Fé e ideologia não serão capazes de conter os efeitos do aquecimento global

 

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Duas pessoas morreram em ônibus soterrado na Niemeyer. Foto: Bárbara Souza/CBN

 

Acordei logo cedo com a voz de uma autoridade carioca no rádio oferecendo aos ouvintes a garantia de que a prefeitura do Rio estava preparada para enfrentar as dificuldades impostas pela tormenta que havia atingido a cidade na noite anterior. Seiscentos homens estavam nas ruas para atender a população, as equipes da noite foram reforçadas por aqueles que estavam encerrando o expediente, alertas foram emitidos com base no monitoramento dos radares do clima e sirenes tocaram em áreas de risco.

 

Suas palavras não eram coerentes, porém, com a descrição que repórteres faziam ao vivo ou com as fotos e vídeos que já circulavam na internet. O lobby de um hotel era comparado a um navio naufragando, o barro ocupava o salão de uma academia de ginástica, um homem era levado pela correnteza ao som de gritos de moradoras que gravavam a cena, ruas e avenidas estavam tomadas pela água e pessoas buscavam proteção de maneira improvisada —- a maior parte contando mais com a sorte do que com qualquer apoio oficial.

 

A impressão era que um furacão havia passado pela cidade e deixado seu rastro por todos os cantos. Os técnicos fizeram questão de esclarecer que os furacões estão no topo de uma escala que vai do grau 0 ao 12 e registram velocidade de 118 quilômetros por hora ou mais. O que aconteceu no Rio foi uma tempestade, que está no grau 10, e se caracteriza por ventos de 89 a 102 quilômetros por hora.

 

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Chuva colocou Rio de Janeiro em estágio de crise. Foto: Reprodução/TV Globo

 

Ao morador do Vidigal e da Rocinha, duas das áreas mais devastadas pela tormenta, tanto faz o nome oficial daquilo que eles assistiram e sofreram ao longo da noite e madrugada. Para eles e para os demais cariocas —- mesmo aqueles protegidos em prédios mais altos ou em suas casas em bairros mais bem estruturados — foi um caos. Um desespero sem fim.

 

O Rio já encontrou seis pessoas mortas desde o início do temporal — duas delas soterradas, quando tentavam voltar para a casa, na avenida Niemeyer. A terra deslizou na carona de uma árvore centenária que despencou morro abaixo até atingir o ônibus onde estavam os dois passageiros e um motorista —- esse conseguiu escapar com vida. Por sorte. Ou por Deus, como até os descrentes costumam dizer.

 

É com a sorte — e talvez com Deus —- que devemos contar enquanto os administradores das nossas cidades não são capazes de investir na mudança estrutural necessária para os novos tempos. Cruzamos os dedos para que no momento da tormenta já tenhamos chegado a um lugar minimamente seguro. E oxalá nossos parentes e amigos mais próximos também tenham conseguido.

 

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Uma pessoa morreu no Vidigal Foto: Marcelo Carnaval/ Agência O Globo

 

Um mínimo de interesse nos estudos do clima nos faria entender que não sobreviveremos por muito tempo enquanto acreditarmos que nosso destino será traçado pelo acaso. Sorte e azar não são elementos a se ponderar quando cientistas comprovam que a temperatura global aumenta a níveis sem precedentes — 16 dos 17 anos mais quentes registrados aconteceram neste século e nos últimos 40 anos, a temperatura media global esteve acima da média do século 20.

A medida que as temperaturas globais aumentam, eventos climáticos extremos se repetem com mais frequência, com mais custo e com mais destruição. Sabe aquelas chuvas que acontecem uma a cada mil anos? Foram registradas seis vezes, em 2016, nos Estados Unidos —- esse mesmo país que é comandado por um presidente que questiona o aquecimento global. Cidades litorâneas —- como o Rio —- estão muito mais expostas agora aos efeitos das marés altas do que estiveram em todos os tempos. Nos últimos 50 anos, aumentaram de 364% para 925% as inundações, nas três costas dos Estados Unidos.

 

As medidas paliativas e as palavras vazias não serão suficientes para conter as tragédias que tendem a se repetir a cada ano. Ambientes urbanos como o da cidade do Rio, que tem uma geografia a desafiar administradores, ou a de São Paulo, com sua extensão territorial inimaginável, não podem se dar ao luxo de esperar mais tempo até iniciarem de forma inteligente e planejada ações que mitiguem os impactos provocados pelo clima.

