Interlagos fora da pista?

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

São Paulo é a cidade brasileira com mais tradição em automóvel e em competições automobilísticas. Creio eu, fluminense de Paraty, sem dúvida e sem bairrismos. O pioneirismo da indústria automobilística e, antes disso, o vanguardismo do autódromo de Interlagos, são provas reais desta vocação da cidade, efetivando uma cultura paulistana ligada à velocidade. Provavelmente por isto, a direção da F1 tem tido tanta paciência com os prefeitos paulistanos.

 

Se a cidade de São Paulo vier a perder a Fórmula 1 não será por falta de aviso, mas por falha de gestão. É preciso visão e determinação para trazer e manter eventos globais cobiçados pelas grandes cidades do mundo. Qualidades que foram demonstradas por Luiza Erundina em 1990, quando resgatou para o Brasil e para Interlagos o Grande Prêmio Brasil de F1. A Prefeita, mulher e nordestina, como se orgulhava de apresentar, teve que enfrentar inúmeros obstáculos. As duras investidas do PT, seu partido, e da oposição, redundaram em acusação de favorecimento à Shell, que tinha lhe dado um “cheque em branco” para iniciar o empreendimento. Erundina defendeu-se:
“Não favoreci ninguém, a não ser a cidade de São Paulo. Por contraditório que pareça, um Grande Prêmio de Fórmula – 1 favorece a periferia, o trabalhador pobre. Vou ter mais imposto com a F1 – milhões de dólares de ISS. Vou dinamizar o turismo, projetar a cidade para o mundo. Vou estimular os investimentos no setor. Vou ter um serviço médico em Interlagos que continuará funcionando o ano todo – para a população pobre da região. Vou ter uma oficina mecânica para ensinar uma profissão aos jovens das favelas. Como achava que a F1 era de absoluto interesse para a cidade, negociei com a Shell, assim como negociaria com qualquer outra empresa.”

 

Os cinco anos do contrato de Erundina seguiram e até hoje Interlagos teve o privilégio de sediar a F1, embora a Prefeitura venha sendo cobrada para efetivar uma reforma na estrutura do autódromo, que segundo os dirigentes da competição tem um dos mais perfeitos traçados de pista, se não o melhor.

 

Erundina investiu US$ 18 milhões e embora fosse pressionada pelo PT a utilizar a área de Interlagos para habitação popular, jamais cogitou em transferir o autódromo. As contas atuais estimam investimento em torno de US$ 120 milhões para as reformas necessárias de novos boxes, e sistema de esgoto para a região, dentre outras melhorias necessárias. Valor que agregado ao hábito em voga de inflacionar obras cogita-se em erguer um novo autódromo que de inicio custaria o dobro. Mas como já temos experiência, este valor deverá ser dobrado mais uma vez, ou até mesmo quadruplicado.

 

Será que São Paulo, que se curvou diante da FIFA, e atendeu a tudo, vai deixar de atender a FIA, que deseja manter Interlagos, preservando traçado e pista? Sem falar nos feitos de Emerson Fittipaldi, Antonio Carlos Pace, Nelson Piquet, Ayrton Senna, e Felipe Massa, gravados na memória de Interlagos?

 

Esperamos que Haddad não abandone Interlagos e o mantenha com a pista da F1.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

São Paulo, uma das cinco cidades do tênis mundial

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

São Paulo recebe esta semana o Brasil Open de tênis. Hoje, o maior torneio em nosso território. Alguns destaques como Nadal, Almagro, Monaco e Wawrinka, 5º, 11º, 12º e 17º do mundo, deverão apresentar um espetáculo condizente com a expectativa. O público certamente corresponderá e estará provando que o único ingrediente em descompasso é a estrutura local.

 

O Ginásio do Ibirapuera é a arena. Sem climatização, com dificuldade de estacionamento e sem a tecnologia requerida a um grande evento de tênis. Há pouco mais de um mês, neste mesmo ginásio, tivemos a Gillette Federer Cup. Com a presença de tenistas do topo do ranking da ATP (Associação dos Tenistas Profissionais). Federer, Tsonga, Serena Williams, Sharapova e Wozniacki trouxeram a imensa simpatia e alegria que os caracteriza e levaram a memória da “sauna” paulistana do Ibirapuera com mais de trinta graus.

