A melhor vingança está ao nosso alcance

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Min An no Pexels

Outro dia, mexendo na estante de casa, deparei com o livro de Calvin Tomkins, intitulado “Viver bem é a melhor vingança”. Apesar de a obra ter como protagonista um casal rico que saiu dos Estados Unidos e foi viver em Paris, nos anos 1920, o título trouxe à tona reflexões sobre diversas situações que envolvem mágoas, humilhações e traições —- e a maneira como muitas pessoas conseguem ser mais indulgentes.

Robert Enright, psicólogo e professor da Universidade de Wisconsin, foi um dos pioneiros nos estudos científicos sobre o perdão, demonstrando que perdoar pode melhorar significativamente o bem-estar psicológico e a saúde física, com redução dos níveis de ansiedade, depressão e estresse. 

O ato de perdoar consiste em avaliar, de forma realista, o prejuízo causado, reconhecer a responsabilidade do autor, e decidir, de maneira voluntária, pela ausência de vingança ou punição.

Imagine que você tenha uma nota promissória assinada e no dia do vencimento você resolva cancelar essa dívida, rasgando esse documento. Ao cancelar a dívida, há um cancelamento das emoções negativas, pois há uma superação do ressentimento e da raiva, sobrepostos por uma atitude, permitindo um deslocamento do papel de vítima para o papel de autor. 

Para Enright, um dos mecanismos mais importantes do perdão consiste em desvencilhar-se da raiva tóxica, aquela raiva profunda e duradoura que ocorre após o episódio que nos machucou, e que pode perdurar anos a fio.

A vantagem de se livrar dessas emoções negativas foi demonstrada num estudo publicado no Journal of the American College of Cardiology, em 2009, que após analisar diversos trabalhos científicos, identificou que a raiva e a hostilidade estão ligadas a um maior risco de doenças cardíacas.

Como as demais características humanas, algumas pessoas podem ter habilidades que favoreçam ser mais indulgentes, como empatia, resiliência e maior tolerância. Por outro lado, pessoas com tendência à ruminação, apresentam maior dificuldade em perdoar, pois são mais propensas a guardar rancores e mágoas.

A boa notícia é que como muitas das habilidades, perdoar pode ser treinado, promovendo consequências positivas, como aumento do relaxamento muscular, redução da ansiedade, mais  energia e fortalecimento do sistema imunológico.  

Perdoar por vezes parece coisa de gente privilegiada, evoluída. Parece difícil demais de realizar. Porém, a atitude de perdoar não significa que você aprova, esquece ou nega a dor causada. Significa que você reconhece que erros e imperfeições acontecem, e que sempre é possível a gente fazer diferente —- a gente fazer diferença num mundo marcado por tantos conflitos. Porque o perdão envolve povos e nações. Envolve relacionamentos. Consiste em perdoar a si mesmo.   

Por vezes, ficamos tão machucados que o coração resta em pedaços. Tão fragmentado que  quase não nos reconhecemos. Falta inteireza. Sobram cacos. Ficam feridas.

Curar um coração ferido leva tempo. 

Quanto tempo? 

Vai depender da nossa disposição para lançar mão desse bálsamo cicatrizante chamado perdão. Vai depender da nossa decisão de cancelar as emoções negativas que pesam em nós.

O resultado: viver bem, viver melhor, viver em paz. Essa é a vingança!

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Mundo Corporativo: Fábio Coelho, do Google, sugere que relevância no mercado depende de aprendizado constante e ajustes permanentes

Foto Pexel

“.. as empresas vão conseguir migrar para um modelo um pouco mais híbrido, onde as pessoas vão poder trabalhar do escritório, mas vão poder também trabalhar de outros lugares ..” 

Fábio Coelho, Google

Uma crise sanitária e uma crise econômica que andaram de mãos dadas, enquanto o cidadão era obrigado a se isolar, e por um tempo bastante prolongado. Não bastasse esse cenário, único e grave, tudo ocorrendo em um ambiente polarizado e marcado por divergências. Um conjunto de problemas que surgiu com a pandemia e se expressa de forma contundente na saúde mental das pessoas. É dessa maneira que Fábio Coelho, presidente do Google do Brasil, descreve o que estamos vivenciando desde os primeiros meses do ano passado. Um conjunto de problemas que pede um comportamento diferente de empresas, gestores e da sociedade:

“A gente tem de estar olhando para a melhor forma de como ajudar as pessoas a navegar melhor essa pandemia. Com informação de qualidade, entendendo quais são os passos corretos a seguir e respeitando as individualidades de cada um de nós, porque cada um é um universo em si, que vive essa pandemia de maneira diferente”.

O diagnóstico feito por Fábio Coelho, em entrevista ao Mundo Corporativo da CBN, serve tanto para as ações que se referem a parceiros de negócio quanto as que pautam os relacionamos humanos — seja dentro da empresa, com os colegas de trabalho, ou no círculo de amigos e familiares.

