As pessoas viram meu corpo e não repararam no brilho dos meus olhos

Por Diego Felix Miguel

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Prezada leitora e prezado leitor, muito obrigado por tirar alguns minutos do seu precioso tempo para conversarmos. Não sei o quanto será agradável este assunto, mas, de fato, é algo que tem me incomodado bastante. Possivelmente você se encontre nesta situação, seja de um lado ou de outro. Por isso, pare, respire, tome um cafezinho enquanto dialogamos.

Não é segredo para ninguém que vivi um processo depressivo nos últimos anos –– talvez tenha sido até este momento para você que está me lendo pela primeira vez; sempre deixei aberta essa situação porque acredito que ainda há muito receio de se falar de forma transparente sobre isso. Mesmo fazendo tratamento há um bom tempo, somente em 2025 tive uma recuperação significativa. Obviamente com a ajuda de profissionais: médico psiquiatra, médico de família e comunidade, nutricionista e profissional de educação física.

Neste período, em menos de um ano, perdi mais de 30 quilos.

Sim, eu estava gordo e, apesar de me sentir bem fisicamente, os comentários das pessoas referentes ao meu corpo me machucavam. Vinham em forma de “preocupação” e até “conselhos” nunca solicitados — não pedi sua opinião, muito menos a ajuda, pensava no meu íntimo. Os discursos tentavam sempre me colocar em um lugar de inferioridade, sob um suposto “incentivo” ao autocuidado. Mas o que de fato me machucava, que apenas algumas pessoas mais próximas percebiam, era a ausência do brilho nos olhos.

Em maio de 2025, vivenciei uma espécie de ressuscitação. Na busca do ar para sobreviver, encontrei forças (e motivação) para focar no autocuidado e recuperar um amor que, há alguns anos, estava perdido. Desde então, mudei totalmente minha rotina, aprendi a priorizar o que realmente importa e a fazer boas escolhas.

O brilho nos olhos ressurgiu. Voltei a sorrir, a amar e a ver a beleza de um dia colorido, mesmo quando está nublado. Como consequência, meu corpo mudou totalmente. Como disse meu amigo Fred, recentemente, em um café delicioso e uma conversa empática: perdi peso, mas não foi somente o corporal. Foi o simbólico. Aquele que ninguém vê, mas que faz a gente se arrastar pela vida.

Hoje, com 30 quilos a menos e um corpo de quem se dedica ao autocuidado, tenho recebido muitos elogios, o que faz bem para a autoestima. O que me incomoda, ainda, é que pouquíssimas pessoas perceberam que a mudança mais significativa, e talvez a mais importante, foi o brilho nos meus olhos.

Não entendo muito a necessidade de falar do corpo. O que mais importa é o “conjunto da obra” ou, como costumamos falar na Gerontologia, os aspectos biopsicossociais. Estou envelhecendo. Agora ainda mais próximo da velhice, já que completei 41 anos. O meu investimento não é apenas para garantir músculos e ser um velho com funcionalidade preservada ou para que meu corpo funcione corretamente. É, principalmente, para que esses cuidados, somados à saúde mental, minimamente garantam que eu chegue à velhice.

Obrigado por chegar até aqui. Apenas um curiosidade final: o seu cafezinho acabou ou esfriou?

Diego Felix Miguel é doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP, especialista em Gerontologia pela SBGG e presidente do departamento de Gerontologia da SBGG-SP.

Violência sexual contra crianças: a escola como espaço de proteção e a urgência de ouvir as vítimas

“Se a casa é o principal lugar de violação, a escola é o principal lugar de proteção.”

Os dados são duros e ajudam a dimensionar um problema que, muitas vezes, permanece escondido. A Pesquisa Nacional de Saúde Escolar 2024 aponta que 9% dos estudantes de 13 a 17 anos afirmaram já ter sido forçados ou ameaçados a ter relações sexuais, enquanto 18% relatam algum tipo de contato físico sem consentimento. O tema foi tratado em entrevista à CBN pela juíza Vanessa Cavalieri, titular da Vara da Infância e Juventude Infracional do Rio de Janeiro.

