O aquecimento global e a chuva de hoje no Roda Viva

 

Carlos Nobre do Inpe no Roda Viva

O Roda Viva é daqueles programas que o entrevistado não consegue dizer tudo que pensa, os entrevistadores não conseguem perguntar tudo que querem e o telespectador não ouve tudo que precisa. Mas todos querem participar, o público, inclusive. Nesta segunda, ao entrevistar o pesquisador do INPE Carlos Nobre, das maiores autoridades sobre clima no País, a sensação não foi diferente, tanto que a conversa seguia em frente no intervalo do programa. E não parou ao fim.

Nobre olhou de mais para o aquecimento global, e demonstrou confiança nos dados que tem servido de base para as previsões de impacto com as mudanças climáticas. Entende que se há erros – e estes tem sido usados para desacreditar os estudos apresentados – são poucos e justificáveis. Para ele, grupos econômicos que tem interesses contrariados estão por trás das críticas. Parte da indústria de petróleo, citada pelo Heródoto Barbeiro, estaria neste grupo.

“A ciência é neutra” tentou explicar. E os cientistas ? Respondeu-me voltando o olhar para o alto do estúdio, hábito que manteve durante a hora e meia de entrevista. Parecia querer encontrar no céu a resposta para as coisas da terra. Não chega a ser surpresa, foi decifrando estes códigos que ele e os colegas pesquisadores chegaram a conclusões trágicas para o futuro do planeta se nada for feito. Acredita que os cientistas tem convicções e usam de dados concretos para convencer o mundo. Ou seja, não mentem. Mas podem cometer erros.

Na outra oportunidade que tive de perguntar, tentei olhar o impacto do nosso comportamento no ambiente urbano. Afinal, o Roda Viva abriu com um proposta registrada em vídeo: descobrir se a enchente em São Paulo ou a nevasca na Europa são efeitos do aquecimento global alardeado pelos cientistas. Sim e não, disse Nobre.

Fiquei com a impressão de que não. O que temos é resultado de hábitos que desrespeitam a lógica da natureza: ocupação desordenada, devastação de áreas verdes, impermeabilização do solo e falta de gerenciamento urbano. Não fomos capazes, ainda, de preparar a cidade para novos parâmetros, como o volume maior de chuva em relação há 50 anos. Nem de crer no que mostram os mapas meteorológicos.

O risco de esgotamento das represas em São Paulo foi anunciado em setembro pelo Inpe, a Sabesp fez simulações de controle de vazão, mas na hora H segurou o que pode e tenta até hoje convencer os municípios alagados de que a culpa não é dela . É da chuva, de Deus ….

Adaptação foi tema de outra questão que me permiti fazer em meio a tanta gente especialista no assunto: Washington Novaes, Martha San Juan França e José Carlos Cafundó. Queria saber o que isto significa de maneira prática. Resumo do que disse Nobre: investir até onde a engenharia permite, implantar plano de macrodrenagem com novos parâmetros e remover famílias de áreas de risco.

Em determinado momento da conversa, levado pelo próprio entrevistado, o olhar se voltou para o campo, apesar de boa parte da população brasileira – e mundial – ser urbana. E no instante mais bem humorado e não menos sério do Roda, o cartunista Caruso desenhou um boi temendo por seu destino e soltando pum. A flatulência e os arrotos dele e seus parentes emitem 50% mais gases de efeito estufa do que todo setor de transportes.

Foi o gancho que precisava para ao menos chamar atenção do cidadão sentado no sofá diante da televisão que aquela altura deveria estar imaginando: por que deixar meu carro em casa se o boi é que faz a m ….. no campo ? As ações não são isoladas, a mudança de hábito deve ocorrer na cidade e na fazenda, as medidas precisam ser adotadas pelo indivíduo, sim, mas também pela iniciativa privada e o poder público.

Estamos todos neste mesmo barco que pode afundar daqui 50, 100 anos por causa do aquecimento global como insistem os cientistas – ao menos boa parte deles – ou emborcar amanhã mesmo com uma chuvarada que faz despencar nossas casas e vidas.

Veja mais imagens do programa no álbum da Tv Cultura no Flickr e detalhes no programa no site da emissora.

4 comentários sobre “O aquecimento global e a chuva de hoje no Roda Viva

  1. Milton, a sensação que tive é que o entrevistado ficou à vontade em demasia, ou seja, estendeu-se muito em cada resposta. Esperava que os jornalistas pedissem mais brevidade nas explicações. O ritmo não foi de televisão, foi de reunião técnica.
    Concordo que o caos de São Paulo é pontual e de responsabilidade exclusiva de moradores e autoridades. Nada a ver com ameaças de mudanças climáticas. Que aposto somente será resolvida se houver uma solução que seja uma descontinuidade deste conhecido processo de sustentabilidade.Algo como passarmos do lampeão para a luz elétrica.

