Parecido não é igual

 


Por Abigail Costa

Queria ter a capacidade de colocar os gastos no papel.
Queria. Todos eles.
Fazer exatamente o que recomendam os economistas.

A primeira pergunta a ser feita é:
Precisa ou deseja?

Em seguida, se tiver dinheiro antes da compra, pesquise.
Se nao tiver dinheiro, espere o pagamento entrar, poupe e, depois, muito depois, compre.

Das vezes que fiz isso, (nem me lembro quando ou quantas) …
Só lembro que foi uma decepção total.

Marcou-me a cara de desapontamento do vendedor:
– Senhora, nao tem mais. Esse produto acabou, na semana passada.
Ai que ódio…

A minha cara deve ter sido pior.
– Como não? Eu trouxe o dinheiro pra pagar à vista!

Bem feito.

Claro que não foi isso que me impede de trabalhar em cima de uma planilha.
A equação é simples.
Sou imediatista.
Vi, desejei, pronto – levo pra casa.
Nesse “desejei” entenda-se impulso em muitos momentos.

Não devo ser única, caso contrário seria objeto de estudo.

Tenho a impressão que quando entro nas lojas, os sapatos sorriem pra mim.
Com a mesma carinha dos cachorros abandonados a espera da adoção.

Pego o sapato preto.
Se tivesse o poder da fala o vermelho diria:
– Mas eu vou ficar sem o meu irmão, me leva também!

Definitivamente, não sei decidir entre as cores e as marcas.
Enquanto escolho, experimento, vem aquela sensação gostosa de prazer.

Dá prá parcelar?
A pergunta é quase que automática pra levar os “irmãos coloridos” para o meu closet.

Passado o cartão, digitada a senha, uma outra sensação nem tão gostosa assim passa a tomar conta da cabeça.

Jesus ! Nem precisava, já tinha uns três parecidos.
Uma voz interior, coisa de amiga, me conforta.
– Mulher, parecido não é igual. Fica em paz e ponto.

Dois minutos depois já estou conformada.
E assim, de loja em loja, de semana em semana, de parcela em parcela.
É claro que desse jeito não tem ser humano com orçamento fechado.

Certa vez alguém disse:
– Só se gasta o que se tem.
A frase me pegou igual conselho de avó.

Tinha que acreditar, não é?

Abigail Costa é jornalista e escreve às quintas-feiras no Blog do Mílton Jung, enquanto aprecia os cartões de crédito na bolsa nova.

Condenados ao consumo, Deus que nos perdoe !

 

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Por Rosana Jatobá

-Oi, você vem sempre aqui?

-A cada 3 meses. E você?

– Sempre!

-Mas como ? Nunca te vi…

– É que chego e saio logo. Sempre tem alguém interessado em me levar pra casa.

-Pois é. Eu tive a mesma idéia. Você é incrível! Não consigo ficar só olhando. Dá vontade de pegar, apertar, descobrir seus segredos, tudo isso que você tem pra oferecer!

-Então me leva daqui, vai! Te faço um desconto!

– O problema não é dinheiro. É que estou tentando controlar meus impulsos.

– Se você me deseja, é porque não está mais satisfeito com o que tem..

-Não posso me queixar. Mas voce é muita tentacão!

-Então não resista . Eu não vou te decepcionar. Sou mais atraente, aceito muitos tipos de programa, e posso te transportar para onde você nem imagina…

-Ai, meu Deus! Você venceu! Vamos. Eu me chamo Paulo . Como posso te chamar?

– Iphone 3gs 32gb . Sou da familia Apple. Meu pai se chama Steve Jobs e acabei de ganhar um irmão que é um sucesso também , o IPAD. Ele tem uma grande tela IPS de alta resolução retroiluminada por LED e com a tecnologia Multi-Touch incrivelmente ágil. Além de um chip extremamente poderoso. Tudo isso em uma estrutura bastante fina e leve para que você possa levar para onde quiser. O iPad é o melhor dispositivo da sua categoria!!

Paulo se rendeu à paixão e engrossou as estatísticas dos 45 milhões de brasileiros que cedem aos apelos das facilidades tecnológicas e trocam de celular todo ano. Levou o Smartphone e aposentou seu Motorola .