 

Roger Federer, apreciador de nosso país de longa data, talvez até pelo futebol, aconselha a melhorarmos as condições para efetivarmos um antigo sonho dos brasileiros fãs do tênis profissional. Apresentar instalações que atendam as exigências da ATP para abrigarmos o ATP World Tour Finals. Este disputadíssimo evento, atualmente em Londres, foi oferecido à cidade de São Paulo em 1999, quando Celso Pitta era prefeito. Por falta de instalações adequadas, a cidade não o sediou. Perdermos a oportunidade de estarmos entre as maiores cidades do tênis mundial que ficam na Austrália, França, Inglaterra e Estados Unidos.

 

O ATP Wolrd Tour Finals, por sua característica, é o ultimo torneio do ano e reúne os oito primeiros tenistas da temporada, é considerado por alguns como o mais importante de todos. A cidade de São Paulo pela Fórmula 1 já sabe contabilizar o retorno deste tipo de evento. É hora de Haddad rever Erundina e apresentar uma arena condigna para o tênis. Como foi feito com Interlagos. Ou Alckmin completar de vez a reforma do Ginásio do Ibirapuera.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras

As novas bancas de jornal

 

Texto publicado originalmente no Blog Adote São Paulo, da revista Época São Paulo

 

 

As bancas de jornais de São Paulo chamam minha atenção desde que desembarquei por aqui, em 1991. Morava no bairro de Pinheiros, na zona oeste, e tinha prazer em visitar as que ficavam ao meu redor, especialmente nos domingos, quando fazia questão de comprar a Folha, apesar da insistência de amigos para assinar o jornal e recebê-lo em casa. Não tinham ideia do prazer que era caminhar até uma das bancas próximas e seguir o passeio com o jornal sendo lido aos pedaços. Nem tanto pelo jornal, muito mais pela caminhada, durante a qual saboreava um doce qualquer comprado na própria banca. Aliás, a variedade de produtos tanto quando de títulos à disposição eram atrativos para este programa dominical. Gostava também do espaço para caminhar nos estandes e da organização do jornaleiro para distribuir os jornais e revistas. Se a memória não me falha, e esta costuma falhar, não conhecia bancas com este formato em Porto Alegre. A mais famosa na época era a da Cidade Jardim, me parece pelo sucesso como ponto de encontro nas madrugadas paulistanas. Não sei se mantém a fama, mas mesmo naqueles tempos visitava pouco o local, devido à distância de casa. Em algumas conseguia ler jornais gaúchos, principalmente a Zero Hora (desculpe-me pelo artigo feminino, mas é assim que chamamos lá no Rio Grande o jornal dos Sirostsky).

 

Soube pelo amigo Marcos Paulo Dias, de família ligada às bancas, que, nesta semana, foi divulgado o resultado de concurso que incentivava a apresentação de projetos inovadores como parte de um programa de revitalização do Largo da Batata, em Pinheiros, promovido pela Editora Abril. O desenho vencedor foi feito pelo arquiteto João Paulo Guedes (acima) com material de aparência natural (aço corten) que oferece um visual limpo e moderno, além de ser reciclável. Dos 15 finalistas, gostei da proposta de Cláudia Strutz (abaixo) com teto verde e coletores de energia solar, apesar de todos terem algum ponto de interesse.

 

 

Hoje, vou menos às bancas, pois o tablet me oferece boa parte dos jornais que me interessam e as revistas encontro nas livrarias, mesmo assim sigo sendo atraído para estes locais. E o que me leva a eles, independentemente do formato da banca, segue sendo o bom atendimento do jornaleiro e a variedade de revistas e jornais.

Apesar de tudo… (parte 2)

 

Por Julio Tannus

 

… adoro a cidade de São Paulo. Passado um tempo morando na Rua São Lázaro logo após nossa chegada de Paraty, mudamos para a Av. Leôncio de Magalhães, 1.509, no Jardim São Paulo, no início dos anos 50.

 

O primeiro encontro: tínhamos em casa uma geladeira americana da marca Gibson. Era a única casa da vizinhança que possuía geladeira. Em um dia de muito calor, logo pela manhã, toca a campainha de casa. Ao atender a porta vemos, eu e meu irmão, duas menininhas loiras com forte sotaque alemão, que nos faz o seguinte pedido: “vocês podem dar um pouco de gelo?”. A partir daí ficaram nossas amiguinhas e passei a contar em alemão e a aprender algumas palavras dessa língua, e outras coisas mais. E também saber que várias famílias alemãs haviam fugido da guerra e vindo morar em São Paulo.