Logo no início da conversa, a magistrada deixa claro que o enfrentamento desse tipo de violência exige duas frentes de atuação: “a punição dos agressores e a prevenção”, afirma. Para ela, a resposta do Estado não pode se limitar à responsabilização posterior. O objetivo maior é evitar que o crime aconteça.

A violência que nasce dentro de casa

Um dos pontos mais sensíveis da entrevista é a origem da violência. Segundo a juíza, na maioria dos casos, o agressor não é um desconhecido. Ou são familiares ou são pessoas com quem a vítima tem um relacionamento de afeto.

Esse dado ajuda a entender por que o crime costuma permanecer oculto. O ambiente que deveria proteger é, muitas vezes, o mesmo em que a violência acontece. E isso dificulta a denúncia.

Diante desse cenário, a escola ganha um papel decisivo. Não apenas como espaço de aprendizagem, mas como lugar de escuta. Vanessa Cavalieri cita um exemplo concreto. Durante a pandemia, os registros de abuso sexual infantil diminuíram — não porque os casos tenham reduzido, mas porque as escolas estavam fechadas. “Essas crianças eram violadas e ninguém via, ninguém relatava, ninguém denunciava”, explica.

Para ela, o desafio está em preparar as instituições de ensino. “A escola precisa ter fluxos, precisa ter protocolos e que todos os funcionários saibam o que fazer.” Não apenas professores ou diretores, mas qualquer profissional que possa ser procurado por um aluno.

Escutar sem revitimizar

A entrevista também destaca a importância da escuta protegida, prevista em lei. Trata-se de um método que evita que a criança seja exposta novamente à violência ao relatar o ocorrido: “Existe uma metodologia para ouvir essa criança de forma que ela possa fazer um livre relato, sem ser manipulada e sem ser culpabilizada.” Essa escuta deve acontecer não só no sistema de justiça, mas também em escolas, hospitais e conselhos tutelares.

Outro ponto abordado pela juíza é a educação sexual, frequentemente cercada de desinformação. “Educação sexual não é ensinar prática sexual. É ensinar quais partes do corpo não devem ser tocadas e o que fazer diante de uma situação de abuso.”

Ela relata que, em visitas a escolas, é comum ouvir histórias de jovens que sofreram violência e não sabiam que aquilo era crime. Muitas meninas dizem que foram estupradas, mas não sabiam, porque não houve penetração: “.… e estupro é qualquer ato sexual sem consentimento.”

A palavra da vítima como prova

A magistrada também combate uma ideia recorrente: a de que só é possível denunciar com provas materiais. “A prova para apurar um abuso sexual é a palavra da vítima.” Ela explica que, por se tratar de um crime cometido sem testemunhas e muitas vezes sem marcas físicas, o relato da vítima tem peso central no processo judicial. “É muito frequente a gente condenar um estuprador só com a palavra da vítima.”

Um problema maior do que os números

Ao analisar os dados da pesquisa, Vanessa Cavalieri faz um alerta: a realidade pode ser ainda mais grave. Ela entende que exista uma subnotificação. Muitas vítimas não denunciam. Outras nem reconhecem o que viveram como violência.

A mensagem que fica após ouvir as palabras da juíza Vanessa Cavalieri é clara: enfrentar esse problema exige ação coordenada, informação e, sobretudo, disposição para ouvir. Porque muitas histórias ainda estão escondidas, esperando alguém disposto a escutar.

Sobre o sentimento do ciúmes

Por Beatriz Breves

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O ciúme é um daqueles sentimentos que todo mundo conhece, mas que raramente é compreendido em profundidade. Ele aparece como um aperto no peito, um desconforto, uma sensação de ameaça e, no fundo, nasce do desejo de manter o outro por perto e do medo de perdê-lo.

Há uma crença popular de que “quem ama, sente ciúme”. Mas amor e ciúme não são necessariamente dependentes. É possível amar e sentir ciúme, como também amar sem sentir ciúme. Ainda assim, é raro que o ciúme não apareça em algum grau. Ele funciona como sal na comida: se em excesso, estraga; se em falta, empobrece; na medida certa, deixa a comida saborosa. Uma pitada de ciúme pode até fazer bem, por revelar cuidado e presença.