“Nós aprendemos que, primeiro, para a gente poder trabalhar bem as pessoas tem de estar bem. Isso significa cuidar da saúde mental, cuidar do bem-estar das pessoas que trabalham contigo, muito mais do que antes. Aprendemos, também, que temos de ser rápidos na maneira em que a gente apoia as pessoas, sejam as que trabalham contigo sejam os seus clientes”.

Velocidade não faltou para o Google, pelo que se constata no relato feito pelo seu presidente aqui no Brasil. No dia 13 de março, todas as equipes tiveram de deixar a sede da empresa e, em dois dias, as operações já ocorriam totalmente à distância. O uso de plataformas próprias que agregam uma série de ferramentas necessárias para o desenvolvimento de projetos ajudaram a manter o fluxo de trabalho com a conexão e colaboração entre profissionais e equipes. 

O prédio principal que fica em uma das áreas mais nobres de São Paulo e reconhecido por sua estrutura avançada e arquitetura moderna segue ocupado apenas por profissionais da área de segurança patrimonial e manutenção. O retorno ao trabalho presencial ainda não está decidido, de acordo com Fábio Coelho. Talvez no fim desse ano. Provavelmente, no ano que vem. Mesmo assim, uma volta que tende a ser parcial:

“A gente acredita que podemos trabalhar no modelo híbrido, mas isso varia de grupo a grupo dentro da organização. O importante é que a gente tem conseguido navegar na pandemia … Dá pra fazer um equilíbrio entre uma coisa e outra, que aí nós vamos ter o melhor dos dois mundos (remoto e presencial), neste momento”. 

O desafio de encarar a pandemia marcou o décimo ano de Fábio Coelho como presidente do Google Brasil. Uma marca interessante se considerarmos a celeridade das transformações que ocorreram nos diversos setores que a empresa atua. Quando Fábio iniciou sua trajetória — ele próprio lembra dessa situação —- um dos fenômenos tecnológicos atendia pelo nome Orkut, os celulares inteligentes eram raros e a computação em nuvens ainda não havia amadurecido. Provocado a falar sobre sua longa permanência no Google, o executivo identifica três razões:

“Primeiro porque eu gosto. Segundo porque eu continuo aprendendo. Terceiro porque estou sempre me ajustando”. 

Para Fábio é essencial que os profissionais, executivos e colaboradores estejam sempre abertos a fazer os ajustes necessários e entender que cada momento tem uma onda tecnológica diferente. Segundo ele, o aprendizado tem ser constante para que a pessoa se mantenha relevante na função que exerce. Um dos aspectos que considera importante em seu desenvolvimento foi a convivência com a diversidade de opiniões, de conceitos e de pessoas —- que tem muito a ver com o ecossistema do Google:

“Nós temos de ter solução para todos os brasileiros, são de mais de 100 milhões de brasileiros que usam nossas plataformas, que têm mais de 1 bilhão de usuário no mundo. O Google tem de ter gente que represente em 1 bilhão” 

Diante do uso das palavras monopólio e Google na mesma frase —- no caso, na mesma pergunta —-, Fábio Coelho é tão rápido ou mais na resposta do que quando vamos pesquisar no buscador de informações. O executivo diz que não existe monopólio e cita alguns concorrentes nas múltiplas áreas em que a empresa atua —- e-mail, plataforma de streaming, mapas, navegador e o próprio buscador, entre outros. O que chamamos de monopólio para ele é oferta da melhor experiência.

Chame como quiser, a conversa sobre domínio de mercado me fez lembrar a experiência de Jeff Bezos, da Amazon, que decidiu desafiar a lógica e propôs aos gestores da operação que recém havia se iniciado no México a vender seus produtos sem anunciar no Google. Estava cansado de entregar parte de seu lucro à empresa. Em pouco tempo voltou atrás. 

Independentemente do que você pensa, a boa notícia é que o Google está contratando. Fábio Coelho informou ao Mundo Corporativo que a empresa tem cerca de 150 vagas em aberto, em São Paulo e em Belo Horizonte. E o que buscam?

“O que a gente busca são pessoas que possam ter algum impacto na companhia, se for mais experiente, a capacidade de contribuir com experiências passadas; se for uma pessoa jovem, com interesse para aprender”.

Pra saber como se candidatar a uma dessas vagas, dá um Google. 

Assista à entrevista completa com Fábio Coelho, presidente do Google no Brasil:

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, em vídeo, no canal da CBN no Youtube, no site e no perfil da rádio no Facebook. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Está disponível, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Izabela Ares, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Priscila Gubiotti.