 

Repensar a forma de ocupação do solo, criar áreas para absorção da águas das chuvas, ampliar a quantidade de árvores para diminuir o efeito das ilhas de calor, deslocar famílias dos pontos de alto risco, reurbanizar favelas, recuperar córregos, riachos e rios, rever os modelos de transporte e reduzir a emissão de carbono são algumas soluções já há muito conhecidas e, por mais complexa que seja a implantação destas medidas, quanto mais tempo demorarmos para atuar piores serão os efeitos sobre a qualidade de vida do cidadão.

 

E para o nosso azar — perdão, uso a expressão apenas por força do hábito —- o que vemos avançar no Brasil, em lugar de politicas públicas que adaptam as cidades para esse novo tempo, é o discurso de políticos negacionistas ambientais. Uma gente cega pela sua fé e ideologia, incapaz de compreender que as evidências científicas são contundentes. Retumbantes. Destruidoras, se levarmos em consideração o que aconteceu no Rio nas últimas horas.

 

A persistirem os sintomas, a análise mais crua e certeira — tanto quanto mal-educada —- que ouvimos foi a de um cidadão carioca, voltando para a casa em meio ao temporal, aparentemente bêbado, que se intrometeu na cobertura ao vivo de uma repórter da Globonews para decretar: —- “Tá todo mundo f….., essa m…. aqui”

Fator clima é o novo aliado para produção e venda de produtos

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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Howard Schultz fundador da Starbucks conta que em junho de 1994 havia começado as férias mais desejadas da sua vida quando foi alertado por Orin um de seus executivos:

 

– “Houve uma séria geada no Brasil. O preço do café enlouqueceu”.
–  “No Brasil? a Starbucks nem compra café do Brasil”.

 

Schultz teve que interromper as férias para enfrentar uma das maiores crises da empresa, diante da subida dos preços ocasionada pela intempérie climática do maior produtor de café do mundo. Mesmo não sendo seu fornecedor.

 

“Não era nada que pudéssemos evitar nada que sabíamos como lidar”.

 

Se em 1994 a justificativa de Howard poderia ser aceita, os fatos recentes da seca na região de São Paulo, ou o rigoroso inverno que ocorreu no sul e sudeste brasileiro, poderiam muito bem ser previstos e considerados. Evitando perdas no caso da seca e obtendo ganhos no caso do frio.

 

É nesta linha que a 11ª edição do The Global Risks, fruto da reunião de Davos deste ano, apontou pela primeira vez as mudanças climáticas como o maior risco global, na frente das armas de destruição em massa e da crise hídrica.

 

Por isso, dia 6 uma equipe do FSB* do G20* se reuniu em São Paulo, com a CVM*, BM&FBOVESPA*, IBGC* e Ambima*, de acordo com nota do Estadão, para ouvir sugestão de empresários quanto a formação de indicadores financeiros relacionados com o clima. O objetivo é que os agentes econômicos gerenciem melhor os riscos climáticos de cada atividade.

 

A boa notícia é que empresas brasileiras já estão engajadas neste processo.

 

A Natura ganhadora em 2009 do Prêmio ECO* de Modelo de Negócio é a primeira do mundo no setor de cosméticos a fazer uma análise ambiental de ponta a ponta em sua cadeia, inclusive de uso do produto.

 

A Duratex, empresa premiada em 2013 com o Prêmio ECO, por Práticas de Sustentabilidade, substituindo a água dos sanitários, previu a crise de água ocorrida em 2014 e adotou o seu reuso.

 

A Fibria venceu um Prêmio ECO com o projeto de Engajamento com seu público de interesse.

 

O desafio é alastrar essas práticas para empresas de outros setores e de todos os portes.

