinha do Palácio dos Bandeirantes, a subprefeitura do Butantã, com apoio de parcela dos moradores, constrói um muro de cimento. Na Assembleia Legislativa, deputados aprovam lei que obriga as agências bancárias a esconderem seus clientes atrás de biombos.

Para ler o texto completo acesse aqui.

Cidadania marca encontro do Adote um Vereador

 

Havia um clima de agitação no centro da cidade nesse sábado quando integrantes do Adote um Vereador se encontraram pela primeira vez neste ano. O local escolhido foi o bar do Pateo do Colégio, onde a cidade de São Paulo começou a ser construída. Não muito distante dali, pela manhã, centenas de estudantes haviam participado de audiência pública para discutir o preço da passagem de ônibus, no plenário da Câmara Municipal.

A presença de tantas pessoas nas dependências do legislativo paulistano, não fosse pelos abusos cometidos, é o cenário que idealizamos desde o nosso envolvimento nesta rede de cidadãos, que se propõe a acompanhar o trabalho dos vereadores. Alguns integrantes haviam assistido ao debate acalorado na Câmara e aproveitado para dialogar com parlamentares e manifestantes.

Ainda me surpreendo como são ativas e motivadas estas pessoas. Dá orgulho.

No Pateo, em torno de uma mesa de bar, tivemos a oportunidade de ouvir as sempre entusiasmadas opiniões e sugestões das “terroristas” da ONG Voto Consciente. As chamo assim desde que cinco delas foram expulsas das galerias da Câmara por terem estendido uma faixa em protesto contra o comportamento da Mesa Diretora, na época comandada pelo vereador Antônio Carlos Rodrigues (PR).

Moças que pensam e agem são, realmente, um perigo para alguns senhores.

(O que devem ter imaginado estes mesmos parlamentares quando viram os estudantes subirem à mesa da Câmara, nesse sábado?)

Da experiência do Voto Consciente à persistência do Adote um Vereador é possível identificar que avanços ocorreram, apesar da insistência de alguns políticos de manterem comportamento retrógrado. Por exemplo, ainda hoje dados oficiais são publicados de maneira a dificultar a fiscalização do cidadão e contra isto é necessário lutar.

No encontro deste sábado, foi apresentada aos participantes a ideia que começa a ser construída em outros fóruns: o Movimento Brasil Aberto, que defenderá a aprovação de lei de acesso à informação pública que está no Congresso Nacional. Assim que estiver formalizado, certamente contará com o apoio de todos que estiveram reunidos.

Aliás, este tema nos levou de volta ao trabalho realizado pelo cidadão Maurício Maia que criou programa para reunir informações sobre os gastos dos vereadores com a verba indenizatória. Um rápido olhar foi suficiente para identificar prática comum entre os parlamentares: aumentar consideravelmente os gastos no último mês do ano.

Em dezembro de 2010, foram gastos R$1.333.383,36, quase o dobro da média mensal da verba indenizatória usada por todos os 55 vereadores. A maior parte do dinheiro ainda vai para correios (R$ 1.737.165,41) e material gráfico (R$ 1.719.982,80). As duas categorias juntas representam 44,38% dos R$ 7.790.566,90 desembolsados pela Câmara para atender os gabinetes. Ressalte-se: nesta conta não estão incluídos os salários dos parlamentares e funcionários e os gastos gerais do legislativo.

Conheça este trabalho acessando o link que leva a “Prestação de Contas da Câmara Municipal de São Paulo”.

Outros temas agitaram a mesa do bar, no Pateo do Colégio, e novas ideias surgiram do bate-papo que durou duas horas e meia. A unir todos os assuntos a fundamental presença do cidadão no legislativo, seja na Câmara Municipal seja na Assembleia de São Paulo. Não necessariamente com a veemência usada por alguns grupos que estiveram no Palácio Anchieta no início do dia. Mas com o mesmo desejo de que as coisas melhorem na política paulistana.