Outra ilusão comum é imaginar que o ciúme envolve somente duas pessoas. Na verdade, ele sempre forma um triângulo: eu com alguém e mais alguma outra pessoa ou coisa. Sim, até coisas. Há quem sinta ciúme de um trabalho, de um automóvel, de um celular. O ponto central é sempre o mesmo: a sensação ameaçadora de perda.

O ciúme nunca vem sozinho. Ele se mistura a outros sentimentos. Quando caminha ao lado, por exemplo, do amor, da solidariedade e do companheirismo, tende a ser leve. Quando se alia ao desespero, à angústia ou ao medo intenso, pode se tornar controlador e sufocante. E, ainda, quando se junta ao desejo de dominar, ao impulso cruel ou à violência, a pessoa tende a perder o controle de si mesma. Portanto, a questão principal não é o ciúme na sua condição isolada, mas os sentimentos que se agregam a ele.

Por isso, a pergunta mais importante não seria “por que sinto ciúme?”, mas “com quais sentimentos o meu ciúme está andando?”. É essa combinação que irá diferenciar um incômodo passageiro de um sofrimento profundo.

Pode-se dizer com uma certa segurança que o ciúme vai aparecer em algum momento da vida, e ainda bem. Ele é um sentimento que mostra onde dói, onde há falta de segurança, onde existe o desejo, onde há amor. O problema surge quando não se sabe o que fazer com o que se sente.

Fato é que o ciúme é somente a ponta de um iceberg no oceano dos sentimentos. Quando alguém consegue enxergar o que está se aliando a ele — inseguranças, desejos, medos, necessidades afetivas, etc — o ciúme passa a ser compreendido como um mensageiro de fragilidades, desejos e necessidades afetivas. É justamente a partir desse reconhecimento que se torna possível construir relações mais maduras.

A dificuldade, para muitos, está em administrar os próprios sentimentos. Seja por desconhecimento, seja por receio, poucas pessoas têm a oportunidade de falar sobre o que sentem sem, de alguma forma, se censurar ou ser censuradas. E, quando não se pode expressar o que se sente, o ciúme e os sentimentos a ele agregados, como qualquer outro sentimento, tendem a se distorcer.

Portanto, falar sobre os próprios sentimentos, sobre o que se está sentindo, é uma das atitudes mais saudáveis que alguém pode ter. Guardar tudo para si é como se afogar no mar dos sentimentos. Quando uma pessoa pode compartilhar a sua insegurança com alguém em que haja reciprocidade no gostar, seja parceiro(a) ou amigo(a), cria um espaço externo e interno para acolhimento, compreensão e conexão.

Leia o livro Falando de Sentimentos com Beatriz Breves

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Dez Por Cento Mais: Santuza Macedo, da Diamond Viagens, diz o que buscam as mulheres que decidem viajar sozinhas

“Às vezes não é falta de companhia, às vezes até tem companhia, mas prefere ficar na solitude, conhecer algo diferente no tempo dela.”

Viajar sozinha depois dos 40 anos ainda provoca desconfiança, perguntas atravessadas e interpretações apressadas. Para muitas mulheres, a decisão de arrumar a mala sem companhia não é um sinal de crise, mas um movimento de autonomia. O tema foi discutido em entrevista no programa canal Dez Por Cento Mais, no YouTube, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Santuza Macedo, consultora de turismo e CEO da Diamond Viagens, observa que o estranhamento não é recente. Ele vem de um padrão histórico em que o homem circula e a mulher permanece. Quando esse padrão se rompe, surgem os rótulos. “Tem certeza que está tudo bem?”, relatou, ao reproduzir perguntas frequentes dirigidas a mulheres que optam por viajar sozinhas.

Autonomia feminina ainda precisa de explicação

A liberdade masculina costuma ser lida como natural. A feminina, como algo a ser justificado. Santuza aponta que essa diferença de percepção tem raízes culturais profundas e ainda influencia o olhar atual.

Segundo ela, existe uma expectativa silenciosa de que, após os 40 anos, a mulher esteja acompanhada — seja por parceiro, amigos ou família. Quando isso não acontece, surgem interpretações que associam a decisão a problemas pessoais. “Por que você está indo sozinha? Você não tem companhia?”, exemplificou.