 

Se, por exemplo, no sul e no sudeste as empresas de moda adotassem o clima como parceiro poderiam ter vendido na crise mantôs, sobretudos, botas, etc. como nunca.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

 

¨¨
“Dedique-se de coração”, Schutz, Howard, São Paulo, Negócio Editora, 1999.
*FSB – financial stability board
*G20 – grupo dos vinte
*CVM – comissão de valores mobiliários
*BM&FBOVESPA – bolsa de mercadorias e futuro da bolsa de valores de São Paulo
*IBGC – instituto brasileiro de governança corporativa
*Anbima – associação brasileira de entidades do mercado financeiro e de capitais
*Prêmio ECO – patrocinado pela AMCHAM e Valor Econômico
AMCHAM – american chamber of commerce for Brazil

Mundo Corporativo: Elmano Nigri diz por que tem tanto funcionário insatisfeito na sua empresa

 

 

Nas empresas, trabalhamos com processos e pessoas. Processos, não reclamam. Pessoas, sim. Então, é preciso saber ouvi-las para que se melhore o clima organizacional e aumente a produtividade. Esse tem sido um dos trabalhos desenvolvidos por Elmano Nigri, presidente da consultoria Arquitetura Humana, que participou do programa Mundo Corporativo, da rádio CBN. Com base em pesquisas feitas em algumas das maiores corporações do mundo, o consultor relacionou os principais motivos que levam muitos profissionais a dizerem que estão insatisfeitos com a função que exercem: “primeiro, porque (eles) não são ouvidos; segundo, não se presta atenção neles; terceiro, porque não têm as características que foram definidas e comunicadas a eles; o caipira costuma dizer que ‘nóis combina, nós faz’ – é preciso que se combine com cada pessoa dentro da organização o que se espera dela”.

 

O Mundo Corporativo vai ao ar às quartas-feiras, às 11 horas, no site http://www.cbn.com.br e o programa é reproduzido aos sábados no Jornal da CBN. Os ouvintes-internautas podem participar pelo e-mail mundocorporativo@cbn.com.br e pelos Twitters @jornaldacbn e @miltonjung (#MundoCorpCBN).

Conte Sua História de SP: a casa da Avenida Brasil

 

No Conte Sua História de São Paulo, o depoimento de Ana Maria Mato Nardelli, gravado pelo Museu da Pessoa. Ana Maria chegou da Itália com 17 anos, ao lado da irmão e da mãe. O pai, comerciante bem sucedido, viaja muito ao Brasil, para fazer negócios. Lá no início da década de 1950, mandou buscar a família. Havia decidido morar de vez por aqui. Foram todos para uma casa alugada na Avenida Brasil com a Rebouças. Ana Maria conta que naquela época, as avenidas eram largas; as distâncias, enormes; e, apesar dos edifícios do Centro e a arquitetura francesa, boa parte da cidade ainda parecia selvagem. O clima de São Paulo também era bem diferente dos tempos atuais: mais úmido e frio, o que a fazia lembrar da Itália.

 

Ouça a história de Ana Nardelli, que foi ao ar na rádio CBN, sonorizada pelo Cláudio Antonio:

 

 

Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva um texto para milton@cbn.com.br ou agende uma entrevista em áudio e vídeo pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.

Água que cai do céu não está sobrando

 

Afonso Capelas Jr mantém o blog Sustentável na Prática, dentro do portal Planeta Sustentável, e ofereceu um dos textos sobre a água para que publicássemos neste Blog Action Day:

Enchente em São Paulo

Entre o final de 2009 e o começo deste ano tivemos mais de 40 dias de dilúvio em vários lugares do Brasil. Em São Paulo, por exemplo, foram exatos 47 dias seguidos de chuvas – e chuvas fortíssimas – causando aqueles estragos todos que já sabemos. Diante desse cenário de aparente fartura de água muita gente se anima com a ideia de que já não há mais motivos para economizar. Ao contrário, acreditam que, como está sobrando água nas represas, temos mesmo é que gastá-la sem critérios.

Não é bem assim. De fato, em janeiro quatro das 11 principais represas que abastecem a Região Metropolitana de São Paulo estavam com sua capacidade quase acima do chamado “nível de segurança para armazenamento”, que é o limite máximo de operação que um reservatório pode suportar. O sistema Cantareira, por exemplo – responsável pelo abastecimento de quase 9 milhões de pessoas – tinha mais de 96% de suas represas cheias d´água. Foi preciso descarregar o excedente nos rios para evitar o transbordamento.

O assessor de Meio Ambiente da Sabesp, Marcelo Morgado, explica: “As chuvas intensas e enchentes causam a falsa ilusão de abundância de água e até induzem à menor preocupação com o desperdício”. Na verdade, o que a gente nunca se dá conta é que depois das águas de março passamos por um longo período de estiagem durante o final do outono e boa parte do inverno, especialmente aqui no Sudeste do país.

