Onze de setembro: uma cobertura de rádio

Com a proximidade dos 20 anos do “Atentado de 11 de Setembro”, reproduzo nesses próximos dias trechos do último capítulo do livro “Jornalismo de Rádio”, que lancei em 2004, com publicação pela Editora Contexto. Da primeira notícia que levei ao ar, em plantão, à cobertura internacional que tivemos de planejar ao longo daquele dia, conto algumas curiosidades e aproveito para ilustrar com os acontecimentos de bastidor a incrível dinâmica de uma redação e de um programa de rádio.

Foto: Wikicommons

O DIA QUE NÃO ACABOU 

“São 9 horas e 56 minutos. Um avião bateu nas torres do World Trade Center há poucos instantes, em Nova York. O prédio está pegando fogo. De acordo com informações de uma testemunha ocular, teria sido um Boeing 737, mas esta informação ainda não foi, oficialmente, confirmada. Daqui a pouco, traremos outras informações sobre este acidente: um avião bate em uma das torres do World Trade Center, em Nova York” 

Onze de setembro de 2001 se inicia, antecedido por uma cortina musical tocada na velocidade da emergência que marca as edições extraordinárias no rádio. O primeiro parágrafo do mais dramático capítulo escrito pelo terrorismo internacional na era moderna é anunciado, ironicamente, em trinta segundos, tempo reservado na comunicação do mundo capitalista para a venda de produtos e a oferta de serviços. No texto improvisado que descreve a cena inicial do prédio em chamas, de 110 andares e 412 metros de altura, se oferece ao público o que seria a propaganda de maior impacto dos grupos antiamericanos. 

Os meios de comunicação multiplicam a mensagem enviada por Osama bin Laden e pela Al-Qaeda, através de pilotos suicidas e aviões-bomba. Cada veículo, usando de seus recursos característicos para conquistar o público ansioso pela informação. A televisão estava lá quando o segundo Boeing acertou a torre sul do World Trade Center, quinze minutos após o primeiro ataque, transmitindo ao vivo o “espetáculo”. O rádio propagou o feito terrorista narrando o acontecimento em off tube, como nos grandes jogos internacionais de futebol – sem precisar pagar pelos direitos de transmissão. A internet também calçou a cobertura nas imagens da TV, na notícia do rádio e nas informações das agências internacionais, a maioria levando em tempo real material colhido pela CNN. 

Nas ruas, o pedestre tem atenção despertada pelo anúncio do painel eletrônico: “Terroristas arremessam aviões sobre WTC”. Na tela do telefone celular, o texto do serviço de mensagem informa: “Torres gêmeas em fogo, após ataque terrorista”. O pager na cintura da calça chama: “Terror no ar: avião com passageiros atinge Pentágono”. Jornais e revistas mobilizam redações para rodar o mais cedo possível uma edição extraordinária – prática abandonada desde o advento da internet.

A sociedade informativa, fenômeno na virada do Terceiro Milênio, acorda para viver o dia que ainda não acabou. 

MAIS UM DIA DE TRABALHO 

O CBN São Paulo, programa que apresento desde 1999, estava apenas começando. Era hora de falar do esporte com os destaques dos clubes. Antes, já havíamos passado em revista a tropa de repórteres. Cada um apresentando a informação que cobriria naquela manhã. Meteorologia, trânsito, estradas e aeroportos, informações da cidade – este é o nosso foco das 9h30 ao meio-dia, horário destinado ao noticiário local na rádio CBN, que tem boa parte da programação dedicada aos temas nacionais e internacionais.

Logo cedo, após ler um jorna diário, assistir aos telejornais da manhã e ouvir um trecho da programação da rádio, havia negociado com a produção, pelo viva-voz do celular no carro, a pauta do dia. A produtora Fabiana Boa Sorte, na redação, havia feito o balanço das reportagens que poderiam estar gravadas; conversado com o chefe de reportagem para saber quais assuntos seriam cobertos pelos repórteres; e feito varredura nos demais jornais impressos. Também já recebera, pelo correio eletrônico, sugestões de ouvintes e assessores de comunicação.

Ao entrar no ar, duas entrevistas estava fechado — ou seja, os convidados estavam disponíveis para falar sobre o tema nos horários propostas. Ainda se aguardava o retorno de um terceiro entrevistado. Não tinha sido encontrado pela produção até aquele momento. Alguém da assessoria dele ficara de telefonar de volta.

Os comentaristas tinham assuntos decididos. Os cartuchos com reportagens, sonoras e teasers gravados, estavam separados, cada um com sua devida cabeça redigida em laudas de computador. Ao operador de áudio Paschoal Júnior, que comanda a mesa de som responsável por levar a rádio ao ar, havia sido passada as orientações do que seria apresentado. Ele, por sua vez, havia feito algumas sugestões a partir de notícias que lera no jornal ou ouvira na programação da rádio, desde às seis horas da manhã. O pessoal da área técnica é parte integrante da equipe de jornalismo, e tem de ser consultado. Essa interação facilita o andamento do trabalho.

Teaser é um pequeno trecho de entrevista, normalmente de dez segundos, que pode ser usado como destaque durante a programação ou para ilustrar um tema discutido no programa. Cabeça é nome de batismo do texto que serve para chamar uma reportagem, geralmente redigido em cinco ou seis linhas, que apresenta o assunto ao ouvinte.

Em geral, buscamos tratar de questões relacionadas à vida do cidadão. Fatos que influenciam com o dia a dia do paulistano. Ações de participação da comunidade, à medida em que a parceria com o poder público deve ser incentivada. Também orientam nossa pauta denúncias contra desrespeito aos direitos humanos e a fiscalização do que as autoridades públicas fazem com nosso dinheiro. 

À minha frente, o computador recebia mensagens de todo o tipo. A quantidade de spams (material enviado para os correios eletrônicos sem autorização nem utilidade) é enorme e atrapalha a avaliação criteriosa daqueles que merecem alguma atenção. Já desperdicei meu tempo levantando a seguinte estatística: de cada vinte e-mails que aterrissam na caixa de correio eletrônico, cinco merecem ser abertos, dos quais três têm de ser respondidos e apenas um tem direito e respeito para ser registrado no ar. Além do correio eletrônico, navegava na internet em busca de informação e acessava as agências de notícias. Um televisor sobre a mesa, ao lado do computador estava ligado na Globonews, canal de notícias 24 horas, da Rede Globo de Televisão. 

Entrávamos no ar para mais um programa. Mas era 11 de setembro de 2001. 

Ouça o Plantão CBN que marcou o início da cobertura dos atentados, nos Estados Unidos:

Leia ONZE DE SETEMBRO: UMA COBERTURA DE RÁDIO

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Leia ONZE DE SETEMBRO: ERAM TODOS JORNALISTAS

Leia ONZE DE SETEMBRO: O ATAQUE NO QUINTAL DE CASA