Essa leitura, no entanto, ignora outras motivações. Muitas mulheres viajam sozinhas por escolha. Buscam tempo próprio, liberdade de roteiro e experiências no próprio ritmo. “Eu sento na hora que eu quero, eu como o que eu quero”, relatam clientes ouvidas por Santuza.

Mercado cresce, mas o preconceito persiste

O aumento do número de mulheres viajando sozinhas já é percebido pelo setor de turismo. Há crescimento na oferta de pacotes específicos, grupos femininos e serviços pensados para esse público. Mesmo assim, o preconceito ainda aparece.

Santuza destaca que o mercado tem se adaptado, inclusive com soluções intermediárias. Para quem ainda não se sente segura para viajar totalmente sozinha, há grupos organizados que mantêm a autonomia, mas oferecem suporte. “Ela vai estar sozinha, mas não vai se sentir sozinha”, explicou.

O planejamento, segundo ela, é peça central nessa experiência. Viagens bem estruturadas reduzem riscos e aumentam a confiança. “O planejamento precisa ser longo para a viagem curtinha ser excelente”, afirmou.

Mais do que turismo, um reencontro

Ao acompanhar diferentes perfis de clientes, Santuza identifica padrões. Muitas mulheres chegam a esse momento depois de mudanças importantes na vida. Filhos crescidos, carreira consolidada ou término de relacionamento aparecem com frequência.

Há também uma busca mais subjetiva. “A maioria é que se reencontrou depois dos 40 anos”, disse. A viagem solo passa a ser uma forma de reconexão com desejos que ficaram em segundo plano.

Esse movimento não exige grandes deslocamentos. Pode começar perto de casa. Uma pousada, um fim de semana em outra cidade ou um destino conhecido já funcionam como primeiro passo. Santuza recomenda essa progressão como forma de ganhar segurança.

Planejamento como rede de apoio

A autonomia não significa ausência de suporte. Ao contrário. Santuza orienta que mulheres que desejam viajar sozinhas busquem apoio profissional, especialmente nas primeiras experiências.

Agências de viagem, seguros e contatos locais funcionam como rede de segurança. Em situações imprevistas, o acesso rápido a alguém que possa ajudar faz diferença. “Você passa a mensagem e consegue resolver”, explicou.

Esse cuidado evita frustrações comuns em viagens mal planejadas. Quando algo dá errado sem suporte, a experiência pode reforçar o medo. Com estrutura, o resultado tende a ser o oposto: mais confiança para próximas viagens.

Um passo de cada vez

A decisão de viajar sozinha raramente acontece de forma abrupta. Ela costuma ser construída. Santuza compara o processo a uma escada: primeiro, experiências acompanhadas; depois, pequenas viagens solo; por fim, destinos mais distantes.

Com o tempo, desaparece a necessidade de justificar a escolha. A mulher passa a ocupar esse espaço com naturalidade. “Ela percebe que pode ir para qualquer lugar”, afirmou.

A mala continua a mesma. O que muda é o olhar sobre quem a carrega.

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Quem define o seu sucesso?

Dra. Nina Ferreira

@ninaferreira.psiquiatra

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Bater metas no trabalho, dar conta da rotina em casa, cuidar da saúde com alimentação regrada e exercícios físicos, ter higiene do sono, ler para ser uma pessoa bem informada… Ser produtivo é sinônimo de sucesso! 

Mas, afinal: o que é ser produtivo? Quem define isso?

Viver, para um ser humano, é uma experiência complexa. Reforço “para um ser humano” porque somos uma espécie animal que tem consciência  — outra coisa de difícil definição. Ou seja, sabemos dos fatos, das consequências, dos riscos, das possibilidades e isso nos dá poder e, ao mesmo tempo, angústia.

Sabemos dessa realidade dura e sentimos desejos — temos vontade de vivenciar experiências, conquistar bens materiais, ser admirados e amados. Reparou quantos movimentos acontecem ao mesmo tempo?

Unir o mundo de dentro, que é “quem somos”, com o mundo de fora, “os outros e a vida como ela é”, dá trabalho — um trabalho árduo e, muitas vezes, confuso.