Morgado lembra que localmente, dependemos muito desse estoque de águas das chuvas nas represas durante o verão, para suportar a estiagem do inverno. “Por outro lado, globalmente, é preciso levar em consideração que as mudanças climáticas não são uma tendência puramente linear, mas vêm acompanhadas de distúrbios no tempo, alguns dos quais já estamos vivenciando e que provocam alterações no regime de chuvas. Ou seja, chuvas torrenciais podem ser sucedidas por períodos de estiagem severa e prolongada”.

Antes mesmo de colocar a culpa nas questões climáticas, acredito que é preciso adotar uma nova postura: a da utilização racional da água e, de resto, de todos os outros recursos naturais deste planeta. É um hábito que pode fazer parte do nosso comportamento diário sem alterar em nada a nossa qualidade de vida e de bem estar. Ao contrário, vai até prolongá-los. Assim como também podemos procurar agir de modo inovador, reconsiderando formas de aproveitamento de tanta água limpa que cai do céu, mas não é inesgotável.

Vamos pensar juntos nessas possibilidades?

O aquecimento global e a chuva de hoje no Roda Viva

 

Carlos Nobre do Inpe no Roda Viva

O Roda Viva é daqueles programas que o entrevistado não consegue dizer tudo que pensa, os entrevistadores não conseguem perguntar tudo que querem e o telespectador não ouve tudo que precisa. Mas todos querem participar, o público, inclusive. Nesta segunda, ao entrevistar o pesquisador do INPE Carlos Nobre, das maiores autoridades sobre clima no País, a sensação não foi diferente, tanto que a conversa seguia em frente no intervalo do programa. E não parou ao fim.

Nobre olhou de mais para o aquecimento global, e demonstrou confiança nos dados que tem servido de base para as previsões de impacto com as mudanças climáticas. Entende que se há erros – e estes tem sido usados para desacreditar os estudos apresentados – são poucos e justificáveis. Para ele, grupos econômicos que tem interesses contrariados estão por trás das críticas. Parte da indústria de petróleo, citada pelo Heródoto Barbeiro, estaria neste grupo.

“A ciência é neutra” tentou explicar. E os cientistas ? Respondeu-me voltando o olhar para o alto do estúdio, hábito que manteve durante a hora e meia de entrevista. Parecia querer encontrar no céu a resposta para as coisas da terra. Não chega a ser surpresa, foi decifrando estes códigos que ele e os colegas pesquisadores chegaram a conclusões trágicas para o futuro do planeta se nada for feito. Acredita que os cientistas tem convicções e usam de dados concretos para convencer o mundo. Ou seja, não mentem. Mas podem cometer erros.

Na outra oportunidade que tive de perguntar, tentei olhar o impacto do nosso comportamento no ambiente urbano. Afinal, o Roda Viva abriu com um proposta registrada em vídeo: descobrir se a enchente em São Paulo ou a nevasca na Europa são efeitos do aquecimento global alardeado pelos cientistas. Sim e não, disse Nobre.

Fiquei com a impressão de que não. O que temos é resultado de hábitos que desrespeitam a lógica da natureza: ocupação desordenada, devastação de áreas verdes, impermeabilização do solo e falta de gerenciamento urbano. Não fomos capazes, ainda, de preparar a cidade para novos parâmetros, como o volume maior de chuva em relação há 50 anos. Nem de crer no que mostram os mapas meteorológicos.

O risco de esgotamento das represas em São Paulo foi anunciado em setembro pelo Inpe, a Sabesp fez simulações de controle de vazão, mas na hora H segurou o que pode e tenta até hoje convencer os municípios alagados de que a culpa não é dela . É da chuva, de Deus ….

Adaptação foi tema de outra questão que me permiti fazer em meio a tanta gente especialista no assunto: Washington Novaes, Martha San Juan França e José Carlos Cafundó. Queria saber o que isto significa de maneira prática. Resumo do que disse Nobre: investir até onde a engenharia permite, implantar plano de macrodrenagem com novos parâmetros e remover famílias de áreas de risco.