Anúncios de atrações do Rock in Rio nos fazem pensar sobre o que é normal

Foto: Divugação

O Rock in Rio começa a atiçar os ânimos dos amantes e saudosos dos shows musicais, que desapareceram dos palcos com a pandemia. Justin Bieber e Demi Lovato foram anunciados como atrações principais nos dias 4 de setembro de 2022. Sim, isso mesmo. Estamos falando do ano que vem ainda. Mas como tudo que é bem planejado, é preciso tomar medidas com bastante antecedência, mesmo que para muitos de nós ainda seja difícil vislumbrar a possibilidade de voltarmos a nos aglomerar: na igreja, na boate, no sambódromo ou em um concerto musical. 

Quando isso acontecer com a segurança devida e a liberdade que adoramos, talvez possamos falar que voltamos ao normal. Alguns apostam que isso vai ocorrer no Reveillon. Outros, no Carnaval. Há quem acredite que logo depois da primeira dose ter sido aplicada no braço da maioria dos brasileiros, a festa já está liberada. Tem pessoas que garantem que está tudo normal —- tenho dúvida do que entendem por normal. É possível que minha reclusão em casa por quase todos esses dias, que se iniciaram em 13 de março do ano passado, tenha mexido com minha estima e capacidade de sonhar, mas sou bastante cético em relação ao calendário de eventos e atividades.

Para pensarmos sobre quando o normal estará entre nós, é bom antes entendermos o que encontramos nos dicionários como definição desta palavra. Ao folhear o Aurelio —- ainda mantenho um aqui na biblioteca que aparece no pano de fundo das minhas apresentações no Jornal da CBN —- fico sabendo que normal é algo usual, corriqueiro, que ocorre a todo momento. Mas, também, surge como aquilo que está conforme as normas, dentro das regras.

Num sentido ou noutro, saber se tudo voltará ao normal dependerá de uma série de fatores. Especialmente do controle da doença que mata desde o ano passado mais de 560 mil brasileiros. A tendência é que até o ano que vem já tenhamos contido o vírus —- e, também, tenhamos vacinas suficientes para retomar um novo ciclo de imunização, a medida que muitos médicos e doutores, que ouvimos na CBN, entendem que o combate a este coronavírus tenha de ser anual, como fazemos com o vírus da gripe.

Diante das definições do dicionário, posso dizer que se fizermos o normal, poderemos voltar ao normal.

Ou seja, se fizermos o normal —- como aquilo que está dentro das regras (neste caso sanitárias) —- poderemos voltar ao normal, fazendo aquilo que é usual nas nossas vidas, seres gregários que somos: nos congregando entorno da música, da história, do amor e tudo aquilo que nos move. 

Aí, sim, provavelmente o Rock in Rio será o grande sucesso de sempre — a despeito de sua line-up —, em lugar de se transformar em mais um desejo frustrado, um sonho abortado por esta pandemia. 

Como enfrentar o luto antecipado provocado pela Doença de Alzheimer

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Julianne Moore em foto-reprodução do filme ‘Para sempre Alice’

“Meus ontens estão desaparecendo e

meus amanhãs são incertos. Então, para que

eu vivo? Vivo para cada dia. Vivo o presente”

“Para sempre Alice”

            O livro “Para sempre Alice”, de Lisa Genova, conta a história de uma professora universitária que, no auge de sua carreira, começa a ter esquecimentos e a se equivocar em situações cotidianas, recebendo o diagnóstico de Doença de Alzheimer precoce, um dos subtipos de síndrome demencial.

            A síndrome demencial ou demência é caracterizada pela perda das funções cognitivas, como a atenção, a linguagem ou a memória, e pelas dificuldades significativas na realização de atividades da vida diária, como cuidar das finanças.

            Apesar de haver alguns subtipos de demência, a mais conhecida e mais frequente é a demência relacionada à Doença de Alzheimer, caracterizada pelo início insidioso e pelos lapsos de memória, com evolução progressiva das perdas cognitivas.

            Dentre as principais dificuldades cognitivas encontradas na Doença de Alzheimer, as falhas de memória são as mais frequentes, caracterizadas inicialmente por dificuldades em aprender uma nova informação, como usar um novo aparelho eletrônico, esquecimentos para fatos recentes e a tendência a um discurso mais repetitivo.

            No início da doença, há uma dificuldade em encontrar palavras, tomar decisões e realizar o planejamento e execução de atividades anteriormente realizadas com sucesso.

            A medida que a doença evolui, as perdas cognitivas se tornam mais acentuadas e as alterações de comportamento, que no início sugeriam uma perda de iniciativa ou falta de motivação, se tornam mais intensas, podendo ocasionar uma mudança significativa na personalidade do paciente.

Diante da característica progressiva e irreversível da Doença de Alzheimer, uma condição frequentemente experimentada é o luto antecipado, isto é, o luto que se vivencia antes mesmo da morte.