E a Câmara de São Paulo abre os ouvidos também

 

Depois dos olhos, os ouvidos abertos. Uma semana após colocar na internet as imagens das comissões permanentes, a Câmara de Vereadores de São Paulo cria a Ouvidoria do Parlamento, um canal que receberá as reclamações, sugestões e informações do cidadão. O órgão terá o papel de analisar e encaminhar as mensagens ao setor responsável do legislativo e cobrar respostas.

Ouça a entrevista com o presidente da Câmara Municipal, vereador José Police Neto (PSDB), ao CBN SP

O Ouvidor tem de ser um servidor concursado da Câmara e terá mandato de um ano, podendo ser reconduzido ao cargo por decisão do presidente do legislativo. Ele terá o direito de pedir documentos que esclareçam situações expostas pelo cidadão e poderá recomendar mudanças de procedimentos administrativos e promover estudos com a intenção de melhorar a relação da Casa com a sociedade.

Os prazos para atendimento das reivindicações também estão estabelecidos no ato de criação da Ouvidoria. Os servidores e órgãos da Câmara terão até cinco dias úteis para responder aos pedidos feitos pelo Ouvidor e este terá dez dias úteis para informar as providências adotadas. Este tempo pode ser estendido dependendo do grau de dificuldade do pedido.

A Ouvidoria será acessada pelo eleitor através de diferentes canais: na página da Câmara na internet, por telefone com uma linha 0800, pelo correio e fax, além de atendimento pessoal.

A intenção é acabar com a reclamação comum de cidadãos que enviam mensagens com diferentes solicitações aos vereadores e muitas vezes não obtém qualquer tipo de resposta. Além disso, existe a expectativa de que a sociedade colabore com ideias para que o trabalho do parlamento seja qualificado.

O contato direto com o parlamentar se manterá, mas o eleitor ganhará um reforço e tanto com a Ouvidoria do Parlamento.

Leia, também, o post “De olhos e ouvidos abertos na Câmara Municipal” (05.02.2011)

Deputado do DF será fiscalizado pelo #AdoteUmDistrital

 

A Câmara Legislativa do Distrito Federal foi palco de maracutais que chamaram atenção do País, no ano passado, quando estourou o escândalo que enterrou de vez a vida pública do Governador José Roberto Arruda. Neste início de ano se deparam com decisão judicial que impede a contratação de funcionários porque extrapolou o limite imposto pela Lei de Responsabilidade Fiscal.

Casa tão agitada assim não pode mesmo navegar sozinha e precisa ter atenção redobrada do cidadão. Nesta semana, começa a ser discutida a criação do#AdoteUmDistrital aos moldes do #AdoteUmVereador, lançado em 2008, em São Paulo.

Fui informado sobre a iniciativa através do jornalista Rodrigo Fernandes (@rodrigo_fnandes) e soube que por lá o programa será coordenado pelo Comitê Ficha Limpa-DF, uma das entidades que integram o Movimento de Combate à Corrupção. Quem também está mobilizando os moradores do Distrito Federal é Diego Ramalho (@diegorf), presidente do NIC – Núcleo de Incentivo à Comunidade do Distrito Federal.

A reunião que vai discutir a criação do #AdoteumDistrital vai ocorrer na quinta-feira (13), a partir das 19h, no Edifício da OAB (SAS, Qd 05, Bl “N” 1º Andar, Brasília-DF).

De resgate

 

Por Maria Lucia Solla


Ouça este texto sonorizado e apresentado pela autora

A Vila Cruzeiro foi ocupada, e o povo de lá se viu sob chuva de pétalas de rosas, em vez de chuva de balas. Surpresos, seus moradores assistiram a um show de policiais que faziam rapel, de um helicóptero ainda no ar, como fazem em alguns casos de resgate. Significativo.