Quem devo ouvir: a mim mesmo — e minhas vontades e ideias — ou aos outros — o que todos falam que é bom, o que a sociedade diz ser certo? Quem estabelece se eu “tenho sucesso”?

Ser produtivo, hoje, significa estar sempre ocupado com coisas que trazem resultado, que posso provar que fiz. Com aquilo que todos enxergam. Números, dados, imagem, soluções palpáveis ou visíveis. E isso é ruim? A verdade é que a sensação de “chegar lá” é muito prazerosa. Inclusive, a construção da nossa “autoestima” (o conceito que temos sobre nós mesmos) está muito relacionada às nossas realizações. Então, vale a pena produzir!

A grande questão aqui é: produzir o quê, quanto, por quê, para quem? 

Convido você a pensar: dentro da sua realidade hoje e dos seus parâmetros (do seu mundo interno), o que é possível fazer sem se destruir de cansaço? O que é um sucesso atingível, de forma que você se mantenha vivo, com saúde, para saborear essas conquistas?

E faço uma  última pergunta: qual conceito de “ser produtivo” você vai construir e viver?

Te desejo muitas realizações autênticas, muito sucesso, o seu sucesso!

Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

A falácia do mercado prateado

Por Diego Felix Miguel

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Prezada leitora e prezado leitor, este texto não tem o objetivo de desqualificar o mercado como campo de estudo, ciência ou estrutura de capital fundamental da nossa sociedade. A crítica se dirige à forma como ele se apresenta para atrair consumidores, muitas vezes por meio de termos que, à primeira vista, parecem positivos, mas que acabam alimentando preconceitos e discriminações. À superficialidade do discurso que tem como atribuição gerar lucro com palavras e expressões que impressionam quem ainda não mergulhou nas águas profundas do envelhecimento humano.

Nos últimos anos, assistimos a um “tsunami” de termos que tentam qualificar uma velhice privilegiada, blindando uma minoria de homens e mulheres contra estereótipos e mitos que, paradoxalmente, os expõem ainda mais ao preconceito.

“Nolt”, “silvers”, “ageless” ou “geração prateada” nada mais são do que atualizações do que antes rotulávamos como “melhor idade”. Essas nomenclaturas impõem uma hierarquização das formas de envelhecer, ditando modelos “melhores” ou “piores” e responsabilizando, implicitamente, o indivíduo por seus sucessos ou fracassos. Trata-se de uma lógica que ignora, deliberadamente, o abismo da desigualdade social.

As estratégias desse nicho podem ser perversas. Muitas vezes, carecem de responsabilidade social ao vender uma negação romantizada da velhice,  o que chamo de idadismo cordial.

É o artifício de enganar quem ainda não aceitou o envelhecimento como uma conquista, enxergando-o apenas como um inventário de perdas.

Trata-se de uma estratégia neoliberal para ofuscar o impacto da iniquidade no acesso às políticas públicas e às estruturas de poder. Esse movimento reforça preconceitos de gênero, raciais, étnicos e geracionais, vulnerabilizando ainda mais grande parte da população, que segue sobrevivendo na invisibilidade.

A ciência do mercado e do consumo é, na verdade, muito mais profunda. Deve ser multidisciplinar, beber de muitas fontes e buscar respostas para demandas reais. Quando exercida com ética, reconhece os diferentes públicos e elabora estratégias de comunicação que não visam apenas à venda, mas contribuem para a transformação social.

Não precisamos de maquiagem para a velhice. Precisamos de dignidade para nos assumirmos velhas e velhos com orgulho, com direitos garantidos e acesso, não apenas ao Estado, mas também ao consumo com autonomia e independência. Afinal, essas são as bases para um envelhecimento verdadeiramente ativo.

Diego Felix Miguel é doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP, especialista em Gerontologia pela SBGG e presidente do departamento de Gerontologia da SBGG-SP.

Como diferenciar frustração de toxicidade e proteger suas relações

Por Beatriz Breves

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Quem nunca percebeu que, ao conviver com certas pessoas, alguns sentimentos ou comportamentos parecem ganhar força; com outras, simplesmente estes sentimentos não surgem? Isso acontece porque, quando duas ou mais pessoas se encontram, seus aspectos individuais entram em interação. Elementos semelhantes ressoam e se influenciam mutuamente, moldando a forma como cada um sente, reage e se posiciona naquele vínculo.