Em determinado momento da conversa, levado pelo próprio entrevistado, o olhar se voltou para o campo, apesar de boa parte da população brasileira – e mundial – ser urbana. E no instante mais bem humorado e não menos sério do Roda, o cartunista Caruso desenhou um boi temendo por seu destino e soltando pum. A flatulência e os arrotos dele e seus parentes emitem 50% mais gases de efeito estufa do que todo setor de transportes.

Foi o gancho que precisava para ao menos chamar atenção do cidadão sentado no sofá diante da televisão que aquela altura deveria estar imaginando: por que deixar meu carro em casa se o boi é que faz a m ….. no campo ? As ações não são isoladas, a mudança de hábito deve ocorrer na cidade e na fazenda, as medidas precisam ser adotadas pelo indivíduo, sim, mas também pela iniciativa privada e o poder público.

Estamos todos neste mesmo barco que pode afundar daqui 50, 100 anos por causa do aquecimento global como insistem os cientistas – ao menos boa parte deles – ou emborcar amanhã mesmo com uma chuvarada que faz despencar nossas casas e vidas.

Veja mais imagens do programa no álbum da Tv Cultura no Flickr e detalhes no programa no site da emissora.

Aquecimento global, verdade ou mito?

 


Por Carlos Magno Gibrail

http://www.flickr.com/photos/fdecomite/

Verdade é que da preocupação de Peter Gwynne da “Nesweek” em 1975 (“The Cooling World”) para a proposição de Copenhagen 2009, passamos da ameaça da Era do Gelo para a catástrofe do derretimento global.

Passamos também da preocupação com os estercos eqüinos, quando a cidade de New York era tomada pelos dejetos, para o dióxido de carbono dos automóveis.

Agora, voltamos à atenção para a carne bovina, não só pelo esterco, mas pelos gases. O desmatamento é tanto mais grave quanto abre espaço para o gado, cuja poluição é mais danosa do que o dióxido de carbono dos carros. Em 50% para o efeito estufa. A ponto de cientistas estarem buscando nos cangurus a bactéria específica para transplantá-la nos bovinos. Os cangurus não poluem, mas certamente não dariam conta de substituir os ruminantes, ainda que os aficionados do churrasco estivessem dispostos a aceitar a troca. E, desconfiamos que não estarão.

A verdade é que não há mito, a maioria dos cientistas acredita que as mudanças no planeta acarretam transformações no clima. Entretanto “Uma verdade inconveniente” do Nobel, Al Gore, não é uma unanimidade completa.

A americana Intellectual Ventures, sediada em Seattle, uma empresa de invenções, detentora de mais de 20.000 patentes, incluindo através de produção própria ou por compra, 500 novas por ano, pode nos dar algumas pistas. Nathan Myhrvold, 50, de Seattle, que aos 23 anos já tinha mestrado em Geofísica, Física Espacial e Economia Matemática, além de PhD em Física Matemática, e foi para Cambridge fazer pesquisa em Cosmologia Química com Stephen Hawking, a criou em 2.000, junto com o com o seu colega de trabalho Edward Jung. O biofísico, “com sobrenome emblemático”, foi o principal arquiteto de software da Microsoft. Bill Gates considerava Myhrvold, seu diretor de tecnologia, uma sumidade: “Não conheço ninguém mais inteligente que Nathan”.

A Intellectual Ventures participou de projetos de satélites à lua, ataques de mísseis, Star Wars, da malária no abatimento de mosquitos a laser, do mapeamento do cérebro e a reprodução em tamanho natural do aneurisma a ser retirado e enviado ao neurocirurgião para facilitar a operação, e atualmente reúne também especialistas em climatologia.

Colaboram também da Intellectual Ventures, Lowell Wood, 60, astrofísico, e professor de Nathan que o considera “Um dos homens mais inteligentes do universo”; Ken Caldeira, 53, climatologista do Intergovernmental Panel on Climate Change, que em 2007 dividiu o Nobel com Al Gore pelo alerta do aquecimento global.

O economista Steven Levitt e o jornalista Stephen Dubner, contam em seu Super Freakonomics que visitaram Nathan no papel de “Harry Potter” e sua turma de cientistas na Intellectual Ventures. Foram brindados com uma seção de “brainstorm” regada a soda, com uma dúzia de gênios, que durou mais de 10 horas. E em que todos concordaram no aquecimento da terra com a suspeição que a ação do homem contribui para isto. Ao mesmo tempo opinam que Al Gore “tecnicamente não está mentindo”, mas que há alguns pontos como a submersão da Flórida que não tem base física.