Não entendo os meandros da política e da vida pública, daqueles que fazem e desfazem em meu nome e no teu, mas sei que por mais que a gente berre e reclame, dia após dia, das mesmíssimas coisas, por séculos, nada vai mudar. Sei também que por mais que a gente se descabele pelo que não foi feito e pelo que foi desfeito, nada vai mudar.

Mas voltando à Vila Cruzeiro, a polícia, depois do espetáculo de pétalas e da descida pela corda, distribuiu brinquedos para as crianças dali.

Na TV, vi o homem de fala mansa, que eu ouvira no rádio, dizendo que daqui para frente, tudo vai ser diferente. Acredito nele, e espero que seja mesmo. Bem diferente. Espero que os novos invasores tenham vindo para libertar e não para escravizar. Que esses homens de boa vontade possam vencer os de má vontade que seguramente estão infiltrados nos batalhões. Em vez de droga, oferecem paz.

Que homens e mulheres, daqui para frente possam ajudar a resgatar não apenas corpos, mas dignidade e sonho. Que possam compreender que do que mais precisam as pessoas que moram na Vila Cruzeiro, depois da festa e dos agrados, é respeito, porque desde que portugueses e jesuítas chegaram por estas bandas, nosso povo tem aceitado presente e promessa.

Quero me fazer entender. Acredito nesses homens, como sempre acredito no homem, até que me decepcione tanto que acabo me esquecendo, completamente, de que um dia admirava e respeitava. Pluf, cai a chave geral. Tenho claro que os antigos invasores de vilas e morros também prometiam muito, ofereciam possibilidade de crescimento na “empresa”, ofereciam morte rápida, tudo regado a chuva de bala, terror e escravidão. Os invasores da vez sabem disso, presenciaram isso durante anos até que o tempo certo chegasse – porque nada chega antes – e não vão repetir o erro. Estão do outro lado do campo, o campo do chamado bem, não é?

Entendo um pouco de gente, de gente que integra o lado do bem e de gente que integra o lado do mal, em todas as situações, e só vejo uma solução para todo esse imbróglio em que temos vivido há tanto tempo.

Respeito!

Não é a Educação para fazer do outro o que você quer que ele seja, e o levar a ser isso ou aquilo, que vai resolver. Não é a Saúde que se locupleta da nossa saúde, acariciando sintoma para alimentar grande$ grupo$, que vai resolver; nem um, nem outro. Não é com mais policiais armados na rua, gente como a gente, que se vai resolver a questão.

Não é dando dinheiro na mão do cidadão e presente em data festiva, como faziam os primeiros invasores, que vai resolver a situação.

É respeito, o primeiro ingrediente da receita. É preciso que aprendamos a respeitar o outro, sem esquecer que antes, muito antes disso, é preciso que cada um se respeite e se dê ao respeito. E é isso que a Vila Cruzeiro, os morros, os condomínios de luxo, os palácios e as taperas precisam.

quem sabe meu deus
a gente começa
enfim

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

Ação Pegada Berrini quer mobilidade e um bairro cidadão

 

Trabalhei no WTC por dois anos seguidos. O prédio fica ali próximo da Ponte Estaiada, entre a Marginal Pinheiros e a Avenida Berrini. Naquela época, a ponte ainda não existia e muitos apostavam que com o trânsito da Roberto Marinho sendo despejado do outro lado, os carros que seguissem por baixo, vindo lá dos lados da Bandeirantes, ou no sentido contrário, lá dos lados do Shopping Morumbi, andariam com mais rapidez e, finalmente, os motoristas estariam livres dos congestionamentos.

Nunca acreditei no resultado prático dessas obras gigantescas e o que se via na Berrini dava pouca esperança de que a situação iria melhorar, principalmente levando em consideração as notícias de novos empreendimentos empresariais e aumento da frota de carro – naqueles tempos se falava em 6 milhões, hoje os jornais já dizem que serão 7 milhões até início do ano que vem (ouça esta notícia aqui)

Sair da redação no horário de pico era impossível. Os elevadores estavam sempre lotados e o congestionamento nos deixava parado dentro do estacionamento. Lá fora ainda havia o medo de assaltos no trânsito travado. A ideia era atrasar o fim do expediente para encarar situação mais amena. Cada vez era preciso deixar o local mais tarde.