É justamente essa dinâmica que ajuda a explicar por que há relações que evoluem para a harmonia, enquanto há aquelas que deslizam para a toxicidade. O encontro entre duas subjetividades pode tanto gerar um campo fértil para o crescimento, quanto ativar padrões que ferem, limitam e desgastam.

Muitas pessoas confundem uma relação harmoniosa com uma relação perfeita. Harmonia não é sinônimo de perfeição, e perfeição, por sua vez, está longe de ser garantia de saúde. Se imaginássemos um casal “perfeito”, provavelmente veríamos uma convivência marcada pela monotonia, pela ausência de espaço para movimento, tensão criativa ou crescimento pessoal. Isso porque o ser humano amadurece justamente nas diferenças, ou seja, nas ausências, nos desencontros e nos contrastes que geram movimento.

Usando uma metáfora musical, é no intervalo entre as notas que o corpo encontra espaço para dançar. Da mesma forma, é no espaço entre as certezas, entre os pequenos atritos, que a relação se constrói e amadurece.

As frustrações cotidianas não significam que a relação está ruim; elas apenas indicam que algo precisa ser ajustado. Podem surgir do desejo por mais atenção ou da expectativa de mudança em algum comportamento, entre outras situações. Enfim, são ocorrências comuns, que costumam se resolver com diálogo, empatia e, em certos momentos, com a aceitação madura de que nem tudo pode, ou deve, ser transformado.

As frustrações cotidianas são inevitáveis e naturais; portanto, são frustrações saudáveis. Em qualquer relação, o não atendimento ocasional das expectativas faz parte do fluxo saudável entre duas pessoas, porque ninguém consegue corresponder integralmente ao que o outro deseja o tempo todo. O que realmente importa é como cada pessoa lida com esses pequenos desencontros — se eles se transformam em espaço para o diálogo e passam a fazer parte do amadurecimento do vínculo.

A frustração tóxica não segue esse padrão. Como o próprio nome sugere, ela intoxica. Enquanto a frustração cotidiana aponta para ajustes possíveis dentro de um vínculo que permanece respeitoso, a frustração tóxica corrói, desorganiza e fere. Manifesta-se por comportamentos repetitivos gerando sofrimento psicológico constante e, por vezes, físico. Nessas relações, os conflitos se tornam a base da convivência, pois prevalecem o desrespeito, o controle e a manipulação.

Uma relação tóxica drena a vitalidade emocional, porque funciona por repetição de padrões que machucam, desgastam e desorganizam o bem‑estar de quem está envolvido. O sofrimento deixa de ser pontual e é constante, criando um ambiente de tensão, insegurança e exaustão afetiva, gerando intenso desgaste emocional.

A frustração saudável abre espaço para conversa e reajuste; a que contém toxicidade, instala medo, insegurança e perda de autonomia. A frustração cotidiana funciona como um remédio amargo que, mesmo causando incômodo, favorece o crescimento, a reorganização e a maturidade emocional. Já a tóxica age como um veneno que corrói lentamente, enfraquece a capacidade de discernimento e paralisa a iniciativa.

Transformar uma relação tóxica é um processo complexo porque exige que ambos reconheçam o padrão e se comprometam com a mudança. Esses padrões costumam estar profundamente enraizados, muitas vezes construídos ao longo de anos, e, por isso, não se desfazem somente com boa vontade ou promessas. O primeiro passo é admitir a necessidade de mudança; o segundo, identificar os comportamentos que sustentam a dinâmica tóxica; e o terceiro, buscar apoio para reconstruir a forma de pensar, sentir e se relacionar.

Entre os comportamentos tóxicos mais conhecidos estão o gaslighting, quando um dos parceiros distorce a realidade do outro a ponto de fazê‑lo duvidar da própria sanidade; o manterrupting, caracterizado por interrupções constantes e desnecessárias que impedem o outro de concluir seu raciocínio; e o mansplaining, que ocorre quando um dos parceiros fala condescendentemente, explicando o óbvio como se o outro fosse incapaz de compreender.

