Dez Por Cento Mais: Carol Campos, do Vozes da Educação, fala da culpa que atravessa a maternidade

“Nasce alguém, nasce a culpa.”

A cada geração, a régua da maternidade muda — e quase sempre sobe. Se antes o desafio era garantir a sobrevivência dos filhos, depois veio a exigência de fazê-los trabalhar, formar família ou conquistar independência. Hoje, soma-se a tudo isso a pressão por desempenho profissional, equilíbrio emocional e presença constante. A culpa, diz Carol Campos, acompanha essa trajetória histórica e se instala como parte do modo de existir feminino. O tema foi discutido em entrevista ao programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Professora, advogada, mestre em políticas públicas e diretora executiva do Vozes da Educação, Carol analisa como a culpa atravessa a maternidade contemporânea, a escola e o esgotamento feminino.

Culpa que não depende do erro

Para Carol, a culpa não surge apenas quando algo dá errado. Ela aparece, inclusive, quando tudo parece funcionar. “Quando tudo está funcionando, a gente pensa: ‘Nossa, por que que eu não tô fazendo melhor?’ E aí a culpa vem ainda mais forte.”

Segundo ela, mulheres foram socializadas para se cobrar permanentemente. “A gente aprendeu na nossa sociedade que nós nunca somos bons o suficiente.” No ambiente profissional, relata, a exigência é elevada. “Enquanto profissionais, a gente tem que se provar 10 vezes mais do que um homem.” Em casa, a cobrança se amplia: sucesso não é apenas carreira consolidada, mas também família harmoniosa.

Carol observa esse padrão na própria empresa, formada apenas por mulheres. “Não tem uma que fale para mim: Eu acho que eu não fiz bem o suficiente.” Ela compara com experiências anteriores em equipes mistas e afirma que o nível de detalhamento e autocobrança costuma ser maior entre elas. Para a entrevistada, trata-se de um traço aprendido desde a infância.

Escola, mães e a sobrecarga invisível

A escola, na avaliação de Carol, ainda reforça essa sobrecarga. Comunicados, cobranças e convites são, em geral, direcionados às mães. “Mensagem na agenda ou no aplicativo, vai para a mãe.” Ela questiona a ausência paterna nas interações formais: “O grupo de WhatsApp da escola é de mães, é o grupo das mães. Cadê os pais?”

A crítica não ignora a responsabilidade masculina, mas aponta um padrão institucional. Para ela, pequenas mudanças — como incluir pai e mãe igualmente nas comunicações — já alterariam a dinâmica.

Carol também chama atenção para a tendência de famílias buscarem escolas com perfis semelhantes aos seus. “Escola é espaço de diversidade.” Ao restringir a convivência a grupos com valores e condições socioeconômicas parecidos, perde-se a oportunidade de ampliar repertórios. A diversidade, argumenta, faz parte do processo formativo.

Falha ou esgotamento?

Quando se fala em crise da parentalidade, Carol vê dois fatores combinados. De um lado, a comparação constante entre mães. “Existe uma culpa velada.” De outro, o isolamento na criação dos filhos. “A gente entendeu que cada um tinha que criar seu filho.” Para ela, isso contraria a história humana. “Crianças sempre foram criadas no coletivo.”

A ausência de rede de apoio gera esgotamento. Carol defende a construção de comunidade, seja presencial ou à distância. “Se a gente faz tudo sozinha, a gente vai esgotar, não tem jeito.”

Ela também aborda o conceito de “mãe suficientemente boa”. A expressão, conhecida na psicologia, ganha contornos práticos em sua fala. “Eu tive que aprender que tava tudo bem eu ser essa mãe.” Mãe que trabalha, que esquece a cartolina, que compra pão de queijo na padaria para a festa da escola. Para ela, reconhecer limites é parte do processo.

Aprender a mudar

Um episódio pessoal marca essa virada. Ao ajudar o filho a lidar com uma frustração escolar, Carol percebeu, dias depois, que ele reproduziu a mesma estratégia para acalmá-la. “Mãe, vamos tomar uma aguinha, vamos respirar três vezes.” A cena, segundo ela, redefiniu sua forma de maternar.

Carol ressalta que o conhecimento sobre desenvolvimento humano é recente e ainda pouco presente na formação docente. “Criança tem manual de instrução.” Para ela, compreender o funcionamento do cérebro e das emoções transforma a relação entre adultos e crianças.

Vozes da Educação

À frente do Vozes da Educação, Carol atua com redes públicas e privadas em situações de emergência, como violência, bullying e crises climáticas. Também desenvolve projetos para fortalecer o vínculo entre família e escola. O objetivo, afirma, é criar ambientes mais seguros e harmoniosos.