Lembrei-me deste cenário, hoje, quando entrevistei o artista plástico Fábio Woody que participa do projeto Ação Pegada Berrini, iniciado há algumas semanas quando empresários, moradores, trabalhadores, pedestres, ciclistas e toda esta gente que se encaixa na tag #cidadão sentaram em uma sala grande e começaram a discutir soluções e criações para resolver o problema da mobilidade na região.

Ouça a entrevista de Fábio Woody, no CBN SP

O curioso é que o investimento inicial feito pela cidade na Avenida Berrini e arredores tinha como intenção criar um ambiente em que moradias e empresas convivessem e a necessidade de grandes deslocamentos fosse evitada. Se não me engano isto pode ser lido, inclusive, na Operação Urbana da Roberto Marinho.

Apesar da construção sem parar de apartamentos, esta realidade não se concretizou. E a Berrini para – ou continua parando – nos horários de pico que se estendem para além das 7 às 10 e das 18h às 20h.

Incentivar o deslocamento de bicicleta com prédios e comércio criando espaços para estacioná-las e escritórios com direito a banho, além de promover seu uso das estações da CPTM/Metrô até o local de trabalho pode ajudar.

Restringir o uso de carro com mudanças de vias e limitar os pontos de estacionamento nas ruas no entorno da Berrini são medidas que devem ser adotadas mas com o cuidado de a emenda não ficar pior do que o soneto. Haverá comerciante que ficará de cabelos em pé.

Rever o horário de entrada e saída, evitar reuniões presenciais e promover o trabalho em casa devem ser alvo de análise, mesmo que muitos escritórios já façam isso.

Criar espaço específico e exclusivo para ônibus circularem me parece um bom caminho, mesmo que gere revolta em quem não pensa na possibilidade de deixar o carro em casa ou à distância – para estes, quem sabe espécies de bolsões de estacionamento?

Talvez seja o caso de a Secretaria Municipal de Transportes reavaliar a restrição aos ônibus fretados, medida adotada há pouco mais de um ano para “facilitar o deslocamento na região” – diziam os técnicos na época.

A CET pode, também, dar uma espiada no tempo dos semáforos das vias principais. Quantos dos que estão espalhados por ali são considerados ‘inteligentes’? E a distribuição da faixas para pedestres, permite o passeio seguro ? Nunca devemos esquecer: calçadas são espaços que privilegiam as pessoas, portanto toda barreira tem de ser eliminada.

Bem mais complicado, pelo impacto econômico que teria, é o aumento das restrições para a construção de prédios e ocupação da terra naquela área. Mas se a intenção é mudar a Berrini, talvez seja necessário, sim, pensar nisto com base no que está no Plano Diretor Estratégio e na revisão deste plano que, pelo visto, não sairá da Câmara Municipal.

Como se vê, mesmo sem tempo para a reflexão, há muitos interesses que, na entrevista, chamei de difusos. Mas que o Woody fez questão de ressaltar têm o mesmo objetivo: melhorar a qualidade de vida na área da Berrini.

Se é assim mesmo – e eu acredito -, quem vive, trabalha e precisa da região tem obrigação de se mexer, se unir a este grupo, antes que a Berrini pare de vez.

Caso você não tenha nada a ver com esta história, pense como poderia organizar ação semelhante onde você vive, transformando o entorno e a si mesmo. Construindo um bairro cidadão.

Câmara de SP não informa voto de vereadores

 

O cidadão tem o direito de saber como o vereador votou nos projetos de lei em debate na Câmara Municipal. É uma informação importante para que se possa avaliar a coerência do discurso com os atos dele. Apesar disso, o legislativo paulistano segue escondendo estes dados do público.