Estão nesta lista de comportamentos tóxicos também o love bombing, marcado pelo excesso de carinho no início da relação para, mais tarde, exercer controle; o silêncio punitivo, usado como forma de castigo que gera insegurança; e o ciúme possessivo, que funciona como controle disfarçado de cuidado.

Compreender a diferença entre frustração cotidiana e frustração tóxica ajuda a nutrir relações mais saudáveis, sensíveis e respeitosas. Essa compreensão fortalece os vínculos e amplia a nossa potência de amar.

Leia o livro Falando de Sentimentos com Beatriz Breves

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Sobre o sentimento de abandono

Por Beatriz Breves

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O sentimento de abandono, quando vivido em sua forma mais intensa, pode fazer o tempo parecer arrastado, o espaço tornar-se áspero e a dor ocupar toda a região interna do peito. É uma experiência que pode emergir da ausência de alguém, do enfraquecimento de um vínculo ou da quebra de expectativas que sustentavam a sensação de pertencimento. Em muitos casos, sentir-se abandonado equivale a perceber o chão se desfazendo sob os próprios pés.

É natural existirem diferentes intensidades desse sentimento, variando desde pequenos abandonos até vivências mais profundas. Inclusive, experimentar pequenos abandonos se faz até necessário para que a pessoa aprenda a se cuidar melhor e a se acompanhar com mais presença de si mesma.

Há também diversas defesas para evitar o sofrimento associado ao abandono. Entre elas, observa-se quem, movido pelo medo da perda, abandona antes de ser abandonado. Há ainda quem recorra a subterfúgios externos — às vezes evidenciados por excessos de ação — na tentativa de não entrar em contato com a dor, defesa que vale para qualquer forma de sofrimento.

Ainda assim, o abandono costuma vir acompanhado do desamparo, que ressoa em solidão, angústia, desespero, insegurança e tantos outros sentimentos. Acrescenta-se ser comum a sensação de um vazio interno que revela o quanto a pessoa se sente só diante da própria existência. A gravidade desses sofrimentos dependerá da intensidade com que se manifestam e do quanto paralisam a vida de quem os vivencia.

Fato é que sentir-se só pode nos afastar de nós mesmos e nos levar a perder nossas referências internas. É nesse movimento que pode emergir um abandono ainda mais sofrido: a renúncia de nós por nós mesmos.

É fácil compreender que, quando nos abandonamos, atropelamos a dor que sentimos, silenciamos necessidades legítimas e seguimos adiante sem nos escutar. Aspectos importantes de quem somos são colocados à margem, deixando-nos em desamparo e sem acolhimento, promovendo uma grande desarmonia interior. A desconexão interna então se impõe.

Entretanto, quando percebemos que nossas lágrimas não são somente pelo que perdemos, mas também pelo que deixamos de ser para nós mesmos, pelas palavras gentis que não nos oferecemos e pela atenção que deixamos de nos dedicar, compreendemos que o sentimento de abandono não diz respeito somente ao que se foi, mas também ao que nós mesmos nos negamos. É justamente aí que surge a possibilidade de resgate: ao percorrermos nossos caminhos internos pela via do autoacolhimento, temos a chance de recuperar nossa presença em nosso próprio mundo e voltarmos a nos acompanhar.

Ao nos cuidarmos com atenção e gentileza, abrimos um espaço interno onde a dor não precisa dominar, podendo ser vivida com mais lucidez e menos solidão. Nesse gesto de autoacolhimento, descobrimos uma força cuidadora que habita em cada um de nós, uma força que sustenta, reorganiza e nos permite seguir adiante, amparados pela presença mais constante que temos em nossas vidas: nós mesmos. Afinal, se nós não nos tornarmos o nosso melhor amigo, dificilmente alguém poderá ocupar esse lugar.

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Mundo Corporativo: Patrícia Macedo, CMO da Suzano, diz que marcas não devem esperar os sinais para se reposicionar

Patrícia Macedo, Suzano
Entrevista com Patrícia Macedo no estúdio de podcast da CBN Foto: Priscila Gubiotti CBN

“Para mim, essa observação constante da necessidade do consumidor, das motivações do consumidor é que fazem com que a marca suba as escadas.”