Para encerrar, ela deixa duas recomendações. Às escolas, investir no relacionamento com as famílias. Às famílias, buscar informação qualificada sobre parentalidade. “Tem jeito certo e tem jeito errado de criar filho. E é muito bom quando a gente vai pelo certo.”

Assista ao Dez Por Cento Mais

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Mundo Corporativo: Augusto Drumond, da Nestlé, defende que diversidade com “olhar intencional” gera resultado

Augusto Drummond  head de diversidade e inclusão da Nestlé no Brasil
Entrevista no estúdio de podcast da CBN com Augusto Drumond Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“Você não precisa ser do time de diversidade e inclusão para ter esse olhar intencional sobre o tema … Tendo esse olhar intencional sobre o tema, você ajuda a fazer do Brasil uma sociedade melhor, mas você também ajuda o seu negócio a evoluir.”

A Nestlé está presente em 99% dos lares brasileiros e decidiu que, para continuar relevante, precisava se tornar o “espelho do Brasil” também dentro de casa. A estratégia da empresa para essa transformação foi discutida em entrevista no Mundo Corporativo, da CBN, com Augusto Drumond, head de Diversidade e Inclusão da Nestlé no Brasil.

Segundo ele, a agenda de diversidade ganhou força a partir de uma métrica de negócio. “A gente quer, por estar presente em 99% dos lares com os nossos produtos e com as nossas marcas, espelhar essa sociedade brasileira internamente em todos os níveis hierárquicos”, afirmou. O diagnóstico indicava distâncias entre a composição demográfica do país e a da empresa. Reduzir esse descompasso passou a ser estratégia.

Hoje, 48% dos colaboradores da companhia são pessoas negras. Nos últimos anos, 200 profissionais negros passaram a ocupar cargos de liderança. A empresa também registra 45% de mulheres na liderança e mais de mil pessoas com deficiência no quadro de funcionários.

Grupos de afinidade e transformação cultural

A estratégia se apoia em cinco frentes prioritárias: pessoas negras, mulheres, pessoas com deficiência, população LGBTQIA+ e gerações — tanto jovens com menos de 29 anos quanto profissionais com mais de 50.

Cada grupo conta com um comitê interno. São cerca de 25 integrantes por grupo, responsáveis por propor ações e influenciar decisões. “Esses grupos, eles atuam, claro, como um espaço de acolhimento, mas principalmente esses grupos também ajudam a transformar Nestlé”, explicou.

É nesse ponto que ganha força o conceito de “olhar intencional”, repetido por Drumond ao longo da conversa. Para ele, não basta apoiar a pauta em tese; é preciso incorporá-la nas escolhas do dia a dia. O gestor que revisa seus critérios de contratação, o líder que observa quem tem voz nas reuniões, a equipe que questiona se uma campanha realmente representa o público que pretende alcançar — tudo isso faz parte desse movimento. Sem intenção clara, a diversidade corre o risco de ficar restrita ao discurso. Com intenção, passa a orientar decisões concretas e a influenciar resultados.

Um exemplo é o projeto “Rótulos que Falam”, criado para tornar embalagens mais acessíveis a pessoas com deficiência visual ou dificuldade de leitura. A iniciativa surgiu a partir da experiência de uma colaboradora cega. “Quando ela chegou no time e ela deu essa declaração muito simples de que ela não tinha acessível todas as informações que estão ali naquela embalagem, a gente começou a ir atrás da solução”, contou.

Em parceria com um aplicativo, as informações dos produtos passaram a ser disponibilizadas em áudio por meio do celular. A medida responde a uma realidade expressiva: estima-se que mais de 17 milhões de brasileiros tenham algum tipo de deficiência visual ou dificuldade de leitura.

Outro caso é a fábrica de chocolates Garoto, em Vila Velha (ES), que se tornou referência na inclusão de pessoas surdas. São mais de 100 colaboradores surdos e uma estrutura adaptada com intérpretes e comunicação acessível. 

O “olhar intencional”, expressão usada por Drumond ao longo da entrevista, significa sair da neutralidade confortável e assumir responsabilidade direta sobre as decisões. Não é esperar que a área de diversidade resolva o tema. É o gestor revisar o processo seletivo, questionar a composição do time, observar quem fala — e quem não fala — nas reuniões, analisar se a campanha representa de fato o público consumidor. Para ele, sem essa intenção clara, a diversidade vira discurso. Com intenção, vira critério de decisão.

Diversidade como decisão de negócio

Para Augusto Drumond, a pauta não se sustenta apenas por uma razão ética. “E para as empresas, independente de tamanho, é olhar para isso novamente para além do imperativo moral, para além dessa questão de que é o certo a ser feito, porque na Nestlé a gente tem visto que isso tem resultado positivo para o negócio. E se tem resultado positivo para o negócio para a Nestlé, tenho certeza que tem resultado positivo para o negócio para outras empresas também.”