Mas a solidão do aparelho no fundo da gaveta só durou 3 meses. O Iphone 3gs 32gb , motivo da traição, também fora trocado pelo irmão caçula. Quem manda fazer propaganda?

Aos dois, agora inúteis e abandonados, só restavam os lixões ou aterros sanitários. Mal chegaram àquele lugar feio, fétido e famigerado e já ouviram:

-Saiam daqui! Está lotado. Não venham deixar seus rastros de contaminação no meu solo, poluindo os lençois freáticos. Já temos mais de 180 milhões de baterias de celular nos aterros do país, a maioria feitas de metais pesados e tóxicos como níquel, bromo e cádmio!! Isso sem falar nos outros 100 milhões de equipamentos eletrônicos que são desovados aqui todos os anos!!!

-Ok, vamos embora. Este lugar cheira à morte!

Desiludidos, voltaram para o fundo escuro da gaveta.

Na manhã seguinte, um restinho de bateria lhes garantiu a ousadia:

-Vamos atrás dos nossos direitos! Vamos ao Tribunal de Justiça Sustentável, dar entrada numa ação de indenização por danos materiais, morais e ambientais!

Dito e feito.

O consumidor Paulo foi citado e juntou aos autos a contestação. A defesa se baseava na liberdade de comprar . Direito adquirido com a Revoluçao Industrial , do século 18.

A audiência de instrução foi marcada e começou o embate jurídico, introduzido pelo Juiz :

– Consumidor Paulo, o senhor é acusado de comprar estes dois aparelhos eletrônicos aqui presentes , num prazo de apenas 3 meses, para obter praticamente as mesmas funções tecnológicas. Conduta pela qual deve responder civil e penalmente, nos termos do artigo 2, do Código da Sustentabilidade: “O ser humano poderá consumir apenas para satisfazer necessidades básicas”.

-Mas a lei me garante o acesso irrestrito aos bens materiais. Vivo na chamada “sociedade de consumo”, alimentada pela produção, baseada no descartável, no supérfluo. Comprar é uma obrigação, e consumir, uma necessidade. Tenho que acompanhar as mudanças de modelo ou o lançamento de um novo, porque minhas compras garantem crescimento do PIB, emprego e renda para bilhões de habitantes. Este é o modelo econômico.

-Este modelo está falido. Ele é predador e representa o esgotamento dos recursos naturais. Estamos em dívida com o planeta, precisamos preservá-lo e buscar uma relação de consumo equilibrada. Temos que impor limites ao progresso econômico e entender que os recursos naturais são de extrema importância para a preservação humana e de todos os seres da natureza.

-“Data venia”, Meretíssimo, não fui eu que dei causa a essa degradação ambiental. Agora que tenho dinheiro na vida, não posso ser privado de comprar. A gente trabalha pra quê?

-Para cultivar os prazeres do espírito! Todos terão que cooperar e aderir ao Consumo Consciente. As futuras gerações estão ameaçadas! É importante buscar um novo paradigma, baseado na racionalidade das relações de consumo, para que o homem e a natureza andem lado a lado.

-Mas eu não saberei mudar depois de 40 anos inserido neste sistema!

-Sugiro que leia o livro “Gaia: Alerta final” do cientista James Lovelock. O senhor irá despertar para uma nova consciência, afastando-se desta visão antropocêntrica que valoriza o ter, em detrimento do ser. Vai adquirir novos valores voltados para a realidade e entender que o ser humano não é o único dono do planeta e, sim, parte da natureza e extremamente dependente das relações ecossistêmicas. Profiro a seguinte sentença:

“Para fins de ressarcimento por danos morais, condeno-o a encaminhar os dois reclamantes aqui presentes ao posto de recicalgem mais próximo desta Comarca, a fim de que ganhem vida nova.

-Mas Excelência, esta tarefa é do fabricante!

– A Política Nacional de Resíduos Sólidos impõe obrigações aos empresários, aos governos e aos cidadãos no gerenciamento dos resíduos. É a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos.

E continuou:

“A pena será convertida em serviço ambiental: plantar 100 árvores para compensar as emissões de CO2 pelo consumo extravagante.” Sem mais, a audiência está encerrada!

Paulo abriu mão do recurso e cumpriu a decisão judicial. Mas naquela mesma semana fora acometido por novos desejos implacáveis de consumo.