            A percepção de que se está perdendo a memória e, com isso, toda a sua história de vida, identidade e autonomia, leva inicialmente ao luto o próprio paciente, que se vê fragilizado e impotente diante dessa condição.

            Por outro lado, com a evolução da doença, familiares e cuidadores tentam se adaptar a uma perda anunciada, que envolve o enfrentamento da morte que virá e das várias perdas ao longo do processo, incluindo perdas sociais, econômicas, de sonhos e de companheirismo.

            O professor e neurocientista Ivan Izquierdo, um dos maiores pesquisadores sobre a memória, gostava de destacar que o modo como podemos conceber o tempo é a partir do conceito de memória. O futuro ainda não existe e o presente nos permite a aprendizagem. O passado, que também não mais existe, ainda é possível ser acessado sob a forma de memórias.

            Talvez, por isso, as perdas de memória nos amedrontem: porque escancaram a impermanência das coisas, de nós mesmos.

            Para os que sofrem com as perdas de memória impostas pelo processo demencial, a vida vai se perdendo pouco a pouco da própria mente, reafirmando, para todos nós, a necessidade de se viver intensamente o presente.

            Pode ser que a gente esqueça o dia e o ano. Pode ser que a gente nem mesmo se recorde de quem somos nós. Daí a necessidade de sermos tudo o que pudermos hoje. Como nos provoca a personagem do livro, “esquecerei o hoje, mas isso não significa que o hoje não tem importância”.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

A busca pela imperfeição

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto: IONEL BONAVENTURE / AFP Site CBN

“Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter;

repugna-la-íamos se a tivéssemos.

O perfeito é o desumano porque o humano é imperfeito”

Fernando Pessoa

Esparta foi uma das principais cidades-estado da Grécia Antiga, que mantinha sua soberania pautada na austeridade e disciplina militar. A educação espartana era rígida e visava preparar o povo para as lutas, através de treinamentos físicos intensos que promovessem força e resistência, capazes de levar à perfeição e, consequentemente, à derrota do adversário. As relações sociais e familiares ficavam em segundo plano, e aqueles que não se adaptavam a esse modelo eram punidos e excluídos da sociedade.

Os ideais espartanos de disciplina, resistência e superação de limites físicos foram muitas vezes cruciais, não apenas nas guerras ou disputas territoriais, mas também nos jogos olímpicos que eram realizados na Grécia Antiga.

Desde então, muitas transformações aconteceram nas Olimpíadas, como a inclusão de novas modalidades. No entanto, as exigências de perfeição as quais muitos atletas estão sujeitos permanecem semelhantes aos padrões helenos.

É necessário ser o mais rápido. É necessário ser preciso. Não há espaço para erros. Do contrário, o atleta depara com as consequências impostas ao simples fato de ser imperfeito. A busca pela perfeição pressupõe um ciclo nocivo à saúde física e mental, não apenas de atletas, mas de milhares de pessoas em todo o mundo.

Nessas situações, é muito comum que se estabeleçam metas elevadas para si, reforçando-se a crença de que as coisas devem ser feitas perfeitamente ou então não devem ser realizadas.

O curioso é que, diante das dificuldades que surgem, há uma tendência ao aumento da autocrítica e da ideia de incapacidade, fazendo com que a pessoa aumente ainda mais a sua meta e seja negligente com suas necessidades fisiológicas e seu bem-estar psíquico, perseverando nesse ciclo.

Certa vez perguntei a uma pessoa, que estava sobrecarregada com as pressões do trabalho, o que achava que poderia fazer para solucionar isso. Sua resposta foi curiosa: “ficar algumas horas a mais além do expediente, para poder me dedicar e checar o que já fiz para ter certeza de que não vou falhar”.

O resultado desse excesso de dedicação e da negligência com o autocuidado leva ao esgotamento físico e mental e à sensação de sobrecarga e exaustão. Sentindo-se frustrada, essa pessoa acredita que é insuficiente, incompetente ou incapaz. Isso aumenta significativamente a ocorrência dos transtornos de ansiedade, depressão e burnout.

Manter o equilíbrio nas traves da vida nem sempre é tarefa fácil. Na busca por saltos duplos e triplos, somados às piruetas para driblar o dia a dia, nossos movimentos ficam pouco harmoniosos, tropeçamos na aterrisagem e nosso solo se assemelha a um campo de batalha, no qual lutamos contra pressões, inseguranças, medos e, principalmente, nós mesmos.

Há uma cobrança excessiva para que dêmos conta, impecavelmente, de uma lista extensa demais.

Precisamos ser mais como Simone Biles.

Assumir as nossas dificuldades ou vulnerabilidades não é sinal de fraqueza. Assumir que não são somos robôs ou feitos de aço, que não precisamos e não queremos ser heróis, nos aproxima da nossa natureza, da nossa humanidade.