  2. A impressão é que todos nós, telespectadores, assistimos a verdade passar pelos nossos olhos e sempre disparamos soluções, sem no entanto, somar efetivamente benefícios concretos e duradouros.
    Realmente, sinto que de prático, pouco faço. Esta foi a impressão que tive, vinte minutos parado olhando para o vazio da sala e vendo minhas atitudes neste canto.
    Sem dúvidas as respostas também passaram por uma tentativa de neutralizar partidos, cientistas, bois, seres humanos e outros culpados. O Dr. Carlos Nobre é preocupado, primeiramente, com sua convicção profissional. Parece-me que vem em segundo plano apontar aquele ou aquilo como responsáveis.
    As lições estão passando. Parece que cada um quer fazer a sua parte no cotidiano.
    Conviver com o que estamos presenciando merece mais atitude e disposição.

  3. Milton
    Para não ser reduntante, endosso as palavras do caríssimo Dr Carlos Gibrail.
    O caos em que a cidade de são Paulo se encontra, é pontual.
    O tema aquecimento global, englobando o desenvolvimento de grandes metropolis, realmente é extremamente técnico, complexo.
    Na minha modesta opinião como cidadão paulistano, pesquisador e estudioso como simples autodidata, o caos vivenciado atualmente nas grandes cidades a exemplo de São Paulo, se as autoridades e em sequencia, as proprias populações não tomarem providencias urgentes no que se refere a aumento das periferias das cidades de forma totalmente desordenada, assim como a vertiginosa e doentia verticalização que vem ocorrendo nos ultimos vinte anos, não vislumbro retrocesso benéfico positivo em curto, médio e longo prazo.
    Sem querer ser pessimista e sim realista, a tendencia será piorar mais ainda do que já está.
    Graças a incompetencia, ganância politica, dos grandes lobbys, a exemplo do lobby petrolífero e imobiliário, como todos somos sabedores.
    A cidade de Curitiba, ao meu ver, parece que está localizada em outro país.
    E o estado do Paraná idem.
    As administrações da cidade de Curitiba e de outras cidades em parceria com a população mantem um ritmo de desenvolvimento invejável.
    Tanto é que Curitiba apresenta uma das cidades que possui uma das melhores qualidade de vida do planeta e muito ainda precisa ser feito!
    Note nesta foto que tirei do apartamento de um amigo localizado no centro de Curitiba.
    Vemos o horizonte pleno, cidade arborizada, limpa, organizada, povo educado, transporte publico super eficiente, grandes edificios existem somente no centro de forma delimitada.

    Se fizermos uma comparação entre Curitiba e São Paulo podemos ter a absoluta certeza do caos, da baderna, do descaso politico, da ganância, do favorecimento de lobbys acima mencionados existentes na cidade de São Paulo.
    Infelizmente outras metropoles estão indo para o mesmo caminho que são Paulo
    Por exemplo
    Belo Horizonte, Salvador, Porto Alegre.
    Parabéns pela sua participação no Roda Viva e performence.

    Abraços
    Armando Italo

  4. Milton, ainda não tenho uma opinião formada sobre aquilo que ouvi do senhor Carlos Nobre. Tenho impressões que prefiro aguardar para falar.

    Assisti ao programa e fiquei muito intrigado com alguns internautas que pediam o tempo todo para a jornalista, que estava responsável pelo recebimento de perguntas no chat, sobre um tal, Molion.

    Fui para a internet e pesquisei sobre quem seria o tal Molion e vejam quem ele é:
    Luiz Carlos Baldicero Molion é bacharel em Física pela USP e doutor em Meteorologia.
    O currículum dele é vasto e não carece menção por aqui.

    Adianto apenas que o senhor Molion faz um contra-ponto naquilo que diz o senhor Carlos Nobre e isso devemos escutar. Ele diz que existem ciclos normais de aquecimento e resfriamento do planeta e que nos próximos anos o planeta terra vai esfriar e não aquecer mais como prevê Nobre.

    O resfriamento é previsto em estudos com base científica, diz Molion.

    Intrigante não?

    De imediato quero deixar registrado, que minha preocupação nesse assunto é de apontar um norte para o comportamento de cada cidadão, apartir de nossos lares. Você citou isso também.

    Esperar por governos poderia ser tarde demais!

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