 

O primeiro susto: em frente a nossa casa, do outro lado da rua, ficava a Casa das Mangueiras. Uma enorme casa com várias mangueiras no jardim da frente. Éramos, eu e meu irmão, assíduos dessas árvores na época em que ficavam carregadas de deliciosas mangas. Até que um dia, ao chegar da feira com minha mãe, nos demos conta que algo de anormal se passava em casa. Meu irmão havia sido mordido por um dos ferocíssimos cachorros buldogues da Casa das Mangueiras. Se não fosse o caseiro acudir imediatamente, certamente ele teria sucumbido à ferocidade dos cães. Pouco tempo depois, um dos cachorros se soltou e entrou em nossa casa, onde finalmente teve seu fim.

 

As primeiras brincadeiras: Andávamos de carrinho de rolimã pela avenida, e também de bicicleta. Nas festas juninas fazíamos fogueira, fogão de tijolo onde assávamos batata doce, soltávamos fogos de artifício, balão e muita diversão, todas no espaço público. Na calçada de terra batida tínhamos nosso campo para jogar bola de gude. E também espaço para empinar pipa como diziam os paulistanos, que nós de Paraty chamávamos de “papagaio”. Os amigos eram de vários perfis: um deles se tornou comandante da Polícia Militar, outro que só andava de gravata e cujo apelido era “gravata” não sei que fim levou. Quando juntos, além das brincadeiras da época, gostávamos de chamar de “frangueiro” o goleiro Poy, que morava na vizinhança, e era do time do São Paulo e da Seleção Brasileira de Futebol.

 

A primeira mudança: Em meados dos anos 50 fomos morar no bairro dos Campos Elíseos, perto do antigo Palácio do Governo do Estado de SP, na Avenida Rio Branco no edifício Cícero Prado. Um prédio de 100 apartamentos onde a grande maioria era habitada por judeus, muitos deles fugidos da perseguição na Alemanha nazista. É com eles que me aproximei de Sigmund Freud. E também aprendi sobre a cultura judaica: aos sábados ia aos apartamentos onde moravam judias religiosas para acender o fogão de suas casas. Em frente ao prédio, fizemos um campo de futebol em plena Avenida Rio Branco, pois nesse trecho a avenida era apenas uma rua estreita.

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

Coisas de Paraty…

 

Por Julio Tannus

 

Paraty RJ

 

Comecei a viver estudando e acabei estudando para viver.
Dois olhos, duas orelhas, duas narinas. Quer dizer que é mais prudente ver e ouvir do que falar.
Bons conselhos sem bons exemplos é costurar sem linha.
Quem busca um amigo sem defeito, fica sem amigo.
Se a ferradura fosse sorte, o burro não puxaria carroça.
Se o corpo nada no prazer, a consciência morre afogada.
Não há medicina que cure a dor de uma saudade.
Agir sem pensar é como atirar sem fazer pontaria.
Quem bate para ensinar, está ensinando a bater.
Se você sacode uma árvore, fique por perto para colher os frutos.
Na árvore, se não houver frutos, valeu a beleza das flores. Se não houver flores, valeu a sombra das folhas. Se não houver folhas, valeu a intenção da semente.
Quando a sonhar me vejo na cidade. E bebo a tarde e sinto a madrugada. E a noite de janeiro é só luar. É sol e mar, praia e serenata. São pedras ladrilhando a rua. O mar passa solitário na calçada, espelhando a lua cheia nas beiras e nas calçadas. Como é bom amar aqui, na praça, no caís, nas praias. Tudo isso é Paraty!

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, esrceve no Blog do Mílton Jung

"Falta uma visão global da cidade", diz Lerner

 

Protesto no M'Boi Mirim

 

“Falta uma visão global da cidade” disse o urbanista e arquiteto Jaime Lerner em entrevista nesta segunda-feira ao Jornal da CBN. Com a experiência de quem ofereceu soluções para Curitiba e se transformou em referência internacional Lerner ensina que a cidade é uma estrutura de vida, trabalho e lazer e para se enfrentar os desafios impostos aos governantes é preciso soluções conjuntas. Ele entende que além das questões básicas como educação, saúde e segurança, é preciso estar preparado para encarar três pontos fundamentais, hoje em dia: mobilidade, sustentabilidade e tolerância.

 

Uma das coisas que o incomoda é o fato de a maioria das pessoas insistir na manipulação da tragédia, sempre apresentando os dados negativos da cidade, reclamando do seu tamanho e da falta de dinheiro no Orçamento. Defende que se resolva os problemas com o que se tem e se use a nossa energia para mudar tendências: “se você projeta a tragédia, aumenta a tragédia”.