Atormentado pela culpa, foi à missa no domingo e confessou seu pecado:

-Seu padre, fui condenado pela Justiça Sustentável , já cumpri a pena, mas não consigo refrear meus impulsos consumistas. Já estou de olho num Smartphone que a Motorola vai lançar com a plataforma Android , do Google. Penso também no Storm, da Blackberry.

-Cuidado, meu filho. A Terra pode se vingar dos maltratos e nos condenar ao tão temido fogo do inferno aqui mesmo neste Planeta. O aquecimento global já é visível..

– Eu sei, eu sei, seu padre, vou tentar me conter. Prometo! Sua benção e piedade…

– O Senhor já o perdoou, meu filho. Vá em paz. E fuja das vitrines como o diabo foge da cruz: elas têm o mesmo poder de sedução de uma mulher! Se for inevitável passar em frente a uma loja, lembre-se das Escrituras sagradas: “Orai e vigiai, para que não entreis em tentação”!

Rosana Jatobá é jornalista da TV Globo, advogada e mestranda em gestão e tecnologias ambientais da USP. Toda sexta, conversa com os leitores do Blog do Mílton Jung.

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Devassa na cerveja e nos bons costumes

 

Por Carlos Magno Gibrail

“Não precisa explicar. Eu só queria entender”

Planeta dos Homens e o macaco Sócrates

A Schincariol após cumprir a notificação de sustação liminar pelo CONAR Conselho de Auto-regulamentação Publicitária, que proibiu a exibição do comercial com Paris Hilton, só podia mesmo é se refugiar no humor.
Em 1977, a TV Globo relançava o programa “Planeta dos Homens”, que tinha sido apresentado um ano antes em substituição ao americano “Planeta dos Macacos”. De abordagem nos costumes, passou a cunho político, aproveitando os sinais de censura mais branda que parecia substituir à draconiana.

Inventaram o “Grêmio Recreativo Escola de Samba Aprendizes da Democracia”, que ensaiava exaustivamente, mas ainda não conseguira se apresentar.

Criação de Max Nunes e Haroldo Barbosa, o macaco inteligente, Sócrates, não assimilava as contradições dos humanos e perguntava: “Não precisa explicar. Eu só quero entender”.

É a questão que surge à decisão do CONAR ao acatar as solicitações através de vários processos que recebeu para tirar a campanha Schincariol do ar.

O primeiro, do próprio CONAR, pois não considera ético realizar ações como as veiculadas no site do produto, que estimulem o consumo exagerado de bebidas alcoólicas.

Consumidores, alegando que a abordagem desrespeitosa e apelativa caracterizava a campanha de propaganda da Devassa, denunciaram-na ao CONAR.

Um terceiro processo foi aberto, pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. O órgão, que tem status de ministério no governo federal, alegou que o site da Devassa tem conteúdo sexista e desrespeitoso à mulher.

Em 2010, ainda vale a indagação do Sócrates de Max Nunes, pois embora não haja mais ditadura militar, aparece uma censura contraditória, pois existem propagandas aos montes muito mais “sexistas”, “desrespeitosas à mulher”, “apelativas”, etc.

As campanhas recentes das marcas Arezzo, Calvin Klein, Ellus, com apelos sexuais, expostas em sites, revistas, e nas ruas em painéis, não foram censuradas.

Calvin klein, anuncio

Não quero entender. Eu preciso de alguma explicação…

Fala-se que o pessoal da Propaganda está com medo de perder o segmento das bebidas, depois das baixas do fumo, e das ameaças nos segmentos dos remédios, das crianças, das campanhas políticas, etc. Também se escuta que é obra da própria Schincariol, pois suas vendas devem crescer com mais um caso de proibição. O comercial no “You Tube” está em aproximadamente 700 mil acessos. Ao mesmo tempo se desconfia da AmBev, que até agora não se manifestou.

Fofocas de bebedores de cerveja.

A Schincariol, como que para reafirmar a atualização dos personagens do Jô, ainda traz a figura do estrangeiro que é enganado pelo brasileiro, quando pergunta o significado das palavras. E, sutilmente troca “dirty girl” por “sexy girl” na explicação dada à Paris Hilton, segundo a repórter da coluna de Monica Bergamo. Como se devassa e sexy tivessem o mesmo sentido.