Ele destaca que a diversidade influencia desde campanhas publicitárias até desenvolvimento de produtos e posicionamento de marca. “Então, através desses diferentes aspectos, seja campanha, desenvolvimento de produto, posicionamento da empresa, a gente a gente tem tentado se aproximar dos nossos consumidores usando essa lente e a ótica da diversidade e inclusão.”

A lógica é simples: consumidores tendem a se conectar com marcas nas quais se reconhecem. Representatividade, nesse caso, deixa de ser discurso e passa a ser prática.

Liderança inclusiva e próximos passos

Criada há cerca de cinco anos, a área de Diversidade e Inclusão da Nestlé agora concentra esforços em ampliar a presença de pessoas negras na liderança e desenvolver o conceito de liderança inclusiva.

“A gente continua olhando para a diversidade como uma das top prioridades dentro dos temas de RH”, afirmou, ao comentar o cenário global de reestruturação da companhia. Para ele, o tema permanece estratégico.

Ao final da entrevista, Drumond deixou uma recomendação que nasce da própria experiência. Ele contou que, ao longo da carreira na empresa, sempre “levantou a mão” quando queria aprender algo novo ou migrar de área — chamou gestores para conversar, declarou seus objetivos e buscou exposição interna, mesmo quando isso causava desconforto. Foi assim que transitou do marketing para o planejamento estratégico e, depois, para a área de Diversidade e Inclusão. Por isso, resume o conselho em uma frase direta: “Levanta a mão, né? Levanta a mão, é sempre importante.” 

O conselho vale tanto para profissionais que buscam espaço quanto para empresas que desejam avançar. Segundo ele, é preciso intencionalidade e coragem para transformar cultura e resultados.

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O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

O nada onde tudo pode acontecer

Dra. Nina Ferreira

@ninaferreira.psiquiatra

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Terra arrasada. Vazio. Falta.

Quando erguemos o olhar e vemos um terreno em que nada há: não há o namoro; não há mais o emprego; o dinheiro acabou; o casamento desmoronou … a autoestima inexiste.

Há momentos na vida que parecem filme de guerra: tragédia atrás de tragédia, recursos esgotados, tristeza profunda. Tudo cinza(s).

Há momentos em que parece não haver vida. Como pode dar tanta coisa errada? O que fazer com esse desespero e essa desesperança?

Onde nada há, pode existir tudo.

Quando não temos mais o que perder, podemos olhar para dentro de nós e fazer a pergunta: como seguir daqui pra frente?

Reflexões que nos ajudam: quem são as pessoas que ainda estão do meu lado (são aquelas que eu imaginava que permaneceriam)? O que antes eu odiava e que não quero voltar a suportar? Como posso construir uma rotina que não seja um inferno ou uma prisão sufocante?

Claro, nem sempre cabe tudo o que desejamos, queremos. Mas sempre cabe algo de bom, melhor que antes. Um hábito novo que fazemos só porque é gostoso, ainda que “não sirva pra nada”; um descanso em um momento do dia que “deixar tudo arrumado” era obrigação; o distanciamento de alguém que nos fazia tanto mal.

Está aí: o nada traz a permissão de refazer, reescolher, redecidir.

O que você quer de novo para sua vida? O que você pode incluir no seu dia a dia que te fará mais leve, mais alegre, com mais energia para sentir, pensar e agir?

Então — nessa sua terra arrasada — que castelo você construirá? Que história você contará e viverá?

A Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

A ciência do sentir: uma nova compreensão vibracional do ser humano

Por Beatriz Breves

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Um equívoco recorrente consiste em imaginar que a transdisciplinaridade se resume a importar conceitos de uma área para outra. Esse procedimento ignora que cada campo do conhecimento possui objeto próprio e métodos específicos, o que pode gerar interpretações profundamente equivocadas. Em termos triviais, seria como afirmar que “a vida dá voltas” porque a Terra gira em torno do Sol. A física investiga matéria, energia e suas interações; a psique pertence a outro domínio de realidade, com dinâmicas e critérios próprios de investigação.

Foi justamente essa lacuna, somada à ausência de uma reflexão mais profunda sobre o sentir, que me levou, após três anos como psicóloga, a buscar, em 1986, a graduação em Física, para compreender a energia a partir daqueles que a têm como objeto formal de estudo.

Os sonhos no encontro entre psique e energia

A primeira articulação consistente entre essas duas áreas surgiu por volta de 1988, quando investigava a fenomenologia dos sonhos. Analisando relatos oníricos, especialmente os de pessoas com deficiência visual, foi possível estabelecer uma sequência de observações: se na natureza não existe cor sem ondas eletromagnéticas; se os sonhos apresentam cor em sua expressão fenomenológica; e se os olhos, receptores dessas ondas, durante os sonhos, apresentam o movimento REM; então os sonhos poderiam ser compreendidos como um fenômeno psíquico processado sob a forma de ondas eletromagnéticas, isto é, ondas que se propagam à velocidade da luz.