 

Jaime Lerner diz que é um falso dilema que se coloca à população quando se discute investimento em carro ou em metrô. Alargar ruas e avenidas para melhorar a fluidez é transferir o congestionamento de um ponto para outro, e as cidades não têm dinheiro suficiente para ampliar as linhas de metrô. O que fazer então? Como mais de 80% das pessoas andam na superfície deve-se “metronizar o ônibus” colocando-os a circular em corredores inteligentes que aumentem a velocidade do transporte. Usa como exemplo o projeto de mobilidade do Rio de Janeiro para a Copa do Mundo e Olimpíadas, onde se estende apenas uma linha de metrô e se coloca o restante do dinheiro na modernização do sistema de ônibus.

 

“A cidade tem de ser como uma tartaruga, exemplo de habitação, trabalho e movimento, tudo junto”, compara Lerner que enxerga o casco da tartaruga como uma tecitura urbana que se for dividida mata o animal. “Está se separando a cidade por funções, separando as pessoas por guetos de gente rica e guetos de gente pobre.” Para Lerner é preciso resolver melhor a convivência das pessoas, aproximando o trabalho da casa e a casa do trabalho, o que reduziria a necessidade de investimento em transporte.

 

O que será que o seu candidato a prefeito e a vereador pensam sobre isto? Pergunte a ele e cobre soluções para os problemas que fazem parte do nosso cotidiano, antes de definir o seu voto.

 

<a href="”>Ouça a entrevista completa de Jaime Lerner ao Jornal da CBN

"Um lugar para todos"

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Há muitas coisas sem as quais, hoje em dia,não conseguiria viver. Claro que não me criei usufruindo as satisfações e os benefícios que elas me trouxeram ao longo da minha vida. Já escrevi neste blog, por exemplo, que considero indispensável o telefone celular. Para mim, as facilidades oferecidas aos seus usuários por este aparelho, cada vez mais sofisticado, são infinitamente superiores aos incômodos que provoca. Antes que a telefonia móvel estivesse à nossa disposição, tudo era mais difícil. Como, porém, nem só de criações tecnológicas se sobrevive no dia-a-dia, existe um invento bem mais antigo que preenche as minhas horas de lazer e têm ainda muitas outras utilidades. Refiro-me aos livros. Minha vida não seria a mesma sem eles.

 

Comecei a ler muito cedo. No quarto da minha avó paterna, onde eu dormia na minha infância, meu pai mantinha um armário cujo conteúdo me atraía.Entre os que li com tenra idade,lembro-me até hoje, estavam alguns que papai jamais imaginara que pudessem chamar a minha atenção: O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós; |Zadig,novela escrita pelo filósofo Voltaire…e Minha Vida Sexual. Agora, entretanto, prefiro ler livros policiais e, não se espantem, de terror. Sou fã, entre outros autores, de Frederick Forsyth, Stephen King, Scott Turow, Ken Follett, Thomas Harris, James Patterson, Tom Clancy. Essa gente me acompanha no almoço, na janta e em diversos outros momentos.

 

A biblioteca que Maria Helena e eu montamos em nossa casa está recheada de livros. Não foi uma nem duas vezes que compramos obras que já possuíamos. Agora, enquanto aguardo a chegada de uma encomenda, resolvi ler um livro de uma escritora sobre a qual nunca ouvira falar: Thrity Umrigar. Ela é indiana, cresceu em Bombaim, mas mora atualmente nos Estados Unidos. O título original do livro que recém comecei a ler é Um Lugar para Todos ou, no original inglês, Bombay Time. Como está claro, a história tem Bombaim por ambiente. O primeiro personagem a surgir é um empresário que vai ao um casamento com sua mulher “A bem da verdade – escreveu Thrity Umrigar – ele nem queria ir ao casamento. Os mesmos convidados de sempre, as mulheres cravando seus olhos penetrantes nos dois…” Mais adiante, lê-se o que pensava o empresário sobre a sua cidade: “Quanto mais velho ficava, menos lhe agradava sair de casa, a não ser para ir à própria fábrica. A Bombaim da sua juventude – ao menos aquela que ele guarda na lembrança – dera lugar a uma cidade fétida, apinhada e sufocante, que lhe insultava os sentidos. Pôr os pés na rua equivalia a enfiar uma meia suja, malcheirosa, suarenta e pútrida. Quase em sequência, o homem continua pensando: “E, cada ves mais, a cidade – o barulho, a violência, a poluição, a sujeira – invadia sua casa. Diariamente o jornal aterrissava como um míssil na sua porta. Professora idosa morta em assalto. Ministro envolvido em escândalo financeiro. Ladrões Armados fogem depois de assaltar banco.”