Ao macaco Sócrates talvez o melhor mesmo seja procurar na “Risadaria”, show de humor político e de costumes (de 19 a 21-Bienal do Ibirapuera SP) patrocinado pela Devassa, a explicação para tanto desentendimento. E, atenção para a advertência das leis da Economia, que recomenda cuidado com os cartéis.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda, escreve no Blog do Mílton Jung e gosta de beber cerveja com liberdade.

Grátis para todos, luxo para poucos

Por Carlos Magno Gibrail

Comabte à piratariaÉ o futuro. Pelo menos é o que Chris Anderson – editor da revista “Wired”, ganhador do prêmio “General Excellence” em 2005, quando foi “Editor do Ano” pela revista “Advertising Age”, e autor de “A cauda longa” e “Free o futuro dos preços” – prevê.

E não é tarefa difícil, pois basta um pouco mais de atenção ao nosso redor para identificarmos que empresas gigantes como Google, You Tube e Financial Times oferecem produtos grátis e mesmo assim são bilionárias. Talvez até por isso mesmo.

A degustação de produtos é o princípio básico, que evoluiu para amostras grátis de parte de produtos e serviços, em quantidade ou qualidade incompleta, ficando a seqüência para ser financiada por quem comprá-los.

Antes disso, no início do século passado a gelatina Jell-O de Frank Woodward e a lâmina de barbear de King Gillette, apenas se implantaram depois da distribuição gratuita e maciça de livro de receitas, e de acoplar ao aparelho de barbear brindes a um preço muito baixo.

Mas, isto é passado, neste início de século XXI o grátis está centrado na redução de custos e na vantagem da divulgação em massa de marca e produto. Um transistor custava, em 1961, US$ 10, hoje US$ 0,000015. Se esta proporção tivesse atingido Gillette, provavelmente ele teria que vender espuma de barba acompanhada do aparelho e da gilete grátis.

Custos baixos geram abundância, que por sua vez acarretam escassez. É uma das leis da Economia. Herbert Simon em 1971, no início da Era da Informação observou que informação em grande quantidade implicaria na carência da atenção. Quanto aos produtos, para uma grande quantidade teremos uma comoditização generalizada, acarretando preços baixos ou aquém da linha de seus custos. A água de marca, o café Premium em contraponto ao grátis servido nas empresas, são bons exemplos citados por Anderson.

www.flickr.comphotosmathieustruckE, aqui há espaço propício para lembrar Abraham Maslow que em 1943 apresentou a genial pirâmide das necessidades humanas. Preenchidas as básicas surgem novas e cada vez mais sofisticadas e intangíveis. O que corrobora o raciocínio de que a abundância e facilidade de consumo criam a perspectiva do surgimento de produtos e serviços “Top”.

Chris Anderson na “Wired” usa o que chama de modelo “freemium”. Foi o que explicou ao jornalista Sérgio Dávila, de Washington para a Folha em agosto de 2009: “O que está na www.wired.com é de graça, faturamos um pouco com a publicidade on-line, e isso levanta assinaturas para a revista, que é o nosso “Premium”. A revista é mais que palavras, é um pacote visual, com fotos, arte e um conceito de edição. De graça você não tem o pacote”. Enquanto que o seu “Free o futuro dos preços” ficou inicialmente na internet disponível para leitura e cópia, agora está no “audiobook”. Quem quiser ouve o livro todo, ou entra no site www.elsevier.com.br e lê o prólogo e o primeiro capítulo.

Sobre a pirataria, um grande mal para a economia, Chris alerta que são os piratas os primeiros a usar a distribuição gratuita. No caso brasileiro demonstrou conhecimento ao afirmar que nem toda a pirataria é real, citando o “tecnobrega”, onde os autores autorizam os camelôs para reprodução e venda de CDs sem pagamento.

No vestuário a pirataria complica mais, principalmente quando a qualidade não é grosseira. Dipa di Pietro, ex-diretor de produto da Nike e atual Diretor de Branding do GEP (Cori, Luigi Bertolli, M) nos informou que credita a visível atuação de camelôs e ruas especializadas à legislação brasileira. Branda na concepção e falha na execução. Uma pena, pois de sua experiência internacional de Nike sabe que um bom policiamento em faccionistas e pontos clássicos de distribuição levam a uma vitória sobre os piratas.