Somos imperfeitos!

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O diabo da felicidade e os demônios que fazem de Simone Biles e Naomi Osaka seres humanos

Crédito: Breno Barros/rededoesporte.gov.br

O 27 de julho olímpico foi cruel para duas das maiores atletas da atualidade. A poucos metros de distância, a ginasta americana Simone Biles, 24 anos, e a tenista japonesa Naomi Osaka, 23 anos, vivenciaram momentos de profunda tristeza e abatimento, no centro olímpico de Ariake, em Tóquio. 

A número 1 do mundo, na arena de ginástica artística, fez sua pior apresentação desde que surgiu no cenário internacional, desistiu das provas por equipe e teve de se contentar com a medalha de prata, após os Estados Unidos serem superados pelas russas. Nas quadras ao lado, a número 2 do tênis foi desclassificada nas oitavas de final pela tcheca Marketa Vondrousova, frustrando a expectativa dos japoneses de verem sua maior tenista conquistar a medalha de ouro.

Depois de afastada da equipe por ‘problemas médicos’, sem que mais detalhes fossem informados, a própria Simone Biles revelou aos jornalistas sua fragilidade psicológica para a disputa, mesmo sendo o maior nome da ginástica americana de todos os tempos —- e, talvez, exatamente por ser o maior nome da ginástica americana de todos os tempos: 

Assim que eu piso no tatame, sou só eu e a minha cabeça, lidando com demônios. Tenho que fazer o que é certo para mim e me concentrar na minha saúde mental e não prejudicar minha saúde e meu bem-estar. Há vida além da ginástica”.

Ao ouvir Biles, lembrei do que havia dito, em maio deste ano, Naomi Osaka, ao desistir de continuar disputando o Torneio de Roland Garros, pois não queria mais participar das entrevistas coletivas, compromisso que todos os atletas são obrigados a cumprir quando aceitam as regras do jogo. Ela alegou que as perguntas feitas pelos jornalistas causavam um impacto adverso em seu bem-estar mental —- resultado de depressão que surgiu, em 2018. 

Na época em que assumiu publicamente sua fragilidade, a psicóloga Simone Domingues, publicou aqui no Blog o artigo “A grande sacada de Naomi: a coragem de confessar que tem medo” e explicou a reação da tenista: 

“Naomi abandonou o torneio não porque estava fugindo de enfrentar os perigos ou ameaças, mas, possivelmente, porque percebeu a necessidade de se afastar de situações tóxicas, impostas, que exigiam dela algo que naquele momento não poderia ou não queria realizar. Percebeu que precisava se afastar como um sinal de cuidado consigo. De preservação de sua saúde mental”

Hoje, ela estava apática em quadra, descreveram os jornalistas. É preciso um pouco mais de apuro e sensibilidade para entender se os problemas psicológicos influenciaram no desempenho de Naomi. O certo é que com sua apatia, se despediu dos Jogos muito antes do que esperavam dela. 

De Naomi sempre estão esperando mais. Não por acaso, foi a escolhida pelos japoneses para acender a tocha olímpica, na cerimônia de abertura,— protagonizando uma cena que talvez explique muito do que ela e os maiores talentos do esporte  carregam consigo a cada degrau que sobem na carreira. Por mais que o mundo estivsse ao lado dela, admirando-a naquele momento, Naomi teve de subir sozinha as escadas em direção à tocha. Levando ao alto a esperança de várias nações que enxergam nas Olimpíadas a redenção diante da tragédia desta pandemia. Pelo peso da responsabilidade, pela cultura oriental ou pela forma como encara suas obrigações, não havia um sorriso genuíno na jovem atleta.

“É claro que sempre jogo pelo Japão. Mas definitivamente sinto que houve muita pressão sobre mim desta vez. Acho que talvez seja porque nunca joguei antes as Olimpíadas”, disse a tenista após sua desclassificação.

Na voz angustiada e no jogo apático de Naomi; na revelação dolorida e no desempenho pífio de Simone; nas cenas de antes e de agora; o que mais me chocou foi perceber que por maiores, mais admiradas e respeitadas que sejam as pessoas; por mais ‘grand salms’ e medalhas de ouro que tenham conquistado; por mais próximos que estejam do que entendemos serem os semideuses; nada é suficiente se não houver o diabo da felicidade. E encontrá-la, saber cultivá-la é a grande conquista que nós seres humanos precisamos alcançar. Naomi não consegue. Simone não consegue. E nesta ausência destes astros e estrelas, nunca como antes me senti tão integrante desta mesma constelação.

Amigos permitem ser quem eu sou

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Imagem de Charles Bernie from Pixabay 

“Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante”

Antoine de Saint-Exupéry

            Ao longo da história da humanidade, o convívio social sofreu mudanças importantes quanto as suas funções e características. Nos primórdios, manter vínculos com outros seres humanos é o que permitia a sobrevivência da espécie, através da colaboração mútua e da proteção. Na pandemia, o uso da tecnologia, seja com aplicativos ou através de redes sociais, se tornou uma das poucas maneiras de se estar socialmente conectado.  