 

Bombaim – lembro eu – em 2011 abrigava 12.478.447 habitantes. Esse número, hoje, deve ter crescido muito. O que Thrity Umrigar usou no seu romance “Um Lugar para Todos” vale para São Paulo, para o Rio de Janeiro, para a minha Porto Alegre e todas as grandes cidades do mundo. Se não forem buscadas soluções visando, pelo menos, a diminuir os nossos problemas, não sei aonde isso nos levará.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o pai dele)

Cidades roubam a cena na Rio+20

 

 

O documento mais importante da Rio+20 até aqui não foi aquele sobre o qual os chefes de Estado se esforçam para aprovar o máximo possível de frases sem efeito, mas o apresentado pelas 59 cidades que integram o C-40, organismo do qual São Paulo faz parte, inclusive tendo recebido seus integrantes no ano passado. Assumiu-se publicamente o compromisso de reduzir a emissão dos gases de efeito estufa em 248 milhões de toneladas até 2020 e de 1,3 bilhões de toneladas até 2030. Para que se tenha ideia da dimensão destas metas, seria como eliminar por um ano todas as emissões de México e Canadá juntos. Estas cidades terão um enorme desafio pela frente para não frustrar as expectativas proporcionadas pelo acordo, haja vista que abrigam em torno de 544 milhões de pessoas e são responsáveis, hoje, por 14% das emissões dos gases causadores do efeito estufa.

 

Apesar de receber com otimismo a boa intenção dos prefeitos, procuro não me iludir com os discursos e fotos entusiasmadas que se revelam neste momento. A cidade de São Paulo que havia se disposto a reduzir em 30% as emissões até o fim deste ano, chegou a 10% de acordo com informação do próprio prefeito Gilberto Kassab (PSD) em entrevista à rádio CBN. Bem verdade que avançamos muito em algumas áreas e temos iniciativas interessantes como a instalação de usinas de biogás nos aterros sanitários Bandeirantes e São João, onde durante anos depositamos o lixo que produzimos. A inspeção veicular, criticada por muitos, deve ser colocada nesta conta, também, pelo impacto que o controle sobre a emissão de gases dos automóveis têm no meio ambiente, mesmo com o crescimento da frota.

 

Se alguém ainda tem dúvidas sobre a urgência da implementação de medidas de combate a poluição, termino esta conversa lembrando entrevista desta semana, na qual conversei com o pesquisador do Laboratório de Poluição Atmosférica da Faculdade de Medicina da USP, Paulo Afonso de André. Ele calcula que teríamos evitado 14 mil mortes se o Brasil tivesse cumprido no prazo as etapas do Proconve – Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores que prevê a produção de diesel mais limpo.

E agora estão inventando o pedágio urbano …

 

Por Julio Tannus

 

Eh, eh, eh… São Paulo… São Paulo da garoa, São Paulo terra boa!

 

Parece que esse tempo já não existe mais…

 

Nossa cidade está chegando ao fim?

 

Ruas congestionadas, transporte público precário, motoristas imprudentes, arrastões a condomínios, assaltos à luz do dia, ensino público deficiente, professores mal pagos, um sem fim de impostos municipais, impostos cada vez mais elevados, ruas mal iluminadas, ruas esburacadas, calçadas intransitáveis, cracolândia espalhada pela cidade… E assim por diante!

 

E agora estão inventando o pedágio urbano. Já não chega a imensa carga tributária municipal, estadual e federal, temos agora que arcar com mais esse tributo!

 

Em minha opinião, enquanto não detivermos a exploração imobiliária indiscriminada, a falta de investimento sério no transporte público, a recuperação de ferrovias pelo país afora, a participação das comunidades na definição de prioridades para a cidade, a transparência na aplicação dos valores arrecadados através dos tributos, e uma revisão competente e com participação cidadã do plano piloto da cidade, viveremos em estado de calamidade.

 

Como presidente de uma associação de moradores de bairro, e a convite da prefeitura de São Paulo, participei, no passado relativamente recente, de reuniões sobre o Plano Diretor da cidade. Só faltou sair tiros! Descobriu-se que alguns dos presentes tinham sido “comprados” para representar interesses escusos à população.