Nos últimos anos, a Suzano transformou um projeto estratégico em operação prática e levou seus produtos para dentro da casa de milhões de brasileiros. A empresa, historicamente associada à celulose e ao papel, consolidou uma unidade de bens de consumo com marcas como Neve, Mimo e Max. A mudança de lógica — de uma companhia voltada essencialmente à indústria para uma organização que dialoga diretamente com o consumidor final — foi tema de entrevista de Patrícia Macedo, CMO da unidade de bens de consumo da Suzano, ao programa Mundo Corporativo, da CBN.

Segundo a executiva, o movimento combinou inquietação interna e resposta ao mercado. “Nos últimos 7 ou 8 anos, a gente fala que tirou do PowerPoint e virou um projeto concreto que está na casa aí de muitos milhões de brasileiros o que a gente chama da unidade de bens de consumo”, afirmou.

Ela explica que a companhia passou a complementar a gestão baseada em ativos com uma visão centrada no consumidor. “Eu não vou só gerenciar ativos e pensar em escala, em produtividade, mas eu vou olhar necessidade. Eu vou olhar como esse consumidor pensa, qual é a lógica de comportamento e de necessidades desse consumidor.”

Reposicionamento além da estética

O exemplo mais visível dessa estratégia foi o reposicionamento da marca Neve, com mais de 53 anos de mercado. Para Patrícia Macedo, não se trata apenas de mudar embalagem ou campanha. “É uma mudança de olhar para esse consumidor”, disse.

A empresa mapeou novos hábitos e rituais ligados ao banheiro e ao autocuidado. “Tem mais de oito comportamentos que a gente mapeou dentro do banheiro e a partir disso a gente se reposiciona.” O produto passou a dialogar não apenas com atributos funcionais, mas também com significados simbólicos. “A gente começa a falar também não de forma só funcional, mas de forma simbólica também, sobre as camadas do que acontecem na vida do consumidor.”

O desenvolvimento envolveu pesquisas, testes e ajustes técnicos. “Quando a gente testa papel higiênico dentro das nossas fábricas, além dos equipamentos, a gente testa na mão, que é o que a gente chama de handfeel, que é o toque da mão.” A executiva ressalta que a entrega precisa acompanhar o discurso. “Não adianta eu falar, escutar e não entregar.”

Tecnologia e sensibilidade

A estratégia inclui o uso de tecnologia e inteligência artificial, tanto na produção quanto na comunicação. “A inteligência artificial entra também não só nas ferramentas que a gente tem no dia a dia, mas também na produção dos nossos conteúdos”, afirmou.

Ela, no entanto, faz uma ressalva. “Eu não posso perder sensibilidade, porque a sensibilidade humana, a intuição, o discernimento têm que estar a favor do ser humano.” Para Patrícia Macedo, tecnologia e empatia precisam caminhar juntas.

Não esperar o sinal vermelho

Perguntada sobre o momento certo de reposicionar uma marca, a executiva defende acompanhamento contínuo do consumidor. “Para mim não tem que esperar um sinal, você tem que acompanhar o consumidor.” E complementa: “Você não precisa esperar perder share.”

Ela reforça que marcas consolidadas devem preservar seus pilares, mas atualizar conexões. “Uma marca não vai ficar flat para o resto do tempo.” O cuidado é não abandonar a identidade construída ao longo dos anos. “Eu posso preservar os ícones, posso preservar os valores dessa marca, mas as conexões dessa marca vão ser atualizadas de acordo com o movimento do consumidor.”

Carreira e comportamento

Ao falar sobre liderança em marketing, Patrícia Macedo destacou duas características que considera essenciais. “Ele precisa ser uma pessoa de negócio e não dá para ser só uma pessoa de comunicação.” E acrescentou: “Que escute, que veja e que se use os nossos sentidos humanos a favor da estratégia.”

No conselho final aos profissionais, resumiu a postura que defende: “Esteja aberto 100% do tempo a enxergar o que está acontecendo.” Para ela, acompanhar comportamento é tarefa permanente. “Se eu não ficar conectado com a missão interna de observar os comportamentos, as motivações 100% do tempo e ser incansável, eu não consigo seguir.”

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.