Como enfrentar o luto antecipado provocado pela Doença de Alzheimer

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Julianne Moore em foto-reprodução do filme ‘Para sempre Alice’

“Meus ontens estão desaparecendo e

meus amanhãs são incertos. Então, para que

eu vivo? Vivo para cada dia. Vivo o presente”

“Para sempre Alice”

            O livro “Para sempre Alice”, de Lisa Genova, conta a história de uma professora universitária que, no auge de sua carreira, começa a ter esquecimentos e a se equivocar em situações cotidianas, recebendo o diagnóstico de Doença de Alzheimer precoce, um dos subtipos de síndrome demencial.

            A síndrome demencial ou demência é caracterizada pela perda das funções cognitivas, como a atenção, a linguagem ou a memória, e pelas dificuldades significativas na realização de atividades da vida diária, como cuidar das finanças.

            Apesar de haver alguns subtipos de demência, a mais conhecida e mais frequente é a demência relacionada à Doença de Alzheimer, caracterizada pelo início insidioso e pelos lapsos de memória, com evolução progressiva das perdas cognitivas.

            Dentre as principais dificuldades cognitivas encontradas na Doença de Alzheimer, as falhas de memória são as mais frequentes, caracterizadas inicialmente por dificuldades em aprender uma nova informação, como usar um novo aparelho eletrônico, esquecimentos para fatos recentes e a tendência a um discurso mais repetitivo.

            No início da doença, há uma dificuldade em encontrar palavras, tomar decisões e realizar o planejamento e execução de atividades anteriormente realizadas com sucesso.

            A medida que a doença evolui, as perdas cognitivas se tornam mais acentuadas e as alterações de comportamento, que no início sugeriam uma perda de iniciativa ou falta de motivação, se tornam mais intensas, podendo ocasionar uma mudança significativa na personalidade do paciente.

Diante da característica progressiva e irreversível da Doença de Alzheimer, uma condição frequentemente experimentada é o luto antecipado, isto é, o luto que se vivencia antes mesmo da morte.

            A percepção de que se está perdendo a memória e, com isso, toda a sua história de vida, identidade e autonomia, leva inicialmente ao luto o próprio paciente, que se vê fragilizado e impotente diante dessa condição.

            Por outro lado, com a evolução da doença, familiares e cuidadores tentam se adaptar a uma perda anunciada, que envolve o enfrentamento da morte que virá e das várias perdas ao longo do processo, incluindo perdas sociais, econômicas, de sonhos e de companheirismo.

            O professor e neurocientista Ivan Izquierdo, um dos maiores pesquisadores sobre a memória, gostava de destacar que o modo como podemos conceber o tempo é a partir do conceito de memória. O futuro ainda não existe e o presente nos permite a aprendizagem. O passado, que também não mais existe, ainda é possível ser acessado sob a forma de memórias.

            Talvez, por isso, as perdas de memória nos amedrontem: porque escancaram a impermanência das coisas, de nós mesmos.

            Para os que sofrem com as perdas de memória impostas pelo processo demencial, a vida vai se perdendo pouco a pouco da própria mente, reafirmando, para todos nós, a necessidade de se viver intensamente o presente.

            Pode ser que a gente esqueça o dia e o ano. Pode ser que a gente nem mesmo se recorde de quem somos nós. Daí a necessidade de sermos tudo o que pudermos hoje. Como nos provoca a personagem do livro, “esquecerei o hoje, mas isso não significa que o hoje não tem importância”.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento assistindo ao canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

2 comentários sobre “Como enfrentar o luto antecipado provocado pela Doença de Alzheimer

  1. Quando temos alguém na família que tem o teve Alzheimer, procuramos o maior número de informações possíveis, para podermos estar ao menos um pouco preparados. No meu caso, minha avó e também minha mãe tiveram a doença de Alzheimer. Durante 15 anos, tentamos manter minha mãe com conforto, mesmo ela não sabendo quem éramos. Descobri que todas as pessoas que não tem caso da doença de Alzheimer na família, tem 10% de probabilidade de pegar a doença, porém quem tem caso na família tem 20% de probabilidade de ter essa doença. Existem algumas coisas que poderemos fazer, para ao menos reduzir essa probabilidade em níveis muito baixos, por exemplo, manter o colesterol bom e ruim dentro dos níveis aceitáveis, pois o cérebro precisa ser irrigado com sangue, e se a pessoas está com o colesterol ruim muito alto, poderá dificultar a circulação do sangue nas veias, outra coisa que também ajuda no surgimento dessa doença, é a diabete muito alta. Então, se temos tendência para ter essa doença, precisamos manter uma vida saudável e com exercícios diários.

  2. Ninguém está livre desta doença. Assisti o filme baseado neste livro, fiz até um poema inspirada nele.
    Tenho medo, aos 59 já sinto alguns sinais que estão se acentuando, diferentes daquele abrir a geladeira e pensar o que está procurando…São lacunas, andar um espaço e não se lembrar, mudar uma sequencia que sempre foi rotineira e perceber que se fez algo diferente, não conseguir escrever um conto pequeno sem ter que voltar a ler parágrafo por parágrafo…Odeio isso e com certeza não esperarei o momento em que não terei mais nenhuma consciência do que está ocorrendo..

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