            Diversos estudos destacam a importância das relações sociais, especialmente as que envolvem a amizade, durante o ciclo vital, contribuindo para o desenvolvimento cognitivo, psíquico e social.

Na infância, por exemplo, conviver com os amigos está diretamente relacionado com a formação do processo de socialização. Nessa fase, as relações estabelecidas envolvem afeto, diversão, colaboração mútua e resolução de conflitos.

Na adolescência, as amizades são importantes para a construção da identidade e da autoimagem. Nessa fase, talvez mais do que em qualquer outra, o bem-estar psicológico estará diretamente associado com a percepção da Cyro gostaria de fazer parte da sua redequalidade das amizades, por exemplo, se sentir aceito, valorizado pelo outro e estabelecer relações positivas, envolvendo confiança e disponibilidade.

No final da adolescência e início da vida adulta, as demandas que surgem, como ingressar na faculdade ou no mercado de trabalho, podem ser muito estressantes para os jovens e, nesse caso, os amigos são fontes de apoio social, auxiliando a lidar com esses desafios.

Infelizmente, na adolescência, nem sempre as relações estabelecidas são satisfatórias e muitos jovens experimentam um empobrecimento da interação social, gerando muita ansiedade. A piora do bem-estar psicológico pode favorecer o isolamento ou agravar as habilidades sociais, tornando a pessoa mais inibida, com impactos a longo prazo, como aumento da insegurança e redução da autoestima.

Na vida adulta, o trabalho, os relacionamentos afetivos mais estáveis ou filhos, podem diminuir o tempo disponível para o convívio com os amigos, mas há um aumento da qualidade das relações estabelecidas

No envelhecimento, a interação com os amigos também se modifica, se tornando menos frequente ou com encontros mais breves, porém, os amigos representam a maior fonte de proteção contra a solidão.

            A importância de se estabelecer bons relacionamentos foi evidenciada numa pesquisa realizada pela Universidade de Harvard (orginalmente Study of Adult Development), sendo apontada como um dos fatores que mais influencia o nível de saúde das pessoas, incluindo a longevidade.

            Seria possível detalhar inúmeros estudos que mostram os benefícios de se ter amigos, mas todos eles podem ser resumidos em uma frase: ter amigos torna a nossa vida melhor! 

            Em geral, as relações estabelecidas com os amigos são mais recíprocas, sofrem menos julgamentos e são menos estressantes.

            Amigos nos permitem companhia, apoio e riso solto. Amigos nos acolhem quando precisamos dividir as nossas dores, o nosso choro.

            São os laços que construímos ao longo do caminho… alguns se afrouxam, se desfazem, mas outros estão ali bem firmes. 

São presentes… Desses que a gente agradece todos os dias por ter recebido. Desses que estão sempre com a gente, não nos deixam sós.

Penso nos meus amigos e na importância que eles têm para mim. Me permitem ser quem eu sou e carregam um pouco de mim dentro deles.   

            Na impossibilidade do abraço, faço brigadeiros e envio para os meus amigos. Talvez seja sobre o tempo. Talvez seja sobre a dedicação. Mas acima de tudo, é sobre eles mesmos. 

            Feliz Dia do Amigo!

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O difícil e inútil dilema entre permanecer e mudar

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto Pixabay

Na escolha entre permanecer ou mudar, em geral, eu prefiro as mudanças. Já mudei várias vezes de casa. Mudei de cidade, de país e de projetos.  Mas confesso que colocar as coisas numa caixa e mudar de destino, muitas vezes, parece mais fácil do que vasculhar e alterar aquilo que guardamos dentro de nós, tão bem armazenado... que dá até medo de mexer!

O medo de mudar pode estar associado às incertezas diante de situações desconhecidas, como a ideia de perda de controle ou de previsibilidade, e à crença de haver pouca habilidade para enfrentar os desafios e superar as adversidades.

A tendência de manter os pensamentos ou ações de maneira mais inflexível, possibilita uma impressão de segurança, de domínio de uma situação, mas, por outro lado, pode perpetuar comportamentos e condições bastante disfuncionais e mesmo prejudiciais.

Mudanças pressupõem transformações. Parecem bem-vindas ou mais fáceis quando planejamos e desejamos que ocorram.  Causam estranheza quando surgem de maneira inesperada, demandando que a nossa capacidade de adaptação ou de resiliência entre em ação. Um exemplo disso é a pandemia de COVID-19: impôs alterações para a vida cotidiana, com aulas a distância, trabalho em casa, compras on-line e encontros virtuais. 