 

Outro fato: todos os condomínios de São Paulo estão obrigados a recolher um tributo municipal, que é uma taxa de fiscalização, para cada elevador existente na edificação. Bem, moro em um edifício construído nos anos 60, desde então nunca apareceu um representante da prefeitura para, atendendo ao objetivo do dito imposto, fazer a fiscalização de qualquer dos elevadores existentes. Então pergunto: para onde vai o dinheiro arrecado?

 

Diante desse quadro, penso que nossa passividade transforma-se em permissividade, apesar de alguns dados de pesquisa junto à população apontar as áreas de serviço como as mais críticas de nosso país. Vejamos os dados abaixo:

O INSC é uma medida de satisfação do consumidor brasileiro.
 Ele é nacional e seu objetivo é avaliar a qualidade dos bens de consumo e serviços com base na opinião do consumidor. Essa opinião é publicada espontaneamente na internet e refere-se a bens de consumo e serviços dos vários setores representativos da economia brasileira. Conforme pode ser observado na tabela acima, os piores resultados referem-se aos serviços: Transporte Metropolitano, Energia Elétrica, Telecomunicações.

 

Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Escreve às terças-feiras, no Blog do Mílton Jung.

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Pedágio urbano pode render 3km de metrô por ano

 

Uma mesa com convidados que não andam de carro ou se o fazem, tentam deixá-lo cada vez mais estacionados na garagem. Foi o jornalista Leão Serva e o empresário Alexandre Lafer Frankel que conseguiram a façanha no almoço dessa terça-feira, no Spot, restaurante próximo da congestionada avenida Paulista, para comemorar a edição do guia “Viver Bem Em São Paulo Sem Carro”, no qual contam a história de 12 pessoas que se tornaram mais felizes ao aposentar o automóvel, ou em alguns casos, reduziram seu uso – e foi nesta categoria que me encaixei entre os convidados. Ao contrário de mim, adepto da bicicleta nas horas vagas, a maioria prefere andar a pé e se socorre do trem, metrô ou táxi, dependendo a distância a ser percorrida. Fui privilegiado no almoço ao sentar ao lado da autora de novelas e pedestre Maria Adelaide Amaral. Para ela o carro é meio de transporte somente para viagens fora da cidade ou em ocasiões muito especiais, gosta bem mais de caminhar e de preferência sozinha, diz que depois dos passeios é outra pessoa e escreve melhor. Ir aos cemitérios da vizinhança na Vila Madalena, zona oeste, é fonte de inspiração.

 

Falo deste compromisso aqui no Blog para registrar uma informação que me foi passada pelo urbanista e arquiteto Cândido Malta, que também prefere caminhar a andar de carro e adoraria viver em uma cidade mais compacta, na qual os bairros se sustentassem, com emprego próximo de casa ou a curtas distâncias. Malta é um veterano defensor do pedágio urbano para conter o crescimento da frota de carros e aumentar a velocidade do transporte público. Contou que, a partir de ensaios feitos em computador, foi possível identificar que com a cobrança de R$ 4 por dia, se reduziria em 30% o número de carros nas ruas, índice semelhante ao que deixa de rodar nos feriados, em São Paulo. Seriam arrecadados pelo poder público cerca de R$ 600 milhões por ano, dinheiro com o qual daria para construir ao menos 3 quilômetros de metrô subterrâneo. Para se ter ideia do que isso representa, o Governo de São Paulo consegue tocar, em média, de 0,5 a 1 quilômetro por ano.

 

Nesta semana, o presidente da Fecomércio Abram Szajm, em artigo, provocou os candidatos a prefeito a discutirem o pedágio urbano durante a eleição e criticou os políticos que “se elegem com os votos das pessoas, mas governam para motores e pneus” (leia o texto completo). Em editorial, a Folha de São Paulo entrou no debate. Enquanto o ex-presidente da CET-SP Roberto Scaringela propôs o pedágio em reportagem na revista Época SP, sobre a qual já tratei aqui no Blog.

 

Aos que odeiam a ideia do pedágio urbano, uma notícia tranquilizadora: São Paulo não tem gestor com coragem e disposição para enfrentar este desafio. E enquanto isso não acontece, mesas ocupadas por pessoas que não usam carro serão raras nos centros urbanos.

 

Em tempo: “Viver Bem Em São Paulo Sem Carro” será lançado no museu Emma Klabin, na avenida Europa, em frente ao MIS, no dia 28 de junho. Quem for de bicicleta terá valet service à disposição.