Niger RomaRestaria apenas o flanco dos consumidores, que podem até levar produtos similares, mas o luxo não irá junto. Talvez com o “Premium”, se tiver agregado ao que Manoel Alves Lima, CEO da FAL Falzone & Alves Lima, chamou de mimos e gentilezas, ao interpretar os especialistas da 99ª NRF National Retail Federation, realizada em New York no mês de janeiro e exposto em seminário na terça passada em São Paulo.

O novo paradigma do Luxo foi o tema que Alves Lima presenciou com Stephen Sadove, CEO da Saks. Este ponderou que seus consumidores buscam a exclusividade no produto e no ponto de venda, onde apenas estão disponíveis produtos que guardam valor e transferem prestígio sob marcas ícones em suas especialidades.

Para Lima, que traduz o clássico “Retail is detail” como “UMPC”, Um Muito de Pequenas Coisas, chega a este novo Luxo. É uma loja de roupas baratas disponibilizando um estilista famoso gratuitamente para ajudar as compras individuais. É um banheiro de Supermercado impecavelmente limpo com flores frescas. É uma loja de aparelhos que se dispõe entregar e instalar a compra recente, imediatamente na residência do comprador.

Hoje, temos exemplos em quantidade de produtos e serviços grátis, começando pelo rádio, datado de 1920, passando pela TV, pela internet, pelos e-mails, pelos cartões de crédito, pelas passagens aéreas. E essa relação não terá fim. O luxo virá também, mas não de todos nem para todos. Como fornecedor ou consumidor é bom ficarmos atentos. Vale a pena. Poderá ser um luxo!

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas-feiras no Blog do Mílton Jung oferecendo-nos seu conhecimento e experiência de graça. Não é um luxo !

Quarenta dias sem carne, vai encarar !?

 

Por Rosana Jatobá

O jejum já durava nove meses, tempo em que praticou ioga e se aventurou pela filosofia budista. Mas numa tarde fria do inverno novaiorquino, foi possuído por um impulso atávico, e correu para o Plataforma Grill, pondo fim à sua abstinência. A faca deslizou sem esforço cortando o bife de picanha. Dourada, macia e suculenta, a carne exalava o aroma característico e abrigava o tempero discreto que realça o sabor incomparável. Pediu o segundo pedaço e o terceiro. Voltou pra casa a passos lentos, saciado e feliz.

O meu amigo Hélio me contou esta experiência, indignado com o poder da memória da carne.
– Pra mim, que sou gaúcho, é mais que uma questão cultural. Tá no DNA. Não pude resistir por mais tempo…..

Pra mim, que sou baiana, talvez seja mais fácil.

Resisto à carne vermelha há um ano e cinco meses porque a considero indigesta. Mantive-me firme diante da tentação quando percebi que havia me livrado das cólicas menstruais.

Não sou de apregoar os malefícios da ingestão de carne, como aumento da incidência de câncer ou de doenças cardiovasculares. Tampouco condeno os carnívoros. Mas enfrento bravamente a enxurrada de críticas pelo meu jejum.

-“Você vai ficar fraca e doente.” , diz minha mãe. “A carne é a principal fonte de proteínas, além de ser rica em ferro, minerais e vitaminas. A abstinência pode causar anemia, deficiência de vitaminas do complexo B e de zinco”.

– Por enquanto, os exames anuais mostram que minha saúde é de ferro. Ferro do brócolis, beterraba, couve-flor, agrião, feijão, grão-de-bico, ervilha, lentilha, nozes e castanhas…

Recentemente revi dados sobre o desastre ecológico provocado pela criação de gado no Brasil, o que reforçou a minha convicção .

Nos orgulhamos de ter o maior rebanho do mundo, de sermos os maiores exportadores de carne vermelha, mas fazemos um comércio burro e predador. Hoje temos na Amazônia duas cabeças de gado pra cada morador da região, às custas da destruição do nosso mais precioso bem. Qual será o valor da biodiversidade perdida pelo desmatamento? E o do aumento das emissões de CO2 para transformar floresta em pasto? Quem paga o preço da emissão de metano – gás vinte vezes mais poderoso que o dióxido de carbono – oriundo dos arrotos e flatulências do boi? Se somarmos à conta o desperdício de água contaminada pela pecuária, lá se vão 16 mil litros pra cada quilo de carne produzida.