Desejamos que o mundo mude. Desejamos que as pessoas mudem. Mas, na impossibilidade de mudarmos os outros, podemos começar modificando uma atitude, um hábito, um sentimento ou uma ideia.

A gente pode até não querer, mas a vida vai exigir deslocamento…

Quando a gente aprende a andar, engatinhar perde a função. Precisamos ficar em pé, nos equilibrar e dar passos. Exige mais esforço? Sim, mas permite ir mais longe, alcançar o que parecia distante.

E depois? Depois a gente vai se apropriando e acredita que não muda mais. E o que acontece? Como disse Luis Fernando Verissimo:

“Quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas”. 

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A grande sacada de Naomi Osaka: a coragem de confessar que tem medo

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Twitter de @naomiosaka

A tenista Naomi Osaka foi punida com uma multa de 15 mil dólares por não ter participado da coletiva de imprensa após ter vencido a primeira rodada, na estreia do torneio de Roland Garros. Para a surpresa de todos, Naomi desistiu de participar do torneio e divulgou que sofre de depressão, desde 2018, apresentando crises de ansiedade antes de conceder entrevistas. O fato ocorreu no fim de maio, em 2021, e a sinceridade da tenista número 2 do mundo, provoca debates sobre a saúde mental dos atletas até agora.

Diferentemente do medo ou ansiedade adaptativa, aquela que a maioria das pessoas experimenta numa entrevista de emprego ou num primeiro encontro amoroso, o transtorno de ansiedade é caracterizado por medo e ansiedade excessivos, desproporcionais e persistentes, causando sofrimento ou prejuízos no funcionamento social, profissional ou em áreas importantes da vida da pessoa.

No transtorno de ansiedade ou fobia social, o indivíduo é mais temeroso, evitando interações ou situações sociais nas quais exista a possibilidade de ser avaliado, como encontrar pessoas que não sejam familiares ou falar em público. Nessas situações, a pessoa teme agir de maneira que evidencie seus sintomas, como ruborizar, tremer ou tropeçar nas palavras, o que poderia gerar um julgamento ou avaliação negativa por parte das outras pessoas.

Evitar intencionalmente essas condições, o que chamamos de esquiva, em geral, reduz momentaneamente o nível do medo ou da ansiedade. Por outro lado, essa evitação irá reforçar a ideia de risco ou ameaça, fortalecendo também a crença de incapacidade para enfrentar e superar tais circunstâncias. 

Será que dizer NÃO para situações que possam causar prejuízos à saúde mental seria um sinônimo de esquiva ou evitação?

Infelizmente, muitas pessoas não conseguem ou não podem assumir as próprias dificuldades, fragilidades ou vulnerabilidades.

O que as pessoas pensariam? 

Como reagiriam ao saber que uma pessoa que obtém tantas vitórias, que é competente ou talentosa no que realiza, sofre de um transtorno mental?

“Ansiedade? Depressão? Coisa de quem não tem o que fazer ou quer chamar a atenção”

O preconceito e os estereótipos nos conduzem a julgamentos rápidos e conclusivos. Multas, punições, expulsões… Foram essas as soluções inicialmente pensadas para o caso da tenista. Naomi abandonou o torneio não porque estava fugindo de enfrentar os perigos ou ameaças, mas, possivelmente, porque percebeu a necessidade de se afastar de situações tóxicas, impostas, que exigiam dela algo que naquele momento não poderia ou não queria realizar. Percebeu que precisava se afastar como um sinal de cuidado consigo. De preservação de sua saúde mental. 

Recuar não é fácil, mas, por vezes, necessário; não como fuga, mas como saída para que o sofrimento seja notado. Envolve limite e autocuidado, além do cuidado com o sofrimento de outras pessoas que passam por situações semelhantes. 

Em saúde mental, por vezes é necessário que alguém traga à tona as suas dificuldades para que as pessoas despertem e se solidarizem com todos os que passam por situação semelhante.

Após o desabafo de Naomi Osaka sobre a sua saúde mental e sua repercussão, a organização dos torneios Grand Slam mudou seu discurso e lhe ofereceu apoio e assistência, mencionando a possibilidade de mudança nas regras, a fim de melhorar a qualidade de vida dos atletas.

Naomi, você não fugiu dos seus temores! 

Ao escancará-los, sinalizou que os transtornos mentais não são exclusivos de fracos e derrotados, fazem parte da vida humana, da vida de qualquer pessoa. Se esquivar nem sempre é a melhor saída, mas pode ser o caminho que nos permita um recomeço. 