O astrofísico Lowell Wood registra a limitação dos modelos climáticos existentes, ao que Nathan explica que as grades computadorizadas são pequenas e restringem a área a ser pesquisada. Isto devido aos poucos recursos dos sistemas operacionais. E todas as alterações que deveriam ser monitoradas, como os vulcões do planeta, não o são.

Myhrvold, desde criança, fascinado por fenômenos geofísicos lembrou que na década de 80 no Estado de Washington o Mount St. Helens entrou em erupção e fez com que nunca esquecesse a camada de cinza acumulada na sua janela e a relação entre vulcões e clima.

Em 1991, nas Filipinas, a lava e a fumaça ejetadas pelo Monte Pinatubo matou 250 pessoas. Seu efeito global, no entanto, foi muito positivo. A erupção vulcânica lançou na atmosfera mais de 20 milhões de toneladas de dióxido de enxofre, um gás leve e opaco. O SO2 do Pinatubo subiu até a estratosfera e, em questão de meses, espalhou-se em uma camada, recobrindo todo o planeta. Essa camada funcionou como um filtro que diminuiu a incidência da radiação solar sobre a superfície da Terra. Como resultado disso, a temperatura média do planeta caiu 0,5 graus.

Nathan Myhrvold propõe a montagem de um gigantesco chuveiro capaz de aspergir um volume de SO2 na estratosfera equivalente ao produzido pelas erupções vulcânicas. A simplicidade, uma das premissas básicas dos cientistas da Intellectual Ventures, remete ao princípio já conhecido de eliminar o problema com o elemento que o acarretou. O veneno com o próprio veneno. A bactéria invasora com a própria bactéria. A ciência é a quantidade a ser usada para o combate.

Como início, o plano “Salve o Ártico” que pode ser executado em dois anos , ao custo de 30 milhões de dólares. Se o resfriamento dos pólos for insuficiente viria o “Salve o Planeta”, ampliado e lançando três a cinco vezes mais dióxido de enxofre. Que mesmo assim não chegaria a 1% das atuais emissões mundiais de enxofre. Em três anos há possibilidade de começá-lo, com custo inicial de 150 milhões de dólares e custo anual operacional de 100 milhões de dólares.

Comparando estes 250 milhões de dólares às estimativas do relatório sobre os efeitos climáticos do economista britânico Nicholas Stern com seus 1,2 trilhão anual previstos, fica evidenciada a ironia positiva dos autores de Super Freakonomics a respeito da irreverente turma de Seattle: “Precisa-se de boa dose de arrogância conjunta para que um pequeno grupo de cientistas e engenheiros se considere capaz de lidar simultaneamente com os mais difíceis problemas do mundo”.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e às quartas-feiras escreve no Blog do Mílton Jung

Um número que pode salvar o planeta: 350

 

Crianças nas Filipinas formam o 350 em defesa da Terra

Crianças nas Filipinas formam o 350 em defesa da Terra

Neste sábado, 24, milhares de pessoas em torno do mundo farão parte do Dia Internacional da Ação do Clima, enviando uma mensagem clara aos líderes mundiais: não é mais possível adiar as medidas de combate as mudanças climáticas. A intenção é pressioná-los a assumirem compromisso com soluções para a questão do aquecimento global durante o encontro em Copenhagen, Dinamarca, em dezembro. E um número em especial tem de estar diante de qualquer que seja a decisão: 350.

De acordo com cientistas, 350 partes por milhão é o limite máximo de segurança para a concentração de dióxido de carbono na atmosfera. Há dois anos, após observarem a velocidade do derretimento do gelo no Ártico e sinais assustadores de alterações climáticas, pesquisadores entenderam que o planeta estava em risco de catástrofe natural e humana se as concentrações de CO2 na atmosfera se mantivessem acima das 350 partes por milhão.

O desafio é gigantesco e exigirá mudanças drásticas de comportamento que devem ser decididos no encontro de dezembro. Por isso, é fundamental a pressão cidadã sobre os líderes globais e seus representantes. A coalisão 350.org imagina que haverá mais de 4 mil eventos em 170 países, neste sábado.