Em contrapartida, o estado de vigília se apresenta extremamente lento quando comparado à velocidade da luz, sugerindo que a psique humana poderia funcionar em duas velocidades distintas: uma próxima da luz e outra próxima de zero. E foi nesse contexto conceitual que o Inconsciente Relativístico ganhou forma.

Chamo de Inconsciente Relativístico porque se baseia na teoria da relatividade de Einstein quando propõe que, quando dois sistemas interagem, um estando próximo à velocidade da luz e outro próximo à velocidade zero, surgem os efeitos relativísticos como dilatação do tempo, contração do espaço e variação de massa. Assim, os sonhos, a psique em estado inconsciente, processados à velocidade da luz, ao interagir com a psique em vigília, processada à velocidade zero, produziriam efeitos relativísticos, o que ajudaria a compreender a lógica aparentemente absurda dos sonhos. Nesse sentido, o inconsciente possuiria tempo, mas um tempo dilatado em relação ao da consciência.

O ponto cego da neurociência tradicional

A neurociência tradicional, porém, questionaria essa hipótese, afirmando que os neurônios atuam por sinais eletroquímicos extremamente lentos quando comparados à velocidade da luz, o que inviabilizaria ondas eletromagnéticas como base do sonho. Contudo, posso questionar a neurociência ao descrever o que acontece no cérebro, mas não explicando por que isso gera uma experiência tão semelhante à percepção real, especialmente no que diz respeito à vivência da cor. E este seria, digamos, um ponto cego importante: a neurociência tende a confundir correlação com explicação. O fato de certas áreas cerebrais se ativarem durante o sonho não prova que essa ativação seja a causa da experiência, mas somente que ocorre simultaneamente.

A fenomenologia dos sonhos expõe uma lacuna entre o funcionamento neural e a experiência subjetiva. A vivência onírica possui qualidades luminosas, intensas e imediatas que não se encontram nos sinais lentos do cérebro, sugerindo que a experiência ocorre em um regime distinto daquele descrito pela neurociência. E, ainda, soma-se a essa questão o tempo subjetivo: nos sonhos, segundos podem parecer horas. O ritmo onírico não acompanha a temporalidade fisiológica, reforçando a hipótese de que a psique humana funciona em mais de um regime temporal.

Fato é que, se deixamos o paradigma estritamente materialista e migramos para o paradigma vibracional, no qual o universo quântico também se faz presente, uma nova interpretação se torna possível. No modelo materialista clássico, a psique é tratada como consequência do cérebro, e toda experiência subjetiva seria produto direto de interações eletroquímicas. Já no paradigma vibracional, a realidade não se limita à matéria densa, mas inclui padrões sutis de organização que interagem com princípios do universo quântico. Nessa visão, o “padrão quântico” deixa de ser metáfora e passa a se constituir como hipótese estrutural. Certos fenômenos subjetivos, especialmente os oníricos, parecem obedecer a dinâmicas temporais e qualitativas incompatíveis com o processamento neural.

O gato, a incerteza e a experiência psíquica

Foi dentro desse contexto que vivi uma experiência decisiva quando meu gato esteve gravemente doente e o veterinário avaliou que poderia sobreviver ou falecer naquela noite. Mesmo angustiada pela incerteza, acabei adormecendo e, quando acordei de madrugada, tomada por um receio profundo, não tive coragem imediata de verificar se ele estava vivo ou morto. Permaneci somente pensando e, quando imaginava que estava vivo, sentia alegria; quando imaginava que havia falecido, a tristeza me invadia. Continuei por alguns instantes entre esses dois sentimentos que, apesar de superpostos, eram completamente distintos, até finalmente criar coragem para ir vê-lo.

Essa vivência me remeteu imediatamente ao experimento mental do gato de Schröndinger. Enquanto não observava, a incerteza imperava. Foi quando percebi que o funcionamento da representação psíquica, enquanto não materializamos a experiência por meio da observação, se apresenta como um campo de possibilidades superpostas.

Não tenho elementos para afirmar que a representação psíquica em sua subjetividade seja literalmente um fenômeno quântico, mas posso afirmar que a dinâmica é análoga: antes da observação, coexistem estados possíveis; no instante em que interagimos diretamente, um deles se atualiza como a experiência. Essa analogia reforça a pertinência de incluir o padrão vibracional‑quântico como ferramenta conceitual para compreender modos de funcionamento da psique que escapam ao paradigma materialista estrito e apontam para a necessidade de modelos mais amplos, como o próprio Inconsciente Relativístico.