-Num mundo com um bilhão de famintos, você vem questionar se o pum do boi agride a atmosfera?

– Mas é justamente a criação de gado em grande escala que ameaça a segurança alimentar!

A questão da crueldade com os animais selou de vez a minha privação.

Para que a carne de vitela chegue à mesa com a maciez característica, o bezerro, ainda não desmamado, vai para um lugar escuro e é acorrentado, a fim de que não se mexa e não desenvolva músculos. É alimentado apenas com leite para que fique anêmico e a carne adquira uma cor branca. Não consegue nem andar até o corredor do abate, onde é alvo de uma pistola pneumática que o paralisa antes de ser sangrado, ainda vivo. Este é a cadeia produtiva do baby- beef!!

Mas a compaixão do homem só beneficia alguns poucos escolhidos: os bichos que adentram as fronteiras da casa e se tornam dignos de estimação.

Do contrário, prevalece o exclusivo traço do ser humano de subjugar o animal, tornando-o coisa, reduzida a seu bel prazer para atender a uma futilidade do paladar .

No início do ano visitei um dos “pueblos” do Atacama, o deserto mais seco do mundo. Ao ouvir a sugestão do guia de turismo – aqui vende-se carne de lhama, tenra e saborosa!- , meu marido não hesitou. Correu ao encontro do churrasqueiro ali mesmo na pracinha e pediu o famoso espetinho de lhama com cebola.

Eu reagi:
– Amor, você não pode comer a lhama. Ontem mesmo tiramos várias fotos desse bichinho simpático e você inclusive comentou o quanto ele parecia afetuoso. Não tem pena?

O meu apelo foi em vão.
– Pena? Aqui todo mundo come lhama.

E depois de uma mordida, prosseguiu:
– Hum.. você não imagina que delícia essa carne!

De volta ao Brasil comentei o fato com a minha irmã, que também tinha uma história gastronômica exótica pra contar.
– No periodo em que morei na Austrália, me ofereceram um jantar com carne de canguru. Comi, pensando na viagem que tinha feito no dia anterior para vê-lo de pertinho. O tempo passou, mas até hoje não digeri bem a idéia do canguru na panela.

Voltar no tempo pode ser milagroso quando temos o importante desafio de escolher o alimento.

Na idade média, o povo raramente comia carne vermelha. A iguaria era consumida só em banquetes, nas côrtes e nas residências dos nobres. Eram as orgias chamadas “carnevale”, símbolo da gula, associada ao pecado. É daí que vem o nosso carnaval.

Se é tempo de quaresma , de reflexões e renovações, que tal um jejum de carne vermelha como gesto de conversão? Vamos pedir perdão à natureza, ao corpo e à alma. Vamos converter sangue em sumo. O meu amigo Hélio resistiu à tentação por 240 dias. Você é capaz de pelo menos se abster até a Páscoa?


Rosana Jatobá é jornalista da TV Globo, advogada e mestranda em gestão e tecnologias ambientais da USP. Toda sexta, conversa com os leitores do Blog do Mílton Jung sobre sustentabilidade – e gastronomia, também.

Debate sobre o uso da sacolinha plástica

 

Proibir o uso das sacolas plásticas não é solução, é preciso mudar a forma de consumo. Este é o resumo da conversa que tivemos com a consultora ambiental Patrícia Blauth, da Menos Lixo, e Francisco de Assis Esmeraldo, presidente da Plastivida – Instituto Sócio-Ambiental dos Plásticos. Ambos concordaram com o veto do prefeito Gilberto Kassab (DEM) ao projeto de lei aprovado na Câmara Municipal de São Paulo que obrigaria empresas a substituir os sacos plásticos por embalagens reutilizáveis ou confeccionadas com materiais de fontes renováveis ou recicláveis.

Francisco de Assis Esmeraldo que representa o instituto criado para defender os interesses dos fabricantes de plástico disse que a prefeitura deveria investir em campanhas para promover a mudança de hábito do cidadão. Enquanto isso, Patrícia Blauth defende a ideia de que o comércio torne explícito o custo destes sacos plásticos cobrando do consumidor ou oferecendo desconto a quem abrir mão do seu uso.