Desde agosto, o Movimento Voto Consciente aguarda a lista com o nome dos 55 vereadores e como cada um deles votou em plenário. Apesar destas informações serem públicas até agora são mantidas em segredo.

Falta organização ou transparência ? Para Sônia Barboza, do Voto Consciente, é falta de interesse mesmo. “Há um mês disseram que o veredor Chico Macena (PT), primeiro secretário da mesa diretoria, iria passar as informações, mas todas as vezes que eu cobro só recebo promessas”, disse ao CBN São Paulo.

Ouça a entrevista com Sônia Barboza, do Movimento Voto Consciente

O curioso é que os próprios vereadores prometeram divulgar estes dados no site da Câmara que foi lançado em setembro mas até hoje não está no ar: “Eles fizeram a festa mas não levaram o bolo”, ironizou Sônia Barboza. Ela lembrou, ainda, que no Orçamento do legislativo municipal estão destinados à área de comunicação R$ 36 milhões, além de R$ 17 milhões para publicidade.

Falta cidadão na Câmara Municipal

 

adoteO que precisa mudar na Câmara Municipal de São Paulo ?

Foi a pergunta que fiz a Sonia Barboza, do Voto Consciente, em entrevista na qual  pretendia avaliar o trabalho do legislativo paulistano. Ela me surpreendeu com a resposta. Em lugar de cobrar dos vereadores, chamou atenção para a baixa participação do cidadão no parlamento.

Ouça a entrevista de Sonia Barboza ao CBN São Paulo

Tem razão, Sonia. A Câmara que temos é a que escolhemos. E se nos mantivermos distantes, é a que teremos para sempre. Pouco adianta cobrar do vereador que ele tome decisões compatíveis com o meu pensamento, que atue de maneira apropriada a um representante do cidadão, se este – o cidadão – não demonstra interesse nem está atento ao trabalho realizado por lá.

Sei que estamos em uma democracia representativa. Escolhemos o vereador – assim como escolheremos o presidente, o governador, os senadores e os deputados federal e estadual – para que ele decida em meu nome. Mas não é assim que funciona. Eu sei e você, também.

Por isso, precisamos controlar os passos que estes representantes dão. Devemos mostrar a eles que estamos de olho no que fazem ou deixam de fazer. Que os fiscalizamos.

A presença do cidadão na Câmara é essencial. E os integrantes do Voto Consciente sabem a diferença que isto faz na vida do parlamento, assim convocam todos os eleitores a comparecerem nas sessões em plenário, nos encontros das comissões e nas audiências públicas.

Sonia Barboza aproveitou a entrevista para convocar os eleitores a assistirem o seminário que se realizará, no dia 9 de agosto, às 10 da manhã, quando a prefeitura explicará os critérios que utiliza para definir os investimentos na área de saúde.

Após a entrevista dela no CBN SP, recebi várias mensagens de ouvintes-internautas comentando sobre o horário do encontro que se realizará no momento em que estão trabalhando. É verdade. Dez da manhã tem muita gente no emprego. Mas duvido que seja este o principal motivo para a ausência do cidadão na Câmara. Mesmo que a reunião fosse à noite, os mesmos alegariam outras razões para não participar.

Infelizmente, não faz parte do nosso cotidiano acompanhar o trabalho parlamentar. Há um descrédito preocupante em relação ao papel dos políticos, sem dúvida. Mas a ausência ocorre muito por inércia da sociedade.

Tem gente, por exemplo, que se apresenta como apolítica, como se fosse possível viver sem esta. Esquecem que as decisões tomadas no parlamento mexem com a nossa vida. Razão pela qual promovo à exaustão a ideia do Adote um Vereador.

É preciso estar de olho no que fazem na Câmara Municipal para não sermos surpreendidos com medidas estapafúrdias que prejudicam o nosso dia a dia.

Controle os políticos, antes que eles controlem você.