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O dilema do amor onipotente

Por Caio Luizetto

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Um dos questionamentos mais profundos da fé é a aparente inação de Deus frente ao sofrimento humano. Se Ele é todo-poderoso e bom, por que o mal persiste? As respostas comuns esbarram em limites de poder ou de vontade. Este texto propõe um caminho diferente: o limite supremo de Deus é o Seu próprio amor.

Se Deus não amasse, a solução seria simples. Basta um ato de vontade, um reset cósmico, o apagar puro e simples do que causa o problema. O poder, sozinho, não encontraria obstáculos.

Mas o amor não permite soluções simples. Ele cria um limite que não é de poder, mas de sentido. É por causa do amor que o sofrimento se torna também um problema para Deus. Porque é justamente o amor que O impede de eliminar o mal pela raiz — e a raiz do problema está no próprio humano, objeto desse amor.

O problema, portanto, não está fora de Deus, como algo que Ele apenas observa. Está no mesmo lugar onde Seu amor repousa. Destruir o problema significaria destruir o humano — e isso o amor não autoriza.

Por isso Deus não apenas vê o mal. Ele o suporta. Não porque o aceite, mas porque não pode abandonar aquilo que ama.

O amor, então, deixa de ser apenas virtude divina e passa a ser também o Seu impedimento. Não um impedimento de agir, mas de agir contra o próprio amor.

Assim, Deus não resolve o mundo. Ele permanece nele. E permanece sofrendo, porque amar é escolher não se retirar.

Eis, então, a natureza do dilema: a onipotência encontra seu único limite naquilo que a própria onipotência escolheu ser — o amor. Por isso, a solução simples permanece para sempre no reino da hipótese vazia. A realidade é esta, mais complexa e mais profunda: Deus não sofre apesar do amor. Deus sofre porque ama. E nesse sofrimento, paradoxalmente, reside a confirmação final de Seu amor. 

Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

O travesseiro que falta no seu checklist

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Nunca levei um travesseiro em viagem.

Sempre achei curiosa aquela cena de aeroporto: alguém equilibrando a mala, a mochila, o celular… e um travesseiro debaixo do braço. A imagem se repete no avião, no carro, no ônibus. Para mim, adepto confesso das bagagens enxutas — e motivo recorrente de aflição para minha esposa —, aquilo sempre pareceu um exagero. Um carinho supérfluo consigo mesmo. Um capricho portátil.

Demorei a entender que talvez eu estivesse enganado.

A ficha começou a cair depois da leitura de um texto de Armando Oliveira, publicado no LinkedIn, no qual ele compartilha uma conversa com Amyr Klink. Ali, o navegador fala de travessias longas, dessas que exigem mais do corpo do que estamos acostumados a admitir. E fala do conforto não como luxo, mas como estratégia. Um detalhe que sustenta o todo.

Armando relata que Amyr, mestre do planejamento e dos checklists, já se viu no meio de uma travessia sem um item básico por uma simples distração: o travesseiro. Tudo calculado. Rotas, mantimentos, combustível. Faltava justamente aquilo que garantiria uma noite melhor, um corpo menos castigado, uma cabeça mais lúcida no dia seguinte.

Foi ali que o travesseiro deixou de ser objeto e virou metáfora.

Passamos a vida fazendo planos grandiosos. Projetos bem desenhados, cronogramas ambiciosos, metas robustas. No meio disso, esquecemos do básico. Do conforto possível. Do cuidado mínimo que sustenta a travessia. Apostamos que o esforço dá conta de tudo. Nem sempre dá.

O planejamento reduz incertezas, mas não elimina a nossa condição humana. Corpo cansa. Atenção falha. Disciplina não substitui descanso. E método nenhum sobrevive por muito tempo quando ignora o essencial.

Talvez aquelas pessoas que eu via circulando com travesseiros pelos corredores dos aeroportos soubessem disso antes de mim. Talvez estivessem apenas cuidando do que importa para seguir adiante — inteiras.

Na próxima viagem já programada, começo a considerar levar um travesseiro. Não por moda. Nem por conforto ostentatório. Por aprendizado tardio.

Em tempo. Amyr Klink foi uma das entrevistas mais marcantes que fiz no início da minha carreira, ainda na Rádio Guaíba, em Porto Alegre. Anos depois, o projeto de Armando Oliveira em parceria com o navegador me proporcionou um reencontro com Amyr, agora no programa Mundo Corporativo. Algumas conversas atravessam o tempo. Outras atravessam oceanos. As melhores fazem as duas coisas.

E quase sempre deixam uma pergunta no ar: qual é o travesseiro que está faltando no nosso checklist hoje?

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: o retrato do brasileiro e os pilares que conectam marcas às pessoas

Cristo Redentor no RJ Foto: Oliver Schmid on Pexels.com

Uma pesquisa nacional com mais de 10 mil entrevistas reforça três forças que organizam a vida do brasileiro: família, fé e música. O tema foi analisado no comentário Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN, a partir de um estudo encomendado pela Globo à Quaest.