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Nas últimas conversas, o sarcasmo com a vida: “olha onde me meti”, escreveu Xexéo

Lá se vai mais um amigo levado pela morte. E para que não haja nenhum mal-entendido, minha amizade com Artur Xexéo não era daquelas de mesa de bar. Nem mesmo mesa de redação tive oportunidade de compartilhar com ele, apesar de há dez anos dividirmos espaço no Jornal da CBN. O rádio, que me fixou em São Paulo, enquanto ele morava no Rio, permitiu que fossemos colegas sem nunca nos termos visto pessoalmente por muito tempo. Adoraria o privilégio de tê-lo tido como editor em alguma passagem de minha vida profissional. Ou a ter convivido no ambiente de trabalho, o que teria me ajudado a aprender mais. Nem que fosse pela observação

A amizade com Xexéo, eu cultivava à distância. Como admirador. Era quase que uma relação de mão única. Porque ele próprio não deveria ter meu nome no rol de amigos. No máximo, eu era um colega por quem ele sempre foi muito generoso —- o que não diferenciava em nada da relação que ele sempre teve por boa parte daqueles com quem trabalhou. Generosidade é uma das marcas de Xexéo como podemos ler e ouvir nas muitas declarações dadas desde o anúncio da morte dele nesse domingo.

Ouça a entrevista com Astrid Fontenelle, no Jornal da CBN, sobre Artur Xexéo.

Quando ligava para falar pessoalmente, eu tinha uma certa cerimônia. Tê-lo acompanhado desde as primeiras edições do Liberdade de Expressão, sob o comando de Heródoto Barbeiro e ao lado de Carlos Heitor Cony, além de ter consumido livros e peças de sua autoria, me fez elevá-lo ao altar dos intelectuais —- daquelas pessoas que não nos atrevemos interromper ou discordar; de quem só queremos absorver. Xexéo, sem dúvida, era responsável por manter em alta o nosso PIB — o Produto Intelectual Bruto, do Brasil, tão dilapidado neste mais de ano de pandemia. A cada ligação, porém, Xexéo me persuadia e me colocava ainda mais próximo dele —- mérito desses seres humanos que, a despeito de sua estatura, sabem exercitar a humildade.

No lançamento do livro É proibido calar! tive a honra de recebê-lo, ao lado do companheiro Paulo, com quem viveu por 30 anos, na fila de autógrafos, no Rio de Janeiro. Entregar nas mãos de Xexéo um exemplar autografado do meu livro, confesso, me pareceu um ato de atrevimento —- uma espécie de Mané repassando sua camisa suada ao fim do jogo para Garrincha. Ele, novamente, aquiesceu. E agradeceu. Generoso e humilde Xexéo!

Com a nova função no Jornal da CBN, titular do quadro Crônica de Sexta, nossos contatos ficaram mais frequentes e ganhei a prerrogativa de ser o primeiro leitor do texto que iria ao ar no dia seguinte.

Ao fim da quinta-feira, ele me enviava uma sugestão de tema já com o artigo praticamente todo rascunhado. E, assim, às 4h30 da manhã, ao acordar, a primeira coisa que fazia era ler a crônica do Xexéo. Nos últimos tempos, andava incomodado com a repetição de assunto que se fazia necessária diante de tantos descalabros no combate à Covid-19 e intolerância aos diferentes. Pelas circunstâncias de um programa de rádio, algumas vezes Cássia Godoy e eu desviávamos do assunto prescrito por ele que, com talento e improviso, refazia seu roteiro no ar. E eu me tornaria o único leitor daquela crônica original

Há duas semanas, recém-saído da cama, peguei o WhatsApp e comecei a ler o texto do Xexéo. Pensava estar diante de mais uma de suas crônicas, sempre escrita de forma leve, com palavras bem apuradas, frases de efeito e ironias perfeitas. Demorei um pouco para perceber que ele escrevia ali a crônica do momento que estava vivendo, depois de algumas semanas de exames e diagnósticos. Compartilhava comigo a doença recém-descoberta: “olha onde me meti”, escreveu. Uma semana depois, quando perguntei, “como estaremos para amanhã?”, ele tascou: “estaremos internado”. Sarcástico e com pitadas de mal-humor —- “o mal-humorado mais engraçado que conheci”, me disse Ancelmo Gois, em entrevista de hoje no Jornal da CBN. 

Ouça a entrevista de Ancelmo Gois, ao Jornal da CBN, sobre Artur Xexéo

Xexéo sempre foi assim. Sempre encontrou uma palavra, uma expressão ou uma frase para fugir do lugar-comum do texto e da vida. Fazia isso com maestria em suas crônicas no jornal O Globo, minha primeira leitura dominical. Nesse domingo, quando abri o jornal e não a encontrei, senti um aperto no peito. Apaziguei meu coração, relendo a última mensagem que me mandou, ainda na quinta-feira, antes do início da quimioterapia, quando me consolou dizendo que em dois meses voltaria a trabalhar normalmente de casa. Eu ainda não sabia que ele estava providenciando sua passagem.

E lá se foi mais um amigo levado pela morte!