Uma das tarefas dos participantes é produzir uma foto com o número 350 e enviá-la pelo site 350.org que se vai construir durante todo o evento gigantesco painel eletrônico no Times Square, em Nova Iorque. Todo o material fotográfico será distribuído para repórteres que cobrirem o evento com a intenção de provocar reações também da mídia.

Veja aqui as atividades propostas para moradores da cidade de São Paulo.

Foto-ouvinte: Boa Noite, São Paulo !

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Noite na tarde de São Paulo Eram quatro e 55 da tarde quando o ouvinte-internauta e colaborador do Blog, Armando Italo, fez esta foto na zona sul de São Paulo. Pela manhã, a Patrícia Madeira, da Climatempo, havia anunciado que o tempo iria fechar. E fechou mesmo. Aliás, anoiteceu bem mais cedo, caiu aquele pé de água e mais uma vez os alagamentos voltaram a brotar por todos os cantos.

Do Rio 40 graus à São Paulo 10 graus

 

Por Adamo Bazani

Para continuar o sonho de permanecer ao volante, motorista deixa tudo no Rio de Janeiro e vem para São Paulo. O maior choque? O choque térmico

Admir, motorista de ônibus

Que São Paulo, devido a mudança climática provocada pela poluição, construção desordenada e aumento da população deixou de ser Terra da Garoa, isso é um fato. E que se deu muito rapidamente. Esta transformação também pode ser contada através da história do motorista de ônibus, Admir dos Reis Oliveira, 50 anos.

Natural do Rio de Janeiro, Admir sempre foi fã de ônibus e admirava a diversidade de cores das empresas que andavam na cidade, uma das únicas a não aderir a padronização e a permitir que as empresas mantivessem sua identidade.

De família humilde, ele perdeu o pai aos 4 anos de idade.  A mãe não dava conta de manter a família e Admir teve de morar com a avó-madrinha e um tio. Trabalha desde a infância. Fazia de tudo: entregas, vendas e serviços gerais, quando aproveitava para apreciar os ônibus na rua.

“Coloquei na cabeça que iria dirigir ônibus. Ia em garagens, começava a me inteirar de como eram as manhas para guiar um possante. Mas tudo ainda ficava na base do namoro”.

Em 1977, apareceu uma chance para Admir. A empresa Rio-Ita, que opera na região Metropolitana do Rio de Janeiro, abriu vaga para ajudante geral. “Depois de estar dentro de uma empresa, seria mais fácil conseguir virar motorista”.

O pensamento de Admir estava certo. Passou por auxiliar geral, auxiliar de mecânica, mecânico até que, em 1979, aparece oportunidade de operar em linhas intermunicipais no Rio de Janeiro. “Foi uma maravilha. O serviço era interurbano, mas com ônibus Ciferal e Marcopolo rodoviários. Me senti o Rei do Asfalto”.

O calor no Rio era um dos principais problemas para motoristas no fim dos anos 70. Apesar de já existirem veículos com ar condicionado, eram muitos caros. “Mas como um bom carioca da gema, batia fácil o calor”.

A primeira lição que Admir teve no volante é que por mais especializado que o motorista seja, é no dia a dia que se aprende a profissão. “Lidar com pessoas é uma arte e dirigir ônibus é interagir com o ser humano. É muito mais que controlar um carrão grande”.

Ele garante: “era um aluno aplicado na escola da estrada”.

E foi no ônibus que encontro equilíbrio financeiro para a família. “Não ganhava muito, o salário no Rio de um motorista na época, era 3 vezes menor que o salário no ABC ou em São Paulo. Mas consegui viver feliz”.

Em 1984, o que parecia ser uma vida estável, sofre um grande baque. O então proprietário da Rio–Ita vende a empresa e transfere a maior parte dos recursos para empresas da Capital e do ABC Paulista. Ele teve de tomar uma decisão importante. Correr o risco do desemprego ou acompanhar o patrão em São Paulo.

“Todo mundo na minha família foi contra, mas o dono da empresa me ofereceria o emprego em São Paulo. E tinha outro dilema, eu teria de ir a São Paulo, mas começar do zero, como auxiliar geral, igualzinho eu tinha começado, em 1977. É que o proprietário da Rio-Ita, que acabara de entrar nos negócios em São Paulo e no ABC precisava reestruturar as viações que acabara de comprar”.