O levantamento, batizado de Brasil no Espelho, mostra como esses pilares influenciam decisões, expectativas e vínculos. Para 96% dos entrevistados, a família é a coisa mais importante da vida. O dado não apenas confirma uma percepção comum, como dá escala ao sentimento. Cecília Russo observa que “só constrói marca forte quem entende de gente” e lembra que, quando os números aparecem, “fica ainda mais claro” o peso da família nas relações e escolhas do dia a dia.

Esse centro familiar orienta sonhos e comportamentos. O maior desejo declarado é ver a família feliz. No campo das marcas, a consequência é direta: ignorar esse valor custa caro. “Qualquer marca que fira o sentido de família tem altas chances de ser descartada”, afirma Cecília. Não se trata de romantizar, mas de reconhecer um vetor real de decisão.

Ao lado da família, a fé aparece com força semelhante. Também para 96% dos brasileiros, Deus está no comando da vida; mais de 80% dizem ter fé em algo. A religiosidade ajuda a explicar a positividade apontada pela pesquisa e pede cautela na comunicação. Jaime Troiano reforça que “no campo da fé, as marcas precisam de muito respeito”, sem uso oportunista, traduzindo crença em mensagens de confiança e futuro.

O terceiro pilar é a música. Quase a totalidade da população ouve música, com preferência majoritária pela produção nacional. Aqui, identidade fala alto. “No Brasil, música não é fundo, é protagonismo”, diz Jaime. Quando marcas escolhem trilhas, artistas e ritmos com atenção ao território, comunicam pertencimento: “estão dizendo ‘eu entendo quem você é’”.

Da análise emerge um recado simples e exigente. Marcas não podem ser apenas funcionais; precisam ser simbólicas. “Marcas que entendem o brasileiro não vendem apenas produtos, vendem proteção, cuidado, esperança e pertencimento”, resume Jaime. Por isso cenas de mesa cheia, riso solto e pequenas celebrações funcionam: vendem o que está no coração.

A marca do Sua Marca

Entender pessoas vem antes de vender produtos. O comentário mostra que estratégias eficazes partem do reconhecimento de valores centrais — família, fé e música — tratados com respeito e coerência.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Mundo Corporativo: o consultor Guilherme Athia olha para o que não aparece nas planilhas das fusões

Mundo Corporativo com Guilherme Athia, consultor, e apresentação de Mílton Jung
Bastidor da entrevista online com Guilherme Athia no estúdio da CBN Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“A parte humana é fundamental. Eu diria que ela está acima dos números na maioria dos casos, tanto para o sucesso, quanto para um eventual problema dessa fusão ou aquisição.”

Renault e Nissan, Daimler-Benz e Chrysler, Dow Chemical e DuPont, ou ainda, Brahma e Antarctica. São marcas e empresas que participaram de algumas das maiores ou mais conhecidas fusões e aquisições no mundo. A despeito disso, cerca de 30% desses processos no Brasil estão concentrados no setor de tecnologia, o que demonstra que este é um tema que interessa também às pequenas e médias empresas.

Na entrevista ao Mundo Corporativo, da CBN, o consultor Guilherme Athia identifica um erro recorrente nos processos de M&A — sigla inglesa para Mergers and Acquisitions. Muitas dessas operações são conduzidas como exercícios de planilhas, contratos e valuation, quando o que realmente define o sucesso ou o fracasso das integrações está fora da matemática: cultura, relações e confiança entre as pessoas.

Quando o contrato fecha e o trabalho começa

Consultor em confiança, governança e assuntos públicos, Athia afirma que o impacto dessas operações aparece rapidamente no dia a dia das equipes. Medo de perder espaço, insegurança e quebra de referências fazem parte do processo. Ele ilustra com um exemplo direto: “imagina que você é um empregado de um hospital aí em São Paulo ou lá em Brasília e esse hospital foi adquirido por um outro grupo e esse outro grupo tem uma pessoa que faz a mesma coisa que você faz. Você pode se sentir ameaçado em termos do seu emprego.”

As consequências não se limitam às pessoas. Clientes e produtos também sentem os efeitos. “Às vezes os produtos são mudados, alterados dados, às vezes são cancelados.” Por isso, ele defende uma estratégia clara para lidar com os principais stakeholders antes e depois do anúncio do negócio.

Ao tratar da diligência prévia, Athia propõe ampliar o olhar técnico com uma etapa adicional, que chama de trust due diligence. “Se eu estou comprando uma empresa que tem um problema de confiança com empregados, como é que eu meço isso?”, questiona, ao descrever o risco de assumir um negócio sem legitimidade interna para liderar.