Acompanhe aqui o debate sobre as sacolas plásticas que foi ao ar no CBN SP

Propus o debate pelo Twitter com base na notícia publicada no jornal Valor Econômico e reproduzida no Blog com o título “Kassab atende indústria e veta proibição de saco plástico”. Alguns dos comentários que chegaram:

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“Filhos são mais leais que seu chefe’”, alerta Kanitz

 

Um pouquinho de egoísmo não faz mal a ninguém e pensar na sua própria família antes de dar prioridade à sua empresa, à sociedade e aos outros é recomendável. Quem diz isto é um mestre em administração por Harvard, Stephen Kanitz, que tem dedicado seu tempo à família – a dele e a dos outros, pois além de ser autor do blog famílias.melhores.com.br, acaba de lançar o livro “Família acima de tudo”(Thomas Nelson Brasil).

Na entrevista que você ouve aqui no blog, Kanitz faz um alerta aos puxa-sacos e workaholics: os filhos são mais leais do que seu chefe no trabalho e serão eles que lembrarão de você na aposentadoria. Critica as empresas que não respeitam o tempo de seus profissionais e os impedem de se dedicar a mulher, ao marido ou aos filhos. E defende uma mudança de hábitos radical: “o prazer de ter um filho não pode ser menor do que o de ter um carro novo”.

Ouça a entrevista de Stephen Kanitz e reflita sobre seu comportamento profissional e familiar

O poder transformador do cidadão

 

Foto de Ullysses Martins Moreira Neto - 1o Concuso de Fotos de Árvores SP

Há muito tempo se defende no CBN São Paulo a ideia de que está nos centros urbanos a solução para frear o aquecimento global. Mudanças de hábitos que começam com escolhas simples como a embalagem do produto que você vai comprar ou o modelo de transporte que pretende usar para chegar ao trabalho. Não há como deixar o carro na garagem, pois é baixa a qualidade do transporte público ? Então acelere menos, mantenha o motor bem regulado, queime combustível mais limpo ou troque aquele “beberrão” por algo mais econômico.

Assim como está nas mãos do cidadão o poder de comprar de um fabricante mais verde, também está o de escolher um político comprometido com o combate as mudanças climáticas. Ou de pressionar seu representante a votar em projetos de lei que beneficiem o meio ambiente.

Este poder transformador do cidadão esteve ausente em boa parte das discussões na Conferência do Clima em Copenhague, na Dinamarca, de acordo com a avaliação do diretor-presidente do Instituto Akatu, Helio Mattar que conversou com o CBN São Paulo. A instituição que incentiva o consumo consciente está convencida de que não haverá sustentabilidade sem uma mudança no estilo de vida das sociedades.

Ouça a entrevista de Helio Mattar do Instituto Akatu, ao CBN SP, e mude seus hábitos

Eco-poema: 3 em 1

 

Inspirada na iniciativa da comentarista do Blog, Maria Lucia Solla, a ouvinte-internauta Suely Schraner, das mais ativas escritoras do Conte Sua História de São Paulo, soltou o verbo e enviou três eco-poemas que reproduzo em série, neste post:

Um consumo responsável salvaria nossa vida

Pra se ter muito mais pão
E viver melhor também
Recicle tudo que tem
Pode dar um trabalhão
Faça o seu coração
Dar o ponto de partida
Pra se ter bem mais guarida
Melhorando o ambiente
Um consumo responsável
Salvaria nossa vida

Gastar e fazer direito
Reciclar melhor também
Ao planeta querer bem
Por um mundo mais perfeito
Vivendo bem desse jeito
Nessa terra tão querida
Melhor ponto de partida
De tratar o ambiente
Um consumo responsável
Salvaria nossa vida

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O que você faria com mais R$ 100 por mês ?

Cédula de 100 reais

A pergunta foi feita para 31 famílias de classe C que vivem em diferentes cidades brasileiras, em pesquisa encomendada pela agência de publicidade Nova S/B ao Ibope Inteligência. Sobre o resultado deste trabalho falaremos mais adiante. Agora quero apenas saber a sua opinião.

Afinal, o que você faria ?

Ouça a entrevista com o resultado da pesquisa com João Roberto Vieira da Costa, da Nova S/B (publicada às 10h35, de 13.04)