Depois de muito pensar e discutir com a família, Admir teve de tomar coragem, e veio sozinho para Mauá, no ABC Paulista, deixando no Rio de Janeiro uma filha de um ano e dois meses e a mulher.

“Pelo menos era um emprego, eu mandaria o dinheiro para minha família.. Antes poder sustentá-la longe a passar fome, perto. Além disso, minha paixão é dirigir, não me via fazendo outra coisa”.

Grande São Paulo, o choque térmico

Em setembro, Admir foi para Mauá, na região metropolitana de São Paulo. Ele começou do zero mesmo. Auxiliar geral e morava num quartinho cedido pelo dono da empresa na garagem.

“O que mais me chamou a atenção quando cheguei a Mauá (Grande São Paulo) foi o frio. Sem brincadeira, parece ridículo, mas isso quase me fez desistir”. Era setembro e mesmo assim a temperatura estava próximo dos 10 graus.

“Sofri muito. Gripe, direto. Usava casacos enquanto os outros motoristas trabalhavam de camisa normal, era até caçoado”.

Na época, o ABC e parte de São Paulo, mesmo se expandindo ainda podiam ser consideradas Terra da Garoa. E da neblina. A garagem da empresa ficava em um lugar alto de Mauá.

“Enquanto em 1984, muitas cidades da Grande São Paulo tinham crescido bastante, parte de Mauá, quase chegando em Ribeirão Pires, tinha pouca construção, os morros não eram habitados como agora e o ar era fresco, geladinho, por natureza”.

A garoa típica que já deixava aos poucos a cidade de São Paulo, enquanto ela crescia, ainda podia ser notada em Mauá. “No fim da tarde, tinha de colocar a blusa e ligar o limpador do ônibus. Quando pegava a linha que ia para Paranapiacaba (vila considerada patrimônio histórico da humanidade, marcada por construções inglesas, devido à construção da linha Santos Jundiaí, por Barão de Mauá, no final do século XIX) era outro mundo pra mim. A neblina da Serra do Mar, o ar frio, bem diferente do Rio de Janeiro”.

Dois meses depois de ter virado motorista na Viação Barão de Mauá, a filha e a mulher de Admir se mudam para a garagem. O patrão havia arrumado um lugar maior. “Mas meu objetivo, que hoje conquistei, era comprar uma casa para minha família. Não dava pra ver minha filha ser acordada as três da manhã pelo barulho dos motores dos ônibus que se preparavam para as primeiras viagens. Na garagem não pagava aluguel e graças a isso, consegui economizar pra comprar uma casinha”.

Pelas janelas dos ônibus, inicialmente os Bela Vista, Gabriela, Amélia, passando pelos modelos Padron Vitória, Admir viu o clima da região mudar. As construções, em São Paulo e no ABC, se tornavam mais altas. Os morros com eucaliptos que perfumavam a garagem foram ocupados por barracos. O número de carros nas ruas cresceu assustadoramente.

“Depois de 20 anos, dirigindo entre a cidade de São Paulo e Ribeirão Pires, comecei a sentir o mesmo calor que no Rio de Janeiro. Mas um calor mais abafado, com ar pesado. Pensei que é porque eu tinha me adaptado, mas os termômetros não mentiam: a temperatura tinha aumentado mesmo”

Hoje em dia, por conta do calor na cidade de São Paulo e nas cidades do ABC, e das lotações nos ônibus, a presença do ar condicionado dos veículos é quase obrigatória.

“Estranhei o frio quando cheguei na Grande São Paulo. Me chamaram a atenção a brisa e o friozinho da tarde na periferia de Mauá. Hoje, mesmo adorando calor, como bom carioca, sinto saudade desse tempo. Hoje, temos um calor poluído e pela minha história no ônibus, presenciei a mudança do clima em São Paulo. Motoristas mais antigos que trabalharam na região nos anos 40 e 50 me contaram que sentiram mais ainda a mudança. Infelizmente, o trânsito, a poluição e o “calor pesado” chegaram bem pertinho da Serra do Mar, em Mauá. Quem trabalha na rua, como eu, vê que é verdade que o Planeta está ficando mais quente”.

Ádamo Bazano é repórter da CBN, busólogo e sabe que a coisa está esquentando.