Liderança: rumo claro, escuta e ego sob controle

Perguntado sobre a taxa de sucesso das fusões e aquisições, Athia evita números absolutos. “Esse dado não existe.” Para ele, o erro mais comum é medir apenas o que cabe na planilha. “A questão é como é que a gente mede outras questões que não são apenas essas de gestão de caixa e valor de mercado.”

Na prática, isso exige um tipo específico de liderança. “É preciso ter uma liderança que saiba para onde está indo, mas que também saiba ouvir atentamente as informações ao longo do processo. É preciso tirar o ego.” Em negociações carregadas de história e emoção, o alerta é direto: “ego nos negócios é como na vida: atrapalha muito mais do que ajuda”.

Confiança como método, não como discurso

Athia recorre à própria história para explicar seu trabalho. Filho temporão, conta que precisava chegar ao jantar com assunto para ser ouvido. “Eu tinha que ler jornal, ouvir rádio, ver televisão para trazer alguma coisa que eles pudessem me ouvir.” A lembrança sustenta a ideia central da consultoria: confiança nasce da capacidade de escutar e de ser levado a sério.

Grande parte de seus projetos envolve “stakeholders não transacionais”, como imprensa, governos e ONGs. Nessas relações, não há troca comercial, mas circulação de ideias e dados. Por isso, ele separa conceitos que costumam aparecer misturados: “As relações governamentais são reais, elas existem. Lobby existe. E existe a corrupção, que a gente é completamente contra.”

A partir daí, ele amplia o raciocínio e trata a confiança como condição básica de convivência. Não é apenas um tema corporativo. É também um tema humano, de pertencimento: “sem confiança você vive sozinho. Sem confiança em si mesmo, na vida não tem muito sentido. E sem confiança nas pessoas, você está sozinho, não tem solidão maior do que a desconfiança.”

O livro Get the M.E.M.O., que terá versão em português lançada em breve, inspira-se em uma expressão em inglês que significa: olha, presta atenção, o mundo mudou. A obra ensina líderes organizacionais a tomar decisões responsáveis diante do que Athia chama de “era da opinião”. Para ele, falas isoladas podem ganhar proporções maiores do que antes. E dá um exemplo do impacto desse ambiente: “um comentário errado, equivocado, fora de contexto, pode levar a demissão de um CEO”. .

Ao tratar de governança, o autor propõe uma síntese própria: “quatro P’s: pessoas, processos, performance e propósito”, organizados no método MEMO: “mapear, executar, mensurar e otimizar”.

Inteligência artificial e a insegurança acelerada

A confiança, segundo Athia, enfrenta um novo desafio com o avanço da inteligência artificial. “Nós não sabemos aonde isso vai dar”, afirma, ao alertar para o crescimento exponencial da tecnologia. Ele observa que o uso da IA já ultrapassou o apoio operacional e começa a interferir em decisões, na memória e, no futuro, nas emoções.

Ao fim, deixa uma orientação prática para líderes: “confiança começa por si mesmo”. E conclui com a ideia que atravessa toda a conversa: “não vai existir 100% certo ou errado. Errar é humano. Aprender é o que um líder faz”.

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O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

Não é egoísmo, é autocuidado


Diego Felix Miguel

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Nem sempre desconsiderar a dor do outro é uma atitude de egoísmo.

Prezada leitora e prezado leitor, talvez a ideia que abre este texto soe cruel ou desumana. Não falo de apatia nem de distanciamento emocional, mas de um autocuidado que, muitas vezes, é negligenciado. O que tenho aprendido no meu percurso pela longevidade é simples e, ao mesmo tempo, difícil de aceitar: nem todas as pessoas merecem nossa dedicação.

Nossa cultura euro-cristã nos faz acreditar em uma dedicação intensa e exclusiva às outras pessoas, sobretudo quando as amamos ou quando existem vínculos sanguíneos. Com isso, passamos a colocá-las em um grau de importância superior às nossas próprias prioridades e desejos, muitas vezes à custa da nossa própria anulação, apenas para estarmos em conformidade com uma norma social.

Enquanto homem gay, vivenciei isso desde a infância. Posso afirmar que essa autocobrança se multiplica inúmeras vezes. Trata-se de uma tentativa falível de não ser percebido pela orientação sexual, mas por características como bondade, capacidade e dedicação acima da média. Essa realidade não é só minha; é a de inúmeras outras pessoas LGBT+, pessoas negras, pessoas com deficiência e de outros grupos historicamente minorizados em suas possibilidades de poder e reconhecimento.

No auge dos meus quarenta anos, percebi que não precisava mais sustentar todo esse esforço para demonstrar excelência nas relações. Permiti-me, enfim, decepcionar expectativas que não são as minhas.

Os tempos são outros. Pautas sociais e de direitos humanos vêm sendo cada vez mais difundidas e aprofundadas. Esse movimento contribui para tal posicionamento, assim como as conquistas de direitos, as políticas públicas afirmativas e a própria maturidade — que defino aqui como aquilo que aprendemos e carregamos ao longo da vida por meio das vivências.

Talvez essa seja a beleza da longevidade e, ao mesmo tempo, um de seus maiores desafios: lutar pela autonomia. Não a autonomia moldada por padrões normativos, que limitam nossa expressão e nossa vivência identitária, mas aquela que nasce da essência genuína de quem somos. Priorizar-se é o caminho, e ele nos conduz ao autocuidado.

Não é fácil. Aprendi que, antes de qualquer resposta ou ação que me cobram, tenho o direito de pausar, respirar e aprofundar meus sentimentos e vontades.

É isso mesmo que quero? Se sim, por que quero? Se não, por que isso me incomoda a ponto de eu não querer realizá-lo?

Para um envelhecimento ativo e saudável, precisamos repensar quais de nossas ações surgem, de fato, da nossa autonomia genuína e quais são impostas socialmente — aquelas que, mesmo ferindo nossos desejos, garantem um suposto conforto que, na prática, não tem nada de confortável.

Diego Felix Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG-SP. Mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela USP. Escreve este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Dez Por Cento Mais: psiquiatra Maria Carol Pinheiro pede atenção para o “corpo que para” com a mente em alerta

“Saúde mental não é sobre estar feliz, é sobre estar inteiro.”

Maria Carol Pinheiro, psiquiatra

Janeiro costuma ser vendido como recomeço, lista de metas e agenda em branco. Para muita gente, ele chega com outro pacote: exaustão. O corpo desacelera, o calendário vira a página, e a cabeça continua correndo, como se não tivesse recebido o aviso de que o ano mudou. Esse descompasso — entre o que a gente faz e o que a gente sente — é o centro da conversa com a psiquiatra e psicoterapeuta Maria Carol Pinheiro no programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Maria Carol propõe uma pergunta simples, que costuma desorganizar certezas: quando falamos de saúde mental, o que separa “estar saudável” de “estar doente”? Para ela, o ponto de virada não está na ausência de tristeza ou angústia, e sim na liberdade. “Se eu posso escolher, isso é saudável. Agora, se eu estou aprisionado, se eu não consigo escolher, aí seria o adoecimento”, afirma.

A ideia contraria uma fantasia comum: a de que saúde mental seria viver sem oscilações. Na prática clínica, ela diz encontrar o oposto. “Eu já conheci pessoas que não têm angústia, que não encostam na tristeza… Essas pessoas não têm saúde mental.” Na visão dela, a vida psíquica inclui sentir e atravessar emoções — sem paralisar nelas.

Quando a dor faz parte da saúde

A psiquiatra chama atenção para um erro frequente: tratar sofrimento como sinônimo de doença. “Às vezes a gente está passando por períodos de sofrimento que nos tornam mais nós mesmos.” O problema, para ela, é a interrupção do movimento interno: “O adoecimento é a paralisação disso.”

É nesse ponto que Maria Carol critica a pressa em etiquetar sentimentos. Ela defende que o primeiro passo não é colecionar diagnósticos, e sim perceber o básico: “A gente precisa fazer dois diagnósticos: tudo vai bem comigo; algo não vai bem comigo. É isso que importa.” O nome técnico, se for necessário, entra depois — com acompanhamento profissional.

Ao falar do excesso de informação (especialmente nas redes), ela descreve um tempo em que “estamos adoecidos do tempo” e resume a consequência: “A gente tem desaprendido de descansar.” Descansar, para ela, não é só dormir. Existem cansaços diferentes: “cansaço social”, “cansaço sensorial”, “cansaço mental”, “cansaço emocional”, “cansaço criativo” e “cansaço espiritual”. A chave prática, ela diz, é observar funcionalidade e recuperação: “Quando eu descanso, passa? Eu realmente consigo descansar e passar?”

A conversa também toca numa confusão atual: o impulso de anestesiar o que dói — e, com isso, perder algo importante do próprio viver. Maria Carol lembra que “tirar a dor é tirar a vida” e cita uma medida simples para checar exageros: “Fique atento a tudo aquilo que é desproporcional ao tempo presente.” Quando a reação é grande demais para o fato de agora, pode haver “emoção de outro tempo” pedindo investigação.

No fim, ela amarra janeiro a uma metáfora antiga: Janus, o deus romano de duas faces, olhando passado e futuro. A ideia é direta: recomeço sem revisão vira repetição. E a revisão, segundo ela, passa por uma espécie de liderança interna — disciplina sem brutalidade. “Não existe liberdade sem disciplina”, afirma. E cita Kant: “Liberdade é também fazer o que não se quer.”

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